Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Simone Veil

por Helena Sacadura Cabral, em 30.06.17

06-simone-veil.jpg

Tinha 89 anos e uma vida que poderia ter ficado pelos fogos crematórios de Auschwitz. Chamava-se Simone Veil e se a França está de luto em sua memória, muitos serão aqueles, fora do país, que, como eu, lamentam profundamente o seu desaparecimento. Devo a esta Mulher uma abertura de espírito que talvez não tivesse sem a sorte imensa de me ter cruzado com ela. 
A Europa também devia estar de luto. Mas, como a memória é cada vez mais curta, acredito que poucos a recordem hoje, pese embora tenham múltiplas razões para saberem de quem se trata. Podia, até, ter sido Presidente do seu país. Mas a sua obstinada independência sempre lhe limitou esse caminho e foi pelo seu pé que decidiu afastar-se, há alguns anos, da vida política e até da vida pública. 
Sobrevivente do Holocausto, foi a primeira mulher presidente do Parlamento Europeu e antiga ministra da Saúde francesa, é a ela que se deve a despenalização do aborto em 1975. Agora dá-se pouco valor a esse facto, porque, para o bem e para o mal, está tudo à nossa disposição...
Quem, como eu, teve a oportunidade de falar com ela, só pode recordá-la como uma das mais interessantes e extraordinárias mulheres do seu tempo. E estar-lhe profundamente grata pelo que ela conseguiu para todas nós.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os patriarcas (6)

por Pedro Correia, em 01.03.17

ng1842269[1].jpg

 Rui de Carvalho como protagonista da peça O Santo e a Porca (1971)

 

Lembro-me quando o vi pela primeira vez: num folhetim televisivo, antepassado das telenovelas, exibido pela RTP no final da década de 60. Chamava-se Gente Nova, ele era o pai. O filho era o António Feio, que todo o País conhecia então por Luisinho, o nome da personagem.

Fixei-lhe o nome: Rui de Carvalho. Um senhor de voz pausada e dicção perfeita. Dois ou três anos depois, era eu ainda miúdo, vi-o ao vivo no já desaparecido Teatro Laura Alves, na baixa lisboeta. Interpretava uma peça teatral intitulada O Santo e a Porca, do dramaturgo brasileiro Ariano Suassuna.

Nunca esqueci a intensidade e a autenticidade daquele desempenho, marcas de um grande actor nos mais diversos registos – do drama à comédia, dos textos clássicos aos contemporâneos. Interpretando Molière, Shakespeare, Tennessee Williams, Bernard Shaw, Anton Tchekov, D. Francisco Manuel de Melo, Eça de Queirós, Thomas Bernhard, Friedrich Durrenmat, Natália Correa e José Cardoso Pires - alguns entre muitos nomes ilustres da literatura de todos os tempos.

 

Acompanhei, como tantos de nós, o seu papel de protagonista, incarnando o empresário agrícola Gonçalo Marques Vila na Vila Faia – primeira telenovela da RTP, que em 1982 rompeu com merecido sucesso o monopólio brasileiro no género. Ele já tinha sido pioneiro como intérprete do Monólogo do Vaqueiro, de Gil Vicente – primeira peça teatral transmitida pela televisão, a 11 de Março de 1957. Fui seguindo o seu percurso televisivo até ao recente Bem-Vindos a Beirais, também no canal público, em que compunha a figura de Viriato Montenegro, o aristocrata da aldeia.

Admirei-o em aparições no cinema, com destaque para a sua magnífica interpretação como médico do Instituto de Oncologia no filme Domingo à Tarde, realizado em 1966 por António de Macedo. Voltei a vê-lo no palco em 1998, desta vez no estúdio do Teatro Nacional, dando corpo a um inesquecível Rei Lear, marco cimeiro da arte da representação.

Conheci-o pessoalmente no final da década de 80, quando convivemos em amáveis cavaqueiras ao serão enquanto hóspedes da Pousada de Mong-Há, em Macau, numa temporada que ali passou. Acompanhado de D. Ruth, a mulher por quem se apaixonou quando ambos frequentavam o Conservatório de Lisboa, na década de 40, e com quem permaneceu casado até à morte dela, há dez anos. Formavam um daqueles raros casais em que a harmonia e a cumplicidade se detectam nos mais singelos gestos do quotidiano.

 

Parece estar connosco desde tempos imemoriais. Não admira: estreou-se no teatro profissional ainda adolescente, corria o ano de 1942, quando António Silva, Maria Matos, Beatriz Costa e Vasco Santana pontificavam nos palcos. Ele trabalhou com todos esses gigantes do teatro português. E foi mestre de três gerações de actores. Sempre sem pose de vedeta, com aquela humildade que caracteriza os verdadeiros artistas.

“Não sou um talento. Admito que tenho jeito e alguma experiência e isso dá a tal coisa parecida com talento. Mas talento genial tem a Eunice Muñoz. Eu tenho jeito. Isto é tudo efémero”, dizia numa entrevista concedida em 2010 ao Correio da Manhã.

Rui Alberto Rebelo Pires de Carvalho, que usa Ruy de Carvalho como nome artístico, é um dos escassos compatriotas que gozam do estatuto de unanimidade nacional. Merece-o. Fez por isso com muito trabalho, imensa perseverança e fervorosa dedicação ao ofício que escolheu. Sem nunca fazer batota, como todos lhe reconhecemos. Na vida do palco e no palco da vida.

 

Rui de Carvalho, nascido a 1 de Março de 1927, festeja hoje 90 anos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O pesado manto da desmemória

por Pedro Correia, em 17.01.17

maria-cabral-gi_770x433_acf_cropped[1].jpg

 

“Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão

a esta dor portuguesa

tão mansa quase vegetal.”

Alexandre O’ Neill

 

Estranho país, este. Matamos os nossos heróis, os nossos ídolos, os nossos astros. Matamo-los pela inveja, pelo ressentimento, pelo cinismo, pelo ódio atávico a quem tem sucesso. Matamo-los, no fim de tudo, pelo esquecimento. É a pior forma de morte cívica – e também aquela que é praticada com maior desenvoltura nos nossos dias. Ignorar o que merece ser enaltecido e valorizado é um crime de lesa-humanidade e lesa-cultura.

Nenhum esquecimento me assombra mais do que o das nossas divas do teatro e do cinema. Mulheres que deslumbraram incontáveis espectadores nas plateias e se apagam na penumbra do ocaso, como se nunca tivessem entusiasmado multidões de adeptos na flor da idade. Mulheres como Milu, Leonor Maia, Laura Alves, Isabel de Castro, Maria Dulce, Maria Eugénia, Madalena Sotto. Sobre elas caiu o pesado manto da desmemória: é a forma habitual que temos neste país de sepultar os nossos melhores quase sempre ainda em vida.

 

Surge agora a notícia da morte de Maria Cabral, que numa França ou numa Itália teria sido venerada sem hesitação por ininterruptas legiões de cinéfilos. Por cá suscitou aplausos inflamados em dois filmes que a impuseram como inconfundível rosto de uma geração – a que ansiava pela liberdade num país ainda a preto e branco.

Dois filmes que se tornaram invisíveis: O Cerco (António da Cunha Telles, 1970) e O Recado (José Fonseca e Costa, 1972). Dois filmes banidos do nosso mercado, olvidados das cinematecas, omitidos pela própria RTP no seu canal memória. Como se contivessem um estigma, como se nos relatassem fragmentos proibidos de uma sociedade que ninguém quer relembrar.

 

Maria Cabral morreu esquecida da pátria que tantos dos seus talentos tem condenado ao desterro, no desfecho de um longo exílio voluntário em Paris. À semelhança de tantas figuras da nossa literatura, da nossa música, do nosso espectáculo, da nossa televisão.

Apagou-se longe como se nunca cá tivesse estado. Como se aquele rosto iluminado por uma prodigiosa fotogenia nunca nos tivesse visitado. Como se aqueles olhos e aqueles lábios e aquela pele jamais tivessem suscitado paixões arrebatadoras a quem os vislumbrou na tela - corpórea beleza, eterna e fugaz como todas as pulsões da vida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Figura internacional de 2016

por Pedro Correia, em 05.01.17

                  

483208412-real-estate-tycoon-donald-trump-flashes-

 

DONALD TRUMP 

O magnata novaiorquino surpreendeu tudo e todos. Contrariou sondagens e as sofisticadas análises dos comentadores políticos - não só nos Estados Unidos mas também em Portugal, onde chegou a haver gente a escrever e publicar peças jornalísticas considerando-o antecipadamente derrotado na corrida eleitoral para a sucessão de Barack Obama como inquilino da Casa Branca.

À partida, de facto, quase ninguém dava nada por ele: anteviam-no apenas como animador da campanha com a sua atitude nada diplomática, digna de elefante em loja de porcelanas. Mas Donald Trump foi derrubando sucessivas barreiras, desde logo nas primárias republicanas, em que enfrentou grande parte do establishment do seu partido, incluindo os ex-presidentes George Bush e George W. Bush e os antigos candidatos presidenciais John McCain e Mitt Romney: todos se demarcaram dele desde o primeiro instante.

Apesar disso - ou por causa disso - acabou por emergir vitorioso nas primárias, derrotando antagonistas que comprovaram ser tigres de papel, como Jeb Bush, Marco Rubio e Ted Cruz. Com uma mensagem linear e populista, e uma utilização maciça das redes sociais, centrou o seu discurso contra a oligarquia de Washington, a imigração ilegal e o terrorismo, apelando ao proteccionismo económico e ao apaziguamento com Moscovo.

Linhas discursivas que repetiu na contenda com Hillary Clinton, sua adversária do Partido Democrata, que viria a derrotar nas urnas em Novembro. Conquistando maioria no colégio eleitoral, graças às peculiares regras vigentes nos Estados Unidos, embora tivesse menos cerca de três milhões de votos do que Hillary no voto popular.

Vai tomar posse já no próximo dia 20, entre vaticínios generalizados de uma presidência desastrosa. Paradoxalmente, este é talvez o único ponto que à partida o favorece: as expectativas iniciais para o seu mandato serem tão baixas.

Na votação do DELITO, que mobilizou 27 dos 31 autores deste blogue, o novo Presidente eleito dos EUA ganhou por maioria absoluta: teve 21 votos no escrutínio para Figura Internacional do Ano.

Os restantes seis foram distribuídos pela chanceler alemã Angela Merkel (já aqui vencedora em 2010, 2011 e 2015), com três votos, o Presidente russo Vladimir Putin, o Presidente filipino Rodrigo Duterte e o cantautor Bob Dylan, controverso galardoado com o Nobel da Literatura.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Figura nacional de 2016

por Pedro Correia, em 04.01.17

1078277[1].jpg

 

ANTÓNIO GUTERRES

Nunca um político português atingiu um posto tão relevante a nível internacional: António Guterres superou as exigentes provas a que foi submetido e foi eleito secretário-geral da ONU em Dezembro, tendo prestado juramento mesmo à beira do fim do ano.

É a consagração máxima na carreira do ex-secretário-geral do Partido Socialista, que exerceu as funções de primeiro-ministro entre 1995 e 2002, e desde então só regressou ao palco da política portuguesa por breves meses, quando Marcelo Rebelo de Sousa o convidou para conselheiro de Estado.

Ironias do destino: há dois anos era ele o nome mais falado para representar o PS na corrida presidencial. Afinal quem chegou a Belém foi o seu amigo e adversário político Marcelo, enquanto ele rumou a Nova Iorque. Para ascender a secretário-geral da ONU muito contou o seu bom desempenho anterior como alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados.

Guterres foi eleito Figura Nacional do Ano pelo DELITO DE OPINIÃO num dos nossos escrutínios mais concorridos de sempre, que contou com a participação de 27 dos 31 autores deste blogue. Como já sucedeu noutros anos, cada um de nós poderia votar em mais de uma figura ou mais de um facto.

Mesmo sendo só notícia no último trimestre de 2016, o novo dirigente máximo da ONU destacou-se como favorito nas nossas escolhas: recebeu 15 votos, relegando para um distante segundo posto Marcelo Rebelo de SousaEleito Presidente da República logo à primeira volta, a 24 de Janeiro, empossado em 9 de Março como inquilino de Belém e figura em foco durante o ano em Portugal, Marcelo só obteve sete votos.

Ainda mais distantes, ficaram duas figuras do futebol: o seleccionador nacional Fernando Santos, que entre 10 de Junho e 10 de Julho conduziu a equipa das quinas à conquista do Campeonato Europa, a maior proeza de sempre do futebol português, e o jogador Éder, que marcou o golo decisivo do nosso triunfo na final disputada em Paris frente à selecção francesa. Ambos receberam dois votos.

Cristiano Ronaldo – que também se sagrou campeão em França e recebeu a quarta Bola de Ouro da sua carreira – recebeu um voto solitário. Tal como a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins.

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Figura nacional de 2014: Carlos Alexandre

Figura nacional de 2015: António Costa

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Entre a lágrima e o sorriso

por Pedro Correia, em 26.08.16

De longe em longe somos surpreendidos pela notícia do desaparecimento de alguém que imaginámos imortal. Aconteceu-me em Abril de 2015 com Manoel de Oliveira, que partiu aos 106 anos: parecia-me inacreditável que um homem iniciado na aventura do cinema ainda na era do mudo, parceiro de tantas cenas com Vasco Santana na mítica longa-metragem A Canção de Lisboa, se mantivesse entre nós. Aconteceu-me há dias com o professor Moniz Pereira, personalidade que tanto admirei, campeão em várias modalidades e treinador de campeões - desde logo o incomparável Carlos Lopes, primeira medalha de ouro olímpica portuguesa: permaneceu connosco até aos 95 anos, despedindo-se no termo de uma vida cheia e a vários títulos exemplar.

Também na música acredito que vários dos meus ídolos são imortais. Gente maiúscula, que na maior parte dos casos já seduzia multidões muito antes de eu nascer e continua por aí: Vera Lynn (99 anos), Charles Aznavour (92 anos), Tony Bennett (90 anos), Juliette Gréco (89 anos), Harry Belafonte (89 anos), Chuck Berry (89 anos), Sonny Rollins (85 anos), João Gilberto (85 anos), Omara Portuondo (85 anos), Little Richard (83 anos), Jerry Lee Lewis (80 anos), Kris Kristofferson (80 anos) e Hermeto Pascoal (80 anos).

 

Toots Thielemans (1922-2016) 

 

Quando um nome grande da música se apaga sinto-me como quando era pré-adolescente, ao descobrir que afinal não existia Pai Natal.

Voltou a acontecer esta semana, ao saber da notícia do falecimento de Toots Thielemans: sempre o escutei, fascinado, desde que me lembro. Este belga míope e sem aura de vedeta era o homem dos desafios impossíveis em matéria musical: foi ele quem trouxe a harmónica para o jazz, casando o instrumento de que era exímio praticante com um género mais associado ao piano ou ao saxofone.

