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A altura mais inalcançável

por António Manuel Venda, em 12.02.17

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Era a esta altura que eu via tudo na infância. Pelos mesmos canteiros e montados de agora. Lembro-me disso quando uso a máquina fotográfica do telemóvel para guardar momentos de expectativa como estes. Os dois parados. O sóbrio e leal Alfa (nome dado pelo mais velho dos meus quatro filhos), o cão do karaté, como lhe chamo às vezes, pelas nossas lutas a patadas e pontapé, sem magoar, procurando apenas um toque que dê um ponto, e depois outro, tipo uma dança de um cão com um homem que não acredita, em cada um desses momentos, mas só mesmo em cada um desses momentos, que possa ser mais do que um miúdo. O Alfa… E a doce e divertida Lua (nome dado pela minha filha mais velha), a cadela que vê sempre tudo bem mesmo que o mundo tenha aparecido nesse dia com ares de ir desabar de repente nem se imagina para aonde. Aqui, os dois expectantes, sabem que eu preciso de me levantar e de guardar o telemóvel numa das algibeiras das calças de ganga para desatar a correr junto com eles. Sem isso nada feito. Mas sem o meu olhar a esta altura, precisamente a esta, não é possível apanhá-los para a posterioridade (uma qualquer posterioridade) como eles realmente são. Queria conseguir, tantos anos depois, correr na velha e pequenina altura da minha infância. Sempre. Correr sempre. Pelos canteiros e pelos montados. A altura tão distante. Tão inalcançável. A mais inalcançável de todas, ainda que não passe de uns setenta centímetros, nem sei…

 

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Porque é Natal

por Francisca Prieto, em 22.12.16

Nos últimos dias tenho querido escrever sobre o Natal, mas confesso que com a brutalidade que vai por este mundo fora, fico com a sensação de que só consigo falar de banalidades.
Quando sabemos de gente que é assassinada à luz do dia, de famílias que levam com bombas em cima da cabeça e autocarros que trespassam multidões, parece que qualquer menção a rabanadas é uma falta de respeito.
Não me interpretem mal. Gosto de ouro, de incenso e de mirra. Mas parece que entre o avanço da idade e a desgraça que vai no mundo, estas coisas vão tendo cada vez menos importância.
Fica-nos um aperto por quem passa mal. Mas talvez esse aperto nos faça voltar ao essencial. À reflexão de como podemos ser melhores no ano que se avizinha, à mensagem que queremos passar aos nossos filhos sobre a importância dos gestos de amor, à escolha de ofertas que tenham a nossa marca e que despertem uma alegria no coração de quem as recebe.
Há vários anos que, em casa dos meus pais, cada pessoa só recebe um presente. Com a pelintrice que foi assolando toda a família, o orçamento da oferenda já vai num louco máximo de 10 euros. Mas é incrível como todos os anos temos sido capazes de puxar pela criatividade de maneira a continuar a fazer da manhã de dia 25 uma animação. Há sempre alguém que descobre uma foto hilariante, ou um pimenteiro gigante para quem não passa sem temperos fortes, ou um garrafão de nutella para o guloso máximo, ou um disco da Tonicha, ou seja lá o que for. Na verdade, não é o ouro que nos une (felizmente, que senão era uma tragédia), é o sentido de humor e a cumplicidade que temos uns com os outros.
Que este Natal seja mais um tempo para trocarmos gargalhadas, que é, afinal, a nossa dádiva de afecto. E que em 2017 tenhamos todos energia para contribuir para um mundo mais sereno.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 15.09.16

Noite de calor insuportável. Chego à cozinha e dou com as Prietas de impermeáveis vestidos, uma delas a jantar de gorro de orelhas. Explicam-me que fizeram uma breve interrupção nas suas investigações. Que são espias russas e que já encontraram uma data de pistas para a resolução do enigma. Mostram-me a lista, escrevinhada à pressa num pedaço de papel rasgado de um bloco:

  • Duas balizas de futebol
  • Uma bicicleta
  • Um carro amarelo

E eu digo, tá bem, e fico descansada por terem tido o bom senso de se agasalharem enquanto investigam casos sérios na Sibéria.

Uma mãe preocupa-se sempre com os agasalhos dos filhos, mesmo que pertençam ao KGB.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 07.09.16

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Ser mãe de rapazes é dar com "Lord Eder" escrevinhado na poeira do capô do carro.

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 07.09.16

Mãe e filho, pela estrada fora, com o ipod (da mãe) em versão shuffle. Às tantas, calha-nos o Space Oddity do David Bowie. Quando me preparava para suspirar de nostalgia pelo Major Tom, oiço uma voz enfadada a perguntar se não dava para mudar para a Mega Hits.
É por estas e por outras que decidi instituir um regime totalitário na minha viatura.

