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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 10.06.17

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 Livro dez: Santos e Milagres, de Alexandre Borges

Edição Casa das Letras, 2017

287 páginas

 

De múltiplas histórias é feita a História. Para transmiti-las aos contemporâneos não basta o domínios dos factos: é também fundamental ter o dom da narração e um perfeito conhecimento deste nosso idioma, sedimentado ao longo de séculos. Importa ainda revelar alguma adesão emocional ao tema que se aborda, característica sem a qual a narração se torna árida e estéril.

Alexandre Borges – investigador, argumentista, licenciado em Filosofia – supera com distinção todas as provas atrás descritas neste seu mais recente livro, Santos e Milagres. Uma obra que, logo na capa, assume perante os leitores o solene compromisso de lhes proporcionar “uma história portuguesa de Deus”. E cumpre a promessa: aqui desfilam figuras em destaque ao longo de vinte séculos de cristianismo – todas de algum modo ligadas a este pedaço de chão no recanto mais ocidental da Europa hoje chamado Portugal, que só ascendeu à independência devido à íntima ligação entre o trono e o altar. Um elo que sempre nos serviu de senha de identidade.

Por estas páginas passam remotos protagonistas, alguns provavelmente mais lenda que facto: São Manços, São Torpes, São Vítor, São Vicente (hoje padroeiro da diocese de Lisboa), São Martinho de Dume, São Frutuoso, Santa Senhorinha, São Geraldo. Não faltam os santos nascidos ou radicados neste reino já independente: Santo António, a Rainha Santa Isabel, o Santo Condestável. Sem esquecer São Teotónio, conselheiro espiritual de D. Afonso Henriques: “Se um foi o primeiro rei de Portugal, o outro foi o primeiro santo. Nasceram portucalenses, morreram portugueses. Poder temporal e poder espiritual. A espada e a cruz que fundaram um dos mais antigos estados-nação do mundo.”

Dos últimos séculos, destacam-se São João de Deus, São Gonçalo Garcia (luso-indiano mártir em Nagasáqui), São João de Brito e – no capítulo final, intitulado “O Tempo de Agora” – os videntes de Fátima, dois dos quais acabam de ser elevados aos altares pelo Papa Francisco.

É um livro que sente o que descreve – e de poucos podemos hoje garantir o mesmo de forma tão categórica. Sem intuitos de catequização ou proselitismo. Dirigindo-se em simultâneo a leitores que acreditam ou duvidam, como fica evidente nas seguintes palavras do capítulo final que bem podiam aplicar-se a quem procurar esta obra: “Fátima não é dogma de fé. Muitos católicos não acreditam em Fátima – e muitos não católicos acreditam em Fátima. (…) Visitam o santuário todos os anos cinco milhões de peregrinos, oriundos de toda a parte. Católicos e de outras confissões. Crentes e ateus. Só cada um deles sabe o que o traz ali.”

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 09.06.17

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 Livro nove: Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke

Tradução de Isabel Castro Silva

Edição Ítaca, 2017

117 páginas

 

O que mais impressiona nesta obra de estreia em prosa do grande escritor de expressão germânica nascido no Império Austro-Húngaro é a plena maturidade do seu conteúdo, dado à estampa em 1898, quando o autor mal completara 22 anos. Ao Largo da Vida – pequeno volume de “novelas e esboços” em que apenas um dos textos se poderá considerar novela e os restantes são contos, aliás magníficos – propicia-nos personagens confrontadas com a dor, a doença, o luto, a velhice e a morte. Temas que se esperariam de um livro redigido por alguém com uma idade bastante mais avançada.

Seria talvez a sua sensibilidade poética a falar por ele: Rainer Maria Rilke foi acima de tudo um poeta, mesmo quando escrevia em prosa, como esta obra até agora inédita no mercado editorial português bem demonstra. De resto, a tradução merece elogio por respeitar o mais possível a musicalidade da escrita – sempre complexa, por mais simples que pareça.

Diz-se que o poeta não só sente: também pressente. Pressentiria o ainda tão jovem Rilke – falecido em 1926, com apenas 51 anos – que metade da sua vida estava já quase cumprida no momento em que escrevia estes “esboços” marcados por uma mágoa tão serena e luminosa?

A pergunta faz sentido ao lermos Festa em Família, onde somos introduzidos numa velha casa onde quase todas as cadeiras estão associadas a um óbito. Ou ao conhecermos a amargura de uma mãe servindo talvez a última chávena de chá ao filho acamado devido a uma grave doença cardíaca. Ou ao acompanharmos a revolta interior de um jovem de pernas paralisadas que passa os seus dias a talhar imagens da Virgem Maria com o rosto de uma inacessível mulher terrena. Ou ao lermos esse conto simplesmente intitulado O Menino Jesus que é uma das mais ternas, tristes e tocantes histórias de Natal que jamais alguém escreveu.

A melhor homenagem que pode prestar-se a este livro é considerá-lo uma via de comunicação directa com a poesia de Rilke. Aliás podiam servir-lhe de epígrafe estes versos dele que Jorge de Sena tão bem transpôs para português: “Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto. / Mas o mortal e monstruoso espanto / Como o suportas? — Canto. / E o que nome não tem, tu podes tanto / Que o possas nomear, poeta? — Canto.”

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 08.06.17

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 Livro oito: Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão

Edição Porto Editora, 2016

140 páginas

 

O conto volta a estar na moda entre nós? Se for assim, todos quantos apreciamos este género literário devemos congratular-nos. A satisfação redobra ao verificarmos que esta aposta das editoras distingue obras de indiscutível qualidade. Falei de uma há dias, falo desta hoje. São 14 histórias em que Teolinda Gersão se confirma como uma exímia cultora da ficção em formato curto. Sem uma palavra em excesso, com pleno domínio da técnica da escrita e uma gama larga de registos estilísticos que nunca deixa de surpreender o leitor.

“O que Teolinda faz é escrever a vida”, sublinha Maria Alzira Seixo, leitora atenta desta ficcionista que se estreou em 1981 com a publicação do romance O Silêncio, logo distinguido com o Prémio do Pen Club. É uma síntese certeira desta obra que nunca se compraz com a excelência formal ou o culto narcísico de quem tão bem domina o idioma: a prosa de Teolinda Gersão faz questão de nos conduzir a temas e variações da natureza humana, confrontando-nos com situações emblemáticas da nossa fragilidade existencial. Situações quase sem referências cronológicas ou geográficas, como se pudessem ocorrer em qualquer lugar e em épocas imprecisas das últimas décadas, despojadas de afectos na razão inversa da acumulação de bens materiais.

Alguns destes contos são autênticas peças de filigrana. “O Meu Semelhante” – delicioso preâmbulo à luta de classes num condomínio fechado, repassado de terna ironia. “Uma Tarde de Verão” – reencontro entre dois antigos amantes confrontados com a irreversível erosão do tempo no mesmo cenário de outrora. “As mimosas” – magoado exercício de nostalgia, com as flores simbolizando a frágil e fugaz matéria de que são feitos os sonhos. Ou a magistral autenticidade que emana de histórias escritas na primeira pessoa do singular, como “Pranto da Mãe Mentirosa” e “A Mulher Cabra e a Mulher Peixe”.

"É tudo um equívoco, nunca deixamos de estar sós. A vida não é fácil, nem feliz." Palavras de uma personagem que Teolinda aqui nos traz. Podemos escutar nela os ecos mais profundos da nossa própria voz.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 07.06.17

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 Livro sete: 1933 Foi um Mau Ano, de John Fante

Tradução de José Remelhe

Edição Alfaguara, 2017

109 páginas

 

1933 foi o ano da subida de Hitler ao poder na Alemanha. Foi também o ano em que os Estados Unidos mergulharam ainda mais fundo na Grande Depressão, responsável por atirar milhões de americanos para o desemprego.

Um péssimo ano, portanto.

É o ano a que John Fante (1909-1983) regressa em pensamento quase meio século depois, lembrando a penúria vivida no Colorado, numa família de imigrantes oriundos da aldeia italiana de Torricella Peligna, situada nos confins do Abruzzo. O texto póstumo agora editado em português pela Alfaguara destinava-se aparentemente a um romance de grande fôlego, para sempre interrompido por grave doença do escritor. Fante, cego desde 1978, ocupou os últimos anos a ditar textos à mulher – incluindo este, impresso dois anos após o seu falecimento.

Nunca saberemos como seria esse romance que só ficou em projecto. Mas enquanto leitores teremos ganho com a troca: esta é uma excelente novela situada numa América de chocantes assimetrias sociais, com a pobreza a resvalar em ondas convulsas para a miséria.

É uma novela profundamente autobiográfica. Sem mudar o nome da aldeia de origem da família do protagonista – Dominic Molise, alter ego do autor – nem alterar a profissão do pai, um pedreiro que a depressão condenou à inactividade e procurava sustentar a mulher, a mãe viúva e os filhos com apostas numa mesa de bilhar. Dominic, o mais velho dos quatro irmãos, está prestes a fazer 18 anos e sonha ser um astro do basebol na Califórnia, imitando um Babe Ruth ou um Lou Gehrig.

“Sonhadores, éramos uma casa de sonhadores. A Avó sonhava com a sua casa na longínqua Abruzzi. O meu pai sonhava com não ter dívidas e assentar tijolo com o filho ao seu lado. A minha mãe sonhava com a sua recomensa divina: um marido feliz que não fugisse. A minha irmã Clara sonhava em tornar-se freira e o meu irmãozinho Frederick mal podia esperar para crescer e tornar-se um cowboy. Quando fechei os olhos, consegui ouvir o zumbido de sonhos que percorriam a casa, e então adormeci.”

Uma escrita exemplar, sugestiva e comovente do princípio ao fim.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 06.06.17

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 Livro seis: O Tesouro, de Selma Lagerlöf

Tradução de Liliete Martins

Edição Cavalo de Ferro, 2017

98 páginas

 

Na arte literária, como em quase tudo o resto, o tamanho não conta. Provas não faltam. E eis mais uma: esta belíssima saga nórdica escrita pela sueca Selma Lagerlöf, primeira mulher a ser galardoada com o Nobel da Literatura (em 1909, nono ano da distribuição do prémio).

Em menos de cem páginas, aqui se condensam muitos dos tema centrais da melhor literatura de todos os tempos: o amor, a traição, a vingança, o perdão e a morte. A escritora - desde sempre influenciada pelas lendas medievais do seu país, povoadas por espectros, duendes e almas penadas - transporta-nos à Suécia ocidental do século XVI, num pedaço de território costeiro confinando com a Noruega, onde os dias de sol são escassos e a água facilmente se transforma em gelo.

Aqui se desenrola uma espécie de drama shakesperiano em torno de um tesouro amaldiçoado, que condena os seus sucessivos detentores a mortes sangrentas, de que nos vamos apercebendo desde as linhas iniciais através de uma série de aforismos e presságios. O mérito de Lagerlöf (1858-1940) é envolver-nos desde o início como testemunhas privilegiadas do drama e das suas ramificações sobrenaturais - como se assistíssemos a um filme de Carl Dreyer ou Ingmar Bergman - conscientes do carácter mitológico do enredo mas sem nunca nada nos soar a moralismo gratuito.

"É um grande pecado abater uma árvore no rebentar da folha, quando ela está tão cheia de força e não pode morrer. É terrível para um morto quando não consegue ter paz na sua sepultura. Os que estão mortos já não podem esperar nada de bom, não podem ser contemplados pelo amor nem pela felicidade. O único bem que ainda podem almejar é o de poderem descansar em paz serena", escreve aqui, pela boca de uma das personagens centrais, a autora de obras tão marcantes como A Saga de Gösta Berlings (1891) e A Viagem Maravilhosa de Nils Holgersson Através da Suécia (1906-1907).

O Tesouro fala-nos do bem e do mal, tomando partido. Nada aparentemente mais fora de moda para os cultores do relativismo moral. Mas nada mais eterno: este dualismo originou mais de mil anos de excelente literatura.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 05.06.17

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Livro cinco: Coração de Cão, de Mikhail Bulgakov

Tradução de Sílvia Valentina

Edição Alêtheia, 2014

168 páginas

 

Escrita vertiginosamente entre Janeiro e Março de 1925, esta novela constitui uma poderosa sátira à Rússia vermelha. Um retrato impressivo desse colossal embuste a que a propaganda comunista da época chamava o “homem novo” soviético. Propaganda que logo encontrava eco no Ocidente europeu, onde nunca faltaram intelectuais disponíveis a entoar mil hossanas aos putativos ventos da liberdade que soprariam de Moscovo. Como o tempo comprovou, dando razão a uns quantos cépticos, não havia liberdade alguma. Ainda antes de o estalinismo assentar como bloco de betão no antigo país dos czares, já as sementes do totalitarismo estavam lançadas por Lenine, que há cem anos fundou o Estado soviético.

