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A fotografia

por José António Abreu, em 08.04.17

As paredes são imaculadamente brancas, mas uma escuridão densa domina as fotografias. Ruas, edifícios, água, céu — mesmo roupa e faces são escuras na maioria delas. Suspensas por fios quase invisíveis, iluminadas por luz difusa, as fotografias parecem buracos no tempo para um passado há muito desaparecido e, todavia, estranhamente familiar.

As portas foram abertas há poucos minutos e, de momento, parece que apenas os guardas se encontram no interior do museu. Fui dos primeiros visitantes a entrar. Não tenho plano definido, nenhuma foto que deseje especialmente ver. Passeio pelas salas vazias, parando defronte de cada imagem durante alguns segundos, um pouco mais quando me captam a atenção. A maioria mostra gente anónima, em ruas de cidade ou campos de cultivo. Há também uns quantos retratos de homens e mulheres que a passagem de várias décadas ainda não apagou totalmente da memória colectiva: actores de filmes a preto e branco, um par de escritores, meia dúzia de políticos. Reconhecer estas pessoas gera um instante de prazer, como se as fotos fizessem o espectador relembrar colegas de escola há muito perdidos de vista. E, no entanto, a satisfação que se sente ao identificar estas pessoas é insignificante quando comparada com a obtida ao apreciar a maioria das restantes. Mostram gente anónima executando as suas tarefas diárias, gozando momentos de descontracção ou posando para as fotos de forma tão consciente que só a atitude diz imenso sobre o tempo e o local em que as fotografias foram tiradas. Sem saber bem porquê, aprecio especialmente a imagem de uma rapariga gorducha rindo por trás de uma bancada de fruta. Desconhecendo a razão por que ri, é impossível não sentir ternura. Não sorrir. Não invejar o momento.

Para além das fotografias com pessoas estão expostas algumas paisagens urbanas. Belas mas negras e opressivas. Como se o fotógrafo não tivesse conseguido descobrir calor sem a presença humana.

Tenho uma câmara comigo. É permitido fotografar no interior do museu, desde que não se utilize flash. Isso não me causa problemas. Não gosto de flash. Nunca inseri um na sapata da pequena Leica M6 com quinze anos de idade e milhares de fotos tiradas que trago comigo. A superfície está pejada de riscos e a tinta preta foi-lhe abandonando as arestas. Tem neste momento encaixada uma objectiva de 50 mm. Dentro de um minúsculo saco que trago pendurado no ombro direito tenho outra objectiva, de 35 mm, e dois rolos de filme: um a cores de 800 ISO, o outro a preto e branco de 400. Nesta época de fotos digitais sinto-me por vezes antiquado por entre todos os entusiastas brandindo com orgulho as suas Canons e Nikons de milhares de megapixeis. Contudo, essa sensação é rara porque já passei a idade em que sentia a cada instante ter de justificar as minhas opções perante os outros ou perante mim mesmo.

Gosto de fotografar. Como o fotógrafo cujo trabalho se encontra exposto nas paredes brancas e assépticas, gosto de fotografar pessoas. Mas nos dias que correm muita gente não gosta de ser fotografada por um estranho. Com frequência, as pessoas tornam-se agressivas ao verem uma câmara apontada para elas. E, ainda que nada digam quando a foto é tirada, há sempre a possibilidade de processos legais se a imagem for exposta ou comercializada. Devagar mas inexoravelmente, o estilo de fotografia exposto com orgulho nas paredes do museu está a desaparecer. Numa época em que em que milhões mostram as suas vidas no Facebook, em que toda a gente parece querer ser famosa, aparecer na TV, tornar-se num fenómeno do YouTube, isto confunde-me e entristece-me mas a realidade é incontornável e por isso tenho cuidado ao fotografar pessoas. No museu, introduzo o filme a cores na máquina e preparo-me para as usar apenas como silhuetas coloridas contrastando com as paredes brancas e os rectângulos escuros.

(Ainda mais confusão me faz ser cada vez mais frequente a proibição de fotografar no interior de museus, mesmo sem flash, mesmo em exposições de fotografia. O mundo anda difícil de entender. Mas não é por isso que estou a escrever este texto. Ou, em parte, talvez seja.)

Devagar, percorro todas as salas. Tiro meia dúzia de fotos sem grande convicção. A verdade é que as imagens expostas são demasiado boas para que dos meus esforços possa resultar algo que me leve a pensar ter valido a pena trazer a máquina. É então que reparo no homem. Tem pelo menos setenta e cinco anos, talvez mais, é baixo e está permanentemente inclinado para a frente, mesmo quando caminha. Veste um fato cinzento escuro, demasiado largo e de corte antiquado, mas em perfeito estado de conservação. Traz um jornal dobrado na mão direita e um chapéu de feltro na esquerda. O cabelo grisalho é ralo e encontra-se despenteado, fios espetados no ar como que surpreendidos por estarem a descoberto. Parece deslocado neste ambiente (estaria mais enquadrado dentro de uma das fotos) mas o que verdadeiramente chama a minha atenção é o modo como se comporta. Pára a meio metro de cada fotografia durante menos de um segundo, olha-a, continua para a seguinte. Nenhuma lhe merece mais tempo, não olha em volta, não muda de expressão — no seu rosto onde não parece haver lugar para o prazer ou para a crítica. Age metodicamente, como que seguindo um plano. Ergo a máquina fotográfica e apanho-o deslocando-se entre imagens. Permaneço naquela sala mais alguns minutos enquanto ele segue para outro compartimento.

Vejo-o de novo algum tempo depois, no final da minha segunda volta pelo museu. Estou decidido a sair e, apesar de ter apreciado a exposição, um pouco desiludido por sentir não ter conseguido obter imagens que valha a pena guardar. (A sensação é inevitável, sei-o perfeitamente, por muita racionalização que faça.) O velhote está parado em frente a uma fotografia, o jornal agora entalado debaixo do braço esquerdo, o chapéu, agarrado pela aba com ambas as mãos, encostado ao peito. Aguardo durante um par de segundos que se movimente para a foto seguinte, mas ele não o faz. Aquela imagem parece realmente interessá-lo, constituir o objectivo da sua visita à exposição. Aproximo-me lentamente. Reconheço a fotografia, da minha primeira passagem por aquela sala. Mostra uma rapariga de seis ou sete anos de idade, sentada num muro de pedra. Agarra uma boneca de trapos contra o peito magro e sorri para a objectiva com absoluta confiança. A foto foi tirada de um plano ligeiramente inferior (o fotógrafo ter-se-á baixado ou talvez existisse ali um lance de escadas e ele se encontrasse três ou quatro degraus mais abaixo) e, por trás da rapariga, vê-se uma linha desfocada de estreitos edifícios geminados. As fachadas são escuras, em diferentes tons de cinzento. Em grande medida por estarem fortemente desfocadas, algumas peças de roupa de tonalidade clara penduradas do lado de fora das janelas são insuficientes para aliviar a escuridão que domina o segundo plano. Toda a luz está concentrada na miúda, que enverga um vestido branco ou muito claro. Como claros são as meias rendilhadas, os sapatos — e a face. A rapariga quase salta da fotografia e é impossível não permanecer hipnotizado a olhá-la durante algum tempo.

Ela contrasta com o homem a tantos níveis (juventude versus velhice; confiança versus resignação; descontracção versus rigidez) que não resisto. Ergo a Leica, foco na miúda e disparo. O homem roda. Lágrimas descem-lhe pelas faces. Olha-me, baixa os olhos para a câmara e, sem uma palavra, vira-se de novo para a fotografia.

Permaneço imóvel durante o que me parece imenso tempo, incapaz de decidir o que fazer. Fui apanhado de surpresa e não sei se devo deixá-lo sozinho ou ficar, para pedir desculpa e justificar a minha atitude. Depois, talvez mais por mim do que por ele (por sentir que não conseguiria deixar de pensar nele e de imaginar as razões por que chora), dou um passo em frente e coloco-me a seu lado. Pergunto:

«Sente-se bem?»

Demora tanto tempo a responder que começo a duvidar que o faça. Quando fala, a voz é firme mas o tom é baixo, rouco, forçando-me a prestar atenção.

«Tinha sete anos, sabe? Ou talvez já tivesse feito oito, não sei. Depende de quando a fotografia foi tirada. A legenda só diz 1938. Ela fazia anos em Agosto. Estava sempre muito calor, o que era bom porque podíamos andar na rua a brincar. Eu fazia… faço anos em Janeiro. Chovia quase sempre e fazia frio por alturas do meu aniversário. Gostávamos mais de calor. Não gostávamos nada de estar presos dentro de casa. Às vezes, no Inverno, ficávamos todos molhados porque não resistíamos a andar na rua. Apanhámos muitas palmadas, e com um chinelo, por causa disso. Mas não conseguíamos resistir. Detestávamos estar presos dentro de casa. Então ela não suportava mesmo… O vestido é leve, devia ser Verão. Talvez fosse mesmo Agosto, aqui não diz. Só diz 1938.» Cala-se. Espero em silêncio, receoso de quebrar a ténue ligação que parece ter-se estabelecido entre nós. Receoso de que ele me peça para ir embora. «Nós não tínhamos máquina fotográfica. Naquela altura quase ninguém tinha. Eram caras, só para os ricos. Nem sei se ela percebeu o que o fotógrafo estava a fazer. Acho que nunca ninguém lhe tinha tirado uma fotografia. Mas ficou bem, não ficou?»

Pára novamente, mas agora espera que eu fale. Que eu responda. Sinto dificuldade em fazê-lo, mas acabo por dizer, com total sinceridade:

«Ficou linda.»

«Deve ter sido uma ocasião especial, para estar vestida assim. Quem sabe se até foi mesmo no dia dos anos… Aquela boneca, houve uma altura em que nunca a largava. Foi um problema, ter que a deixar em casa quando foi para a escola. Todas as tardes, quando voltava, ia a correr ver se a boneca estava bem. É verdade que a nossa mãe estava sempre a ameaçar que havia de deitá-la fora, mas isso era só para a levar a fazer o que queria. Se deitasse a boneca fora, perdia o poder de a obrigar a fazer certas coisas. Mas ela não percebia isso (eu também não mas eu era menos esperto) e andava sempre preocupada com a boneca… Fica bem, na fotografia. Mas fá-la parecer mais nova, mais criança.» Inspira profunda mas lentamente, como se saboreasse o ar. «Eu era um ano mais novo. Para dizer a verdade, dezassete meses quase ao dia. Até aos três ou quatro anos acho que ela me via mais como um irmão da boneca do que dela. Isto depois de passar uma fase (dizem, eu não me lembro) em que sentia inveja de mim.» Sorri, e no sorriso há uma censura carinhosa dirigida à irmã na foto. «Tem uma certa graça porque eu é que sentia inveja dela. Ela conseguia ser sempre o centro das atenções: era esperta, dizia coisas que as pessoas gostavam de ouvir. Eu era mais calado, mais metido comigo próprio.»

Ouço-o numa mistura de encantamento e desconforto. A história atrai-me, sinto que estou a cumprir um papel importante para ele e, todavia, não consigo deixar de me considerar um intruso — uma espécie de voyer emocional, degustando os sentimentos de um completo estranho. Então, com a precisão que usara antes — como se a exactidão das datas fosse importante para lhe manter as recordações sob controlo —, ele diz:

«Tinha doze anos quando morreu. Quase treze. Na altura ninguém me disse o que tinha causado a morte. Só vim a saber anos depois. Pneumonia. Era fraca, magrinha… Mas eu era ainda mais magro e nada me aconteceu. Os nossos pais andavam a tentar arranjar-lhe emprego desde por volta dos dez, quando ela acabou a quarta classe, mas ninguém a queria. Diziam que era muito fraca para aguentar um trabalho a sério. Tomava conta da casa desde antes dessa altura porque a nossa mãe andava doente.» Encolhe os ombros quase imperceptivelmente. «Andava sempre doente. Passava a maior parte do tempo na cama a queixar-se da nossa vida miserável. Nós os dois não a achávamos miserável. Sabíamos que não éramos ricos, mas não sentíamos falta de grande coisa. Quando cresci, comecei a pensar que a nossa mãe era mesmo assim e que não tinha doença nenhuma. Estou convencido que foi assim que ela apanhou a pneumonia: a lavar o chão de joelhos e a nossa roupa no tanque. Só pode ter sido. Mas, na altura, eu nem sabia o que era pneumonia.»

Cala-se de novo. Permanecemos em silêncio durante muito tempo — minutos, talvez —, mas eu já não sinto desconforto. Olhamos ambos para a fotografia na parede. Ele estará a relembrar milhões de acontecimentos ocorridos há setenta e tal anos. Eu estou a pensar que, para mim, a imagem acaba de ganhar uma história — uma história concreta, não apenas a sensação difusa que se consegue ao observar pessoas numa fotografia, seja esta recente ou antiga, tirada na cidade onde vivemos ou do outro lado do globo. De vez em quando, há fotos que sugerem histórias ainda mais definidas — verdadeiras ou falsas, não interessa —, mas esta acaba de se guindar a um patamar ainda mais alto. É quase como se eu a tivesse tirado — ou vivido.

 O velho diz:

«Nunca pensei que ia voltar a vê-la. Às vezes já tinha problemas em lembrar-me dela. Do aspecto que ela tinha. Isso deixava-me tão triste. E irritado.»

«Não sabia que existia uma fotografia?»

Abana a cabeça, devagar.

«Até ontem, a única imagem dela era na minha cabeça.» Tira o jornal de debaixo do braço. Segurando o chapéu pela aba com a mão direita, abre-o numa das últimas folhas. Mostra-me a notícia. O título anuncia a realização de uma exposição de fotografias de um dos maiores fotógrafos portugueses do século XX, agora que passam vinte e cinco anos sobre a sua morte. A foto da miúda sentada no muro de pedra com a boneca de trapos nos braços ilustra a notícia. «Nem imagina o que senti. Foi como se tudo tivesse parado. Não conseguia acreditar. Mas», sorri novamente para a irmã, «afinal há uma fotografia dela.»

 

Pago, recolho o invólucro com as fotografias de cima do balcão e procuro um banco onde me sentar. Acabo ao lado de uma mulher vestida com um fato de corte austero que balança um carrinho de bebé enquanto vigia meia dúzia de sacos de compras pousados no chão. Deita-me um olhar rápido e depois ignora-me. Tiro as fotos do invólucro e passo-as rapidamente até chegar à do velho em frente da imagem da irmã. De súbito, o ruído do centro comercial parece diminuir.

Apanhei-o praticamente de costas. A luz fraca do museu obrigou-me a usar uma abertura larga e ele encontra-se ligeiramente desfocado. A face quase não se vê. Mas o mais importante encontra-se lá. A rapariga, luminosa, etérea — um fantasma benigno e deslumbrante —, sorri para o velho com a alegria do reencontro.

Tecnicamente, não é uma grande fotografia. Encontra-se um tudo-nada subexposta, o enquadramento não é perfeito e a expressão dele mal se distingue. A focagem é o único aspecto que me agrada: realça a miúda e aumenta o efeito de profundidade. Já a circunstância de ser uma imagem a cores não ajuda: distrai a atenção do essencial. Normalmente, considerá-la-ia banal, pouco acima de fracassada. Mas não hoje.

Regresso à loja e encomendo uma cópia. Fiquei com a morada do velho. Terá uma foto da irmã.

 

(Republicado. Com uma dedicatória irónica ao comentador Luís Lavoura.)

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Na Guerra e no Amor

por José António Abreu, em 31.07.16

«A coisa de que Amílcar Tinoco mais tinha orgulho na vida era um garanhão chamado Pégaso. A segunda, uma égua chamada Epona (ele tinha a mania de escolher nomes da mitologia que ninguém por aqui entendia). Com uma ajudinha de Pégaso, ela trouxera ao mundo dois dos cavalos que mais lucro lhe tinham proporcionado. A terceira coisa de que ele mais se orgulhava era um podengo alentejano chamado Tejo (os cães não lhe mereciam as mesmas honras que os cavalos). A quarta era a herdade, a quinta, o muito dinheiro que tinha, a sexta, a filha, a sétima, a amante, a oitava, um bom copo de vinho, a nona, o filho, e a décima talvez fosse a mulher. Toda a gente o sabia e, se quanto à ordem dos últimos pontos ainda podia haver discussão, os primeiros dois eram evidentes para qualquer pessoa.»

«Já sei isso tudo. E depois?»

Encolho os ombros. Ele tem quarenta e sete anos mas continua a pessoa totalmente incapaz de raciocinar para além do que lhe dizem (ou seja, de raciocinar, pura e simplesmente) que sempre foi. Deve dizer algo sobre mim ter gerado um filho assim. Se bem que – convém não esquecer – a mãe também nunca teve imaginação ou queda para raciocínios elaborados. Coisa que, no caso dela, até calhava bem. Serafim (nunca gostei do nome mas Alice insistiu – «apesar de tudo, era o nome do meu pai, coitado») deve ter saído a ela. Não na beleza, porém. Alice aguentou-se até ao fim com uma aparência invejável e uma quantidade surpreendentemente baixa de rugas, até mesmo no pescoço, a zona onde quase toda a gente acaba por parecer um peru. Sei que estou pior do que ela estava. Pior do que ela estava há dez ou quinze anos, até. Careca, barrigudo, com pêlos saindo-me das narinas e das orelhas que não vale a pena cortar (voltam passados dias, se não horas), expressão de permanente resignação que a maioria (este idiota do meu filho, por exemplo) toma por mau humor. Estou acabado. Mas permaneço vivo.

Estamos sozinhos na sala. A mulher dele – uma lisboeta magra que se diz gestora e que quando não é histérica se limita a ser incoerente – seguiu para Lisboa de comboio. Por causa das crianças, disse. Duas raparigas, de onze e nove anos, a caminho de serem tão tontas quanto os pais (mas adoro-as, atenção – que alternativa tenho?). Serafim insistiu em passar cá a noite – «Não aceito que fiques sozinho.» Ora merda. Como se fosse mais fácil estando com ele. Expliquei-lhe que amanhã ao nascer do Sol já aqui estarão várias pessoas, dentro de casa e lá fora, a tratar dos animais. Nada feito. «Não quero que passes o tempo a pensar na mãe», explicou. Que mal faria? Seria melhor do que aguentar este arremedo de conversa. E Alice merecia que se pensasse nela. Podia não ser imaginativa mas era prosaica e sensata. Serafim também se acha sensato (ser ou não prosaico nunca lhe deve ter passado pela cabeça) mas é apenas chato.

«Sempre deixaste entender que havia mais qualquer coisa por trás da forma como vocês acabaram por casar», diz ele. Está sentado num dos sofás individuais que, de repente (constato-o com um choque que por instantes me leva a não processar as palavras dele), me parecem extraordinariamente antigos, apesar de Alice e eu os termos comprado ainda nem há dez anos. E então percebo que tudo ficou umas dezenas de anos mais velho nas últimas vinte e quatro horas, incluindo eu.

Tento lembrar-me do que ele disse.

«Não deixei entender nada», respondo. «Disse-to uma vez, tinhas tu dezoito anos.»

Permite-se um sorriso. Tem um copo na mão. Foi buscá-lo logo que chegámos. Despejou dois dedos de whisky lá para dentro e veio sentar-se. Agora mantém-no suspenso sobre o braço do sofá. Uma pose, toda a sequência. Influenciada por filmes americanos e por telenovelas que os copiam. Uma cópia em terceiro grau, portanto.

«Por causa da Francisca. O que é feito dela?»

«Casou, emprenhou, engordou. Mais ou menos o mesmo que tu. Excepto a parte do emprenhar.»

«Hoje podes dizer o que quiseres, eu recuso chatear-me.»

«Ora merda, então onde está a piada?»

Cumpre a promessa e ignora a provocação, o balofo bastardo – não, bastardo não, que ele é de facto meu produto infeliz. Quem diria que os meus genes, misturados com os de Alice, dariam nisto? Bom, convenhamos que, apesar do código genético dele poder ser mais parecido com o meu (e com o dela) do que com o de qualquer outro ser humano, não deixa de ser quase tão parecido com o de um orangotango como com o nosso.  

«Numa coisa tinhas razão. Disseste-me que eu não a amava.»

«Disse-te que não sabias o que era o amor.»

«Isso.»

«E ainda não sabes.»

«Não comeces. Eu e a Liliana damo-nos muito bem.»

«Excelente.»

«Achas mesmo que a tua relação com a mãe era diferente? Só por causa das dificuldades que o pai dela vos causou?»

«Não, não é só por isso.»

«Então?»

Como é que se consegue que um idiota sem imaginação perceba que a realidade era muito diferente quando ele ainda nem na fase de espermatozóide se encontrava? Como é que se descrevem as décadas de cinquenta e sessenta do século passado numa povoação atrasada de um país atrasado a um frequentador de centros comerciais e praias algarvias?

«A minha relação com a tua mãe assentava em esforços e sacrifícios que tu nem consegues imaginar.»