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Amor Vulcânico

por Francisca Prieto, em 04.09.16

Este ano calhou ir aos Açores e passar de esguelha pela ilha do Faial. Fiz questão de visitar o Vulcão dos Capelinhos. Não porque me interesse particularmente por catástrofes naturais, mas porque me lembro de sempre ter ouvido dizer que o meu pai tinha sido um dos operadores de câmara destacados para cobrir o acontecimento. Em 1958, com a RTP a dar os primeiros passos da televisão em Portugal, lá embarcou o pai Zé António nesta aventura, com os parcos recursos que na época existiam.

Consta que foi durante as filmagens que tomou a resolução de casar com a minha mãe, de maneira que a boda se celebrou um ano mais tarde. Depois nascemos nós em escadinha, e ainda hoje permanecem juntos com um companheirismo e sentido de humor invejáveis.

Ora eu sou uma sentimentalona incorrigível, de maneira que, estando nas redondezas, não podia perder a oportunidade de visitar o local onde uma decisão deste calibre tinha sido tomada. Lá fui, com marido e filhos e, apesar da paisagem crua, não consegui deixar de me comover quando vi a minha filha Rita saltitar por entre as pedras com uma fita cor de laranja no cabelo. De alguma maneira, passados quase sessenta anos, dei com uma neta a marcar o amor dos avós, levando um traço de cor a este local de cinzas.

Rita no Vulcão.JPEG

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 03.09.16

Rita Prieto, oito e meia da manhã:
Mãe, quem foi a Floribela Espanca?


(mãe ainda emudecida com o choque)

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 01.08.16

Mãe e filho, pela estrada fora, com o ipod (da mãe) em versão shuffle. Às tantas, calha-nos o Space Oddity do David Bowie. Quando me preparava para suspirar de nostalgia pelo Major Tom, oiço uma voz enfadada a perguntar se não dava para mudar para a Mega Hits.
É por estas e por outras que decidi instituir um regime totalitário na minha viatura.

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Íamos ver passar o comboio

por António Manuel Venda, em 18.07.16

Fan Fan DSC_2176.jpg 

 

Fez ontem seis anos a minha filha Francisca. Está praticamente a seis do irmão mais velho, a três da irmã e com três de avanço sobre o irmão pequenino. Por incrível que me pareça (só a mim), somadas as idades dos quatro o número nem se aproxima da minha idade. Nem sei, agora, o que isso quererá dizer. O que é a idade? Quantos anos tenho? O que passou por mim? Lembro-me de um tempo ainda recente em que a Francisca, enquanto adormecia comigo para a sesta, mostrava uma enorme curiosidade na história de um comboio como o que íamos ver passar na estação de Torre da Gadanha (quanto tempo, tantas vezes, esperámos que passasse, tão comprido, tão rápido, só para vê-lo, os dois sozinhos na plataforma da estação abandonada?). O comboio, na história, era amigo de um gato chamado Sabu e os dois uniam-se na luta contra um monstro de origem francesa conhecido por Basou (lê-se Bazu). Ela acreditava em todas as aventuras do comboio e do gato com o monstro. Agora já não. Só eu, imagine-se, acredito. Porque me lembro de tudo e consigo ver as histórias, como num filme. Se fechar os olhos.

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 11.06.16

Rita Prieto, zangadíssima por eu a ter contrariado, declarou que a partir daquele momento não me conhecia. De maneira que, quando a interpelei daí a uns minutos, respondeu-me que a mãe dela não a deixava falar com desconhecidos.
E atreveu-se a acrescentar que eu era a pior desconhecida que ela conhecia. Aí os irmãos confrontaram-na com a incoerência. “Se não conheces a mãe, não podes dizer que é uma desconhecida que conheces”. Rita, já no cúmulo da fúria, avança para a declação bombástica: “És a pior desconhecida que desconheço”.

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A Fantasia dos Nossos Tempos Dá Cá Uma Trabalheira

por Francisca Prieto, em 10.05.16

Quando eu era pequena era normal acreditar-se em quase tudo. Acreditavamos no Pai Natal e, em simultâneo, no Menino Jesus, acreditavamos no coelho da Páscoa, no homem do saco, no palhaço Batatinha, no lobo mau, na avózinha, nos glutões do Presto, em fadas e em duendes.

Como não havia cento e tal canais de televisão, muito menos internet, e não se falava ao telefone trezentas vezes ao dia, não havia hipótese de nos virem com caraminholas que trouxessem a angústia da dúvida ao nosso imaginário. Acreditavamos em tudo, piamente, e até muito tarde.

Nos dias que correm, torna-se cada vez mais difícil manter as tradições seculares no que toca a enganar a criançada.