Foi um casamento longo e de inegável sucesso. Thielemans atravessou décadas no primeiro plano da arte musical, cativando sucessivas gerações que o ouviram em palco ou nos registos discográficos. E também no cinema, onde se escuta na abertura de Boneca de Luxo (1961) e na inesquecível banda sonora do pungente Cowboy da Meia-Noite (1969).

Tocou com quase todos os nomes grandes da música que lhe foi contemporânea - de Benny Goodman e Charlie Parker a Paul Simon, de Sidney Bechet e Miles Davis a Diana Krall. Passando por Ella Fitzgerald, Bill Evans, Dinah Washington, Dizzy Gillespie, Stéphane Grappelli, Oscar Peterson, Quincy Jones, George Shearing, Pat Metheny, Stevie Wonder, Milton Nascimento ou Elis Regina.

Reparem neste delicioso duo com a intérprete de Águas de Março em que Thielemans transforma o assobio em instrumento de luxo na mais célebre das suas composições, Bluesette:

 

 

A festa da música, a festa da arte, a festa da vida. Também por isto Toots Thielemans - que nos deixou esta terça-feira, aos 94 anos, apagando-se durante o sono - me parecia imortal.

Numa das ocasiões recentes em que foi homenageado na sua Bélgica natal este modesto cidadão do mundo que apenas queria ser um artesão esforçado, quase como se pedisse desculpa pelo talento, afirmou que na sua idade já só podia mover-se "nesse pequeno espaço existente entre a lágrima e o sorriso".

Legou-nos a música - e também esta suave sabedoria de vida que conservou até ao fim. Gigante sem parecer que o era, rumo ao pôr-do-sol enquanto os mágicos acordes da sua harmónica soavam já na eternidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os patriarcas (5)

por Pedro Correia, em 11.05.16

5033443646_a3fe7b0fe1_b[1].jpg

 Manuel Alegre com os filhos Francisco, Joana e Afonso

 

Admiro pessoas que não cedem à tentação da renúncia nem andam na vida de braços cruzados. Admiro pessoas que se mantêm activas muito para além da data legal prevista para a reforma. Admiro pessoas que nunca se esquecem de que a cidadania, mais do que um direito, é um dever. E há muitas formas de exercê-la, como faz Manuel Alegre, que parece cada vez mais imune às inclemências do tempo. No ano passado legou-nos um dos seus melhores livros de poemas, Bairro Ocidental, que estabelece uma surpreendente rima interna com as suas primeiras obras, Praça da Canção e O Canto e as Armas. Há poucas semanas reuniu uma invulgar recolha de textos dispersos, atribuindo-lhes um título feliz: Uma Outra Memória. Li-o em dois dias, com o prazer de um leitor já antigo deste magnífico prosador que Alegre também é.

Ele não tem de pedir licença a ninguém para pensar como pensa. Nem molda o discurso ao sabor das modas: por isso gosta de pronunciar na sua voz bem timbrada a palavra pátria, que outros condenam ao ostracismo. Nem autoriza que os ignorantes de turno lhe imponham listas de consoantes prontas a mutilar como tábuas de uma nova lei: ele foi um dos  quatro deputados (em 230) que na Assembleia da República votaram contra a entrada em vigor do "acordo ortográfico”, rejeitado pela esmagadora maioria dos escritores portugueses. Nem necessita das funções de conselheiro de Estado, para as quais terá sido convidado e desconvidado com manifesta falta de cortesia: receber o Prémio Pessoa ou o Prémio Vida Literária da Sociedade Portuguesa de Autores são honrarias maiores. Tal como a certeza de saber que milhares de portugueses conhecem de cor os seus poemas, recitados ou cantados.

Também não necessitou do beneplácito de chefe algum para concorrer à Presidência da República fez agora dez anos, num longo e gratificante périplo pelo País que tive o gosto de acompanhar passo a passo como repórter. Ouvi-o falar largas dezenas de vezes: nunca o ouvi amesquinhar um adversário ou sequer tratá-lo com deselegância. A crítica, para dar provas de contundência, nunca necessita baixar de nível – ele, que é mestre das palavras, sabe isso melhor que ninguém. Leiam, neste seu mais recente livro, o tocante testemunho inédito sobre Mário Soares: não há ali uma palavra deslocada nem o menor vestígio de azedume. É um texto notável, a vários títulos. Também pelo pudor que revela na recusa em reabrir feridas porventura mal cicatrizadas.

Manuel Alegre tem um porte fidalgo e modos um pouco deslocados nesta época tão propícia aos sarrafeiros de turno, à esquerda e à direita. Além disso é alguém com biografia, o que parece dispensável neste tempo de celebridades-proveta, tão instantâneas como os pudins de pacote e com prazo de validade mais breve do que um iogurte.

Muito para lá das conjunturas políticas, quando estiverem extintas as fogueiras ateadas pelas paixões de circunstância, o autor de Senhora das Tempestades – um dos mais belos livros da poesia portuguesa do século XX – sobreviverá pela sua obra, que permanece inacabada.

Privilégio dele, privilégio nosso também.

 

Manuel Alegre, nascido a 12 de Maio de 1936, faz amanhã 80 anos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os patriarcas (4)

por Pedro Correia, em 10.02.16

13390628_iEojV[1].jpg

 

MÁRIO MONIZ PEREIRA

 

Desportista nato, praticante das mais diversas modalidades (atletismo, andebol, voleibol, basquetebol, futebol, ténis de mesa e hóquei em patins), campeão nacional de vólei e recordista nacional do triplo salto, o actual sócio número 2 do Sporting Clube de Portugal começou desde cedo a treinar atletas: era esta a sua maior vocação e foi nisto que mais se distinguiu.

Enfrentando todas as adversidades, lutando contra todos os obstáculos, ultrapassando a proverbial tendência muito portuguesa de deixar as coisas para amanhã e jamais voltar a pensar nelas, conseguiu, após décadas de esforço, pôr o País inteiro a correr. Ele dava o exemplo, fizesse chuva ou fizesse sol.

 

13397407_1c7nU[1].jpg

 

Eu vivi essa época e sei do que falo: graças a Mário Manuel Freire Moniz Pereira e aos campeões que ele treinou, o atletismo tornou-se uma paixão nacional. Porque, naqueles anos 70 e primeira metade da década de 80, só nas pistas e nos trilhos o desporto português teve as suas horas de glória. Começando em Fevereiro de 1977 com a vitória na Taça dos Campeões Europeus de corta-mato - proeza colectiva da equipa do Sporting que viria a repetir-se sete vezes nos dez anos seguintes - e culminando naquele instante irrepetível que foi a entrada de Carlos Lopes, com a sua passada larga e segura, no estádio de Los Angeles, estabelecendo novo recorde olímpico da maratona e conquistando a primeira medalha de ouro portuguesa nuns Jogos Olímpicos - proeza antecipada na medalha de prata que obtivera em 1976, na final dos 10 mil metros, nas Olimpíadas de Montreal, e que poderia ter ocorrido logo em 1980 se Portugal não tivesse aderido nesse ano ao boicote ocidental aos Jogos Olímpicos de Moscovo.

 

No momento em que a bandeira portuguesa subia ao mastro e se escutavam os acordes do hino nacional em Los Angeles, o professor Moniz Pereira via coroados 39 anos de trabalho incansável.

Em ocasiões como essa ou no mês anterior, quando Fernando Mamede bateu o recorde mundial dos 10 mil metros, em Estocolmo, o Senhor Atletismo - como também é conhecido, a justo título - demonstrava a sua verdadeira estatura de campeão não só do desporto mas também da vida: associava-se com júbilo às celebrações mas nunca reivindicou louros especiais como treinador. Como se aquela fosse uma tarefa ao alcance de qualquer um. Que diferença em relação a certos técnicos no mundo do futebol, que mesmo sem vencerem nada falam de forma petulante e empertigada, como se não fossem a nulidade que realmente são...

 

13390755_BspIp[1].jpg

 

Mantendo incólume o sportinguismo de sempre, continua a dar-nos lições. Diz-nos, por exemplo, que não devemos odiar os adeptos de outros emblemas. E gaba-se de ter amigos de todas as filiações clubísticas.

Perguntem-lhe do que mais se orgulha. Ele responder-vos-á que foi de ter conseguido, através do seu exemplo, que toda uma geração de portugueses calçasse sapatilhas e fosse correr para as ruas e estradas do País.

Apenas isto. Que é muito.

Como na letra daquele fado tão conhecido, composto por este homem de múltiplos talentos, Mário Moniz Pereira bem pode exclamar: "Valeu a pena ter vivido o que vivi."

 

Imagens:

1. Durante a homenagem que lhe foi prestada pelo Sporting em 2011, ao festejar 90 anos

2. Com Fernando Mamede, na década de 70

3. Capitão da equipa de Sporting campeã nacional de voleibol, em 1954 (jogava com o nº 8)

 

Mário Moniz Pereira, nascido a 11 de Fevereiro de 1921, faz amanhã 95 anos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Figuras internacionais de 2015

por Pedro Correia, em 02.01.16

   

                bundeskanzlerin_angela_merkel[1].jpg screen-capture-4-46-e2188[1].png 

 

ANGELA MERKEL e AUNG SAN SUU KYI

 

Duas mulheres foram eleitas Figuras Internacionais do ano pelo DELITO DE OPINIÃO: a chanceler alemã Angela Merkel (que já tinha sido escolhida em 2010 e 2011) e a Nobel da Paz birmanesa Aung San Suu Kyi.

A primeira, entre outros motivos, por ter enfrentado sectores alargados da opinião pública germânica que se opõem à entrada de refugiados no país: a Alemanha recebeu já cerca de um milhão, liderando de longe os países europeus no acolhimento aos desalojados do Médio Oriente e do Magrebe que fogem a zonas de guerra e à pobreza económica.

A segunda por ter conduzido a sua Liga Nacional para a Democracia a uma indiscutível vitória nas urnas, com 77% dos votos nas legislativas de Novembro, pondo fim a mais de meio século de ditadura militar na Birmânia. Uma luta em que se envolveu sempre por métodos pacíficos e lhe valeu mais de vinte anos em regime de prisão domiciliária.

 

Como é costume nestas votações anuais, as opiniões dividiram-se bastante. Merkel e Aung receberam cinco votos cada dos 23 participantes neste escrutínio, que podiam votar em mais de um nome.

Com três votos ficaram o ex-ministro grego das Finanças, Yannis Varoufakis (de quem muitos já mal se recordam nestes tempos tão voláteis) e Aylan Kurdi, o menino curdo de três anos que morreu por afogamento quando acompanhava o pai, entre outros refugiados oriundos da Síria, em demanda de uma praia turca. A dramática fotografia da criança morta deu a volta ao mundo.

Com dois votos ficou o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, muito mencionado nas notícias do início de 2015 mas que foi perdendo destaque ao longo do ano.

Depois houve votos solitários dispersos por diversas figuras: o Papa Francisco (eleito pelo DELITO nos dois anos anteriores), Barack Obama, Donald Trump, Marine Le Pen, o lider nacionalista polaco Jaroslaw Kaczyński, o refugiado sírio Laith Majid (cuja imagem de lágrimas nos olhos, com o filho ao colo, também deu a volta ao mundo), Nicolas Catinat (assassinado no Bataclan, a 13 de Novembro, depois de ter servido de escudo humano numa atitude heróica) e o Quarteto para o Diálogo Nacional na Tunísia (galardoado com o Nobel da Paz 2015).

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Figura nacional de 2015

por Pedro Correia, em 01.01.16

606x340_317652[1].jpg

 

ANTÓNIO COSTA

Não venceu a eleição legislativa de 4 de Outubro, ganha pela coligação PSD/CDS, mas foi o triunfador indiscutível no campeonato das negociações que se seguiram ao escrutínio, marcado pela ausência de maiorias absolutas.

António Costa, que em Junho de 2014 decidira disputar a liderança de António José Seguro no PS por lhe ter parecido "poucochinho" o triunfo eleitoral dos socialistas nas europeias, aguentou-se ao leme do Largo do Rato após as legislativas, transformando uma derrota nas urnas em vitória política ao conseguir congregar o apoio do Bloco de Esquerda, do Partido Comunista e dos Verdes para um Governo socialista, que acabou por tomar posse a 26 de Novembro.

Um acordo inédito na democracia portuguesa. Por isso o DELITO DE OPINIÃO escolheu Costa como Figura Nacional do Ano.

Durante semanas, o seu nome e o seu rosto foram associados ao adjectivo "histórico" por uma legião de comentadores nas televisões e nos jornais. Mas Costa, melhor que ninguém, está consciente da fragilidade da solução política que protagoniza - o que ficou bem patente no chumbo dos partidos à esquerda do PS ao orçamento rectificativo apresentado pelo Executivo, só aprovado graças à abstenção do PSD na sessão parlamentar de 23 de Dezembro. Em termos políticos, o ano que agora começa promete ser escaldante.

 

Costa obteve 14 votos entre os 23 membros do DELITO que participaram neste escrutínio (podendo cada um escolher mais que um nome). Em segundo lugar, com quatro votos, ficou Jorge Jesus, protagonista da mais polémica notícia de 2015 a nível nacional - ou pelo menos a que fez correr mais tinta nos jornais: a sua transferência do Benfica para o Sporting, anunciada em Junho. Algo semelhante ocorrera apenas uma vez, no remoto ano de 1930.

 

Os restantes votos dispersaram-se, solitários, por nomes bem conhecidos da política nacional: Cavaco Silva, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins, Mariana Mortágua, Pedro Nuno Santos e Heloísa Apolónia. Houve igualmente um voto para o activista luso-angolano Luaty Beirão, protagonista de uma mediatíssima greve de fome em Luanda, e para Vhils (nome artístico do pintor e grafiteiro Alexandre Farto), escolhido pela Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal como personalidade do ano.

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Figura nacional de 2014: Carlos Alexandre

Autoria e outros dados (tags, etc)

Je suis Vilhena

por Pedro Correia, em 03.10.15

GaiolaAberta__68[1].jpg

imagesG6X3N5IQ.jpg

imagesWIF3W0Y4.jpg

img_222341532_1411332590_pbig[1].jpg

0economia[1].jpg

Soares[1].jpg

Inconfundíveis desenhos de um dos dos maiores autores satíricos portugueses do século XX: José Vilhena (1927-2015)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os patriarcas (3)

por Pedro Correia, em 14.09.15

001ccdwf[1][1].jpg

 

ADRIANO MOREIRA

 

Há pouco mais de dois meses, no dia 10 de Julho, um senhor vestido formalmente, de cabeços brancos e testa alta, ergueu-se da cadeira onde estava sentado, numa livraria do centro de Lisboa, e durante três quartos de hora prendeu a atenção de algumas dezenas de pessoas que o escutavam com uma notável lição de história, geografia, geopolítica - tudo a pretexto da literatura.

Eu estava entre os que tiveram o privilégio de o escutar nesse fim de tarde. E admirei a impressionante rapidez de raciocínio, a notável fluência verbal e a claridade de ideias deste homem que foi advogado e político mas cuja verdadeira vocação é o ensino. Deu aulas durante dezenas de anos e deixou um rasto de admiradores em todos os continentes: é um dos portugueses com maior vocação universalista.