«Sempre achei piada às tuas tentativas para vos fazer passar por Romeu e Julieta. Quer dizer, às vezes só achava ridículo.»

«Romeu e Julieta… Não é tão descabido como pensas.»

«Vocês não morreram por amor. Aliás, duvido que fosses capaz de morrer por amor.»

«Ai achas? Bom, talvez tenhas razão. Nunca o faria havendo outras possibilidades.»

Consulta o relógio. «Vou para a cama», diz.

Devia deixá-lo ir. Devia deixá-lo ir dormir e amanhã seguir para Lisboa e voltar à sua vidinha modorrenta, ao lado da mulher que conheceu num escritório, que atraiu com meia dúzia de lugares-comuns, com quem foi para a cama ao segundo ou terceiro encontro, cujos pais sorridentes encontrou pela primeira vez depois de ir para a cama com ela, e que ama o suficiente para, de longe a longe, aceitar ser arrastado para duas horas de O Lago dos Cisnes no Coliseu ou para uma exposição de garrafas vazias penduradas do tecto no Centro Cultural de Belém. Em vez disso, digo:

«Eu era filho de camponeses analfabetos e, ainda por cima, o teu avô tinha fama de bêbado – e de comunista. Apesar de beber e de não gostar do Salazar, não era nem uma coisa nem outra. Eu tinha feito a quarta classe mas trabalhava a tratar de cavalos e vacas e nunca havia de fazer outra coisa. O teu avô Serafim tinha terras, gado, considerava-se um latifundiário. Queria lá um vagabundo como eu para genro.»

«A mãe também só tinha a quarta classe.»

«De onde já podes ver a mentalidade dele. Podia tê-la mandado estudar. Mas era mulher, não valia a pena. Tinha era de lhe arranjar um marido decente. E eu nunca o seria.»

«Caramba, postas as coisas assim, parece que vivias na Idade Média!»

E é este gajo licenciado em direito. O meu filho. Incapaz de ver um palmo à frente do nariz. Nascido numa década de sessenta em que efectivamente muitas zonas deste país de merda mal tinham saído da Idade Média mas sem qualquer noção disso; sem qualquer noção de que o mundo em que se tornou adulto era já um mundo diferente. E, no fundo, por que haveria de a ter? Para os padrões locais, cresceu rico, sem preocupações. Teve brinquedos e televisão, foi ao cinema, desfrutou de viagens frequentes a Lisboa. Nunca pegou numa enxada a não ser para fingir que cavava. No passado, tentei muitas vezes que o percebesse, para grande ofensa dele e grande aflição da mãe. Desta vez fico calado.

Ele abana o copo com o whisky e diz: «Uma coisa que sempre estranhei é que gostavas mesmo dela.»

Ignoro a provocação – que mostraria alguma capacidade de raciocínio não fosse a constatação de duas realidades óbvias para qualquer pessoa que alguma vez tenha passado dez minutos comigo e com Alice: a de que a amava e a de que sempre fui um sacana – e centro-me no essencial. É verdade. Amava-a. Durante uns tempos cheguei a pensar fazê-lo por não querer admitir ter feito um mau investimento. Afinal, consegui-la exigira tanto. Mas não; amava-a e pronto, vá-se lá saber porquê. A explicação mais cínica que consigo arranjar, e se calhar também a mais realista, é que sou demasiado teimoso para mudar de ideias. Se aos vinte anos decidi amá-la, era para continuar a fazê-lo até ao fim. E foi.

«Porquê? Não tenho capacidade para amar?»

A mão dele imobiliza-se mas o whisky fica ainda a rodar dentro do copo.

«Para ser sincero, era isso que parecia na maior parte das vezes.»

«Óptimo, alguma sinceridade, finalmente.»

«Nunca tivemos conversas destas.»

«E tens pena?»

Ele fica a pensar na resposta e eu aproveito para continuar: «Outra coisa que toda a gente sabia é que Tinoco era amigo do Salazar. E outra ainda…»

«Por que é que insistes nessa história? O que me interessa o Tinoco? Sei perfeitamente o que se passou.

«Outra ainda é que era um sujeito que fervia em pouca água. Detestava ser contrariado e zelava pelos seus interesses de uma forma quase maníaca. Uma vez apanhou um sujeitinho de Lisboa debaixo de uma azinheira a tentar desempenhar o papel do Pégaso com a filha dele (a tentar cobri-la, para pôr as coisas de forma que não te faça pensar muito) e deu-lhe um tal enxerto de porrada que o rapaz, que hoje é um velho como eu, continua a coxear lá pelas calçadas de Lisboa.»

«Sim, e então?»

«Então o Tinoco detestava o teu avô e o teu avô detestava o Tinoco. Questões de terras e de política. As coisas andavam de tal maneira que o Tinoco tinha morto a tiro um cão do teu avô que lhe apareceu lá perto de casa e ainda se gabou do feito.»

«Eu sei, e então o cavalo apareceu morto e o Amílcar Tinoco, convencido do que tinha sido o meu avô a mandar matá-lo, matou o avô. Já sei isso tudo. Ouvi a história milhares de vezes. E então?»

Ignoro-o.

«Com uma forquilha espetada na barriga. Os dentes da forquilha tinham sido afiados com uma lima. Foi descoberto de manhã, já morto, mas deve ter agonizado durante horas. Ninguém conseguiu segurar o Tinoco. Pegou na pistola e partiu à procura do teu avô. Quase nem o deixou falar. Meteu-lhe uma bala na cabeça e mais duas no peito, as do peito já depois de ele estar no chão. Pelo menos morreu mais depressa do que o cavalo.»

«A tua indiferença é comovedora.»

Uma tentativa de humor. Quase sorrio. Este idiota, que se leva sempre tão a sério, escolhe este preciso momento para tentar uma piada.

«Por que é que havia de fingir tristeza?»

«Era o pai da mulher com que querias casar. O meu avô.»

«Nem mais. O único impedimento ao nosso casamento. Por que é que eu havia de estar triste?»

A compreensão chega-lhe aos olhos como uma cortina semitransparente descendo sobre uma janela. Tem uma certa piada. A compreensão devia iluminar, não escurecer.

«Não estás a falar a sério.»

«Eu lá costumo brincar. Ainda por cima, hoje.»

«Foste tu quem matou o cavalo?»

Encolho os ombros. «Nunca ouviste dizer que na guerra e no amor vale tudo? Quando o amor é a sério, claro.»

A noite de Lua Nova, em meados de Agosto, estava escura, apesar do céu estrelado, e quente, muito quente – abafada como um quarto fechado. Eu transpirava enquanto deslizava pela propriedade de Amílcar Tinoco, fazendo uma volta para não alertar os cães. Levava na mão a forquilha preparada de véspera e usá-la-ia neles, se fosse preciso, mas preferia evitar o ruído. Não sentia medo. Tinha um objectivo e sabia como o atingir. Trabalhava lá, conhecia o terreno, os edifícios, o cavalo. O que poderia correr mal? Nada. E nada correu mal. Correu tudo conforme esperara. A morte do cavalo, que tombou à segunda vez que o espetei com a forquilha e ficou a estrebuchar quase em silêncio, a reacção do Tinoco, o fim do cabrão do velho que não me deixava aproximar de Alice, a ideia generalizada de que tinha sido mesmo ele o responsável pela morte do cavalo (a descoberta da forquilha com os dentes afiados num barracão da propriedade ajudou). Tudo perfeito, então e em todos os anos que se seguiram. O único momento em que senti uma ponta de remorso foi ao ver Alice chorar a morte do pai. Mas passou-me depressa.

Ele levanta-se, ainda a segurar o copo de whisky. Parece-me que a mão lhe treme mas pode ser impressão minha. Já não tenho tantas certezas como quase toda a gente – incluindo este meu filho – julga que tenho. Mas dá-me ideia que disfarço bem.

«A mãe sabia?»

«A tua mãe nunca teve grande imaginação. Como tu.»

Procura um lugar onde pousar o copo. Diz: «Vou-me embora.»

«Tem cuidado na estrada.»

«És um filho da puta.»

«Não, isso não. O único homem com quem a tua avó teve relações foi o teu avô e desconfio até que ele nunca a viu nua.»

Ele parece querer falar mas não saber o que dizer. (Caralho, não é meu filho e, para mais, advogado?) Desiste. Encaminha-se para a porta. No caminho, pousa o copo junto ao televisor desligado. Pára. Roda. Pergunta: «Só mais uma coisa: valeu a pena?»

Olhamo-nos nos olhos.

«Diz-me tu. Não existirias se eu não o tivesse feito.»

Consegue empalidecer ainda mais um pouco. Abana ligeiramente a cabeça, roda outra vez e sai, deixando a porta da sala aberta.

Permaneço sentado. Ouço o ruído da porta da rua e, segundos depois, o do motor do carro. Acho que não penso em nada enquanto o som do motor e dos pneus no cascalho se desvanece. Depois disso, o silêncio parece absoluto. A casa está fria e vazia. Os animais estão calados. Nem o frigorífico, na cozinha do outro lado do corredor, emite o zumbido do costume. Fico sentado durante muito tempo. Podia ir para a cama mas ainda é cedo. De qualquer modo, Alice não vai lá estar à minha espera. Não vai queixar-se de eu demorar, nem dizer que não consegue adormecer antes de eu chegar, nem aquecer os pés nos meus, nem passar a noite toda a acordar e a virar-se na cama porque eu ressono como um motor de rega. Respondo à pergunta que o meu filho me fez: sim, valeu a pena. Até hoje – até ontem – valeu a pena. Depois, cedo ou não, levanto-me e vou para a cama.

 

(Republicado.)

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Sobrepressão (5/5)

por José António Abreu, em 20.04.16

Polícia. Questões em tom de voz neutral. Como se lhes fosse indiferente. Mais questões em tom de voz pressionante, até mesmo ameaçador. Como se soubessem. Mas não sabiam. Ele não tocara no homem. Nem sequer abrira a janela.

Exigiram que os acompanhasse à esquadra, um edifício feio, com o ambiente de um velho hospital de província, excepto pelo cheiro, mais indefinível embora não mais agradável. Quase duas horas em torno das mesmas perguntas, de preenchimento de papéis, de assinaturas. Finalmente mandaram-no embora.

Devagar, por entre o tráfego agora esparso, conduziu até casa.

 

Lamentava? Sentia remorsos? Honestamente, não. Sabia que devia sentir. Sabia que aquele homem, ainda que podendo ser estúpido e desprovido de civismo, não deveria ter morrido naquele momento, daquela forma. Teria família, colegas de trabalho, até mesmo amigos que, em resultado de apreço genuíno ou de auto-piedade (a morte dos que nos estão próximos é sempre um golpe contra nós), chorariam o seu desaparecimento. Ainda assim, recusou-se a sentir remorsos. Na sua raiva quotidiana, nos seus contactos diários com vítimas de acidentes, ganhara consciência da fragilidade e irrelevância da vida – de qualquer vida, incluindo a sua própria. Apenas umas quantas pessoas tão irrelevantes como o homem da Toyota chorariam a morte dele. O mundo continuaria a girar. As pessoas continuariam a sair para o emprego de manhã e a regressar a casa à noite. As estradas continuariam sobrelotadas. Aquele homem era tão importante como qualquer dos milhares de outros que naquele dia haviam morrido, em casa ou em hospitais. Tão importante como as dezenas ou centenas que tinham certamente falecido num atentado bombista algures no planeta. Tão importante como a velha que Raskolnikov assassinava em Crime e Castigo – com a diferença de que ele não se deixaria submergir pelo remorso. Até mesmo pessoas famosas – que importância têm? Menos de 0,1% da população é verdadeiramente relevante – por boas ou más razões.

Claro que não ficara satisfeito. Nunca desejara verdadeiramente matar alguém. Mas talvez o que mais o incomodasse era ver-se forçado a admitir – e tinha de o fazer porque detestava hipocrisias - que aquela capacidade, ambicionada durante anos a fio, deixara tão rapidamente de lhe dar prazer.

 

No dia seguinte teve outro desentendimento com o chefe. Mais uma vez, o seu trabalho – talvez a única coisa que ele estava certo de fazer bem – era questionado, naquela forma aparentemente benigna que lhe dava volta ao estômago e o deixava com vontade de ver quão alto conseguiria gritar. Enquanto o chefe falava, debitando platitudes em tom seráfico, a raiva subia-lhe em ondas sucessivas das entranhas até à garganta e aos maxilares. A certa altura percebeu que evitava olhar o chefe de frente. Imaginou até os títulos das notícias: «Olhos Mortais», «Não deixe que este homem olhe para si», «O verdadeiro X-Men». Reprimiu um sorriso a custo e percebeu que a raiva quase desaparecera.

Mais tarde, regressando a casa, fez estoirar mais quatro pneus e sentiu-se bem.

 

Na rua, quatro homens jogavam futebol. Os veículos tinham de abrandar, por vezes de parar, enquanto os homens se desviavam. Numa dessas ocasiões, um dos jogadores fingiu ir pontapear a bola na direcção do carro. Pouco depois, um remate mal direccionado levou a bola a embater num veículo estacionado. Por trás do vidro, cerca de dez metros acima do nível da rua, ele ouviu o ruído do impacto – um som ressoante com uma componente metálica. Os jogadores continuaram como se nada tivesse sucedido. O carro dele estava a salvo mas, ainda assim, ele sentiu uma golfada de raiva. Imaginou-se a apontar um espingarda com silenciador à cabeça de cada um daqueles homens e a premir o gatilho. Plop. Plop. Plop. Plop. Viu Christopher Walken, n’O Caçador, com sangue esguichando da cabeça. Depois apercebeu-se de que não se podia autorizar pensamentos daqueles. Agora eram demasiado perigosos. Podiam tornar-se realidade. Virou costas à janela.

Ligou o televisor. No ecrã surgiu a imagem de um repórter de pé numa rua onde tinha ocorrido um atentado. O repórter não sabia grande coisa do que se passara mas falava ininterruptamente porque em televisão – e cada vez mais na vida real - o silêncio não pode ser autorizado. Manteve-se a assistir durante um par de minutos mas depois sentiu a incongruência de tudo aquilo – de estar em pé no seu apartamento, defronte do televisor, de chinelos e t-shirt manchada de café, vendo uma não-notícia sobre acontecimentos verdadeiramente importantes (ou será que já nem sequer o eram?) – e desligou o aparelho. Permaneceu imóvel durante algum tempo. Do exterior, subiu o ruído de uma buzina de automóvel, a que se seguiu um coro de assobios e insultos. Resistiu à tentação de espreitar. A imagem do homem da Toyota caído no pavimento, com a face deformada pela surpresa e pela dor, assaltou-o mais uma vez.

Escorraçou a imagem, fechando os olhos e abanando a cabeça. Tentou decidir o que fazer. Qualquer coisa faltava – mais ainda agora que a televisão estava desligada. Olhou em volta. Música, livros, filmes, acesso à internet — tinha tudo isso mas nada parecia adequar-se. Devagar, dirigiu-se à casa de banho. Tentou urinar mas o fluxo saiu num espasmo e extinguiu-se. Guardou o pénis, puxou o autoclismo e voltou-se para o lavatório. Enquanto esfregava as mãos uma na outra, examinou-se no espelho. A imagem reflectida era claramente ele e, todavia, era também uma pessoa desconhecida, que mantinha segredos, ilusões, desapontamentos, fúrias e vergonhas que lhe escapavam – pior, que o enojavam. Olhou para os olhos daquela pessoa e percebeu, com uma nitidez assustadora, como ela lhe desagradava. Fechou a torneira e limpou as mãos. Inclinou-se para a frente, as mãos no rebordo do lavatório, o nariz quase a tocar o espelho. Olhou para o lado direito da cabeça, para a zona ligeiramente atrás e acima do olho. A artéria via-se – à justa – mas não pulsava. Era um canal discreto e delicado que o fez pensar num embrião – naqueles tecidos translúcidos que se vêem nas fotos de seres em desenvolvimento dentro do útero. Desconhecia o nome daquela artéria. Após o incidente fizera menção de pesquisar mas esquecera-se. Continuou a olhar para ela, tão incongruentemente fina e vital. Tentou detectar a pulsação mas falhou. Os olhos começaram a arder-lhe mas resistiu ao desejo de pestanejar. Continuou a observar a artéria – anónima, indefesa – que insistia em desempenhar o seu papel com suave obstinação. A casa de banho começou a dissolver-se em torno dele. O lavatório a que as suas mãos se agarravam transformou-se numa mancha. Reais, nítidos, eram apenas os seus olhos, à beira da ignição, e a pequena artéria na sua têmpora – ainda e sempre plácida, ainda e sempre indiferente. Receoso de não conseguir aguentar durante muito mais tempo, de ser derrotado pelo próprio corpo, fechou os olhos, tentando mantê-los imóveis por trás das pálpebras. Duas lágrimas, grossas e pesadas, deslizaram-lhe pelas faces. Respirou fundo, cerrou os maxilares, cravou as mãos no rebordo do lavatório e, antes da ardência desaparecer por completo, abriu novamente os olhos.

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Sobrepressão (4/5)

por José António Abreu, em 19.04.16

Arredores de outra cidade, o mesmo problema. Era hora de almoço, devia ter acontecido um acidente mais à frente. Sentado no carro, ele reparava como o fumo dos escapes conferia ao ar uma tonalidade cinzento-azulada. Buzinadelas de protesto faziam ricochete no interior da sua cabeça como bolas numa máquina de flippers. Estava cansado. Passara a manhã a investigar um incêndio no pavilhão de uma fábrica de componentes plásticos para a indústria automóvel. O incêndio começara numa cabina de pintura que possuía um sistema automático de extinção. Como seria de esperar, este encontrava-se inactivo. Havia extintores no pavilhão mas, em vez de os usarem, os dois trabalhadores no local haviam fugido. E, muito embora a fábrica até desse ideia de estar bem organizada, a causa do incêndio resumia-se à justificação habitual: “Sabe como é, estas coisas acontecem.” O ponto positivo era todos os indícios apontarem para simples incompetência.

Não viu o Honda vermelho de imediato. Veio da direita, de uma rua secundária, no momento em que a fila começou a andar. Normalmente ele deixava entrar os veículos naquelas circunstâncias. Mas já se encontrava em movimento quando reparou no Honda. O seu aparecimento repentino até o assustou, fazendo-o guinar para a esquerda – mas não parar. O condutor do Honda apitou um protesto. Ignorou-o. Pelo retrovisor, viu o Honda entrar na fila imediatamente atrás do seu carro e, num movimento contínuo, sair dela para a desimpedida faixa da esquerda (algo natural para quem pretendesse virar à esquerda cem metros adiante). Quando o espelho retrovisor direito do Honda embateu com estrondo no espelho do lado esquerdo do carro dele, fazendo-o dobrar no sentido errado (mas, verificá-lo-ia depois, sem o partir), foi – outra vez – apanhado de surpresa. Era ilógico e irritante que ainda conseguissem surpreendê-lo mas a verdade é que ficou sem reacção durante um par de segundos. Depois rebentou o pneu traseiro direito do Honda vermelho, que já estava a mais de trinta metros e ainda ganhava velocidade.

O Honda guinou bruscamente para a esquerda e embateu na divisória de betão. A traseira subiu e rodou no ar. O Honda deslizou de marcha-atrás contra a divisória ao longo de vários metros e parou. Seguiu-se uma pausa durante a qual o tempo pareceu ficar suspenso e depois várias pessoas saíram dos carros e correram para o Honda.

Ele deixou-se estar. Viu o condutor do Honda – um tipo de vinte e poucos anos, baixo, magro, barba por fazer, envergando calças e blusão de ganga – sair do carro, aparentemente sem ferimentos. Viu como o outro olhava na sua direcção. Suportou o olhar mas não sorriu. Tão depressa quanto pôde, saiu dali.

 

Ter o poder de causar acidentes graves era uma realidade que o perturbava. Certos actos mereciam punição – isso mantinha-se claro. Mas devia a punição incluir o risco de vida? E quanto a inocentes que pudessem ser atingidos? Até ao momento, rebentara pneus em situações de velocidade reduzida: tentativas de entrada em filas, utilização da faixa bus, descrição de rotundas pelo exterior, paragem em cima de passadeiras, desprezo pelo semáforo vermelho...  Contudo, não era difícil imaginar um cenário de destruição numa auto-estrada: um automóvel (conduzido por uma daquelas pessoas que recusam usar as faixas da direita ou que começam a fazer sinais de luzes a duzentos metros de distância, por exemplo) descontrolado, guinchos de pneus em travagem, choques sucessivos – e, depois, corpos espalhados pelo asfalto, sirenes de ambulância, polícias tentando manter a ordem, bombeiros cortando chapa para retirar alguém preso dentro de um dos veículos…

Não desejava aquilo. Apenas que os filhos da puta sem civismo sofressem um pouco. Teria de ser cauteloso.

 

«Sentes-te bem?»

Por causa do papel que desempenhava, o chefe achava-se na obrigação de fazer perguntas como aquela regularmente. Mas fazia-as com convicção nula. Muitas vezes, nem esperava pela resposta.

