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Aventuras no Diário de Notícias

por Patrícia Reis, em 15.06.13

Começou na sexta-feira da semana passada a colecção Divas no Diário de Notícias. Além de um disco, de um texto do Rui Vieira Nery, escrevo uma ficção. Foi uma aventura muito divertida e agradeço a produção à Bela e o Monstro, sempre imparáveis. Aqui vos deixo o conto sobre a Callas, esta semana já saiu o volume sobre a Ella Fitzgerald.

 

Eu não sou a minha voz

Dizem que desfaleci.

Gosto do verbo: desfalecer.

Parece que a traição do corpo não é apenas na voz ou na cabeça. A traição come-me por inteiro. Bellini entenderia. Estou certa de que teria a sua compreensão. Quando Norma estreou não foi o sucesso que ele sonhara, é o que diz a história. E o segundo acto... matar os filhos é sempre difícil. Na minha cabeça ainda me oiço cantar

 

(NORMA)
Dormono entrambi,
Non vedran la mano
Che li percuote.
Non pentirti, o core;
Viver non ponno. Qui supplizio,
E in Roma obbrobrio avrian,
Peggior supplizio assai;
Schiavi d'una matrigna.
Ah! No! Giammai!

(Sorge risoluta.)

Muoiano, sì.
Non posso avvicinarmi.
Un gel mi prende
E in fronte mi si solleva il crin.
I figli uccido!
Teneri figli.
Essi, pur dianzi delizia mia,
Essi nel cui sorriso
Il perdono del ciel mirar credei
Ed io li svenerò?
Di che son rei?
(risoluta)
Di Pollione son figli
Ecco il delitto.
Essi per me son morti!
Muoian per lui.
E non sia pena che la sua somigli.
Feriam.

 

Não sei explicar o que levou a este desmaio. O pano que cai e o meu corpo nas tábuas do palco. Inerte. Inconsciente.

Sei - ah, sim, sei bem - que amanhã as primeiras páginas dos jornais terão o meu nome e não dirão que sou “sublime”, “extraordinária”. Não. Os jornais escreverão (neste preciso momento, um crítico qualquer deverá estar a martelar numa máquina de escrever, a escrever palavras que são tiros certeiros), com a dureza de sempre, quase como se os jornalistas fossem a Tebaldi, num exercício de inveja e competição: a Callas chegou ao fim. Como se soubessem o que é estar no fim...

As fotografias que publicam, as minhas fotografias, mostram uma mulher que não reconheço. Nada mais normal, diria a minha mãe se fosse viva. Nunca entendeu a razão que leva as pessoas a chorar. “Choram a ouvir-te cantar. Mas porquê?” Sempre o senti como um elogio máximo, uma forma de comoção única que só eu conseguia provocar nos outros. Explicar à minha mãe? Não. Recolhida em Deus e eu na música, ambas separadas por exigências divinas mais perto de uma qualquer loucura que os outros não têm.

Agora estou dentro do silêncio do quarto. Sei que todos andam pela casa, andam como fantasma, de sala em sala, vigilantes, à espera. Crêem no meu sono – nessa possibilidade -  que eu apenas finjo. E fingir é fácil. A ópera é um dos melhores palcos de fingimento. Dor e desespero. Amor e alegria. Vida e morte. Tudo se canta ali em cima, em frente ao fosso da orquestra, espreitando a plateia, ignorando o maestro por sabermos que somos aquela personagem. Gioconda? Violetta? Norma? Amina?  Qualquer uma, pouco importa.

A música começa e eu já sei que o corpo me dói, que o coração encolheu, mas tenho de me esticar, a voz precisa de ir, ainda precisa de ir. Tenho de ser aquela que é maior que as outras. Podia ter abdicado de tudo? Sim. Por amor. Ninguém entendeu. Talvez não o tenha explicado devidamente. Esperei pelo divórcio dele, esperei horas sem bondade. E depois, com o meu rosto, nas suas mãos, pouco importava o lugar de actriz, o papel decorado, a música estudada. O bater do coração era uma partitura distinta. Sim, podem dizer que é piroso. Não me importo.

