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 Ursula K. Le Guin em 1985 (fotografia de Brian Drake para o The Times, via Los Angeles Times)

 

In reading a novel, any novel, we have to know perfectly well that the whole thing is nonsense, and then, while reading, believe every word of it. Finally, when we're done with it, we may find - if it's a good novel - that we're a bit different from what we were before we read it, that we have been changed a little, as if by having met a new face, crossed a street we never crossed before. But it's very hard to say just what we learned, how we were changed.

Ursula K. Le Guin, na introdução a The Left Hand of Darkness (1969)

 

Para a ficção científica literária, a morte de Ursula K. Le Guin representa o desaparecimento de toda uma época: Le Guin começou a publicar no início dos anos 60, já nos derradeiros anos da famosa "Golden Age" do género; atravessou a revolução da "New Wave" no final dessa década, e continuou pelas décadas de 70 e 80. Seria talvez a última autora clássica do género: no tributo que lhe presta nas páginas do Los Angeles Times, o escritor John Scalzi descreve Le Guin como "a supporting column of the genre, on equal footing and bearing equal weight to Verne or Wells or Heinlein or Bradbury." Mas talvez seja mais do que isso. Verne, Wells e Heinlein (e Clarke, e Asimov) são clássicos pela fundação e pelo desenvolvimento do género, mas Le Guin não seguiu as pisadas dos homens que a antecederam: a sua obra tornou-se clássica não pela continuidade que deu ao cânone da ficção científica, mas pela rejeição desse cânone, pelo expandir dos horizontes de todo o género, e pela forma exemplar como demonstrou que a Ideia, pedra angular da ficção científica, pode não lhe bastar. 

 

E demonstrou-o pela palavra, em contos e livros excepcionais. Diria ser impossível esquecer The Ones Who Walk Away From Omelas, uma parábola poderosíssima escrita em poucas páginas. Ou a ambiguidade de The Dispossessed, com a sua trama dividida entre a sociedade anarquista de Anarres e a sociedade capitalista de Urras, uma reflexão pertinente num terreno pantanoso onde autores menores se afundariam aos primeiros passos. Ou The Left Hand of Darkness, com a sua desconstrução da identidade de género e o seu estudo meticuloso sobre a importância, e a irrelevância, da diferença. Ou - provavelmente o meu preferido - The Lathe of Heaven, livro-tributo a Philip K. Dick, no qual Le Guin leva até às últimas consequências a ideia de que de boas intenções está o Inferno cheio. Sempre com uma prosa excepcional e uma humanidade ímpar, que contribuíram para a elevação e afirmação de um género literário sempre considerado marginal. Para todos os efeitos, a literatura de ficção científica teve em Le Guin mais do que uma das suas maiores vozes - teve nela também uma das suas mais ferozes defensoras. 

 

Mas não se ficou pela ficção científica: a série Earthsea figura entre a melhor fantasia literária já publicada, espantosa pela sua diversidade natural e pela subtileza das suas influências orientais, que representaram uma lufada de ar fresco para um género à época dominado pela sombra de Tolkien e pelo sem-número de imitadores que se lhe seguiram. A aventura de Ged ao longo da trilogia original, em A Wizard of EarthseaThe Tombs of Atuan, e The Farthest Shore, conta com quase cinqueta anos, e não perdeu nem um pouco da sua força. 

 

Cá em casa, na biblioteca que temos vindo a construir, nenhum autor surge tantas vezes. Se tivesse de nomear o meu livro preferido de ficção científica, provavelmente não escolheria um título de Le Guin; mas se tivesse de escolher um escritor ou escritora preferido, não hesitaria na resposta. Ocorrem-me vários livros que me mudaram de alguma forma, mas apenas Le Guin o conseguiu tornar a fazer a cada novo livro ou conto que li. Ainda tenho alguns por ler, tal como a poesia, os ensaios, as inúmeras crónicas - textos dispersos felizmente compilados e editados em anos recentes. Mais do que nunca, aguardo por essas leituras com muita expectativa.

 

Ursula Kroeber Le Guin faleceu anteontem na sua casa de Portland, nos Estados Unidos. Tinha 88 anos, e escreveu livros extraordinários. 

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Outras galáxias muito distantes (7)

por João Campos, em 18.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Esta é a última das sugestões de galáxias a descobrir na literatura e na banda desenhada. Pelo menos, por agora.

 

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 Ody-C

Uma odisseia no feminino

 

Esta curta série de sugestões de leitura de space opera começou na banda desenhada, pelo que me parece muito adequado concluí-la também com banda desenhada. E com uma não menos sofisticada: se Saga inova pela forma como pega nos elementos clássicos do género e os recombina numa narrativa moderna e arrojada, já Ody-C recupera uma das mais clássicas histórias da cultura ocidental - a Odisseia de Homero -, dá-lhe uma nova perspectiva pela alteração do género de praticamente todas as personagens, e transporta-a para um futuro espacial e psicadélico narrado por Matt Fraction e ilustrado de forma assombrosa por Christian Ward.

 

Seria talvez simples reduzir Ody-C a uma versão gender-bent da Odysseia - aliás, seria porventura simples para os autores limitarem-se a essa ideia original. É certo que são exploradas algumas das passagens mais icónicas da Odisseia, como o encontro com Polifemo ou a visita a Éolo, mas Fraction e Ward levam mais longe as atribulações de Ulisses, Menelau e Agamemnon, aqui Odyssia, Ene e Gamem, uma vez terminada a guerra centenária contra Troiia-VII. Se alguns mitos são simplesmente adaptados, outros são transformados com vista à criação de um universo ficcional próprio - e as viagens de regresso das três rainhas-guerreiras, perante a oposição de um panteão liderado por Zeus que vê nas proezas marciais das três combatente e no saque de Troiia-VII um desafio ao seu poder, combinam de forma tão elegante como surpreendente as inspirações clássicas (homéricas e não só) com alguns elementos tradicionais da space opera numa narrativa moderna. 

 

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Fraction opta por narrar esta odisseia de forma pouco convencional, aludindo ao poema épico original com um texto breve e minimalista tanto na descrição como no diálogo - é uma opção porventura estranha para alguns leitores, mas que se revela muito eficaz no modo como se funde à ilustração tão inventiva como psicadélica de Ward, cheia de cores e de formas improváveis. Folhear as páginas dos fascículos ou dos paperbacks é uma experiência singular, que não remete para a tradição dos comics norte-americanos mas antes para algumas bandas desenhadas europeias; e se à primeira vista é impossível não reparar na arte de Christian Ward, uma leitura mais atenta revela a forma hábil com que pega nas ideias que as palavras de Matt Fraction evocam para recriar com absoluta originalidade personagens que todos já vimos vezes sem conta em inúmeras narrações dos mitos da Grécia Antiga. 

 

Pelo tom e pelo estilo muito próprios, é possível que Ody-C não seja uma banda desenhada para todos os leitores - as críticas tendem a polarizar-se entre quem não consegue entrar na história pela forma como esta é narrada e entre quem se maravilha a cada página pela forma imaginativa como uma história tão contada pode ser reinventada com tanta originalidade e com tanto arrojo conceptual e artístico. Pesoalmente, coloco-me no segundo grupo: das bandas desenhadas que comecei a ler em 2017, Ody-C estará sem dúvida entre as melhores. Merece uma oportunidade, e deixa uma garantia: goste-se ou não, não se lhe ficará indiferente. 

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Outras galáxias muito distantes (6)

por João Campos, em 11.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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Ancillary Justice

A irrelevância do género

 

Como penúltima sugestão de leitura nesta série sobre a space opera moderna deixo um dos livros mais falados nos círculos da ficção científica literária dos últimos anos: Ancillary Justice, o romance de estreia da norte-americana Ann Leckie que em 2013 conquistou críticos, leitores, e praticamente todos os prémios relevantes do género. E fê-lo com uma mistura muito bem sucedida de alguns dos mais convencionais elementos narrativos que associamos à space opera - impérios galácticos, alienígenas, inteligências artificiais, aventuras em planetas exóticos - com reflexões pertintenes sobre a natureza humana e sobre um tema muito em voga: a identidade de género. 

 

Nesse sentido, é possível vermos em Ancillary Justice uma continuação lógica da desconstrução da identidade e dos papéis de género que Ursula K. Le Guin (é inevitável: regressamos sempre a ela) desenvolveu no longínquo ano de 1968: em The Left Hand of Darkness Le Guin imagina no planeta remoto de Gethen uma civilização onde os seres humanos são efectivamente andróginos (simplifico), cujas características sexuais fluídas fazem com que as diferenças de género que conhecemos não tenham lugar. Leckie, admita-se, não chega a ir tão longe como Le Guin na imaginação de fisiologias alternativos e de ritos sociais elaborados. A pergunta que coloca, sendo bem mais simples do que as questões e os problemas que o contacto do terráquio Genly Ai com os seres humanos de Gethen suscitam, nem por isso é menos intrigante: se numa sociedade não existem diferenças práticas entre géneros, faz sentido manter uma pré-determinação masculina na linguagem? Para descobrir a resposta, Leckie desenvolveu toda uma trama na qual apenas se conhece o género de uma das personagens numa referência fugaz, colocando todos os pronomes e todos os indicadores linguísticos de género no feminino.

 

O resultado é uma experiência invulgar de leitura que coloca em evidência as ideias pré-concebidas dos leitores, sejam conscientes ou inconscientes, sobre pos papéis de género: o conhecimento de algo tão elementar como o género de uma personagem influencia de forma decisiva o modo como lemos essa personagem. A ausência de algo tão elementar torna a leitura algo desorientante no início - sabemos que a protagonista, Breq, tem de facto um corpo feminino, mas o facto de não sabermos isso de qualquer outra personagem induz a um jogo constante de adivinhação pelos maneirismos e pelas atitudes. No entanto, mais interessante do que descobrir a resposta é perceber que a resposta não tem qualquer relevância ou significado - que aquelas personagens são importantes pelas suas acções e pelas suas palavras, e não por características biológicas pré-determinadas. 

 

Só por isto, a leitura de Ancillary Justice seria sempre um exercício intrigante e pertinente, mas poder-se-ia argumentar que este exercício, por interessante que possa ser, não chega para fazer um bom livro. Leckie sabia-o bem, e por isso apresentou-o não pela teoria mas pela prática, enquandrando-o numa aventura ritmada e conceptualmente estimulante. Breq, outrora uma inteligência artificial multifacetada ao comando da nave militar Justice of Toren, viu-se traída e destruída, reduzida a um derradeiro corpo biológico - e durante anos procura recuperar toda a informação sobre o que aconteceu nos últimos dias da Justice of Toren, para se vingar de quem a destruiu a si e eliminou as suas tripulantes. Convenhamos: naves espaciais há muitas na ficção científica, mas poucas foram aquelas que assumiram o protagonismo das suas histórias...

 

A história de Breq/Justice of Toren tem continuidade - ao romance inaugural de 2013 seguiram-se Ancillary SwordAncillary Mercy, em 2014 e 2015. Sabendo que a surpresa do primeiro livro se esbate nas sequelas, Leckie encaminha a trama para caminhos menos percorridos no género. Mas os leitores que não se queiram comprometer com uma série mais vasta ficam muito bem servidos só com Ancillary Justice - a sua narrativa funciona de forma autónoma, a experiência de leitura é inesquecível e, no contexto das conversas da actualidade, será difícil encontrar na ficção científica literária algum livro mais pertinente. 

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Outras galáxias muito distantes (5)

por João Campos, em 04.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 Hyperion / The Fall of Hyperion

Chaucer e Keats no espaço

 

Ao contrário do que se possa pensar, a produção literária da ficção científica na década de 80 não se resumiu ao neo-noir tecnológico do cyberpunk (por mais vasta que tenha sido a sombra de Neuromancer). Na sombra das especulações cibernéticas de William Gibson, Bruce Sterling e Pat Cadigan a vetusta space opera ia sendo recuperada e reinventada, com títulos como The Snow Queen de Joan D. VingeDownbelow Station de C.J. Cherryh (ambos premiados com o prémio Hugo em 1981 e 1982 respectivamente), e com o início de sagas que marcaram o género, como a Culture de Iain M. Banks ou a Vorkosigan Saga de Lois McMaster Bujold. Mas é já na transição dos anos 80 para a década de 90 que foi publicado um dos textos mais ambiciosos e bem conseguidos que o género já conheceu: o díptico HyperionThe Fall of Hyperion, do norte-americano Dan Simmons.

 

O título soará familiar a quem conhecer a poesia de Keats - e, de facto, o poeta romântico é uma presença constante na trama que Simmons tece num futuro no qual a Humanidade alcançou a Singularidade e expandiu-se por inúmeros planetas da galáxia com a ajuda das inteligências artificiais conhecidas como Technocore (serei intencionalmente vago em alguns momentos - é difícil falar destes dois livros revelar demasiado). Mas essa expansão não foi pacífica - e, de facto, no momento em que a trama arranca a Humanidade prepara-se para a guerra com os enigmáticos Ousters. Nas vésperas dessa guerra, sete peregrinos são seleccionados para fazer a derradeira peregrinação a Hyperion, um planeta remoto e que não teria nada de extraordinário se não possuísse duas coisas únicas: as lendárias "Time Tombs", um conjunto de monumentos localizados num vale onde o tempo se desloca do futuro para o passado, e o seu guardião, o não menos lendário Shrike, uma monstruosidade bio-mecânica feita de metal e coberto de espinhos. Reza a lenda que o Shrike responderá à questão de um dos peregrinos, e matará os restantes...

 

Os sete peregrinos não se conhecem, nem sabem por que motivo foram seleccionados, mas cada um tem um motivo para estar naquele lugar naquele momento - e Simmons evoca Chaucer para construir em Hyperion um mosaico fascinante ao estilo dos célebres Canterbury Tales. Cada peregrino (excepto um) contará a sua história individual durante a longa viagem até às Time Tombs de Hyperion, formando um vasto puzzle do qual o Shrike será uma peça fundamental. Simmons, porém, leva mais longe a ideia do mosaico, desenvolvendo cada história de forma muito particular em termos temáticos. Um dos peregrinos narra uma história de horror; outro, um conto de ficção científica militar a aludir a Starship Troopers. Há um drama familiar, uma intriga política, uma aventura cyberpunk e até uma história época que abarca vários séculos e várias etapas da expansão da Humanidade pelas estrelas. Hyperion não terá sido o primeiro romance de ficção científica a empregar uma estrutura narrativa em mosaico, mas poucos o terão feito com a mesma ambição e com o mesmo engenho, conseguindo mostrar múltiplas facetas do género enquanto desenvolve uma trama intensa com o arrojo conceptual que faz parte da matriz da space opera.

