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Ele há pessoas e há Pessoa

por Ana Vidal, em 13.06.16


Hoje não é só o dia de Santo António. É também o dia em que nasceu Fernando Pessoa (curiosamente, Santo António também se chamava Fernando), essa extraordinária excepção humana que, para nossa sorte, teve como pátria a língua portuguesa. Pensava à velocidade da luz e numa amplitude de registos tal que vai da complexidade da Ode Marítima ao léxico minimalistana e quase cómico do drama de bairro espelhado na carta de uma corcunda apaixonada por um vizinho indiferente. Mas o que mais me espanta nesta cabeça vertiginosa não é a explosão mental ininterrupta - muitos outros cérebros anónimos a terão, rotulados como casos patológicos e medicados para se manterem numa "normalidade" controlada - mas sim a capacidade que tinha, verdadeiramente única, de registar tudo o que pensava à mesma velocidade, com método, clareza e coerência. Essa capacidade, mais do que tudo o resto, define um prodígio.

 

Aqui fica uma nota biográfica escrita e assinada pelo próprio. Fico a imaginar se lhe terá servido de apresentação para conseguir um emprego, e a reacção de quem a recebeu. Que patrão arriscaria medir forças com um funcionário deste calibre? 

 

[NOTA BIOGRÁFICA] DE 30 DE MARÇO DE 1935

“Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.

“Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.

“Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.

“Estado: Solteiro.

“Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

“Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dt.º, Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).

"Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.

“Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.

“Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.

“Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.

"Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

“Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.

“Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».

“Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

“Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.

Lisboa, 30 de Março de 1935

Fernando Pessoa

(In Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, ed. Richard Zenith, Assírio & Alvim, 2003, pp. 203 - 206.)

 

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(carta astral de Fernando Pessoa)

 

Nota: Informação encontrada no site da Casa Fernando Pessoa.

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E com Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Creio que é a isto que chamam uma partida simultânea.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 20.01.14

 

Contos Completos, de Fernando Pessoa

(edição Antígona, 2ª edição, 2013)

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Festival do Desassossego

por Patrícia Reis, em 10.06.13

PROGRAMA FESTIVAL DO DESASSOSSEGO
CASA FERNANDO PESSOA


11, 12 e 13 de JUNHO 2013
Dia 11
16h - Exibição do filme Pessoa, Pessoas Brasil
17h - Sessão inaugural.
Boas-vindas pela Directora da Casa Fernando Pessoa, Embaixador do Brasil e Vereadora da
Cultura da CML.
Leituras de Portugal e do Brasil, poemas lidos por:
Antonio Cicero
Gastão Cruz
Golgona Anghel
Maria do Rosário Pedreira
Maria Teresa Horta
Nuno Júdice
19h - Varandas do Desassossego (Associação Tenda)
Dia 12
16h - Exibição do filme: Consideração do Poema do Instituto Moreira Salles
17h – Lançamento de “Fernando Pessoa & Ofélia Queiroz: correspondência amorosa completa
1919 – 1935” (edição Capivara) com Eduardo Lourenço, Richard Zenith e os editores Bia
e Pedro Corrêa do Lago
18h - Debate: A prosa de Portugal e do Brasil na voz de quem a escreve
(moderação de Maria Manuel Viana)
Amílcar Bettega, Jacinto Lucas Pires, João Gabriel de Lima, José Luís Peixoto e Teolinda Gersão.
Dia 13
14h30 - Exibição do filme: Um serão com Caetano
16h - Debate: Literatura e jornalismo, amantes da travessia
(moderação de Patrícia Reis)
Bia Corrêa do Lago, João Gabriel de Lima, José Carlos de Vasconcelos e Rui Zink.
18h - Debate: Há uma poesia de língua portuguesa?
(moderação de Inês Pedrosa)
Antonio Cicero, Fernando Pinto do Amaral, Nuno Júdice e Teresa Rita Lopes.
21h30 - Concerto de Jorge Palma.

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«Não há normas. Todos os homens são excepção a uma regra que não existe.»

Fernando Pessoa (1888-1935)

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A pátria e os seus poetas

por José Navarro de Andrade, em 16.05.12

O cliché é uma ferramenta inestimável para entendermos melhor o mundo. Ele mostra aquilo que persiste na memória e no olhar dos outros em relação a nós.

Este “nós” pode ser um alemão, irritado pela forma como o “outro”, por exemplo um português, olha para ele: um tipo autoritário e escrupuloso, hirto nas emoções, bebedor de cerveja, sem sentido de humor.