A expressão francesa sagesse aplica-se por inteiro a Adriano Moreira, que nessa tarde em Lisboa discorreu sobre a "comunidade de afectos" que a CPLP é acima de tudo - e como a língua comum funciona como poderoso traço de união entre os Estados-membros. Ao contrário do que sucedeu com outras antigas potências coloniais europeias, como a Bélgica ou a Holanda, incapazes de gerar laços afectivos com os povos residentes nas paragens que tutelaram.

Adriano Moreira foi subsecretário de Estado da Administração Ultramarina (1958-61) e depois ministro do Ultramar (1961-62) com António de Oliveira Salazar, de quem chegou a ser apontado como um dos seus mais jovens e promissores delfins. Enquanto ministro, aboliu a lei do indigenato - uma das medidas de maior alcance social alguma vez decretadas nos então territórios ultramarinos.

A corte da ditadura fervilhava de intrigas contra aquele jovem governante com 40 anos recém-cumpridos que se atrevia a revelar protagonismo num regime em que tantos progrediam na penumbra. Um dia, em Dezembro de 1962, Salazar chamou-o e foi sucinto: "Nós acabamos de mudar de política." Adriano Moreira foi igualmente sucinto: "Então acaba de mudar de ministro."

Nunca mais reassumiu um posto governativo. Correu mundo, escreveu livros, (Tempo de Vésperas, O Novíssimo Príncipe), radicou-se no Brasil após o 25 de Abril, regressou a Portugal, foi deputado e presidente do CDS, retomou a sua paixão de sempre: o ensino.

"A minha mãe ensinou-me que Deus é companheiro e nunca me esqueci disso. Nunca ando sozinho, nunca ando sozinho", declarou em Maio, numa longa entrevista concedida ao jornal i que vale a pena ser relida.

Pensa bem e diz o que pensa. Gostem ou não do que ele diz. Se em Portugal existisse Senado, ele seria o nosso primeiro senador. E, dobrado o cabo dos noventa, continua a ser um sonhador. Ouvi-lo falar com tão espantosa agilidade mental é também uma lição de vida. 

 

Adriano Moreira completou 93 anos no passado dia 6.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Rainha

por Pedro Correia, em 09.09.15

tumblr_nh82x22piD1ty479po1_500[1].png

 

«A dissimulação é a ciência dos reis.»

Cardeal Richelieu

 

Quando ela ascendeu ao mais alto cargo do seu país, José Estaline era ainda o senhor absoluto da Rússia vermelha. Nos Estados Unidos, mandava Harry Truman, então sem saber o que fazer dos soldados atascados no inferno da Coreia. E na Grã-Bretanha o primeiro-ministro era Winston Churchill, herói da guerra.

 

Ela viu tudo, ouviu todos.

Quando se sentou no trono herdado de seu pai, Mao Tsé-Tung mandava na China continental, Chiang Kai-Shek pontificava na Formosa, Hirohito mantinha-se como imperador do Japão mesmo após a rendição do seu país aos pés do general Douglas MacArthur. Havia nessa altura outros imperadores no mundo: Hailé Selassié na Etiópia, o xá Reza Pahlevi no Irão. As monarquias eram em número bem superior ao actual: havia-as da Grécia (com o rei Paulo) ao Egipto (com o rei Faruk). E até na Líbia do rei Idris, que um tal coronel Kadhafi viria a derrubar 17 anos mais tarde, em 1969.

 

Nesse mês de Fevereiro de 1952, quando a jovem Isabel se tornou Rainha da Grã-Bretanha, com apenas 25 anos, o planeta era governado por figuras que hoje têm lugar garantido nos livros de História: Sukarno na Indonésia, Perón na Argentina, Tito na Jugoslávia, Franco na Espanha, Nehru na Índia, Ben-Gurion em Israel, Getúlio Vargas no Brasil, Salazar em Portugal.

Conheceu muitos deles, numa sucessão de encontros ao longo de 56 anos – tempo suficiente para ter visto aparecer e desaparecer Elvis Presley, os Beatles e os Pink Floyd.

Coexistiu com seis Papas (Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco), nove presidentes franceses (Vincent Auriol, René Coty, De Gaulle, Pompidou, Giscard d’Eistang, Mitterrand, Chirac, Sarkozy e Hollande), oito chanceleres alemães (Adenauer, Erhard, Kiesinger, Willy Brandt, Helmut Schmidt, Kohl, Schroeder e Angela Merkel), 12 presidentes norte-americanos (Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho e Obama). E 18 chefes do Estado brasileiros – de Getúlio a Dilma. E oito presidentes de Portugal (Craveiro Lopes, Américo Thomaz, Spínola, Costa Gomes, Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva) e 17 primeiros-ministros portugueses, da ditadura ao actual regime constitucional, passando pelo período revolucionário, onde em menos de dois anos houve seis Executivos.

 

Sábia, serena, sibilina, Isabel II foi reinando ao longo de todo este tempo de convulsões no mundo.
Assistiu a guerras no Congo, no Vietname, no Biafra, no Médio Oriente e nos Balcãs. Testemunhou a descolonização de África, a chegada do homem à Lua, o desmoronar do bloco soviético. Viu as monarquias chegarem ao fim em países tão diferentes como o Iraque, o Afeganistão e o Nepal. E serem restauradas noutros, como em Espanha e no Camboja.
Trabalhou com 12 primeiros-ministros – oito conservadores (Churchill, Anthony Eden, Harold MacMillan, Alec Douglas-Home, Edward Heath, Margaret Thatcher, John Major e David Cameron) e quatro trabalhistas (Harold Wilson, James Callaghan, Tony Blair e Gordon Brown).

 

Churchill não escondeu a ternura paternal que sentia pela jovem monarca. Ela retribuía-lhe a simpatia, sem quebrar o rígido dever de imparcialidade que os costumes do reino lhe impõem, mas não falta quem garanta que o primeiro-ministro favorito dela foi Harold Wilson, com os seus ares de filósofo de cachimbo na swinging London dos anos 60. E que Thatcher terá sido a líder do governo que mais detestou.

A verdade sobre isto e tudo o resto não será apurada num livro de memórias com selo real. Isabel II, a monarca britânica há mais tempo no trono, nunca escreverá esse livro.

 

Num mundo em mutação, onde tudo passa, tudo se esgota e tudo se esquece, ela é uma referência de estabilidade. Lembramo-nos dela desde sempre, são já poucos os que conheceram outro chefe do Estado no Reino Unido. O tempo dela foi sulcado por todas as modas – do chapéu de coco ao punk, passando pela mini-saia de Mary Quant.

Só ela nunca passou de moda.

 

O que sente, o que pensa, o que esconde?

Só ela sabe: por detrás do suave sorriso protocolar, subsiste a esfinge nesta monarca que ninguém tem a ilusão de conhecer.

"A dissimulação é a ciência dos reis", dizia o cardeal Richelieu. Uma legenda que bem se aplica a Isabel II, Rainha do Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Jamaica, Barbados, Bahamas, Granada, Papuásia-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tuvalu, Santa Lúcia, São Vicente e as Granadinas, Belize, Antígua e Barbuda, e Saint Kitts and Nevis.

 

Isabel II subiu ao trono a 6 de Fevereiro de 1952 por morte de seu pai, Jorge VI. Tornou-se hoje a monarca há mais tempo em funções no Reino Unido.

Texto reeditado

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os patriarcas (2)

por Pedro Correia, em 15.07.15

OriginalSize$2015_04_08_16_58_24_116009[1].jpg

 

FERNANDO CORREIA

 

Há vozes que nos acompanham desde a infância: são elas que nos vão transmitindo a convicção de que não existem saltos bruscos no tempo mas uma perpétua linha de continuidade da madrugada ao crepúsculo da existência. Vozes treinadas, bem timbradas, em que cada sílada se entende. Vozes de um tempo que já não é bem este - cheio de gente a arfar aos microfones, incapaz de fazer pausas no momento certo, com defeitos de pronúncia de pasmar.

Quando Fernando Correia se estreou na rádio, com apenas 19 anos, as ondas hertzianas estavam circunscritas àqueles que sabiam colocar a voz e a tinham bem treinada, sem aquelas convulsões asmáticas que se tornaram corriqueiras nestes dias em que até os gagos se ufanam de picar o ponto em antena.

Foi animador de emissão e repórter radiofónico durante quatro anos nos Emissores Associados de Lisboa. Em 1958 entrou por concurso na Emissora Nacional e viria a destacar-se nesta estação a partir de 1964 como relator desportivo. "Locutor de 1ª classe" desde 1966, conforme atestava a sua carreira profissional, é um dos raros sobreviventes dessa era de ouro da rádio portuguesa. Em que cada voz era inconfundível.

Trabalhou em vários jornais, incluindo o Record, e continua a ser presença regular nos ecrãs televisivos. Passou pelo Rádio Clube Português e destacou-se mais ainda, após o 25 de Abril, na Rádio Comercial - num dos melhores períodos da actividade radiofónica no nosso país. Lembro-me dele desde miúdo, quando acompanhava os relatos da bola com o transístor de pilhas encostado ao ouvido. Aquelas Tardes de Desporto, domingo após domingo, perdurarão para sempre na memória de quem as escutou.

E nem só de futebol viveu a magnífica carreira profissional de Fernando Correia: outras modalidades, como o hóquei em patins e o atletismo, foram igualmente valorizadas com os seus relatos que nunca deixavam de ser empolgantes sem perder a elegância. Foi pela voz dele que acompanhámos em maratonas radiofónicas as inesquecíveis vitórias olímpicas de Carlos Lopes em Los Angeles (em 1984) e de Rosa Mota em Seul (1988).

Comandou durante 16 anos a Bancada Central na TSF - de segunda a sexta-feira, das 21.15 às 22 horas. Depois abriu o Lugar Cativo, no renovado (e efémero) Rádio Clube Português. Agora podemos escutá-lo na Rádio Amália e na Sporting TV. Adepto leonino desde sempre, mas sem sectarismos de qualquer espécie, tem amigos de todas as cores futebolísticas. É, acima de tudo, um excelente conversador. Porque não se limita a falar bem: também sabe ouvir.

Continua a trabalhar com o entusiasmo de um novato temperado com a veterania de quem já viu de tudo um pouco. E ainda arranja tempo para escrever livros: este ano lançou o comovente Piso 3, Quarto 313. 

"Vou continuar até ter voz", promete. E nós, seus ouvintes de sempre, fazemos votos para que a voz nunca lhe falte.

 

Fernando Correia, nascido a 16 de Julho de 1935, faz amanhã 80 anos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os patriarcas (1)

por Pedro Correia, em 09.07.15

Gentil_Martins8302f937_572x321[1].jpg

 

ANTÓNIO GENTIL MARTINS

 

Há umas semanas, um senhor vestido formalmente passou por mim em passo muito ligeiro na Praça de Londres. Olhei-o de relance e logo o reconheci: era António Gentil Martins. Quem o visse caminhar de forma tão desenvolta jamais diria que ia ali alguém já na nona década de vida.

Lembro-me da primeira vez que ouvi falar dele: foi em Outubro de 1978. Gentil Martins tornou-se notícia de primeira página ao assumir pela primeira vez em Portugal uma operação de alto risco que muitos imaginavam votada ao insucesso: a separação de duas gémeas siamesas. Chefe do Serviço de Cirurgia Pediátrica do Hospital Dona Estefânia (funções que desempenhou durante 34 anos), não virou a cara ao desafio. E superou-o com êxito: as gémeas ainda hoje festejam esse dia como o do seu “segundo nascimento”.

Se de alguma coisa pode orgulhar-se naturalmente este médico – neto materno de Francisco Gentil, fundador do Instituto Português de Oncologia – é poder estar na primeira linha do socorro a vidas ameaçadas. Há uns anos confessou à jornalista Anabela Mota Ribeiro que sentiu despontar-lhe esta vocação aos 11 anos, quando viu um homem atropelado esvair-se em sangue na via pública.

Este lisboeta viveu três anos em Inglaterra antes de casar e tornar-se pai de oito filhos. Católico convicto, ainda pensou ser padre. Mas viria a exercer outro sacerdócio: resgatar vidas em vez de salvar almas. Licenciado pela Faculdade de Medicina de Lisboa em 1953, conta com mais de dez mil operações no vasto currículo. Orgulha-se em particular das seis separações de siameses – com nove sobreviventes.

Chegou a ser convidado para secretário de Estado da Saúde, mas recusou: a política nunca o atraiu. Ao contrário do desporto: praticou ténis e tiro com pistola automática – nesta última modalidade, participou como representante português nos Jogos Olímpicos de 1960, disputados em Roma.

Integrou a Direcção da Associação de Estudantes de Medicina, foi bastonário da Ordem dos Médicos (1977-86) e presidente da Associação Médica Mundial (1979-83). Através dos tempos, manteve-se fiel à divisa inspirada no célebre poema If, de Rudyard Kipling: «O homem só é verdadeiramente homem quando se ultrapassa a si mesmo.»

Tantos anos depois, lá continua com o seu passo ligeiro. Crente de que vida recomeça todos os dias. E que todos temos um desígnio a cumprir: basta sabermos exercer com perseverança os nossos dons.

 

António Gentil Martins, nascido a 10 de Julho de 1930, faz amanhã 85 anos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma Senhora

por Pedro Correia, em 07.07.15

18253618_RzvD3[1].jpg

Maria Barroso com Augusto Figueiredo na peça Benilde ou a Virgem Mãe (Teatro Nacional, (1947)

 

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Há pessoas assim: capazes de nos cativar com um sorriso bondoso, uma palavra certeira, um olhar meigo, um gesto sereno, um tom de voz pausado. Maria de Jesus Simões Barroso Soares - Maria Barroso, como todos os portugueses a conheciam - tinha todos os atributos que enunciei. E vários outros - desde logo uma extraordinária coragem moral que a fez enfrentar todas as vicissitudes desde muito jovem. Franzina de corpo, mas com uma enorme fortaleza de espírito, enfrentou os esbirros da ditadura com uma inteireza arrepiante num tempo em que tudo apelava à demissão cívica. Por motivos de perseguição política, foi expurgada do chamado Teatro Nacional - uma página vergonhosa na nobre Casa de Garrett - e viu-se forçada a passar ao lado de uma carreira de actriz para a qual sentia genuína vocação.

Renunciou a muita coisa, mas nunca aos valores em que acreditava. Sem nunca assumir pose virtuosa, gesto próprio dos fariseus - "túmulos caiados", na expressão bíblica que Sophia transpôs para um dos seus mais arrebatadores poemas.

 

Maria Barroso dizia poesia com uma dicção perfeita, reforçada com uma nota emotiva bem reveladora do seu carácter. Na noite mais escura, ela soube dizer a palavra não. E quando outra ditadura, de sinal contrário, pairou sobre o Portugal revolucionário, lá estava ela novamente, no lado certo. Em defesa da liberdade, por um país onde mais ninguém fosse vítima de poderes arbitrários, contra qualquer delito de opinião.