A acção da novela concentra-se num prédio moscovita, pertencente às chamadas classes dominantes no tempo pré-revolucionário e confiscado por “populares” sob o comando de vigilantes vanguardas revolucionárias. Só um irredutível inquilino mantém ao dispor um piso de várias assoalhadas: o professor Filipe Filipovich Preobrajensky, autorizado a manter clínica no domicílio.

O professor não disfarça: é um nostálgico dos tempos antigos. “Um dia, quando tiver tempo, hei-de estudar o cérebro e vou demonstrar que toda esta balbúrdia é simplesmente um delírio doentio.” E assim faz: recolhe em casa um cão vadio, enxotado por todos na rua, alimenta-o e acarinha-o, acabando por sujeitá-lo a uma experiência inédita: enxerta uma hipófise e um par de testículos humanos no animal.

Charik, o transplantado, acaba por transformar-se num homo sovieticus. Bebe vodca a toda a hora, arrota à mesa, odeia teatro por servir de palco à “contra-revolução” e passa a ter como livro de cabeceira “a correspondência de Engels com o… ah, como é que o raio do homem se chama… Kautsky”. Do passado canino quase só conserva uma atávica aversão a gatos.

Bulgakov (1891-1940), romancista e dramaturgo de enorme talento, acabou proscrito pela ditadura, que o condenou ao ostracismo. As suas obras foram proibidas durante décadas: este Coração de Cão, por exemplo, só teve edição legal em 1987, já com os ventos da perestroika lançados por Mikhail Gorbatchov, futuro Nobel da Paz.

O escritor obteve uma vitória póstuma: a União Soviética - que oprimiu toda a criação artística - extinguiu-se, enquanto esta sátira sobreviveu incólume.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 04.06.17

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Livro quatro: Os Filipes, de António Borges Coelho

Edição Caminho, 2015

295 páginas

 

É talvez o período menos conhecido da História de Portugal. Um período que parece relegado pelo nosso inconsciente colectivo para as brumas da memória. E no entanto os sinais desagregadores dos conceitos de pátria e nação neste mundo globalizado deviam levar-nos a analisar com muita atenção estas seis décadas em que, devido a uma gravíssima crise dinástica, estivemos submetidos ao jugo de Castela. Numa relação desigual desde logo em termos demográficos: os castelhanos eram então 6,6 milhões, enquanto os portugueses residentes no rectângulo europeu não excediam 1,5 milhões.

Seis décadas (1580-1640) em que se sucederam no trono de Portugal três reis espanhóis, que em tese garantiam a independência do nosso reino, em regime de união dinástica sob o mando dos titulares da coroa imperial espanhola, que foram asfixiando em grau crescente as nossas liberdades.

António Borges Coelho desvenda-nos o essencial da dinastia filipina num livro que merece elogios a vários níveis: pelo rigor, pelo olhar abrangente e despido de preconceitos. E também pela sua inegável qualidade literária. Os Filipes – quinto volume da História de Portugal, que tem sido editada em segmentos pela Caminho – pode ler-se perfeitamente como obra autónoma.

Foram três reis muito diferentes. Filipe II (o I de Portugal) era neto de D. Manuel I e fez-se valer de poderosos argumentos jurídicos para conquistar a coroa lusitana. Este monarca a quem chamaram Prudente falava fluentemente o nosso idioma e tinha genuíno apego à terra de sua mãe, a infanta D. Isabel. Entre 1581 e 1583 permaneceu 20 meses em Lisboa, fugazmente transformada em capital da Ibéria. “A princípio guardou, no essencial, as leis e privilégios do reino de Portugal e procurou arredar a ‘melancolia’ dos portugueses que preferiam o rei Prior do Crato”, observa o historiador.

Bem diferentes foram os sucessores. Filipe III (II de Portugal) esteve mais de vinte anos sem pisar solo português. Entronizado em 1598, só aqui se dignou vir em 1619: demorou-se quatro meses, quase sem contactar o povo, e regressou de vez a Madrid. O terceiro Filipe (quarto rei com este nome em Espanha) nunca se dignou fazer aclamar em Lisboa ou aqui prestar juramento destinado a “guardar os privilégios do reino”.

Os atentados contínuos à nossa soberania, os impostos cada vez mais pesados, as violações impunes dos nossos territórios coloniais e a mobilização forçada de mancebos portugueses para as guerras europeias de Castela fizeram esgotar a paciência nacional. O golpe dos conjurados no 1.º de Dezembro pôs fim ao domínio castelhano, "reinventando a monarquia portuguesa" e devolvendo-nos a soberania que começara a afogar-se nos areais de Alcácer Quibir.

Fica-nos o aviso: a História pode sempre repetir-se. Até por isso este livro merece leitura atenta.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 03.06.17

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Livro três: A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade

Edição Companhia das Letras, 2017

248 páginas

 

É um dos mais marcantes livros da poesia de língua portuguesa do século XX. Fruto de várias encruzilhadas – na história humana, na vida do Brasil, no percurso literário do próprio autor. A Rosa do Povo traz preocupações sociais e até políticas para o modernismo poético, tingindo-o de uma linguagem coloquial irmanada ao discurso do homem da rua.

O Brasil vivia em ditadura e o mundo atravessava a mais devastadora das guerras quando Carlos Drummond de Andrade publicou esta obra que reúne 55 poemas – escritos entre 1943 e 1945, quase todos em verso livre, sem preocupações de rima ou de métrica, mesclando escrita erudita com vocabulário comum. Uma mescla simbolizada no próprio título: se a rosa convoca o classicismo romântico, o povo alarga os horizontes espaciais e temporais do poeta, situando-o como cidadão do mundo.

Este foi, durante anos, o título de referência máxima na produção poética de Drummond (1902-87), figura ímpar da lírica de expressão lusíada, além de contista e cronista, célebre pelos seus aforismos nunca destituídos de um singular veio irónico e de um olhar compadecido perante as singularidades da natureza humana.

A Companhia das Letras – prestigiada chancela brasileira agora também com sede em Portugal – relançou A Rosa do Povo (1945) numa edição de irrepreensível bom gosto, que honra o espírito desse esteta que Drummond nunca deixou de ser.

É a ocasião propícia para recuperarmos o contacto com o autor mineiro, carioca por adopção, lusófono de raiz e cultura. No seu poema Visão 944, marcado pela dilacerante angústia desse habitante de um planeta em guerra: “Meus olhos são pequenos para ver / a massa de silêncio concentrada / sobre estes campos e estes oceanos / que esperam a passagem dos soldados.” Ou na carta redigida em verso, sob o signo da urgência, aos sitiados de Estalinegrado: “As pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta, / aprendem contigo o gesto do fogo.”

Porque nada do que está no mundo é alheio à sensibilidade poética. Como nos ensinou António Gedeão, aliás contemporâneo de Drummond, “todo o tempo é de poesia / desde a névoa da manhã / à nevoa do outro dia.”

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 02.06.17

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Livro dois: Singularidades, de A. M. Pires Cabral

Edição Cotovia, 2017

157 páginas

 

O conto continua a ser um parente pobre na literatura portuguesa. Como se alguns dos nossos maiores escritores – de Eça a Miguéis, de Sophia a Cardoso Pires – não tivessem sido cultores do género.

A edição de contos neste país que só acorre às livrarias em busca de bestas céleres – para recorrer à deliciosa expressão de Alexandre O’ Neill – é um acto de resistência cultural que merece louvor. E que propicia ao leitor boas supresas.

Aconteceu-me com este voluminho intitulado Singularidades: aqui se agrupam oito histórias autónomas – todas com nome próprio elevado a título. Quadros do quotidiano marcados pela suave intromissão do insólito nas roldanas da rotina. Numa linguagem cuidada e precisa, sem desperdício de vocábulos, A. M.Pires Cabral confirma-se aqui como um arguto observador de comportamentos humanos, sem anátemas nem juízos morais. Basta-lhe sondar o rasto de umas quantas notas soltas na partitura dos dias.

Flávio Cerqueira, analista num laboratório clínico e solitário bebedor nocturno. Honório Rocha, suposto agente de seguros com um segredo por desvendar. Gabriel Guerra, ex-activista universitário travestido em charlatão com bola de cristal. Hipólito Clemente, quadro superior de uma editora assediado por um imbecil armado em intelectual. César Gaspar, pacato organizador de abstrusas antologias. Rodolfo Isidro Palha, hipocondríaco assombrado pela coincidência entre as iniciais do seu nome e as do piedoso voto em latim que ornamenta muitas sepulturas – Requiescat in pace. Artur Pacheco, exaltado “colunista de causas” num jornal de província. Basileu Simões, doente terminal que faz um pedido surpreendente à mulher.

Nem sopro de epopeia nem vanguarda literária: apenas um conjunto de narrativas tocadas pelo prazer antigo de contar uma história. A nossa civilização começou a construir-se assim, graças à sedução do relato oral, entretanto passado a escrito. É bom saber que esta arte de narrar ainda se cultiva com esmero, mesmo com tantas bestas céleres a cruzar o horizonte.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 01.06.17

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Livro um: A Máquina do Tempo, de H. G. Wells

Tradução de Tânia Ganho

Edição Antígona, 2016

156 páginas

 

Há livros que nunca passam de moda: esta é uma das melhores definições de um clássico. Seja qual for o género literário. Neste caso, a ficção científica, de que Herbert George Wells (1866-1946) foi pioneiro e mentor.

O escritor britânico - quatro vezes nomeado para o Nobel - transporta-nos nestas páginas ao sonho máximo do ser humano: dominar o tempo, transformando-o num precioso aliado em vez do implacável adversário que nos vai consumindo células e filamentos nervosos. Dando largas à ideia de que “o tempo é uma quarta dimensão e que o presente normal é uma secção tridimensional de um universo quadridimensional”, como acentuou num prefácio à reedição de 1931.

É literatura, sim. Mas é também, de algum modo, filosofia. Com a marca do socialismo utópico que serviu de bandeira a boa parte da ficção de Wells, inicialmente seduzida pelo darwinismo social e cada vez menos idealista à medida que testemunhava uma atmosfera de iniludível declínio da civilização ocidental, irreversível aos olhos do autor que nos legou A Guerra dos Mundos, O Homem Invísivel e A Ilha do Doutor Moreau.

A Máquina do Tempo surgiu inicialmente em 1895, em vésperas da alvorada de um novo século supostamente destinado a inundar a humanidade de luz.

É neste contexto que decorre a insólita digressão do anónimo Viajante no Tempo rumo a uma sociedade do longínquo futuro, dissociada de realidades tão básicas aos nossos olhos como a família ou a habitação individual. Comunismo implantado enfim no ano 802.601? Assim parecia. “Aquelas pessoas do futuro eram todas iguais”, relata o viajante quando a máquina que o transportou o devolve ao convívio com os seus contemporâneos.

Sonho ou pesadelo? O facto é que as aparências iludem – em qualquer época e em qualquer lugar. Já neste romance de um Wells ainda jovem as páginas finais contrariam o optimismo inicial. Como se delas emanasse um presságio do mundo que havia de dissolver-se na lama das trincheiras, ao som dos tambores de guerra.

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Livros desobedientes

por Fernando Sousa, em 13.06.16

Do Parque trouxe ontem o Movimento perpétuo, da Ana Cristina Pereira, cheio de portugueses de um lado para o outro, em geral obrigados a isso, na nossa história recente, e os Textos dispersos, de Max Stirner, frequentemente visto como um cabelo na sopa de filosofias e movimentos do século XIX. A Ana trouxe-a porque gosta de margens e sabe olhar para dentro das coisas, o Stirner porque pensou no que não devia. 

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 13.06.16

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Livro dez: Bairro Ocidental

Edição D. Quixote, 2015

55 páginas

 

Acompanho com interesse o que se vai escrevendo de poesia em Portugal. Não faltam vozes talentosas, que dominam bem a carpintaria do idioma e exprimem uma paleta larga de emoções poéticas – umas vezes num imediatismo espontâneo quase comovente, noutras vezes num minucioso rendilhado nunca isento de erudição.

Mas não cesso de me espantar com a persistente ausência nesta poesia de um olhar disponível para o mundo contemporâneo. Aqui não me refiro aos chamados versos de intervenção, que confundiam arte literária com propaganda política, mas ao escritor enquanto sujeito de uma oração que exige verbo e complemento directo. A produção poética actual transborda de sujeitos em transe solipsista. Como se esbracejassem no vácuo. Como se a realidade circundante pudesse conspurcar o círculo imaculado mas restrito do seu imaginário.