«Ando cansado», respondeu ele, aceitando jogar a pequena charada. Poderia ter dito: «Estou óptimo», que o resultado seria o mesmo.

«Levas tudo demasiado a sério», disse o chefe. E depois: «Viste o Benfica?»

 

As duas faixas fundiam-se numa quarenta metros adiante. Toda a gente o sabia. Havia sinalização vertical. Havia marcações no pavimento, perfeitamente visíveis. E, todavia, muitos condutores ignoravam a fila já constituída – naquela altura, nem sequer muito comprida – e mantinham-se na faixa da direita até à zona da junção. Conseguiam ultrapassar quatros ou cinco carros, se tanto.

Ele parou no término da fila. Chegou ao ponto de aglutinação trinta segundos mais tarde. Havia um furgão Toyota na faixa da direita, meio carro à sua frente. Nem sequer tinha o pisca ligado. Ignorou-o e avançou. Ouviu uma buzinadela mas manteve os olhos no carro da frente. Naquele instante, não poderia dizer se o condutor da Toyota era novo ou velho, magro ou gordo, se tinha cabelo comprido ou era careca. Pelo retrovisor, viu a Toyota entrar na fila logo atrás do seu carro.

A fila parou. Instinto ou experiência fizeram-no consultar novamente o retrovisor. Viu um vulto a abandonar o volante da Toyota. Pelo espelho da porta viu o homem – não muito alto, careca, gordo – aproximar-se. Sentiu um instante de pânico. Atabalhoadamente, verificou que a luz indicativa do trancamento das portas estava acesa. Quando o homem bateu no vidro, manteve o olhar fixo em frente. Isso pareceu apenas irritá-lo mais. Berrando se não o tinha visto, bateu com força no vidro e tentou abrir a porta. Finalmente, ele rodou a cabeça e olhou para o homem. Tinha a cara vermelha mas não a cabeça. A cabeça era branca. Vestia calças de ganga e um pólo com os botões desabotoados. O pescoço e a zona do externo eram tão vermelhos como a cara. Tinha poucos pêlos, excepto no nariz, e suava profusamente.

«O que é que quer? Desapareça.»

Foi um erro. O homem aumentou o tom dos insultos e bateu ainda com mais força na janela. Depois deu um pontapé na porta.

A cabeça do homem tinha-o perturbado de imediato. Por causa da cor, da transpiração, dos pêlos no nariz e da artéria que pulsava na têmpora direita. Mais tarde, ele perguntar-se-ia se tinha mesmo sentido raiva suficiente para aquilo suceder. Se tinha – e claro que tinha; o resultado não deixava margem para dúvidas –, fora certamente mais difusa, menos consciente do que em qualquer outra situação anterior. Ter-se-á visto a sair do carro e a pregar um murro na cara do outro homem; ter-se-á visto a pontapeá-lo enquanto ele se encontrava no chão; nunca se imaginou a rebentar-lhe a artéria.

Não houve esguicho de sangue. Apenas dor súbita na cara do homem, que se agarrou à têmpora direita, emitiu um grito estranhamente agudo e tombou no pavimento.

Ele permaneceu dentro do carro, ouvindo o homem gritar. Após uma mão-cheia de segundos, viu-o levantar-se, agarrado aos rails de metal que delimitavam a via a partir daquela zona, e tentar correr na direcção da carrinha. Viu-o cair quase de imediato.

Abriu a porta e saiu. Evitando olhar para o homem, fazendo um esforço para se abstrair dos gritos, marcou 112 no telemóvel. O veículo do INEM demorou vinte minutos a chegar. O homem já estava morto.

 

(Continua amanhã...)

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Sobrepressão (3/5)

por José António Abreu, em 18.04.16

Jantou uma lata de atum com meia lata de feijão frade. Misturou tudo, acrescentou azeite, levou dois minutos ao microondas. Lavou prato, copo e talheres, e sentou-se na sala, pequena e demasiado cheia, com o portátil e um livro pousados no sofá ao seu lado. Forçou-se a ver as notícias. Depois fez zapping. Encontrou novelas, reality-shows, talk-shows, debates sobre arbitragens e foras-de-jogo de jogos de futebol, séries, um ou outro filme. Pensou que nessa noite já ingerira enlatados suficientes (a ironia fê-lo sorrir) e desligou o televisor. Lembrou-se de um velho tema de Bruce Springsteen (57 channels and nothin’ on), lançado numa época em que a televisão portuguesa apenas tinha dois canais, e recordou a sua ingenuidade ao pensar que o Boss estava maluco: com 57 à disposição, como seria possível nada de interessante estar a dar? Ainda pensou em colocar o CD no leitor mas a ideia rapidamente lhe surgiu como pueril. Tentou trabalhar mas descobriu que não conseguia concentrar-se. A certa altura, começou a ouvir pancadas, risos e o som de uma televisão no apartamento de cima. Conhecia mal as pessoas que lá viviam. Um casal de trinta e tal anos, sem filhos – por enquanto. Tornou a ligar o televisor mas os sons provenientes do outro apartamento subsistiram. Ficou a ouvi-los, olhando para o ecrã sem tentar extrair sentido das imagens mas mudando frequentemente de canal. Foi deitar-se perto da meia noite.

 

Acordou com dor de cabeça. O mais pequeno movimento fazia o cérebro pulsar uma onda de dor. A descida para o nível das garagens, no elevador que arrancava e parava com safanões e um estoiro metálico, deixou-o nauseado. O ruído do motor do carro era suficientemente abafado para não o incomodar mas o rádio renasceu numa explosão sonora que o entonteceu. Desligou-o com uma pancada, manobrou por entre os pilares e pela rampa acima, avançou para o término da fila.

Progrediu no pára-arranca habitual durante dez minutos, vendo carros dar o golpe duzentos, depois cem, depois cinquenta metros à sua frente. Atingiu por fim a zona de combate. Como habitualmente, colou a frente do carro à traseira do que o precedia – uma carrinha Mitsubishu conduzida por uma mulher que passava a mão no cabelo a cada cinco segundos. A primeira tentativa surgiu de imediato. Resistiu. Suportou uma segunda. A terceira foi mais agressiva – como se o outro condutor estivesse disposto a causar um acidente para entrar na fila (e quem sabe? Talvez estivesse). Agarrou o volante com força, pressionou a buzina, resmungou “Filho da puta” e assestou o olhar no pneu dianteiro do lado direito do outro carro. O estoiro foi imediato. Como na véspera, a frente do veículo teve um breve movimento ziguezagueante – quase parecia uma reacção de surpresa – e depois imobilizou-se.

Desta feita não houve paz. Apenas júbilo selvagem – que demonstrou, rindo abertamente ao ultrapassar o outro carro.

 

Não podia ser coincidência. Não duas vezes. Depois de se acalmar, perguntou-se o que diabo estaria a acontecer. Sentiu-se mesmo – agora sim – um pouco assustado. Mas rapidamente decidiu que não havia forma de chegar a uma conclusão racional – e, por conseguinte, a atitude mais racional era nem sequer tentar encontrá-la. Iria apreciar – e utilizar plenamente – este poder durante tanto tempo quanto lhe fosse possível. Quando desaparecesse, encolheria os ombros e seguiria em frente. Até lá, obrigaria aqueles filhos da puta a pagar caro todas as tentativas de fazerem dele um idiota. Raiva era a resposta – bruta, não diluída, honesta. Era isso que tinha de sentir ao olhar para aqueles pneus.

 

A facilidade era desconcertante. Na manhã seguinte deixou quatro carros com pneus rebentados no acesso à via rápida. Os condutores faziam perguntas uns aos outros e pesquisavam o pavimento em busca de objectos cortantes. Ele tinha vontade de rir e, por momentos, não foi capaz de o evitar. Apenas os condutores à sua frente na fila, que haviam abrandado para ver o que se passava, lhe estragavam ligeiramente a disposição.

 

Aprendeu depressa a controlar a raiva. Em poucos dias, funcionava quase sempre. Cerrava os dentes, assestava os olhos no pneu e apertava o volante como se este fosse o pescoço do outro condutor. A tensão no maxilar originava uma pressão nas têmporas que se desvanecia logo após o rebentamento.

 

Disseminada pelos boletins radiofónicos de informações de trânsito, na semana seguinte a estranheza começara a instalar-se Não passava um dia útil sem que rebentassem pneus naquele acesso. Na quarta-feira, havia polícia no local. Mas, com a presença da polícia (dois motociclistas entroncados com o olhar duro de quem deseja fazer jus ao uniforme), menos condutores tentaram dar o golpe e nenhum o fez perto dele. Todos os pneus passaram incólumes nessa manhã. Na seguinte, porém, cinco condutores tiveram de parar, perder tempo e sujar as mãos.

 

«Sentes-te bem?», perguntou Sara, parando junto à secretária dele.

Clicou no ícone save e ergueu os olhos para ela. Rodou o pulso, que desde há um par de anos lhe doía sempre que passava uns minutos a utilizar o rato. O estalo não fez abrandar a dor.

«Tão bem como noutros dias. Porquê?»

Sara vestia uma saia que terminava acima dos joelhos. Era uma má escolha para alguém com a idade - e especialmente o peso – dela.

«Tens andado... não sei, quase feliz. Ainda mais maníaco do que o habitual mas quase feliz.»

«E isso é mau?»

«Não. Não. Não sei.»

Ele tentou olhar para ela como se fosse a primeira vez que a via. (Era um exercício a que se entregava com frequência. Tentar re-adquirir uma primeira impressão de pessoas que conhecia há muito. Era também um exercício que, pela inutilidade, o irritava ligeiramente.) Perguntou-se se ela ainda lhe era atractiva, não obstante tudo o que sucedera entre ambos. Surpreendentemente, a resposta era positiva e gerava nele sentimentos de vergonha e desprezo – por ela mas ainda mais por ele.

«Tenho de acabar este relatório. Mas obrigado pela preocupação.»

«Não estou preocupada contigo.»

«OK.»

«Até pareces mais bem disposto.»

«Impressão tua.»

Ela hesitou. Depois moveu o corpo todo para encolher os ombros e foi-se embora.

 

(Continua amanhã...)

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Sobrepressão (2/5)

por José António Abreu, em 17.04.16

Trabalhava numa empresa de investigação de causas e avaliação de danos de acidentes, quase sempre contratada por companhias de seguros. Diariamente, visitava locais afectados por incêndios, inundações, acidentes de trabalho graves, roubos. Falava com as vítimas – pessoas sem um braço, queimadas ou paralisadas –, com os colegas delas, com os patrões e com os familiares. Para todos eles, representava o inimigo. O indivíduo que, na sequência de uma infelicidade, vinha procurar formas de lhes recusar aquilo a que julgavam ter direito. Enfrentava essas situações com a mesma predisposição com que enfrentava o trânsito. Tinha uma tarefa a desempenhar e desempenhá-la-ia bem. Com cortesia e firmeza. Buscando factos. Recusando ser afectado por emoções. Este modo de conduta não tornava o processo indolor mas, no início da carreira, aprendera que estabelecer outro tipo de relação só dificultava o processo. Nem mesmo quando procurava levar as pessoas a dizerem-lhe o que provavelmente deveriam calar fingia amizade. Certas formas de actuação pareciam-lhe indignas. Pelo contrário, insistir, apontar contradições, ameaçar com as consequências de teimar numa mentira, esses constituíam procedimentos aceitáveis - e ele usava-os melhor do que ninguém.

Estava consciente de que era um trabalho de merda. Mas, nos cinquenta e dois anos que levava de vida, ganhara experiência suficiente para saber que quase todos são.

 

O chefe queria discutir o último relatório dele. Não porque tivesse erros (umas quantas acções de formação e pelo menos outros tantos livros sobre gestão de recursos humanos faziam o chefe começar todas as críticas com paliativos) mas porque desejava estar bem preparado ao apresentá-lo ao cliente. E porque achava que ele fora demasiado taxativo nas conclusões. «Estamos basicamente a chamar aldrabão ao sinistrado.»

«É o que ele é.»

O sinistrado era um empresário com três empresas do sector da cortiça, que andara a retirar material de uma delas antes da ocorrência de um incêndio. Não fora possível provar a natureza fraudulenta do incêndio mas ficara imediatamente óbvio que as quantidades de cortiça, de rolhas e até mesmo de equipamento (quão estúpido era preciso ser para retirar do local duas máquinas de escolha de rolhas e depois exigir que a seguradora as pagasse?) eram muito inferiores às reclamadas.

«Ele devia ser preso.»

«Talvez. Mas uma coisa é fornecer dados que permitam à seguradora decidir, outra é praticamente decidir por ela.»

«Ninguém está a decidir por ela. No relatório só se referem as inconsistências nas quantidades e as declarações de testemunhas que viram veículos levar cortiça das instalações no fim-de-semana anterior.»

Os olhos do chefe mostraram resignação por ter que lhe explicar novamente certas evidências. «É demasiado taxativo. Não deixa margem à seguradora…»

«E porque devia deixar? Há lá alguém com interesse em que o sinistro seja pago rapidamente, sem ondas?»

Nos olhos do chefe, a resignação passou a irritação.

«Sabes bem que não é isso. Fazê-los levar para tribunal um caso que lhes vai custar dinheiro e que acabarão por perder só vai levá-los a confiar menos em nós no futuro. E depois há as idas a tribunal que isto vai implicar. Não ganhamos dinheiro por ir a tribunal.»

Sentiu-se insultado, depois relaxou. Não valia a pena. «OK, amanhã trato disso.»

«Prometi entregar o relatório hoje.»

Levantou-se da cadeira. «Vai ter de adiar. Tenho pouco mais de três horas para fazer duzentos quilómetros – e comer qualquer coisa.»

«Dá tempo. Fazes as alterações em dez minutos.»

«Não num relatório desta importância, quando posso ter de ir a tribunal defender o que escrevi. Trato do assunto amanhã de manhã. »

Era sempre assim: resistia apenas para adiar o inevitável. Saiu, deixando o chefe a remoer o compromisso. Sara fê-lo parar. «Tens um minuto?»

Sara era a administrativa da empresa. Dava apoio ao chefe, aos três técnicos permanentes e a quaisquer outros contratados a recibo verde. Quarenta e poucos anos de idade, um metro e sessenta e cinco, divorciada, sem filhos. Uma dezena de quilos em excesso agrupados no tronco e nas ancas (a cara era surpreendentemente magra), cabelo pintado num tom de castanho que a embalagem juraria ser louro. Prolongava a última palavra de cada frase, fazendo tudo o que dizia soar a queixumes.

Dois anos antes, haviam tido uma relação. Em menos de um mês, estavam fartos um do outro. Sara descobrira nele os aspectos que ele sempre julgara estarem bem à vista (a intransigência, a falta de sociabilidade), ele surpreendera-se com quão desinteressante, carente e desorganizada ela era. A relação deixara um efeito de estranheza e ressentimento, que se manifestava sempre que a conversa se desviava do plano estritamente profissional.

«Não posso, estou atrasado. Tem que ser agora?»

Ela hesitou.

«Não, deixa estar. Conduz com cuidado.»

«Sempre. Até amanhã.»

Recolheu a pasta que deixara junto à secretária e saiu.

 

No final da tarde, ao regressar a casa, não resistiu e tentou de novo. O dia acabava tão cinzento como começara mas já não chovia. Nas três faixas da auto-estrada, o trânsito avançava cem metros de cada vez e depois parava repentinamente. Quando um miúdo num Focus com jantes pretas e ponteira de escape sobredimensionada fez uma diagonal da faixa da direita para a da esquerda, acabando dez ou quinze metros adiante do carro dele, parado na faixa do meio, fez o que fizera de manhã: olhou para o pneu traseiro direito do outro automóvel e desejou que rebentasse. Nada aconteceu. Verificou que a sua faixa continuava parada e tentou novamente, obtendo o mesmo resultado. Sentiu-se ridículo e zangado. Quando a faixa central avançou, o rapaz no Focus saltou para ela e, depois de ultrapassar um monovolume, regressou à da esquerda. Ele resistiu à vontade de fazer uma terceira tentativa e conduziu até casa com a raiva borbulhando-lhe na garganta.

 

(Continua amanhã...)

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Sobrepressão (1/5)

por José António Abreu, em 16.04.16

(Não é concorrência à Patrícia Reis. É apenas um texto demasiado comprido - e raivoso - para um blogue como o Delito, que ainda assim vou publicar. Por favor, fiquem cientes de que não passa de ficção - mas encontramo-nos na estrada.)

 

 

Ficou estupefacto, da primeira vez que aconteceu. Não se assustou, ou pelo menos não muito; ficou apenas estupefacto. Como acreditava em explicações lógicas — como dependia de explicações lógicas — disse a si mesmo que fora uma coincidência. Mas não conseguiu evitar um sorriso de vitória ao passar pelo quarentão engravatado que olhava para os restos do pneu do carro com ar de surpresa e irritação.

 

Acordava todas as manhãs para um mundo de filhos da puta. Pior: levantava-se da cama e ia juntar-se-lhes. Trinta segundos após sair de casa estava mergulhado no trânsito, enfrentando picos de violência que normalmente apenas no final do dia eram igualados — mas nunca ultrapassados. Pensava: as pessoas fazem questão de começar o dia da pior forma possível. Depois: talvez seja uma estratégia; a aberração do trânsito matinal imuniza para o que quer que possa correr mal durante o resto do dia. Mas claro que não imunizava e ele sabia-o por experiência própria: com o emprego que tinha, algo corria sempre mal.

Vivia na periferia, num prédio de cinco andares. Se o carro não lhe fosse indispensável para o trabalho, deixá-lo-ia em casa – muito embora a ideia de passar três quartos de hora no interior de um autocarro, entalado entre guarda-chuvas molhados e sovacos mal-cheirosos, todas as manhãs e todas as tardes, ter força suficiente lhe causar vómitos. Ponderara deixá-lo estacionado junto à sede da empresa – um espaço de pouco mais de cem metros quadrados num prédio velho do centro da cidade – mas o risco de roubo ou de vandalismo era-lhe inaceitável. Apesar do cuidado que tinha na escolha dos locais onde o estacionava, a pintura já sofrera vários riscos e pancadas. O carro constituía uma das poucas âncoras que possuía – funcionava quase sempre do modo esperado; pedia pouco; tinha avarias que, como um osso partido no corpo humano, eram fáceis de entender – e não merecia ser abandonado à sorte.

Todas as manhãs, a selvajaria começava a poucas centenas de metros de casa, no acesso àquilo que apenas total inconsciência ou improvável humor negro permitira baptizar “via rápida”. Ele posicionava-se na faixa da direita, no término de uma fila com cerca de trezentos metros de comprimento. Soluçava em frente, tentando manter uma distância mínima para o veículo que o precedia – e a calma. Não era fácil, especialmente ao chegar à zona onde numerosos condutores procuravam forçar a entrada na fila. Ele nunca — nunca — deixava entrar alguém. Também nunca forçava a entrada em fila alguma. Nos cinquenta mil quilómetros que fazia anualmente, apenas erro ou distracção o poderiam levar a realizar um acto condenável. Naquela primeira fila do dia, como em muitas outras subsequentes, quem agia daquele modo estava a tentar ganhar dez minutos à custa dos restantes. Isso era-lhe inaceitável. Homens, mulheres, gordos, magros, bonitos, feios, conduzindo veículos caros ou baratos — ninguém entrava. Por vezes, fazia questão de olhar os condutores nos olhos, num esforço (que sabia inglório) de tentar fazer passar a sua posição — de intransigência mas, acima de tudo, de justiça. Gestos ou sorrisos pedindo um favor já não resultavam — sinais de hipocrisia, nada mais.

 

Chovia ligeiramente, naquele final de Março. Uma morrinha tão suave que era quase nevoeiro. O pisca do BMW preto lembrava uma sequência de fósforos apagados pela chuva logo após o clarão inicial. O BMW permaneceu ao lado e ligeiramente à frente do carro dele até a fila avançar e depois começou também a mover-se — mas ele foi mais rápido e não permitiu a criação de espaço suficiente. O homem no BMW percebeu que não valia a pena insistir — na estrada, certos sinais são inconfundíveis, mesmo sem contacto visual ou troca de palavras — e avançou alguns metros para tentar a sorte junto do condutor do veículo seguinte — um homem gordo, que momentos antes atirara uma ponta de cigarro pela janela da carrinha de caixa aberta que conduzia. Quando a fila avançou novamente, o homem da carrinha de caixa aberta esperou até o BMW se colocar à sua frente — e depois já não avançou, por falta de espaço.

Com frequência, apitava um protesto. Naquela manhã nem o fez. Mas, quando os veículos à frente dele avançaram, começando a descrever a longa curva à direita de acesso à via rápida, o olhar dele pousou na parte lateral esquerda do BMW – a única que conseguia ver. Pensou como seria agradável arrastar o condutor para fora do carro, atirá-lo ao asfalto, pontapeá-lo um par de vezes. Fixou os olhos no pneu traseiro direito do BMW e, de dentes cerrados, apertando o volante, pensou como seria adequado que ele explodisse naquele preciso instante, forçando o filho da puta a parar, sair do carro, molhar-se, perder a vez na fila, sujar as mãos.

