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O candidato.

por Luís Menezes Leitão, em 22.07.14

 

Depois de ter ouvido Passos Coelho dizer que um dos motivos da sua deslocação ao Sri Lanka foi reconhecer o trabalho extraordinário da AMI, tive a certeza que isso significava da sua parte uma manifestação de apoio para Fernando Nobre também se candidatar às presidenciais. Mais uma vez Passos Coelho insiste na estratégia TMMRS (Todos Menos Marcelo Rebelo de Sousa), e não pára de lançar sinais de abertura para todos os candidatos e mais alguns que o possam impedir de ver Marcelo em Belém. Só que escusava de se deslocar ao Sri Lanka para esse efeito, num gasto desnecessário para os contribuintes. Uma simples declaração pública de apoio em qualquer lugar do Portugal profundo, que depois do seu governo está hoje em dia tão necessitado da AMI como o Sri Lanka, chegaria.

 

Como não poderia deixar de ser, Fernando Nobre respondeu prontamente ao apoio de Passos Coelho. O homem que em tempos tinha dito que se não lhe dessem um tiro na cabeça iria para Belém, acaba de declarar que está vivo, não tem 100 anos, e portanto vai para Belém. Depois de Santana Lopes no sábado, agora com o avanço de Fernando Nobre, já temos assim dois candidatos presidenciais na mesma semana, ambos carinhosamente apoiados por Passos Coelho. Não há dúvida de que estas presidenciais prometem.

 

Entretanto, para aumentar a confusão, Passos Coelho acaba de declarar que espera que os candidatos se assumam, não exclui que possa surgir mais do que um à direita, e propõe que o PSD fique à espera um ano sem decidir quem apoia. A este ritmo, daqui a um ano já teremos perdido a conta aos inúmeros candidatos presidenciais do PSD. Será que a estratégia TMMRS também passa por deixar António Guterres chegar a presidente?

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Não se acanhe

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.01.14

Por mim pode reflectir o tempo que for preciso. E aconselhe-se, homem, aconselhe-se com os mesmos que o ajudaram da outra vez. Não sei quem foram mas deu para ver que eles percebiam daquilo a potes. Foi por uma unha negra. Quem sabe se ao fim de meia dúzia de tentativas, somando vários resultados "honrosos", não tem mais votos do que Cavaco Silva? O actual titular já não tem mais tentativas e nem todos têm o fôlego de Mário Soares para arriscarem uma terceira ida a votos. 

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Um tiro na cabeça

por Ana Vidal, em 04.07.11

Entristece-me assistir à morte de alguém, seja ela real ou metafórica. Mais, ainda, à de um homem por quem já tive admiração. Fernando Nobre foi, em tempos, alguém que criou e desenvolveu uma obra meritória e pioneira em prol dos mais desfavorecidos. Mas isso não lhe bastava, sabemo-lo agora. A tentação da ribalta falou mais alto e ele deixou-se armadilhar pela própria ambição, sabiamente manipulada, muito provavelmente, por outros muito mais experientes nessas artes. E assim disse e se desdisse continuamente, descendo a pulso na vida política e na imagem que dele tínhamos. Fernando Nobre não precisou que ninguém lhe desse um tiro na cabeça - nesse dramatismo de novela mexicana que era, afinal, premonitório - para morrer aos olhos de todos nós. No caso, para suicidar-se. Ele próprio agarrou na arma, encostou-a à têmpora e premiu o gatilho. E fê-lo aos poucos, lenta e dolorosamente. Tão altas expectativas para acabar assim, tristemente, sem nobreza nem dignidade. Cai o pano sobre uma figura triste, que ultimamente só tem feito tristes figuras.

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Legislativas (21)

por Pedro Correia, em 06.06.11

A SUBIR

 

Pedro Passos Coelho. Venceu as legislativas suplantando todos os vaticínios e contrariando até o que alguns companheiros de partido antecipavam. A sua clara vitória no frente-a-frente com José Sócrates, como aqui logo se sublinhou, foi vital para que os portugueses acreditassem nele. O seu discurso de vitória, contido e sóbrio, contribuiu ainda mais para se perceber que entrámos num novo ciclo.

 

Paulo Portas. O CDS cresceu em número de votos e número de deputados, consolidando-se em áreas urbanas como Lisboa e Setúbal. Mais importante que isso: fará parte da próxima solução governativa. Um momento alto na carreira política de Portas.

 

Jerónimo de Sousa. A CDU ganha apenas um deputado mas é a única força de esquerda que resiste nestas legislativas. E alcança sobretudo um saboroso triunfo sobre um rival de estimação: o Bloco de Esquerda. A personalidade do secretário-geral comunista desempenhou um papel importante neste resultado.

 

Debates. Não há campanha sem debates. Esteve mal, portanto, um jornal que titulava recentemente em manchete "O povo não vai em debates". Pelo contrário, nestas legislativas os debates televisivos tiveram nível, substância e uma influência determinante. Com destaque natural para aquele que opôs Sócrates a Passos Coelho. Porque o povo vai mesmo em debates.

 

Fernando Nobre. Foi uma aposta arriscada de Passos Coelho para encabeçar o distrito de Lisboa. Aposta ganha: Nobre contribuiu para reforçar a votação social-democrata no principal círculo eleitoral do País (mais cinco deputados e mais 9% dos sufrágios), onde o PSD obtém o melhor resultado desde 1991, depois de ter vencido claramente um debate televisivo na TVI 24 com o cabeça-de-lista do PS em Lisboa, Ferro Rodrigues.