 

Por vezes penso que falta um Manuel Alegre pronto a sacudir o marasmo desta poesia tão incapaz de interpretar os sinais do vento como de captar os ruídos da rua. Mas não falta. Porque Alegre, com  80 anos enérgicos recém-completados, continua a escrever e a publicar poesia. O seu mais recente título, Bairro Ocidental, estabelece aliás uma curiosa rima interna com os dois iniciais, Praça da Canção e O Canto e as Armas.

Não há amores como os primeiros: meio século depois, o poeta revisita um território afectivo que tão bem conhece. É um território partilhado, a que ele chama pátria sem pedir licença aos patrulheiros de turno.

Indigna-se em ‘Variações sobre o desconcerto do mundo’: “Está tudo inverso: o longe o perto o certo o incerto / no grande desconcerto tudo aberto / direito avesso um verso onde tropeço / e um som disperso um tom onde me perco / horizonte encoberto.”

Magoa-o a ‘Hora inversa’: “Como chegar onde ninguém responde? / Sombra de sombra um rosto vem e foge / não há tempo no tempo não há onde. / Harpas do vento trazem-me o arpejo / de um desejo a morrer na praia extrema.”

Sente-se habitante de um amargo ‘Bairro Ocidental’: “Na Eurolândia tudo é permitido / bruxela-se um país berlina-se outro / um dia ao acordares estás eurodido / e o teu país efemizado é só um couto.”

E canta a ‘Libertação’: “Contra as palavras que não são de aqui / contra o cifrão contra a agiotagem / contra o défice nosso de cada dia.”

 

É uma poesia que se intromete no quotidiano e se compromete com a cidadania sem se submeter a cartilhas de feira ideológica: “A História entrou pelas meias pelas botas / entrou até pelo fato camuflado. / Entrou na pele e ficou lá. Como ser / neutro inespacial intransitivo?”

O melhor Alegre de volta. O melhor Alegre que nunca deixou de estar no local de sempre.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 12.06.16

 

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Livro nove: Entrevistas da Paris Review (vol. 1)

Edição Tinta da China, 2010

343 páginas

 

William Faulkner admitindo que lê os policiais de Simenon “porque, de certo modo, ele lembra-me Tchécov”. Graham Greene confessando que Teresa Desqueyroux, de Mauriac, foi um romance que o marcou “intimamente”. Jorge Luis Borges criticando a escrita "empolada" de Shakespeare.

A literatura vista por escritores: eis o fascínio desta fascinante recolha de entrevistas da quase mítica – mas bem real, pois continua a publicar-se – Paris Review, fundada em 1953 por um grupo de jovens norte-americanos residentes na capital francesa. Cruzando jornalismo com arte literária, desvendou muitas facetas ocultas de alguns dos mais extraordinários poetas, ensaístas e romancistas de todos os tempos. Proeza que outros haviam tentado sem conseguir – pelo menos numa extensão tão vasta.

Só neste volume desfilam – além dos já mencionados – Ernest Hemingway, E. M. Forster, Truman Capote, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow e Jack Kerouac. Uma segunda antologia, de 2014, inclui entrevistas a Ezra Pound, Eliot, Iris Murdoch, Nabokov, Philip Roth, Primo Levi, Jan Morris, Céline, E. Bishop, Joan Didion, Harold Pinter e Marguerite Yourcenar.

Influências, gostos, motivações – de tudo um pouco registam estas conversas, tão sugestivas como um auto-retrato pois “revelam do seu autor até aquilo que ele não supõe poder estar a dizer”, como salienta no prefácio o jornalista Carlos Vaz Marques, organizador e tradutor da obra.

De facto, dificilmente haverá entrevistas tão reveladoras. Ao ponto de Faulkner, em 1956, admitir que não prescinde de “um pouco de uísque” para escrever. E de Kerouac tomar uma anfetamina no encontro com os repórteres-escritores, Ted Berrigan e Adam Saroyan, em 1968. Morreria um ano depois.

Insuperável é o diálogo com Hemingway, conduzido por George Plimpton, que foi editor-chefe da Paris Review durante meio século. Desafio difícil, como bem se percebe pelo rumo da conversa, pontuada por observações sarcásticas do escritor: o autor de Por Quem os Sinos Dobram  detestava falar da sua obra e mantinha os jornalistas à distância. Mas também ele acaba aqui por revelar o que não revelou a mais ninguém.

Escutem-no: “O Velho e o Mar podia ter mais de mil páginas e ter lá dentro todas as personagens da aldeia e todos os modos pelos quais elas ganhavam a vida, como tinham nascido, sido criadas, tido filhos, etc. Há outros escritores que fazem isso de uma forma extraordinária. Ao escrever, somos limitados por aquilo que já foi feito de um modo satisfatório. Por isso tentei descobrir uma forma de fazer algo diferente. (…) A sorte foi eu ter um homem bom e um bom rapaz e o facto de ultimamente os escritores se terem esquecido de que isso ainda existe. Além do mais, o oceano é tão digno da literatura como um homem.”

Uma entrevista é igualmente digna da literatura. Como fica comprovado.

 

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 11.06.16

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Livro oito: Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar

Edição Cavalo de Ferro, 2015

155 páginas

 

O conto, esse género tão mal amado entre nós, tem vindo a ser cultivado por escritores de excepcional talento. Julio Cortázar (1914-1984) é um deles. Em raros livros do século XX a arte de Maupassant e Tchécov ascendeu tão alto como nesta obra publicada originalmente em 1966, durante o longo exílio parisiense deste argentino que era afinal cidadão do mundo.

Não admira que as suas histórias tenham fascinado tantos  cineastas - Antonioni, Godard, Chabrol, Comencini. Pela linguagem, tão original e apelativa. Pela capacidade de efabulação, cruzando banalíssimos quadros do quotidiano com erupções da fantasia mais delirante. Pelo imaginário, que salta consecutivas barreiras cronológicas. Por uma indefinível sensação de estranheza, desamparo e angústia que assalta tantas das suas personagens e se apodera delas, conduzindo-as aos mais inesperados desfechos.

Todos os Fogos o Fogo abre com uma obra-prima absoluta do conto – A Auto-estrada do Sul, gigantesco engarrafamento de trânsito que funciona afinal como metáfora das modernas sociedades de consumo, afogadas em consumismo e depressão. Jean-Luc Godard adoptou-o para cinema, intitulando-o Week-End, tal como Michelangelo Antonioni fizera com o enigmático Blow Up, inserido em As Armas Secretas, livro de 1959.

Está longe de ser a única história com sopro de génio neste volume, bem traduzido do castelhano original por Alberto Simões. Acontece também com A Saúde dos Doentes, brilhante comédia de enganos em família, A Menina Cora, relato polifónico centrado no internamento hospitalar de um adolescente, ou A Ilha ao Meio-Dia, sobre a aventura que nos resta numa era em que todos os horizontes já foram desvendados.

Num conto, ao contrário do que sucede num romance, o tempo joga contra o escritor. Intensidade e tensão são ingredientes fundamentais: Cortázar domina-os, com inegável mestria. E nós, leitores, só temos a ganhar com isso.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 10.06.16

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Livro sete: O Bosque, de João Miguel Fernandes Jorge

Edição Relógio d’Água, 2015

207 páginas

 

Várias leituras (A Brasileira de Prazins, de Camilo, A Velha Casa, de Régio), algumas viagens (Londres, Atenas), breves encontros, divagações sobre pintura ou botânica, incursões pela superfície do quotidiano, apontamentos memorialísticos envoltos em sucinta nostalgia, reflexões amargas em torno das encruzilhadas políticas num país sob vigilância financeira internacional.

Tudo isto se encontra neste diário sereno mas não resignado, pontuado de ocasionais assomos de indignação, tendo por persistente pano de fundo o doméstico bosque a que alude o título – aqui entendido não apenas no sentido literal mas também como refúgio metafórico do escritor, avesso às ilusórias luzes da fama que não ambiciona nem nunca buscou.

João Miguel Fernandes Jorge é poeta mesmo quando escreve prosa. Esta escrita diarística, elegante e luminosa, bem o comprova. Há nela uma voz em toada musical que prefere o sussurro ao grito mas nunca é indiferente à dor do mundo. Como deixa bem expresso no dia de Natal de 2012: “Neste final de ano sinto que nos levam para o fogo da pobreza e que nos golpeiam, em roubo, o sangue do rosto singular de cada um de nós, ao eliminarem-nos a acção, a responsabilidade, a intenção, a liberdade, a emoção diária humana. Fica-lhes a usura que sofremos; e nós, no todo do país, caminhamos para um país sem rosto – um objecto sem sujeito. Um perigoso objecto sem sujeito.”

É um diário que tem início a 21 de Dezembro de 2012 e termina exactamente um ano depois – de algum modo como começa, perpassado de inquieta melancolia: “As palavras entendi-as sempre como um favor. Por isso gosto tão pouco de falar. Espécie de fruto da terra, respiramo-las. Empresto-me a elas para que rompam na escrita o meu silêncio. Melhor seria mesmo dizer, para que irrompam do seu silêncio.”

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 09.06.16

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Livro seis: Axilas & Outras Histórias Indecorosas, de Rubem Fonseca

Edição Sextante, 2012

144 páginas

 

Um dos maiores prosadores da língua portuguesa, mestre na arte do conto, regressa com uma colectânea de pequenas ficções ambientadas na grande selva humana em que gosta de colocar as suas personagens. Aqui desfilam os habituais inadaptados da obra de Rubem Fonseca, filho de portugueses imigrados no Brasil, cultor da economia estilística num estilo que cruza o cinema negro com a reportagem de rua. Numa prosa tensa e depurada, impregnada em doses sábias do vocabulário específico de cada classe social.

São, na maioria, contos de índole policial protagonizados por figuras aparentemente tão normais como qualquer de nós. Mas esta suposta normalidade é mera fachada que mal oculta um conjunto inconfessável de taras e obsessões. O homem fascinado por axilas femininas. A jovem que se exibia nua para os vizinhos. O apaixonado que cortou o dedo mindinho da mão direita como duvidosa prova de amor. O filho de um suicida que seguiu carreira na polícia para desvendar o perpétuo enigma do pai que partiu de vez sem avisar.

Este é um livro nos antípodas da ficção delicodoce agora tão em voga nos circuitos literários. O autor, justamente galardoado em 2003 com o Prémio Camões, apresenta-nos o mundo que melhor conhece – um mundo povoado de gente solitária, despojada de afectos, perturbada pelas mais diversas patologias sociais. Gente do quotidiano brasileiro mas que poderia ser de qualquer outra parte. Gente que pode morar no nosso bairro, na nossa rua, no nosso prédio.

Humanos, todos. Demasiadamente humanos – mesmo quando neles ressoa a voz do habitante das cavernas, antepassado longínquo e afinal ainda tão próximo de qualquer de nós.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 08.06.16

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Livro cinco: Telex de Cuba, de Rachel Kushner

Edição Relógio d’Água, 2015

352 páginas

 

Nada na vida é comparável a uma infância feliz. É disto que nos fala este singular  romance de Rachel Kushner, centrado num punhado de jovens norte-americanos criados na província do Oriente, na Cuba da década de 50, sob o manto ditatorial de Fulgencio Batista. Naquele “paraíso de fracassados”, como alguns pedantes lhe chamavam, já outra ditadura espreitava, protagonizada por barbudos de charuto e caqui, prontos a descer os contrafortes da Sierra Maestra.

Indiferentes às reviravoltas da política, esses adolescentes não imaginavam que viviam os melhores anos das suas vidas naquele aldeamento da United Fruit, próspero império de cana-de-açúcar construído à custa de muito suor de importação, com haitianos forçados a trabalhar ali de sol a sol. A Cuba que os jovens expatriados conheciam proporcionava-lhes uma irrepetível aura de aventura: devolvidos com os pais à nação de origem após o triunfo do castrismo, nenhum deles reviveria esses anos dourados. Esperava-os um futuro cinzento e rotineiro – a vidinha encastoada num subúrbio de aluguer, longe do esplendor tropical que lhes marcou a memória.

Kushner, nascida no Oregon em 1968, tem o dom de surpreender o leitor: antes dela, nunca a literatura nos havia fornecido um retrato tão minucioso da comunidade estrangeira ancorada na Cuba pré-revolucionária. Guiados por ela, viajamos no espaço e no tempo, convivendo com aqueles que lá estavam apenas por empréstimo mas que de algum modo também chamavam sua àquela terra e dela se despediram para sempre numa trepidante madrugada de Ano Novo.