Lembrar-se-ia de um estrondo surpreendentemente abafado — distorção da memória ou talvez efeito da chuva. Porém, encontrando-se a olhar para o pneu, teria dispensado o som. A traseira do BMW estremeceu e depois decaiu um pouco, como se alguém tivesse baixado um macaco pneumático. A parte inferior do pneu, dobrada e presa sob a jante, parecia ter sofrido um processo de fusão. Mas até mesmo a zona que não estava em contacto com o asfalto suscitava estranheza: a flacidez, o ligeiro afastamento entre o rebordo e a jante realçavam a incongruência decorrente da perda súbita de função (um objecto artificial que perde a função perde o sentido) e faziam do pneu rebentado não tanto um objecto real e prosaico mas algo mais imaterial – um conceito, uma experiência, um castigo.

Primeiro sentiu surpresa e choque, depois satisfação. Era perfeito. Exactamente o que desejara. Tão exactamente o que desejara, de facto, tão no preciso instante em que o desejara, que classificar o acontecimento como coincidência parecia forçado. Mas ele tivera fantasias similares antes e nada acontecera. Era uma coincidência. Uma fantástica e justa coincidência.

Quando passou pelo BMW, a visão do homem a olhar para os restos do pneu fê-lo sorrir e respirar fundo. Foi invadido por uma sensação de calma. Era uma sensação que não experimentava com frequência durante aquelas manhãs. Era uma sensação que — estava certo disso — se dissiparia rapidamente. Mas era uma excelente sensação.

 

(Continua amanhã...)

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Terapia

por Francisca Prieto, em 15.02.16

Apesar de não costumar assistir a ficção portuguesa, comecei a ver na diagonal a Terapia, na RTP1, por ser amiga de uma das actrizes. Três episódios mais tarde, ainda nem se vislumbrava no ecrã um cabelo da tal amiga, e já estava rendida à série. Ao invés do registo noveleiro a que a televisão portuguesa nos tem habituado, em Terapia assistimos a um registo muito próximo do universo cinematográfico. Com a particularidade de ser um formato que exige excelência do trabalho dos actores, porque é disso que se trata: de dissecar a alma humana até ao seu fio mais descarnado. E ninguém aguentaria assistir a minutos sem fim de texto, em grande plano, se este não fosse muito bem interpretado.

No primeiro episódio, a Soraia Chaves aguenta-se bem, mas num papel ingrato: o de mulher destrambelhada que se faz valer pela sedução (já a tínhamos visto fazer isto, e bem, pelo que não nos caem os queixos).

É no segundo episódio que nos rendemos com um Alex interpretado pelo Nuno Lopes, que nos diverte, ao mesmo tempo que nos esmurra o estômago. E ao longo de todas as terças feiras, a personagem vai ganhando cada vez mais corpo, ao ponto de a dissociarmos do actor. Tão bom, mas tão bom, que é imperdível.

Depois, quando liguei a televisão na primeira quarta feira da série, dei com uma adolescente chamada Catarina Rebelo que me fez entregar os pontos. O raio da miúda é tão bem malcriada que estamos sempre à espera de ver quando é que o Virgílio Castelo perde a paciência.

A minha amiga aparece mais à frente, como mulher do Virgílio Castelo, o psiquiatra de serviço. Primeiro de mansinho, em cenas curtas, mas depois, às sextas feiras, com mais protagonismo, durante as sessões de terapia de casal com a Ana Zannati (impecavelmente igual a si própria, num desempenho tranquilíssimo).

Ora eu estava habituada a ver esta minha amiga noutro tipo de registo. Concretamente no de Manoel de Oliveira, onde fazia de senhora do Douro, ou descia dos céus feita ninfa no meio da guerra colonial, ou então era uma freira, ou até uma rapariga pobre do Raul Brandão, a falar francês pelo filme fora. Sempre tudo muito devagarinho e com olhares enigmáticos.

Sempre bem, sempre em obras de eleição, mas num universo etéreo, como se fosse fora do mundo.

Era-me muito difícil avaliar o seu trabalho de actriz porque ficava invariavelmente desconcertada. Tinha sempre a sensação de que aquela senhora era uma espécie de sósia da minha amiga a quem digo montes de disparates sem qualquer cerimónia, e isto, de alguma maneira, não fazia sentido.
Na sexta feira passada quando a vi, na Terapia, fiquei banzada. Provavelmente porque a personagem se move num universo que me é mais próximo, pela primeira vez consegui olhar para a Leonor actriz sem que fosse através de uma cortina de organza. Deparei-me com uma força extraordinária, que se movimenta pelo texto fora (e que difícil que era o raio do texto e que violenta era a tensão do momento cénico) e que derruba tudo, com uma fluidez irrepreensível e uma linguagem corporal de se lhe tirar o chapéu.

Parabéns à direcção de actores, parabéns aos actores e, se me permitem, uma grande salva de palmas à minha amiga de quem tanto me orgulho.

 

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Trecho Para Um Livro Que Nunca Vou Escrever

por Francisca Prieto, em 02.02.16

Nos dias em que me faltas, ponho-me a parlapatar contigo na beirada da cozinha, como se estivesses aqui. Não te deixo descansar de tanto te querer dizer coisas. E tu a dizeres-me estou no Panamá, mulher, deixa-me estar sossegado. E eu na cegarrega, que gosto de ti, que queria era que estivesses aqui comigo, não era no Panamá, que é um país lá do outro lado do mundo, onde eu não chego, onde não te consigo tapar com um cobertor e dizer-te segredos ao ouvido.

Para o Panamá tenho de te berrar segredos que toda a gente fica a saber, que deixam de ser segredos de tanto serem gritados.

O Panamá é um país com nome de chapéu pindérico. Preferia que tivesses ido para o Peru, que sempre é um país com nome de almoço de Natal.

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Corte de cabelo e um voto nulo (mas útil)

por José António Abreu, em 23.01.16

Certa vez um cliente chamou-lhe «salão» e tanto Mário como Octávio pararam de cortar e olharam um para o outro com ar aparvalhado. «Isto é uma barbearia», resmungou Mário enquanto recomeçava a dar aos dedos. 

Trata-se de um espaço rectangular com cerca de cinco metros de comprimento por menos de três de largura. Quem entra pela porta dupla de metal e vidro, colocada numa das paredes mais curtas, depara-se com duas cadeiras de barbeiro voltadas para a esquerda, na direcção de um espelho que ocupa quase toda a área de parede acima de aproximadamente meio metro de altura. Ao lado da porta existe um bengaleiro e, ao lado deste, uma mesinha onde um rádio portátil sintonizado para a estação local debita canções pedidas por ouvintes que as dedicam a familiares e amigos. O espaço por trás das cadeiras de barbeiro é limitado, pelo que, das seis cadeiras de metal com assento e encosto forrados a napa verde-azeitona que aí se encontram, apenas as duas das pontas podem ser usadas sem que as pernas dos ocupantes compliquem a vida a Mário ou Octávio nas suas deambulações em torno dos clientes. Ao fundo, junto à porta de acesso a uma área reservada (onde presumo existir uma casa de banho), há um lavatório no qual é lavada a cabeça dos raros clientes que o desejam.

Mário é baixo, magro e usa bigode à treinador de futebol dos anos 70. Octávio é alto, tem cabelo branco em ondas que flutuam em torno da sua cabeça e uma dezena de quilos a mais. Mário é o patrão e essa circunstância está sempre implícita. Fala mais e de forma mais categórica. Octávio é o filósofo, embora um filósofo de tiradas curtas e frequentemente irónicas. Eu prefiro que seja ele a cortar-me o cabelo e ambos o sabem. Se é Mário que está disponível quando chega a minha vez, ele resmunga para o cliente seguinte: «Pode vir», o que deixa o homem indeciso, olhando dele para mim, tentando perceber se sou eu que não quero ser atendido por Mário, se é este que recusa atender-me. E, em qualquer dos casos, porquê. Contudo, apanhados de surpresa, ninguém tem coragem para expressar a dúvida em voz alta.

Apesar de lá cortar o cabelo há mais de trinta anos, sempre de dois em dois meses, sempre ao sábado de manhã, e de nunca ter mudado o estilo de corte, Octávio faz questão de perguntar: «Então como vai ser hoje?» Às vezes brinco com a ideia de lhe dizer para estar à vontade e cortar como lhe apetecer mas refreio-mo: por um lado, sou conservador, pelo menos no que respeita ao meu aspecto; por outro, julgo que os únicos estilos alternativos que Octávio e Mário conhecem são os permitidos pelos pentes das máquinas de corte.

A barbearia fica no largo municipal, vendo-se o edifício da Câmara quase em frente. No passeio estão sempre a passar pessoas. Quando no interior falta assunto de conversa, Mário (nunca Octávio) usa-as para evitar silêncios demasiado prolongados, de acordo com critérios que nunca percebi mas presumo estarem ligados ao seu estado de espírito (por vezes suporta longos períodos sem necessidade de falar, de outras parece incapaz de estar calado mais do que alguns segundos).

Hoje Mário apara os poucos cabelos existentes na cabeça de um idoso cujas feições me recordam alguém – seria funcionário na escola secundária nos tempos em que a frequentei? – enquanto Octávio me faz o corte do costume. À espera, encontra-se apenas mais um cliente, um homem franzino, com barba que parece não ser cortada há uma semana e cabelo que parece não ser lavado há três. Mário esteve a protestar contra o dinheiro injectado nos bancos, «que ainda por cima cobram cada vez mais comissões». Mas o filão esgotou-se e nos últimos trinta segundos só se ouviu Tony Carreira e o som das tesouras.

«O Antunes passa mais tempo na rua do que talho», diz Mário.

«Deve ir aos correios», diz Octávio. «Agora que deixou de receber cartas em casa.»

Octávio está entre mim e a porta e, de qualquer modo, está a dar os últimos retoques no corte do meu cabelo, pelo que não posso rodar a cabeça para ver quem passa na rua.

«O Magalhães continua a lá ir.»

«Acho que não foi, durante uns tempos.»

«Foi. Às escondidas, noutro horário.»

«Ah. Ele vai estar nas mesas de voto, desta vez?»

«Não sei. Deve estar.»

«E se acontece outra vez?»

«Pois, só a hipótese devia fazê-lo ficar em casa. Mas deve estar. Olha quem.»

Octávio pergunta-me se já chega. Digo-lhe que sim. Ele desaperta o pano branco que evita que o cabelo cortado entre para dentro da minha roupa (desconfio que os fazem a partir de lençóis velhos). Saio da cadeira.

«O que aconteceu?, pergunto.

«Não sabe?»

Digo-lhe que não faço ideia enquanto retiro uma nota de dez euros da carteira.

Naquele espaço é Mário quem conta as histórias mas, não gostando particularmente de mim, hesita. Depois decide-se.

«Toda a gente de cá conhece a história», resmunga. «Não se falou de outra coisa.» Ignoro o remoque. Ele mordisca o bigode e continua: «O Antunes está sempre numa mesa de voto. Nas últimas eleições estavam a contar os votos, tudo a correr como de costume, quando apareceu um em que alguém tinha escrito em letras grandes: 'A mulher do Antunes do talho anda metida com o carteiro'.»

Fica à espera da minha reacção. Rio-me. Por causa da história e da formulação da mensagem anónima: só numa terra destas alguém escreveria “anda metida”. Mantenha-se a decência, mesmo quando o tema são indecências.

O cliente seguinte intervém subitamente, enquanto se levanta da cadeira: «Ele chegou a ir a casa do Magalhães pedir satisfações mas não o encontrou e ainda foi insultado pela mulher. Pela mulher do Magalhães.»

«Isso é só gente a falar», diz Octávio. Estende-me quatro euros de troco, na mão aberta.

«Não», garante o homem. «A minha cunhada assistiu.»

Deixo dois euros na palma da mão de Octávio. Pergunto: «E era verdade, o que o escreveram no boletim?»

Mário funga. «Se fosse só com o carteiro…»

«Se calhar até foi ciúme», diz Octávio.

«Ele não reconheceu a letra?»

«Estava em maiúsculas», responde Mário.

«E ainda bem que não conheceu», diz Octávio. «O voto é secreto.»

Claramente, o tema já originou muitas piadas.

Mário sorri, demonstrando alegria genuína pela primeira vez. «A denúncia quase nem foi o pior. O Antunes é do PS. Sofre mais pelo PS do que pelo Benfica. E, como o boletim tinha a cruz no PS, queria que fosse válido.»

Octávio abana a cabeça, em sinal de respeito. «Pôr lá a cruz foi de mestre. Quem fez a coisa dava-se a requintes de malvadez.» Indica ao cliente seguinte que suba para a cadeira.

Despeço-me e saio. O céu está carregado mas não chove. Vou caminhando pelo passeio, em direcção a um dos cantos da praça. Ao passar junto ao talho, espreito lá para dentro. Não vejo o tal Antunes. Apenas uma mulher baixa e gorducha, com mais de cinquenta anos. Deve ser uma funcionária. 

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Conto de Ano Novo

por José António Abreu, em 31.12.15

As dores começaram a sério na manhã do dia 31 de Dezembro. Para Susana, não constituíram uma surpresa. Há meses que as esperava a qualquer instante. Sentira-as até muitas vezes, em parte reais, em parte por antecipação. Fez uma tentativa débil para se convencer de que ainda não seria agora, de que não passava de um falso alarme, mas desistiu de imediato. Para quê fingir optimismo nesta fase?

Vítor estava a trabalhar. Pensou telefonar-lhe mas desistiu também dessa ideia. Fá-lo-ia mais tarde. Ou não. Os esforços que ele fazia para lidar com a situação deviam agradar-lhe (sabia-o perfeitamente) mas, em vez disso, irritavam-na.

Deitou-se no sofá da sala e recordou os dias do diagnóstico. A preocupação do médico, cuja confiança profissional se esvaiu ao perceber o grau do pessimismo dela. «Precisa de ânimo. Uma visão positiva é essencial.» As garantias de Vítor de que tudo correria bem: «Não há verdadeiras razões para ficares assim. As taxas de sobrevivência são altíssimas, hoje em dia.» (Evitava sempre dizer «taxas de mortalidade», em mais uma demonstração de tacto que a irritava profundamente.)

Ela sabia que era verdade. Mas também conhecia os factores de risco, que, honra lhe fosse feita, o médico nunca suavizara. E, acima de tudo, conhecia a história da sua família. Pesquisara. Por entre um mar de imprecisões e contradições, os familiares mais idosos recordavam pelo menos cinco mortes, todas pelo mesmo motivo. A penúltima, claro, fora a da mãe dela. A última, a de uma tia, irmã da mãe. Era a única de que Susana se lembrava, embora vagamente. Tinha seis anos. Haviam-na poupado ao funeral mas recordava a viagem até à Guarda, onde a tia residia com o marido. No final da década de 1970, as viagens ainda eram difíceis e, talvez por isso, memoráveis.

 

As dores não desapareceram. Pelo contrário, foram aumentando ao longo da manhã, como ela sabia que aconteceria. Almoçou uma maçã, voltou para o sofá. Perto do final da tarde, desistiu. Ligou para o telemóvel de Vítor. O som de chamada prolongou-se tanto que ela desligou num espasmo. Deu um par de minutos e ligou o número do médico. Dia 31 de Dezembro à tarde. Seria possível apanhá-lo? Foi. Atendeu, disse-lhe que seguiria de imediato para o hospital, profissional até na forma como escondeu a mais do que natural desilusão pela noite de passagem de ano estragada. Perguntou-lhe se tinha quem a levasse. Susana hesitou e depois respondeu que sim. «OK, encontramo-nos lá. Anime-se. Vai correr tudo bem.»

Ela sabia que as pessoas estranhavam. Que, no íntimo, a consideravam egoísta. Não era suposto reagir daquele modo. Tornava tudo mais difícil para toda a gente. Devia facilitar-lhes a vida, aceitando o desafio com estoicismo; não, com mais do que isso (estoicismo tinha ela): com ânimo, talvez mesmo entusiasmo. Era incapaz de o fazer. Percebia a inutilidade do seu comportamento, a injustiça que cometia e pela qual, se tudo acabasse mesmo por correr bem, teria de se penitenciar, mas as coisas eram como eram.

À segunda tentativa, Vítor atendeu. O tom de pânico na voz dele devia tê-la enternecido. Não o fez. Ele prometeu estar em casa em menos de um quarto de hora. Susana disse-lhe para não exagerar no trânsito. Só faltava ter um acidente. Depois de desligar, lembrou-se do comportamento dele nos primeiros tempos. De como parecia sentir mais medo do medo dela do que do risco que ela corria. Susana acabara por lhe garantir: «Sossega. Não vou fazer nada de irreflectido. Não condiz comigo.» Mas nem por isso ele ficou mais tranquilo.

Sabia que correra riscos. Perguntou-se várias vezes porquê. Um desafio à sorte? Mas então por que não conseguira assumi-lo até ao fim? Porquê o negativismo, a sensação de que o trajecto era inexorável e ela (como na viagem para a Guarda, há cerca de trinta e cinco anos) uma simples passageira?

As dores regressaram, tão fortes que a atiraram ao chão. Ao longo dos últimos meses, a sogra, especialista numa mistura de encorajamento e crítica, dissera-lhe várias vezes para rezar. Susana nem sequer sabia uma oração.

 

A filha tinha testa ampla como o pai mas os olhos eram os dela. E o nariz. Susana perguntou-se que efeitos negativos teria programado o seu pessimismo naquele corpo minúsculo. Desconhecia se, há quarenta e um anos, a mãe a chegara a ver e não conseguia decidir qual a melhor hipótese: morrer depois de verificar a sobrevivência de uma filha ou antes de confirmar a existência de um ente que se abandona no mundo. Mas Susana sobreviveria. Pelo menos isso.

O médico entrou no quarto. Já vestia roupa normal, tinha um ar cansado.

«Deu luta, hã? Mas está de parabéns. Tem uma bela rapariga. E sortuda, ainda por cima. Vai começar já a ter presentes. Foi o primeiro parto do ano aqui no hospital e provavelmente em todo o país.»

Mas logo a seguir explicou-lhe que, agora, talvez fosse mesmo preferível evitar nova gravidez. «Não estou a dizer taxativamente que não possa. Digamos que é algo a avaliar com cuidado, dependendo da evolução da situação, OK?» Tocou-lhe no braço, desejou-lhe um bom ano e saiu.

Vítor começou a falar. Dizia o que devia dizer (tudo correria bem; era cedo para ter certezas; ainda que não pudessem ter outros filhos, isso não constituiria uma tragédia) mas ela não sentia vontade de o ouvir. Olhou para a filha, que ainda nem tinha nome. Alegria e renovação do medo, pensou. Talvez a única forma adequada de entrar num ano novo.

 

(Também aqui.)

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Trecho para um livro que nunca vou escrever

por Francisca Prieto, em 07.11.15

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Decidi que só te espero um par de horas por dia. Se olhares com atenção para o lado esquerdo da imagem, facilmente darás comigo a ler um livro para fazer passar um tempo que teima em fazer-se prolongar.

Só te posso esperar um par de horas por dia, que se ali ficasse toda a jornada, os dias teriam de ter mais de vinte e quatro horas, de tanto que os minutos custam a passar. Parece que esticam, como um cordel enrodilhado dos que cabem na palma da mão e que, depois de desemaranhado, chega para lá dos vinte metros.

Espero-te duas horas por dia e depois vou à minha vida. Se não vieres hoje, amanhã certamente chegarás. Connosco não há desencontros definitivos. Pode haver atrasos, trocas de estações, uma perda num apeadeiro. Mas por mais voltas que dermos, havemos sempre de nos reencontrar.

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Trecho para um livro que nunca vou escrever

por Francisca Prieto, em 01.11.15

Enfiámo-nos no carro a uma hora fora das convenções dos meridianos longitudinais. Encontrámos uma falha no fuso horário que nos deixou uma infinitude de tempo para viajar sem que alguém pudesse dar pela nossa falta. Bastava seguir tantas horas para a frente quantas para trás, não havia que enganar.

Sorriste quando apareci com uma almofada. Expliquei-te que numa longa viagem de carro não é preciso mais nada. Basta uma almofada.

Ofereceste-te para guiar durante os primeiros quilómetros. Eu aceitei e enrosquei-me no banco do passageiro, em jeito de adormecer.

Foi assim que, de olhos fechados e emudecida pelo embalo da estrada, mantive contigo um diálogo silencioso onde tu conversaste pelos meus sonhos e eu te respondi pelos teus pensamentos.

Depois, já repousada e com a alma tranquilizada pela poesia da quietude, assegurei a rota do volante.

Cem, duzentos, trezentos quilómetros, duas horas, cem horas, mil horas. 

Perguntei-te se era altura de voltar para trás. Disseste que não. Que aquela era uma viagem sem ponto de retorno. Que era para seguir em frente sem nunca ninguém dar por nada.