 

Se Hyperion olha para o passado separado das várias personagens para contextualizar o presente da trama, The Fall of Hyperion encarrega-se de desenvolver essa trama - de forma inevitavelmente mais linear, é certo, mas nem por isso menos interessante. Cada uma das histórias do primeiro volume suscitou mais perguntas do que respostas, e cabe a esta segunda parte explorar o destino dos peregrinos e da sua visita ao Shrike. Simmons faz esta exploração com mestria, polvilhando-a de referências literárias e religiosas que convidam à releitura, sem nunca perder de vista a história que pretende contar. O resultado é aquela que será talvez a minha obra preferida dentro do género: um par de livros excepcionais tanto para os leitores mais experientes como para quem ainda não se aventurou na ficção científica. 

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Outras galáxias muito distantes (4)

por João Campos, em 28.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

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The Culture

A utopia ambígua*

 

Se considerarmos a distância a que a Humanidade se encontra de estabelecer uma presença permanente e relevante fora do planeta Terra, será porventura inevitável que qualquer noção de civilização de escala galáctica ganhe contornos utópicos. O que não impediu a ficção científica, nas suas várias vertentes, de imaginar um sem-número de impérios e de sociedades interestelares, quase sempre povoadas por aventureiros destemidos e alienígenas exóticos, mais ou menos hostis. Ainda assim, e por mais anos-luz que estes impérios abarquem, a maioria das sociedades galácticas clássicas permanece estranhamente semelhante aos paradigmas políticos, económicos e sociais da Terra: as mesmas estruturas de poder, os mesmos problemas económicos, as mesmas classes sociais. Em suma, os mesmos problemas de sempre. Talvez por isso a Culture de Iain M. Banks continue a ser tão relevante.

 

Não é que Banks rejeite o antropomorfismo tradicional das space operas - optou, sim, por extrapolá-lo na melhor tradição da ficção científica, interrogando-se sobre como seria uma sociedade cujo domínio científico e tecnológico a libertasse das limitações do mundo que conhecemos. Eis que surge a Culture, um vasto território espacial (seria impreciso designá-lo por impérioreino, ou qualquer outra designação territorial humana) governado por inteligências artificiais (Minds) tão benevolentes como matreiras, e dotadas de um sentido de humor peculiar. As Minds convivem com uma humanidade profundamente alterada pelas possibilidades infinitas abertas pela ciência, e integrada numa sociedade que não conhece o conceito de escassez. Assim, cada indivíduo é livre de se dedicar aos seus gostos pessoais como bem entender (não existe trabalho no sentido habitual do termo, e não existindo leis escritas, as normas assentam num contrato social implícito) e de viver onde quiser - num planeta, num vasto anel orbital ao estilo de Ringworld, numa esfera de Dyson, ou até num dos tremendos Global Systems Vehicles.

 

Como é bom de ver, uma sociedade idílica e hedonista parece um péssimo cenário para uma space opera rocambolesca, dada a inexistência de um conflito de sirva de motor narrativo. Não por acaso, as tramas que Banks explora não se centram tanto no dia-a-dia dos cidadãos no centro da Culture, mas nos intercâmbios que esta estabelece com a sua vizinhança galáctica - e é aqui que entram os elementos do Contact, o corpo diplomático da Culture, e as Special Circumstances, que na prática funciona como uma agência de espionagem e inteligência para intervenções mais ou menos subtis entre outros povos. É, portanto, na orla da Culture que Banks coloca a acção das suas histórias - nas histórias dos agentes das Special Circumstances, nos contactos estabelecidos entre civilizações tão distintas, na diplomacia necessária e nos conflitos inevitáveis. Mas também nos seus inimigos - a título de exemplo, o protagonista de Consider Phlebas é um mercenário contratado por uma civilização em guerra declarada com as Minds. E é essa abordagem que dá a Banks um ponto de vista único para a civilização que ele próprio concebeu. Através das suas persoangens e das odisseias em que as coloca, consegue mostras as engrenagens da sua utopia galáctica enquanto questiona os seus princípios basilares e a justiça das suas acções.

 

Mais do que uma série literária, a Culture é um universo ficcional desenvolvido entre 1987 e 2012 em nove romances e uma colectânea de contos. A ordem de leitura não será por isso relevante - Use of Weapons, o livro cuja capa ilustra este texto, é o terceiro romance da Culture publicado, e será uma introdução perfeita. Mas por notáveis que sejam os seus textos - e são -, aqui estamos perante um dos casos em que o cliché de o todo ser maior do que a soma das suas partes se revela verdadeiro: mais do que um ou dois livros, o legado de Banks para a space opera moderna reside na forma como pegou nas aventuras frenéticas que fizeram escola no género e as extrapolou com uma criatividade e um arrojo conceptual ímpares, mostrando que há vida para além dos impérios galácticos de outros tempos. E - seria inevitável referi-lo - reside ainda na nomenclatura bem humorada das Minds: não é todos os dias que podemos ler uma aventura espacial cujas naves têm nomes como No More Mr. Nice Guy, Unfortunate Conflict of Evidence, ou Just Another Victim of the Ambient Morality (entre muitos outros). Infelizmente, a morte prematura de Iain M. Banks em 2013 colocou um fim abrupto às suas histórias - mas as que cá deixou mantém toda a sua imaginação e pertinência.

 

*E sim, antes que alguém pergunte, sei que o subtítulo foi "pedido" à Ursula K. Le Guin.

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Outras galáxias muito distantes (3)

por João Campos, em 21.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 The Centauri Device

Sem heróis ou vilões

 

Em 1974 estávamos ainda a três anos da estreia de Star Wars e já longe da época dourada do género nos anos 50, do sucesso da série original de Star Trek nos anos 60, e do entusiasmo pelo espaço que as missões norte-americanas e soviéticas tinham trazido pouco tempo antes. Na ficção científica literária, persistiam ainda os ecos da "New Wave" que no final da década de 60 trouxera para o género um experimentalismo estilístico, narrativo e temático que até então fora escasso. Não surpreende, portanto, que também as fórmulas testadas da space opera, com os seus heróis ousados, vilões impiedosos, rebeldes com coração de ouro e aventuras em proporções quase mitológicas, tenham sido colocadas em causa por alguns autores. Um deles foi o britânico M. John Harrison, com um livro notável, ainda que imperfeito: The Centauri Device

 

O propósito de Harrison foi declarado: a desconstrução dos elementos basilares da space opera, como o herói faz a narrativa progredir e que que serve para o leitor nele se projectar, um universo compreensível e reconhecível para os seres humanos, e, na sua essência, antropocêntrico. Assim, o protagonista, John Truck, não é um herói predestinado a salvar a galáxia, mas um camionista espacial vagamente indiferente ao que o rodeia; a humanidade expandiu-se para o espaço e projectou até lá as suas piores tendências e atitudes; e, no vazio interestelar, toda a sorte de bizarrias humanas e pós-humanas floresceu. Inevitavelmente, surge o clássico macguffin - o tal Centauri Device do título -, entram em jogo várias facções políticas em conflito por ele, e emerge por fim Truck, ligado ao tal macguffin por um detalhe que escapa ao seu controlo. 

 

Uma narrativa mais convencional traçaria uma linha clara entre bonsmaus, lançaria Truck na demanda pelo bem, colocaria alguns obstáculos no seu percurso, e resolveria a coisa de forma mais ou menos satisfatória. Harrison, porém, nunca quis ser convencional, e em momento algum posiciona o seu protagonista como herói ou escapa para a desconstrução fácil pela via do anti-herói. Truck não quer salvar o mundo ou lixar o mundo; quer apenas que o mundo o deixe em paz. As várias facções em conflito não são maniqueístas - cada uma delas reclama a sua causa como justa, e em nome dessa causa estão dispostas a todo o tipo de atrocidades. E o mundo onde se movimentam está muito longe dos universos limpos, estilizados e optimistas de outras histórias; é, sim, um universo sujo, caótico e, na melhor das hipóteses, indiferente.

 

Apesar da sua prosa excepcional, de várias passagens memoráveis e de um desenlace atrevido, The Centauri Device estará longe de ser uma das melhores space operas que podemos ler hoje em dia - o próprio Harrison considera-o o pior livro que já escreveu (o que talvez diga muito dos seus romances posteriores). Mas a sua importância não pode ser desprezada, e é por isso que o trago aqui: o seu exercício de desconstrução não só demonstrou quão gastas estavam as fórmulas clássicas do género, como lançou as sementes para o seu ressurgimento, uma década mais tarde. Dito de outra forma: é muito provável que sem a pedrada no charco que foi The Centauri Device não tivessem surgido autores como Iain M. Banks, Alastair Reynolds ou Ken MacLeod, entre muitos outros que modernizaram a vetusta space opera e a trouxeram para o século XXI. Qualquer leitor que queira explorar estes temas terá inevitavelmente de passar por este livro. E decerto não dará a viagem por perdida. 

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Outras galáxias muito distantes (2)

por João Campos, em 18.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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The Snow Queen

Space Opera no feminino

 

The Snow Queen, de Joan D. Vinge, é um caso curioso: foi publicado em 1980, no mesmo ano da estreia de The Empire Strikes Back, venceu o prémio Hugo para melhor romance no ano seguinte, gerou duas sequelas e uma prequela... e, trinta anos volvidos, numa época de pleno ressurgimento da space opera na literatura, na banda desenhada e nos meios audiovisuais, e quando o debate sobre as mulheres e o feminismo na ficção científica se tornou mais pertinente do que nunca, este livro, em tempos descrito como um "Star Wars feminista", está praticamente esquecido.

 

E a descrição tem algum mérito, mesmo sendo o esquecimento tão injusto. Para todos os efeitos, The Snow Queen terá talvez sido uma das últimas space operas relevantes desenvolvida com os moldes mais ou menos tradicionais das histórias épicas de outros tempos: tal como George Lucas, Vinge foi beber à "jornada do herói" de Joseph Campbell e aplicou a teoria a uma galáxia distante povoada por civilizações fascinantes e repleta de mitos de uma época dourada antiga, quase lendária. É muito possível, porém, que as semelhanças terminem aí. Se por um lado a sua grande influência narrativa não residiu nos westerns norte-americanos mas no conto clássico de Hans Christian Andersen, por outro lado The Snow Queen não tem qualquer ambiguidade no seu género: ao contrário de Star WarsThe Snow Queen é assumidamente ficção científica, com um rigor inatacável na construção do seu universo ficcional: o planeta Tiamat, onde decorre a maior parte da trama, não se resume a um único cenário com um clima uniforme: possui climas variados e regiões distintas, dos inúmeros arquipélagos tropicais do hemisfério Sul ao continente montanhoso e gelado do Norte. E os vários elementos científicos e tecnológicos que são apresentados estão longe de ser meros adereços, sendo fundamentais para a narrativa e ilustrando na perfeição a célebre máxima de Arthur C. Clarke: qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.

 

E, claro, há a questão feminista. Vinge até pode ter seguido, mesmo que em traços largos, a lição de Campbell, mas optou por escrever antes a jornada de uma heroína, Moon, cujo percurso a levará inevitavelmente ao confronto com Arienrhod, a Rainha de Gelo do título, monarca absoluta de Tiamat durante o inverno de 150 anos que as mecânicas orbitais do planeta impõem aos povos que nele habitam (estes detalhes nunca são irrelevantes aqui). E se podemos encontrar na Moon das primeiras páginas o arquétipo do jovem inocente que cresceu num lugar remoto sem fazer ideia de quão longe o destino a levará, já em Arienrhod está presente uma ambiguidade rara em romances e personagens desta natureza: em muitos momentos parece uma vilã convencional na ambição e na corrupção, mas Vinge escreve-a com maior profundidade, e os seus objectivos em momento algum são tão simples como aparentam. A Moon e a Arienrhod juntam-se personagens como Jerusha, uma inspectora policial num mundo maioritariamente masculino, ou Gundhalinu, um jovem inspector cuja classe social das suas origens contrasta com o seu destacamento em Tiamat. E muitas outras, num elenco vasto para  o qual a diversidade - de género, de cor da pele, de estratos sociais e de orientações sexuais - não serve apenas para preencher uma qualquer quota (é possível que o tema não tivesse no início dos anos 80 a pertinência que tem hoje), mas para tornar a civilização composta pelos vários mundos apresentados mais verosímil. Não deixa de ser interessante notar que algo tão evidente tenha demorado tanto tempo a ser interiorizado por um género no qual a construção de mundos assume tanta importância.

 

The Snow Queen foi o primeiro livro de ficção científica que li, algures entre 2001 e 2002 - e, à época, recuperou não só o meu gosto pela leitura como me fez descobrir um género que julgava praticamente exclusivo do cinema, da televisão e de alguma banda desenhada. E é curioso notar como contribuiu de forma acidental para a minha resposta adversa ao hype em redor de The Force Awakens há dois anos. O marketing da Disney, sintonizado com o zeitgeist, vendeu bem o seu peixe: temos agora uma mulher como protagonista e um stormtrooper afro-americano! Para o universo criado por Lucas isto talvez tenha sido uma novidade (e a representação é sempre salutar, acrescente-se), mas um leitor mais atento ao género não terá deixado de reparar que lhe serviam comida requentada. Eu reparei: muito antes da Rey de Daisy Ridley e do Finn de John Boyega (ambos excelentes, note-se) já me tinha maravilhado havia muito com a determinação de Moon e com o carácter de Gundhalinu (cujo papel secundário no primeiro livro se tornou principal nos seguintes). Afinal, a diversidade não chegou às galáxias distantes só no século XXI. 