Alguns chamam-lhe agora, nesta hora em que partiu, "antiga primeira dama". Detestável expressão, decalcada dos Estados Unidos, subentendendo uma relação de subalternidade em relação a Mário Soares, seu marido durante 66 anos. Nada mais inapropriado do que este rótulo jornalístico de importação. Como se Maria Barroso não fosse uma pessoa autónoma - nas ideias, nas convicções, no estilo, na atitude - para além dos laços de ternura solidificados por décadas de convívio com o homem que amou.

 

Vi-a muitas vezes, até há pouco tempo, nos locais mais inesperados. Olhando com atenção as novidades editoriais na Livraria Barata, saindo com uma amiga de uma sessão vespertina de cinema no Alvalade, encaminhando-se para a missa na "sua" igreja do Campo Grande. Nunca deixei de sentir admiração por ela, tal como - tenho a certeza - acontece com a esmagadora maioria dos portugueses. Quase como se fosse uma pessoa da nossa própria família, o que nos gera um íntimo sentimento de luto desde o início desta manhã, quando foi conhecida a notícia da sua morte. Que nem por já ser aguardada deixa de ser menos comovente.

 

Era sofisticada e simples, elegante sem sombra de presunção, lutadora convicta sem uma palavra de ódio dirigida aos seres menores que soube enfrentar com dignidade nas circunstâncias mais difíceis.

Uma Senhora.

 

Leitura complementar: a última entrevista de Maria Barroso. A Luís Osório, no jornal i.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Figura internacional de 2014

por Pedro Correia, em 01.01.15

papa-francesco-1[1].jpg

PAPA FRANCISCO

Pelo segundo ano consecutivo, o líder espiritual do mundo católico foi escolhido pelo DELITO DE OPINIÃO como Figura Internacional de maior destaque.

Com índices de popularidade cada vez mais elevados um pouco por todos os continentes, mesmo junto de quem não comunga da fé cristã, o Papa Francisco manteve-se em foco a propósito de vários temas. Rezou pelas vítimas da violência em Jerusalém. Orou ao lado de clérigos muçulmanos na Mesquita Azul, em Istambul. E recebeu nos Jardins do Vaticano, também para uma oração pela paz, os presidentes de Israel e da Autoridade Palestiniana.

Já perto do fim do ano, dirigiu uma mensagem crítica à Cúria Romana que mereceu repercussão universal. Nessa mensagem, denunciou as "quinze doenças" de que padece o corpo eclesiástico do Vaticano, com destaque para aquilo a que Francisco chama "Alzheimer espiritual" - a perda da memória de Deus, sacrificado à idolatria mundana.

O Sumo Pontífice teve também uma intervenção decisiva no desbloqueamento das relações entre os Estados Unidos e Cuba, congeladas desde 1960. Um facto reconhecido, em simultâneo, pelos presidentes Barack Obama e Raúl Castro, que agradeceram o esforço mediador do Papa.

 

A segunda figura internacional do ano mais votada foi o presidente russo, Vladimir Putin, que em Março esteve em foco ao anexar a península da Crimeia, que era parte integrante do território da Ucrânia desde 1954, e fomentar ao longo do ano o separatismo pró-Moscovo na faixa oriental deste país. Criticado por quase toda a comunidade internacional e alvo de severas sanções económicas, o líder russo terminou 2014 a enfrentar uma gravíssima crise do rublo, que caiu para mínimos históricos registados este século, enquanto a inflação disparava e a fuga de capitais contribuía para uma escalada recessiva no país.

Malala Yousafzai, a adolescente paquistanesa ameaçada de morte pelos talibãs, ficou em terceiro lugar na nossa votação por ter sido distinguida com o Prémio Nobel da Paz 2014, partilhado com o activista indiano Kailash Satyarthi. Com apenas 17 anos, foi a mais jovem galardoada de sempre com o Nobel.

Os restantes votos, isolados, foram distribuídos da seguinte forma: o novo Rei de Espanha, Filipe VI, entronizado em 19 de Junho; Pablo Iglesias, líder da formação política Podemos, que irrompeu com êxito na cena política espanhola, recolhendo um milhão de votos nas eleições europeias e ameaçando implodir o sistema bipartidário; o empresário e filantropo chinês Jack Ma; e a pobreza, não personalizada, à escala universal.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Autoria e outros dados (tags, etc)

Figura nacional de 2014

por Pedro Correia, em 31.12.14

JDOxZw[1].jpg

CARLOS ALEXANDRE

O juiz que está no centro de todas as atenções, à frente dos mais mediáticos processos de instrução criminal, foi a personalidade eleita como Figura Nacional do Ano pelo DELITO DE OPINIÃO, destacando-se claramente das restantes.

Poucos se lembrarão de uma entrevista dada por este discreto magistrado que tem 53 anos e nasceu em Mação. Mas não é possível ignorar o papel que desempenhou em processos que fizeram e continuam a fazer manchetes, com destaque para o dos vistos dourados - que o levou a deter diversos altos funcionários, incluindo o director do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e a secretária-geral do Ministério da Justiça - e o do ex-primeiro-ministro José Sócrates, que conduziu à detenção do antigo chefe do Governo, também por decisão de Carlos Alexandre.

Estes casos surgidos em 2014 deram-lhe particular notoriedade. Mas também lhe trouxeram declarados inimigos. Proença de Carvalho, talvez o mais poderoso advogado português, acusou-o de ser o "herói dos tablóides" e de procurar protagonismo pessoal através do mediatismo dos processos em que intervém. Mário Soares não se coibiu de o criticar abertamente após uma visita a Sócrates no estabelecimento prisional de Évora ao proferir a já célebre frase: «Todo o PS está contra esta bandalheira!»

Com vaias ou aplausos, fica como um dos rostos de uma visível mudança na justiça em Portugal.

 

A segunda figura mais votada pelos 26 autores do DELITO que participaram neste escrutínio foi o banqueiro Ricardo Salgado, que em 2014 deixou de ser o dono disto tudo, como antes lhe chamavam: o grupo empresarial de que era o lider indiscutido ruiu com estrondo este Verão. Em terceiro ficou José Sócrates, que nunca deixou de ser notícia ao longo do ano.

Na quarta posição, ex-aequo, ficaram Cristiano Ronaldo, vencedor da Bota de Ouro e novamente considerado o melhor futebolista do mundo, e Carlos do Carmo, galardoado com um Emmy em 2014.

Houve ainda votos isolados no novo secretário-geral do PS, António Costa, na procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, e no advogado António Marinho Pinto, que emergiu como líder político ao ser eleito deputado europeu, em Maio, fundando mais tarde o Partido Democrático Republicano.

Também o povo português ("que se lixa como o mexilhão") e a figura do corrupto, sem estar personalizada, receberam um voto cada.

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Autoria e outros dados (tags, etc)

A História na primeira pessoa

por Pedro Correia, em 22.10.14

Katherine Graham, proprietária do Washington Post, e Ben Bradlee, que dirigiu o jornal durante dez mil dias. Ambos permaneceram imunes às pressões da Casa Branca durante o caso Watergate

 

Editam-se em Portugal cerca de mil livros por mês. Nada mau, para um país com tão poucos hábitos de leitura. Mas continuo a espantar-me com a ausência de títulos importantes no nosso mercado editorial. Talvez o livro que hoje mais gostasse de ver com edição portuguesa fosse a autobiografia de Ben Bradlee. Sabem quem é? Esse mesmo: o jornalista que transformou o Washington Post num dos jornais mais célebres à escala planetária. Fala-se muito em Bob Woodward e Carl Bernstein, os repórteres que revelaram ao mundo todas as implicações do caso Watergate. Fala-se muito menos em Bradlee, que na altura dirigia o Washington Post, então uma espécie de parente pobre na alta roda da imprensa norte-americana, sempre à sombra do poderoso rival New York Times. Mas nenhum dos artigos de Woodward e Bernstein (a dupla que ele baptizou de “Woodstein”, nos longos serões de trabalho no jornal durante a revelação do escândalo que conduziria à demissão do presidente Nixon) teria sido possível sem a firmeza de Bradlee, que lhes deu destaque em sucessivas manchetes. Contra todas as pressões do poder político.
 

A Good Life, de Ben Bradlee, que li na versão espanhola – editada pela casa editorial do diário El País, sob o título La Vida de un Periodista - é uma extraordinária lição de jornalismo escrita por este homem nascido em 1922, combatente na II Guerra Mundial e velho tarimbeiro das redacções. Começou pela melhor escola americana, no jornalismo de província, e teve um percurso fulgurante, que o levou a chefe da delegação da revista Newsweek em Paris, correspondente de guerra na Argélia e no Suez, e enfim a Washington, onde passou a dirigir o Post em 1962. A curta distância da Casa Branca, onde então pontificava John Kennedy, seu amigo pessoal.
Bradlee relata-nos a odisseia do relançamento do Post, que à época era apenas o terceiro jornal mais vendido na capital americana. Ele arejou o grafismo, destacou a imagem, criou um suplemento chamado Style, que dava prioridade ao lazer, valorizou o espaço de opinião, criou um provedor de leitores (em 1969!) e deu um novo impulso à reportagem. Bastando-lhe adoptar como lema a velha lição que recebera da professora da instrução primária: “O melhor possível hoje, melhor ainda amanhã.”
A qualidade foi sempre um objectivo a atingir. “A detecção de talentos nunca cessa num periódico”, afirma Bradlee, então “decidido a que cada jornalista fosse o melhor da cidade no seu ramo de actividade”. Este foi um dos segredos do sucesso do jornal, a par das normas de exigência postas em vigor. O Post deixou de usar a ambígua expressão “segundo as nossas fontes”, instituiu a norma da verificação dos factos junto de duas fontes autónomas e recomendou aos seus repórteres que nunca esquecessem o sábio preceito de Camus, que também foi jornalista: “Não existe a verdade. Só existem verdades.”
 
La Vida de un Periodista dá-nos retratos deliciosos de jornalistas. Howard Simons, director-adjunto do Post, que cunhou a expressão SMERSH para designar a secção dedicada a estes temas (segue em inglês para se entender melhor): Science, Medicine, Education, Religion & All That Shit. Art Buchwald, o incomparável humorista. Jim Truitt, que permaneceu 47 horas sentado à máquina de escrever, produzindo uma lista com mais de mil sugestões no dia em que Bradlee protestava contra a “falta de ideias” na redacção. E, obviamente, a dupla “Woodstein”: Watergate nunca teria sido o que foi sem a “destreza e persistência” destes repórteres, que transformaram este velho ofício num mito: nos anos 70 e 80, o jornalismo tornou-se a profissão mais cobiçada do planeta.
Bradlee permaneceu dez mil dias à frente do Post. Saiu em 1991, sob uma ovação imensa dos jornalistas, retirando-se para a sua propriedade rural, onde redigiu este livro, lançado em 1995. Sob a sua liderança, o diário ganhou 18 prémios Pulitzer e firmou-se como um dos grandes títulos mundiais, conquistando uma sólida reputação de independência – o melhor certificado de nobreza de qualquer jornal. A good life indeed.
 
Reedito este texto em homenagem a Ben Bradlee, ontem falecido em Washington, aos 93 anos

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ljubomir Stanisic

por Helena Sacadura Cabral, em 19.09.14
O nome é difícil de pronunciar, mas mais difícil ainda é não ficar rendido ao programa de culinária que ele conduz no canal de cabo 24 Kitchen, que se chama Papa Quilómetros. Trata-se de Ljubomir Stanisic, considerado um dos Chef's sensação do momento. 
Depois do programa “Masterchef” e de ter lançado o seu próprio livro, oferece-nos agora na televisão um programa no qual não só investiga como descobre os segredos e as tradições das iguarias nacionais. 
Mas faz mais. Ao percorrer o país em todos os sentidos, presta um serviço digno de registo ao turismo nacional, já que confeciona as suas receitas quase sempre no meio natural, entre paisagens lindíssimas.
Com uma história de vida que, sendo curta – nasceu a 8 de Junho de 1978 em Sarajevo –, é ao mesmo tempo longa, porque começa num sonho de criança cuja musa é Rose, a sua mãe, que apesar de cozinhar batatas todos os dias, conseguiu fazer com que nenhum deles fosse igual ao outro. Quem sabe se não terá sido este o estímulo para a sua imparável criatividade?
Em Belgrado estudou na Universidade Popular Bazidar Adzila e inicia uma carreira que o levaria, no seu país, a sub chefe da Padaria e Pastelaria Skadarilija.
Mas a guerra leva-lo-ia a fugir e, depois de várias peripécias, a vir parar na tranquilidade do Gerês. Mais tarde encontraria Vitor Sobral, com quem fica até que, já bem mais seguro de si, decide forjar o seu destino, com um notável percurso pessoal e profissional, que acumula merecidos prémios.
Será no 100 Maneiras em Cascais que a sua carreira dá um salto e a página do livro da sua vida se vira definitivamente para o sucesso. Sabe internacionalizar-se e anda um ano inteiro com a família, numa auto caravana a tentar descobrir os segredos gastronómicos do velho continente.
Volta, abre mais dois restaurantes com o mesmo nome – o Bistrot e o Nacional - e torna-se um fenómeno televisivo ao qual a Fox International Channels irá, com o seu Papa Quilómetros, dar uma nova dimensão de internacionalização.
Para os amantes de cozinha, ver um estrangeiro falar a nossa língua como muitos de nós não falamos e a dar a conhecer a nossa história, a nossa gastronomia e o nosso país, é motivo de orgulho. E um prazer para quem, como eu, vê na confecção dos alimentos, uma forma de partilha de amizades.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dolores Aveiro

por Helena Sacadura Cabral, em 09.08.14

Ficaram surpreendidos com o título do post? Não fiquem, porque considero que Dolores Aveiro é muito mais do que a mãe de Cristiano Ronaldo e merece que se fale dela. 

Ha dois dias, ouvi a entrevista que Julia Pinheiro lhe fez a propósito de um livro lançado sobre a sua vida. Confesso que, ao arrepio dos elitistas cá do burgo, a senhora me enterneceu. Directa, sem papas na língua, nem poses de "lady com dinheiro", falou deste e das transformações que o mesmo trouxe ao seu quotidiano que, no passado, não foi um caminho de rosas. 

Mas, sobretudo, mostrou os imensos rostos de que se pode revestir essa hercúlea tarefa de ser mãe. Mãe que ela continua a ser, no apoio ou na crítica que entende dever, no seu papel, tecer aos filhos. E, questionada nas matérias mais delicadas, soube arrumá-las com uma eficiência surpreendente.

É uma líder nata do seu clã, alguem que não se "perdeu" com a vida que tem hoje, que mantém os pés bem assentes na terra e para quem a felicidade maior é ver os filhos felizes. Deu uma belíssima lição de simplicidade - que os nobres de sangue e espírito jamais compreenderão - e soube mostrar que se mantém aquela mulher que aprendeu que a vida também se escreve pelas nossas próprias mãos. 