Depois pediste-me a almofada emprestada. 

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Tia

por José António Abreu, em 04.07.15

«Só tu é que me vens visitar.»

Há seis camas na enfermaria. Desde a primeira visita de Jorge, há cerca de dois meses, o número das ocupadas variou. Hoje são quatro. A tia encontra-se na primeira à esquerda da porta de entrada. Ao lado tem uma senhora com mais de setenta anos, rodeada pela filha e por duas netas. A terceira cama encontra-se vazia. Na outra fila de três, a vazia é a do meio. Já lá teve uma rapariga, vinte e cinco anos, talvez nem tanto. Morreu há uma semana. Nas outras encontram-se duas senhoras de idade. Apenas uma tem companhia – do marido, pelo aspecto.

Jorge tem dificuldade em perceber as palavras da tia. A voz dela é fraca e arquejante. Não admira. Basta ver como está magra e fraca. De tal forma que lhe custa a acreditar que se trata mesmo da sua tia Helena, irmã mais nova da mãe dele. O elemento da família que, em criança, ele preferia. Simpática e sempre disponível mas cuidadosa para não o sufocar com beijos e abraços, como faziam outras mulheres da família. Uma vez (lembra-se sempre daquilo, quando pensa nela), estando Jorge doente (já não recorda qual a doença), passou horas na cama ao lado dele, jogando às cartas e às damas (a cama é um péssimo sítio para jogar damas: a maioria das partidas terminara com peças deslizando pelo tabuleiro e perdendo-se nos lençóis, por entre risos e acusações de batota). A tia era muito mais nova, então (teria pouco mais de vinte anos) e bastante mais atraente. Ainda se pode detectar parte dessa beleza na cara dela, hoje emagrecida pela doença. Desapareceu, contudo, toda a vivacidade que possuía, bem como toda a inconsequência que advém da juventude, de raramente se sentir dor física, do conceito de morte ser tão estranho e distante como a composição da atmosfera de outro planeta (em miúdo, os planetas e as estrelas eram um dos temas favoritos de Jorge). Hoje, a expressão da tia mostra não apenas desespero – expectável – mas um grau de surpresa que deixa Jorge perturbado e lhe torna difícil encará-la.

Sabe que ela fala verdade e que só ele a visita regularmente. Isso sucede porque outros elementos da família já morreram (a mãe dele, por exemplo), porque alguns emigraram (o enteado que ela criou desde muito novo), porque, encontrando-se no país, estão suficientemente longe para que a distância possa servir como desculpa (o ex-marido, o irmão, vários sobrinhos).

«Não precisas de vir tantas vezes. Tens a tua vida.»

«Não me custa nada. Faço-o com prazer.»

Prazer? Jorge fica envergonhado assim que a palavra lhe sai dos lábios.

Como sempre, tem dificuldade em manter a conversa. Esgotadas as frases ocas e, em alguns casos, falsas («Como se sente hoje?»; «Está com melhor aspecto.»; «Não tarda nada sai daqui.»), é-lhe complicado pensar em temas sobre os quais possam conversar. O passado, evidentemente, constitui a excepção. A tia parece apreciar relembrá-lo (até mesmo aquelas épocas nas quais Jorge mal a via e que – pensa ele – não devem ter sido particularmente felizes) mas ele fica desconfortável. Parece-lhe uma solução fácil, cobarde, que implica o reconhecimento de que ela morrerá em breve.

Mas morrerá. É uma questão de semanas, dois meses no máximo. Até já resistiu mais tempo do que os médicos previam no início.

«Cada vez tenho menos razões para permanecer viva.»

Não é a primeira vez que ela diz aquilo. A frase perturba-o. Coloca-lhe sobre os ombros uma responsabilidade à altura da qual teme não se encontrar. Já em várias ocasiões pensou em não vir com tanta frequência. As visitas deixam-no esgotado e, para mais, reside a uma centena de quilómetros, o combustível e as portagens não ficam baratos. Mas como pode fazê-lo? Sabe constituir uma dessas poucas razões – à medida que se torna evidente o desinteresse de outros membros da família, talvez a única. Se estivesse outra pessoa naquela cama, se não soubesse que, de facto, quase mais ninguém a visita, a frase poderia irritá-lo. Fazê-lo sentir-se chantageado. Mas aquela é a tia Lena. A sua tia preferida. Que sempre esteve disponível para ele. Que talvez apenas se mantenha viva para ele. (Valerá a pena? Deverá sentir-se mal por isso?)

Fica com ela até ao fim do horário para visitas. Faz-lhe perguntas sobre as companheiras de enfermaria mas descrever as doenças das outras mulheres e como várias já morreram também é deprimente. Torna claro que daquelas camas apenas se sai para o cemitério. Procura outros assuntos. Inevitavelmente, regressa ao passado.

No final, diz-lhe: «Volto em breve.»

A tia responde que não é preciso mas Jorge sabe que mente. Quando lho disse, perpassou-lhe pelos olhos um indício da antiga vitalidade. Um sinal de prazer.

«Faço-o porque quero.»

Inclina-se e beija-a. As faces encovadas perturbam-no. Difusamente, pensa que já devia estar habituado.

Olha para trás à saída e diz-lhe adeus. Segue pelos corredores e desce as escadas tentando não olhar para os outros visitantes. Não se quer rever neles. Na rua, inspira fundo. Mas o ar está quente e cheira a asfalto e gases de escape.

Estacionara o carro fora do perímetro do hospital. O horário das visitas terminou mas os passeios ainda estão atravancados com veículos. Passa entre uma carrinha branca e um furgão e começa a atravessar a rua. Apercebe-se de uma comoção difícil de definir, depois ouve um ruído de travagem e logo a seguir o automóvel atinge-o do lado esquerdo. Voa meia dúzia de metros. Ao cair, bate com a cabeça no asfalto. Sente o sabor do sangue. Antes da escuridão o envolver, pensa que a tia acabou de morrer.

 

(Também aqui.)

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A Contadora de Fotografias

por Francisca Prieto, em 03.07.15

Cinco manhãs por semana, a contadora de fotografias abria uma das doze gavetas do móvel de alumínio e começava o dia a contar. Um, dois, três, quatro. Só depois de seleccionar o quarteto de imagens comprimidas no arquivo de tiras é que se fechava na câmara escura. 

Quando estava bem-disposta, a escolha seguia um critério. Havia dias em que lhe dava vontade de contar fotografias de gente pequena, outras vezes gostava de contar lugares, ou dias cinzentos, ou gestos de ternura. Quando estava demasiado cansada, tão cansada que as palavras lhe faltavam, a escolha era feita ao acaso e deixava que as imagens se contassem a elas próprias.

Tinha herdado o espólio do pai, o tirador de fotografias, um homem com um olho tão grande que conseguia captar microsegundos de realidade e eternizá-los num quadrado a negativo onde as pessoas viviam do avesso a pairar em formas pouco distintas.

A contadora de fotografias era dona das palavras, mas nunca tinha encontrado o termo certo para contar o amor que sentia pelo pai. Procurou adjectivos, advérbios e predicados no léxico de todas as línguas do mundo. Comprou dicionários, gramáticas e prontuários, leu-os de fio a pavio, da frente para trás e de trás para a frente, às vezes abrindo uma página ao acaso, na esperança de lhe ter escapado uma sílaba escondida, um prefixo ou sufixo que a salvasse de tal inquietude. “Há palavras que nos faltam”, concluiu ao fechar o último tomo, “há palavras que têm de ser inventadas”.

Foi nesse dia que soube que, para chegar à palavra que lhe faltava, tinha de começar a contar cada uma das fotografias do pai.

Um, dois, três, quatro negativos a submergir em tinas.

Quando era pequena, o tirador de fotografias tinha-lhe ensinado que o negativo é o pão que vai ser barrado na manteiga. “Assim, estás a ver?” – dizia ele enquanto mergulhava o negativo em nitrato de prata – “ Se não o preparares com cuidado, não vai aderir em doses uniformes ao papel e ficas com uma imagem enjoativa”.

Ela subia para o banquinho e tentava dar conta da receita. Ao princípio tinha medo de o desapontar e enervava-se de tal maneira que as imagens apareciam demasiado densas no papel. “ Vês? Isso é uma imagem que até faz mal ao fígado”, dizia-lhe o pai, “tenta outra vez”.

Depois aprendeu a controlar o batimento cardíaco e ganhou a precisão de um relógio de quartzo. O segredo era simples, bastava acompanhar o processo com uma ladainha que variava em função do cenário que estava a revelar: “árvore-menino-cão-ladrão”, “avó-sorvete-degrau-neto”, “rio-frio-inverno-casaco”. Era a lengalenga que lhe dava o timing certo.

Cinco manhãs por semana, a contadora de fotografias escolhia quatro imagens e ampliava-as até cobrirem uma parede. Duas em cima, duas em baixo, mesmo a raiar o rodapé. Depois, sentava-se defronte da parede e contava o que se passava em cada um dos cenários eternizados pelo tirador de fotografias.

“...aqui o tirador de fotografias pediu ao menino que sorrisse. O menino fez uma birra que gritava pela roupa toda. A mãe, envergonhada, prometeu-lhe um chocolate na mercearia do senhor Arlindo, o velhote que tinha uma mulher que sofria de varizes...”

“...neste dia fazia um frio dos diabos e as pessoas andavam na rua com casacos de papa alentejana. Bem, não eram de papa alentejana, mas antes fossem, que o frio que caía do céu chegava para humedecer paredes grossas...”

“..este pato era parvo, ou então tinha muita personalidade. Pois se estão todos a nadar para o pão que a menina atirou, ele também devia estar. Olha, se calhar não tinha fome...”

“...devia ser março ou abril. Só no início da primavera é que as pessoas vão à praia com sapatos fechados. No outono ainda levam o embalo do verão e as sandálias nos pés...”

Depois, a contadora de fotografias retirava a fita-cola a cada uma das imagens, sorria ao lembrar-se de que o pai dizia “fita-gomada”, escrevinhava no verso pequenas notas da sua história, guardava-as numa grande caixa e saía para trabalhar.

Um dia, já não havia no arquivo mais tiras de negativos com imagens para contar. A contadora de fotografias já as tinha contado todas e ainda não tinha dado com a palavra para descrever as saudades que sentia do pai. Abriu cada uma das doze gavetas do móvel de alumínio. Vazias, as doze. Depois, desmontou-as uma a uma e, lá no fundo do armário, deu com uma tira de negativos perdida. Quatro imagens dela menina, num canto da câmara escura, a contar fotografias.

Foi quando percebeu que o tirador de fotografias, por não ter jeito para as palavras, tinha preferido fotografar o amor.

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Trecho para um livro que nunca vou escrever

por Francisca Prieto, em 01.07.15

Adormeceste a meio do filme iraniano que tinha uns miúdos que queriam formar uma banda. Hesitei em acordar-te e acabei por te tapar com uma manta aos quadrados. Tinhas os pés frios mas cabias na longitude do sofá.

Perdeste uma boa parte do filme. Não estavas em estado de decifrar uma língua ininteligível. A história fica lá, para a veres noutro dia, para saberes como acaba.

Deixei-te com um beijo na testa a acompanhar um afago no cabelo, que estás a precisar de cortar. Sei que mesmo a dormir pressentes os meus gestos de ternura.

Amanhã, se estiveres assim cansado, faço-te um chá. Para adormeceres antes de o filme começar.

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Trecho para um livro que nunca vou escrever

por Francisca Prieto, em 28.06.15

Se me tivessem deixado escrever a história da minha vida, as coisas teriam tomado outro rumo. Havia de ter arranjado maneira de me escapar à sucessão de acontecimentos desgovernados que deixaram mortos, feridos, perdas e estilhaços.

Controlo de danos, é o que tenho andado a fazer nos últimos anos, a viver numa não felicidade, na passividade de me deixar perdurar neste limbo de esforço, encurralada entre dois imanes de pólos opostos. Eu, uma figura parada com a vida a atropelar-me para a esquerda e para a direita, a cair no desnorteio do turista continental que atravessa uma rua de Londres.

Se tivesse sido eu a escrever a história da minha vida, contava-a em fotogramas, como fazem os realizadores de Hollywood, que arranjam maneira de meter pessoas a apaixonarem-se em Nova Iorque.

Nova Iorque no Outono é um sofá de dois lugares com uma manta de xadrez.

Eu, da primeira vez que me apaixonei, foi no largo do Calhariz e era Inverno. Caía uma chuva molha-parvos que me molhava. Um senhor de fato escuro, na paragem do autocarro, ofereceu-me o guarda chuva. Tinha olhos claros e, provavelmente, pena de mim.

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Trecho para um livro que nunca vou escrever

por Francisca Prieto, em 05.06.15

 

F  G  T  D  A

 

- - - - - - - - - - - - -

 

Trrrrrrrrrrrrrrrr

 

J  T  P  E  R

 

Tlim

 

(linha abaixo)

 

Ontem escrevia-te de saudades. Deixei correr os dedos ao acaso, como se os caracteres aleatórios do significando pudessem produzir a alquimia do significado.

Escrevo agora  S  A  U  D  A  D  E  S

A léguas de ti.

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Trecho para um livro que nunca vou escrever

por Francisca Prieto, em 01.06.15

 

Girl travelling.jpg

 

Ontem dei com estas duas telas inacabadas, ou melhor, com esta tela em versão díptico. Coisas das minhas artes plásticas caseiras que tinha feito, há já uma data de tempo, para ti. Faltava aperfeiçoar uns quantos pormenores que tinham ficado toscos na experiência original.

Um dia conserto os borrões, volto a fotografá-las, e ofereço-te.

Ou se calhar, não. Se calhar somos mesmo assim, um par inacabado com meia dúzia de borrões que nos tornam imperfeitos e, por isso, irremediavelmente humanos.

 Eu gostava de ser a miúda das pernas esguias da tela da esquerda, e embarcar no comboio da direita rumo à Patagónia. E tu, o que gostavas de ser?

 

Velho o comboio e desgastados os carris. Deve ser assim na Patagónia. Nunca lá fui senão pela prosa de Chatwin e de Sepúlveda.

Imagino uma jornada longa, com muitas paragens inexplicáveis em lugares onde faz frio.

(nós os dois encostados ombro a ombro e tu a tapares-me as pernas com uma camisola de pêlo grosso)

Não se viaja pelo mundo de calções. Não se abraçam continentes com blusas de manga curta. Para correr mundo exige-se um casaco, ou duas embalagens de Tylenol.

(atchim. pingo no nariz. beijo a 37 graus centígrados)

Vê-se logo que a rapariga da tela foi recortada de uma Vogue. As miúdas da Vogue nunca chegam a lado nenhum por causa dos resfriados. Não se agasalham como deve ser.

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Teologia da distância

por José António Abreu, em 13.05.15

Há um tema proibido em qualquer reunião da minha família: as peregrinações a Fátima. Inevitavelmente, com a insídia que caracteriza a maioria dos seus membros – provavelmente similar à que caracteriza a maioria dos membros da maioria das famílias – alguém acaba sempre por aproveitar um instante mais calmo nas conversas cruzadas para o abordar, desde que a tia Amélia e a tia Natalina estejam na sala. A discussão teológica que se segue tem tanto de novo como as cenas mais conhecidas dos velhos filmes portugueses mas, como elas, permite o conforto de verificar a constância de certos comportamentos e, ocasionalmente, que se atinjam momentos de surpreendente profundeza (se alguém parasse um pouco para reflectir sobre eles, o que está longe de ser o caso).

Irmãs do meu pai, a tia Amélia e tia Natalina aproximam-se dos setenta anos de idade. Nasceram ambas na velha casa de Vila Verde, vendida depois da morte dos pais. A tia Amélia é a mais velha. Casou há perto de cinquenta anos com um vendedor de tractores e alfaias agrícolas e mudou-se para Vinhais, distante de sete quilómetros. O meu pai, cinco anos mais novo, acabou por segui-la mas a tia Natalina foi parar mais longe. No casamento de um tio encontrou um rapaz da Marinha Grande e, após muitos lamentos da mãe (o rapaz era simpático e parecia de boas famílias mas a Marinha Grande ficava tão longe), casou-se com ele e mudou-se para lá. Apesar da distância, as duas irmãs mantiveram contacto, nas primeiras décadas através de cartas frequentes e telefonemas raros (as chamadas ficavam caras), ultimamente recorrendo ao telemóvel e ao Facebook, de que são fãs incondicionais.

A tia Amélia teve dois filhos, que – refere-o com um sorriso de orgulho, como se nada na vida ficasse a cargo da sorte e, por conseguinte, o mérito fosse todo seu – nunca lhe causaram preocupações. Já a tia Natalina deu à luz três crianças. Até hoje, duas tiveram apenas as doenças normais para qualquer pessoa mas à outra – a minha prima Cristina – foi diagnosticado um cancro há cerca de doze anos. Desesperada, a tia Natalina prometeu ir a Fátima se o tratamento resultasse. Cristina sobreviveu e a mãe cumpriu a promessa logo no mês de Maio seguinte.

A polémica começou num dia de Natal em que a tia Natalina descrevia novamente o quão andara preocupada e como, apesar de ter ficado com os músculos doridos e os pés cheios de bolhas, sentira uma paz imensa ao chegar ao santuário. Pouco impressionada, a tia Amélia resmungou: «Até parece que fizeste um grande esforço.»

Foi o bastante para iniciar uma discussão que se prolongou durante um par de horas, destruindo completamente o espírito natalício, a qual ainda hoje tem sequelas que seguem um guião mais ou menos fixo: a tia Amélia diz que ir da Marinha Grande a Fátima – «São o quê? Quarenta quilómetros?» – não é grande feito; a tia Natalina responde que lá sabe ela, que nunca andou mais de quinhentos metros de cada vez; a tia Amélia diz que andou, sim senhora, e por caminhos bem mais irregulares, além do que pode não ter ido a pé a Fátima mas conhece muita gente que já foi e dali mesmo, de Vinhais, que fica a uns quatrocentos, e que como todos sabem há pessoas que vão de Bragança e do Minho inteiro e certamente também do Algarve, e que essas é que são peregrinações difíceis; a tia Natalina replica que cada um vai de onde mora, que não tem culpa de morar relativamente perto do santuário, que há pessoas que ainda moram mais perto e não merecem ser apoucadas daquela forma, e que, no fundo, o que conta é a intenção; a tia Amélia responde que se contasse apenas a intenção não era preciso fazer a viagem, que também é necessário algum sacrifício concreto para a promessa valer alguma coisa e que, acima de tudo, é um descaramento e um pecado uma pessoa andar depois a gabar-se de ter feito um grande esforço quando na verdade não fez. Esta acusação tira a tia Natalina do sério e, se ninguém as parar (nesta fase é difícil) ficam para ali durante horas a discutir a importância da distância no valor da promessa enquanto os maridos continuam a jogar sueca ou dominó, fingindo não ouvir. Os restantes elementos da família primeiro divertem-se, depois tentam pará-las, por fim desinteressam-se e iniciam conversas paralelas.

É isto uma e outra vez. Entretanto, a minha prima Cristina confidenciou-me que a mãe, recusando embora admiti-lo para não dar o braço a torcer perante a irmã, já percorreu a pé os trinta e tal quilómetros até Fátima mais duas vezes. Para que a Deus não restem dúvidas acerca do seu empenho. Prometi a Cristina manter o segredo mas, a cada nova reunião de família, pergunto-me se não seria mais caridoso - mais cristão, até - deixar escapar a verdade.

 

Também aqui.

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Viajante moderno

por José António Abreu, em 13.04.15

Nas deslocações frequentes e muitas vezes prolongadas que fazia a países em quase todos os continentes, nunca levava bagagem. Tinha tudo na nuvem.

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DRH

por José António Abreu, em 14.02.15

Bate à porta duas vezes, com pouca força, e depois entreabre-a.

«Dá licença?»

«Ah, entre, João. Como está?»

«Bem, obrigado.»

Ela não se levanta. A mão que lhe estende é longa e magra e tem um anel com uma pedra azul no dedo médio. João aperta-a com cuidado. O toque é firme e suave, exactamente como esperava que fosse, mas ainda assim deixa-o perturbado. A mão dela está fria. Pensa em retê-la um pouco no interior da sua, para a aquecer, mas ela puxa-a. Ele segue a mancha azul com os olhos.

«Sente-se, João.»

Obedece. A cadeira é dura e baixa. João sabe ser quase dez centímetros mais alto do que ela mas naquele gabinete, sentados ela atrás da secretária e ele à frente, são da mesma altura. Repara no pequeno sinal castanho que ela tem junto ao olho esquerdo – e depois desvia o olhar.

«Anda tudo bem consigo, João?»

O tom de voz é neutro, impessoal, mas ainda assim ele sente um frémito. Hesita. Ela fez a pergunta a olhar para baixo, para os papéis em cima da secretária. Não estará verdadeiramente interessada na resposta, pensa João. Diz: «Dentro do possível.»

«Ainda bem, João.»

«A minha mulher morreu.»