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Outras galáxias muito distantes (1)

por João Campos, em 14.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 Saga

Uma odisseia familiar

 

Não seria incorrecto se descrevesse Saga como um cruzamento entre a space fantasy de Star Wars numa versão para adultos e a tragédia familiar de Romeu & Julieta. De facto, a a trama escrita por Brian K. Vaughan e ilustrada por Fiona Staples tem lugar num universo ficcional onde naves espaciais convivem sem dissonância com formas de magia e de misticismo, e toda a acção decorre do amor improvável entre dois soldados de facções inimigas num conflito de dimensões galácticas. Mas, não sendo incorrecta, esta descrição pecará por ser demasiado redutora: as semelhanças tanto com a série de filmes iniciada por George Lucas como com a tragédia escrita por Shakespeare terminam logo nas primeiras páginas da banda desenhada com o nascimento de Hazel, filha da relação proibida entre Alana, nativa do planeta Landfall, e Marko, oriundo da lua de Wreath. Perseguida por ambas as facções e pelos vários grupos a elas associados, a recém-formada família enceta uma fuga pela galáxia, procurando proporcionar a Hazel uma infância tão normal quanto possível - e por normal entende-se aqui um foguetão-árvore enquanto casa, uma babysitter fantasma, amizades incertas e inimigos determinados. 

 

Autores menos experientes (talentosos) começariam a história pelo infodump clássico para estabelecer as origens do conflito, as facções, o alastrar da guerra, os protagonistas. Vaughan, porém, não perde tempo com os clichés do costume: Hazel nasce, Alana e Marko estão em fuga, e todo aquele universo abre-se perante o leitor numa trama especialmente bem urdida, onde o frenesim da perseguição se alterna com pequenos momentos familiares. Quem apreciar as aventuras espaciais pela acção sentir-se-á em casa nas páginas de Saga, mesmo que nelas não abundem os intensos combates de naves que tanto sucesso fizeram (fazem) no cinema: a história segue sempre a bom ritmo, as peripécias e as reviravoltas sucedem-se sem perder de vista as persongens complexas e ambíguas que a atravessam. Mas Saga é mais do que a aventura: por entre as peripécias galácticas de Alana, Marko e Hazel, Vaughan vai tecendo algumas reflexões sobre a diferença e o preconceito, sobre a futilidade da guerra e os fantasmas que esta deixa, e sobre questões familiares raramente abordadas na tradição dos comics norte-americanos. Ou, pelo menos, raramente abordadas de forma simultaneamente aventureira e intimista.

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À mestria narrativa de Vaughan junta-se a ilustração assombrosa de Fiona Staples, repleta de vivacidade, a alternar entre os planos mais vastos e os momentos mais intimistas sem nunca perder o pé. Os seus alienígenas são expressivos, diversos e fascinantes, parte integrante da trama em curso e não apenas um cenário glorificado para meia dúzia de cenas - alguns, como o "Lying Cat", já conquistaram o seu lugar no imaginário da cultura popular contemporânea. Prova viva de que a banda desenhada não é apenas um mero texto ilustrado mas uma simbiose entre a palavra e a imagem, a arte de Staples dá toda uma nova dimensão à trama, conferindo a todo aquele universo uma cor sem paralelo. E mais do que isso: uma sensualidade rara neste formato. Disse no início do texto que Saga seria algo como "Star Wars para adultos", e não me referia apenas à profundidade e à pertinência do texto e da mensagem de Vaughan mas também ao arrojo do desenho de Staples, sem tabus e em momento algum gratuito ou desnecessário. A capa da primeira edição, que ilustra este texto, é disso um óptimo exemplo, e gerou a sua dose de polémica à data de publicação (mesmo estando longe de ser uma imagem explícita, ou mesmo a imagem mais explícita desta banda desenhada).

 

Com o primeiro capítulo publicado pela Image Comics em 2012, Saga encontra-se ainda em publicação - se formos contabilizar as colectâneas em paperback, está actualmente no sétimo volume, com oitavo a ter publicação prevista para o início de Janeiro próximo. Felizmente, vivemos uma pequena época de ouro para a banda desenhada em Portugal (algo que não acontece com a literatura deste género), tanto em edições nacionais como nas edições traduzidas, e Saga está a ser publicada por cá pela G Floy Studios em boas edições e bom preço. Seja no original ou em português, é-me impossível recomendá-la mais: no que à space opera contemporânea (ou space fantasy, se quisermos ser picuinhas com a terminologia) diz respeito, Saga é uma obra ímpar.

 

(Para os leitores que possam querer uma sugestão de banda desenhada nestes temas, mas menos atrevida, que sirva de prenda de Natal para os mais novos, recomendo Valérian, que a reboque do filme que estreou no Verão até está a ser reeditada por cá: é um clássico, é divertida, e ainda que aqui e ali esteja algo datada, em alguns aspectos continua à frente do seu tempo. Saga, sendo extraordinária, não é de todo uma banda desenhada para crianças)

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Fórum Fantástico 2017

por João Campos, em 28.09.17

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A Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro (Telheiras) vai receber nos próximos três dias a décima edição do Fórum Fantástico, com conferências, apresentações e workshops sobre ficção científica, fantasia e horror em todas as suas formas e sub-géneros. Haverá exposições, espaços e actividades para miúdos (e graúdos), uma feira do livro, e até uma sessão ao vivo de um programa de televisão extinto. O programa completo do Fórum pode ser consultado aqui, a entrada é livre, e toda a gente é bem-vinda.  

 

(E sim, apesar de a campanha autárquica ser um autêntico filme de horror, de o "dia de reflexão" ser um conceito algo distópico, e de haver candidatos com propostas tão lunáticas que nem na ficção científica de série B teriam lugar, ainda ninguém se lembrou de sugerir a proibição de convenções deste tipo em época de eleições. É aproveitar, pois convenhamos: os nossos políticos já tiveram ideias mais rebuscadas)

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A epifania

por João Campos, em 27.09.17

No Público, a propósito da muito oportuna reedição de The Dispossessed de Ursula K. Le Guin pela Saída de Emergência (com o título Os Despojados), escreve o crítico Luís Miguel Queirós:

Ao contrário da ficção policial, onde para cada Raymond Chandler se arranjam com facilidade três ou quatro Agatha Christie, Margaret Millar ou Patricia Highsmith, a ficção científica é ainda hoje, em boa medida, um mundo de homens. No alto firmamento dos Ray Bradbury, Stanislaw Lem ou Philip K. Dick, uma só autora brilha praticamente isolada: Ursula K. le Guin. E tal como os melhores do género, talvez de qualquer género, os seus livros não são verdadeiramente catalogáveis e podem ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica. O que vale também para a sua incursão na chamada ficção fantástica, a pentalogia de Terramar, que se recomenda sem reservas a leitores que já não conseguem suportar nenhum dos incontáveis descendentes de J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin (bastante) incluído. 

 

Só neste primeiro parágrafo teríamos pano para muitas mangas. Poderíamos, se quiséssemos, falar do desconhecimento que o crítico demonstra quando à ficção científica contemporânea (os três autores citados já morreram, e, polémicas à parte, uma leitura na diagonal dos títulos nomeados aos prémios Hugo e Nébula dos últimos seis ou sete anos seria talvez esclarecedora quanto a questões sobre o género de quem escreve o género). Ou mesmo da sua ignorância quanto à ficção científica dita "clássica" - Le Guin será um dos maiores vultos do género, sem dúvida, mas nunca terá ouvido falar de Alice Sheldon (mais conhecida por James Tiptree Jr.), de C.J. Cherryh, ou de Octavia Butler? Ou até, caso nos quiséssemos aventurar noutros territórios, demonstrar como a "chamada ficção fantástica" [sic] não se resume a Tolkien e aos seus discípulos, e de caminho recomendar, sei lá, Neil Gaiman ou Terry Pratchett. Enfim, o tempo é escasso, pelo que me vou ficar pela frase que destaquei a negrito.

 

Imagino que quando o crítico literário médio se vê obrigado a ler um bom livro de ficção científica, seja um texto contemporâneo ou a reedição de um clássico, a epifania seja inevitável: afinal, isto não tem nada que ver com Star Wars ou Star Trek ou aquelas merdas comerciais e vagamente infantis de que os nerds parecem gostar! Afinal há aqui um questionar da natureza da realidade, uma exploração das questões de género, um olhar crítico ao sistema capitalista / comunista / anarquista! E, logo de seguida, chega o orgasmo, o clímax do pretensiosismo: afinal, aquele outro livro desta senhora até vem n' O Cânone Ocidental do Harold Bloom! Como é evidente, ao crítico literário médio nunca irá ocorrer que talvez as suas premissas estivessem erradas, e que talvez a ficção científica enquanto género literário não se resuma apenas às talking squids in outer space com que Margaret Atwood enfureceu meio mundo há trinta anos, Ursula K. Le Guin incluída, a propósito de The Handmaid's Tale (excelente, já agora) ter ganho o prémio Arthur C. Clarke. Nada disso. Se a realidade não se ajusta aos preconceitos, é mais fácil negar a realidade e manter os preconceitos (uma atitude muito em voga, admita-se). Dito de outra forma: se aqueles livros são bons, então não podem ser ficção científica - serão "fábulas", talvez, porventura "parábolas", quiçá "metáforas" (as definições não são muito criativas). Ou então até são ficção científica, sim, mas são tão bons que "transcendem o género". Ou, como diz o crítico, "não são catalogáveis", podendo até - pasme-se! - "ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica". É de ir às lágrimas ou ao vómito, conforme a disposição.

 

A crítica acaba por ser positiva - spoiler alert, o livro levou "quatro estrelas" -, mas em 2017 já não há paciência para o snobismo literário para com a ficção dita "de género" (já escrevi longamente sobre o tema aqui). No cinema, pelo menos, alguns críticos já perceberam (não todos, mas o caminho faz-se caminhando) e são capazes de apreciar um filme de ficção científica sem vergonha e sem necessidade de recorrer à referência highbrow, aos clichés corriqueiros e às desculpas esfarrapadas. Mas na crítica literária publicada pelos vistos ainda há um longo caminho a percorrer. O que não surpreenderá quando reparamos que esses críticos parecem ter parado no tempo em 1994. Ou, se as referências que Luís Miguel Queirós tem da ficção científica literária servem de exemplo, algures entre as décadas de 50 e 60. Alguém se compadeça e lhes envie um DeLorean. 

 

(Aos leitores, recomendo  pouco a crítica e muito The Dispossessed. É um livro notável.)

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"Arrival", ou os novos encontros imediatos

por João Campos, em 17.11.16

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Numa época de aridez criativa mal disfarçada pelo frenesim narrativo, pela pirotecnia computorizada, e pela insistência na franchise que tomou conta das grandes produções de Hollywood, um filme como Arrival é mais do que refrescante - é insólido quase ao ponto do absurdo. Não encontramos, neste blockbuster do canadiano Denis Villeneuve (Sicario) que adapta para o cinema o magnífico conto Story of Your Life do norte-americano Ted Chiang, qualquer vestígio dos elementos que as produções deste tipo têm banalizado com insistência. Toda a acção do filme consiste, justamente, em evitar a acção (ao estilo de Hollywood, entenda-se); ao longo das suas quase duas horas não temos uma única perseguição, o único tiroteio que tem lugar decorre fora da tela, e ao invés de procurarem vencer a guerra pelo combate, os protagonistas esforçam-se por não travar de todo essa guerra.

 

O que, convenhamos, é raro num filme cuja premissa assenta na noção de "primeiro contacto", quando doze naves alienígenas monolíticas aterram no nosso planeta e fazem o mundo mergulhar no caos apenas e só pela sua presença. 

 

Ao invés de resolver a questão pela habitual via bélica, as autoridades dos vários países "visitados" optam, num primeiro momento, por tentar estabelecer contacto por outras vias. É aqui que surge a protagonista, num desempenho notável de Amy Adams: Louise Banks, linguista de renome, a quem o Exército norte-americano confia a liderança de uma equipa que consiga encontrar uma forma de comunicar com os alienígenas para compreender as suas intenções. A partir daqui, Arrival desenrola-se em simultâneo pelo drama pessoal de Louise e a tragédia que marca a sua vida, e pelo drama linguístico que os alienígenas colocam. Longe estão os territórios simplistas e batidos dos Star Wars a que nos acostumámos no cinema, em que o inglês se tornou na língua franca da galáxia: Arrival renuncia a esse legado para demonstrar não a impossibilidade mas a improbabilidade da comunicação com uma civilização extra-terrestre. Nesse sentido, estamos mais perto de um Close Encounters of the Third Kind de Spielberg ou mesmo de um Solaris de Tarkovsky; e, tal como nestes dois filmes (e em boa parte da ficção científica deste género), em Arrival aquilo que está verdadeiramente em causa não é tanto a chegada dos alienígenas como o impacto que essa chegada tem na vida das personagens que estamos a acompanhar. O resultado, esse, dificilmente poderia ser melhor.

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Os bois, os nomes, e os géneros

por João Campos, em 09.09.16

O destaque do Eduardo Pitta é interessante, mas merece um reparo. Apesar de os romances que o celebrizaram (Do Androids Dream of Electric Sheep?A Scanner Darkly e este The Man in the High Castle) poderem ser considerados distopias, será um tanto ou quanto redutor dizer que Philip K. Dick foi um dos guru da ficção distópica - e logo ele, figura maior da literatura de ficção científica, género que desenvolveu de forma ímpar em inúmeros contos a partir dos anos 50 (é ler RoogPaycheckSecond Variety, entre tantos outros) e em vários romances (aos que citei poderia juntar Ubik ou The Martian Time-Slip) que escreveu até à sua morte prematura em 1982. É sempre simpático ver a "elite" literária a olhar para o lado uma vez por acaso e a dar atenção a textos de géneros que regra geral considera menores, mesmo quando continua a ser incapaz de ver para lá das referências que toda a gente já conhece (The Man in the High Castle, estando muito longe de ser o melhor texto de PKD, até teve por cá uma outra edição há poucos anos, e uma adaptação televisiva recente); mas não lhe cairiam os parentes na lama por tratar os bois pelos nomes. 