Parabéns à família Aveiro pela capitã que vos calhou para conduzir o vosso barco!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sempre ao lado da liberdade

por Pedro Correia, em 02.06.14

"Saber calar é tão difícil como saber falar. Ao que sabe calar, todos o entendem."

Rei Juan Carlos, em carta ao seu filho, o novo Rei Felipe de Borbón, citada no livro El Príncipe y el Rey, de José García Abad

 

O anúncio da abdicação do Rei Juan Carlos encerra uma etapa singular na história de Espanha: o seu reinado coincidiu com o mais longo período de paz e prosperidade alguma vez experimentado pelos espanhóis.

"O periodo mais fecundo", como justamente o qualificou o então chefe do Governo Rodríguez Zapatero em depoimento publicado no El País, em Janeiro de 2008, quando se assinalava o 70º aniversário natalício do monarca.

O primeiro-ministro socialista expressava justamente a satisfação da generalidade dos espanhóis, incluindo aqueles que se proclamam republicanos: Juan Carlos conduziu o país a uma exemplar transição para a democracia, colocando-se sempre ao lado da liberdade. É verdade que Espanha enfrenta diversos problemas, com destaque para a actual crise económica e a ameaça de desagregação territorial. Mas, num país onde ainda não cicatrizaram por completo as cicatrizes da mais devastadora guerra civil de que há memória, sem o monarca tudo teria sido muito pior ao longo destas quatro décadas. Para os espanhóis e também para nós, pois somos cada vez menos imunes ao que se passa aqui ao lado.

O Rei pôs fim à ditadura franquista em estreita articulação com o primeiro-ministro Adolfo Suárez, instituiu um regime constitucional exemplar a vários títulos que fez validar por referendo, restabeleceu o prestígio internacional do seu país e devolveu a plena cidadania a todos os espanhóis. Sem distinção de credos, ideologias ou origem regional. 
Sai de cena no momento que livremente escolheu, orgulhoso por legar ao seu filho Felipe, ainda nas palavras de Zapatero, "uma democracia viva, plenamente consolidada e com um futuro promissor".
Tenho a certeza de que a larga maioria dos espanhóis subscreve estas palavras. Com saudades antecipadas do monarca, que não teve como cognome "o Breve", como ironicamente o designava o antigo líder comunista Santiago Carrillo antes de se converter -- também ele -- ao juancarlismo. Um mandato irrepetível que Espanha lembrará num futuro próximo com inevitável nostalgia: Juan Carlos tem já lugar de honra garantido nos futuros manuais de História.

 

Imagem: Juan Carlos e Adolfo Suárez, os dois artífices da transição espanhola

Autoria e outros dados (tags, etc)

A ténue luz que se apagou de vez

por Pedro Correia, em 23.03.14

 

Nenhum político em Espanha foi tão aplaudido, nenhum político foi tão vilipendiado. Nenhum foi tão enaltecido em tão curto tempo. Nenhum acabou tão solitário como ele.

Adolfo Suárez, o homem que conduziu com habilidade florentina e uma vontade férrea a transição espanhola da ditadura para a democracia em dois anos vertiginosos, entre 1976 e 1978, morreu há poucas horas. Morrer, neste caso, talvez não seja a expressão mais correcta: seria melhor dizermos, como sugere Juan Cruz numa excelente prosa publicada no El País, que a ténue luz que ainda o iluminava se apagou de vez. A doença de Alzheimer, que lhe fora diagnosticada em 2003, mantivera-lhe relativamente incólume o corpo mas fora-lhe remetendo o espírito para parte incerta.

 

Foi um dos raros políticos que admirei sem reservas. Pela missão que levou a bom porto de reconciliar os espanhóis, incompatibilizando-se à vez com todos os sectores políticos, entre bombas da ETA e atentados extremistas cometidos a um ritmo quase diário naquele final da década de 70 por todos os inimigos da democracia, oriundos da esquerda e da direita. Sofreu ameaças de morte, foi alvo das mais torpes injúrias, mil vezes lhe vaticinaram um prematuro obituário político: ele soube resistir a todas as adversidades. Com uma assombrosa coragem física e moral.

 

 

Ficou na memória colectiva de todos os democratas -- em Espanha e não só -- aquele momento crucial, ao fim da tarde de 23 de Fevereiro de 1981, quando o Parlamento em Madrid foi tomado de assalto por oficiais golpistas armados até aos dentes enquanto decorria o debate de investidura do executivo liderado pelo seu sucessor, Leopoldo Calvo-Sotelo. Ao grito de "Todos no chão!", soltado pelo líder dos golpistas entre vários tiros intimidatórios, só dois civis se mantiveram sentados nos seus lugares do hemiciclo, sem se sujeitarem ao ditame do pistoleiro: Adolfo Suárez e o então líder comunista, Santiago Carrillo.

Aquele gesto de verticalidade do chefe do Governo cessante no que poderia ter sido o último dia da sua vida fez mais pela pedagogia democrática em Espanha do que mil discursos de cem políticos.

 

Tal como Churchill, despedido pelos eleitores britânicos no Verão de 1945, logo após ter ganho a guerra aos nazis graças à sua coragem inquebrantável, também ele recebeu guia de marcha depois de ter cumprido uma missão que parecia utópica: lançar as bases de uma democracia sólida num país que fora dilacerado pela mais sangrenta guerra civil dos tempos modernos e por quatro décadas de regime ditatorial. Uma das frases que proferiu nesses exemplares anos da transição espanhola podia bem servir-lhe de lema: "Posso prometer e prometo."

Ninguém como ele -- a par do Rei Juan Carlos -- fez tanto para pôr fim às "duas Espanhas" que sempre se encararam com ódio homicida e visceral. Ninguém como ele acabou por ser tão desprezado por ambas -- numa prova evidente de que a política devora muitos dos seus melhores talentos. E só a doença, somada aos dramas familiares que o afectaram, acabou por reabilitá-lo junto de quase todos quando não podia fazer sombra a ninguém.

Nessa altura Adolfo Suárez era já uma espécie de personagem póstuma ainda em vida. Perdeu a memória da missão histórica que desempenhou, deixou de reconhecer até os parentes mais próximos. Quando em 2008 o seu amigo Juan Carlos o visitou na residência madrilena para lhe entregar em mão a mais alta condecoração civil espanhola, limitou-se a perguntar-lhe com aquele sorriso desarmante que conservara de outros tempos: "Quem és tu?"

 

Por vezes questiono-me até que ponto degenerou a política europeia para termos deixado de ver à nossa volta homens com a envergadura de um Adolfo Suárez. Homens tocados por um sentido de elementar decência que os levam a servir da melhor maneira os concidadãos deixando as nações que governam mais respeitadas, mais dignas e mais livres. E que depois se afastam rumo ao crepúsculo, sem aguardarem honrarias nem esperarem o reconhecimento ou até a mais elementar gratidão dos contemporâneos, apesar de terem deixado a sua marca impressa no destino histórico. Bastando-lhes a convicção da missão cumprida e a certeza de terem contribuído para transformar o mundo num lugar mais habitável.

 

Leitura complementar:

Um homem já com lugar na História

Grandezas e misérias da política

As duas Espanhas

Suárez não sonhou com esta Espanha

Autoria e outros dados (tags, etc)

Exilado até na morte

por Pedro Correia, em 28.02.14

 Huber Matos, com Fidel Castro e Camilo Cienfuegos em 1959

 

Huber Matos, um dos heróis da revolução cubana, morreu ontem, aos 95 anos. No exílio, em Miami, onde se encontrava desde 1979, após uma longa detenção nos cárceres castristas. Manteve-se fiel ao ideário por que lutou na Sierra Maestra contra a ditadura de Fulgencio Batista -- ideário logo atraiçoado pela nova ditadura imposta aos cubanos por Fidel Castro.

A 19 de Outubro de 1959 -- apenas dois dias antes de ser encarcerado e a nove dias do desaparecimento de outro herói da revolução, Camilo Cienfuegos, cuja morte permaneceu sempre envolta em mistério -- este antigo professor que comandou a chamada Coluna 9 do Exército Rebelde na quase mítica investida contra Santiago escreveu uma corajosa e premonitória carta a Fidel Castro em que renunciou a todos os cargos e honrarias do novo regime. Uma carta que lhe valeu duas décadas de privação da liberdade.

Vale a pena lê-la: é um documento extraordinário. Escrito por um lutador contra a opressão que soube detectar os primeiros indícios da deriva autocrática do novo regime e que recusava ver uma ditadura substituída por outra: "Es bueno recordar que los grandes hombres comienzan a declinar cuando dejan de ser justos."

 

Pagou um preço duríssimo pela coerência. E por ter ousado dizer em voz alta aquilo que o ditador não tolerava escutar. Foi o primeiro de muitos, condenados à morte cívica pela tirania de Castro -- antes de Cabrera Infante, Carlos Franqui, Heberto Padilla, Virgilio Piñera, Néstor Almendros, Reinaldo Arenas, Norberto Fuentes, Jesús Díaz, Eliseo Alberto, Carlos Alberto Montaner, Raúl Rivero, Zoe Valdés e tantos outros. Nos círculos do regime passaram a chamar-lhe "terrorista anticubano", com a linguagem típica das ditaduras, sempre prontas a instrumentalizar o vocabulário ao serviço da oligarquia dominante.

Os restos mortais de Huber Matos -- exilado até na morte -- só serão depositados em Cuba, por sua vontade expressa, quando a liberdade por que ele tanto lutou ali enfim chegar. Pode ser a passo de tartaruga, como ironiza Yoani Sánchez no seu blogue, mas chegará. Como escreveu Padilla, um dos poetas banidos pela ditadura, "protege-te dos vacilantes / porque um dia saberão o que não querem".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Em louvor de Clement Attlee

por Pedro Correia, em 26.02.14

 Attlee com a mulher, Violet, logo após a vitória eleitoral dos trabalhistas em 1945

 

Clement Richard Attlee (1883-1967) era um homem destituído de carisma. Um esforçado militante de esquerda que, superando inúmeras crises nas suas hostes, alcançou em 1935 a liderança do Partido Trabalhista britânico.

Estavam então no poder os conservadores -- primeiro liderados por Stanley Baldwin, depois por Neville Chamberlain. Quando ocorreu a guerra -- a mais devastadora de todas as guerras -- outro conservador, Winston Churchill, ascendeu à chefia do Governo londrino.

Attlee podia ter-se refugiado na trincheira partidária. Mas não: assumiu uma atitude patriótica, aceitando integrar o executivo liderado por Churchill. Sempre na segunda linha, inicialmente apenas como ministro, depois como vice-primeiro-ministro -- posto até aí inexistente, criado especialmente para ele.

Foi de uma lealdade inquebrantável a Churchill durante os cinco penosos anos de guerra. O governo de unidade nacional -- que integrava ainda os liberais, além dos conservadores e dos trabalhistas -- funcionou sempre como um bloco. Sem que a liderança de Churchill fosse alguma vez discutida, sem que a lealdade de Attlee fosse alguma vez posta em causa.

 

Vencida a guerra, em Maio de 1945, a coligação dissolveu-se e realizaram-se eleições. E os mesmos britânicos que aplaudiram a gestão de Churchill durante o conflito que deixou o Reino Unido depauperado, tanto em vidas humanas como nas finanças públicas, disseram nas urnas que era tempo de confiar a outro político os destinos do país.

Ganhou Attlee, com 47,7%, contra 36% de percentagem atribuída aos conservadores: pela primeira vez o Partido Trabalhista dispunha de uma larga maioria na Câmara dos Comuns. E nos anos seguintes, sob a sua liderança, a esquerda britânica assumiu o poder. Governando com tanta eficácia a Grã-Bretanha em tempo de paz como Churchill a governara nos dias incertos da guerra.

Depois de enterrar os mortos, chegara o tempo de cuidar dos vivos -- como ensinou o nosso Marquês de Pombal. Attlee soube cuidar dos vivos: lançou as bases do Serviço Nacional de Saúde britânico, de base universal e gratuita, alargou a segurança social e delinelou um ambicioso programa de habitação pública -- marcos modelares daquilo a que por estes dias chamamos "Estado Social". De tal maneira modelares que Churchill manteve-os inalterados quando regressou ao poder, em Outubro de 1951.

 

Attlee, o político sem carisma, é hoje recordado como um dos melhores primeiros-ministros britânicos de todos os tempos. Quando morreu, em Outubro de 1967, o Guardian acertou em cheio ao prever que a passagem do tempo só engrandeceria a sua figura. Assim aconteceu. Uma sondagem realizada pelo Times em 2010 considerou-o o mais qualificado de todos quantos governaram no século XX.

 

Porquê?

Porque soube agir em dois tempos, conforme as circunstâncias exigiam: baixou bandeiras partidárias quando era esse o seu dever patriótico no momento em que a soberania britânica estava em risco e foi recompensado por isso com dois mandatos sucessivos que lhe permitiram enfim aplicar o seu programa de vastas reformas sociais. Deixando o país numa situação de pleno emprego e a crescer ao ritmo de 3% ao ano.

 

Por vezes lembro-me de Attlee ao analisar o percurso de certos políticos contemporâneos. E concluo sempre que o seu exemplo ganharia em ser seguido por todos quantos, manifestamente equivocados, ambicionam o máximo para o momento seguinte. Como se não houvesse amanhã. Como se o decurso do tempo funcionasse como adversário e não como aliado. Como se a política não fosse sobretudo um exercício inteligente e laborioso de persuasão e persistência. Como se os livros de História pesassem menos do que as manchetes da manhã seguinte.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Figura internacional de 2013

por Pedro Correia, em 08.01.14

PAPA FRANCISCO

O maior consenso, na votação das figuras e factos de 2013 realizada no DELITO DE OPINIÃO, ocorreu em torno da personalidade internacional do ano. Com a grande maioria dos votos a recair no Papa Francisco, eleito em 2013 no mais inesperado conclave católico dos últimos séculos, convocado de emergência devido à renúncia do Papa Bento XVI.

Ao surgir na varanda principal da Basílica de São Pedro, ao fim da tarde de 13 de Março de 2013, Jorge Mario Bergoglio suscitou espontâneos aplausos. Desde logo ao saudar com esta frase a multidão que o aclamava: "Parece que os cardeais foram buscar-me ao fim do mundo". Uma referência ao facto de vir da Argentina, onde era cardeal de Buenos Aires.

Primeiro Papa oriundo do continente americano, primeiro em dois séculos oriundo do clero não secular, primeiro a escolher o nome Francisco em homenagem expressa a São Francisco de Assis, este jesuíta de 76 anos surpreendeu o mundo com o seu verbo fácil, o seu sorriso franco e os seus gestos inovadores que ultrapassam o plano simbólico. Recusou viver no palácio apostólico do Vaticano, iniciou uma profunda reforma da Cúria, lavou os pés a duas raparigas (uma das quais muçulmana) na semana da Páscoa, foi ao encontro de imigrantes africanos em Lampedusa e recusou limusinas na sua viagem triunfal ao Rio de Janeiro, para encerrar a Jornada Mundial da Juventude.