Telex de Cuba, originalmente publicado em 2008, é um dos melhores romances norte-americanos da última década. Servido por uma competente tradução de Jorge Pereirinha Pires que vale a pena enaltecer.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 07.06.16

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Livro quatro: Páginas de Melancolia e Contentamento, de António Sousa Homem

Edição Bertrand, 2013

228 páginas

 

De vez em quando surgem cronistas inesperados na imprensa portuguesa. Fogem do óbvio, do trivial, do previsível. São personagens, no mais lídimo significado da palavra. Interessa-nos tanto aquilo que têm para nos dizer como a forma como dizem – o estilo, a sintaxe, o vocabulário, o imaginário. São originais, em suma. O que nem sempre granjeia popularidade nesta época do pronto-a-pensar, em que quase todos os colunistas da imprensa parecem plagiar-se, cultivando a arte de muito escrever sem nada dizer.

Felizmente há quem teime em fugir ao molde. Como leitor impenitente de jornais, fui conhecendo alguns através dos anos. Artur Portela e a sua verve cristalina. Mário Castrim e os seus verrinosos neologismos. Jorge Listopad e as suas metáforas inconfundíveis. Eduardo Prado Coelho e a sua erudição sem par. Manuel António Pina e a sua perene mordacidade.

Há três décadas, estiveram em voga no extinto Semanário os ‘Bilhetes de Colares’ de um tal A. B. Kotter. Prosa de primeira água, produzida por um suposto cidadão britânico radicado em Portugal. Especulou-se tanto sobre a identidade desse autor como a deste que hoje vos recomendo: António Sousa Homem, octogenário ancorado em Moledo, fiel aos pergaminhos familiares e avesso aos ventos da modernidade, auto-intitulado “reaccionário minhoto” neste volume que recolhe crónicas inseridas no Correio da Manhã e merece ser saboreado com um vagar propício às tardes de Verão.

Mais do que um autor, Sousa Homem é uma figura interessantíssima que vai ganhando forma a partir de pistas fornecidas nos seus textos. E não vem só: traz com ele uma estimulante galeria de personagens secundárias por quem vamos ganhando apreço e afecto.

Sempre com suavidade no trato, sempre com saudável incorrecção política, sempre com apego ao idioma que funciona como traço de união entre todos nós.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 06.06.16

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Livro três: Política, de David Runciman

Edição Objectiva, 2016

192 páginas

 

Este livrinho é um achado editorial. Bem escrito, bem paginado, com boa tradução de Paulo Ramos, fornece ao leitor pistas simples e claras para entender o essencial de um tema tão complexo. Partindo do confronto entre dois países, Dinamarca e Síria. Em qual deles o leitor preferia viver? Pois aí está a primeira lição: a política é sempre feita de escolhas.

Professor da Universidade de Cambridge e colunista no Guardian, o britânico David Runciman tem uma visão nada académica da política. Exibe-a aliás com orgulho neste volume, originalmente publicado em 2014 sob o título Politics.

Como qualquer outra actividade, a política - sustenta o autor - deve ser exercida por verdadeiros profissionais da área. Desiludam-se quantos gostariam de a ver tomada por legiões de académicos e tecnocratas em nome da bandeira da “regeneração” ou qualquer outra daquelas que, em correntes cíclicas, costumam agitar as águas mediáticas.

“O problema é que os académicos estão habituados a pensar que o melhor argumento acabará por vencer e acreditam que são eles que possuem o melhor argumento, o que os deixa susceptíveis e impacientes quando confrontados com a desordem e a confusão do mundo real. Na política não há garantias de que o melhor argumento acabe por vencer.”

O parágrafo transcrito acima ilustra o melhor desta obra que não foge à ironia nem à polémica. Runciman vai escrevendo em permanente diálogo com o leitor que quer saber um pouco mais sobre política. E saberá mesmo se viajar nestas estimulantes páginas por onde passam Hobbes, Weber e Montesquieu, entre outros pensadores. Somos apresentados a todos eles. E ficamos com vontade de partir daqui para outras obras. A intenção do autor é essa.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 05.06.16

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Livro dois: Nada, de Carmen Laforet

Edição Cavalo de Ferro, 2014

249 páginas

 

Se quisermos buscar um Holden Caulfield em versão feminina e europeia, em demanda de um rumo e uma identidade que jamais encontrará, vêmo-la numa adolescente de província que desembarca em Barcelona no rescaldo imediato da guerra civil espanhola, com cinzas e escombros ainda evidentes por todo o lado. Andrea, inadaptada no tempo e no espaço, atravessa como um espectro aqueles que talvez sejam os melhores anos da sua vida sem ter a menor noção desse facto. A casa da avó, onde se acolhe, é um prolongamento da insana vida colectiva daquela época, sufocante e claustrofóbica.

Carmen Laforet (1921-2004) entrou triunfalmente no mundo das letras com este romance vigoroso e desencantado, publicado em 1945 na inóspita Espanha franquista, aqui latente em entrelinhas onde não faltam alusões à guerra. Um livro redigido num estilo deliberadamente frenético e sincopado pela jovem que produziu esta obra-prima da literatura espanhola do século XX quando mal saíra da adolescência.

“É sobretudo no domínio do amor e do sexo que as personagens de Nada parecem viver fora da realidade, numa misteriosa galáxia na qual os desejos não existem ou foram reprimidos ou canalizados para actividades de compensação. Se, em quase todos os aspectos da vida, o mundo do romance delata uma moral pacata até ao inumano, que aliena homens e mulheres e os empobrece, no aspecto sexual essa distorção alcança proporções inverosímeis”, observa com lucidez Mario Vargas Llosa no prefácio desta excelente versão portuguesa que veio colmatar uma evidente lacuna do nosso mercado editorial. Tradução competente de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 04.06.16

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Livro um: O Islão e o Ocidente, de Jaime Nogueira Pinto

Edição D. Quixote, 2015

350 páginas

 

Muito se fala no fundamentalismo de matriz islâmica e nas atrocidades do Dito Estado Dito Islâmico (fórmula cunhada por Nuno Rogeiro que adopto com a devida vénia). Mas poucos sabem explicar, com minúcia e clareza, a dimensão histórica, social e religiosa dos devotos do profeta Maomé, que rivalizam com a fé cristã em expansão global.

Religião maioritária em largas dezenas de países que se estendem de Marrocos à Indonésia, o islamismo continua a ser lamentavelmente ignorado nas suas múltiplas facetas, reduzidas à vulgata caricatural pelo jornalismo dominante, cada vez mais superficial e preguiçoso. É por isso de saudar este ensaio sério, isento e muito bem informado que Jaime Nogueira Pinto nos traz em 13 capítulos densos mas de fácil e apelativa leitura proporcionada pelo estilo fluente do autor, que nunca sacrifica o rigor dos factos às suas opiniões sobre a matéria nem transige com qualquer proselitismo de pacotilha inspirado pelo ar dos tempos.

O Islão e o Ocidente é uma visão serena e lúcida, embora não isenta de perspectiva crítica, aos dramáticos desafios que nos são lançados pelo antigo Islão armado com novíssima e sofisticada tecnologia. Sem esquecer que dentro das vastas fronteiras do mapa islâmico se agita um mundo multipolar, longe do monolitismo que a indústria mediática tantas vezes apregoa.

Chegamos ao fim desta obra mais esclarecidos, mais bem informados e mais dotados de pistas de análise para entender o perturbante vínculo entre política e fé sob a bandeira do crescente muçulmano. De raros livros actuais se pode dizer o mesmo.

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Desilusão no Parque

por Fernando Sousa, em 02.06.16

Noite de feira no Parque, a primeira este ano. Duas compras e uma desilusão. As compras foram Gaspar Ruiz, de Joseph Conrad, de quem tenho quase tudo, e A Asa e a Luz, de Rabindranath Tagore, de quem não tinha nada. A desilusão foi não ter encontrado o que quer que fosse de David Mourão-Ferreira, nem na Presença. Extraordinário!

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"Está vento, assim custa..."

por Isabel Mouzinho, em 26.05.16

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Todas as raparigas da minha geração têm a Anita como uma referência da sua infância. Pelo "Observador", soube que estes livros, que tanto contribuíram para desenvolver o nosso gosto pela leitura, comemoraram há dois dias 50 anos de publicação em Portugal.

Em minha casa não chegámos a ter a colecção inteira, mas havia aqueles que não podiam faltar: A "Anita dona de casa", desde logo, que era o primeiro volume, mas também a "Anita Mamã", a "Anita no ballet" ou a "Anita vai às compras".

Lembro-me de ir à Feira do Livro todos os anos, quando ela era ainda na Avenida da Liberdade, e de me deter longamente em bicos de pés junto da barraca amarela da Verbo Editora, a escolher, com critério e minúcia, um novo título (só podíamos comprar um). Lembro-me, também, de frases inteiras de alguns livros, que repetia com a minha irmã nas mais diversas circunstâncias, e que ainda hoje são uma espécie de "private joke" entre nós.

Muitos vieram depois considerar que o conteúdo destas histórias era demasiado conservador e veiculava uma visão da vida um pouco machista, o que na verdade me parece um exagero. Para nós, as histórias da Anita eram a mistura perfeita de ilusão e realidade quotidiana. Isso explica, talvez, o seu sucesso, que se prolongou por várias décadas. Estes são os primeiros livros que me lembro de ter lido. E relido muitas vezes, durante anos, até quase os saber de cor. 

Só quando já depois dos vinte anos deixámos a grande casa familiar da Conde Valbom é que eles desapareceram fisicamente da(s) nossa(s) casa(s). Acho que não guardei nenhum, a não ser na memória, onde ainda se conservam todos, intactos na sua pureza e simplicidade pueril, de onde às vezes regressam por uma palavra, uma frase, um desenho, e de onde espero que não desapareçam nunca por uma daquelas fatalidades que atiram tudo o que vivemos para o vazio do esquecimento.

Recentemente mudaram-lhe o nome e, sob nova editora, rebaptizaram-na, chamando-lhe Martine para a aproximar do original belga.

Mas para mim e para todas as que, como eu, cresceram com ela, será sempre a Anita, companheira de brincadeiras, descobertas, aventuras.

E hoje, que (re)começa a Feira  - agora no Parque Eduardo VII, onde ficará cerca de duas semanas -, lá voltarei uma vez mais, já não à procura de mais um livro da Anita, mas de outras leituras que, espero, me farão,  de igual modo, um pouco mais feliz. 

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Feira do Livro de Lisboa: sessões de autógrafos

por Inês Pedrosa, em 26.05.16

 

26 DE MAIO

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Inês Pedrosa (16.30); Maria Manuel Viana (16.30); Patrícia Müller (16 h).

 

27 DE MAIO

Helena Sacadura Cabral (18 h); Maria Manuel Viana (17 h).

 

28 DE MAIO

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Cristina Carvalho (16 h); Cristina Norton (17 h); Deana Barroqueiro (16 h); Gabriela Ruivo Trindade (16 h); Inês Pedrosa (17h); Maria Manuel Viana (17 h); Patrícia Reis (17 h); Rita Ferro (17 h); Rita Taborda Duarte (16 h).

 

29 DE MAIO

Alice Vieira (16.30); Ana Margarida de Carvalho (16 h); Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Ana Zanatti(15.30); Helena Sacadura Cabral (15 h); Joana Bértholo (16 h); Maria João Lopo de Carvalho (17 h); Maria Teresa Horta ( 16.30); Patrícia Portela (16 h).

 

4 DE JUNHO

Ana Margarida de Carvalho (16 h); Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Deana Barroqueiro (16 h); Filipa Leal (16 h); Helena Sacadura Cabral (17 h); Inês Pedrosa (16.30); Isabel Rio Novo (16 h); Julieta Monginho (16 h); Lídia Jorge (16.30); Mafalda Moutinho (16 h); Margarida Fonseca Santos (17 h); Maria João Lopo de Carvalho (16.30); Maria Manuel Viana (16.30); Rosário Alçada Araújo (17 h).

 

5 DE JUNHO

Ana Cristina Silva (16 h); Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Ana Zanatti (15.30); Isabel Rio Novo (16 h); Mafalda Moutinho (16 h); Maria Manuel Viana (16.30); Maria Teresa Horta (16.30); Patrícia Müller (16 h); Patrícia Reis (16.30); Rita Taborda Duarte (16 h); Teolinda Gersão (15.30).

 

10 DE JUNHO

Alice Vieira (16.30); Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada (16.30); Inês Pedrosa (16.30); Isabel Zambujal (17 h); Joana Bértholo (16.30); Rita Ferro (16.30).

 

11 DE JUNHO

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Dorothy Koomson (17 h); Helena Vasconcelos (17 h); Luísa Costa Gomes (17 h); Mafalda Moutinho (16 h); Patrícia Portela (16 h); Tatiana Salem-Levy (15 h).

 

12 DE JUNHO

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Dorothy Koomson (17 h); Helena Sacadura Cabral (15 h); Inês Pedrosa (16.30); Rita Ferro (16.30); Teolinda Gersão (15.30).