 

(Também será muito discutível a afirmação de que [p]ara muita gente, Dick é o homem por trás de Blade Runner, o filme que Ridley Scott fez a partir do romance Do Androids Dream of Electric Sheep?; na história da literatura de ficção científica, e no contexto dos anos 50 e 60, PKD é tão incontornável como Heinlein, Asimov e Clarke; os seus romances e as suas colectâneas de contos continuam a ser reeditadas com regularidade no mercado de língua inglesa; e muitos outros textos seus têm sido adaptados para cinema e televisão. Dito de outra forma: é bem possível que PKD seja muita coisa para muita gente. Mas talvez não valha a pena entrar por aí.)

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Tarkovsky no grande ecrã

por João Campos, em 03.03.16

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Andrei Tarkovsky tem estado em retrospectiva desde Fevereiro no Cinema Nimas, em Lisboa. O que significou hoje uma oportunidade única de rever no grande ecrã um dos clássicos maiores do cinema de ficção científica: Solaris, de 1972, adaptado do romance homónimo do polaco Stanislaw Lem. Que, numa meditação sobre a memória, a experiência de vida e o arrependimento, toca num tema fascinante: a improbabilidade da comunicação, no caso entre seres humanos e alguma forma de inteligência alienígena que, não sendo humanóide, poderá bem ser incompreensível (a ficção científica, e sobretudo o cinema, está repleta de alienígenas em forma humana; quando o primeiro contacto finalmente acontecer, é muito provável que venhamos todos a constatar que Lem esteve mais perto da realidade do que a maior parte dos seus pares).

 

Tivesse eu já lido o livro - está na lista de próximos a comprar há anos - e aventurava-me num breve spin-off da excelente série que o Pedro tem mantido aqui no Delito (bem sei como estou a precisar de algo que me faça voltar a escrever com regularidade). Talvez me atreva para a semana, ainda a propósito de Tarkovsky, se conseguir finalmente ver o outro filme de ficção científica do mestre russo: Stalker, de 1979, que adaptou para o grande ecrã um romance notável dos irmãos Boris e Arkady Strugatsky, Roadside Picnic

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Under the Skin

por João Campos, em 08.05.14

 

(...) And somehow Johansson, Glazer and his cinematographer Daniel Landin transform how we think of this star. They've taken one of the most glamorous actresses of the modern era—a woman whose looks have been abstracted into hubba-hubba caricature in most films, and on awards shows—and ironically restored her earthliness by having her play a creature not of this earth. They've made her beautiful in a real way, with hips and blemishes and folds in her skin.

 

As palavras são do crítico Matt Zoller Seitz no portal de Roger Ebert a propósito do desempenho superlativo de Scarlett Johansson em Under the Skin, a terceira longa-metragem do britânico Jonathan Glazer e um dos filmes mais belos, estranhos, desconfortáveis e divisivos do ano. Com uma estética algo reminiscente de Kubrick, uma banda sonora tão evocativa como arrepiante da jovem Mica Levi e uma fotografia lindíssima (que nos últimos só talvez encontre igual no extraordinário Melancholia de Lars Von Trier), Under the Skin coloca Scarlett Johansson no papel de Laura, uma alienígena em pele humana que vagueia pela noite de Glasgow em busca de homens para seduzir - para fins que o filme mostra sem explicar, numa cena cuja beleza evanescente só pode ser comparada ao horror visceral que conjura. A interpretação de Johansson, com pouquíssimas palavras, revela-se perfeita do primeiro ao terceiro acto do filme - a sua aparência inocente e sedutora, a sua natureza predatória implacável, a sua confusão perante o que é, o que aparenta ser e o que não poderá ser. E acima de tudo a estranheza do que não é humano, do que não compreende o que é ser-se humano por mais que se tente misturar - um ponto de vista raríssimo, raramente arriscado e brilhantemente executado. Poucos extraterrestres da ficção científica cinematográfica são tão alienígenas como a Laura de Johansson, enganadora na sua forma humana; e poucos filmes do género conseguiram veicular a noção do outro com a mesma carga emocional. 

 

Under the Skin estreia hoje, e será sem dúvida um dos melhores filmes de 2014. 

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2001: A Space Odyssey de novo no cinema

por João Campos, em 22.11.13

 

Ao longo dos últimos meses, os cinemas UCI têm vindo a repor nas suas salas de Lisboa, de Alfragide e de Gaia alguns clássicos de cinema, dando a oportunidade de ver - ou rever - no grande ecrã alguns dos filmes mais marcantes da história da sétima arte. E assim, 45 anos depois da sua estreia original em 1968 (não faço ideia quando terá passado por cá), 2001: A Space Odyssey, clássico maior da ficção científica realizado por Stanley Kubrick e escrito a meias com o "mestre" Artur C. Clarke, regressou às salas de cinema para poder ser apreciado em todo o seu esplendor visual e sonoro (acreditem: a extraordinária banda sonora do filme ganha uma outra dimensão; das imagens nem vou falar). Já o tinha visto várias vezes, claro (recordemos); mas assistir a uma sessão destas é quase como vê-lo pela primeira vez. Se tiverem oportunidade, não deixem passar: sentem-se na segunda fila (sugestão pessoal), deixem a tela preencher todo o campo de visão, e atravessem a stargate com Dave Bowman. 

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O que estou a ler (2): "Fatherland", de Robert Harris

por José Gomes André, em 12.06.13

Esta série começou com um adepto de ficção científica e prossegue com um adepto de ficção científica. Sim, confesso que boa parte do meu tempo livre é passado junto de títulos sugestivos como "Um Túnel no Céu" ou "A Máquina do Tempo Acidental".

O livro que estou a ler (fiz batota porque já acabei, perdoem-me) chama-se "Fatherland" e é um dos mais notáveis exemplos de um sub-ramo da ficção científica: a "história alternativa". A premissa necessária deste género ("e se?") é na verdade um clássico - "e se os alemães tivessem ganho a 2ª Guerra Mundial?" - mas o autor, Robert Harris (um antigo jornalista, que escreve muito sobre os nazis e a Roma Antiga), aborda-a de uma forma particularmente feliz, tornando o livro num misto de policial, aventura e investigação histórica.

Por que gosto de ficção científica, especialmente de "história alternativa"? Ao contrário do que se pense, não por ter um qualquer fetiche com mundos imaginários ou uma tremenda saturação com a realidade, mas porque este género traz a derradeira compreensão sobre o que realmente aconteceu. Quase paradoxalmente, é ao considerarmos o que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, que melhor percebemos a singularidade do que aconteceu realmente, nos seus aspectos mais peculiares e extraordinários. Não só mergulhamos num "mundo paralelo", como acabamos por viajar "no nosso próprio mundo", que assim nos parece tão miraculoso, quanto fruto de milhares de pequenos acasos.

O livro de Harris pega neste paradoxo num ponto de grande importância - e que tantas vezes passa despercebida na nossa consciência histórica: o Holocausto. Com efeito, esquecemo-nos que só no fim da Guerra o mundo percebeu o horror levado a cabo pelos nazis, após a mais incrível operação de encobrimento da história, com a conivência da população alemã, da imprensa nacional e estrangeira e dos milhares de soldados do exército germânico. Em "Fatherland", os judeus desapareceram sem que se perceba bem porquê, mas o mundo vive tranquilamente com a ideia. Corre o ano de 1964. Ao investigar um homicídio suspeito, Xavier March, um detective das SS (mas pouco fiel à ideologia nazi), acabará por deter-se com uma série de estranhas descobertas sobre antigos oficiais nazis envolvidos num qualquer esquema ocorrido no Leste europeu, há mais de 20 anos.

Como já revelei (desculpem outra vez!), esse esquema foi na verdade a execução de milhões de judeus em campos de concentração. O mais curioso do livro é que March, tal como a humanidade no "mundo real", mesmo quando confrontado com provas evidentes do que sucedera, continua a recusar-se a acreditar nessa horrível hipótese, embora já saiba da sua existência. Pois admiti-la abertamente seria reconhecer a sua própria culpa - a nossa culpa - por ter permitido que tal tragédia se desenrolasse debaixo do seu nariz. Não é por acaso que ainda hoje muitos preferem esquecer o que aconteceu.

 

Siga a série, com o José Maria Gui Pimentel.

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Há qualquer coisa de muito interessante na leitura da obra de um escritor seguindo uma ordem mais ou menos cronológica, pegando nos seus livros mais antigos e seguindo-os até aos mais actuais. Sobretudo quando esse autor estabelece um universo ficcional no qual vai enquadrando ao longo dos anos a sua ficção, ou uma parte dela, dando aos seus leitores a possibilidade de o acompanharem de forma única na sua evolução enquanto autor. Há mais ou menos dois anos comecei a ler assim Discworld, de Terry Pratchett (ver como a escrita e o mundo ficiconal evoluem a cada livro é fascinante - e ainda nem cheguei a metade); há dias, e com o mesmo propósito, peguei em Consider Phlebas, livro de 1987 com o qual o autor escocês Iain Banks - ou, no caso, Iain M. Banks, ganhando o "M." nos seus títulos de ficção científica - deu início à série "Culture" (com um título, já agora, retirado de uma passagem de The Waste Land, de T.S. Eliot).

 

Na prática, e por aquilo que já tive oportunidade de ler (ainda não vou a meio), Consider Phlebas parece ser uma aventura quase ao estilo de space opera, construída num universo fascinante que assenta em ideias e em conceitos tradicionais de ficção científica (as esferas e os anéis de Dyson, as Inteligências Artificiais muito... peculiares, os shapeshifters). E, claro, com uma prosa rica, evocativa nas descrições, e viva nos diálogos. Até ao momento, as desventuras do protagonista com aquele que será porventura o grupo de mercenários mais azarado que o género já conheceu são divertidas - mas todos os pequenos detalhes que Banks sopra para o leitor sobre aquele universo pós-escassez na qual a Humanidade, ou uma qualquer forma de Humanidade, construiu a sua utopia hedonista com a ajuda (e a governação) de Inteligências Artificiais são aliciantes. É este universo que Banks explora ao longo dos vários livros que compõem a série "Culture" - e que conto descobrir nos próximos tempos, dos livros mais antigos aos mais recentes (ainda que tal ordem de leitura não seja de todo necessária). 

 

Até ao momento, Iain M. Banks (que sem o "M." publicou livros como The Wasp Factory, Complicity ou Stonemouth) publicou nove livros e uns poucos contos dentro do universo ficcional de "Culture" - e, infelizmente, é improvável que venha a escrever mais algum. Em Abril, o autor apanhou os seus muitos leitores (de ambas as ficções) de surpresa com um diagnóstico de cancro terminal, que provavelmente não lhe permitirá viver mais um ano completo. O seu próximo livro, The Quarry, com publicação prevista para breve, será à partida o seu último romance. 

 

 

Este texto, já agora, é o primeiro episódio da segunda temporada de uma série que por aqui experimentámos há alguns meses (ano e meio, vá - fica aqui o recap), e à qual agora regressamos. Não sei qual será o argumento do próximo episódio, mas podemos perguntar ao José Gomes André, a cargo da realização. 

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Anti-histamínicos académicos

por João Campos, em 01.12.12

Durante a semana que passou, assisti a algumas sessões da segunda edição do Colóquio Internacional "Mensageiros das Estrelas",  organizado pelo Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (Faculdade de Letras) e inteiramente dedicado à Ficção Científica e à Fantasia. Com todo o mérito que a iniciativa tem (e tem muito), o que mais me marcou neste "regresso" à universidade foi ver como, pelos vistos, nada mudou no ensino universitário português: a primeira sessão do colóquio a que assisti consistiu numa professora universitária que, durante uma hora, leu (em inglês) tudo o que tinha escrito em meia dúzia de folhas de papel, utilizando como suporte uma apresentação de Powerpoint repleta de autênticas paredes de texto. Para não falar na fraca preparação do tema: as referências dividiam-se entre as óbvias e as duvidosas, e em ambos os casos pouca novidade acrescentavam ao tema. Quem já o conhecia, pouco aprendeu; quem não o conhecia, não terá decerto ficado com vontade de o explorar. Em resumo: um horror, uma sessão mais soporífera que os medicamentos anti-histamínicos que habitualmente tomo. Em apenas uma hora, lembrei-me de tudo aquilo que abominava no Ensino Superior (e não só) português: aulas paradas, com professores a ler de forma desinteressada e monótona - quando não entediada - a matéria. Há excepções? Claro. Não parecem ser muitas, porém - entre os académicos portugueses (e talvez entre os portugueses em geral), os bons oradores são raros. 

 

Vejamos o contraste. O último dia do colóquio abriu com uma sessão plenária com Adam Roberts, académico e escritor britânico de ficção científica. Sem papéis para ler (sequer para se guiar), sem Powerpoint a ser projectado, sem se esconder atrás de uma secretária: durante uma hora numa manhã chuvosa de Sexta-feira, Adam Roberts falou - pasme-se, falou - para a audiência sobre o que é a ficção científica e sobre o humor no género. Fê-lo de forma descontraída, enquanto andava de um lado para o outro da sala, sempre a olhar para o público - dando exemplos, contando piadas, respondendo a questões. Fez alguns apontamentos - poucos e cirúrgicos - num quadro branco. Mostrou uma curta. Sempre com muito humor. E tudo isto, note-se, sem descurar o rigor académico da sua exposição.

 

Bem sei: o propósito do Ensino - básico, secundário, universitário - é ensinar, não entreter. Concordo. Há, porém, várias formas de o fazer. Há quem prefira, como Adam Roberts, cativar a audiência para a interessar no tema em discussão. E há quem, como a infeliz professora da primeira sessão a que assisti, prefira anestesiar a audiência. Julgo não ser necessário dizer qual das sessões foi mais proveitosa em termos de conhecimentos adquiridos.

 

(entretanto, e a quem interessar, escrevi aqui um artigo mais longo e detalhado sobre o colóquio)

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Fórum Fantástico 2012

por João Campos, em 16.11.12

 

Na próxima semana, de 23 a 25 de Novembro, terá lugar na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras, a edição de 2012 do Fórum Fantástico. O programa pode ser consultado aqui, e deixo desde já o convite aos colegas delituosos e a todos os leitores que se queiram distrair da crise e aparecer nesta convenção do Fantástico para um pouco de fantasia e ficção científica. Desta vez, até este vosso escriba vai "botar faladura" (ainda que por pouco tempo, para alívio da audiência). A entrada é livre.