 

Cavaco Silva. Estaria agora a ser alvo de todas as críticas se o PS voltasse a ganhar as legislativas. A clara derrota eleitoral dos socialistas, menos de dois anos após o anterior escrutínio, confirmou que a maioria parlamentar já não correspondia à maioria sociológica do País. A dissolução do Parlamento foi, portanto, a melhor decisão que havia a tomar.

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O nome mais cobiçado

por Pedro Correia, em 19.04.11

 

Fernando Nobre tem confessadas simpatias monárquicas. Apesar disso, o republicaníssimo Mário Soares convidou-o para membro da Comissão Política e da Comissão de Honra da sua candidatura presidencial, em 2006. Apesar de ter apoiado Soares, o Bloco de Esquerda convidou-o para mandatário nacional da sua lista de candidatos ao Parlamento Europeu em 2009, liderada por Miguel Portas. Apesar de ter sido mandatário da candidatura do Bloco, o social-democrata António Capucho convidou-o no mesmo ano para membro da Comissão de Honra da sua candidatura autárquica a Cascais. Apesar de ter sido apoiante do candidato presidencial do PS em 2006, Fernando Nobre desafiou o candidato presidencial do PS em 2011, apresentando-se ele próprio a sufrágio. Com o apoio, entre muitas outras figuras, de Maria Barroso e Isabel Soares.

Monárquico, republicano, de esquerda e de direita: querem um verdadeiro independente? Aí o têm. Pedro Passos Coelho acaba de o convidar para integrar a lista eleitoral do PSD por Lisboa - e ele aceitou. Caiu o Carmo e a Trindade. Como se o percurso errático de Fernando Nobre na política tivesse começado agora. E esquecendo os actuais críticos que foi por causa dessas contradições e não apesar delas que Nobre recolheu 600 mil votos em Janeiro, correspondentes a 14% dos sufrágios nas presidenciais. Ampliando o fenómeno José Manuel Coelho também no escrutínio presidencial de há três meses: um político que se diz comunista e apesar disso foi eleito por um partido de direita para a Assembleia Legislativa Regional da Madeira, tendo recebido na candidatura a Belém votos de todos os quadrantes políticos.

Deixemo-nos de hipocrisias: na corrida aos candidatos independentes, Nobre era certamente o nome mais cobiçado. À esquerda e à direita. Socialistas e bloquistas gostariam de o ter também com eles, como já sucedeu no passado. Passos Coelho levou a melhor, os adversários políticos criticam-no. Tudo isto faz parte do jogo político e teria porventura alguma importância se o País não estivesse - como está - à beira da bancarrota.

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Em estado de choque

por Pedro Correia, em 15.04.11

 

 

Fernando Nobre anda a ser criticado, vejam lá, por faltar à palavra: disse que não se envolveria com nenhum partido e acabou por aceitar figurar como independente nas listas do PSD. Quem o critica, em grande parte, é gente que acha muito bem haver um primeiro-ministro que agora governa com o FMI quando há poucos dias jurava que não governaria com o FMI. "Continuarei a dar o meu melhor para que Portugal possa escapar a esse cenário. Lutarei para que isso não aconteça", declarou o primeiro-ministro em entrevista à RTP, na noite de 4 de Abril, justificando assim esta intransigência: "Um pedido de ajuda externa significaria que o País perderia reputação e prestígio." Quarenta e oito horas depois, dava o dito por não dito.

Quem critica Nobre, em boa parte, é gente incapaz de contestar o secretário-geral do PS, que levou ao recente congresso do partido uma moção estratégica em que se rejeitava expressamente um auxílio financeiro de emergência a Portugal. "Eu não estou disponível para governar com o FMI", declarou alto e bom som o secretário-geral dos socialistas, a 19 de Março, com aquele ar de convicção estudada com que diz tudo e o seu contrário. Quando a moção foi votada e aprovada, em pleno congresso, estava já ultrapassada pelos acontecimentos: o mesmíssimo secretário-geral que negava a necessidade de intervenção estrangeira nas finanças portuguesas acabara de solicitar a referida ajuda externa. Cambalhotas atrás de cambalhotas, trapalhadas atrás de trapalhadas. Sem um sussurro crítico de muitos daqueles que agora se confessam chocados com as incongruências de Nobre.

Eu, por mim, não me choco com a duplicidade de critério destes incongruentes, que em larga medida cumprem uma antiquíssima tradição do servilismo lusitano: é de bom tom evitar qualquer crítica ao Governo. Choca-me, isso sim, que Portugal esteja à beira da bancarrota - e que, segundo as estimativas do FMI, venha a ser o único país da União Europeia em crise persistente no próximo ano.

De uma coisa tenho a certeza: não foi Fernando Nobre quem conduziu Portugal a este cenário de ruína.

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O Fernando que, antes de ser, já era

por André Couto, em 13.04.11

O Governo caiu. O Benfica, desta vez, não foi campeão. O FMI chegou.

A campanha corria macambúzia. O tom e os assuntos do debate ajudavam a que os programas do costume mais parecessem canções de embalar.

Até que Pedro Passos Coelho sacou da cartola - acho que este trocadilho ainda não foi muito explorado - Fernando Nobre como candidato a Presidente da Assembleia da República. E tudo mudou.

Os espíritos como o meu, mais desiludidos pelo vazio de ideias e espaço para o debate, sabem agora que, apesar de o FMI limitar a margem de discussão de programas eleitorais, teremos sempre Fernando Nobre!