 

13 DE JUNHO

Alice Vieira (16.30); Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Dorothy Koomson (17 h).

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A Feira do Livro

por Helena Sacadura Cabral, em 25.05.16

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A quem possa estar interessado, este será o meu horário na Feira do Livro

27/5  das18h às 20h      Clube do Autor e Pengouin Random House/ Objectiva
29/5  das 15às !7h         Pengouin Random House / Objectiva
4/6   das17h às 19h       Clube do Autor e Pengouin Random House/ Objectiva

12/6  das17h às 19h       Pengouin Random House/ Objectiva e Clube do Autor

 
Não só para assinar livros mas para ter o gosto da vossa visita. Apareçam!

 

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Escreve a revista sábado sobre a Feira do Livro deste ano:

 

Aqui, destaque para os clássicos e/ou bestsellers portugueses que vão estar a autografar:
- António Lobo Antunes
- Gonçalo M. Tavares
- José Rodrigues dos Santos
- Miguel Sousa Tavares .
- José Rentes de Carvalho
- Mário de Carvalho
- Mário Cláudio
- Eduardo Lourenço

Referência ainda para a presença de alguns autores estrangeiros a dar autógrafos:
- Joel Dicke:
- José Eduardo Agualusa
- John Banville:
- Pepetela:
- Ondjaki:
- M. J. Arlidge:
- Ruy Castro:
- Luis Sepúlveda
- Jerónimo Pizarro

No parágrafo acima já falámos de alguns lançamentos, mas há outros a reter:
de Bernardo Pires de Lima.
de Richard Zimler e Júlio Pomar
de Rui Cardoso Martins
de António Marujo
de José Pacheco Pereira

 

Portanto a feira faz-se sem Alice Vieira, Lidia Jorge, Inês Pedrosa,  Luisa Costa Gomes, Teolinda Gersão, Hélia Correia, Ana Margarida de Carvalho, Gabriela Ruivo Trindade, Tânia Ganho, Cristina Carvalho, Filipa Leal, Ana Cristina Silva, Maria Manuel Viana, Maria João Lopo de Carvalho, Helena Sacadura Cabral, Alexandra Lucas Coelho, Leonor Seixas, Maria Manuel Viana, Rita Ferro, Isabel Alçada, Ana Magalhães, Cláudia Clemente, Marta Vaz, Carla Maia de Almeida, Rute Coelho, Dulce Maria Cardoso, Inês Almeida, Fausta Cardozo, Irene Pimentel, Ana Luísa Amaral, Helena Marques entre outras. Estou esclarecida.

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A festa dos livros

por Isabel Mouzinho, em 15.06.15

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Se há coisa de que eu gosto é de livros. Gosto do cheiro dos livros, do toque e do que eles me ensinam. Não imagino a minha vida sem livros, como também não a imagino sem música. Foi nos livros que conheci muita coisa antes de a viver, foi onde aprendi o sonho e a vida, onde me aventurei por destinos que fiz meus, descobrindo palavras que sempre me acompanham e ajudam a traçar caminhos.

Gosto dos livros como gosto de canetas, na relação de ambos com as palavras e com os mundos para onde me levam, mas também na ligação ao corpo, e em tudo o que há nisso de mais sedutor. E, mesmo reconhecendo as vantagens da era tecnológica,  apesar da minha natural resistência e falta de jeito, não me deixo seduzir pelo livro electrónico, porque me falta a relação física, o lado mais imediato e sensual do toque, dos dedos a folhear o papel, da mão a deslizar na página, que precede a entrega da alma inerente ao acto de ler, como ao de escrever.

Quando eu era pequena, a Feira do Livro era na Avenida da Liberdade. Lembro-me de como gostava daquele passeio feito a pé, depois do jantar, nas noites claras que anunciavam o Verão e as férias grandes. E de como, naquela altura, me pareciam enormes as barracas amarelas e cinzentas, carregadinhas de livros.

Lembro-me de olhar fascinada as capas dos livros da Anita à procura dos que ainda me faltavam na colecção, num tempo em que os livros ficavam quase à altura dos meus olhos.  Depois eram os Cinco e os Sete e as Gémeas e todas as sagas de Enid Blyton, ou as Brigittes de Berthe Bernage, que também tiveram a sua época. E a iniciação aos livros de "gente crescida", a capa castanha de As Pupilas do Senhor Reitor, lisa e sóbria, como me parecia então o mundo dos adultos;  e tantas outras memórias dessas Feiras da minha infância, a que nunca faltava, celebração de fim de Primavera,  uns dias antes de Lisboa explodir em festa, com os bailes e as marchas, as sardinhas e os manjericos.

Entretanto a Feira mudou-se para o Parque Eduardo VII e é agora muito diferente desses tempos já longínquos. Ou sou eu que a vejo com outros olhos, talvez. Houve mesmo anos em que nem passei por lá. Agora sim, volto à Feira, mas não a visito inteira e de uma vez só. Passo várias vezes, em dias diferentes, descubro-a aos bocadinhos, escolho percursos com paragens criteriosamente seleccionadas, ou deixo-me levar sem destino, detendo-me ao sabor das novidades que surgem no caminho, ou por qualquer motivo que me desperta a atenção.

Hoje, na Feira, há muito mais do que os livros e os autores. Há as "vedetas" de televisão e sabe-se lá de onde mais que se misturam e confundem com os escritores; e as barraquinha das farturas e a das queijadas de Sintra; o "Olá fresquinho", e a "língua da sogra", os palhaços e os balões; todo um folclore que tem pouco a ver com os livros,  as letras e a escrita.

Mas, ainda assim, a Feira do Livro já faz parte da história da "minha" Lisboa e, ano após ano, o Parque enche-se de gente nesta altura, em ambiente de passeio e de festa.  Este ano não foi diferente. Pelo menos uma vez em trezentos e sessenta e cinco dias os lisboetas vão ao Parque ver os livros, mexer-lhes e folheá-los. Comprar, até, em calhando. Não sou apologista de que o importante é ler, seja lá o que for. Porque a leitura forma-nos o gosto e a maneira de olhar o mundo. Mas se, para além do negócio que lhe está associado, a Feira servir para levar mais pessoas a gostar de ler e a querer fazê-lo, então ela também terá valido a pena.

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Um dia rasgado, puro e limpo

por Pedro Correia, em 12.06.15

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Passei hoje enfim, ao fim da tarde, pela Feira do Livro de Lisboa. Gostei de matar saudades. Clima óptimo: nem frio nem calor, nem chuva nem vento. Muita gente a circular, mas sem multidões. Novas opções gastronómicas em comparação com anos anteriores, quando pouco mais havia do que inenarráveis farturas e queijadas de Sintra. Espaços de lazer para a miudagem.

Mais frequentados que nunca, os pavilhões dos alfarrabistas - logo à direita de quem sobe. É um sinal dos tempos: voltámos a apreciar coisas antigas, objectos usados. Numa espécie de resistência activa às mil proclamações de falsa "modernidade" que nos inundam o quotidiano.

Deparo com o meu livro em destaque no escaparate da Guerra & Paz (foto supra). Obras dos nossos colegas de blogue Helena e António Manuel eram anunciadas noutros locais. Vi dois ou três livros da Patrícia. Gosto de descobrir estes sinais dispersos da nossa tribo.

 

Passo ao lado das barracas de editoras que fazem promoção activa da escrita acordística. Felizmente há outras, as que resistem: Antígona, Alfaguara, Babel, Planeta, Cavalo de Ferro, Gradiva, Tinta da China, Alêtheia, Relógio d' Água, Parsifal, Sistema Solar, Abysmo, Labirinto de Ideias. Além da Guerra & Paz.

Nas "sobras" da Assírio e Alvim, por apenas nove euros, encontro uma das mais fascinantes autobiografias do século XX português: O Mundo à Minha Procura, de Ruben A., grande escritor hoje tão injustamente esquecido.

 

Compro um livro que tinha folheado há dias e me pareceu muito bom, além de ter um título fabuloso: Gente Melancolicamente Louca. Contos de Teresa Veiga, com chancela Tinta da China.

Continuo a coleccionar obras de escritores galardoados com o Nobel. Trago mais uma: A Casa e o Mundo, de Tagore. Edição já antiga, da Minerva, mas em estado impecável. Quatro euros, realmente a preço de Feira.

E por 7,5 euros - excelente preço para um livro de capa dura, com 534 páginas - trago também, do pavilhão da Cotovia, Século Passado, recolha de crónicas publicadas na imprensa por Jorge Silva Melo, uma das melhores penas portuguesas contemporâneas. Terei lido a maior parte delas, sobretudo as originalmente dadas à estampa no Público. Mas em livro ganham outro sabor, adquirem nova intensidade.

Já é uma edição de 2007, no entanto chega-me às mãos muito a tempo.

Abro-a ao acaso, deparo logo com uma crónica extraordinária. Página 174, "Paulo Rocha: Verdes Anos, filme da minha vida". Um parágrafo: "Ele havia Salazares, a Pide era mesmo ao lado do São Luiz, a censura não estava longe, mas aquele foi um dia rasgado, puro e limpo, o dia sob a ditadura em que vi os Verdes Anos."

 

Antes de abandonar o Parque Eduardo VII sinto fome. Mastigo uma bifana ali mesmo, numa rulote, e bebo uma imperial geladinha. Tal como costumo fazer após os jogos de futebol quando a minha equipa vence.

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A quem interessar...

por Helena Sacadura Cabral, em 30.05.15

E já agora aqui ficam os dias estabelecidos em que me encontrarão sorridente na Feira do LIvro:

Dia 29 de Maio, das 17h30 às 18h45 na Penguin Random House ( antiga Objectiva) e às 19h00 no Clube do Autor

Dia 31 de Maio, às 16h30 no Clube do Autor e a partir das 18:00 na Random House
Dia 6 de Junho, às 16:30 na Random House e às 18h00 no Clube do Autor
Dia 13 de Junho, às 16h30 no Clube do Autor e às 18h00 na Random House
 
Acredito que lá aparecerei mais vezes. Mas estas são seguras!

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Uma séria concorrente...

por Helena Sacadura Cabral, em 30.05.15

Várias pessoas, muito simpaticamente, vêm perguntando se este ano não vou à Feira do Livro. Claro que vou. Havia de ter graça uma Feira destas sem a minha presença!

Como sabem, a minha família tem uma natural aptidão por estes encontros e eu não sou diferente. Vou lá estar, sim senhora. Será já amanhã. E depois, em vários dias. É a minha oportunidade de falar com os meus leitores e não perco esse contacto directo por nada.

Assim, quem quiser livros assinados e um sorriso prazenteiro é só aparecer no Clube do Autor ou na Random House - antiga Objectiva - e dar um ar da sua graça.

Não serei o Paulinho das Feiras, porque não vou à caça do voto, mas sou a Leninha das Feiras que, não lhe ficando atrás, é uma séria concorrente em simpatia... O humor é mesmo o que me salva!

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Outra vez a Feira

por Pedro Correia, em 08.06.14

 

Faz agora um ano, frequentei a Feira numa perspectiva diferente: como autor. Promovendo e autografando o meu próprio livro. Desta vez volto a calcorrear as alamedas do Parque Eduardo VII, novamente juncadas de pavilhões, apenas na qualidade de leitor. Revivendo um fascínio antigo, que vem dos confins da adolescência, por este mesmo certame - agora na 84ª edição.

Feira do Livro de Lisboa: ocasião única para escritores e leitores conviverem no mesmo espaço.

Neste aspecto, a tradição ainda é o que era. Ontem regressei lá: a tarde estava soalheira, havia imensa gente. Folheando títulos, bebendo café, conversando com amigos, transportando bebés, algumas carregadas com sacos, outras de mãos a abanar. Mas todos os caminhos, por esta altura, voltam a dar ao Parque.

 

No espaço Leya, autêntica feira VIP das letras lusófonas: os utentes de literatura acotovelam-se em busca de mais um livro, à cata de um novo autógrafo. Lá estão Mia Couto, Gonçalo M. Tavares, Pepetela, Nuno Júdice, Inês Pedrosa, Maria do Rosário Pedreira, Gabriela Ruivo Trindade. Duas japonesas, derramando sorrisos, parecem idolatrar António Lobo Antunes como se estivessem perante um astro de Hollywood, Clint Eastwood recém-regressado de Madison County ao volante de um Gran Torino.

Há editoras de que gosto muito, outras nem por isso. Entre as primeiras, destaco a Guerra & Paz (et pour cause), a Gradiva, a Cavalo de Ferro, a Antígona, a Relógio d'Água, a Bizâncio e a Tinta da China. Entre as segundas, aquelas que abraçaram com mais entusiasmo o acordês, como a Caminho, a D. Quixote e a Civilização - esta última dói-me ainda mais porque chegou a ser uma das minhas favoritas (um dia falarei disso aqui).