Em Outubro, divulgou a exortação apostólica Evangelii Gaudium, com críticas aos excessos do actual sistema financeiro dominante à escala planetária: "Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa."

 

Em segundo lugar, na nossa votação, ficou Edward Snowden, o ex-consultor da CIA que tornou públicas as actividades de espionagem ilegal feitas no âmbito da Agência Nacional de Segurança norte-americana - uma denúncia que o levou a exilar-se na Rússia.

Em terceiro ficou Malala Yousafzai, a adolescente paquistanesa que escapou por um triz a um atentado talibã e agora percorre o mundo defendendo o direito à instrução das mulheres nas sociedades ditatoriais islâmicas, tendo recebido o Prémio Sakharov de Direitos Humanos que lhe foi conferido em Novembro pelo Parlamento Europeu.

Houve ainda um voto em Angela Merkel: a chanceler alemã, que saiu vencedora das legislativas de Setembro, já tinha sido eleita pelo DELITO figura internacional em 2010 (ex-aequeo com Julian Assange) e 2011.

Foto Associated Press

Autoria e outros dados (tags, etc)

Figura nacional de 2013

por Pedro Correia, em 08.01.14

RUI MOREIRA

Pela primeira vez uma lista independente (embora com o apoio de um partido, o CDS) venceu uma eleição para uma grande cidade portuguesa, conquistando seis dos 13 mandatos em disputa. Aconteceu no Porto, nas eleições autárquicas de 29 de Setembro, quando Rui Moreira, obtendo 39% dos votos, derrotou o socialista Manuel Pizarro e o social-democrata Luís Filipe Menezes, num dos mais disputados confrontos eleitorais de que ali há memória.

Empresário e dirigente associativo, de 57 anos, Rui Moreira distinguiu-se sobretudo como presidente da Associação Comercial do Porto, sucedendo no município da Invicta ao social-democrata Rui Rio, que cumpriu três mandatos consecutivos. Rio foi, aliás, um dos protagonistas da campanha ao anunciar publicamente que não votaria em Menezes, o candidato oficial do PSD. Uma declaração que facillitou a vitória de Rui Moreira, conhecido adepto do FC Porto e ex-comentador de futebol na RTP.

Fala-se já dele para novos voos políticos, mas por enquanto o novo autarca portuense - que tomou posse a 22 de Outubro e obteve entretanto o apoio do PS para obter maioria nos processos de decisão - promete concentrar todas as energias no trabalho camarário do Porto, a que chamou "cidade livre". Um dos seus primeiros actos como autarca foi normalizar as relações entre o município e o FCP, interrompidas no início do mandato de Rio.

 

Rui Moreira foi considerado a figura nacional de 2013 em votação interna do DELITO DE OPINIÃO, sucedendo a José Mourinho (figura nacional de 2010) e Vítor Gaspar (figura nacional de 2011).

Logo a seguir nesta votação ficou o povo português, no seu conjunto, pelos sacrifícios que enfrenta e a forma como os tem suportado. Em terceiro lugar, o presidente do Tribunal Constitucional, Joaquim Sousa Ribeiro. Seguiu-se Vítor Gaspar, que se demitiu de ministro das Finanças no início de Julho.

Houve ainda votos isolados em Rodrigo Leão, Cristiano Ronaldo, Paulo Valente Gomes e Bruno de Carvalho.

Foto Paulo Pimenta/Público

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um comovido adeus ao padre Lancelote

por Pedro Correia, em 20.06.13

 

Nos meus anos de permanência em Macau, conheci diversas pessoas - oriundas das mais variadas paragens - cuja história dava um filme. Uma dessas pessoas verdadeiramente inconfundíveis era o padre Lancelote Rodrigues. Filho de um português, nascera há 89 anos em Malaca, onde uma comunidade de lusodescendentes ainda se orgulha de honrar o nosso idioma e as nossas tradições, mais de 300 anos após o fim da soberania portuguesa naquele que é hoje um pequeno estado da Federação Malaia.

Lancelote rumou nos anos 40 de Malaca a Macau, onde estudou no seminário de São José, naquela época um centro de formação por excelência na Cidade do Nome de Deus e que durante gerações foi um pólo difusor da cultura portuguesa no Oriente. Tornou-se sacerdote mas nunca ninguém o viu encerrado na sacristia: sociável e folgazão, protagonista de várias tertúlias macaenses, cidadão de corpo inteiro, ajudava os pobres seguindo os preceitos evangélicos e foi um bom samaritano para todos os refugiados que durante mais de três décadas demandaram o território que Portugal administrou no sul da China até Dezembro de 1999.

Muitos dos que trocaram Xangai por Macau no início da década de 50, deixando todos os seus bens naquela cidade após a tomada do poder por Mao Tsé-tung, lhe devem um gesto solidário enquanto capelão. O mesmo sucederia no final dos anos 70, quando cerca de 30 mil boat people fugidos do Vietname demandaram a costa macaense, tendo sido acolhidos em Ka-Hó, na ilha de Coloane, e confiados à tutela atenta e amiga deste padre poliglota, que auxiliava o próximo sem fazer proselitismo religioso, intercalando o português, o inglês e o chinês nas suas frases com a facilidade característica dos verdadeiros poliglotas.

Há pessoas que têm o dom de espalhar alegria em seu redor: pensei nisso muitas vezes ao escutar a gargalhada bem sonora do padre Lancelote, contagiante como poucas. Ou ao ouvi-lo cantar, com o seu vozeirão bem afinado, acompanhado à guitarra, em longos serões de divertido convívio no Clube Militar, na pousada de Coloane ou num dos típicos restaurantes chineses da Rua da Felicidade.

Soube hoje que este homem bom faleceu segunda-feira, após internamento no hospital Kiang Wu. Deixou seguramente Macau mais triste. E Portugal, com esta morte, perdeu um dos melhores embaixadores de que há memória em terras do Oriente.

 

Foto: jornal Ponto Final

Autoria e outros dados (tags, etc)

De cara descoberta e em pé

por Pedro Correia, em 20.06.13

 

É, desde já, uma das imagens icónicas do ano: um jovem de camisa clara e calças escuras, mãos nos bolsos e olhar fixo num retrato descomunal de Atatürk, o fundador da Turquia moderna. Em silêncio num mundo cada vez mais dominado pela vozearia. Em pé, contrastando com as legiões contemporâneas de cidadãos acomodados. Uma espécie de estátua viva à desobediência civil através do mais inesperado dos gestos: o que contesta a força bruta sem exaltação nem agressividade.

Como se lhe bastasse a força da razão. E basta.

 

Esteve assim na segunda-feira durante oito horas este homem, chamado Erdem Gündüz e coreógrafo de profissão. Na praça Taksim, epicentro de todos os protestos na maior cidade turca.

Uma original forma de luta logo copiada por centenas de turcos - em Istambul, Ancara, Antália e outras cidades. Um exemplo de dignidade, carregado de simbolismo.

 

A imagem substitui todas as palavras neste admirável símbolo de resistência cívica, digno de um Gandhi ou um Luther King.

De cara descoberta e em pé, num orgulhoso desafio às forças da desordem. Outros ocultam-se e rastejam: quem tem força moral não.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os resistentes

por Helena Sacadura Cabral, em 24.05.13

 
Aquietem-se, porque não é de política que vou falar. É de homens. Os que guardo nas minhas lembranças. 
Aquietem-se de novo, porque também não é acerca dos meus amores que vou escrever. Esses estão no meu coração, guardadinhos a sete chaves. Vou falar-vos dos homens que estão na minha memória e que embalaram as minhas paixões.
São vários. Na música, quatro: Sinatra, Montand, Cohen e Aznavour. Georges Moustaki é da mesma fornada mas não ocupava o lugar dos outros. Vinha na segunda linha. Acaba de morrer. Ficará o registo da sua voz, já que o da imagem se degradou muito. Quando veio a Lisboa já era um velho. Ao contrário dos outros dois vivos que citei, nos quais o passar dos anos foi menos cruel.
No cinema Redford mantém-se entre aqueles por quem a minha pressão sanguínea acelerou. E vou ficar triste, se ele partir antes de mim.
Estas figuras contam nas suas rugas - e ainda há quem queira apaga-las! - a história de um meio século, ao qual eu tive a sorte de pertencer. As vozes, essas, com os olhos fechados, eu distinguiria qualquer delas à distância.
Redford, no meu caso, personifica "aquele" homem com quem se tem o direito de sonhar. Aos vinte, aos trinta, aos cinquenta, aos noventa! Felizmente, o coração só envelhece nos electrocardiogramas...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Margaret Thatcher: as ideias contam

por Pedro Correia, em 17.04.13

 

«She redefined leadership.»

Editorial do Financial Times, 9 de Abril

  

Ao fazer o elogio fúnebre de Margaret Thatcher na Câmara dos Comuns, com uma elegância perante os adversários políticos em que os britânicos são exímios, o líder trabalhista Ed Miliband prestou-lhe o maior dos tributos ao declarar: «As ideias contam.»

De facto, em política as ideias contam. E Margaret Thatcher nunca as ocultou. Os eleitores que lhe deram três grandes vitórias eleitorais sabiam em quem votavam e as consequências do seu voto. Foi precursora da globalização ao advogar a liberdade dos mercados. Vitoriosa na Guerra Fria, contribuiu para a derrocada do "socialismo real". Influente na Europa, recusou com firmeza as políticas federalistas, incluindo a moeda única.

Sim, ela pôs as ideias em primeiro lugar. Ela pertencia a um tempo em que a política precedia tudo o resto na acção governativa, em que havia escolhas claras nas urnas - um tempo de esquerda e direita que se combatiam com frontalidade e lealdade, não a direita liofilizada e a esquerda descafeinada que surgiram depois, quase gémeas siamesas, cada qual copiando o projecto da outra ao ponto de quase se confundirem.

  

 

Thatcher, primeira mulher a ascender à chefia de um Executivo na Europa, ultrapassando em longevidade governativa todos os restantes primeiros-ministros britânicos no século XX, era inconfundível com qualquer dos adversários trabalhistas que defrontou nas urnas - James Callaghan em 1979, Michael Foot em 1983 e Neil Kinnock em 1987. Chegou ao poder em Maio de 1979, com 53 anos, dizendo claramente ao que vinha: devolver ao Reino Unido (a que ela chama sempre Britain, com entoação orgulhosa) a prosperidade económica e o prestígio internacional entretanto perdidos, combater a influência soviética no mundo e reforçar a parceria atlântica com os Estados Unidos, evitando a sujeição do seu país ao federalismo europeu e àquilo a que designava desdenhosamente de "burocracia de Bruxelas".

 

Houve sombras no seu mandato, como sempre sucede em mandatos longos. Os adversários acusaram-na de insensibilidade social - e muitas vezes tinham razão. Foi incapaz de solucionar o bloqueio político na Irlanda do Norte - e ainda hoje causa perplexidade a forma impiedosa como deixou morrer na prisão alguns grevistas de fome que militavam no IRA, incluindo Bobby Sands. Não faltou, dentro das próprias fileiras conservadoras, quem a criticasse por ser arrogante - e nada podia estar mais certo. 

Já aos dez anos, ao vencer um concurso de poesia na escola, a pequena Maggie revelava essa faceta da sua personalidade: ao entregar-lhe o prémio, a professora elogiou-a por ser uma miúda "com sorte". Réplica imediata da visada: "Eu não tive sorte. Eu mereci este prémio." Mais tarde, aos seus compatriotas, nunca se cansou de referir que nada se alcança sem esforço.

 

  

No essencial, Margaret Hilda Roberts Thatcher, cujo funeral decorreu esta manhã com honras de Estado em Londres, teve razão. Contra a esquerda sua contemporânea, que demasiadas vezes a contestou por razões erradas e viria a adoptar boa parte do seu legado.

Teve razão ao fazer recuar as fronteiras de um Estado ineficaz e tentacular, que mergulhara o Reino Unido num longo Inverno recessivo, abrindo espaço à iniciativa privada. 

Teve razão ao recusar manter o aparelho estatal como motor da economia, pondo fim ao ciclo inflacionista que conduzira o país à ruína económica e transformando Londres num baluarte do sistema financeiro internacional. 

Teve razão ao combater com tenacidade os velhos dinossauros comunistas na Europa de Leste enquanto encorajava a acção reformista de Gorbatchov em Moscovo, dizendo ao mundo que ele era um homem com quem se podia "trabalhar": sem a sua firmeza diplomática, talvez o Muro de Berlim não tivesse caído tão cedo. 

Teve razão ao insurgir-se contra o centralismo de Bruxelas, ao recusar a diluição da libra esterlina no sistema monetário europeu e ao lançar repetidos alertas contra a Europa federal, em defesa do Estado-nação: o pesadelo em que se transformou a União Europeia dirigida por burocratas sem visão política acabou por dar razão às suas advertências. 

Teve razão ainda ao defender com firmeza a soberania britânica nas Malvinas, correspondendo ao desejo quase unânime dos habitantes do arquipélago, e ao enfrentar a política de canhoneira do general Galtieri, na altura apoiada por muitas vozes "progressistas" na Europa em nome do anticolonialismo. A vitória militar britânica no Atlântico Sul permitiu que a Argentina se libertasse enfim daquela que foi provavelmente a mais repugnante de todas as ditaduras militares da América do Sul. 

 

 Raros políticos emprestaram o seu nome ao vocabulário comum. Aconteceu com Margaret Thatcher: o thatcherismo foi um vocábulo que entrou no dicionário. Definindo, no essencial, um conceito que alarga as fronteiras da liberdade: também aqui ela esteve no lado certo. "Não pode haver liberdade sem liberdade económica", declarou num dos seus discursos esta filha de um merceeiro de província que na infância morou numa casa sem WC interno nem água corrente. 

"Ela transformou toda a economia britânica do lado da oferta", observou Patrick Minford, professor de Economia em Cardiff. Quando Thatcher deixou Downing Street em Novembro de 1990, empurrada pelos barões do seu partido e não pelos eleitores, o número de accionistas privados no país subira de 3 para 12 milhões e a inflação caíra de 22% para 4%. O crescimento anual médio do Reino Unido, nesses 11 anos, foi de 2,3% - o aumento real do PIB cifrou-se em 4% em 1986, 4,6% em 1987 e 5% em 1988. "Entre 1980 e 2000, registou-se o primeiro período em que o PIB per capita do Reino Unido cresceu mais do que em qualquer outra grande economia europeia desde o século XIX", sublinhava há dias Martin Wolf no Financial Times

Escolhas políticas claras somadas ao sucesso económico: não admira que o prestigiado The Times tenha votado nela como a quinta melhor chefe do Governo britânico, entre 50, desde o século XVIII (logo atrás de Churchill, Lloyd George, Gladstone e William Pitt). Quando chegou ao poder, o Reino Unido vivia mergulhado na decadência social e na asfixia económica. Com ela, recuperou a sua voz autorizada e prestigiada na cena política internacional. 