 

Um qualquer Fernando disse que Deus fazia o Homem sonhar para a obra nascer. Hoje, outro Fernando, o mesmo que queria reformar todos os políticos e todo o sistema político, começa pelo vértice mais importante desta cruzada: a (sua) eleição directa do Presidente da Assembleia da República. E não o faz por menos: enquanto candidato a deputado já ameaça não chegar sê-lo...

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Gollum Nobre

por André Couto, em 11.04.11

 

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Notas avulsas da noite eleitoral

por Pedro Correia, em 24.01.11

 

 

1. Registou-se, como previ, a maior taxa de abstenção de sempre numa eleição presidencial: 53%. Houve menos um milhão de portugueses a votar nestas presidenciais, em comparação com as de 2006. Um sinal inequívoco do divórcio dos cidadãos em relação ao sistema político.

2. Houve 270 mil portugueses a votar branco ou nulo, o equivalente a 6,3% dos eleitores. Isto apesar de os votos brancos ou nulos serem irrelevantes para a contabilidade final em eleições presidenciais. Outro sintoma inequívoco de distanciamento.

3. Muitos portugueses não puderam hoje votar por motivos de ordem burocrática totalmente inadmissíveis. A culpa não pode morrer solteira. Espera-se, pois, a demissão do ministro da Administração Interna e do presidente da Comissão Nacional de Eleições ainda hoje.

4. Manuel Alegre, sem o apoio oficial do PS nem do Bloco de Esquerda, obteve há cinco anos maior percentagem (20,7%) e mais 300 mil votos do que agora (19,8%). José Sócrates e Francisco Louçã, em vez de somar, subtraíram.

5. O eleitorado do centro é decisivo. Por isso a radicalização à esquerda da candidatura de Alegre foi totalmente incompreensível. O desastre eleitoral estava à vista: eu bem avisei.

6. Fernando Nobre, sem aparelho partidário, foi o candidato genuinamente apartidário com maior sucesso nas urnas nestes últimos 30 anos. Com 14%, duplicou a percentagem obtida em 1986 por Maria de Lurdes Pintasilgo. Revelou-se, de facto, a maior surpresa desta noite eleitoral.

7. Numa altura em que os partidos muitas vezes são parte do problema e não da solução há hoje cada vez mais espaço para candidaturas de cidadania, emergentes da sociedade civil.

8. No duelo muito particular que mantém com o BE, o PCP não se saiu mal: aguentou o essencial do seu território. Mas o candidato comunista, Francisco Lopes, obteve metade da percentagem de Nobre, recolhendo menos 130 mil votos do que o seu camarada Jerónimo de Sousa em 2006. Com a máquina comunista a apoiá-lo enquanto Nobre não tinha máquina alguma.

9. Também sem máquina de espécie alguma, José Manuel Coelho obteve 4,5%. Mais que isso: conquistou maioria em três concelhos da Madeira, incluindo o Funchal, em ano de eleições regionais. E superou Lopes em Vila Real. Vale a pena analisar este fenómeno, que na região autónoma ultrapassa o mero voto de protesto.

10. Durante semanas, escutámos comentadores televisivos falar apenas em dois candidatos. Cavaco e Alegre. Como se mais nenhum existisse. Estes comentadores - muitos dos quais já tinham ignorado Alegre nas presidenciais de 2006 - também saem derrotados. E de que maneira.

11. Defensor Moura, esmagado nas urnas, fez um discurso de puro ódio pessoal contra Cavaco. Não cumpriu as regras mínimas do fair play democrático.

12. Destaque para o bom senso revelado por Pedro Passos Coelho. Os sociais-democratas "não vão à boleia desta eleição presidencial", acentuou o presidente do PSD, apresentado como "presidente da Assembleia Municipal de Vila Real" num comício de Cavaco. Fica-lhe bem esta prudência.

13. O melhor discurso da noite foi o de Alegre. Felicitou o vencedor e assumiu a derrota com humildade democrática. Nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos.

14. José Sócrates igual a si próprio com esta frase notável: "Todo o Partido Socialista esteve ao lado de Manuel Alegre."

15. Cavaco Silva, com menos meio milhão de votos que em 2006, pareceu totalmente fora de tom no seu amargo e crispado discurso da vitória: "Nunca vendi ilusões aos portugueses nem prometi o que não podia cumprir." Ninguém tenha dúvidas: esta é uma declaração de guerra contra Sócrates. Começou um novo ciclo na política portuguesa.

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Presidenciais (29)

por Pedro Correia, em 23.01.11

  

 

Três vencedores

  

CAVACO SILVA

Vitória clara - em todos os distritos, incluindo Beja, onde fora segundo em 2006 - numa campanha em que não houve verdadeiro debate sobre o seu mandato presidencial. Ao contrário do que alguns vaticinavam, não foi penalizado pela forte abstenção registada neste escrutínio. Beneficiando da notória incompetência de alguns adversários, ganhou nova legitimidade para reforçar o protagonismo no quadro político português. Disse com clareza ao que vinha: esperem dele, a partir de agora, uma "magistratura activa".

 

FERNANDO NOBRE

Coube-lhe nesta eleição o papel desempenhado por Manuel Alegre no escrutínio de 2006, reclamando-se dos valores da cidadania. Sem apoios partidários, sem aparato de propaganda, ignorado pela maioria dos comentadores, escandalosamente marginalizado por um certo "jornalismo de referência", congregou sectores importantes do eleitorado cansados de guerrilhas partidárias e dos jogos políticos de sempre. Uma lição para muitas vozes arrogantes, sobretudo à esquerda. 