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Os Óscares deste ano são os mais desinteressantes de que me lembro. Não vi um único filme dos nomeados - e a verdade é que não existe nenhum na lista que faça realmente questão de ver. 


Valha-me 2012, que graças a vários regressos promete ser um excelente ano cinematográfico. Ridley Scott regressa ao seu melhor género, a ficção científica, e ao universo de Alien com Prometheus, a prequela-que-não-é-uma-prequela da obra-prima de 1979. Cristopher Nolan regressa a Gotham City e ao universo de Batman - o único super-herói que passou bem da banda desenhada para o grande ecrã - com The Dark Knight Rises, o capítulo final da sua trilogia sobre o sombrio alter ego de Bruce Wayne. E, por fim, resta o muito aguardado regresso de Peter Jackson à Terra Média, com a adaptação de The Hobbit, onde poderemos ver como Bilbo Baggings, entre muitas outras aventuras, encontrou o Anel que colocou em marcha os acontecimentos de The Lord of the Rings.

 

O trailer deste dificilmente poderia ser mais prometedor.


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Fantástico

por João Campos, em 21.11.11

Decorreu entre 18 e 20 de Novembro o Fórum Fantástico 2011. Em jeito de resumo (que não fará justiça ao evento), foram três dias de excelentes sessões sobre os géneros do fantástico na literatura, no cinema e na banda desenhada. Entre os convidados estiveram, entre outros, o escritor e cineasta António de Macedo (e é fascinante ouvi-lo, esteja ele no palco entre os oradores ou na plateia, entre o público, a fazer comentários e a colocar questões), o autor espanhol Félix J. Palma, o escritor João Barreiros, Filipe Melo (cuja obra já aqui foi mencionada), e Victor Mesquita, "guru" da banda desenhada portuguesa. As sessões, essas, oscilaram entre o bom e o excelente.

 

Para terem uma ideia melhor do que foi o Fórum Fantástico 2011, podem consultar o blogue oficial.

 

Uma vez mais, o mérito da organização vai para Rogério Ribeiro e Safaa Dib.

 

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Já falta pouco

por João Campos, em 17.10.11

 

Fórum Fantástico 2011. Em breve, mais informações sobre a programação. 

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A Fall of Moondust

por João Campos, em 03.09.11

Escrever ficção científica durande as décadas de 50 e 60 seria certamente um desafio. Em plena corrida espacial, com a exploração do espaço a tomar a forma de uma corrida sem pausas entre os Estados Unidos e a União Soviética, e com descobertas a serem feitas a um ritmo alucinante, qualquer narrativa situada num futuro próximo corria o risco de se tornar obsoleta num instante. Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke sabiam-no bem, quando embarcaram na aventura de escrever e produzir o filme 2001: A Space Odyssey - o resultado, como se sabe, foi um filme de um realismo ainda por superar no género, mais de quarenta anos volvidos. Mas Clarke, escritor do projecto, já tinha o trabalho feito: todos os riscos que a produção do filme enfrentava já ele os conhecia desde que escrevera, em 1960, A Fall of Moondust

 

De facto, até aos nossos dias a exploração da Lua - tanto pelos astronautas do programa Apollo que lá "alunaram", como pelas inúmeras sondas enviadas e observações feitas - não detectou nada que se pareça com o enigmático "Sea of Thirst" que Clarke descreve: uma vasta planície coberta por uma poeira de propriedades estranhas, que parece quase líquida (e age como tal). Isto não quer dizer que não se venha ainda a encontrar algo do género, mas feitas as contas isso pouco importa perante a história prodigiosa que Clarke escreveu.

 

A Fall of Moondust é um livro com um final potencialmente previsível (ainda que esteja sempre aberta a porta a uma surpresa). O que está longe de ser negativo. Diz-se muitas vezes, não exactamente por estas palavras, que as viagens valem pelo caminho percorrido, e não pelo destino. Se em Rendezvous With Rama, a pergunta que Clarke coloca é "o que os personagens irão lá encontrar", em A Fall of Moondust a pergunta é outra: "como é que os personagens se irão safar?" A história é simples: com a Humanidade a conseguir alcançar já a periferia do Sistema Solar, a Lua encontra-se permanentemente colonizada, e o turismo lunar é uma indústria em ascensão. Uma das grandes atracções do nosso satélite é, justamente, o misterioso "Sea of Thirst". O protagonista, Pat Harris, é o capitão da Selene, um veículo concebido para navegar pelo "Sea of Thirst" e mostrá-lo aos ávidos turistas lunares. A viagem que dá início à história parece ser apenas mais uma - até ao momento em que um incidente geológico faz a Selene "naufragar", com os seus vinte e dois passageiros e tripulantes, e a leva ao fundo daquele mar de poeira. E aqui entra, em grande, a prosa rápida e fluida de Clarke, à medida que dá conta dos esforços das autoridades da Lua e da Terra para levarem a cabo uma complexa e quase impossível missão de salvamento, da luta pela sobrevivência daquele improvável grupo de passageiros, e da aventura de um jornalista veterano para transmitir a cacha da sua carreira. Estas três narrativas dão forma a uma história prodigiosa, cheia de reviravoltas erecheada de elementos científicos que permitem aprender imenso sobre a Lua (Clarke não era um dos "Três Grandes" da ficção científica por acaso).

 

Para quem nunca leu o género, A Fall of Moondust pode ser uma excelente introdução à ficção científica. Para os afficionados, é sem dúvida um livro a ler (e a reler). 

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Foundation

por João Campos, em 20.03.11

Costuma dizer-se que Dune, de Frank Herbert, está para a ficção científica como The Lord of the Rings, de Tolkien, está para a fantasia. Não quero de modo algum desvalorizar a obra de Herbert, a todos os níveis notável; no entanto, diria que a grande epopeia da ficção científica foi escrita não por ele, mas por Isaac Asimov: a série Foundation.
Asimov foi – é – considerado um dos “três grandes” da ficção científica, a par de Clarke e Heinlein. Com toda a justiça, diga-se de passagem : é o autor das ultracitadas “Três Leis da Robótica”, e da aclamada série “Robot”; da sua autoria é também o mais famoso conto de ficção científica de todos os tempos, Nightfall; e, mais importante ainda, é o autor de Foundation, uma das obras que se poderá gabar, sem falsa modéstia, de ser um dos textos essenciais do género.
A história de Foundation tem início num futuro distante, no qual a raça humana colonizou a espiral da Via Láctea de uma ponta à outra, na forma de um Império Galáctico que se estende por milhões de planetas e governa triliões de pessoas. A capital do Império, perto do centro da Galáxia, é a cidade-planeta de Trantor – e nela vive Hari Seldon, o eterno (e ausente) protagonista da série, o matemático prodigioso que estabeleceu o princípio de que o futuro da raça humana, enquanto observação das massas, pode ser previsto e determinado com precisão através da resolução de equações matemáticas. Nasce assim a “Psicohistória”, ramo científico apenas dominado na perfeição pelo próprio Seldon, e que deu ao seu fundador a capacidade de ver o declínio do Império, já em curso, e a sua inevitável queda, à qual se seguiriam trinta milénios de barbárie em redor de estilhaços da civilização espalhados por entre as estrelas.
Pretendendo alterar o curso da História e reduzir o período de ocaso da humanidade para apenas um milénio, Seldom embarca numa viagem, com todos os seus cientistas, para o distante planeta de Terminus, na orla da Galáxia. E em Terminus nasce a Foundation, uma cidade dedicada ao projecto de elaborar uma “enciclopédia galáctica”, um repositório de conhecimento científico que permitisse à raça humana renascer após as trevas da queda do Império.
Seldon prevê, através da psicohistória, que a Foundation teria de atravessar várias “crises” ao longo dos tempos. E são essas crises que, em termos de estrutura narrativa, marcam as cinco partes de Foundation: a primeira, em jeito de prólogo, narra a história da partida de Seldon de Trantor e o estabelecimento da Foundation; a segunda parte, intitulada “os Psicohistoriadores”, conta a história da Foundation após a morte de Seldon e a nascente sociedade de Terminus governada pelos seus sucessores; a terceira parte tem o título “The Mayors”, e mostra uma Foundation já governada pelo poder político, e envolvida em tensões político-económicas com os mundos que lhe estão mais próximos à medida que o declínio do Império se acentua e este perde o controlo da periferia galáctica; na quarta parte, intitulada “The Traders”, narra a ascensão do poder económico tanto no interior da Foundation, em Terminus, como na sua expansão para os mundos próximos; e, por fim, a quinta parte da história revela uma Foundation dominada pelo poder económico, que leva a sua influência a vários mundos da orla da galáxia – muito adequadamente, esta parte tem o título de “The Merchant Princes”. Todas estas etapas, que abrangem um período de sensivelmente 150 anos, foram matematicamente previstas por Hari Seldon, que determinou com exactidão a natureza de cada crise.
A história de Foundation não acaba aqui: a série tem um total de sete livros, com quatro sequelas e duas prequelas ao livro original. A Foundation segue-se Foundation and Empire, Second Foundation, Foundation’s Edge e Foundation and Earth; Prelude to Foundation e Forward the Foundation narram os eventos que antecederam a partida de Seldon e o estabelecimento da Foundation. Mas essas histórias, que eu mesmo ainda estou a descobrir (vou no terceiro volume), deixo-as à curiosidade do leitor.

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A Clockwork Orange

por João Campos, em 08.02.11

A Clockwork Orange (Laranja Mecânica), de Anthony Burgess, faz parte daquele grupo muito restrito de literatura de ficção científica cuja enorme popularidade - e polémica - saiu dos círculos restritos do género e se tornou numa referência - tal como 1984, de George Orwell, or Farenheit 451, de Ray Bradbury. Para isso não terá sido de todo indiferente a adaptação cinematográfica realizada por Stanley Kubrick, em 1971 (sublime, mas lá chegaremos). Na verdade, pensar na revolta adolescente literária obriga-nos, invariavelmente, a passar por Alex, o protagonista da distopia de Burgess.

A Clockwork Orange é a história de Alex, narrada pelo próprio no peculiar "dialecto" que fala - "Nadsat", cunhado pelo próprio Burgess, um misto de Inglês corrente com Inglês antigo, Russo, cockney (expressões da classe operária britânica), e mais algumas criações do autor, que tornam a leitura particularmente desafiante. É a história de uma Inglaterra futurista, distópica, a braços com a violência e o crime - duas áreas nas quais Alex e o seu bando de droogs são especialistas. É a história das incursões de Alex pela violência e pelo crime, até ao momento em que tem de pagar pelos seus actos. E é a história da sua "reconversão" brutal, da sua transformação na "laranja mecânica" a que alude o título da obra, e o título de um livro dentro do livro. Essa transformação, numa feroz crítica às teses comportamentalistas de John Watson (e, antes dele, de B.F. Skinner e Pavlov, se quisermos), consiste em num condicionamento, com efeitos secundários curiosos, que torna os visados incapazes, física e emocionalmente, de cometer o mal. Mas se o bem e o mal são uma escolha moral, continuaremos a ser humanos se nos tornarmos incapazes de a tomar? É essa a questão colocada pelo capelão da prisão de Alex, e a resposta chegará pela voz do protagonista, à medida que a narração da sua história prossegue.

Como disse, é um livro difícil, por causa da linguagem original (não consigo imaginar uma tradução) mas de leitura muito recompensadora. Alex não só é uma personagem fascinante, como também é um narrador cativante; e a sua história levanta inúmeras questões, bem mais do que respostas definitivas. No fundo, é também isso que fazem aqueles livros que ficam para sempre.

Sem querer misturar duas áreas - literatura e cinema -, sinto-me obrigado a falar da adaptação cinematográfica de Kubrick. Para todos os efeitos, é uma adaptação extraordinária, porventura das melhores passagens de livro para película que já foram feitas. Malcolm McDowell representa um Alex inesquecível, tanto nos momentos de maior perversidade como nos de mais profundo desespero. É um vilão/vítima por definição: a sua personagem encerra estas duas vertentes de forma indissociável. Tanto do ponto de vista narrativo como visual, A Clockwork Orange, o filme, é imperdível; se Kubrick pecou, foi por defeito - o livro consegue ser ainda mais cru, explícito e perverso. Mas há um pormenor interessante: Kubrick baseou-se na edição americana do livro para realizar o filme, e, à época, essa edição omitia o último capítulo do original de Burgess. Isto, note-se, não retira qualquer mérito ao filme; mas o final omitido acaba por dar toda uma nova dimensão a Alex. Quem viu o filme e não leu o livro, vá por mim: vale a pena.

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Childhood's End

por João Campos, em 06.01.11

Há livros que lemos e dos quais gostamos muito. Bastantes, até. Que percebemos, antes mesmo de concluírmos a leitura, que são muito bons, extraordinários até, geniais. Que tornamos a ler com gosto, uma, duas, três vezes. Que recomendamos a todos os nossos amigos que leiam também. Mas há poucos livros que nos marquem verdadeiramente. Que nos atinjam em cheio. Que nos deixem sem palavras quando lemos as últimas linhas. Que nos deixem a pensar “que raio aconteceu?”, tal é o impacto que causaram. Que nos roubem todo o entusiasmo para deles falar, pois nem saberíamos ao certo por onde começar. Se ontem pensasse nos livros que em mim provocaram esse efeito, nomearia, entre muitos quatro: Aparição, de Vergílio Ferreira; The Catcher in the Rye, de Salinger; The Lord of the Rings, de Tolkien; e The Fountainhead, de Ayn Rand. Talvez seja ainda muito cedo para o afirmar com certeza, mas a sensação persiste, e talvez deva acrescentar um quinto livro a esta muito restrita lista (dos livros que, recordando uma clássica (e ridícula) pergunta de treta, eu levaria para uma ilha deserta): Childhood's End, de Arthur C. Clarke.