Um senhor do Círculo de Leitores pretende oferecer-me a revista na esperança de que me torne cliente. Já fui, deixei de ser. Explico ao senhor: enquanto mutilarem consoantes ao sabor de conveniências políticas de ocasião não voltarão a contar comigo.

 

Nem só de livros vive o homem: o pão também faz falta. Este ano a Feira está mais bem servida de comes e bebes, com amostras de produtos regionais - da ginjinha de Óbidos aos pregos com carne mertolenga.

Cumprimento Francisco Louçã, que sobe em passada larga: custa-me ver tantos políticos competentes, à esquerda e à direita, contentarem-se hoje em dia com as mensagens que vão predicando nas tribunas televisivas. É o caso do fundador do Bloco de Esquerda, um dos melhores deputados de que me recordo em São Bento.

Mais escritores, de diversos géneros: Ana Maria Magalhães, Nuno Costa Santos, Onésimo Teotónio Almeida. Revejo o professor Galopim de Carvalho. Mário Mesquita apresenta um livro com o padre António Rego ao lado. José Gil, acompanhado do editor Francisco Vale, aguarda caçadores de autógrafos. Também Paulo Morais, da associação Transparência e Integridade. Eduardo Lourenço, com os seus joviais 91 anos, muito cumprimentado por quem passa.

 

 

O que trago?

Ensaios Escolhidos, de Virginia Woolf (Relógio d'Água, 2014). O Pátio Maldito - novela de Ivo Andric, Nobel da Literatura 1961 (Cavalo de Ferro, 2008). O Visitante Real - romance de Henrik Pontoppidan - Nobel da Literatura 1917 (Diário de Notícias, 2004). Em Queda Livre - romance de William Golding, Nobel da Literatura 1983 (Texto, 2008). Filhos e Amantes - romance de D. H. Lawrence com tradução de Cabral do Nascimento (Público, 2011). A História não Acaba Aqui - textos políticos de Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor, 2012). E Puedo Prometer y Prometo, de Fernando Ónega - biografia de Adolfo Suárez, um dos políticos que mais admirei desde sempre (Plaza Janés, 2013). Além de vários exemplares da inesquecível revista Tintin que descubro no pavilhão de um alfarrabista. Regressando por momentos a alguns dos melhores dias da minha infância.

Vejo dondocas mirando as demais com estudado desdém do topo desses himalaias do calçado que são os saltos-agulha: não cesso de me espantar com os milagres de equilíbrio operados por estas donzelas cuja obsessão pela elegância as leva a tratar tão mal os próprios pés. Um velhote risonho diz para uma jovem: "Eu, com a minha mulher, a dançar a valsa e o tango, ganhávamos os prémios todos."

 

A Feira de ontem, a Feira de hoje, a Feira de sempre. Um dos momentos do ano em que sinto até que ponto Lisboa pode ser uma cidade feliz.

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A Feira e o refugo

por João Campos, em 03.06.13

Se há coisa de que os livros não gostam - para além das labaredas que muitos stocks esquecidos em armazém acabam por conhecer - é de chuva e humidade. Também por isso é de louvar que a organização da Feira do Livro de Lisboa tenha percebido, após vários anos a insistir com o arranque do certame ainda em Abril e a prolongá-lo só até meados de Maio, que talvez a coisa corra melhor mais perto do Verão (nem sempre o óbvio é evidente, como se vê). Na única ocasião em que me desloquei à Feira no ano passado, o cenário era desolador: pouca gente no parque, bancas envolvidas em plástico, livros humedecidos, e uma carga de água das antigas. Já este ano, o inverso: duas vezes até ao momento, sempre com sol. Muito sol e muito calor, como apetece.

 

Os livros agradecem. E eu também, mesmo sendo mais dado às estações frias. 

 

Livres das coberturas baças de plástico, os livros ganham protagonismo - como facilmente se vê na banca colorida da Tinta-da-China, que em termos de capas faz (ou devia fazer) todas as outras editoras presentes corarem de vergonha com as suas stock photos indistinguíveis e ilustrações de gosto duvidoso. A aposta - quase teimosia - da editora num design simples mas elegante para as capas dos seus livros é louvável - e se não compro lá nada, vontade não falta. Depois há as quintas particulares da Leya e da Porto Editora (os "latifúndios" a que o Pedro aludia ali abaixo, num comentário certeiro), fechadas sobre si mesmas como se fossem (e são) feiras dentro da Feira. Passo por lá de fugida - abomino o ambiente de centro comercial que se gera ali em pleno Parque Eduardo VII, ao qual não faltam os alarmes de entrada e saída; pelo caminho, encontro entre os descontos quatro exemplares perdidos da velha colecção policial, de capa preta - exilados do armazém, decerto fugidos à incineradora que consumiu os seus parentes azuis. Mas não me detenho, nem na secção de banda desenhada da Asa - convidativa, decerto, mas com preços pela hora da morte (namoro um tomo do Bilal há anos, mas o preço, o preço). Se bem que, no que aos preços diz respeito, os nossos mastodontes editoriais não estão sozinhos - não fossem os caixotes de refugo e fundos de armazém que várias editoras arrumam ao lado das respectivas bancas e a minha carteira só se abriria para café e água. 

 

Mas vale-nos a nós, leitores apertados, o refugo editorial, as edições em segunda mão, as obras esquecidas; e se nos alfarrabistas (onde resisto à tentação de completar por fim a minha colecção de Astérix) a procura por alguns volumes mais raros se revela impossível, já nos caixotes da Devir - cujas capas ilustradas de comics norte-americanos e graphic novels de referência serão talvez as únicas a competir com as cores da Tinta-da-China - encontram-se alguns tesouros em saldo. E porque o tempo não é de desperdiçar nem tesouros nem saldos, não resisto a trazer por menos de metade do preço o décimo-segundo volume de The Walking Dead, a banda desenhada do momento, apesar de a minha colecção pessoal (construída devagarinho ao longo dos últimos dois anos e meio) ainda só ir no nono paperback. A ler no futuro, quando as promoções ou as finanças permitirem comprar os dois entretantos. E o tesouro maior: Hellblazer: All His Engines, na edição portuguesa da Devir desta aventura singular do célebre exorcista britânico John Constantine, criado nos anos 80 por Alan Moore, Steve Bissette e Jamie Delano (com inspiração em Sting) para a DC Comics. Uma graphic novel que procurava há anos a um preço razoável (o último exemplar que passara pelas minhas mãos, há meses, custava 30 euros), ali, esquecida no caixote ao sol. Ainda não chegou à estante; para já, o lugar de banda desenhada de mesa de cabeceira pertence-lhe.

 

 

Para trás fica a minha curta lista de compras para a Feira, improvável salvo milagre de promoção fortuita. Mas se mais nada trouxer do Parque, já me dou por satisfeito.

 

(fora do texto, mas a merecer destaque: foi um prazer encontrar o nosso Pedro na cadeira de autor)

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Encontros e desencontros

por Pedro Correia, em 02.06.13

 

Foi uma sensação estranha, estar pela primeira vez numa Feira do Livro, nesta tarde de sol, do outro da barricada. A dar autógrafos, em vez de os pedir. Durante muitos anos, fui acumulando autógrafos de escritores - e tenho alguns preciosos, pelo menos para mim. Dos que solicitei e obtive em tempos idos no Parque Eduardo VII talvez nenhum tão precioso como um de Agustina Bessa-Luís, na sua caligrafia clara, cuidada e compreensível: quem sempre se interessou por grafologia, como eu, fica atento a estes pormenores.

Ia pensando nisto durante a tarde, sentado (à sombra) junto ao pavilhão da Guerra & Paz, enquanto escutava o anúncio, pelos altifalantes, de que noutros pontos da Feira os mais diversos autores compareciam para sessões de autógrafos. Gostaria de ter passado por lá, mas mantive-me no meu recém-estreado lugar de autor: vendo chegar gente amiga, como a Patrícia e o João Campos, conhecendo pessoalmente leitores com quem já mantivera muitos diálogos virtuais aqui no blogue, falando de tudo um pouco com o Manuel S. Fonseca, meu editor, e o professor Alexandre Castro Caldas, meu parceiro na colecção "politicamente incorrecta".

 

Uma das celebridades que hoje acorreram à Feira foi o chileno Luis Sepulveda, de quem li há vários anos um livrinho que me fascinou: O Velho que Lia Romances de Amor. Eis um escritor de quem gostaria de ter um autógrafo.

Gente a subir, gente a descer. Cada vez mais gente, aproveitando a tarde ao ar livre já a cheirar a Verão. Inicialmente poucas pessoas com sacos de livros na mão, mas o número aumenta visivelmente à medida que as horas passam. Chega um amigo que há muito não via, pede um autógrafo. Outro amigo, com a família, chega também com um livro para eu assinar. O altifalante anuncia mais celebridades noutras parcelas do Parque: Fernanda Serrano, Santana Lopes, Pacheco Pereira, Urbano Tavares Rodrigues.

 

Ainda quis ir dar um abraço à nossa Helena, mas já não a encontrei quando retornei à condição de simples leitor, calcorreando os pavilhões. O abraço acabou por ser dado ao Francisco José Viegas. Edmundo Pedro, figura quase mítica da oposição ao salazarismo, andava por ali. Muito discreto, acompanhado de familiares, também o historiador António Borges Coelho. Maria Inês de Almeida, sorriso radioso estampado na face, assina livros: poucos vão publicando tanto como ela. Um veterano fotógrafo da Gente espreita rostos conhecidos que lhe permitam bons instantâneos. Vejo Rentes de Carvalho, mais adiante José Luís Peixoto, cheio de tatuagens e de leitores em fila de espera para o autógrafo. Mais numerosa só a do público que acorre ao encontro de Fernanda Serrano, que conta como saiu vitoriosa de uma luta contra o cancro num livro que constitui, até ao momento, o maior sucesso de vendas do ano.

Reencontro e cumprimento autores e editores que fui conhecendo em fases diversas e por quem tenho muito apreço: Ernesto Rodrigues, Guilherme Valente, José Adelino Maltez. Passa por mim Daniel Sampaio. Reparo em Ricardo Araújo Pereira, recém-premiado, também na Feira como autor: estranhamente, não parece muito procurado pelos caçadores de autógrafos.

 

E chego-me aos escaparates. Os Contos Completos, de Fernando Pessoa, estão como livro do dia na Antígona: sete euros e meio, nem hesito em comprar. Mais contos, mas de Rosa Montero: Amantes e Inimigos, com a chancela da Presença. Cinco euros, também não hesito. No pavilhão da Cavalo de Ferro, deparo com Khadji-Murat, de Tolstoi. "Aquela que considero ser a melhor história do mundo, ou pelo menos a melhor que li até hoje", comentou Harold Bloom, no seu Cânone Ocidental. Quanto custa? Sete euros e meio, tanto como os contos do Pessoa. Marcha também para dentro do saco das compras. Tal como Fome, de Knut Hamsun, da mesma editora. No espaço da Leya, cada vez mais policiado e atulhado de mirones à cata de "famosos", deparo com a obra completa de Nuno de Bragança - seis títulos - por apenas dez euros. Quem saberá hoje quem ele foi?

E eis que se cruza comigo Luis Sepulveda, acompanhado do seu editor português. Despede-se da Feira, pelo menos por hoje. Um dia hei-de conseguir enfim um autógrafo dele...

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Crónica da Feira do Livro II

por Patrícia Reis, em 02.06.13

Há um grupo de mulheres na Feira do Livro que se destaca. As pessoas passam a vê-las partilhar histórias, as conversas não são cruzadas, são delas, há um bolo, risos, comentários, acontecimentos recentes. Uma adolescente observa num silêncio constrangido. Do outro lado, o sol esmagador e tirano andou a fazer das suas, mas pouco importa por se saber, assim sem grandes dramas, que as conversas se mantêm, num sítio ou no outro, os livros são diferentes, os leitores aparecem com coisas que nunca vimos e há ainda aqueles que nos intimidam a trazer para a feira o que já não existe em stock. Os sorrisos convivem com as farturas e, para alguns, há chã à Cardoso Pires, em sua homenagem, um copo de whisky que o José Francisco descobre e que lá traz com um sorriso algo felino, enquanto a Cecília se abana com um leque e se desdobra para que nada falta a ninguém, nem mesmo a mesa que pode perder o balanço, o piso é irregular.