 

JOSÉ MANUEL COELHO

O candidato anti-sistema que veio da Madeira para fazer política a nível nacional, sem nunca se levar demasiado a sério. Um papel em que ganhou a simpatia declarada de milhares de portugueses, que têm razões de sobra para se rever em boa parte do que disse este herdeiro da nossa melhor sátira vicentina, apontando o dedo a várias feridas. Caiu em graça por ser genuinamente engraçado, ao contrário do que sucedeu com Defensor Moura.

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Frases da campanha

por Pedro Correia, em 20.01.11

«Dêem-me um tiro na cabeça. Porque sem um tiro na cabeça eu vou para Belém.»

Fernando Nobre, ontem, num comício em Coimbra

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Presidenciais (27)

por Pedro Correia, em 20.01.11

Cavaco Silva – Uma sombra do que foi noutros tempos. Começou de forma titubeante a campanha, que só pareceu ganhar gás com o tema BPN: um Cavaco momentaneamente vigoroso veio à tona nesses dias. O assunto funcionou também como agregador das hostes, que pareciam adormecidas. Mas o homem que desta vez nem contou com um blogue especial de apoiantes foi incapaz de qualquer golpe de asa. Termina a campanha a pedir uma vitória à primeira volta pelo pior dos motivos: para poupar dinheiro. E com um temor indisfarçável da abstenção.

 

Defensor Moura – O deputado socialista que mal ousou sair do perímetro de Viana do Castelo e chegou a ser notícia nas televisões por "dar um passeio improvisado na rua onde mora" esgotou-se nesta campanha a fazer o papel de lebre para dar alento à de Manuel Alegre, seu camarada de partido e seu colega de Parlamento. A estratégia saiu-lhe às avessas: o BPN funcionou como toque a rebate dos desmobilizados eleitores de Cavaco. A partir daí Moura praticamente desapareceu.

 

Fernando Nobre – O médico independente que muitos socialistas irritados com Alegre apoiam teve boas prestações nos debates televisivos e conduziu no terreno uma campanha que foi ganhando projecção, apesar das tentativas de muitos comentadores de o considerarem irrelevante. Tal como Alegre em 2006, o fundador da AMI utilizou o apelo da cidadania como trunfo eleitoral num país cansado de jogos partidários. Pode vir a protagonizar a maior surpresa da noite do escrutínio.

 

Francisco Lopes – Foi sólido, consistente e esforçado na tarefa de mobilizar os eleitores comunistas. Para esse efeito insistiu sobretudo em percorrer o tradicional circuito do partido, centrado no triângulo Lisboa-Setúbal-Alentejo. A candidatura deu projecção a nível nacional ao mais que provável sucessor de Jerónimo de Sousa no cargo de secretário-geral do PCP. Tenha o resultado que tiver no domingo, este desafio já foi vencido. E para ele, no fundo, era isso que contava.

 

José Manuel Coelho – A maior surpresa desta campanha. Trouxe irreverência à corrida presidencial recorrendo apenas aos seus naturais dotes oratórios e à sua vocação para a "sátira de rua", mordendo à esquerda e à direita com a saudável irreverência de uma personagem vicentina. Deixou de estar confinado ao estatuto de estraga-festas no reduto madeirense, ganhando projecção nacional. Foi o único candidato excluído dos debates. Vai receber bastantes votos de simpatia.

 

Manuel Alegre – Encarnou o papel que menos lhe convinha: o de Mário Soares na campanha anterior. Tal como Soares então, radicalizou excessivamente o discurso, procurando transformar a corrida a Belém numa espécie de ajuste de contas com Cavaco Silva. Esqueceu-se da sábia conduta que ele próprio revelou há cinco anos, quando evitou ataques pessoais e sublinhou que uma vitória de Cavaco não poria em risco a democracia. O discurso radical de esquerda, em sintonia com o BE, distanciou-o de muitos socialistas. Termina esta campanha talvez mais só do que estava em 2006.