E não me apetece cantar.

Não sei nada de Onassis. Não sei de mim ou da minha voz. Citam-me nos jornais, dizem que tenho um feitio difícil e que a voz, a minha voz, se perdeu por ter andado em iates e festas. Já não estou nas festas de Onassis. Está apaixonado por outra, uma mulher que foi de um presidente, uma mulher com nome francês, uma mulher que não terá, acredito, um temperamento mediterrânico.

A força de se ser pelo confronto? Está em mim. Juntou-se ao meu sangue Não como antigamente. Ele não se apaixonou por mim. O seu imenso amor, aquele que o levava a comprar jóias de um brilho assustador, não era meu. A paixão daquele homem estava apenas concentrada na minha voz. Eu cantava e ele enviava flores, flores frescas, vermelhas de desejo. E as flores eram tão inebriantes quanto o vinho que bebíamos noite dentro. Esta voz que é uma maldição. E ele pedia:

Canta, canta. Canta para mim. Só para mim.

E eu cantava e depois deixei de cantar e ele não gostou dessa falha, da decisão que não lhe foi comunicada. Não me queria apenas para si, afinal. O espanto do palco, da plateia a aplaudir em pé, num fulgor de entusiasmo que não tem medida, enchia-lhe o peito de um orgulho que era apenas exibicionismo.

Esta mulher é minha. Tenho-a. É só minha.

Quis ser só sua. Não entendi e ele tão-pouco. Talvez por isso, por ser homem e pequeno no pensamento, era impossível compreender que eu apenas queria uma casa de seda, um casulo perfeito, para um amor que seria nosso e apenas nosso. A minha voz estaria sempre a mais, por não ser minha. Onassis não percebeu. E eu não expliquei. Jacqueline não lhe cantará. Sorrirá com elegância e terá sido isso, o poder desse sorriso que um dia foi do outro, de um homem morto com um tiro inesperado. Ela refaz a sua vida com Onassis e na América não compreendem. Se conhecessem os encantos de Onassis, o espanto seria menor. Ele casa com a fama dela, a roupa dela, os colares dela, a imagem dela.

E eu? Eu continuo aqui. Canto. Posso fazer o que quiser da voz ou não fazer nada? Já se tornou famosa a frase: a minha voz não é como um elevador. Já foi. Houve momentos.... Hoje é apenas uma ínfima parte do que eu sou. Do que fui. A voz não sou eu e, se o disser alto, ninguém acredita.

Fabriquei a Callas. Queria ser a diva – sou a diva – e quando quis deixar de o ser, traíram-me. Abandonada por ter deixado de cantar, por querer amar em vez de cantar. Não posso compreender, mas há muito tempo que deixei de me interrogar sobre as coisas. Nem todos os porquês têm correspondência, nem todos possuem fatalmente um porque.

O médico daria tudo para que eu não fizesse perguntas. Mostra-se preocupado. Quer que eu coma umas coisas, que não beba, que descanse. Sobretudo isso: descansar. Não faz ideia da impossibilidade prática do exercício. Quando se é como eu é como ser múltipla, não há descanso. Cansei-me dos vários médicos e eles cansam-se de mim. Talvez Vittorio vá ficando por devoção. Já não sou a sua doente, sou a sua “casta diva”, a sua criatura frágil. A maquilhagem estragada com lágrimas não o impressiona e eu sei que posso ser - e sou - feia, tão feia como todos os fantasmas das trevas. Os meus ataques de fúria deixam-no calmo. Parece apreciar a minha fúria. De uma forma estranha espera que eu rebente para depois me consolar. Como se eu fosse uma criança birrenta e, quem sabe?, talvez eu seja mesmo isso. O talento não traz felicidade. Vittorio diz que as mulheres com mau feitio duram mais tempo, a vida preserva-se na raiva. Acredito nele uns dias, noutros faço por criar outra realidade.