 

Childhood's End começa com o primeiro contaczzzzto alienígena com a civilização humana. E que contacto: justamente quando a civilização humana se prepara para a primeira expedição a Marte, naves enormes, do tamanho de cidades, entram na atmosfera terrestre e param a flutuar sobre as principais metrópoles do mundo (isto lembra-vos algum filme da década de 90?). Os seus ocupantes, identificados apenas como “Overlords”, tomam a partir desse momento conta dos destinos da Terra. Por meios pacíficos: em momento algum existe qualquer acção violenta contra os nativos do planeta, nem sequer por retaliação. É com os Overlords que nasce a utopia: a sua chegada põe fim a todas as guerras (até à violência contra animais), dá origem a um Governo Mundial baseado na ONU, e abre as portas a uma época de prosperidade sem paralelo na história. Mas nunca se deixam ver; limitam-se a pairar durante anos, no interior das suas gigantescas naves, sobre as cidades da Terra; tratam de todos os assuntos de governação com o Secretário-geral das Nações Unidas, único ser humano a ter acesso a uma nave dos Overlords. Mas nem este sabe qual é o aspecto dos alienígenas. O que, ao longo da primeira parte da narrativa, vai suscitando algumas perguntas: da curiosidade sobre o seu aspecto até à razão que os trouxe de tão longe (supõe-se que venham de longe, mas ninguém sabe ao certo de que canto do Universo vieram os visitantes), e, para alguns, qual é o preço a pagar pela Utopia?

 

 

Esta será a última questão a ser respondida – e precisamente aquela que me fez ler a última parte do livro de uma assentada, à mesa de um café num final de tarde. Mais do que uma fértil imaginação ou um tremendo conhecimento científico, que se nota nos mais pequenos detalhes (convém não esquecer que foi Clarke quem concebeu a ideia de utilizar - no mundo real - satélites geoestacionários para comunicações, em 1945), Clarke é um contador de histórias nato, capaz de tecer toda a teia da narrativa de forma a manter o leitor interessado, até ao ponto em que simplesmente não se consegue parar de ler. Com Rendezvous With Rama, também foi assim. E também, já um pouco longe das leituras, com uma das mais icónicas obras cinematográficas de sempre, que tem a sua imortal assinatura: 2001 – A Space Odyssey. Childhood's End não conta com qualquer adaptação cinematográfica, apesar de um guião estar perdido no “development hell” há largos anos. Esperemos que, quando (ou se) ver a luz do dia, faça jus à extraordinária obra de Arthur C. Clarke.

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A Scanner Darkly

por João Campos, em 08.12.10

Normalmente, quando publico aqui no Delito as minhas curtas recensões de ficção científica, faço-o apenas depois de ter lido os livros sobre os quais escrevo. Tenho três na calha, por manifesta falta de tempo (e de inspiração), mas hoje vou abrir uma excepção e falar de um livro que ainda estou a ler: A Scanner Darkly, de Philip K. Dick. Sobretudo por um motivo: A Scanner Darkly, com a sua escrita alucinada e uma narrativa tão psicadélica como as drogas de que fala, pode muito bem ser o exemplo perfeito de um livro de ficção científica que, por si só, devia afastar qualquer preconceito de género. Houve alguns livros sci-fi que pularam a cerca, passe a expressão, e se impuseram como referências na literatura mundial, talvez não por serem obras de ficção científica, mas apesar de serem obras de ficção científica - como bons exemplos, poderia apresentar Farenheit 451, de Ray Bradbury, A Clockwork Orange, de Anthony Burgess, ou, claro, Nineteen Eighty-Four, de George Orwell. A Scanner Darkly não fica atrás de nenhum destes - é, muito justamente, considerada uma das obras maiores de Philip K. Dick, ele mesmo considerado por muitos um dos maiores escritores de ficção científica de sempre.

A Scanner Darkly contém alguns elementos autobiográficos, e tem no consumo de drogas e respectivos efeitos o centro da história. A narrativa centra-se em Bob Arctor, nos seus amigos e colegas de casa Jim Barris e Ernie Luckman, e na sua namorada Donna Hawthorne. Arctor é polícia numa brigada de narcóticos, com a identidade de "Fred", e encontra-se a investigar os seus próprios amigos e a sua própria namorada. Nem estes sabem que Bob é, na verdade, um polícia disfarçado, nem a polícia sabe - para evitar a corrupção tão habitual no interior das brigadas de narcóticos - que "Fred" é, na verdade, Bob Arctor. O problema é que, para manter o disfarce, Arctor tem de consumir as drogas que está a investigar. Nomeadamente, uma droga conhecida como "Substância D", bastante viciante e com efeitos, por norma, devastadores.

Mencionei acima a "escrita alucinada" e a "narrativa psicadélica" de A Scanner Darkly. Faltaram-me adjectivos melhores, confesso; mas a verdade é esta: as quatro personagens principais da história estão quase sempre sob o efeito de drogas, e Philip K. Dick soube traduzir com mestria a vertigem desse estado para a escrita. Algumas passagens são verdadeiras alucinações, pela forma como prendem a atenção do leitor e insistem em desafiar uma lógica que se sabe não existir. Há uma passagem muito interessante (e famosa) que disso é exemplo: quando Arctor, Barris, Luckman e Donna discutem acaloradamente sobre a quantidade de mudanças que uma bicicleta tem. Parece parvo, eu sei, mas acreditem: é um diálogo absolutamente brilhante, entre os melhores que já li.

Uma vez mais, ainda não concluí a leitura do livro. Mas recomendo-o desde já.

 

Esta obra (como muitas outras de Philip K. Dick) foi já também adaptada para cinema em 2006. O realizador foi Richard Linklater, e o filme conta com as interpretações de Keanu Reeves, Robert Downey Jr., Woody Harrelson e Winona Ryder. Não sendo uma obra-prima, é um filme interessante, com momentos deliciosamente adaptados do livro (como a discussão sobre as mudanças da bicicleta, uma vez mais) e que utiliza uma curiosa técnica de animação. Sim, é um filme de animação, criada, tanto quanto sei, em pós-produção, como se o filme fosse reconvertido para animação, ou algo assim: falta-me a linguagem técnica. O que pouco importa aqui: o efeito é surpreendente, sobretudo devido ao enredo já de si "alucinado".

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Fórum Fantástico 2010

por João Campos, em 10.11.10

 

 

Começa dia 12 de Novembro, sexta-feira, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras (Lisboa), o Fórum Fantástico 2010, porventura o mais relevante - e interessante - evento de ficção científica a decorrer por cá. Depois da excelente edição de 2008 e do interregno de 2009, é bom ter o FF de volta. Aos interessados, o programa encontra-se disponível no blogue oficial.

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The Hitchhiker's Guide to the Galaxy

por João Campos, em 02.11.10

Falemos de Arthur Dent. Arthur Dent é um pacato cidadão que, numa bela manhã de quarta-feira, acorda com uma valente ressaca. E, ao acordar, apercebe-se de que a sua casa está cercada por buldozers, preparadas para a demolir, com o objectivo de naquele lugar construir um acesso a uma auto-estrada. Indignado, Arthur Dent decide resistir, e deita-se no chão diante as máquinas, para impedir o seu avanço e assim salvar a sua casa.

A história de Arthur Dent, assim contada, não daria para grande prosa de ficção científica, mas a verdade é que, no hilariante livro de Douglas Adams (por vezes considerado o "sétimo elemento" dos Monty Python), The Hitchhiker's Guide to the Galaxy, este pequeno acontecimento na vida de Arthur Dent é a versão reduzida de um evento de dimensões... galácticas, quando chega ao planeta Terra uma frota de naves da burocrática raça alienígena Vogon (lesmas espaciais, em resumo) com o intuito de... demolir a Terra, para naquele ponto do espaço construir o acesso a uma "auto-estrada" galáctica. De nada servem os apelos humanos: de acordo com os Vogons, o aviso de demolição esteve cinquenta anos publicado em Alfa-Centauri, pelo que se os humanos não viram o aviso e reclamaram junto das entidades competentes a tempo, enfim, problema deles. E assim, a Terra é demolida, e todos os seus habitantes são erradicados.

Quase todos. Arthur Dent salva-se quando o seu amigo Ford Prefect decide resgatá-lo de sua casa, pagar-lhe umas quantas cervejas, e, no momento em que chegam as naves Vogon, arranjar uma boleia para o espaço. Pois Ford é apenas um humano em disfarce, sendo na verdade natural de um "planeta nas proximidades da estrela Betelgeuse". E é também um dos colaboradores do Hitchhiker's Guide to the Galaxy, o mais conhecido guia para uma bela viagem à boleia pela galáxia, com vendas superiores à grande Enciclopédia Galáctica e, é um prático computador com uma capa onde se pode ler, em letras gordas e amigáveis, as palavras "Don't Panic". E a partir deste momento começa a odisseia de Arthur Dent e Ford Prefect pela Via Láctea, ao longo da qual encontram personagens inesquecíveis como Zaphod Beeblebrox, Presidente da Galáxia, Trillian, Marvin, o robot depressivo, Slartibartfast, e se envolvem nas mais hilariantes situações. Ao longo da narrativa, é também explicada a busca incansável de uma antiga raça inteligente pela resposta à "Grande Questão da Vida, do Universo... e de Tudo!", e ainda sobra tempo para que os leitores nunca mais olhem para um rato ou para um golfinho da mesma maneira.

The Hitchhiker's Guide to the Galaxy é um livro divertido. Muito divertido. Diria mesmo ser "a" comédia de ficção científica. A mim, fez-me rir desde a primeira linha da introdução (também de Douglas Adams) até ao final. As influências do humor "non-sense" tão típicas dos Monty Python, dos quais Adams era próximo, são evidentes. Diria mais: se os Monty Python tivessem entrado na ficção científica (esqueçamos por momentos o rapto alienígena em Life of Brian), não teriam feito melhor que The Hitchhiker's Guide to the Galaxy. Indispensável para quem gosta de ficção científica ou de comédia - e absolutamente obrigatório para quem gosta de ambas.

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The Left Hand of Darkness

por João Campos, em 21.10.10

Tenho vindo a publicar breves "recensões" aos livros de ficção científica que vou lendo. É verdade que tenho escolhido bem os livros, e que, até ao presente, todas as obras sobre as quais escrevi estão entre as melhores do género, e têm-me proporcionado excelentes horas de leitura. Talvez qualquer dia faça também para os livros um "top 15"; para já, destaco a minha última leitura, The Left Hand of Darkness, que é também um dos melhores livros que já li. Não é, de facto, por acaso que a obra ganhou os mais importantes prémios do género (o Hugo e o Nébula), e que a sua autora, Ursula K. Le Guin, é ainda hoje considerada uma das maiores escritoras de fantasia e ficção científica, e uma das autoras do género que maior reconhecimento obteve fora dos círculos tradicionais do género. A história está enquadrada no seu "Hainish universe", um universo futurista alternativo na qual Le Guin situou muitas das suas mais importantes obras, como Rokanon's World, Planet of Exile, The Word for World is Forest e The Dispossessed (sobre o qual escrevi aqui). Um pouco como a "Terra Média" de Tolkien na fantasia; com a diferença que os diversos livros e contos de Le Guin são independentes, ainda que exista uma cronologia implícita - por exemplo, a história narrada The Left Hand of Darkness é cronologicamente posterior à de The Dispossessed (no entanto, este foi escrito em 1974, enquanto aquele foi publicado pela primeira vez em 1969).
No universo de The Left Hand of Darkness, existe uma organização interplanetária que une oitenta e três mundos diferentes (desde a Terra a Hain) conhecida por "Ekumen". O protagonista da história, Genly Ai, oruindo da Terra, é enviado como emissário do Ekumen a Gethen, um gélido e distante planeta onde existe uma civilização humana, mas com uma peculiaridade que a distingue das demais: os humanos de Gethen são andróginos e hermafroditas, e as suas diversas sociedades não possuem qualquer distinção ou discriminação baseada na identidade sexual. Durante a maior parte do tempo (mais ou menos vinte e quatro dias do seu ciclo lunar, que dura vinte e seis dias) os humanos de Gethen não possuem qualquer manifestação sexual; durante os restantes dias, no período designado por kemmer, assumem um dos géneros sexuais através de interacção por feromonas com os potenciais parceiros sexuais. Como resultado prático, cada indivíduo em Gethen pode, por analogia, ser "pai" ou "mãe", ou mesmo ambos. Ao longo da obra, esta característica dos habitantes de Gethen é acentuada por contraste com Genly Ai (para os restantes personagens, Genly vive num estado de kemmer permanente), que considera esta falta de dualidade sexual como explicação para muitas das peculiaridades das civilizações de Gethen, como a inexistência de guerras. A questão sexual é um dos temas fundamentais de uma história também marcadamente política, que se centra na personagem de Genly Ai e nos seus esforços para fazer Gethen aderir ao Ekumen. A narrativa começa por situar o protagonista na nação de Karhide, um país de características feudais, para na segunda parte passar a acção para Orgoreyn, uma sociedade extraordinariamente burocrática. A terceira parte narra o exílio e a longa viagem de Genly Ai para regressar a Karhide e chamar a nave que está estacionada em órbita, como medida desesperada para convencer os habitantes do planeta que de facto é oriundo de outro mundo.
A história de The Left Hand of Darkness é narrada de forma linear, mas com base em "fontes" dispersas, alternando entre os diários e as memórias de Genly Ai e o diário do outro protagonista, Estraven, sem contudo seguir uma estrutura fixa (como acontece, por exemplo, em The Dispossessed). Pelo meio, de forma mais ou menos aleatória, surgem capítulos distintos que apresentam lendas e contos de Gethen, descrevem as várias religiões presentes naquele planeta, ou que incidem sobre outros aspectos daquele mundo - aspectos laterais que ajudam a compreender mais um fascinante mundo imaginado e descrito por Ursula K. Le Guin.
Por coincidência, uma vez que acabei de ler o livro esta manhã, publico este texto no dia em que a autora celebra 81 anos.