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Tal como certos heróis de banda desenhada, o jornalismo português gosta de se apresentar com uma capa e uma espada. A capa faz-se de imparcialidade e de neutralidade. A espada é a da verdade. Ora, isto não passa de uma encenação e de um embuste. Creio não dar novidade a ninguém, muito menos aos jornalistas, quando afirmo que não existe uma informação neutra. A comunicação faz-se menos pelo valor literal da mensagem do que pela intencionalidade do emissor, pelas variáveis do contexto e pela predisposição do receptor. Não há aspirante a jornalista que não aprenda isto nos bancos da Universidade e que não o constate no primeiro dia de trabalho numa redacção. Por isso, a afirmação recorrente da imparcialidade e da neutralidade não corresponde a um estádio de maturidade do jornalismo, antes revela as suas fragilidades, limitações, impreparações e  dependências. O jornalismo português não é suave. É menos que isso. É um jornalismo que não saiu do armário. Que não se assume. Em Portugal, a liberdade de imprensa parece ser entendida como um direito que existe na medida em que possa oferecer em troca uma aparência de imparcialidade. Ora, isso não é uma liberdade. É um negócio em que os parâmetros limitam à partida o direito de expressão. A liberdade de imprensa é bem outra coisa. Consiste na possibilidade de se tomar posição sobre um tema ainda que esta parta de uma visão do mundo assumida, de um contexto ideológico de base. Todavia, a liberdade de imprensa assim entendia implica uma responsabilidade. A de que esse pré-conceito seja explícito. Que os destinatários da informação possam saber qual o pressuposto de partida em que esta foi produzida. Este ponto leva-nos a uma velha questão. A de saber se a imprensa deve declarar qual a proposta política que apoia num período eleitoral. Como se intui do que já vai dito, inclino-me para uma resposta afirmativa. Mais ainda num mundo em que existe uma óbvia ansiedade pela informação, como refere Wurman. E em que, como afirma Shirky, passámos da escassez de informação para um mundo dominado pela sua abundância. Perante a finitude dos recursos para tratar informação, são necessários referenciais que nos permitam catalogá-la e processá-la. Parece-me ser responsabilidade de quem coloca informação ao dispor da comunidade partilhar com transparência os referenciais em que se coloca. Creio que a democracia também é isto. Todas estas considerações se compreenderão melhor a partir de um caso concreto. Tomo para exemplo a reclamação de Fernando Nobre relativamente ao (não) tratamento que lhe foi dado pelo Expresso. Nobre reclama que na última edição o Jornal não lhe fez qualquer referência. Numa primeira análise, espanta que o mesmo jornal que coloca na edição online a referência ao assalto da casa de Manuel Alegre, não tenha um centímetro quadrado da edição em papel dedicado à campanha de Nobre. Todavia, o que me parece verdadeiramente criticável é que o Expresso não clarifique perante os seus leitores uma opção editorial que parece agora evidente. Ainda posso perceber que se discuta se um meio de comunicação deve ou não apoiar um candidato. O que é incompreensível é que quando apoia, ou na situação inversa, quando o considera irrelevante, não o diga... expressamente. É, antes de mais uma questão de maturidade democrática e de respeito pela liberdade de imprensa e pelos leitores.

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Presidenciais (8)

por Pedro Correia, em 28.12.10

 

 

Debate Defensor Moura-Fernando Nobre

 

Nunca se viu um debate assim: dois candidatos presidenciais que vão defrontar-se nas urnas tratarem-se amavelmente por "colegas". Aconteceu ontem à noite, na RTP, no frente-a-frente que reuniu Defensor Moura e Fernando Nobre, ambos médicos. Parecia mais um debate para o cargo de bastonário da Ordem dos Médicos do que um debate presidencial. Sem dúvida o mais frouxo e desinteressante desta campanha.

Nobre plagiou-se a si próprio, reiterando frases de outros debates. Afirmou-se "isento" e "suprapartidário", ao contrário de todos os outros. Com algumas notas de manifesto exagero: disse três vezes, por exemplo, que tem "conhecimento do mundo". Não havia necessidade...

Defensor, por seu turno, nada conservou da atitude agressiva do anterior debate, travado com Cavaco Silva. O "colega" Nobre mereceu mais consideração ao antigo deputado do PRD de Ramalho Eanes e actual parlamentar do PS de José Sócrates que antecipa já o voto em Manuel Alegre numa eventual segunda volta. Diz que corre para diminuir a abstenção com as suas proclamações regionalistas. Cada vez se parece mais com o candidato do queijo da Serra, embora neste caso seja preferível chamar-lhe candidato do queijo Limiano por uma questão de afinidade regional.

Há quem se queixe de não ouvir propostas nesta campanha. Nobre deixou uma, que a moderadora, Judite Sousa, entendeu não explorar: "Vou abrir Belém." Instituindo "um dia, todos os três meses, para que a população portuguesa possa falar com o seu Presidente". Foi pouco, mas neste debate foi o melhor que se arranjou.

Defensor teve o seu momento alto da noite quando dirigiu esta estocada ao "colega" por interposto progenitor: "Ao contrário do pai de Fernando Nobre, que dizia que a política é uma porcaria, o meu pai foi mandatário de Humberto Delgado." O pior? O prolongamento da sua lamentável prestação no debate com Cavaco. Nestes termos mais próprios de um candidato camarário do que de um candidato presidencial: "Depois do debate com o candidato Cavaco Silva recebei telefonemas [de pessoas] do PSD apoiando-me por eu ter tido a coragem de ter dito ao candidato Cavaco Silva aquilo que dentro do partido dele nunca tiveram coragem de dizer." Eis como as declarações sussurradas de uns cobardes assumidos podem ser transformadas em pseudo-trunfo eleitoral...

A moderadora quis saber o que pensa Nobre sobre as supostas ligações de Cavaco ao BPN. A resposta foi sucinta e correcta: "Eu não faço ataques ad hominem. A justiça portuguesa existe para actuar."

São colegas, mas há contrastes evidentes entre eles. Como este maçador debate claramente demonstrou.

 

Vencedor: Fernando Nobre

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Frases do debate:

 

Defensor - Saúdo a chegada do meu colega à vida política activa. Saúdo o seu idealismo e a sua vontade de mudar.

Nobre - Cavaco Silva não é o meu principal adversário. (...) Eu estou aqui para ir à segunda volta e vencer Cavaco Silva na segunda volta.

Defensor - Tenho a consciência de que as pessoas não me conhecem.

Nobre - O BPN é uma tragédia nacional.

Defensor - Eu, como a maioria dos portugueses, tive uma educação cristã e, como tal, aprendi a dar com a mão direita sem a mão esquerda saber. Agora, infelizmente, costuma-se dar com a mão direita e ter uma campainha com a mão esquerda a dizer que se está a dar.

Nobre - Eu não digo coisas no ar, digo coisas concretas.

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A 'gaffe':

 

"O meu eleitorado será preferencialmente de abstencionistas."