Seja então o “nós” um português que tenha acabado de ler o modo como a revista “Time” salienta os pontos “interessantes” (outro adorável cliché) de Lisboa na sua secção “travel”.

A “Time” é uma gloriosa sucessão de clichés, sob o formato de news magazine, ou seja, pretende informar com “interesse” quem esteja disponível para a leitura durante o shuttle aéreo entre Londres e Paris. Nada disto merece reparo até porque é tecnicamente irrepreensível, tanto o alvo (a classe média/alta europeia) como o critério editorial (os temas “importantes” – cliché! – da semana), como o ponto de vista (neutro, urbano, sintético, escrito com extraordinária eficácia, quer no que respeita à clareza, quer no que toca à elegância).

Sobre Lisboa a “Time” tudo faz para seduzir o seu leitor a dar um saltinho de fim-de-semana a esta cidade periférica, suficientemente exótica para prometer romantismo e suficientemente civilizada para não que não se desconfie da higiene das saladas. Lá está o rosário de clichés, pintados com cores amáveis e atraentes: os pastéis de nata, os Jerónimos, o bacalhau, o vinho do Porto, o eléctrico 28, a Brasileira, a Ler Devagar.

Só que a meio de tão branda prosa salta um cliché, absolutamente verdadeiro, mas verdadeiramente penalizante para o nosso orgulho nacional que vivendo de ilusões, não passa de prosápia: “… the eternal statue of famed local poet Fernando Pessoa.” Sim “local”, quer dizer: paroquial, pitoresco, curioso, interessante, lá está…

O problema é a “Time”? Não o problema somos nós. Somos de facto paroquiais e pitorescos, gastamos toda a energia às palmadas uns aos outros, ora na cara ora nas costas, e somos incapazes de olhar para lá de Badajoz e trabalhar muito, muitíssimo, para que fosse outro o cliché acerca de Fernando Pessoa.

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Bom fim de semana

por Patrícia Reis, em 13.04.12
"Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo, deixa-me ir…
É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…"

Álvaro de Campos

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As provocações de Pessoa ao Delito

por Ana Lima, em 13.06.11

No dia em que passam 123 anos sobre o nascimento de Fernando Pessoa ficam aqui umas citações provocatórias:

 

"Ter opiniões é estar vendido a si mesmo. Não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões é ser poeta."

"Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor das tuas opiniões. Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada."

"Uma opinião é uma grosseria, mesmo quando não é sincera."

"Ter opiniões é a melhor prova da incapacidade de as ter."

 

in PESSOA, Fernando / Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Lisboa, Relógio d'Água, 2008, págs. 184, 237, 252, 337
 
 

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"Caça aos pombos"

por Ana Sofia Couto, em 06.03.11

O jornal Expresso oferece esta semana o livro Fernando Pessoa – Ensaio Interpretativo da sua Vida e da sua Obra, de João Gaspar Simões. Não é o monumental Vida e Obra, com quase 700 páginas, mas apresenta a mesma tese freudiana. A propósito disto, lembrei-me de um texto sobre Fernando Pessoa e Ofélia Queirós que li há pouco tempo. Procurando questionar uma certa interpretação (que começou com Gaspar Simões) do namoro, a autora, Anna M. Klobucka, comenta a carta em que Pessoa escreve ao seu ‘bebé’: «Sabes? Estou-te escrevendo mas não estou pensando em ti. Estou pensando nas saudades que tenho do tempo da caça aos pombos, e isto é uma coisa, como tu sabes, com que tu não tens nada…». Enquanto outros exegetas da obra de Pessoa tinham lido nestas palavras a repetição da nostalgia da infância, e encontrado na carta mais uma prova da negatividade da relação entre os namorados, o ensaio mostra, pelo confronto com as cartas de Ofélia, que os «pombos» eram, exactamente, o peito dela.

 

O ensaio de Anna M. Klobucka, “Finalmente Juntos”, está incluído em O Corpo em Pessoa: Corporalidade, Género, Sexualidade (Assírio & Alvim, 2010).

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Ler Fernando Pessoa

por Jorge Assunção, em 26.08.09

"O operário ou o empregado é considerado como um ente à parte, fora do giro económico da sociedade onde vive, misteriosamente desligado do industrial ou comerciante que o emprega, e do consumidor a quem este serve. Legisla-se em favor do operário ou empregado contra o comerciante e o industrial; e contra o consumidor; e supõe-se que sobre esse mesmo empregado ou operário não recairão nunca os efeitos da legislação.

 

“As algemas,” Revista do Comércio e Contabilidade, n. º 2, Fevereiro de 1926

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