 

"Ela será sempre para nós, polacos, um ícone do mundo livre e da luta pela liberdade", disse o eurodeputado polaco Jacek Saryusz-Wolski em declarações difundidas pela Euronews neste dia em que o funeral da antiga Dama de Ferro decorreu na presença de representantes de 170 países e com 1200 jornalistas credenciados para esse efeito em Londres. 

Um dos seus adversários políticos, o ex-primeiro-ministro trabalhista Tony Blair (1997-2007), foi um dos primeiros a prestar-lhe homenagem com estas palavras divulgadas mal foi conhecida a morte da sua antecessora, a 8 de Abril: "Muito poucos líderes conseguem mudar não só o panorama político do seu país mas do próprio mundo. Margaret Thatcher foi um desses líderes. E algumas das mudanças que introduziu na Grã-Bretanha foram, pelo menos em certas áreas, mantidas pelo Governo trabalhista a partir de 1997 e foram adoptadas por governos de todo o mundo." 

Não por acaso, quando certa vez perguntaram à mulher que derrubou Galtieri qual havia sido a maior marca do seu mandato, ela respondeu com humor tipicamente britânico: "Tony Blair." 

As ideias contam, afinal.

Publicado também aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

Margaret Thatcher 1925-2013.

por Luís Menezes Leitão, em 08.04.13

 

Faleceu hoje uma das personalidades mais marcantes de todo o séc. XX. Margaret Thatcher foi o exemplo de alguém que soube impor ao mundo as suas convicções, ao mesmo tempo que defendeu sem esmorecer o interesse do seu país. Não hesitou em combater e derrotar os generais argentinos, que se tinham atrevido a atacar as Malvinas sem aviso. Exigiu a devolução do cheque britânico à Comunidade Europeia, obrigando Delors, a quem ela chamava o líder dos funcionários não eleitos, a ceder. E no fim soube opor-se à entrada da Grã-Bretanha no euro, avisando que a Europa só teria uma moeda única quando desaparecesse a Câmara dos Comuns. Nenhum inimigo externo a vencia, pelo que apenas caiu pela desistência dos seus próprios seguidores, que a quiseram substituir por um John Major sem chama. Quando hoje assistimos a governantes sem qualquer convicção, totalmente submissos a imposições externas, temos saudades de personalidades como Margaret Thatcher. Afinal se a Grã-Bretanha não entrou na armadilha do euro que sufoca toda a Europa é a ela que o deve.

 

A melhor homenagem que lhe foi feita consistiu no nome Dama de Ferro, que curiosamente lhe foi atribuído pelos russos quando ainda era líder da oposição, devido à violência dos ataques que lhes deferia. Ela não hesitou em assumir o epíteto: "Os meus inimigos chamaram-me Dama de Ferro. Estão absolutamente certos. Sou-o mesmo". Dificilmente a Grã-Bretanha voltará a ter um líder dessa grandeza. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma baixa de peso

por Laura Ramos, em 20.12.12


Paulo Varela Gomes dá neste momento a sua Última Lição.
'Do sublime em arquitectura'.
Olho este anfiteatro e, mais do que nele, penso sobretudo nos outros, os muitos que aqui se apinham e são os que verdadeiramente ficarão privados de qualquer coisa de vulto, porque não vão poder mais contar com a pedagogia do mestre: impaciente, perfeccionista, rebelde, exagerado, incessantemente à procura da verdade e concluindo, desafrontadamente, pela incerteza dos cânones e pelos antagonismos da realidade.
Mas que deixarão de poder contar, acima de tudo, com a pedagogia do homem: pragmático e no entanto utópico, lutando contra as injustiças, os abusos, a gritante imperfeição do comodismo.
Sim, esta assembleia é, verdadeiramente, a despojada, porque um professor como ele marca, sobretudo, ao ensinar a pensar de maneira diferente, a alimentar a dúvida, a dasafiar os limites.

Quantos restarão como ele?...

Um dos apresentantes diz, com infinita graça, que a aula que se segue irá de certeza ser uma anti-aula. Porque, como sempre, o Paulo acabará por provar, no fim, e tudo dito, que o seu contrário também poderia ser verdadeiro.

 

Esta não será, naturalmente, a sua última lição.
Espero que os jornais e as televisões se voltem a lembrar dele.

Urgentemente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Parabéns, Agustina

por Pedro Correia, em 15.10.12

 

É uma data marcante para a cultura portuguesa: Agustina Bessa-Luís faz 90 anos e, embora doente, encontra-se entre nós. A melhor prenda de aniversário que lhe poderíamos dar hoje seria ler algumas das muitas páginas que nos legou em mais de meia centena de livros. Lamentavelmente, isso quase só pode acontecer recorrendo a edições antigas, em certos casos mesmo apenas junto de alfarrabistas: a nossa maior escritora viva deixou de ter uma editora à medida do seu prestígio. Não há títulos seus em livros de bolso, a preços acessíveis. E, muito pior, a assumida divulgação das suas obras completas não passou afinal de um projecto abortado.

A história, relatada com minúcia aqui, devia envergonhar quem lhe fez promessas que não cumpriu. No fundo, envergonha-nos a todos. Por ser este também, de alguma forma, um certo retrato de Portugal - um país que nunca soube apreciar devidamente os seus talentos.

Parabéns, Dona Agustina. Eu vou lê-la hoje, dê por onde der.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Como se a Lua estivesse de luto

por Pedro Correia, em 26.08.12

 

A infância desaparece-nos definitivamente quando vemos partir os nossos primeiros e mais remotos heróis. Eu cresci num mundo onde alguns me garantiam já não haver heróis. Nada mais disparatado: nunca duvidei que havia heróis e Neil Armstrong - o primeiro homem a pisar a Lua, naquele inesquecível mês de Julho de 1969 - sempre foi um deles. Num certo sentido, foi o herói - assim mesmo, com artigo definido. Não havia nenhum que se lhe equiparasse. Nem haverá. O que restava da minha infância eclipsou-se ontem, com a inesperada morte do astronauta norte-americano que liderou a missão da Apolo XI.

Sinto-me de luto. Era de noite quando me chegou a notícia: procurei a Lua no céu e não a encontrei. Como se ela estivesse de luto também.

Autoria e outros dados (tags, etc)

No centenário de Nelson Rodrigues

por Pedro Correia, em 23.08.12

 

Ironias do acaso: escassos dias depois da comemoração do centenário do nascimento de Jorge Amado, assinala-se hoje nova efeméride em torno de outra grande figura das letras brasileiras. Nelson Rodrigues, nascido a 23 de Agosto de 1912 no Recife e falecido no Rio de Janeiro 68 anos mais tarde, a 21 de Dezembro de 1980, é um extraordinário prosador do nosso idioma. O seu legado, durante mais de meio século de escrita torrencial, a um ritmo avassalador, não está ainda devidamente catalogado. "É provável que nenhum outro escritor brasileiro tenha produzido tanto", assinala o seu biógrafo e principal antologiador, Ruy Castro, sem esconder o fascínio por este jornalista que foi um polemista impenitente, um dramaturgo inconfundível e um transbordante produtor de pensamentos em fórmulas incisivas que não perdem actualidade.

"O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza", sublinhava este leitor compulsivo de Eça de Queirós. Nelson Rodrigues trouxe à língua portuguesa o fogo da paixão que punha em cada linha da sua lavra. Amava e odiava do mesmo modo desmesurado. Não renegava os adjectivos, antes pelo contrário, mas insuflava-os de um vigor semântico habitualmente reservado aos substantivos. Coerente com esta perspectiva era a sua peculiar visão do jornalismo. Em sentenças como esta: "A crónica policial piorou porque os repórteres de hoje não mentem." Ou esta: "Ai do repórter que for um reles e subserviente reprodutor do facto. A arte jornalística consiste em pentear ou desgrenhar o acontecimento e, de qualquer forma, negar a sua imagem autêntica e alvar." Poucos conheciam tão bem os jornais por dentro como este "génio da rotina", designação atribuída por O Globo, diário em que colaborou nos últimos 18 anos de vida, até ao próprio mês em que morreu.

 

Era assim em tudo. A sua própria biografia o confirma. Uma biografia que se lê como um romance porque a vida verdadeira de Nelson Falcão Rodrigues, nascido sob signo Virgem e adepto fanático do Fluminense, imitou muitas obras de ficção. Leiam O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro: está lá o retrato, vivo e impressivo, de um homem multifacetado, intempestivo, por vezes terno, outras vezes colérico, demasiadas vezes incoerente, eterno romântico, marcado por uma sucessão de dramas familiares e quase sempre tocado pelo génio que lhe incendiava a escrita. Um homem a quem muitos acusavam de "tarado" ou "imoral", que reconhecia ser um "reaccionário" e dizia de si próprio: "Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino."

Foi um cronista excepcional, nado e criado num país que inventou e popularizou a crónica jornalística e a tornou uma insubstituível disciplina da literatura - com pares imensos neste género, como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade e Millôr Fernandes. Tinha um estilo muito próprio, que forjou uma legião de imitadores, caracterizado pela constante repetição de ideias, metáforas e expressões como "grã-fina com narinas de cadáver", "padre de passeata" ou "tempestades do quinto acto do Rigoletto". E também pelo diálogo sincopado com o leitor, transformado em seu cúmplice involuntário e permanente.

 

Foi igualmente um inultrapassável produtor de frases que nos perduram na memória. Citando ainda Ruy Castro, com toda a justiça: "Ele é talvez o maior frasista da língua portuguesa."

Aqui ficam algumas:

«Deus está nas coincidências.»

«Todo amor é eterno e, se acaba, não era amor.»

«Todas as vaias são boas, inclusive as más.»

«Todo tímido é candidato a um crime sexual.»

«A cama é um móvel metafísico.»

«Dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.»

«Só o inimigo não trai nunca.»

«Só os imbecis têm medo do ridículo.»

«Na vida, o importante é fracassar.»

«Invejo a burrice, porque é eterna.»

 

Idolatrado pelas gerações mais jovens, enfastiadas com o estilo entorpecente e a prosa insípida dos amanuenses da escrita, Nelson Rodrigues conseguiu ver incorporadas expressões da sua lavra na linguagem comum, tornando-as património universal da língua portuguesa. Expressões como "toda unanimidade é burra", "óbvio ululante" e "um calor de derreter catedrais".

Faleceu num domingo, vítima de uma trombose. Nesse preciso dia, horas depois, ganhou o totobola brasileiro: as suas previsões bateram certo. Se sobrevivesse, seria rico - algo que nunca lhe aconteceu em vida. Até na morte a sua figura ganhou contornos de personagem de ficção. Como as que ele criou para peças tão controversas como O Beijo no Asfalto e Toda Nudez Será Castigada.

A morte, tal como o amor, é tema omnipresente na sua obra. Dizia ele que "a morte natural é própria dos medíocres". E fornecia abundantes exemplos em abono da sua tese: Lincoln, Gandhi, John Fitzgerald Kennedy. "O grande homem sempre morre tragicamente."

Paradoxo suplementar num homem que soube cultivar contradições como ninguém: em dia de centenário, 32 anos após a sua morte, Nelson Rodrigues ainda é a cara do Brasil real. Que melhor homenagem pode haver a um escritor do que esta? 

 

Publicado também aqui

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Corte na aldeia

por Laura Ramos, em 13.07.12


Por esta altura decorrem as festas da cidade. É fácil alhearmo-nos. O som e a alacridade são os mesmos de sempre, as procissões de ida e volta entre as margens do Mondego agregam, inexplicavelmente, os milhares de caminhantes do costume. O kitsch desfila em apontamentos repetidos de diversos tamanhos, às centenas, erráticos e sem um trilho cénico, alienígenos, incompreensíveis e pungentes: são as Rainhas Santas de todas as idades, desde as que vão ao colo às que percorrem a pé as pedras tortas da calçada, novas, maduras, gordas, magras. De negro ou rosa vivo, emolduradas em véus de tule hirto e vestes com galões de debrum de ouro, baratucho.
Nem faltam Dons Dinises…

Mesmo assim houve este ano o bom gosto de reduzir o tempo dos fogos-de-artifício: nem se deu pão, nem circo, quando a austeridade assola todos por igual.

E até o anfitrião temporário  da imagem (aquela belíssima escultura de Teixeira Lopes) não se furtou a invectivar os tempos, pondo os dedos nas feridas sem dó nem piedade.

Tudo pesado, neste culto, vejo que há coisas - coisas ditas menores - que são de facto maiores do que todos nós.

E eu gosto de ter por padroeira uma mulher.

Isabel de Portugal, à parte o seu carisma milagreiro herdado, enredo incluído, da sua tia-avó Isabel da Hungria, foi uma pessoa admirável.

De carne e osso, incansável obreira, recidiva infractora, incorrigível na sua liberdade de, como hoje se diria, ser solidária.
Provocadoramente, até merecer castigo e a reprovação do clero que enfrentou, desafiando sem medo a cristandade oficial, foi compassiva, sim, mas foi activa, interventora e até diplomata ao evitar, de facto, diversas guerras fratricidas.

 


"Levava uma vez a Rainha Santa moedas no regaço para dar aos pobres, / Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava, / ela disse, levo aqui rosas. E rosas viu el-Rei não sendo tempo delas".

Por mim, prefiro ver nesta lenda o registo de uma falsa candura que a sua inteligência soube apresentar à oficialidade assim, desta maneira:

- Tomem lá o que querem, a minha passividade. Vede rosas, Senhor...
E foi à sua vida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Brian Wilson: e vão setenta

por Pedro Correia, em 20.06.12

 

Dois dias depois de Paul McCartney, que não esquecemos, o grande Brian Wilson festeja hoje 70 anos. Aqui fica, como prenda do DELITO, esta homenagem musical que lhe foi feita em 1990 pela banda canadiana Bare Naked Ladies.

Dois génios do signo Gémeos. Dois gigantes da música popular, ambos felizmente ainda no activo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nossos (17)

por Rui Rocha, em 24.04.12

 Miguel Portas, maior do que a vida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

O Atlântico Sul

por Helena Sacadura Cabral, em 23.04.12

Passaram hoje 90 anos sobre a travessia do Atlântico Sul. A Marinha e a Aviação comemoraram a data e convidaram os familiares próximos. Sacadura Cabral era o irmão mais velho de meu Pai e um homem de que toda a família se orgulha. Não só pelo feito glorioso mas, sobretudo, pelas qualidades humanas que possuía e que fizeram com que, após a morte de meu avô, tenha tomado a seu cargo os onze irmãos que ficaram órfãos. Foi por isso, com muita satisfação, que estive presente na cerimónia, honrando um nome que é o meu e o de alguém que, para nós, foi sempre uma figura exemplar!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nossos (13)

por Helena Sacadura Cabral, em 03.04.12

David Fonseca,compositor e cantor cheio de talento.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Viver é desenhar sem borracha"

por Pedro Correia, em 02.04.12

 

Millôr Fernandes foi talvez o primeiro escritor brasileiro com quem travei conhecimento, ainda criança, através da secção 'Pif Paf', do Diário Popular. Eu era ainda muito miúdo mas já tinha o gosto dos jornais: no cinzento Portugal pré-25 de Abril, as prosas de Millôr (nome que não tardei a fixar), as piadas de Millôr, os bonecos de Millôr tinham um colorido muito próprio. Sendo brasileiro, era um autor universal. E um cultor inigualável do nosso idioma, além de um genial produtor de frases que tinham um duplo condão: faziam-nos sorrir e faziam-nos pensar.

