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O dente de elefante

por jpt, em 13.03.13

AP/Bullit Marquez

 

(Fotografia AP/Bullit Marquez)

 

O texto na minha coluna "Ao Balcão da Cantina" na edição de hoje do "Canal de Moçambique" (também colocado no ma-schamba). Vai dedicado aos que divulgam as notícias da matança internacional dos paquidermes e de tantas outras desgraças ecológicas que nós-outros, distraídos, desacompanhamos nos nossos pobres quotidianos de mastigação. 

 

O Dente de Elefante

 

Os elefantes são animais de farto alimento, todos os dias percorrem uma larga área e comem imensa vegetação. Estão confinados, em estreitas áreas cada vez mais exíguas, “reservas ecológicas” ainda não devastadas pelos gafanhotos bípedes, esses museus do mundo que testemunham a nossa demência omnívora e histriónica. Pois se os elefantes comem muito os homens são glutões desvairados.

Em sendo preservados os elefantes tornam-se excedentários nessas, afinal reduzidas, zonas que habitam. Reproduzem-se, crescem e, repito-me, comem. Por isso por vezes se intenta a difícil transferência de alguns indivíduos para outras áreas. Ou abatem-se excedentários, para evitar a sobre-exploração dos recursos alimentares (e espaciais).

Que fazer com o precioso marfim, com os dentes dos elefantes abatidos? Há quem defenda que deve ser vendido, um recurso. Há quem diga – e diz com razão, e nem sequer o discuto, é-me dogma – que o marfim das presas dos elefantes não é um recurso, não deve ser vendido. Ou seja, que não é precioso, pois não tem preço. Mesmo que o abate controlado seja necessário, o marfim não é um bem transaccionável, não é um bem utilizável.

E talvez essa seja a grande questão, bem para além dos elefantes: o necessário combate a essa histórica e demencial ideia de que tudo o que nos rodeia é um recurso, consumível. Comercializável. Em suma, que tudo é taco … que tudo é dólar. Mas enfrentar esta ideia ultrapassa as forças do meu teclado e o espaço deste jornal. Mesmo num país Moçambique em que, por quase todo o lado, essa ideia de preservação (até sagrada) de áreas de flora e de espécies de fauna existe nas “visões do mundo” das populações. Mesmo que o crescimento populacional e a baixa produtividade agrícola as empurre para o constante destroncar, para as descontroladas queimadas, a ideia de que tudo é recurso apropriável e comerciável vive muito mais nos compêndios de Gestão e similares, nas almas dos (candidatos a) PHDs e nas dos grandes possidentes, do que nas práticas de quem vive da terra e convive, conflituando, com os animais.

Em suma, retirar totalmente as presas de elefante do mercado, impedir a sua utilização, é a única forma de tentar evitar a sua extinção. Evitar o comércio. E punir a sua utilização. Punições legais, claro. Mas, e se calhar acima de tudo, as punições morais. A desvalorização de quem usa os enfeites ou outros produtos delas derivadas. Nesta questão eu sempre uso o mesmo exemplo: há décadas no Ocidente era costume as mulheres usarem peles de leopardo. Caríssimas, bens de luxo. Ou imitações. Acontece que as vestes de pele de leopardo (ou a sua imitação) passaram a ser associadas a mulheres de mau porte, “profissionais do sexo” entenda-se. Terá sido a melhor forma de as desvalorizar.

Recordo que há alguns anos, ainda nos 1990s, acompanhei um simpático patrício, aqui [Maputo] professor universitário, ao “mercado do pau”, a feira de artesanato dos sábados na Baixa. Era ele muito dado ao bric-a-brac, coleccionador de artesanato, dele conhecedor e pesquisador. E foi-se a comprar um pequeno artefacto de marfim, uma obra belíssima. Resmunguei, sabia ele da minha dogmática oposição, e a modos que a desculpar-se disse-me “bem, o bicho já está morto”. Pois, respondi, “mas não estou preocupado com o elefante. A questão é que quem usa marfim é, literalmente, um filho da p …”, mas juntei-lhe as letras todas. Não percebi bem porquê mas ofendeu-se, como se o ofendido não fosse eu, ainda para mais ali a ver e a acompanhar aquela miserável indignidade.

Bem, mas isto são pequenas memórias, talvez até indignas de ascenderem a um jornal. Vêm elas a propósito das notícias que explodem. Da razia na fauna africana, nos últimos anos a caça furtiva (?, será mesmo furtiva?) a rinocerontes, estes agonizantes, próximos da extinção. E na devastação das populações de elefantes. Em poucos anos os países africanos perderam mais de metade dos elefantes (atenção, não é dos “seus” elefantes como a língua nos leva a dizer, atraiçoando-nos o pensamento. Pois os elefantes não “são” de ninguém, pessoas ou países).

Não falo dessa torpe “caça desportiva”, homens endinheirados que atravessam o mundo para ejacularem munições abatendo grandes mamíferos, indefesos diante da tecnologia e do saber dos caçadores profissionais, esses que ladeiam os “másculos” da frouxa aventura. Uma pobreza mental, uma miséria moral, coisa há pouco exemplificada pelo espanhol Juan Borbón, em fotos que cruzaram o mundo devido à sua posição profissional. Apenas um entre muitos.

Mas o problema fundamental é a caça desenfreada, o abate comercial. Que tem causas actuais. O crescimento económico chinês é uma delas, potenciando o apetite pelo marfim, fazendo explodir a sua importação, como o denunciam as notícias internacionais. Uma sociedade rapidamente enriquecida e que não tem sensibilidade ecológica (nem legislação, ao que parece). Vê-se na devastação própria, com as suas cidades radicalmente poluídas demonizando a vida do seu próprio povo, uma insensibilidade até suicida. Se estão num momento histórico desses ir-se-ão preocupar com os elefantes ou rinocerontes do estrangeiro? Ou com as madeiras raras, que vão comprando até à extinção e desflorestação radical? Que interessa tudo isso diante do apetite de boas mobílias e lindos objectos decorativos, esses que por lá há poucas décadas eram privilégio do topo dos “apparatichks”?

Sei que aqui logo alguém dirá “sim, mas vocês europeus …”, ilegitimando o discurso. Sim, os países industrializados devastaram o que puderam, e continuam a devastar. Mas alguns deles conheceram o desenvolvimento de concepções ecológicas, tiveram e têm conflitos sociais sobre a matéria. Neles se tenta, por legislação e práticas, impedir a destruição total do que tanto tem sido destruído. Seja em casa própria seja no restante mundo. Os gigantes emergentes, e a China é o cume disso, não têm esse percurso. E são, agora, vorazes.

As notícias desta vaga assassina chegam agora Moçambique. É a Rádio Moçambique que informa o massacre dos elefantes no Cabo Delgado e Niassa. Milhares deles foram abatidos nos últimos dois anos. Redes internacionais de comércio de marfim alimentam este processo. Que não é, ao contrário de que alguns “contextualizadores” que querem “compreender”, fruto da acção de populações empobrecidas, em busca de sobrevivência. Trata-se da renovação de uma longa tradição, de séculos, de redes de comércio internacional de marfim, agora alimentado com altas tecnologias (caça-se de helicóptero, ao que parece). É uma velha história em terrível embrulho moderno.

E nada vai sobrar. Agora aproveitam alguns, poucos, uns milhares de dólares, nem grande coisa será. Que se extinguirão. Tal como os grandes mamíferos.

Os outros, todos nós, ficaremos por cá. Mais sozinhos. Mais pobres. E mais feios. É uma desgraça. E é uma desgraça, também, que nem nisto todos concordemos.

 

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