Ela nem sequer ergue os olhos.

«Mas já foi há uns tempos, não foi?»

A reacção dela fá-lo arrepender-se de ter mencionado o assunto. Claro que ela tinha de saber. É directora de pessoal.

«Há oito meses. Quase nove.»

Ela levanta finalmente a cabeça. João repara que tem outro sinal, mais pequeno, do lado direito da testa, quase na têmpora. Não se vê bem porque às vezes o cabelo tapa-o.

«Ainda lhe sente a falta?»

Ele não sabe que resposta dar. Não quer mentir mas dizer que quase já não pensa na mulher, ainda por cima depois de ter puxado o assunto, vai parecer mal.

«Tento não pensar nisso.»

Ela continua a olhá-lo durante mais um instante. Depois diz: «É capaz de ser o melhor» e volta a baixar os olhos para os papéis. João sente desvanecer-se o orgulho de ter conseguido uma resposta inteligente.

João não apenas pensa pouco na falecida mulher como já nem se lembra bem dela. Houve um par de ocasiões em que tentou recordar-se das suas feições e não conseguiu obter uma imagem precisa. Mas recorda-se de muitas outras coisas. Recorda-se, por exemplo, de quando a directora de pessoal chegou à empresa, três anos antes, tinha ele já vinte e seis de casa. Disse-se que vinha de outra empresa do mesmo sector. Que nessa outra empresa liderara um processo de despedimento colectivo e depois fora também mandada embora. Claro que pode não ter passado de um boato. Uma forma de a diminuir e fragilizar logo à partida. João também trabalhara noutra empresa antes – mas há uma eternidade, entre os quinze e os vinte e um. Depois viera para esta. A constatação de que haviam decorrido vinte e nove anos (quase trinta, na verdade) deixa-o confuso e indisposto. Especialmente por isso o lembrar de que está a chegar aos cinquenta anos de idade. E sente-os. Gostaria de não sentir, por vezes tenta convencer-se de que não sente, mas sente.

A directora de pessoal deve ter trabalhado em mais empresas, não apenas na anterior e nesta. Ou então passou muitos anos na anterior. No início, quando ela chegara, João tivera dificuldades em determinar-lhe a idade. Magra, elegante, bem vestida, quase sempre de saltos altos, parecia não ter mais de trinta e cinco. Mas depois observava-se-lhe a cara e ficava-se na dúvida se a maquilhagem não servia para disfarçar os efeitos de um número de anos mais elevado. João perguntara a alguns colegas e fora gozado por isso mas acabara por descobrir: quarenta e um. Isto há três anos. Agora andará pelos quarenta e quatro. João pensa que ela não os parece. E depois, como em inúmeras ocasiões nos três anos anteriores, que é apenas seis anos mais nova do que ele.

Ao chegar à empresa era casada mas entretanto divorciara-se. Tinha um filho, que João vira apenas uma vez, logo no primeiro Natal. Nessa altura a empresa ainda fazia uma festa, com distribuição de presentes às crianças dos trabalhadores. O filho dela andaria agora pelos oito ou nove anos, o que significava que ela o tivera por volta dos trinta e cinco. João sabe que hoje em dia poucas mulheres têm filhos antes dos trinta e cinco. A carreira é mais importante. Ele também tem um filho. E uma filha. Mas ambos já acima dos vinte. Haviam nascido, com menos de dois anos de intervalo, numa época em que tanto João como a mulher andavam pelos vinte e cinco – praticamente a idade que o filho tem agora. Estão fora de casa, ele numa empresa de metalomecânica na Alemanha, ela a acabar o curso de assistente social no Porto. Espera-a o desemprego, é o que todos dizem, mas João tenta não pensar nisso. Desde que ficou sozinho em casa esforça-se por não pensar no futuro. A mulher é que fazia questão de estar sempre antecipar o futuro – constantemente cheio ameaças.

Ela fala de novo: «João, não sei se desconfia da razão por que quis falar consigo.»

No decurso daqueles três anos João vira-a poucas vezes. Apesar de ser directora de recursos humanos, raramente vai à fábrica. Mas ele lembra-se de que houve uma época em que andava abatida. Foi antes e logo depois do divórcio que – João ouviu-o não sabe a quem – coincidiu com a morte da mãe. Um dia, por volta das três e meia da tarde, João ia a sair, depois de concluir o turno, quando a viu dirigir-se para o carro. Parou. Trabalhando em horários desencontrados, nunca tinha oportunidade de falar com ela. Mas agora ali estava, saindo mais cedo por qualquer razão. Começou a caminhar na direcção do carro dela, tentando lá chegar ao mesmo tempo que ela. Estavam ambos a cerca de dez metros quando ela o viu. João notou as olheiras e o ar cansado e ficou sem coragem para meter conversa. Disse «Boa tarde» ao passar por ela e continuou a caminhar. Que se lembre, ela não falou. João só olhou para trás quando ouviu o carro arrancar. Depois foi para casa.

Apercebe-se de que ela disse qualquer coisa que lhe escapou.

«Desculpe, o quê?»

Ela olha-o rapidamente e depois desvia os olhos.

«A empresa não faz isto com agrado, João, mas os tempos estão complicados e é necessário reduzir os custos.»

«Vou ser despedido?»

«Não tome isto como uma questão pessoal, João. A empresa precisa de reduzir o pessoal. Vai ser cortado um turno e vão ser dispensados alguns elementos da área administrativa.»

João consegue agora perceber que o sinal mais pequeno não é bem preto. É escuro mas ligeiramente rosado. Ou talvez fique assim quando ela está nervosa.

«Evidentemente, serão pagas todas as indemnizações devidas. Tenho aqui o valor da sua.»

Mas é difícil ter certeza de que está nervosa. Parece mais cansada do que nervosa. E aborrecida - ou talvez farta. João pensa que não deve ser fácil ter de dar aquelas notícias. Pega no papel que ela lhe estende.

«Porquê eu?»

«Você está no sector onde temos mais excesso de capacidade. E depois não tem família a seu cargo.»

«A minha filha ainda está a estudar. Sou eu que lhe pago os estudos.»

Ela olha para os papéis.

«Deve estar a acabar o curso, não deve? E você vai ter subsídio de desemprego. De qualquer forma, a maioria dos seus colegas tem filhos mais novos.»

É verdade. Não obstante a empresa ter muitos trabalhadores com idade parecida com a dele, raros foram pais antes dos trinta ou trinta e cinco anos. Toda a gente tem filhos mais tarde, hoje em dia.

João não tem vontade de discutir a situação. Olha para o papel. Ela diz: «Não é um valor baixo. Você já cá trabalha há muitos anos.»

Ele não sabe o que dizer. Não lhe apetece discutir. Não com ela, pelo menos. Ficam assim, em silêncio, durante vários segundos que parecem acabar por ser mais desconfortáveis para ela.

«Quer fazer alguma pergunta, João, ou dizer alguma coisa?»

Está a olhar para ele, agora. Mas neste momento é a João que apetece desviar os olhos. Perpassa-lhe pela mente a ideia de que a comunicação dela e o papel que tem na mão são provas do seu falhanço. Em vinte e nove anos de serviço (falhará os trinta por dois meses) não conseguira tornar-se importante para a empresa. Pelo contrário: é dos menos importantes. E é ela quem lhe comunica o facto.

«Não.»

«Não leve isto pessoalmente. Não deixe que o afecte. E, se precisar de falar comigo outra vez, esteja à vontade.»

Estende-lhe a mão. João levanta-se da cadeira e aperta-a. Continua fria.

«Boa sorte, João», diz ela.

«Obrigado.»

João roda e dirige-se para a porta. Pára junto dela e roda outra vez.

«Talvez volte. Vou pensar no assunto e depois talvez volte.»

«Claro, João. Mas marque primeiro, está bem? Se aparecer sem avisar pode estar cá alguém e eu não o poder atender.»

João faz que sim com a cabeça. Abre a porta e sai. Enquanto a fecha, aproveita para a olhar uma última vez. Está de novo a prestar atenção aos papéis.

 

(Também aqui.)

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Conto de Ano Novo

por José António Abreu, em 31.12.14

«Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Feliz Ano Novo!»

Os quatro homens e as duas mulheres deslizaram suavemente uns até junto dos outros e abraçaram-se. Um dos americanos mantinha o olhar no painel de instrumentos.

«OK. Já chega. Estamos de volta a 2014.»

 

«Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Feliz Ano Novo!»

Os dois americanos trocaram um high-five. Os dois russos bateram no ombro um do outro e abraçaram a colega russa. A italiana, mais efusiva, fez questão de abraçar toda a gente.

«OK. Já chega. Estamos de volta a 2014.»

 

«Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Feliz Ano Novo!»

Excepto por uns quantos sorrisos, ninguém se manifestou. Um dos russos perguntou: «Dá tempo para abrir a garrafa?»

O americano que vigiava o painel abanou a cabeça. «Não. Ainda estamos em 2015 mas não vai durar.»

Ficaram todos em silêncio durante algum tempo.

«OK. Estamos de volta a 2014.»

 

«Cinco. Quatro. Três. Oh, que se lixe. Feliz Ano Novo.»

Ninguém se mexeu. Ouviu-se uma voz: «Alfa, tudo bem?»

O americano respondeu: «Tudo normal.» Depois acrescentou: «Da próxima vez abrimos a garrafa.»

Passaram alguns minutos. A italiana disse qualquer coisa sobre uma tradição milanesa. A russa comentou que em Vozdvizhenka os costumes eram mais asiáticos do que europeus. Um dos americanos perguntou: «Isso é mesmo ao lado da Coreia do Norte, não é? Como é que eles celebram a passagem do ano?» A russa não sabia. O outro americano disse: «Vêem The Interview na internet.» Os americanos riram, a italiana também.

Instalou-se o silêncio. Apesar do espaço ser exíguo, os três russos formavam um grupo ligeiramente à parte. Nas últimas semanas, os dois homens, pilotos da força aérea, vinham-se perguntando qual a forma adequada de lidar com os americanos, agora que os problemas na Ucrânia haviam levado não apenas a um arrefecimento nas relações entre os dois países como a uma crise económica na Rússia. A colega, engenheira, tendia a contemporizar. Dizia que a política não era para ali chamada.

«OK. Estamos de volta a 2014.»

 

«Feliz Ano Novo. Acho que podemos abrir a garrafa.»

O outro americano disse: «Mas a passagem ainda não é definitiva.»

Um dos russos disse: «Para a Rússia, é.»

O americano que anunciava as passagens replicou: «Essa é uma posição egoísta. Se era para ser assim, mais valia não nos termos reunido.»

O outro americano resmungou entre dentes: «E ainda faltam cinco meses.»

A italiana tentou contemporizar: «Alora, calma.»

O primeiro americano disse: «Podes falar. Itália também está quase. Aliás, já está.»

A italiana sorriu e levantou os braços, numa celebração irónica. O americano cedeu e deixou escapar um sorriso.

O russo que falara antes disse: «Estamos a demorar demasiado.»

A russa aproveitou: «Pois estamos. Fica para a próxima.»

«дерьмо», resmungou o colega.

O silêncio caiu de novo. A italiana teve a impressão de que passavam horas sem ninguém o voltar a quebrar. Evidentemente, tratava-se apenas de uma sensação.

«OK. Estamos de volta a 2014.»

 

«2015 outra vez.»

O russo mais impaciente pegou na garrafa.

«Cuidado com a rolha. E não deixes sair champanhe. Parece que no ano passado deu merda.»

A italiana sorriu. «Deve ser giro beber champanhe em suspensão no ar.»

«Pois. O problema é quando atinge os instrumentos.»

Tudo correu bem e o champanhe pareceu suavizar o ambiente - de tal modo que, bastante mais tarde, o americano que anunciava as passagens admitiu: «Raios, distraí-me. Estamos outra vez em 2014.»

Ninguém lhe ligou.

 

«2015.»

«Oh, cala-te.»

 

 

A Estação Espacial Internacional tem a bordo seis astronautas: dois russos, uma russa, dois americanos, uma italiana. Demora 92,74 minutos a dar a volta ao planeta, rodando com uma inclinação orbital de 51,65º. Como o movimento rotacional da Terra é bastante mais lento, na noite de passagem de ano a Estação vai ficando cada vez mais tempo em fusos horários que já se encontram no ano que entra, antes de voltar a fusos ainda no ano que sai. Isto se não me enganei na lógica da coisa. Em qualquer dos casos: Feliz Ano Novo, Happy New Year, Felice Anno Nuovo e С Новым годом.

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Conto de Natal

por José António Abreu, em 25.12.14

Era de prever. Levava-a fisgada, claro. Logo que a sentaram ao colo do Pai Natal, na praça do Centro Comercial, olhou para cima, para a imensa barba branca, e franziu ligeiramente os olhos, numa expressão que o pai conhecia bem: usava-a sempre que um plano dava certo. O Pai Natal fez-lhe uma pergunta que ela ignorou. Em vez de responder, estendeu a mão, agarrou-lhe a barba e puxou com força. A barba afastou-se cerca de dez centímetros da cara do Pai Natal. Ela sorriu em triunfo. As crianças que aguardavam vez gritaram. O Pai Natal sobressaltou-se e quase a deixou cair. Isto fez com que ela largasse a barba, a qual, pelo efeito do elástico, embateu com força na cara espantada do Pai Natal. Ele soltou um grito estranhamente agudo e tê-la-ia deixado cair dos joelhos se o pai não a estivesse já a agarrar. Quando a levou dali, ela não parava de dizer: «Não é verdadeira. É falsa. O Pai Natal é falso.»

Soube há pouco da história, durante o almoço de Natal. Fui ter com ela. Sentei-a no sofá a meu lado. «Tenho que contar-te um segredo.» Disse-lhe:

«Foi no ano passado. Estava tudo pronto no Pólo Norte: os presentes embrulhados e metidos no saco; o trenó com patins novos e a revisão dos cinco milhões de quilómetros efectuada; as renas bem alimentadas, bem penteadas e em excelente forma física: tinham andado a ser treinadas durante meses, fazendo provas de força contra ursos polares e voando até mais de um quilómetro de altura por várias vezes; no sistema GPS do trenó (GPS é uma maneira de se encontrarem os sítios, como no carro dos teus pais) tinham sido introduzidas as moradas de todas as crianças cristãs, e de todas as crianças que, mesmo não sendo cristãs, tinham sido muito boazinhas durante o ano, e de todas as crianças que podem vir a ser cristãs no futuro (sabes que o aumento do número de casamentos entre pessoas de religiões diferentes dificultou muito o trabalho de selecção do Pai Natal nos últimos anos) e de todas as crianças que, apesar de se terem portado mal, são familiares dos principais financiadores do Pai Natal, com a rota definida de modo a aproveitar os ventos e a evitar as tempestades. Tudo pronto, apesar das dificuldades encontradas durante o ano anterior.»

«Dificuldades?»

«Sim. Muitas dificuldades. Tudo começou com os problemas de financiamento – quer dizer, era muito difícil arranjar dinheiro para fabricar os brinquedos. As empresas que costumavam dar dinheiro à empresa do Pai Natal tinham cortado nas doações, apesar dos seus chefes terem pedido muitas desculpas. O aumento do preço dos combustíveis tinha levado a uma enorme subida da factura de energia, que é uma das fatias maiores dos custos de operar a partir do Pólo Norte. Tornou-se difícil pedir dinheiro emprestado aos bancos porque os spreads (sabes o que são spreads? Não importa, é uma coisa má que os adultos têm de suportar quando pedem dinheiro emprestado) eram cada vez mais elevados. A situação agravou-se ainda mais quando duas das três agências internacionais de notação (não posso evitar as palavras difíceis, querida, mas vais ver que no fim percebes) baixaram o rating da empresa de fabrico e distribuição de brinquedos do Pai Natal, por considerarem que uma empresa com problemas de localização e que não cobra dinheiro pelos produtos que faz estava especialmente mal preparada para enfrentar tempos de crise. (Já ouviste falar na crise, não já? Óptimo.) Em Março, o Pai Natal foi forçado ao despedimento colectivo de dois terços dos duendes, que ficaram muito zangados porque não há outras empresas no Pólo Norte nem sistemas de segurança social.»

«Então o Pai Natal é mau?»

«Não, as pessoas às vezes têm que fazer coisas que parecem más mas é por um bom motivo. Se ele não fizesse isso todos ficariam no desemprego e os meninos do mundo inteiro não recebiam os presentes de Natal.»

«Ah.»

«Em Abril, o fabrico da maioria dos brinquedos foi transferido para a China e isso trouxe muitas complicações (foi o que os adultos chamam um pesadelo logístico). O sistema de qualidade da empresa do Pai Natal obriga a que nenhum brinquedo para crianças com menos de três anos – tu já tens mais, não já? Já és uma menina crescida –, nenhum brinquedo, dizia eu, pode ter peças que possam ser engolidas e as tintas usadas em todos os brinquedos (mesmo todos) não podem fazer mal à saúde e, se possível, até devem ser gostosas. Assim, de modo a garantir a qualidade da produção, os duendes restantes eram forçados a muitas viagens à China, onde alguns desapareceram, não se sabe se por terem-se apaixonado por meninas orientais, acontecimento muito comum devido – é o que se pensa – a serem da mesma altura, se por terem sido mortos e servidos como pratos afrodisíacos em restaurantes de Pequim.»

«O que é afrodisíacos?»

«É a mesma coisa que ‘muito bom’. São pratos que dão um grande prazer durante muito tempo.»

«Como chocolate?»

«Exactamente. Como chocolate.»

«Ah. Mas então os chineses comem duendes?»

«Não se tem a certeza.»

«São maus?»

«Os chineses?»

«Sim.»

«Não. Quer dizer, mais ou menos. Mas podes estar descansada que eles não comem criancinhas. Isso era mais os russos. Acho eu.»

«Ahn?»

«Nada, esquece. Vou continuar a história, está bem?»

«Está.»

«O desaparecimento de tantos duendes deixou ainda mais trabalho para os restantes. Alguns exigiram subsídios de deslocação, que o Pai Natal foi obrigado a recusar porque as despesas com viagens tinham quadruplicado em relação aos anos anteriores e ele estava a tentar poupar para outra coisa: desde que tivera de dispensar o pessoal doméstico, a Mãe Natal exigia uma série de electrodomésticos para lhe facilitar a vida em casa e ameaçava passar a dormir noutro quarto, que era uma coisa que o Pai Natal não queria porque depois a rena Rodolfo ia querer dormir com o Pai Natal e o Pai Natal sabia que ela ressonava.»

«Como o papá?»

«Er, sim, provavelmente.»

«A mamã também diz que vai dormir para outro quarto.»

«Er, ok. Vamos continuar, está bem?»

«Está.»

«As despesas com viagens tinham então aumentado imenso, até porque não há companhias de aviação low cost (são as que fazem preços mais baratos) a operar no Pólo Norte. O único ponto positivo era que, com as milhas acumuladas, o Pai Natal esperava poder oferecer à Mãe Natal uma viagem de sonho às Maldivas (que são umas ilhas com praias bonitas) depois do Natal. A situação estava neste ponto quando os brinquedos chegaram da China e o Pai Natal teve mais uma péssima surpresa: o papel em que vinham embrulhados tinha a imagem de pequenos Confúcios, que é como se fosse um Deus chinês, em vez de Meninos Jesus. Foi preciso desembrulhar todas as prendas e voltar a embrulhá-las com um papel mais adequado: como já era Novembro e não havia dinheiro, usou-se papel de patrocinadores, lojas como a Toys ‘r’ Us e a Worten ou empresas como a Coca-Cola, que sempre manteve uma excelente relação com o Pai Natal. Para que tudo estivesse pronto a tempo, foi preciso readmitir parte dos duendes despedidos. Fizeram-se contratos com a duração de apenas um mês mas foi preciso pagar-lhes um valor muito elevado, quase o triplo do que eles ganhavam antes.»

«Bem feito.»

«Exacto. Chama-se a isto ‘economia de mercado’. Em meados de Dezembro chegou a última crise: a Mãe Natal, ainda sem os electrodomésticos que desejava, recusou-se a preparar a roupa vermelha e branca do Pai Natal. ‘Não a vou lavar à mão e secar à lareira’, disse. O Pai Natal contactou novamente as tais lojas de patrocinadores mas havia tempestades fortes nos céus da Europa e da América do Norte e era muito difícil fazer os electrodomésticos chegar ao Pólo Norte. Tentou convencer as renas a irem buscá-los mas elas recusaram. Se o tempo estava mau para os aviões, argumentaram, imagine-se o esforço que seria para elas. A menos, claro, que o Pai Natal pagasse a deslocação. Por uma questão de princípio, o Pai Natal recusou. Finalmente conseguiu que, por um preço quase tão elevado quanto o que as renas pediam, lhe enviassem por trenó puxado por cães (que são animais que trabalham por pouco dinheiro, desde que sejam levados a pensar que estão a divertir-se) uma máquina de lavar e outra de secar roupa de uma fábrica da Electrolux, perto de Estocolmo (que é uma cidade da Suécia, não muito longe do Pólo Norte). A Mãe Natal não ficou totalmente satisfeita (queria também uma máquina de lavar louça, um microondas e um ferro de engomar com caldeira) mas acabou por ceder e tratou da roupa do Pai Natal.»