Defensor Moura

 

Nota: por motivos de ordem técnica, só agora pude publicar este texto, escrito ontem à noite

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Heróis e Afinadores de Piano

por Laura Ramos, em 26.12.10

Ninguém no seu juízo perfeito prefere um Político a um Homem Bom.

 

Mas ainda que a desconfiança pelos profissionais da res publica nos roa, todos precisamos de poder avaliar o potencial político concreto de um candidato: o que fez; como fez; que valores defendeu no terreno, na hora H; como se posicionou nos momentos cruciais e nas pequenas ou grandes querelas nacionais.

 

Em cada round das presidenciais temos este fenómeno: cai-nos do céu um romântico empedernido, um poeta do verbo ou um poeta de causas, como se o topo do Estado fosse um espaço não qualificado, um porto franco, uma superação de si próprio.

Desta vez, desgraçadamente, foi o missionário que acordou um dia e, em mais um arroubo de altruísmo,  resolveu passar a considerar Portugal a sua próxima obra humanitária. Ai de nós…

 

Nisto, não há que hesitar. Há as possibilidades. E as probabilidades eleitorais.

Falamos de coisas diferentes, porque o cálculo de probabilidade convoca já a ideia de acção, de moção viável (apenas nos fixamos na avaliação do lance).

Mas o cálculo da possibilidade remete-nos para um estado anterior, que é – ainda- o da mera aptidão para agir, para mover. Para, politicamente, ser.

 

Na sua indiscutível vocação universal, Fernando Nobre confunde tudo. Não tem cultura política. Define metas que não estão ao alcance de um Presidente da República. Ilude-se a si próprio e ao eleitorado quando faz do cargo a que se candidata aquilo que não pode ser. Quando acredita que o Estado português é um permanente estado de emergência, onde a legitimidade substitui a legalidade e a salvação se pratica por imperativo ético, num irreprimível exercício de heroicidade.

Quando diz, indignado, que «ainda vivemos nessa coisa do século passado», a propósito da sua não definição entre direita ou esquerda, o candidato devia lembrar-se que esta coisa dos destinos políticos espontâneos e impreparados é que, é -  sim, justamente -, um fenómeno atávico e do século passado.

 

Portugal não convoca heróis para a Presidência. Convoca, sim, um afinador de pianos.

 

Nada a fazer...

 

- You’re impossible, Mr. Nobre!

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Presidenciais (6)

por Pedro Correia, em 22.12.10

 

  

Debate Fernando Nobre-Manuel Alegre

 

Manuel Alegre tem uma notória dificuldade nesta campanha presidencial: os valores da "cidadania" que lhe serviram de bandeira na corrida a Belém de 2006 estão a ser hoje levantados pelo candidato que notoriamente mais o irrita. Fernando Nobre, que Alegre defrontou esta noite pela primeira vez, num frente-a-frente na TVI, faz lembrar muito o Alegre de há cinco anos: procura captar votos em vários terrenos ideológicos, proclama aos quatro ventos a "independência" como valor político supremo e assume um discurso antipoder que entra como faca em manteiga num país que vive a maior crise económica dos últimos 30 anos.

Alegre é político profissional desde 1974. Mas hoje Nobre - o amador - ultrapassou-o em profissionalismo na forma como arquitectou o debate, sem dúvida o mais interessante de todos quantos ocorreram nesta campanha. Foi contundente sem se tornar impertinente, roubou a Alegre o habitual discurso em defesa dos mais desfavorecidos e teve ainda a subtileza de citar perante o poeta que se orgulha de ter cátedra em Parma dois outros grande vultos da nossa poesia, Sophia e Torga.

"Tenho dificuldade em entender Manuel Alegre. Em 2006, dizia que Francisco Louçã é um Cavaco do avesso. Em 2007, dizia que o Governo do PS estava a destruir o estado social." Frases de Nobre, que obrigaram Alegre a abandonar a atitude de bonomia com que se apresentou em estúdio: "Não gosto de pessoas que se apresentam com uma pretensa superioridade moral." Ambos invocaram - significativamente - o nome de Mário Soares. Nobre caiu no erro de recordar novamente que testemunhou a tragédia de Beirute em 1982: as repetições soam mal nestes debates. Melhor andou Alegre ao deixar um rasgado elogio à "excelente prestação" de Francisco Lopes, que na véspera vencera Cavaco Silva num debate igualmente moderado por Constança Cunha e Sá na TVI. O candidato apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda não ignora que podem fazer-lhe falta os votos comunistas.

O poeta orgulha-se de conciliar hoje apoiantes do Governo e da oposição: "É bom conseguir unir dois partidos que parecem inconciliáveis." E advertiu o seu antagonista: "Ninguém é proprietário da cidadania." Mas foi ambíguo em questões como o apoio à recente greve geral e em momento algum do debate pareceu o Alegre dos melhores tempos - aquele que enfrentou com eficácia Mário Soares no decisivo frente-a-frente da campanha eleitoral anterior, por exemplo. Nobre mostrou-se superior ao dirigir-se a segmentos muito significativos do eleitorado que vão sofrer os efeitos do Orçamento do Estado. "Não há maior falência da nossa democracia do que a fome instalada entre nós, do que a pobreza, do que haver 300 mil idosos com reformas inferiores a 300 euros", sublinhou.

Há cinco anos, seria Alegre a dizer isto. Nobre é o Alegre de 2011.

 

Vencedor: Fernando Nobre

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Frases do debate:

 

Alegre - Ninguém tem o monopólio da cidadania.

Nobre - Não sou pessoa para me deixar condicionar ou empurrar seja por quem for.