O Pedro Correia lá está, animado, no acordo do desacordo ou no desacordo do acordo, a minha Pátria é a minha língua e, como se diz em Luanda, desconsegui de perceber este acordo e já sei que o senhor Pessoa escrever o livro do desasossego com c com cedilha, mas quem mais saberá e que importância terá tudo isto? Na verdade pouco ou muita, tudo depende da hora do dia e do meu estado de espírito, como o post é meu, a coisa fica por aqui. Dois beijos e um sorriso, olá Pedro, como estás? Que bom ver-te. Passo para o outro lado. Leio Leya. Leya na praia, na prisão, no carro, na cama, porra, leia sff e preferencialmente um dos meus livros ou dos meus amigos, por nos esforçarmos tanto e não sermos o Dan Brown e não queremos, atenção, não queremos... Nem por sombras, cinzentas ou outras. Essas não as vejo, sendo míope Deus é misericordioso comigo. Há um placard gigante que mostra o Papa Francisco com os seus sapatos pretos e as pessoas tiram fotografias. Afinal, está ali por alguma razão, é aproveitar. Olha, mãe, é o Papa. Na Feira do Livro de Lisboa, nem precisamos de ir a Roma, ah? Pois.

A Patrícia Portela trouxe sapatos de Antuérpia, o João Ricardo brinca com a minha triste história da senhora que perguntou: tem cancro, não tem? Decidimos todos, com a Inês e a Maria Manuel, que é uma boa frase para começar um livro. Depois recordamos todos os que têm e ainda os amigos que dizem que vêm à feira para comprar livros sobre essa mesma temática, dá-me um arrepio, prefiro o bolo de laranja da Cristina Carvalho ou um sorriso do jornalista do Jornal de Letras que todos tratam por Luís e eu por Ricardo. O tempo passa e passa rápido, o telefone perde-se. Caiu. Aparece o Nelson Sauté com a Ana Juliana, a sua mulher. Ele promete um livro para o final do próximo ano e a Cecília a sorrir, a dizer que sim, pois. E eu: és preguiçoso. O Nelson ri-se e fomos, a Inês e eu, para o outro lado e parece que ando a fazer piscinas, de lá para cá e de cá para lá, mas é mesmo assim. Um miúdo pequeno pede-me um autógrafo num livro da colecção O Diário do Micas, volto a pensar na falta de vergonha da Quidnovi, mas já não espero nada e o miúdo tem um sorriso lindo e uma t-Shirt com graça.

O Urbano Tavares Rodrigues tem uma fila que o aguarda e o filho vem, com os olhos cheios de mar, silencioso, perto da mãe. Marcello Mathias deve conspirar alguma coisa com o João Vasco, não ouvi nada. Mais lá para o fundo vejo o Miguel Carvalho e depois a entrada da Fernanda Serrano e a menina das farturas pisca-me o olho e nada disto está por ordem e eu não me ralo muito.

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Hoje à tarde, na Feira do Livro

por Pedro Correia, em 02.06.13

 

Hoje à tarde estarei na Feira do Livro de Lisboa onde assinarei com todo o gosto exemplares destas Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico, no pavilhão da Guerra & Paz.

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Muitos e bons livros

por Pedro Correia, em 01.06.13

 

Segunda incursão à Feira do Livro de Lisboa - com muita oferta mas também muita procura. Repete-se o ritual de todos os anos: é uma iniciativa que serve de pretexto para passeios em família nas alamedas do parque Eduardo VII enquanto espreitamos os títulos nos pavilhões, reencontramos velhos conhecidos e nos cruzamos com gente famosa - da literatura e não só.

É um acontecimento cultural e social que se renova com regularidade cíclica na capital - e que, lamentavelmente, este ano não ocorreu no Porto, após décadas de existência da feira, sem que isso tenha causado sequer um leve tremor de indignação no pequeno núcleo de irredutíveis de Rui Rio, muito influente em certos circuitos de opinião, escrita e falada.

E é sobretudo uma excelente oportunidade para encontrar bons saldos (que não faltam, por exemplo, na Relógio d'Água, muito procurada nestes dias por leitores de todas as idades).

Ontem trouxe da feira dois livros: Confusão de Sentimentos (Verwirrung der Gerfühle), uma colectânea de contos de Stefan Zweig, com a marca de qualidade da editora Antígona, e O Intruso (Intruder in the Dust), um romance de William Faulkner ainda pré-Nobel da Literatura, relançado em Portugal há dois anos pela Bertrand. Duas obras que se arriscavam a ser atiradas para os famigerados "fundos de armazém" agora tão em voga - ou mesmo a ser destruídas, como tantas vezes vai acontecendo quando decorre um certo prazo, perante a generalizada indiferença das sumidades culturais da nossa praça.

Confesso que me faz impressão esta espécie de recriação ao vivo do cenário de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury - um dos livros da minha vida. Quem nunca o leu, é capaz de o encontrar na feira. Talvez também em saldo, talvez ainda a tempo.

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A Feira do Livro

por Helena Sacadura Cabral, em 27.05.13
Vencendo a intempérie do clima em Lisboa, lá estive na Feira do Livro na sexta, sábado e Domingo e lá estarei todos os próximos fins de semana, à excepção do 8 de Junho, em que irei ao Porto receber um prémio.
Muita gente me pergunta porque é que ali estou tantos dias, quando se sabe que é uma tarefa cansativa, sobretudo para quem, como eu, trabalha com três editoras. Respondo sempre que é o mínimo que eu posso fazer por quem compra os meus livros e vai àquele espaço para me ver e dar um abraço.
De um ponto de vista pessoal, quem publica deve ter uma componente de proximidade e de acessibilidade face aos seus leitores. Eu sei que os "intelectuais" não pensam assim e até há muitos que nunca foram à Feira. Mas eu não sou intelectual, não escrevo para intelectuais. Sou, sim, alguém que tem prazer em partilhar "estórias" e pedaços de si com aqueles que se identificam com as suas palavras. Por isso, estar com essas pessoas e conversar um bocadinho com elas, é uma forma humanizada de lhes dizer "muito obrigada"!

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A Feira

por Ana Cláudia Vicente, em 23.05.13

A C. entrou-me hoje pela biblioteca a perguntar se amanhã ia à Feira, e eu sem saber que a dita já tinha começado. É uma entre alguns dos miúdos do oitavo que andam quase sempre com um livro a jeito, naquele modo draga-minas no qual tanto faz marchar Agatha Christie como Stephenie Meyer, J. R. Tolkien ou J.K. Rowling. Já juntou o que lhe faltava para lá ir em missão de resgate dos dois volumes desejados. Abriu o site para me mostrar o programa, quis explicar-me onde estavam os livros do dia. As boas dúzias de quilómetros para lá e para cá vai fazê-las com os pais, a quem diz ter dado pré-aviso de, mesmo em caso de chuva, haver total precisão de gelados.

 

Ser professora é, em vários dias, entre muitas coisas, ver simplesmente gente a correr bem. Um privilégio do caraças.

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Livros num dia já com calor de Verão

por Pedro Correia, em 23.05.13

 

Primeira incursão à Feira do Livro de Lisboa, ao princípio da tarde de hoje, ainda antes da sessão de abertura oficial. Vou para espreitar, mas trago de lá algumas compras. A preços módicos, como eu gosto. Excepto uma extravagância - provavelmente a única que este ano ali farei.

Atraiu-me desde logo um álbum da Taschen sobre cinema negro a um preço especial: 6,5 euros. Rapidamente fiquei com ele: acabo de o pôr numa estante cá de casa.

E que mais?

Da Relógio d'Água, trago Paixões Passadas, uma colectânea de prosa jornalística assinada por Javier Marías - talvez o melhor escritor espanhol da actualidade. No pavilhão da Presença, fixo-me noutro grande nome da literatura espanhola contemporânea: Rosa Montero. Também em textos jornalísticos, sob o título Paixões. Ela explica num pequeno texto introdutório: trata-se de uma série inicialmente publicada no suplemento dominical do diário El País "sobre as grandes paixões da história". Mais um para o saco das compras.

Na Tinta da China encontro dois títulos que constavam da minha lista mental de prioridades, já a pensar nas férias de Junho: Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco, a biografia do saudoso escritor e jornalista lançada em 2012 por Nuno Costa Santos, e Um Gentleman na Ásia, de Somerset Maugham - um dos mais recentes títulos desta editora, de que muito gosto.

De um alfarrabista trago uma novela de Tolstoi que nunca li, A Sonata de Kreutzer, a um preço quase simbólico. Três euros.

E despeço-me enfim deste dia inaugural com a já mencionada extravagância: o grosso volume (483 páginas) de entrevistas dadas por Jorge de Sena entre 1958 e 1978 (ano da sua morte), agora enfim reunidas em livro. Outra obra recém-editada, com a chancela da Guimarães.

Muitas horas de leitura em perspectiva. Livros que ficam como lembrança deste primeiro dia já com calor de Verão.

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Bem hajam!

por Helena Sacadura Cabral, em 13.05.12

 

Este ano a Feira do Livro ajudou-me muito a voltar ao mundo real, apesar de ter sido muito estafante devido ao calor. Mas recebi tanto, mas tanto, carinho das pessoas que me procuraram, que não tenho o direito de me queixar.

Foram esses abraços carinhosos, esses beijos sentidos que me devolveram a uma certa forma de vida quotidiana. 

Se fosse possível retribuir o muito que recebi, não me chegariam os anos que ainda me restam, para o poder fazer. O que prova bem como sabemos ser solidários com a dor daqueles de quem gostamos. E aquelas pessoas mostraram que me estimam.

Não posso deixar de estender este agradecimento aos muitos que no meu blogue Fio de Prumo e no Delito de Opinião me deram o seu incondicional apoio. Bem hajam todos!

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A Feira em 2012

por Ana Cláudia Vicente, em 08.05.12

 [Foto: via Desacordo.net]

Fui num pé à sacramental Feira há já vários dias, e lá aproveitei algumas daquelas pechinchas especializadas (coisas do INCM, alfarrabistas & companhia) que todas juntas, só ali.

No meio de muito desconforto e bastante animação, fiquei feliz em dar conta que boa parte dos seus frequentadores estão, finalmente, adaptados à velha máxima "não há mau tempo, só mau equipamento". Vi carrinhos de bebé quitados com os mais variados e coloridos impermeáveis; pais ataviados como quem comprou bilhete para ir à Patagónia; casais de miúdos com aquela pinta de quem acabou de chegar da viagem à Serra da Estrela. Poucos com medo da chuva e de molhar o sapatinho. Sempre gostei deste ambiente  todo-o-terreno.

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O Pingo Doce no Parque Eduardo VII

por José Gomes André, em 03.05.12

No 1º de Maio a Feira do Livro estava cheia de gente que se acotovelava nos corredores, procurando beneficar de promoções elevadas, várias vezes superiores a 50%, em stands onde trabalhavam diversas pessoas durante longas horas. 1º de Maio, pessoas a trabalhar, caos generalizado, promoções vistosas, aparente "dumping" das editoras. Nem uma palavra - uma - nas redes sociais, nos jornais, nos media, nos blogs. Porquê? 

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Feira do Livro?

por João Campos, em 02.05.12

No Sábado, e excepcionalmente, fui àquilo a que chamam de "Feira do Livro de Lisboa". Para além da imbecilidade da organização, que não se lembrou de colocar uma única caixa multibanco no local e insistiu, com o sucesso que se vê, em marcar a coisa a finais de Abril e inícios de Maio, quando chuva e trovoada são mais do que certas (e toda a gente sabe que se há coisa de que os livros gostam, é de chuva): um espaço comercial exterior que utiliza, junto da entrada e saída de zonas específicas e muito bem delimitadas, alarmes com sensores anti-roubo não é uma feira - é uma loja, um centro comercial a céu aberto. Uma feira é mais ou menos caótica, mais ou menos espontânea, mais ou menos livre. Para aquilo que está ali no Parque Eduardo VII, prefiro a Fnac. Evito subidas e descidas, sempre tenho desconto e não me molho. E não tenho de ver os livros através de plástico molhado.

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A célebre Feira do Livro de Lisboa de 1996

por José António Abreu, em 02.05.12

No final da década de oitenta e início da de noventa, a Feira do Livro de Coimbra era uma coisa relativamente pequena, organizada na Praça da República. Mais relevante para o que se segue, à época eu era forçado a contar os escudos com uma atenção que nem Scrooge nem o Tio Patinhas desdenhariam: todos os que não iam para comida e outras despesas correntes, tinham de ser divididos entre livros, filmes e discos (é verdade, tirando uma ou outra cassete gravada a partir de discos alheios – ah, a saudosa TDK SA –, a música pagava-se). Assim sendo, creio nunca ter comprado mais do que dois ou três livros numa Feira do Livro de Coimbra.