«Ele não podia tratar dela sozinho?»

«Boa pergunta. E tens razão: ele devia saber fazer essas coisas. Mas o Pai Natal é velhote e nunca lhas ensinaram.»

«Mas podia aprender.»

«Talvez ainda aprenda. Vamos continuar, está bem? Estava, pois, tudo pronto na tarde do dia vinte e quatro. Foi então que o Pai Natal decidiu ir arranjar a barba e o cabelo, para estar bonito na noite mais importante do ano. Sentou-se na cadeira do barbeiro da pequena aldeia do Pólo Norte e, como costumava fazer, adormeceu de imediato. Nessa altura os duendes despedidos, há muito decididos a vingarem-se, invadiram a barbearia, arrastaram o barbeiro para a sala dos fundos e ataram-no com restos do fio de embrulho. Depois subiram para cadeiras e raparam o cabelo e a barba ao Pai Natal.»

«Então os duendes são maus?»

«Não. Às vezes as pessoas que têm pouco poder têm de defender os seus interesses e mostrar que não gostaram do que lhes fizeram. E eles não aleijaram o Pai Natal; apenas lhe cortaram a barba e o cabelo. Quando acordou e se viu ao espelho, o Pai Natal apanhou um grande susto e quase teve um ataque cardíaco (que era uma coisa que ele sabia poder acontecer-lhe, porque o médico lhe dizia há anos para comer menos e emagrecer). Saiu da barbearia a gritar e, enterrando as pernas na neve, observado por todos os habitantes da aldeia que se riam às gargalhadas, correu para casa. 'Está tudo perdido', lamentou-se. 'Não é possível que o Pai Natal não tenha barba nem cabelo. O que vou fazer?' A Mãe Natal não se alarmou. Foi buscar duas esfregonas de limpar o chão (uma nova, a outra já um pouco usada) e construiu uma cabeleira e uma barba falsas. Colou-as à cabeça do Pai Natal com fita adesiva e disse-lhe: 'Pronto, servem muito bem e até te dão um aspecto mais moderno.' O Pai Natal não ficou totalmente convencido mas nada podia fazer. Duas horas depois saiu para a sua volta da noite de Natal e desde então (lembra-te que isto foi no ano passado), usa barba e cabeleira postiças enquanto o seu próprio cabelo e barba não voltam a crescer (vão ser precisos muitos anos). É por isso que elas se soltam quando alguém as puxa. Mas isso não significa que não se esteja perante o verdadeiro Pai Natal. E também já percebes por que é que ele fica envergonhado quando alguém faz o que tu fizeste.»

Os olhos dela estavam agora brilhantes. Receei que chorasse. Sorri-lhe.

«Mas tu não voltas a fazê-lo, não é? E vais ser especialmente boazinha para ele, quando o vires?»

Fez que sim com a cabeça.

«Óptimo. E também há boas notícias, pequenina, sabes? Para agradecer à Mãe Natal, o Pai Natal ofereceu-lhe a melhor máquina de secar roupa, o melhor microondas e o melhor ferro de engomar com caldeira que encontrou. E prometeu que este ano iam às Maldivas - onde, a esta hora, devem estar quase a chegar.»

«Com as renas?»

«Er, sim, claro. As renas também gostam de praia.»

«E os duendes?»

«Acho que os duendes ficaram a tomar conta das coisas no Pólo Norte. Mas os duendes não podem apanhar muito sol. Faz-lhes mal à pele. E também não podem tomar muitos banhos de mar. Correm o risco de encolher ainda mais, como às vezes acontece à roupa depois de ser lavada.»

Ficou em silêncio, pensativa. Sorri-lhe. Hesitante, retribuiu. Aproveitei e devolvi-a aos pais.

 

(Republicado.)

 

 

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O racista cego

por José António Abreu, em 15.11.14

Era racista mas uma doença deixara-o cego. Depois disso tinha imensos problemas em manifestar o racismo às pessoas certas. Fazia-o por ouvido. Quando alguém lhe soava a negro – ou amarelo, pois era um racista abrangente – fazia comentários depreciativos, trejeitos de desagrado ou, nos dias de maior comedimento, afastava-se. Normalmente os alvos suportavam a atitude com estoicismo. De resto, que poderiam fazer? Esmurrar um cego?

Enganava-se imensas vezes – não apenas porque os círculos em que se movimentava eram quase exclusivamente caucasianos mas também porque as pessoas o evitavam ou então se divertiam às suas custas, imitando sotaques africanos ou orientais. Chegaram a trocar-lhe a bengala branca por uma pintada de preto. Andou com ela vários dias, gerando hilariedade nos que o conheciam mas correndo riscos sérios de ser derrubado num passeio ou atropelado ao atravessar a rua, uma vez que muitos transeuntes e automobilistas  não se apercebiam da sua condição de cego.

Como seria de esperar, a dada altura ele começou a aperceber-se das partidas. Isso não o tornou mais prudente. Pelo contrário: aumentou-lhe a paranóia. Recusou um cão-guia com medo que lhe arranjassem um com pêlo preto ou de raça estranha (ninguém chegou a perceber que raças eram aceitáveis mas ficou evidente que abominaria ser guiado por um cão de água). Justificando-se com a premissa de que «quem apoia a perda da identidade branca não merece respeito» insultava toda a gente. Como nem sequer conhecia outros racistas assumidos, não abria excepções. Alguém afirmou um dia: «É uma besta mas, desde que perdeu a visão, bastante igualitária.» Vai-se a ver e descobre-se aqui uma lição de moral.

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Para MM

por Patrícia Reis, em 25.04.14

(com 24 horas de atraso)

Era um sítio onde nada existia porque era também onde tudo tinha nascido. Ali a olhar o vulcão, o fim da tarde e o silêncio ancestral das casas brancas, escadas azuis, portadas de madeira por abrir. Ela deixou-se ficar assim por um instante. E lembrou-se de coisas. Pequenas e estranhas coisas que faziam dela o centro a partir dali, da ilha. Primeiro a absoluta convicção de um fim qualquer. Depois os detalhes desse fim: minuciosos pontos avessos à realidade. Ela gostava, já se vê, de metáforas. Não por serem simples de conceber, pelo contrário, mas por serem uma forma simplificadora de tudo o resto. Explicar com clareza é exaustivo. Ela acreditava nisso. Mesmo olhando os barcos que deixavam riscos como trilhos terrestres nas águas duras, a beleza era - e seria sempre - sofrimento. Produzida por essa imensa dor que ela carregava. Ninguém sabia disso, claro. Era uma verdade dela. Talvez fosse a sua imagem. Quem sabe? Não se ajustava a nada daquilo que pertence ao imaginário dos outros, ideias seguras e certeiras sobre anjos e heróis e até, porque não?, sobre Deus.
Ao contrário de todos, ela sabia exactamente o cheiro do bafo do criador, a textura da sua pele, o odor mais cansado só dele, os gestos milenares de incompreensão, de amor e desamor. Sim, desamor. Deus também tinha essa capacidade única de deixar de amar e, depois de tanto tempo, era só disso que ela tinha receio. Não, não era receio, era medo. Um sentimento comum a todos os seres vivos, pensava ela na sua pose de vigilante do vulcão, da ilha e do mar. Ali estava o ralo do mundo. Se alguém poderoso suspeitasse a água desapareceria para sempre, fugindo rápida no ralo do mundo que conduz ao fim do universo. Ela também acreditava nisso: Deus, o ralo, alguém poderoso, no medo e no desamor. Para alguém com as suas responsabilidades era quase cómico prever as desgraças da Humanidade, acreditar na bondade da natureza.
Deus perdoa sempre, o homem por vezes, a natureza nunca, ouvira sentenciar uma vez, longe dali, na voz de um padre inspirado. E assim era.
A natureza é quem manda, é uma criação que tomou conta do criador, que goza na cara dele, que faz e desfaz qualquer sonho. A natureza não é uma forma bondosa de sobreviver e evoluir. Nada pode ser encarado com essa premissa tão fácil. Ela já o sabia. Quando se afastou do muro caído de branco, fixou o chão azul grego e seguiu, rápida, resolvida a procurar alguém para salvar.

Salvar uma pessoa não é o que se espera. A maioria das pessoas não quer ser salva, agarram-se a ideias, depois a coisas e de imediato ao tal medo dominador que tolda até os mais inteligentes. Ela era determinada e, por isso, ocupava grande parte do seu tempo nessa procura: alguém para salvar de uma forma eficaz, para sempre. Não tendo asas de anjo ou capa de super-herói, o seu lugar no mundo estava limitado. Era apenas mais uma, quem sabe se a precisar de salvação. Ninguém a reconhecia de imediato e, com o tempo, havia mesmo quem nunca chegasse a reconhecê-la. Para cada indivíduo ou situação ela era transformável. Se fosse preciso era boa ouvinte; se necessário não se calava; se argumentava, lutava; se lutava, argumentava. Andava contra a maré dos outros. A impor respeito, regras, sabedoria. Não tinha a certeza. Havia pessoas que diziam que o destino estava marcado no ciclo sanguíneo do código genético. De quem vens? Como serás? És o que outros foram? A tua inteligência é apenas a do outro e sem o outro não és nada? Ela não compreendia essa lógica. Ela não decifrar qualquer espécie de exercício lógico, fosse qual fosse. O seu papel era outro. Caminhar ao lado, levitar se fosse caso, mas nunca desvalorizar o potencial vislumbre de um génio descarnado. Um incompreendido. Um sofredor. Todos esses - com ou sem código genético inspirado no caldo cultural certo - eram a inteligência do mundo, mantinham-no a funcionar, contribuíam para a sua rotação. Quanto mais fora do padrão, melhor. A sobrevivência da natureza era apenas isso: encontrar pessoas fora daquilo a que se designava a ordem das coisas, a normalidade, e salvá-las para que tudo começasse de novo. Uma fórmula simples. Ela procurava nos pobres, nos ricos, nos sem abrigos, nas ilhas e nos continentes, pelos desertos e savanas. Ela tinha mais de um milhão de anos. Ela era chave de tudo. E ali, na Grécia, onde tudo começa e acaba, haveria também alguém para salvar, alguém importante. Era a sua missão. Sentiu-o quando chegou à ilha, sempre de barco, sempre na tal água dura e cristalina, uma água com a cor do coração dela, transparente e limpa, profunda e escura por vezes; implacável. Ninguém a imagina. Nem ela se imagina nesse tormento, é apenas uma vida, a dela. E agora parte pelas ruelas brancas de sombra fresca e junta-se à multidão para ir ver o pôr-do-sol em Oia, vai na onda humana que se desloca para a ponta da ilha. Recorda-se de um soneto e diz alto, como fazem os loucos nas grandes cidades, diz alto porque aqui não importa o que achem dela e porque também ninguém a vê, não é?

Vi que, durante a longa travessia
Das águas cor de vinho, num sinal
De passagem divina, o mar ardia
Com brancas labaredas de cristal.

E vi depois, ao pôr do sol, em Ia,
Coberto o céu de líquido metal
Num resplendor de aurora boreal.
E o povo, ateu, ao culto se rendia.

É que, ao ver a beleza do teu rosto,
A natureza se equivoca. E crê
Que um deus voltou. E, perturbada, vem

Fazer raiar auroras no sol-posto
E a água incendiar. Bem sei porquê:
Vejo o teu rosto e engano-me também.

Ela não se enganava. Estava à beira de um outro muro branco e o mar chamava-a, raios de prata, rasgos de luz, movimentos subtis, correntes e marés, vozes de outras margens, sentidos distintos. Quando o sol adormeceu no fim daquele desenho, as pessoas bateram palmas, alguns tímidas, outras esfusiantes. E foi então que, pela sombra, percebeu o seu destino, a alma a salvar. A sombra dizia tudo: o corpo pequeno, encolhido, a cabeça baixa, numa combinação de desistência e de melancolia que tantas vezes se confunde com tristeza. Ela caminhou na direcção da sombra.

Foi bom o pôr-do-sol.

É sempre bom. É o sol.

Diz isso como se não tivesse importância.

Disse? Não dei contei. Talvez tenha dito. Hoje nem estive a ver até ao fim, entristece-me o fim, sabe?

Quer dizer, quando o sol desaparece por fim?

Não, antes, quando fica aquela nesga de luz amarela ou laranja, não se sabe, a esconder-se do outro lado daquela ilha.

Compreendo.

Não é para compreender.

Talvez não seja, mas eu compreendo. Julgo sempre que o sol fica do outro lado, intacto, à espera. Bastaria ir à outra ilha, do outro lado, e lá estava ele...

Pois, pode ser, mas não é assim que sinto.

Como é que sente? Se não se importa que pergunte...

Não me importo. Não a conheço, não sei quem a senhora é. Não faz mal.

O homem não disse como se sentia e ela não insistiu. Ficaram ali. O vento começou a fustigar os toldos dos restaurantes, os vasos com flores, as cortinas das janelas por fechar. Quando percebeu o gesto dele, a mão na pedra do chão junto à anca, ainda sem esforço, ela fez o que fazia melhor: apagou a luz. Oia encheu-se de uma escuridão natural. Todos os candeeiros se apagaram, os restaurantes levariam um momento a repor a luz com geradores ruidosos, velas brancas em frascos coloridos. E, por um segundo, o coração dele parou, ela viu, e ficou, estático, perante o enorme céu, um manto de estrelas sem fim, uma outra perspectiva. Não conseguiu deixar de sorrir. Havia momentos em que valia a pena ser o que era. O corpo do homem abandonou-se à contemplação e ela voltou a perguntar

Como se sente?

Pequeno.

O céu tem esse efeito.

Não. Quer dizer, sim, é verdade que o céu é de uma imensidão sem fim. Eu sinto-me pequeno perante tudo. Estou a chegar a um fim.

Qual fim?

O fim do amor.

É por isso que está aqui sentado?

Lá em cima, na varanda da casa que aluguei, deve estar a minha mulher, a roer as unhas, a ler um livro, a falar ao telefone...

Ou a chorar, à sua espera.

Não. A minha mulher não chora por mim. Já não.

Ela calou-se. Não tinha previsto uma salvação amorosa. Não era o seu forte. O amor desassossegava-a. Fugia dos amorosos, dos perdidos e desiludidos, desses que eram capazes de exibir um coração partido com uma quase precisão médica. O tempo provara-lhe que o amor tinha sempre um rasto de desencantamento. O homem ali ao lado era apenas mais um fio desse rasto. Suspirou. E, depois, com um excesso de generosidade e paciência, preparou-se para cumprir a sua missão.

Então, conte lá. Eu sou uma desconhecida e gosto de histórias de amor.

Esta não é uma história de amor. É sobre o fim do amor, já lhe disse.

Conte lá.

E o homem contou. Conhecera a sua mulher por acaso. Havia até, pensando nisso, uma série de acasos e consequências, que o levaram a ficar junto a ela numa inauguração de uma exposição. Estavam os dois a tentar decifrar uma escultura feita com panelas e tachos. E a mulher disse

É demasiado conceptual.

Tudo o é nos dias que correm.

Tem toda a razão.

E a mulher rira-se de uma forma tão amorosa, delicada, que ele deixou de ver a escultura e concentrou-se nela: baixa, morena, algumas sardas, cabelo preso, calças pretas, camisa branca, mãos de unhas rentes, demasiado rentes, o final dos dedos arredondados adequados à sua condição de vítima. Era uma mulher bonita. Esperta. Viva. Ele soube logo estas coisas todas e outras que a vida confirmou mais tarde. Tomaram vinho tinto. Trocaram telefones e seguiu-se o resto até ao amor infantil do reconhecimento dos corpos, primeiro tímido, depois audaz com a sorte que os deuses reservam a estes casos. Era quase perfeito quando nada o é. Ela ria-se e deitava a cabeça para trás. Ele pegava-lhe na mão assim que chegavam à rua. Ao fim de um ano eram capazes de terminar as frases um do outro ou ainda; muito mais surpreendente para terceiros, dizer exactamente a mesma coisa ao mesmo tempo. Era uma operação matemática. Ele e ela e os dois e depois tudo o resto e o resto valia nada.

Foi assim durante dez anos.

E depois? O que aconteceu?

Acho que foi a vida. Deixámos de falar.

Mas já tentou, não tentou?

Falar? Sim, falar, conversar, discutir, ficar irritado e depois bater com a porta. É a minha especialidade.

Pode sempre dar a volta.

Dar a volta a quê? À Terra?

Não. Ao desamor.

O homem ficou a pensar naquilo. Ela fechou os olhos e suspirou de novo, um suspiro quase imperceptível. As luzes de Oia continuavam por acender, um capricho seu, mas isso agora não importava. Estava decidida a tirar o homem do fundo do nada, devolvê-lo à vida. Para isso era preciso o céu e as estrelas luminosas, a estrela do norte tão forte mesmo ali ao lado.

Já viu a estrela do norte?

Sim. Brilha muito.

É porque mantém o brilho. A questão é sempre essa: manter.

Pois, talvez. Eu não me mantive apaixonado e agora estou aqui preso numa ilha com a minha mulher e não tenho como fugir.

Bom e se caísse uma estrela cadente? Que desejaria?

Voltar atrás.

Onde? Exactamente...

Àquele momento em que o amor se perdeu.

O amor não se perde.

Ah, isso é tão fácil de dizer.

O homem não arredava da sua angústia e ela viu-se obrigada a ceder. Fez cair uma estrela cadente. Tocou no braço do homem para que ele a visse cair, o brilho como um desenho de arquitecto no topo do mundo. O homem levantou-se num repente. Ficou parado a olhar a queda da estrela. Ela levantou-se e disse

Agora já tem a sua oportunidade: volte atrás e mantenha o brilho aceso. Não existe nada de semelhante ao fim do amor. Se quiser, teve sorte, teve-me hoje só para si e eu decidi tomar conta, salvá-lo.

Dito isto, levantou-se devagar e começou a descer as escadas em direcção ao porto. Confundiu-se com as paredes e as casas esculpidas nas rochas, seguiu ligeira, sempre olhando o mar. As luzes de Oia regressaram, o céu voltou a esconder as estrelas e tudo regressou ao burburinho habitual dos turistas e locais. Já não viu o homem, continuou sempre em frente, descendo, até que os pés tocaram na pedra fria do pontão, passaram dois barcos atracados e o corpo dela mergulhou inteiramente no berço do mundo. Naquele dia não haveria mais ninguém a salvar.

(poema de Hélia Correia)

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da enorme dificuldada de se ser

por Patrícia Reis, em 24.01.14

Não vamos discutir o sentido da vida que isso é uma chatice e não adianta.

 

Se tu dizes.

 

Vamos discutir a nossa vida.

 

Alguém me disse, há muito tempo, que quando começamos a falar da nossa relação é porque esta terminou.

 

Que pessimista.

 

Queres falar sobre o quê?

 

Tu estás satisfeita?

 

Satisfeita com o quê?

 

Com a relação?

 

Nunca pensei nisso. Tu estás?

 

Preciso de tempo para pensar.

 

Ah.

 

Decidi ir uns dias para fora... Para pensar.

 

Mas...

 

É o melhor.

 

Para ti ou para mim? Ou para nós?

 

Para todos.

 

Ainda bem que pensas assim. Vais ali como quem vai comprar cigarros?

 

O que queres dizer?

 

Quero saber se voltas ou se posso mudar a decoração da porra da sala e tirar o plasma enorme e desproporcionado, desactivar a BenficaTV e mais umas porras?

 

Estás muito agressiva?

 

Achas? Não me parece. Sinto-me bastante calma.

 

O homem levantou-se da mesa. Saiu da sala e reapareceu, minutos depois, com um saco desportivo na mão.

 

São uns dias.

 

A mulher serviu-se de mais vinho e sorriu. Acendeu um cigarro e olhou pela janela. Continuava a chover.