Alegre - Não misturemos uma candidatura presidencial com percursos de vida.

Nobre - Há cinco anos [Alegre] candidatou-se contra o candidato do seu partido. São estas incoerências que tenho dificuldade em entender.

Alegre - Conhece mal essa história. É estranho. [Nobre] parece que é mais do PS do que os próprios dirigentes do PS.

Nobre - Sou apenas dono do meu voto. Sou casado há mais de duas décadas e nem sei em quem vota a minha mulher. O voto é livre e secreto.

Alegre - Fernando Nobre entrou no sistema. É candidato, é político. Penso que não está aqui para derrubar o sistema. (...) É muito perigoso fazer o discurso antipartidos.

Nobre - Perigoso para a democracia é termos chegado à situação social a que chegámos.

Alegre- [Nobre] não tem o exclusivo da preocupação.

Nobre - Manuel Alegre sabe quanto custa um litro de leite? Sabe quanto custa um pão? Sabe quanto custa um ticket da Carris em Lisboa?

...............................................................

 

A 'gaffe':

 

"Vasco Gonçalves contribuiu para a construção da nossa democracia."

Fernando Nobre

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Presidenciais (3)

por Pedro Correia, em 18.12.10

    

 

Debate Cavaco Silva-Fernando Nobre

 

Vivemos hoje melhor ou pior do que em 2006? Esta é uma pergunta crucial que os eleitores devem fazer no próximo dia 23 de Janeiro. Uma pergunta a que Fernando Nobre respondeu esta noite, no frente-a-frente que manteve na SIC com Aníbal Cavaco Silva. "A competência reconhecida do professor Cavaco Silva na economia e finanças não impediu que estejamos muito pior do que há cinco anos. O desemprego quase duplicou. A paz social está explosiva", denunciou o médico independente que concorre a Belém, socorrendo-se para o efeito do diagnóstico elaborado pelo cardeal-patriarca de Lisboa. Uma piscadela de olho óbvia ao eleitorado católico por parte de quem não tem dúvidas: "O orçamento para 2011 é mau."

Cavaco Silva, muito na defensiva, quase parecia o Presidente escolhido por José Sócrates. Justificou o Orçamento do Estado e algumas das políticas governamentais, disse apostar no sector da exportação e na "inovação tecnológica" (bandeiras do Governo socialista) e sobretudo aproveitou este debate bem conduzido por Clara de Sousa para recordar aos portugueses quais são os poderes do Chefe do Estado previstos na Constituição da República - numa óptica restritiva, aliás em consonância com o seu mandato. O problema, para ele, é que praticamente não conseguiu ir além disto.

Nobre foi claro, incisivo, objectivo e tão contundente quanto é de esperar de um candidato que defronta o favorito numa corrida presidencial: nunca é de mais lembrar a certos "analistas" que uma campanha eleitoral não se compara ao chá das cinco nas vicentinas. "O Presidente da República não é um mero adorno. Não se vai para Presidente da República para se ser um vaso de flores", afirmou o médico, por quem Cavaco afirmou duas vezes ter "todo o respeito". O actual Chefe do Estado criticou o "pessimismo" de Nobre. Mas reconheceu haver "dois grandes problemas na sociedade portuguesa: o flagelo do desemprego e o elevado endividamento externo". Conclusão do rival: "as competências tecnico-científicas" de Cavaco Silva não foram escutadas.

A multidão de desempregados em Portugal reviu-se certamente nas palavras de Nobre, que comparou o ministro das Finanças a um médico que chegasse a um doente em estado grave e lhe dissesse: "O senhor está com essa maleita. Vou dar-lhe um medicamento que não o vai curar, pode agravar o seu estado e até pode matá-lo. Mas tem que o tomar."

Referia-se ao Orçamento de Estado para 2011. O de Sócrates. E o de Cavaco também. No final, dei por mim a perguntar: se houvesse apenas estes dois candidatos na corrida a Belém, em qual deles o actual primeiro-ministro votaria? Não tenho a menor dúvida na resposta.

 

Vencedor: Fernando Nobre

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Frases do debate:

 

Nobre - Cavaco Silva não enviou mensagens específicas à Assembleia da República sobre o cenário dramático para que estamos a caminhar.

Cavaco - É preciso esclarecer qual é o papel do Presidente da República nos termos da Constituição.

Nobre - Este orçamento penaliza de forma trágica centenas de milhares de portugueses ao congelar as reformas sociais, ao cortar no rendimento social de inserção e no complemento social para idosos.

Cavaco - Empenhei-me muito para que fosse aprovado o Orçamento para 2011.

Nobre - Este Orçamento do Estado não interessa aos desempregados de Espinho e de Santo Tirso ou à velha senhora de 80 anos que encontrei no mercado de Ferreira do Zêzere com uma reforma de 60 euros.

Cavaco - Eu sou um presidente muito transparente. Basta ir à página da Internet para ver tudo quanto eu digo e tudo quanto eu faço.

Nobre - Eu conheço o mundo. Neste momento da globalização, precisamos de um presidente que conheça o mundo.

Cavaco - Jurar a Constituição, para mim, é mesmo jurar.

 

...............................................................

 

A 'gaffe':

 

"Se não existisse o Orçamento, Portugal encontrava-se hoje numa situação de descalabro económico e financeiro. (...) Eu nunca disse que concordava com este orçamento."