Os últimos textos que li dele foram na Veja, onde tinha há muito uma página com nome próprio. Sem nunca perder a irreverência, sem nunca perder a verve. A idade aguçou-lhe o engenho, a malícia, a arte do trocadilho inteligente que tantas vezes lhe permitiu fintar a feroz censura das décadas de 60 e 70.

 


Tenho anotadas nos meus cadernos várias frases dele. Eis algumas:

«Deus fez o mundo. O homem o faz imundo.»

«Nunca ninguém perdeu dinheiro apostando na desonestidade.»

«Hay gobierno, soy contra. No hay gobierno, también soy.»

«Todo governo é um acto de depravação.»

«Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.»

«Fiquem tranquilos os que estão no poder - nenhum humorista atira para matar.»

«Jamais diga uma mentira que não possa provar.»

«O que vive repetindo a palavra indubitável é, indubitavelmente, um mentiroso.»

«Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que nas mulheres fica muito melhor.»

«O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde.»

«O homem é um animal inviável. Graças a Deus. Senão o mundo seria de uma monotonia insuportável.»

«Claro que não se pode evitar o nascimento nem a morte. Mas não dá para melhorar um pouco o intervalo?»

 

 

Millôr, o homem que a sorrir nos fazia pensar. O homem que nos ensinou que "viver é desenhar sem borracha". O homem que parecia eternamente jovem deixou-nos há dias, aos 88 anos. Despeço-me dele quase como de uma pessoa de família: há 40 anos que o lia - sempre com gosto, sempre com prazer, sempre com proveito. Procuro um obituário digno desse nome na imprensa portuguesa e quase nada encontro - a excepção, nesta busca não exaustiva, é um bom texto de Isabel Coutinho no Público. Quase tudo o resto é prosa seca e árida e estéril, misto de agência e wikipédia, corta-e-cola, repetindo os mesmos factos, os mesmos dados. Sem emoção, sem brilho, sem colorido, sem sombra de graça.

Millôr merecia mais. Merecia melhor do que estes parágrafos de amanuenses produzidos provavelmente por quem nunca o leu. Nem se sentiu mais pobre de espírito por causa disso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nossos (10)

por Helena Sacadura Cabral, em 01.04.12

 

 Laurent Filipe, músico e trompetista.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nossos (9)

por Helena Sacadura Cabral, em 01.04.12

 

Bernardo Sassetti, músico e pianista de eleição.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cada vez melhores(18)

por Helena Sacadura Cabral, em 24.03.12

 

                                                      Juliette Gréco resiste

Autoria e outros dados (tags, etc)

Eduardo Lourenço

por Patrícia Reis, em 01.03.12

Já muito se escreveu e disse sobre a excelência de pensamento de Eduardo Lourenço. Não será esse o enfoque deste texto, acredito que existam pessoas que o possam fazer, no entanto o que me importa é realçar a sua extrema humanidade.
Porque gosto tanto dele? Gosto de o ouvir falar, pensar alto, da sua boa disposição.
É com alegria e respeito que o trato por “mestre”, como antigamente se fazia. E não sou a única, asseguro. Diz ele que muitas vezes não sabe o que dizer, pedem-lhe para pensar e escrever sobre tudo, esquecendo-se da idade a que já chegou. Respondo-lhe sempre que não tem idade e que precisamos muito de o ouvir. Um dia, terá desabafado algo deste calibre: “Caramba, eu até posso escrever sobre Fernando Pessoa, estudei para isso, mas sobre futebol? Ou sobre a Amália? Francamente, não sou uma máquina de debitar.”  Quem ouviu riu-se e concordou.
É fácil falar com Eduardo Lourenço e maravilhoso ver como os mais jovens ficam presos à história que, sabiamente, conta com alguns pormenores, mas sempre com a “cenoura” necessária para manter o interesse, para se deixar fixar por todos aqueles que o ouvem.
Leio Eduardo Lourenço há 23 anos. Sei a data exacta por ser a data da minha carteira profissional de jornalista. Quando me pediram para o entrevistar, tinha eu 19 anos, recusei. Disse ao meu director de jornal da época: “É areia a mais para a minha camioneta.” Mais tarde - muito mais tarde - contei este episódio ao mestre e ele exclamou, divertido: “Que pena! Eu não meto medo a ninguém e tão-pouco sou um camião, não há cá areia. Ideias... Às vezes.” Desta feita foi ele que se riu. E eu com ele.
Tenho por Eduardo Lourenço, como já se percebeu, não apenas admiração intelectual, mas uma ternura imensa. Gosto de ficar com as suas mãos nas minhas enquanto me conta qualquer episódio e considero um privilégio conhecê-lo, ter essa possibilidade de falar com alguém que, independentemente da idade, pensa sempre fora da caixa.

 

29-11-2011 (este texto foi publicado na revista das Correntes d'Escrita 2012, toda dedicada ao mestre)

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Rainha

por Pedro Correia, em 05.02.12

 

"A dissimulação é a ciência dos reis."

Richelieu

 

Quando ela ascendeu ao mais alto cargo do seu país, José Estaline era ainda o senhor absoluto da Rússia vermelha. Nos Estados Unidos, mandava Harry Truman, então sem saber o que fazer dos soldados atascados no inferno da Coreia. E na Grã-Bretanha o primeiro-ministro era Winston Churchill, herói da guerra.

Ela viu tudo, ouviu todos. Quando se sentou no trono herdado de seu pai, Mao Tsé-Tung mandava na China continental, Chiang Kai-Shek pontificava na Formosa, Hirohito mantinha-se como imperador do Japão mesmo após a rendição do seu país aos pés do general Douglas MacArthur. Havia nessa altura outros imperadores no mundo: Hailé Selassié na Etiópia, o xá Reza Pahlevi no Irão. As monarquias eram em número bem superior ao actual: havia-as da Grécia (com o rei Paulo) ao Egipto (com o rei Faruk). E até na Líbia do rei Idris, que um tal coronel Kadhafi viria a derrubar 17 anos mais tarde, em 1969.
 
Nesse mês de Fevereiro de 1952, quando a jovem Isabel se tornou Rainha da Grã-Bretanha, com apenas 25 anos, o planeta era governado por figuras que hoje têm lugar garantido nos livros de História: Sukarno na Indonésia, Perón na Argentina, Tito na Jugoslávia, Franco na Espanha, Nehru na Índia, Ben-Gurion em Israel, Getúlio Vargas no Brasil, Salazar em Portugal. Conheceu muitos deles, numa sucessão de encontros ao longo de 56 anos – tempo suficiente para ter visto aparecer e desaparecer Elvis Presley, os Beatles e os Pink Floyd. Coexistiu com seis Papas (Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI), oito presidentes franceses (Vincent Auriol, René Coty, De Gaulle, Pompidou, Giscard d’Eistang, Mitterrand, Chirac e Sarkozy), oito chanceleres alemães (Adenauer, Erhard, Kiesinger, Willy Brandt, Helmut Schmidt, Kohl, Schroeder e Angela Merkel), 12 presidentes norte-americanos (Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho e agora Obama). E 18 chefes do Estado brasileiros – de Getúlio a Dilma. E oito presidentes de Portugal (Craveiro Lopes, Américo Thomaz, Spínola, Costa Gomes, Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva) e 17 primeiros-ministros portugueses, da ditadura ao actual regime constitucional, passando pelo período revolucionário, onde em menos de dois anos houve seis Executivos.
 
Sábia, serena, sibilina, Isabel II foi reinando ao longo de todo este tempo de convulsões no mundo. Assistiu a guerras no Congo, no Vietname, no Biafra, no Médio Oriente e nos Balcãs. Testemunhou a descolonização de África, a chegada do homem à Lua, o desmoronar do bloco soviético. Viu as monarquias chegarem ao fim em países tão diferentes como o Iraque, o Afeganistão e o Nepal. Trabalhou com 12 primeiros-ministros – oito conservadores (Churchill, Anthony Eden, Harold MacMillan, Alec Douglas-Home, Edward Heath, Margaret Thatcher, John Major e David Cameron) e quatro trabalhistas (Harold Wilson, James Callaghan, Tony Blair e Gordon Brown).
Churchill não escondeu a ternura paternal que sentia pela jovem monarca. Ela retribuía-lhe a simpatia, sem quebrar o rígido dever de imparcialidade que os costumes do reino lhe impõem, mas não falta quem garanta que o primeiro-ministro favorito dela foi Harold Wilson, com os seus ares de filósofo de cachimbo na swinging London dos anos 60. E que Thatcher terá sido a líder do governo que mais detestou. A verdade sobre isto e tudo o resto não será apurada num livro de memórias com selo real. Isabel II, a monarca britânica que mais anos reinou desde a Rainha Vitória, nunca escreverá esse livro.
Num mundo em mutação, onde tudo passa, tudo se esgota e tudo se esquece, ela é uma referência de estabilidade. Lembramo-nos dela desde sempre, são já poucos os que conheceram outro chefe do Estado no Reino Unido. O tempo dela foi sulcado por todas as modas – do chapéu de coco ao punk, passando pela mini-saia de Mary Quant. Só ela nunca passou de moda.
 
O que sente, o que pensa, o que esconde? Só ela sabe: por detrás do suave sorriso protocolar, subsiste a esfinge nesta monarca que ninguém tem a ilusão de conhecer. "A dissimulação é a ciência dos reis", dizia o cardeal Richelieu. Uma legenda que bem se aplica a Isabel II, Rainha do Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Jamaica, Barbados, Bahamas, Granada, Papuásia-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tuvalu, Santa Lúcia, São Vicente e as Granadinas, Belize, Antígua e Barbuda, e Saint Kitts and Nevis.
 
Isabel II subiu ao trono a 6 de Fevereiro de 1952, por morte de seu pai, Jorge VI. Faz amanhã 60 anos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não há paz sem liberdade

por Pedro Correia, em 15.01.12

 

Não há paz sem liberdade. E não há liberdade sem esperança. Um político de excepção vislumbra motivos de esperança mesmo entres os clarins da guerra. Um desses políticos foi Abraham Lincoln, autor da mais memorável mensagem de esperança, proferida em plena Guerra Civil norte-americana, a 19 de Novembro de 1863.

Foi o chamado Discurso de Gettysburg: demorou apenas cerca de três minutos. Três parágrafos, 255 palavras - não era necessária nenhuma mais. As forças da União haviam ali derrotado quatro meses antes o insurgente exército confederado do Sul que se batia contra a abolição do esclavagismo, cortando amarras com a política humanista do Norte. Mas Lincoln, embora galvanizado por essa vitória militar recente, pôs de lado a retórica triunfalista e deixou no cemitério local um apelo digno de um estadista: "Compete-nos a nós, os sobreviventes, garantir que aqueles que caíram no campo de batalha não morreram em vão e que nesta nação, sob os auspícios de Deus, renasça a liberdade - e que o governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareça da face da Terra."

Cem anos mais tarde, este discurso teria sequência num outro, proferido junto ao Memorial Lincoln, em Washington, por Martin Luther King. "Tenho o sonho de que um dia esta nação se erguerá e viverá o significado autêntico do seu credo -- termos por verdade evidente que todos os homens foram criados iguais. Tenho um sonho -- o sonho de que um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos donos de escravos se sentarão juntos à mesa da fraternidade", declarou o reverendo justamente distinguido em 1964 com o Nobel da Paz.

No tempo de Abraham Lincoln ainda não havia Nobel. Mas ele tê-lo-ia merecido, mais do que todos os presidentes americanos que viriam a ser galardoados no século e meio seguinte -- de Theodore Roosevelt a Barack Obama. Pela força inspiradora do seu exemplo. Pela eloquência dos seus vibrantes apelos em defesa da dignidade humana. Pela tenacidade e pela coragem de que deu provas no cumprimento de um ideal: nenhum ser humano merece ser condenado à escravatura. Um ideal que lhe custou a vida: Lincoln viria a ser assassinado em 1865. Mas o seu apelo de Gettysburg ainda hoje ecoa -- nos Estados Unidos e no mundo.

Publicado também aqui

Imagem: Luther King no Memorial de Lincoln, em Washington (1963)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Figura internacional de 2011

por Pedro Correia, em 02.01.12

 

ANGELA MERKEL

A tradição ainda é o que era: Angela Merkel repetiu em 2011 o protagonismo como figura do ano que já tivera no ano anterior, segundo o critério da equipa do DELITO DE OPINIÃO. Com uma diferença: desta vez a líder do Governo alemão venceu isoladamente (em 2010 fora designada ex-aequeo com o responsável máximo da WikiLeaks, Julian Assange).

A vitória da Senhora Europa -- como lhe chamam cada vez mais os analistas políticos, dentro e fora do Velho Continente -- foi categórica: 14 votos, mais dez do que os obtidos pelo fundador da Apple, Steve Jobs, falecido em 2011, aos 55 anos. Mereceram ainda destaque a Presidente brasileira Dilma Rousseff (três votos), primeira mulher a ocupar o Palácio do Planalto, e o jovem tunisino Mohamed Bouazizi (um voto), cuja morte -- em 4 de Janeiro de 2011 -- funcionou como detonador das revoltas árabes que varreram o Magrebe e o Médio Oriente no ano que terminou.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Figura nacional de 2011

por Pedro Correia, em 01.01.12

 

VÍTOR GASPAR

Ilustre desconhecido da generalidade dos portugueses até há seis meses, o ministro das Finanças tornou-se uma figura dominante da cena política nacional no último semestre de 2011, suplantando todos os outros protagonistas, na opinião da maioria dos membros do DELITO DE OPINIÃO, na já tradicional votação em jeito de balanço do ano que terminou. Pelas severas medidas de austeridade que determinou em resposta à situação de emergência que levou o anterior Executivo a solicitar auxílio internacional. E também pelo seu original estilo de comunicar com os portugueses. Inconfundível, embora não inimitável.

Vítor Gaspar, com dez votos, destacou-se largamente, passando a ocupar o posto que em 2010 os autores do DELITO reservaram a José Mourinho. Em segundo lugar, com três votos, ficou a nova presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, a primeira mulher a ocupar o segundo posto mais relevante do Estado português. Dois votos recaíram no primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, vencedor das legislativas de 5 de Junho, e outros dois no ensaísta Eduardo Lourenço, galardoado em 2011 com o prestigiado Prémio Pessoa. Os restantes cinco votos foram distribuídos pelas seguintes personalidades: Eduardo Souto Moura, Henrique Medina Carreira, Isabel Jonet, José Manuel Coelho e José Sócrates.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D