 

(nota: este diálogo é pura ficção. Agradecida)

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23:59:59

por José António Abreu, em 31.12.13

Às 23:59:59 do dia 31 de Dezembro todos os relógios pararam na Nova Zelândia, Fiji, Kiribati e outras ilhas do Pacífico. As pessoas, que já levantavam os braços para festejar a passagem do ano, ficaram imóveis nas ruas, nos restaurantes e nas casas, sem saber o que fazer. Exactamente duas horas mais tarde aconteceu o mesmo em Sydney e noutras cidades da costa Leste australiana. Depois foi a vez das cidades da Austrália central e do Japão. Cinco horas após o início do fenómeno, os relógios pararam em Perth, em Hong Kong, em Xangai, em Pequim. Entretanto, já os governos estavam reunidos e as forças militares em alerta máximo. Quando, outras cinco horas decorridas (dez desde o momento inicial), os ponteiros se aproximaram da meia-noite em Moscovo, São Petersburgo, Bagdade e Nairobi, milhares de cidadãos permaneciam nas praças e ruas, muitas delas enfeitadas com luzes coloridas e sistemas de som, mas a expectativa e o receio haviam substituído a alegria. O salto das 23:59:58 para as 23:59:59 foi o último que os ponteiros dos segundos efectuaram. O mesmo se passou sessenta minutos depois em Helsínquia, Bucareste, Jerusalém, Damasco, Cairo, Maputo, Pretória. Nas cidades e aldeias dos países onde os relógios ainda funcionavam normalmente, as pessoas juntavam-se agora por curiosidade e medo, para estarem juntas de outras pessoas quando os relógios parassem. Especialistas avançavam teorias nas rádios e televisões. Questões climáticas, excesso de magnetismo, uma arma desconhecida. As comunicações dependentes de sistemas de contagem do tempo bloqueavam. Deixava de se conseguir telefonar ou navegar na internet. Enquanto, com a inexorabilidade de um relógio em perfeito funcionamento, o tempo deixava de ser contado na Europa e em África, muitos olhos voltavam-se, desconfiados, para os Estados Unidos. O presidente norte-americano fez uma declaração ao país e ao mundo garantindo que o seu governo nada tinha a ver com o assunto. Por todo o lado, cientistas verificavam os mecanismos dos principais relógios, mediam todos os parâmetros em que conseguiam pensar (a intensidade do campo magnético, os níveis de radioactividade, o grau de vibração da superfície terrestre) e vigiavam o cosmos, pois era opinião de muita gente que um tal acontecimento só podia ter origem no espaço: a Terra, afirmavam vozes apocalípticas um pouco por todo o planeta, estava prestes a ser atacada. Questionavam-se os fabricantes de relógios mas estes não tinham respostas: a Suíça era um país em estado de choque. Começando em cidades como o Rio de Janeiro, Brasília e Montevideu, também no continente americano os relógios foram deixando de funcionar às 23:59:59. Buenos Aires, Recife, Salvador. Manaus, La Paz, Halifax. Toronto, Nova Iorque, Quito. Manágua, Cidade do México, Minneapolis. A última região do continente a ser afectada foi o Alaska, com os relógios de Anchorage parando exactamente vinte e duas horas após o mesmo ter sucedido aos relógios de Auckland. Uma hora mais tarde encravaram os últimos relógios ainda funcionais do planeta, em arquipélagos do Pacífico como a Polinésia Francesa e Samoa. Iniciou-se então um período em que não era possível medir o tempo pelos meios a que os humanos se haviam habituado pois todos os relógios, independentemente do tipo de mecanismo que os fazia operar (mecânico, de quartzo, atómico, de água) haviam deixado de funcionar. Pela primeira vez em séculos, o tempo não foi dividido em horas, minutos e segundos. Entretanto, a noite voltara a cair na Nova Zelândia onde, com excepção das crianças, ainda ninguém pregara olho. As pessoas já não estavam nas ruas mas reunidas em casa ou em bares, defronte de televisores. Discutia-se o que poderia estar por trás do acontecimento mas também muitos outros assuntos. Dever-se-ia ir trabalhar no dia seguinte? Como acordar na altura certa? De que forma seriam garantidos os horários? Como marcar reuniões? E então, de repente, sem aviso nem espalhafato, os relógios recomeçaram a funcionar. Clique. Clique. Passaram para as 00:00:00 e depois para as 00:00:01 e depois para as 00:00:02 e não mais pararam. As pessoas entreolharam-se e muitas voltaram a sair para a rua e ergueram os olhos para o céu. Tudo parecia normal. A noite estava limpa, com o firmamento coberto de estrelas e a lua a brilhar. Progressivamente, com as mesmas diferenças horárias que se tinham verificado ao pararem, os relógios voltaram a trabalhar em todos os pontos da Terra. Na televisão, especialistas não se sabe bem em que assunto diziam que os relógios haviam estado parados exactamente vinte e quatro horas. Por razões que se desconhecem, nesse ano o tempo recusou comemorar a passagem do ano e saltou por cima do dia 1 de Janeiro.

Desde então, como por vezes sucede perante acontecimentos que os humanos se revelam incapazes de explicar, um véu de silêncio tombou sobre o assunto. Mas a possibilidade de que possa suceder novamente, e até com consequências mais graves, permanece no inconsciente colectivo um pouco por todo o planeta. É também por isso que hoje, às 23:59:59, milhares de milhões de pessoas susterão a respiração, exalando apenas quando os ponteiros dos relógios saltarem para a meia-noite.

 

(Republicado com ligeiras alterações. Boas entradas e bom ano.)

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a traição por um dia

por Patrícia Reis, em 04.09.13

A traição começa na cabeça, ele sabe, é um homem do mundo, nada de carências, é rápido e aceita o que há, seja lá isso o que for.

A traição começa no corpo e o corpo deixa-se ir, em movimentos sincopados, sem cadência, mas com um ritmo que ele sabe ser o certeiro, recusa a culpa e diz que o sexo é amor e, por isso, a saudade aumenta. Pode ser. A vida corre na rua, lá fora, pelo mundo sem certezas. As janela não cedem. Os telefones em silêncio. Olha para a mulher que se deixa ir. Não é é ele. É como no Carnaval, um palco que invade o corpo e as palavras e nada é o que parece.

Ou não.

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Furgoneta

por José António Abreu, em 11.08.13

Viajo numa furgoneta velha, cor da ferrugem que tem. Uma Volkswagen Pão-de-Forma, não fosse o cliché e os níveis de poluição. Ando por muitos países, paro onde me apetece, meto conversa gestual com as pessoas e tiro fotografias com uma Leica M. No tejadilho da carrinha há uma antena discreta, no seu interior equipamento informático topo de gama e muitos livros – tantos que não preciso de cadeiras nem de cama, apenas de um colchão disposto sobre eles. Mantenho um blogue onde descrevo as viagens mas minto acerca da minha localização. Quase sempre sob pseudónimo, publico fotografias fabulosas, que trazem o mundo siderado. No Tibete, sob o olhar atento de um militar chinês, um monge aponta para a furgoneta e, rindo-se, diz-me qualquer coisa que não percebo. Rio-me também, digo «Tashi delek» e ele parece satisfeito mas o militar continua desconfiado. Na Argentina, o condutor de uma carrinha de caixa aberta onde se pode ver um conjunto de boleadoras grita-me «Boludo!» quando me ultrapassa na estrada, e eu berro-lhe, pondo a cabeça de fora da janela, «Gracias!», o que o leva a erguer a mão esquerda no ar com o dedo médio espetado a apontar para cima. Encontro-o dez minutos mais tarde, num bar poeirento à beira da estrada, e acabamos a beber cerveja Quilmes e a discutir as hipóteses das selecções argentina e portuguesa no mundial de futebol (eu elogio Messi, ele elogia Ronaldo, eu estou pessimista quanto às chances de Portugal, ele garante que a Argentina será campeã). Passo da Indonésia para a Austrália num ferry que a internet me dissera não existir e fico dois dias parado no deserto a algumas centenas de quilómetros de Ayers Rock, lutando com aranhas e escorpiões que entram na carrinha pelos muitos buracos que ela tem, à espera que me tragam as peças de que necessito para poder continuar. No deserto do Saara fico trinta e duas vezes atascado nas dunas e sou libertado por um tuaregue que, após a quarta operação de socorro, me segue a cerca de cinquenta metros de distância no seu jipe Nissan, e se esforça por conter o sorriso de cada vez que pára ao meu lado, depois de eu ficar novamente preso na areia. Numa zona pouco habitada do noroeste do Irão sou cercado por uma patrulha militar que me acusa de trabalhar para os americanos, ou para os israelitas, ou para a Agência Internacional de Energia Atómica. Os computadores e a antena não ajudam mas consigo finalmente convencê-los de que os inspectores da Agência não andam em furgonetas ferrugentas e que o equipamento funciona tão mal que eu até pensava estar no Azerbeijão. Mesmo assim, depois de me autorizarem a seguir viagem, vejo-os a olhar para o céu com expressões apreensivas, como se esperassem a chegada de mísseis israelitas. Em pleno Inverno siberiano tento saber se, colocando correntes nos pneus da furgoneta, conseguirei atravessar o Estreito de Bering até ao Alaska. Todos me dizem que estou сумасшедший, ou pelo menos é isso que percebo, e, porque na realidade nunca estive tão são na minha vida mas quero mesmo visitar o Alaska, acabo por decidir lá chegar pelo outro lado. Numa estrada secundária portuguesa querem multar-me por não ter feito a inspecção da carrinha e por não trazer colete reflector, mas começo a falar uma mistura de cantonês e hebraico (as poucas palavras que sei em cada uma das línguas) e os elementos da GNR entreolham-se e resolvem mandar-me embora. Na Escócia, enquanto limpo a Leica sentado nas margens de um lago perto de Inverness, tiro inadvertidamente a primeira fotografia em décadas que parece mostrar Nessie com nitidez. Em todo o lado tentam vender-me sexo e droga e até armas mas recuso, excepto quando sinto que seria indelicado fazê-lo. Vivo de quê? É segredo. Se não fosse, todos poderiam fazer o mesmo e as estradas ficariam sobrelotadas com furgonetas iguais à minha.

 

(Este post não inclui fotografias porque seria um desperdício utilizá-las apenas para ilustrar o texto. Usem a imaginação, acrescentem uma pitada de pôr-do-sol. E mantenham os olhos abertos porque elas vão surgindo por aí.)

 

(Republicado para ver se arranjo coragem.)

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Comunhão com a Natureza

por José António Abreu, em 16.03.13

Atendendo à quantidade de posts sobre a relação entre os humanos e os animais colocados no Delito nas últimas semanas, não resisti a recuperar esta extravagância.


 

«Toma alguma coisa?»

«Um café.»
«Prefere ir lá para dentro?»
«De maneira nenhuma. Gosto mais de estar ao ar livre. Aqui vê-se o mar, sente-se o vento. Adoro estar em comunhão com a Natureza»
«É que não está muito calor e o vento está forte.»
«Nada disso me incomoda.»
«Muito bem, então. Comecemos: desde quando é que a ecologia o interessa?»
«Desde que me lembro de ter consciência. E um dos primeiros momentos em que tive consciência foi quando era miúdo e tentei fazer uma festa a um gato.»
«Sim?»
«Foi aí que percebi que gostava de animais.»
«Ah. Estou a ver. Era o gato lá de casa?»
«Não. Era de um vizinho. Tinha um temperamento super-independente. Arranhou-me todo.»
«A sério?»
«Fiquei com três sulcos na mão direita e um na face. Ainda há poucos anos se via. Comecei a perceber nesse momento que a Natureza (os animais fazem parte dela, como é óbvio, mesmo os domesticados) deve ser respeitada.»
«Que idade tinha?»
«Uns três anos. Talvez quatro.»
«E pensou nisso assim, conscientemente?»
«Sempre fui precoce, sabe? Mas, para dizer a verdade, é uma ideia que se foi instalando progressivamente.»
«Não me diga: o gato arranhou-o mais vezes?»
«Com alguma gravidade, mais cinco.»
«Cinco vezes?»
«Sim. Percebi então que a Natureza, para além de ter que ser respeitada, quer ser deixada em paz.»
«É uma conclusão de grande perspicácia para uma criança.»
«Obrigado.»
«Foi o único problema que teve com animais, enquanto criança?»
«Não gosto do termo 'problemas'. Mas não. Também fui mordido sete vezes por três cães diferentes, apanhei uma doença por causa de uma picada de mosquito, fui ferrado por duas abelhas, levei duas marradas do carneiro do rebanho dos meus avôs, parti a perna direita quando um cavalo da polícia se espantou e me pisou, e a primeira vez que fui ao jardim zoológico um macaco mordeu-me. Creio que estava com pena de que ele estivesse preso e tentei chegar-lhe. Também tentei chegar aos tigres e aos ursos mas os meus pais e a rede de protecção (detesto redes à volta dos animais) impediram-me. Ah, e tive um surto de piolhos mas isso não conta, não é?»
«Com essa consciência ecológica tão precoce, deve ter sido desagradável ter de os matar…»
«Pode ter a certeza. Fartei-me de chorar e de tentar fugir da minha mãe quando ela me queria pôr o produto na cabeça.»
«Não acha estranho, tantos acidentes?»
«Acho que foram um sinal.»
«Um sinal? Um sinal de quê?»
«Uma forma dos animais me alertarem para os seus problemas. Da Natureza me fazer prestar atenção.»
«Ahn, estou a ver. Avancemos um pouco. Foi já essa consciência que o fez tirar o curso de biologia?»
«Com certeza. Na adolescência eu já não tinha qualquer dúvida quanto à minha vocação. Mas tenho de confessar que o curso foi uma desilusão. Muito teórico. Eu queria era andar ao ar livre, em comunhão com a Natureza… Olhe para aquele cão. Que fantástico animal, não é? É um crime que provavelmente passe quase todo o dia preso num apartamento.»
«Vem para cá.»
«Os animais têm uma extraordinária capacidade de perceber em quem podem confiar.»
«Mas parece-me que…»
«…»
«…ele lhe vai urinar nas calças.»
«Bolas. Mas é natural, sabe? É a demonstração de que não me vê como uma ameaça. Se pensarmos bem no assunto, até é lisonjeiro. Repare que ele não urinou nas suas pernas…»
«Pois…»
«A sério que não me importo. A si o cheiro não o incomoda, pois não? É um odor perfeitamente natural.»
«Não, quase nem noto. Acho que o vento está a soprar deste lado.»
«Isto está-me sempre a acontecer.»
«Ah, sim?»
«É verdade. Como lhe disse, é um elogio.»
«Claro.»
«Está um vento fantástico, não está?»
«Um bocado forte demais para o meu gosto. Nestas últimas semanas tem sido terrível…»
«Ora, não diga isso. O vento é uma das mais maravilhosas formas de expressão da Natureza.»
«É uma boa maneira de ver a questão. Bom, voltemos ao ponto onde ficámos. O que fez quando acabou o curso?»
«Fiz um estágio nas Berlengas. Foi um período fantástico. Andava sempre coberto de excrementos de gaivota e fui bicado mais de uma dúzia de vezes. De uma delas quase fiquei sem o olho direito. Eram para ser três meses de estágio mas ao fim de um e meio, num dia de vento forte (olhe, um bocado como o de hoje), uma gaivota errou a trajectória, raspou-me na cabeça e eu caí num buraco e parti duas costelas e o braço esquerdo.»
«Tem a certeza de que a natureza gosta de si? Estão-lhe sempre a acontecer coisas desagradáveis…»
«Não brinque. Já lhe expliquei a lógica por trás de tudo o que acontece.»
«Claro, desculpe. Continue, por favor»
«Bom, depois de recuperar entrei para a Associação. Como sabe, temos duas vertentes: a de investigação e a de denúncia e activismo político.»
«Participou nas duas, segundo sei.»
«Todos os membros o fazem.»
«É capaz de nos contar alguns dos projectos em que esteve envolvido, em cada uma das áreas?»
«Com prazer. Nunca me esquecerei do tempo que passei em África a seguir um grupo de elefantes. Acabei por ser mandado de volta porque um deles, assustado (devíamos ter mantido uma distância maior, na verdade), carregou sobre mim e me partiu a perna esquerda. Em dois locais. Outra expedição de que me lembro bem foi uma viagem de barco às Selvagens que, infelizmente, acabou antes de lá chegarmos porque uma tempestade afundou o barco. Morreram dois colegas meus. Nunca recuperámos o corpo de um e do outro só recuperámos parte; o resto tinha sido comido por tubarões. Eu gostava de morrer assim, sabe? Em contacto com a natureza e assegurando que a cadeia alimentar se mantém activa... Enfim, estive também ligado a um projecto que estudou as plantas capazes de subsistir na Serra da Estrela durante o Inverno. Foi suspenso quando uma avalanche nos apanhou. Deve lembrar-se disso: vocês noticiaram-na como a única avalanche na Serra da Estrela em não sei quantas dezenas de anos. Fiquei preso e cheguei a entrar em hipotermia mas sobrevivi. Só me amputaram a ponta do nariz e andei umas semanas quase sem conseguir respirar porque um pedregulho que vinha no meio da neve me partiu seis costelas, as duas que já se tinham partido no acidente das Berlengas e mais quatro. Na Austrália acompanhámos um projecto cuja finalidade era tentar descobrir se não existirão ainda exemplares vivos do tigre-da-tasmânia. Um escorpião picou-me mas resisti bem ao veneno e só abandonei o projecto, que acabou por apenas descobrir uma nova espécie de canguru, quando um diabo-da-tasmânia (vêm sofrendo um terrível surto de tumores na boca, não sei se sabe) me mordeu. Foi ele que me levou estes dois dedos. Quer dizer, os dois dedos que antes aqui estavam.»
«Estou a ver… E no campo do activismo?»
«Participei em muitas acções de que toda a gente ainda se lembra. Protestei várias vezes contra o uso de peles. Numa delas utilizámos tinta vermelha para manchar casacos à saída dos Globos de Ouro da SIC. Levei uma bofetada da filha da mãe da Clara de Sousa e o curioso é que ela nem sequer estava com casaco de peles. Invadimos um matadouro de suínos para chamar a atenção para o modo como os humanos tratam os animais, criando-os em condições degradantes e assassinando-os de forma grotesca. Nem deve ser preciso dizer que sou vegetariano embora preferisse nem plantas ter de comer; infelizmente, somos forçados a comer alguma coisa, não é? Mas, voltando à invasão do matadouro: prendemos os trabalhadores numa câmara frigorífica e libertámos os porcos todos. Na confusão (eles estavam tão excitados, vendo-se em liberdade), fui atirado ao chão e alguns passaram-me por cima, partindo-me o braço direito e uma das costelas que já se tinha partido nas Berlengas e na Serra da Estrela. E, claro, manifestei-me na Dinamarca contra o aquecimento global, no pino do Inverno. Cheguei a destruir duas montras mas depois escorreguei num pedaço de gelo e cortei-me todo nos fragmentos de vidro. Houve ainda aquela vez em que...»
«Cuidado com a gaivo…»
«Ah!»
«Caramba, acertou-lhe em cheio. Deviam ter aqui um guarda-sol.»
«Não tem importância. Já lhe expliquei: estou habituado aos dejectos de gaivota. É verdade que se entranham no cabelo e o deixam empastelado. Mas acabo por nem ligar. Às vezes uso um capuz mas sinto-me a fazer batota com a Natureza.»
«E isso é que não pode ser...»
«Obviamente. Não está a ser irónico, pois não?»
«Claro que não. Desculpe. Quais são os seus planos para o futuro?»
«Continuar a lutar pelos direitos dos animais, por ecossistemas equilibrados e por políticas que assegurem a sobrevivência do planeta, claro. Sabe que, se mantivermos as políticas actuais, dentro de...»
«Sim, sim. Fizemos uma reportagem sobre isso na semana passada. Mas agora é capaz de ser mais difícil para si, não lhe parece?»
«Farei o que estiver ao meu alcance. E posso servir como símbolo da luta pelos direitos dos animais e da preservação da natureza. Como o Tom Cruise se tornou num símbolo contra a guerra do Vietname no filme Nascido a 4 de Julho. É por isso que aceitei dar a entrevista.»
«Claro. E eu agradeço-lhe que o tenha feito. Acabámos. Quer ajuda com a cadeira de rodas?»
«Não, obrigado. Já me vou habituando a ela. Está a ver como consigo manobrá-la? Não gosto dela (é um objecto artificial, de metal e plástico; horrível) mas tento integrá-la o melhor que posso na minha visão do mundo. Foi por isso que a pintei de verde.»
«Não falámos sobre o acidente que o obriga a usá-la porque já toda a gente o conhece. Foi muito noticiado.»
«Eu entendo. Vai para que lado? Para ali? Eu também.»
«Mas se quiser dizer alguma coisa sobre o assunto, esteja à vontade.»
«Digo-lhe o que digo sempre: as touradas são uma aberração que tem de acabar. Não me arrependo nada de termos invadido aquela herdade em protesto contra o destino dos touros. Que um me tenha acertado e partido a coluna é uma prova da raiva que eles próprios sentem.»
«Hum-hum. Claro. Olhe, obrigado mais uma vez. Bolas, o vento está cada vez mais forte. É melhor ter cuidado com esses degraus.»
«Estou a vê-los.»
«E olhe o cão.»
«O quê?»

«CUIDA... Merda.»

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Senhor presidente

por António Manuel Venda, em 08.11.12

 

O presidente da Comissão Europeia no mais recente livro de José Rodrigues Miguéis, perdão, de José Rodrigues dos Santos:

«…atirou um olhar lúbrico para a cama. A loura vaporosa gemia baixinho com as dores. Como habitualmente, aquilo excitou-o. Deixou o roupão cair na alcatifa, foi buscar o chicote e, nu e erecto de desejo, abeirou-se da cama.

‘Anda, minha cabra’, rosnou, desenrolando o chicote. ‘Prepara-te para o segundo assalto.’»

 

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