Cavaco Silva

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Presidenciais (1)

por Pedro Correia, em 14.12.10

 

  

Debate Fernando Nobre-Francisco Lopes

 

Terminou há pouco, na RTP, o primeiro debate televisivo desta campanha presidencial. Entre dois estreantes nestas andanças: Fernando Nobre e Francisco Lopes. O primeiro ganhou vantagem desde a intervenção inicial, surgindo claramente ao ataque: separou águas, incluiu o candidato comunista entre os representantes do "sistema" que diz combater e afirmou-se como o único independente de todos quantos agora correm rumo ao palácio de Belém. Para ele, este não foi um debate menor nem condenado apenas a cumprir tempo de antena.

Francisco Lopes não estava, visivelmente, preparado para lhe dar resposta. Ainda insinuou por duas vezes uma ligação do médico a Mário Soares e acusou Nobre de ter apoiado o Orçamento do Estado para 2011, considerando-o o "orçamento possível". O adversário chamou-lhe mentiroso: o verniz estalava logo nos primeiros minutos do frente-a-frente, para surpresa da própria moderadora, Judite Sousa.

Nobre esgrimiu a independência como virtude pessoal e a sua experiência internacional enquanto médico como principal carta de recomendação perante os eleitores, referindo-se depreciativamente à "retórica" do comunista. "Eu sou frontal e directo. Não tenho medo. Não é qualquer um que esteve em Beirute em 1982. O senhor esteve?", questionou. Lopes aludiu à "falta de coerência e de clareza" do candidato rival. Mas, claramente, não estava ginasticado para um confronto deste género: o seu adversário é o Governo, o seu cavalo de batalha é a "política de direita". Ora Nobre não integra o Governo e nesta altura do campeonato ninguém faz a menor ideia se é de esquerda ou de direita. Talvez nem ele próprio. Paradoxalmente, isto pode constituir um trunfo eleitoral. Como, de resto, se verá.

 

Vencedor: Fernando Nobre

...............................................................

 

Frases do debate:

 

Lopes - Sou o único candidato presidencial que teve uma posição contrária quanto à aprovação do Orçamento do Estado.

Nobre - Está a dizer uma inverdade, para não dizer uma mentira. (...) Um Presidente da República deve ser independente, livre, suprapartidário. Eu não sou candidato porque um comité central de um partido decidiu.

Lopes - A minha candidatura é uma candidatura de verdade. Não recorre à mentira. Desde os 17 anos luto pela liberdade e pela democracia.

Nobre - Eu faço política internacional há 30 anos e nos cenários mais dramáticos. O senhor já viu a pobreza extrema? Já viu corpos esmagados à sua frente? Já viu uma criança com fome a correr atrás de uma galinha que levava um bocadito de pão na boca? Fala de coisas que desconhece. É pura retórica. O senhor, que fala tanto em desemprego, já criou algum emprego?

Lopes - Eu sou originário de uma terra do interior, testemunhei a pobreza no nosso país. Enfrentei os maiores obstáculos, a que Fernando Nobre nunca se sujeitou.

Nobre - Eu sou livre, não dependo de ninguém. Não tenho experiência partidária - e ainda bem que não tenho.

Lopes - A minha candidatura é a única que não tem compromisso com as políticas actuais.

Nobre - O senhor é funcionário de um partido político há 30 anos. O senhor pertence a um sistema político perverso, caduco, ultrapassado, retórico.

...............................................................

 

A 'gaffe':

 

"Em mais de 30 décadas já dignifiquei o meu país em todo o mundo."

Fernando Nobre

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Nada mais esclarecedor

por Pedro Correia, em 22.02.10

 

Li atentamente a entrevista de Fernando Nobre ao Expresso e tive de imediato a sensação que algo não batia certo. Diz ele que decidiu concorrer ao Palácio de Belém depois de ouvir durante "dois ou três meses" várias personalidades, entre elas os ex-presidentes Ramalho Eanes e Mário Soares. "Falei com toda a gente, não houve nenhum sector da política portuguesa que eu não tenha abordado", diz o presidente da Assistência Médica Internacional.

Ora aqui está o que não bate certo: para quem falou com dezenas de pessoas, do CDS ao Bloco de Esquerda, é estranho ter deixado de fora Manuel Alegre. Nem sequer teve curiosidade de saber se o poeta tencionaria recandidatar-se à presidência.

Não por acaso, e com uma evidência exemplar, Alegre é praticamente o único alvo de críticas nesta entrevista. De Cavaco Silva, afirma Fernando Nobre que é "uma pessoa digna e séria, responsável",  acentuando que o "roteiro da inclusão" foi "um ponto muito positivo" do seu mandato.

Nada mais esclarecedor para início de conversa.

 

ADENDA: Leio a entrevista de Fernando Nobre à edição de hoje do i . Repete-se o padrão: elogios a Cavaco ("um homem digno, responsável e crente nas pessoas") e críticas a Alegre. Desta vez com requintes de linguagem: "Picadelas de mosquito não me importunam. Eu só reagirei se for mordido por um crocodilo." Para mais tarde recordar.

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Fernando Nobre

por Paulo Gorjão, em 18.02.10

O que conheço das suas declarações políticas, por regra, discordo. Acresce que não percebo a sua candidatura. Mal preparada. Mal explicada. Um não-assunto.

P.S. -- Ler "O cordeiro sacrificial".

 

[Adenda]

Se esta candidatura for patrocinada pelos Soaristas, como li algures, é um sinal de desespero e de completa ausência de alternativas. Tenho dificuldade em acreditar que o seja. Não tem sentido. Nobre em circunstância alguma teria o apoio do PS e, nesse sentido, não é uma verdadeira alternativa a Manuel Alegre.

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