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The Moon Is a Harsh Mistress

por João Campos, em 15.10.10

Imaginemos um mundo futurista por volta do ano de 2075, em que as nações da Terra deram lugar a "super-nações" de dimensões continentais, e em que a colonização da Lua é uma realidade. Ou antes: em que a utilização das cidades subterrâneas (sublunares?) da Lua como uma enorme colónia prisional é uma realidade. Imaginemos que, nessa colónia, um técnico de computadores individualista e apolítico, uma agitadora profissional, um professor reformado que se define como "anarquista racional" e um supercomputador tão complexo que ganhou consciência própria acabam por se aliar para colocar em prática uma revolução que dê à Lua o estatuto de "nação independente". Quais seriam as probabilidades de sucesso dessa revolução? E como executá-la?

Este é o ponto de partida de The Moon Is a Harsh Mistress, obra premiada de Robert A. Heinlein, que aborda os aspectos teóricos de uma revolução colocando-a em prática neste cenário de ficção científica através de personagens improváveis, mas muito interessantes. Heinlein disserta sobre a natureza das revoluções, sobre o seu planeamento, sobre os factores aleatórios que, em muitos casos, as precipitam e as levam para direcções imprevisíveis - nunca esquecendo as lições que a História ensinou, como as revoluções americana e russa. E a revolução acaba por ser um pretexto para o autor explorar remas relacionados com a família, o patriotismo, a guerra, a forma de governo (existe até uma curiosa passagem sobre a monarquia, a propósito de um personagem que se afirma monárquico), e a economia - aqui, opondo o modelo libertário praticado pelas colónias lunares, aos vários modelos existentes na Terra (que todos conhecemos). Há quem diga que Heinlein terá até sido o primeiro autor a referir em livro a ideia de "não há almoços grátis" (muito associada a Milton Friedman), através da sigla TANSTAAFL (There Ain't No Such Thing As A Free Lunch), presença constante ao longo de todo o livro e, diria, base ideológica de toda a obra. Tudo isto sem nunca descurar a componente científica, de uma precisão considerável.

The Moon Is a Harsh Mistress consegue, para além de ser uma obra extremamente inteligente, ser uma leitura muito divertida. Aliás, desde a leitura de The Hitchhiker's Guide to the Galaxy, de Douglas Adams, que não ria tanto com um livro: desde o início, em que "Mike", o computador consciente, adquire sentido de humor e procura compreendê-lo, até todas as peripécias que decorrem da revolução. Foi, sem dúvida, uma obra excelente para começar as minhas leituras de Outono. E que aproveito para recomendar.

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Neuromancer

por João Campos, em 20.09.10

No cinema, o cyberpunk, sub-género da ficção científica, foi inaugurado com polémica em 1982 com Blade Runner, adaptação de Ridley Scott ao romance Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick, hoje considerado uma obra-prima, não só do género, como do cinema em geral. Digo com polémica porque, à época do seu lançamento, Blade Runner não foi um filme consensual, tendo sido devastado pela crítica e rejeitado pelo público. O tempo - no fundo, o grande juiz da arte - deu razão a Ridley Scott, que no início da década de 80 realizou um filme que estava à frente do seu tempo. Mas é possível que essa antecipação tenha contribuído para o entusiasmo que, dois anos mais tarde, conheceu o romance Neuromancer, de William Gibson, premiado com os mais importantes prémios do género.

Olhando para trás, podemos concluir que várias obras que se tornaram emblemáticas no cinema e na literatura de ficção científica não teriam provavelmente existido sem o trabalho original de Gibson - podemos falar de exemplos muito óbvios, como o anime Ghost in the Shell ou o filme de culto The Matrix (aliás, a própria palavra que dá titulo ao filme é um conceito particularmente importante na obra de Gibson), ou livros como Catspaw, de Joan D. Vinge. Gibson (e Scott, no cinema) abriu as portas a um sub-género que se tornaria particularmente rico, afastando-se das sagas espaciais que se tinham tornado na principal imagem de marca da ficção científica, e trazendo a acção de volta para o nosso próprio planeta, em sombrios futuros próximos onde as mais avançadas tecnologias se combinam com as formas mais "alternativas" - degradantes, por vezes - de vida.

Neuromancer tem em Case o seu personagem principal. Case fora em tempos hacker, um ladrão de informações no ciberespaço - cowboy é o termo utilizado -, mas um trabalho que lhe correra mal custara-lhe a sua capacidade para entrar no ciberespaço. Até que um misterioso homem, ajudado por uma assassina, se propõe restituir-lhe os seus sentidos em troca da sua colaboração num sofisticado roubo. Boa parte da narrativa é uma verdadeira trip, quase como se as drogas que as personagens consomem em quantidades generosas também actuassem no leitor; a escrita é boa por ser má, com os muitos erros deliberados a tornarem a narrativa mais próxima e coloquial, e com um vasto recurso a calão (perfeitamente adequado, convém dizer) - recursos que contribuem para a caracterização das personagens (Gibson não foi o primeiro a fazê-lo; Salinger usou inteligentemente a linguagem de modo parecido no brilhante The Catcher in the Rye). A história vai sendo contada a partir de um caos narrativo que só aparentemente é aleatório, as pontas soltas vão-se fechando, e damos por nós completamente imersos na leitura, envolvidos no mistério que ela encerra. O ritmo narrativo é rápido, vertiginoso por vezes, e extraordinariamente eficaz - obriga e estimula o leitor a querer ler mais e mais. Um clássico, sem dúvida.

 

(Nota: A imagem à esquerda é a capa original de Neuromancer. A imagem à direita é a capa da edição brasileira que mencionei neste post, e que considero ser um exemplo de uma boa capa de livro.)

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Inception

por João Campos, em 04.09.10

Ao contrário do que o Pedro defendeu nesta crítica, não considero que o filme Inception, de Christopher Nolan, seja, fundamentalmente, "pirotecnia visual". Convém lembrar que, de todos os géneros cinematográficos, a ficção científica será porventura aquele que melhor explora as potencialidades da tecnologia - efeitos especiais, imagens geradas por computador, câmaras, enfim, um sem-número de truques de encher o olho. Diria mesmo: a ficção científica é o género que vive e desenvolve os efeitos especiais. Sem essa pirotecnia, sem esses "truques", clássicos como 2001: A Space Odyssey, Star Wars, Alien, Blade Runner ou Matrix não teriam sido possíveis no seu tempo. É evidente que há filmes que fazem dos efeitos especiais o seu único expediente (e que por isso são, por norma, fracos), o que não é manifestamente o caso de qualquer um destes que mencionei; como, na minha opinião, não é o caso de Inception, filme que considero utilizar com mestria a tecnologia disponível para contar e explorar a complexa história que desenvolve ao longo de mais duas horas. Essa "pirotecnia visual" permitiu ao realizador, aliás, criar com mestria algumas cenas visualmente icónicas, que talvez venham a inspirar outras produções num futuro próximo.

 

No entanto, e ao contrário dos clássicos acima mencionados, Inception não me satisfez por completo. Globalmente, considero o filme muito bom, bastante acima da média, com algumas cenas a revelar assomos de um talento ímpar (a cena de Paris, de que o Pedro fala, é uma delas); faltou porém aquele rasgo de génio que poderia ter dado a este filme o estatuto de clássico, pelo menos dentro do género. Dito de forma mais simples: é bom, mas não justifica o hype. Até porque em nenhum momento se pode considerar groundbreaking.

Inception não explora por completo o potencial que a história tem - ou antes, creio que não o explora da melhor forma. É demasiado "action-oriented", creio; um filme cuja trama se desenvolve, na sua maioria, em sonhos - literalmente - devia ser mais "fantasy-oriented". Para ilustrar este ponto cometo o erro (pelo qual me desculpo já) de fazer uma comparação: no filme Paprika, longa metragem de animação japonesa do (infelizmente) falecido Satoshi Kon, encontramos um filme que parte de uma premissa muito similar - a possibilidade de entrar nos sonhos de alguém, e de cruzar esses sonhos - para recriar uma trama que transporta o espectador para um mundo verdadeiramente onírico. Ou seja: vivo, delirante, absurdo, frequentemente non-sense, difícil de controlar, repleto de impulsos inconscientes primários - para quem quiser recorrer a Freud. Em Inception, isso não acontece: não fica claro o mecanismo de projecção dos sonhos (em Paprika, a tecnologia é explicada), e todo o ambiente "sub-consciente" é perfeitamente controlado. Os mecanismos de defesa da mente são lineares, consistindo essencialmente em multidões enfurecidas (no caso de mentes "destreinadas") ou em homens/militares armados (no caso de mentes "preparadas"). Todos os cenários são "reais", pelo que a fusão com a realidade se torna vagamente decepcionante. Entre as várias camadas do sonho, muda o ambiente, mas todos os diferentes cenários continuam a ser perfeitamente racionais, e mesmo as alterações que neles podem ser feitas (recordar cenas iniciais) mantém uma racionalidade algo decepcionante - o que, a meu ver, não funciona se falamos de um "mundo" que, voltando a Freud, é absolutamente irracional. Para além disso, o filme falha ao não explorar outros aspectos que creio serem interessantes, como a tecnologia de infiltração nos sonhos, a criação dos "cenários", e, mais uma vez, por não dar largas à imaginação num mundo feito à medida dela.

Isso, contudo, não faz de Inception um mau filme, bem pelo contrário; apenas impede que cumpra aquilo que a primeira meia hora promete. De qualquer maneira, a passagem entre as várias camadas de sonhos está feita de uma maneira muito engenhosa, e que inevitavelmente causará simpatia junto de quase todos os espectadores - afinal, quem nunca acordou sobressaltado a pensar que ia cair? -, o que é visível sobretudo na transição "ascendente". Ainda que, com a excepção do protagonista Cobb (Leonardo DiCaprio), as personagens não estejam desenvolvidas como poderiam estar, há que destacar alguns desempenhos: o de DiCaprio, o de Ellen Page como Ariadne, e sobretudo o de Tom Hardy, no papel de Eames, que rouba várias cenas e dá ao filme um toque de descontracção que, em alguns momentos, é muito necessário. E o enredo em si, não sendo absolutamente original (uma vez mais, ver Paprika), é bastante interessante, e consegue ser bastante complexo sem se perder no labirinto que cria. Simplesmente não explora todos os caminhos, ou pelo menos alguns caminhos que poderiam ter sido bem mais interessantes.

Creio ser essa a diferença entre um filme muito bom e um clássico. Como disse uma amiga, Inception promete muito, mas não cumpre. Ou, como bem disse o Pedro, com toda a razão, passou ao lado de uma obra-prima. É pena, de facto - ainda assim, Inception é bastante mais do que a prima do mestre-de-obras, passe a expressão. Merece ser visto agora no cinema, e novamente quando estiver disponível no circuito comercial - decerto há muitos detalhes que vão sobressair.

 

Como não gosto das estrelinhas, dou-lhe 7,5 em 10. Já a Paprika, filme que muito recomendo, dar-lhe-ia 9 em 10 (este entrava direitinho para o meu top 15).

 

(Já agora, Pedro: a ficção científica normalmente faz-se acompanhar de outro género, ou por outros géneros. Thriller, acção, comédia, drama, terror - enfim, a lista seria quase ilimitada -, acabam por ser subgéneros recorrentes da ficção científica. Na minha opinião, essa transversalidade é um dos vários aspectos que tornam fascinante a ficção científica cinematográfica, e também literária)

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Há poucas coisas tão boas como sermos surpreendidos - no bom sentido - por um livro. Não sei como é que as outras pessoas compram os seus livros, quais são os critérios que utilizam, ou como chegam a um livro em particular. Comigo, isso normalmente acontece por influência. Por exemplo, o gosto pela literatura de ficção científica devo-o a um antigo (e extraordinário) professor de Filosofia, que sabendo do meu gosto pelo género no cinema e das minhas incursões pela escrita de ficção, me emprestou aquele que é um dos livros da minha vida: The Snow Queen, de Joan D. Vinge. Já o gosto pela "literatura de fantasia" surgiu do meu interesse antigo pelas mitologias, por alguns jogos mais ou menos geek que jogava durante a adolescência, e pelo impacto visual da adaptação de The Lord of the Rings, de Tolkien, realizada com mestria por Peter Jackson. E outros escritores surgiram mais ou menos por acaso. Vergílio Ferreira apareceu - em ambos os sentidos - no meu décimo-segundo ano (como podem ver, ter professores realmente bons pode fazer uma grande diferença). Salinger, com The Catcher in the Rye, surgiu após ver uma (excelente) série de animação japonesa que usava a obra como inspiração de um enigmático personagem (a saber: Ghost in the Shell - Stand Alone Complex). O interesse por Ayn Rand veio após anos a ler as constantes referências a ela feitas pela malta d'O Insurgente ao longo dos anos, e a leitura do Fountainhead não desiludiu (nem a de Atlas Shrugged, já agora - são dois livros extraordinários). E, enfim, Eça é Eça. Mas disperso-me: voltando ao tema das surpresas, a verdade é que a partir do momento em que a ideia de ler um autor surge por influência positiva, e planeamos a leitura, esperamos que o livro seja bom. E ainda que o livro supere largamente as nossas expectativas, uma boa parte do factor surpresa acaba por se perder. Afinal, estávamos à espera que fosse bom. As nossas fontes, por assim dizer, não podiam estar erradas.