Já morri no palco a cantar tantas vezes. A fazer de tuberculosa, a fazer de amante traída, a fazer o que pedem para fazer: ser outra, dar voz a outra. Tullio Serafin compreenderia? Dizem que foi o meu mentor. Não desminto. Há coisas sobre as quais não vale a pena falar. Onassis ensinou-me isso? Não, todos os libretos me ensinaram que criar um mito é escolher a verdade que se quer contar. Assim faço. Por isso, não tenho voz e não sou a minha voz e não sendo, deixo de existir. Sei que não faz sentido. Nos dias que correm poucas coisas fazem sentido. Peguei na ansiedade e tomo o que posso, os comprimidos nem os sinto, escorregam com facilidade se acompanhados de vinho. Tomo quando quero e nas quantidades que me servem, aquelas que eu sei que posso aguentar, e depois transfiguro-me. 

Nasci nos anos trinta, podia não ter tido a sorte de aprender, de ir para o Conservatório em Atenas. Podia ter sido somente uma rapariga do campo, com o destino marcado pelo peso da velhice antes dos trinta anos, filhos a puxar as saias sob o sol que queima. Podia ter sido qualquer coisa. Mas a voz venceu. Vivi a guerra, sei coisas que outros não sabem. Levei emoção aos sítios onde ma pediram. Cheguei a cantar árias que desconhecia, salva pelo ponto, escondido do público, e sempre obtive as ovações que me enchiam a alma e o camarim com flores e cartões. O poder de se ter algo que os demais não possuem. Eu sei que fico na História. A Tebaldi? Duvido. Aprendi a detestá-la. Aprendi que era melhor para a minha carreira e, no fim, o que eu vejo, agora, nesta cama onde estou a dormir um sono que não existe? Vejo que estão desiludidos comigo. A minha voz perde-se e ninguém me perdoa. Perco a voz, perco a identidade.

Quando morrer voltarei ao azul que me viu crescer, quero as minhas cinzas no Mar Egeu, regressar aos deuses e a tudo aquilo que podia ter sido. Não quero viver muito tempo. O tempo assusta-me e não sei fazer mais do que exigir de mim a possibilidade de encarnar uma personagem e dar-lhe voz. Há quem me diga, amigos próximos, que deveria dar aulas, que deveria retirar-me, que deveria... Todos sabem mais do que eu e, apesar disso, desconhecem o essencial.

A minha vida começou depois de um casamento de dez anos, quando me senti mulher plena nos braços de Onassis, aí no momento em que a vida começou de verdade, e desde que me deixou só me resta este pobre definhar.

Eu sei o que dirão os jornais amanhã. O declínio da Callas. A sua morte anunciada. O escândalo de estar o presidente da república com convidados ilustres e a diva ter perdido os sentidos, a cortina, apressada, a esconder o corpo tombado. Terão a percepção do que significa ter de agradar a todos? A culpa é minha, será sempre minha. Não descobri a lei de me tornar o que queria. Fui-me moldando para ser a Callas e morrerei assim, de coração partido, sem a voz que deu o meu nome ao mundo. E, como as mulheres nas óperas de tantos compositores diferentes, morrerei sozinha. Se a minha fé o permitisse encontraria Onassis numa nuvem longe do céu. Mas já deve ter feito um contrato com Deus. Nem olhará para mim. Como tantas vezes lhe pedi

Olha para mim, olha para mim.

 

Não queria que me visse como a Callas, queria dar-lhe a mulher debaixo da pele da cantora. Ele queria, como todos os outros, ouvir-me.

Posso ter ficado uma mulher amarga, já sei.

A voz é uma patroa exigente e não é controlada por mim. Continuo aqui, a fingir que o sono me dá o descanso merecido. Lá ao fundo, muito ao longe, ainda oiço as nossas gargalhadas, os dois no barco, pele contra pele, olhos nos olhos. Se me concentrar mais um pouco, consigo ouvir o silêncio que fazíamos juntos. E, assim, talvez consiga dormir.

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