 

Em Março de 1996 vim para o Porto. E em Maio estava em Lisboa, numa formação de várias semanas. A Feira do Livro foi no Terreiro do Paço e eu, passe o trocadilho, passei-me. Fui lá quase todas as tardes, maravilhado com tantos expositores, tantos livros, tantas pechinchas. Espantei Mário de Carvalho, em pleno rescaldo do sucesso de Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde e Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto, quando, ao estender-lhe para rubricar um exemplar de A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, lhe coloquei a inteligentíssima pergunta: «É por uma estratégia anti-marketing que escolhe sempre títulos tão compridos para os seus livros?» (Ele tartamudeou que não, que até já tinha escrito um chamado Os Alferes, que é dos títulos mais curtos que se podem arranjar, mas decorrida meia hora ainda se notava que ficara a pensar no assunto.) Fui comprando livros (as pechinchas, caramba) e no final da semana enfrentava um problema logístico: vinte e três livros para transportar no Alfa de Lisboa para o Porto e apenas uma pequena mala, já quase totalmente preenchida com roupa suja, onde o fazer. Foi uma obra de engenharia de precisão de que ainda me orgulho, seleccionar os livros que viajariam na mala, em função do tamanho, peso e potencial para resistirem a danos. Estou até convencido de que é graças a esse esforço – e a um outro de que talvez um dia ainda aqui fale –, realizado naquele acanhado quarto de hotel lisboeta – ouço dizer que há quem realize outro tipo de esforços nos quartos de hotel mas a mim calha-me sempre o de enfiar objectos em malas –, que sou tão bom a empilhar louça num escorredor. E depois lá fui até Santa Apolónia arrastando uma mala estupidamente gorda e pesada e procurando evitar que os três sacos plásticos em que me vira forçado a transportar os restantes livros me fugissem das mãos ou embatessem com demasiada força nas malas das outras pessoas (ou nas próprias pessoas mas nas próprias pessoas é menos grave porque, tirando um ou outro caso de ossos especialmente salientes, o corpo humano possui uma capacidade de amortecimento superior à das malas). Não foi fácil mas tive imenso cuidado e todos os livros chegaram incólumes a casa. Um par de semanas mais tarde realizou-se a Feira do Livro do Porto.

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Recordação da feira do livro

por António Manuel Venda, em 15.05.11

 

Feira do Livro de Lisboa, esta tarde, no espaço do Grupo Porto Editora, onde se incluía a zona da Quetzal. Da mesa onde estava a dar os autógrafos, fotografei com o telemóvel o candidato agora trabalhista José Manuel Coelho, com uma enorme vassoura às costas, a tentar convencer uma senhora enquanto esta comia um gelado.

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Pechinchar na Feira

por Pedro Correia, em 16.05.09

 

  

 

Faço a segunda incursão do ano à Feira do Livro de Lisboa, que tem registado boa afluência. Este ano ainda mais justificada pela abertura de novos espaços para comer, uma praça de táxis situada mesmo ao lado e pavilhões modernos, muito funcionais. Há também obras em inglês e castelhano: editoras internacionalmente conhecidas, como a britânica Penguin e a espanhola Planeta, marcam lugar na Feira, que é um local de convívio e múltiplos (re)encontros.

E há sobretudo os preços tentadores. Costumo ir lá ‘pechinchar’ – e nunca me arrependo. Nesta segunda incursão trouxe seis livros pela módica quantia de 19 euros. Quatro de ficção: A Truta (Roger Vailland), S (John Updike), Lamentos da Vida (Dorothy Parker) e Ultramarina (Malcolm Lowry). Uma recolha de crónicas e ensaios jornalísticos de Truman Capote, Os Cães Ladram. E A Face Oculta de Kennedy, do jornalista Seymour M. Hersh, galardoado com o Pulitzer. Repito: tudo isto por 19 euros. E ainda há quem diga evitar a Feira por os livros serem “muito caros”…
Além dos já mencionados, trago duas outras obras que adquiri fora do circuito da pechincha. Mas qualquer delas vale mesmo a pena. The First Forty-Nine Stories, recolha do essencial de contos de Ernest Hemingway (da Arrow Books), e Essays, de George Orwell (Penguin). O Hemingway ficou-me por dez euros, os enaios completos de Orwell custaram-me quinze. São obras essenciais em qualquer biblioteca. E - até por isso - nada caras também.
 
ADENDA: Quero lá voltar para comprar os livros do António Manuel Venda e do José Mário Silva, entre outros.

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Em torno dos livros

por Leonor Barros, em 07.05.09

Daqui a umas horas, pelas 18.30, vou estar na Feira do Livro à conversa com outros dois bookcrossers, a fungaga e o Jota-P. No Bookcrossing  também não sou Leonor mas se chamarem por papalagui eu respondo. A mesa-redonda, subordinada ao tema  "O Bookcrossing e a Biblioteca Global - do fenómeno cultural ao fenómeno social",  vai ser moderada pelo João Morales da revista Os Meus Livros e insere-se na iniciativa do Lisboa Encruzilhada de Mundos que teve a amabilidade de convidar o Bookcrossing a participar. Se não tiverem paciência para me ver e ouvir podem sempre espreitar o pavilhão do LEM, a funcionar como um ponto de troca de livros bem ao estilo Bookcrossing.

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Caldo entornado

por Leonor Barros, em 06.05.09

Faço parte daquela espécie de portugueses que cresceu com os livros de Jorge Amado, ainda do tempo em que eram proibidos pela censura e que chegavam às mãos dos meus pais através da tia carioca. Desse tempo é também José Mauro de Vasconcellos e depois desse tempo a literatura brasileira passou a fazer parte integrante das minhas preferências literárias. Não há viagem ao Brasil sem um périplo pelas livrarias. Já dei por mim a arrumar os livros numa livraria em Maceió, a tentar entender uma ordem que me apareceu obscura em Natal até ter percebido que os livros estavam arrumados pelo primeiro nome do autor e não pelo apelido e a escapulir-me dentro de um centro comercial apenas para poder comprar mais um livro, aquele mesmo que tanta falta me fazia. Frequentemente vem-me à memória o primeiro livro que comprei na Livraria da Travessa em Ipanema, Rio de Janeiro, Carnaval no Fogo de Ruy Castro: a experiência matricial numa livraria com estantes de madeira e empregados solícitos na mais bela cidade do meu mundo. Não há viagem a Terras de Vera Cruz em que não venha a abarrotar de livros que me alimentam as longas noites de Inverno e perfumam a esperança de dias mais quentes e tropicais. Quando soube, consequentemente que o Brasil iria ser o país convidado na Feira do Livro, comecei a salivar esperançosamente, as capas, os livros, a possibilidade que se me abria de comprar livros de autores brasileiros em edições brasileiras, quem sabe não iria descobrir escritores novos e certamente teriam o livro que me tem deixado em suspense na ansiedade de o devorar e ter entre mãos.

Sábado soalheiro e escaldante. Dirijo-me aos pavilhões do Brasil para satisfazer o meu desejo. Fui informada de que havia livros de autores brasileiros na representante habitual em Portugal e, depois de atravessar o parque, dei de caras com a editora. Os livros brasileiros ocupavam um espaço ínfimo, ainda consegui vislumbrar do lado de lá alguns livros do Drummond. Nada de novo, portanto, motivo suficiente para uma rotunda desilusão. Não seria de esperar uma maior oferta tendo em conta o país convidado? Um homem não muito jovem acorreu em meu auxílio, ter-me-á visto de cabeça esticada a tentar decifrar as lombadas, e após a habitual procura nas estantes decidiu-se Não tenho, mas espere que vou perguntar se há no armazém. Seguiu-se uma troca curiosa de palavras. O homem perguntava-me se eu tinha internet, que podia pedir pela internet, que também podia ir à livraria, era mesmo ali, para ir lá. Ora uma mulher tem os seus limites e nunca vi alguém estar em plena Feira do Livro e sugerirem-lhe que mandasse vir o livro pela internet ou que fosse à livraria. O meu desagrado pelo insólito começava a notar-se. Livraria? Internet?  Entretanto aproximou-se um homem mais jovem. Que ia ver se tinha no armazém. Pedi-lhe então que me reservasse um exemplar de Leite Derramado de Chico Buarque, caso houvesse, e que passaria um dia desta semana para o ir buscar. O homem não se deu por achado. Não era preciso. Não era preciso deixar nome. Ia ver e se houvesse trazia uns para a feira. Tentei explicar em vão que queria mesmo o livro e que não queria correr o risco de que fosse vendido antes de eu lá ir. O homem menos jovem insistia na internet, também na livraria, ali, é mesmo ali. O mais jovem acrescentou que segunda-feira de manhã me ligaria então, sem falta nenhuma. Hoje é quarta-feira e, pelo caminho e sintomático silêncio, não só não há Leite Derramado, como temos o caldo entornado.

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Na feira

por António Manuel Venda, em 05.05.09

Em tempo de feira do livro, uma recordação, não da de Lisboa mas de uma em Vilamoura, há dois anos. Enquanto lá estive, houve quem por entre os autógrafos me fizesse perguntas. Deixo aqui algumas das que mais tarde ainda me recordava e que acabei por apontar:
- Consegue viver da escrita?
- Estou a pensar levar este livro, o que é que acha? (um senhor mostrando-me o romance de Mario Vargas Llosa «Travessuras da Menina Má»)
- Você é de onde?
- Já saiu o novo livro do autor de «A Sombra do Vento»?
- Por quê Montemor neste seu livro?
- Tem o «Foi Assim», da Zita Seabra?
- Vêm cá mais escritores?
- O que vale é que cá dentro não está fresco como lá fora, não é?
- Isto na capa deste seu livro é a Alcárcova, em Évora, não é?
- Acha que leve? (uma rapariga segurando um livro meu, de contos)
- Vinha buscar um livro que vi ontem nesta mesa; por acaso não sabe onde está?
- Pago a si?
- Vi lá na entrada um livro chamado «O Afinador de Pianos», de Cristina Norton; não é o do Richard Zimmler?
- Onde é que estão os Calvins?
- Isto no Algarve agora é um horror, não é?
- Você volta amanhã à noite?
- Acha que agora se lê mais em Portugal?
- Pago aqui ou à saída?
- Posso-lhe pedir que assine?
- Já jantou?

 

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Sol e livros

por Pedro Correia, em 02.05.09

         

 

Acabo de regressar da primeira incursão do ano à Feira do Livro. Ainda bem que lá fui: estava uma tarde fantástica, inundada de sol, e apetecia passear pelas alamedas do Parque. Muita gente teve a mesma ideia que eu: havia centenas de pessoas a deambular entre os pavilhões, encosta abaixo encosta acima. Gente de todas as idades. Muitos casais jovens com carrinhos de bebé. A Feira é um local de reencontros. Cruzei-me com o Vítor logo à chegada, depois vi a Ana, a seguir o Pedro. O Nuno Simas dava autógrafos na esplanada da Alêtheia, à conversa com a editora, Zita Seabra. Na Leya, adensava-se a multidão: filas de admiradores à cata das cobiçadas assinaturas de Pepetela e sobretudo de António Lobo Antunes, ali presentes. Passei ao largo da aglomeração. Demorei-me mais do lado oposto, onde estão três das minhas editoras favoritas: Cotovia, Relógio d' Água (dirigida pelo eterno Francisco Vale, que lá estava, no seu posto) e Assírio & Alvim.

Como já esperava, vim de lá com vários sacos de livros e vários géneros de obras. Romance: Um Punhado de Pó, de Evelyn Waugh (Dona Raposa). Conto: Gatos e Mais Gatos, de Doris Lessing (Cotovia), Quando Fui Mortal de Javier Marías e Contos de Dorothy Parker (Relógio d' Água). Crónica: Passaporte, de Maria Filomena Mónica (Alêtheia). Dois livros de viagens da Civilização (sobre Roma e Barcelona), quatro policiais dos Livros do Brasil para reforçar a minha colecção da Vampiro (Frank Gruber, Nicholas Freeling, Mickey Spillane e Hartley Howard). A Tinta da China fazia sucesso com muitos exemplares da Penguin Books, em estreia na Feira. Já o pavilhão do El Corte Inglés, com excelentes títulos em castelhano, muitos e bons, estava às moscas: continuamos de espaldas para Espanha. Aproveitei para trazer La Guerra que Ganó Franco, de César Vidal. Da Quidnovi, trouxe As Três Vidas, com uma simpática dedicatória do João Tordo, que estava à conversa com o pai, Fernando Tordo.

Uma menina entregou-me um folheto de propaganda eleitoral do Movimento Esperança Portugal, com um retrato de Laurinda Alves grande de mais para o meu gosto. E comi o primeiro gelado do ano, um Magnum Classic. Saí de lá com vontade de regressar sem demora para uma nova colheita de livros. E agora segue-se o dilema de todos os anos: qual deles começo já a ler?

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