 

Tive recentemente uma óptima surpresa com Nightfall, de Asimov e Silverberg. Mas Nightfall estava no meu "plano de leitura" (em resumo, fiz uma lista mais ou menos longa de obras de ficção científica que tenciono adquirir e ler durante os próximos tempos), pelo que, inevitavelmente, iria lê-lo e deliciar-me. Mas como o li com uma rapidez que até a mim me surpreendeu, e me atrasei um pouco com a minha próxima encomenda, dei por mim sem nada novo para ler, a duas semanas de receber mais dois livros da minha lista. Sem vontade para releituras, fui à loja mais próxima ver se encontrava alguma coisa para me entreter até ao início de Setembro. Por momentos, pensei comprar um de Salinger, que as novas edições da Penguin estão aparentemente muito boas, mas o meu apetite de leitura anda um bocadinho mais "futurista", passe a expressão; ainda olhei para a secção de fantasia, mas não vi nada que me interessasse; e a primeira ideia que me veio à cabeça foi adquirir o 2001: A Space Odyssey, de Arthur C. Clarke, que tinha visto à venda semanas antes e que me interessava por vários motivos - por Clarke ser um dos mestres do género, e por o filme de Kubrick ser o meu filme preferido. Esgotado, obviamente (as leis de Murphy costumam aplicar-se bastante a mim). Após longos minutos a olhar para a prateleira de sci-fi (a oferta ainda não é perfeita por cá, mas tem melhorado), optei por Clarke, mas por um livro do qual só conhecia o título, graças às longas pesquisas na Internet: Rendezvous With Rama. Foi uma opção às cegas - nunca tinha lido nada de Clarke, e a edição que comprei não tem uma sinopse muito elaborada na contracapa, pelo que do enredo, sabia praticamente nada. Como disse no início deste texto, há poucas coisas tão boas como sermos surpreendidos por um bom livro; e Rendezvous With Rama foi uma dessas boas surpresas, com a sua fascinante história de exploração de um objecto estranho à deriva no Sistema Solar (Clarke gosta de objectos estranhos e "escuros" - recordemos o monólito de 2001), com as suas personagens, os exploradores do futuro a lembrar os descobridores de tempos passados, com as constantes "espreitadelas" à sociedade futurista daquelas personagens, com a sua precisão científica, e com a sua escrita pausada, ritmada, muito bem arrumada em capítulos curtos que, por vezes, são quase uma história em si. Que todas as leituras fossem assim: agradáveis e surpreendentes.

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Nightfall

por João Campos, em 24.08.10

A nós, que sempre vivemos num ciclo onde dia e noite se sucedem, a noite e as estrelas no céu nocturo não fazem confusão. São a vista normal, e sempre bem vinda, no momento em que o Sol desaparece para lá do horizonte e a escuridão se instala. Mas imaginemos por um momento que não conhecíamos outra realidade que não a do Sol, a do dia; que no nosso mundo, o Sol nunca se escondia, e a noite nunca caía; imaginemos que vivíamos todos num dia perpétuo, e que desconhecíamos por completo as trevas - neste mundo, como reagiríamos se o Sol desaparecesse e a escuridão da noite se instalasse?

 

Esta é a premissa fundamental de Nightfall, romance de Isaac Asimov e Robert Silverberg, baseado num conto de Asimov. Os habitantes do planeta Kalgash não conhecem a noite, nunca viram as estrelas - os seis sóis que iluminam o planeta mantém aquela sociedade num dia eterno desde - pensa-se - o início dos tempos. Mas esse dia pode estar a chegar ao fim, e vemos os indícios disso mesmo através de vários pontos de vista: do psicólogo Sheerin, que se dedica a estudar a loucura e a histeria induzidas por exposição às Trevas; do astrónomo Beenay, que descobre uma falha fundamental nos cálculos da órbita de Kalgash em redor do seu principal sol, Onos; da arqueóloga Siferra, que descobre numa escavação indícios de um cataclismo civilizacional a intervalos regulares; do jornalista Theremon, que investiga estas informações; e dos "Acolytes of Flames", um culto religioso que acredita que os deuses vão enviar o mundo para as trevas, e purificá-lo do pecado através do fogo divino das "estrelas", que ninguém sabe o que são. Mas o que acontecerá quando os sóis desaparecem e a escuridão se instalar? O conto original de Asimov termina nesse ponto, no anoitecer; mas a narrativa de Asimov e Silverberg vai mais longe, e expande a história para além da noite, para a manhã de Kalgash. A todos os níveis, Nightfall foi uma surpresa: é uma história extremamente bem contada, com personagens sólidas e um enredo surpreendente até ao final. Numa época em que os mais fracos argumentos dão origem a "filmes-catástrofe" de fraquíssima qualidade, não percebo como ainda ninguém pensou em adaptar, com a devida mestria, este conto ao grande écrã.

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Starship Troopers

por João Campos, em 20.08.10

Mais do que contar uma história, Starship Troopers, obra polémica de Robert A. Heinlein, recorre aos mecanismos de uma narrativa para desenvolver um longo - e muito interessante - ensaio militar, político e mesmo social. De facto, muitos são os momentos em que temos a sensação de que a trama - a progressão de "Johnnie" Rico na "Mobile Infantry" durante o conflito espacial com uma espécie alienígena, os "Aracnídeos" - tem como único propósito servir de veículo à visão da sociedade futurista que Heinlein descreve - uma sociedade saída da queda das democracias ocidentais do século XX, e que vive naquilo a que (muito livremente) chamaria de "democracia militar". Nesta sociedade, os direitos plenos de cidadania apenas são adquiridos após a conclusão de um período de serviço militar voluntário; quem não o fizer, não poderá votar ou candidatar-se a cargos públicos, mantendo porém outros direitos cívicos como liberdade de expressão ou de associação. Os castigos corporais são relativamente comuns, também.

 

As personagens, essas, mais do que serem fundamentais à evolução do enredo, são fundamentais à reflexão do próprio autor. Por exemplo, é através do Coronel Dubois e das suas aulas de História e Filosofia Moral, recordadas em constantes analepses, que uma parte significativa da mensagem da história é transmitida - e é através da recordação de Johnnie dos constantes debates daquelas aulas que o leitor compreende a formação daquela sociedade, e os diferentes factores que a sustentam. Para além de o próprio Dubois ser uma fonte aparentemente inesgotável de conhecimento militar, histórico e táctico, que Heinlein não se cansa de partilhar com o leitor.

Mas não se pense que Starship Troopers, sendo uma obra tão marcadamente ideológica, perde por isso a sua qualidade de "romance". A verdade é que a história, apesar de simples, funciona muito bem, e a constante ideologia presente permite ao leitor "entrar" realmente naquele mundo. Para além, claro, de todas as cenas de treino militar, e da acção frenética, sempre na primeira pessoa, dos combates. E, claro, da escrita de Heinlein - simples, fluída, ritmada.

Mas Starship Troopers não foi (é) apenas um livro polémico - é também uma obra extremamente influente, e não só em termos literários - não fosse, afinal, Heinlein um dos "três grandes" da ficção científica, a par dos mestres Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. No cinema, temos o óptimo exemplo de Aliens, filme de James Cameron onde se nota alguma inspiração do clássico de Heinlein. E no mundo dos videojogos, é impossível dissociar o popular Starcraft.

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The Dispossessed

por João Campos, em 15.08.10

Joan D. Vinge, autora um pouco esquecida nos dias que correm (de quem falarei mais noutra ocasião), disse a dada ocasião algo do género: a ficção científica será porventura o melhor género para, através da ficção, reflectir sobre a realidade, precisamente porque o género em si não conhece qualquer limite. Vinge, na sua obra, seguiu esta ideia; mas poucos autores terão feito alegorias tão marcantes como Ursula Le Guin no premiado The Dispossessed.

 

A trama de The Dispossessed decorre nos planetas Urras e Anarres. Em Anarres, lua de Urras, existe uma sociedade (uma utopia)e anárquica, formada por dissidentes do planeta principal. Nessa sociedade vive o protagonista, Shevek, um físico que desenvolve a Teoria da Simultaneidade, um princípio revolucionário que pode mudar a forma como as diferentes civilizações humanas dispersas pelo universo contactam entre si. Incapaz de prosseguir os seus estudos no seu planeta natal devido à máquina burocrática instalada e aos pequenos egos que continuam a subsistir, Shevek aceita, contra a vontade da sua própria sociedade, o convite dos "capitalistas" da nação de A-Io,em Urras, para estudar na Universidade de Nio Esseia e desenvolver a sua teoria. Mas acaba por se ver "preso" num mundo onde a guerra parece iminente (entre a capitalista A-Io e a socialista Thu, numa alegoria bastante clara à época da Guerra Fria em que a autora viveu, onde não falta um conflito armado a recordar o Vietname), e vê o seu próprio sonho ameaçado, desta vez, pelos objectivos do poder político de A-Io. Com esta trama, Le Guin traça um paralelo muito claro com a sociedade da época em que o romance foi escrito (1974), expondo as falhas de um modelo de sociedade sem no entanto glorificar o outro; na verdade, ao explicar as dificuldades que a população anarquista de Anarres enfrenta (e o próprio Shevek), a autora acaba por demonstrar quão inalcançável é a utopia.

 

Ursula Le Guin recorre a uma muito bem conseguida estrutura narrativa não-linear, em que os capítulos vão alternando entre a história de Shevek em Urras (números ímpares), e o seu passado em Anarres (números pares). Isto, aliado à intriga bem suportada em personagens realmente interessantes e a uma escrita ímpar, fez de The Dispossessed um clássico da ficção científica, e um dos poucos romances a conseguir vencer, no mesmo ano, os dois prémios literários mais importantes dentro do género: o prémio Hugo e o prémio Nébula. Feito que, aliás, a autora já tinha conseguido anteriormente com a obra The Left Hand of Darkness.

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Nem tudo é mau nesta silly season

por João Campos, em 05.08.10

A Saída de Emergência, provavelmente a única neste país que se dedica regularmente à edição de ficção científica e fantasia, vai lançar durante este mês a tradução portuguesa de Dune, de Frank Herbert.

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Dune

por João Campos, em 12.07.10

Há tempos, creio que a propósito de uma conversa sobre ficção científica (para variar), conversei um pouco com a Ana Vidal sobre o filme Dune, a adaptação de David Lynch, feita em 1984, ao romance de Frank Herbert. Ainda não revi o filme - talvez no fim-de-semana -, pelo que mantenho ainda a opinião de que o filme, ainda que interessante, é globalmente fraco. Li, porém, o livro - a minha primeira leitura de Verão, após ter encontrado uma edição em paperback na fnac, a um preço muito convidativo (alguém me lembre de ir lá buscar o 2001: A Space Odyssey, que também estava muito em conta). Enfim, a propósito da obra de Herbert, o "mestre" Arthur C. Clarke disse não conhecer nada que se lhe comparasse para além de The Lord of the Rings. Descontada a simpatia, Dune é, de facto, uma obra espantosa, provavelmente um dos mais ambiciosos trabalhos que o género conheceu. Dune, o primeiro volume de uma série de seis livros escritos por Frank Herbert (e mais alguns, escritos pelo seu filho, Brian Herbert e Kevin J. Anderson), narra a história da família aristocrata Atreides, à qual é concedido, pelo Imperador Shaddam IV, o controlo do planeta Akarris, o único lugar onde se encontra mélange, a substância mais valiosa do universo (a famosa spice). O planeta é um presente envenenado, e o Duque Ledo Atreides sabe disso quando o aceita. E a história prossegue com o seu filho, Paul, e a sua aprendizagem da vida no deserto, com as intrigas políticas entre as famílias aristocratas, com o sonho ecologista de Liet-Kynes e dos Fremen, e com a guerra iminente. Durante a leitura, deparamos com algumas cenas memoráveis, como a do primeiro banquete dado pela família Atreides em Akarris - de longe, a que mais me marcou durante a leitura. Mais não conto, para não estragar uma eventual leitura a alguém; mas fica a sugestão: vai valer a pena cada minuto passado a ler Dune.

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A "caixa de Pandora" de Cameron

por João Campos, em 13.01.10

Diz a crítica e o público que o ponto fraco de Avatar, a mais recente odisseia cinematográfica de James Cameron, é o argumento - pouco original, desinspirado, com influências óbvias (há quem fale mesmo em cópia) de filmes como Danças com Lobos, Mononoke-hime ou Pocahontas, e uma grande dose de "ambientalismo". A verdade é que também o mais premiado filme de Cameron, Titanic (ganhou onze Óscares, feito só igualado por Ben Hur e O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei), tinha um argumento tudo menos original: combinava o cliché boy meets girl com um toque de "luta de classes" (rapaz pobre conhece rapariga rica), e colocava ambos os clichés na tragédia do transatlântico Titanic - que, tragicamente, passa para segundo plano (é preciso esperar duas horas para o barco começar a afundar). O argumento de que o argumento - passe a redundância - é pobre, para mim, não convence. É importante, claro, mas creio que, acima de tudo, importa que um filme tenha uma história bem contada. E se há coisa que Cameron faz bem é precisamente isso - contar histórias, e contá-las bem.

A meu ver, Avatar é precisamente isso: uma história relativamente simples, visualmente sólida e muito bem contada. Sim, já foi contada antes (de outras formas). E tornou a sê-lo agora, numa excelente adaptação ao género de ficção científica - e se é verdade que, enquanto filme, não chega ao patamar de 2001: A Space Odyssey ou Star Wars, não creio que seja isso que o tornará menos influente no seu tempo do que aqueles foram. Visualmente, o filme é deslumbrante, e impressiona como poucos - pelos cenários, pela atenção ao detalhe, pelo realismo das cenas de batalha. Mas o realismo de Avatar vai mais longe, e pela primeira vez foi possível conceber personagens em animação 3D com rostos e gestos verosímeis, capazes de transmitir emoções (compare-se com a curta The Last Flight of the Osiris ou mesmo com o filme Final Fantasy: The Spirits Within). Está ainda para saber se Cameron abriu ou não uma "caixa de Pandora" no que diz respeito às potencialidades visuais do cinema. Veremos.

De resto, e voltando ao argumento, Avatar fez-me pensar mais noutras influências, mais próximas do género fantasia que ficção científica, que não aquelas mencionadas à exaustão. O suposto "ambientalismo militante" do filme passou-me ao lado - o que leva os Na'vi a defenderem a sua floresta não é ambientalismo, é muito mais do que isso, mas esse é um tópico que para já não irei aprofundar por não querer incluir aqui spoilers.

A verdade é que o género ficção científica não teve, ao longo da década, o brilho de outros tempos - apesar de terem saído alguns excelentes filmes, como as duas sequelas de Matrix - Reloaded e Revolutions, ou Serenity. É por isso bom voltar a ter, em Avatar, um excelente épico de ficção científica. Daqueles que realmente justificam a ida a uma boa sala de cinema - com ou sem 3D. O que, nos dias (e nos torrents) que correm, vai sendo cada vez mais raro.

 

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