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O festival geriátrico

por José António Abreu, em 15.05.12

A Fnac enviou-me um bonito cartão plastificado. Chama-se «cartão Fnac Rock in Rio Lisboa 2012» e garante-me o extraordinário desconto de 5% na aquisição de um bilhete para o referido evento. Promoções em que o nível de pompa está vários graus de grandeza acima do de generosidade deixam-me sempre a pensar se conseguirão gerar receitas suficientes para compensar os custos. Visto continuar a recebê-las, presumo que sim. Esta teve pelo menos o efeito positivo de me levar a olhar para o cartaz do Rock in Rio deste ano (vem na carta) e a comprovar uma ideia já antiga: o Rock in Rio é um festival para ouvintes da RFM e da Comercial; para gente que gosta de dizer ainda apreciar música rock (o termo é importante, numa época em que o rock está mais ou menos morto) ao ponto de até continuar a ir a concertos mas que, na realidade, se encontra entalada na porta de passagem da década de oitenta para a de noventa do século passado. Repare-se: Metallica, The Offspring, Lenny Kravitz, Ivete Sangalo, Stevie Wonder, Bryan Adams, Bruce Springsteen, Xutos & Pontapés, James. Não estou a dizer que toda esta gente é má. Inclui até pessoas que muito prezo. Por exemplo: gosto tanto de Bruce Springsteen que o fui ver a Valladolid em 2009; por alturas de And Justice For All e do Black Album chateei tanto colegas de universidade com gostos a tender para o Phil Collins fazendo-os ouvir Metallica que dois pediram transferência para direito (mentira, já lá andavam e era por isso que eu achava justo chateá-los); tornei-me fã dos Smashing Pumpkins aquando de Gish, o primeiro álbum deles, numa época em que raros eram os que desviavam olhos e ouvidos dos Nirvana e dos Pearl Jam (convenhamos, todavia, que, por muito que o Billy Corgan seja quase tão bom quanto ele pensa ser, os Smashing Pumpkins sem James Iha, D'Arcy Wretzky – desculpa, Melissa – e Jimmy Chamberlin não são os Smashing Pumpkins); e também ainda me lembro de um fantástico concerto que os James deram no Coliseu do Porto há cerca de dez anos. É a acumulação que impressiona. Não seria possível misturar este pessoal (ou parte dele, porque de outra parte nem vale a pena falar) com gente mais recente? Eu sei que a última década não foi pródiga no nascimento de grandes bandas capazes de agradar ao público em geral (coisa linda, o público em geral). Culpa da internet e do carácter cada vez mais efémero da fama, certamente. Mas ainda se arranjam algumas. Imagino que após grande esforço mental, os organizadores do Rock in Rio até conseguiram lembrar-se dos Kaiser Chiefs, colocados a abrir o palco «Mundo» na única noite que poderia levar-me a gastar dinheiro neste mastodonte para quarentões (a faixa etária em que o bilhete de identidade me coloca, note-se). Mas ficaram por aí. Melhor ainda: em vez de misturar, porque não organizar uma noite (uminha só) com música mais recente e alternativa? Não, desculpem, esqueçam. Era capaz de gerar confusões com um festival a sério, como o Super Bock Super Rock – esse sim, quase me convence a fazer trezentos e tal quilómetros para ficar a cinquenta metros de um palco respirando pó, fumo de haxixe e transpiração (ora comparem). Provavelmente é mais seguro assumir uma linha e mantê-la. Permitam-me, então, que dê umas sugestões à Roberta Medina para a edição de 2014: miúda, tenta conseguir os Beatles (sshhh – vocês acham que ela sabe que os Beatles se separaram?), junta o Roberto Carlos e o Júlio Iglésias numa noite gloriosa e, quanto ao recinto, instala cadeirinhas e duplica o número de casas de banho, que a idade não perdoa.

A carta da Fnac. Por favor, não liguem à Kate Moss nua, lá atrás. Nem ela consegue tornar o evento mais excitante. Clicando na imagem verão melhor o cartaz do festival. E o sinal da Kate Moss.

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