Ora cá em casa, na senda dos ensinamentos do meu pai, o Ratón Pérez é a entidade oficial que toma conta da ocorrência cada vez que um dente de leite resolve dar o ar da sua graça.

No meu tempo a logística era simples: o dente caía, nós deixavamo-lo dentro de um copo de água na mesinha de cabeceira, e o rato lá vinha durante a noite para deixar uma lembrança.

Uma vez a minha irmã Luísa cometeu a heresia de apregoar aos quatro ventos que “isso do Ratón Pérez é uma grande treta” e teve o dissabor de, em vez da habitual lembrança, receber uma pesarosa carta em castelhano, remetida pelo próprio Ratón, a dizer que “si no creía en el, no la podria regalar”. É evidente que, em nossa casa, nunca mais ninguém se atreveu a duvidar da existência do bom e velho Pérez, pelo menos até à chegada da maioridade.

Já eu, que pertenço à geração de mães do novo milénio, vejo-me grega para prolongar o mito. Tive de me adaptar aos novos tempos e arranjar uma data de argumentos para tornar credível o facto de haver um rato se mete à estrada a partir de Espanha com um embrulho às costas.

No século XXI, como é sabido, qualquer actividade tem de ter um interesse económico, senão cheira logo a aldrabice. De maneira que o Ratón Pérez é evidentemente um coleccionador de dentes que só deixa um presente porque está interessado em aumentar o espólio. E é sabido que quando um dente se apresenta em mau estado não há qualquer hipótese de “regalo”.

Como o castelhano não é o forte cá de casa, optou-se por lhe dar uma origem galega, o que, em caso de missiva, fornece alibi perfeito para os portunhólicos pontapés na gramática da língua de Cervantes.

A água do copo tem de ser bebida quase até ao fim porque o pobre rato vem a alta velocidade desde Espanha e chega cá sedento. Por vezes, chego mesmo a ser obrigada a deixar um bocadito de queijo Emmental (que sou forçada a mordiscar lá pela uma da manhã) porque é natural que, à chegada, o amigo Ratón traga uma certa larica.

Isto tem-me dado uma trabalheira, sobretudo quando tenho de puxar pela memória para manter a coerência dos factos, mas o que é certo é que, até à data, nunca dei pelo menor resquício de dúvida face à existência do Ratón Pérez.

Já no Pai Natal ninguém acredita. Que isso de haver um velho gordo puxado num trenó voador por meia dúzia de renas está-se mesmo a ver que é fantasia.

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Mistérios da Memória

por Francisca Prieto, em 07.04.16

Já tenho escrito várias vezes sobre as famosas distracções da minha mãe, que vão desde não se lembrar que determinado amigo já morreu há uma data de anos, a ter perdido o telemóvel dentro do peru, no meio de uma azáfama natalícia.

Tendo cinco filhos, é também vulgar trocar-nos os nomes, chamar frigorífico ao forno e abanar o copo de água em vez do frasco de ben-u-ron quando está prestes a medicar um neto.

No entanto, é vulgar chegarmos lá a casa e darmos com ela a encaixar num trecho de texto qualquer coisa que lhe dizemos (supondo que alguém elogia as flores do jardim, sai-lhe imediatamente uma canção de antigamente do tipo “Floooores do meu Jaaardim, tão belas como sóis...” ou qualquer coisa parecida).

É uma habilidade que, por ter sido actriz de teatro, lhe sai naturalmente, mas que ao fim de meia dúzia de frases trocadas, inviabiliza qualquer conversa.

De maneira que nós, os cinco filhos, embora achando graça a esta idiossincrasia, já lhe suplicámos várias vezes que tenha dó e que deixe a conversa fluir sem tanta declamação e cantoria.

No entanto, há um dia do ano em que deixamos a minha mãe declamar tudo o que ela quiser: a 14 de Março, por ser o seu aniversário.

É assim que, diante de netos estupefactos, a minha mãe dá um abanão às sinapses, abre a boca e dali desatam a jorrar páginas e páginas de texto, sempre acompanhadas de gestos grandiosos e eloquentes.

No fim, já depois de um remate estrondoso e das palmas merecidas, inevitavelmente lança uma gargalhada e confessa que não faz a mínima ideia de onde aquilo lhe vem.

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Distracções

por Francisca Prieto, em 02.04.16

As distracções da minha mãe atingiram uma dimensão épica na semana passada quando lhe falei de um velho amigo que morreu vai para mais de quinze anos.

“Fulano de tal morreu? Não me digas. Fico tão triste.” Espantada, assegurei-lhe de que tinha a certeza de que ela tinha estado a par do seu padecimento na devida altura e que já então tinha ficado desolada. “O que é que queres? Não me lembrava”, respondeu com um encolher de ombros resignado.

O que me preocupa é que, se bem a conheço, é bem capaz de voltar a sofrer do mesmo desgosto daqui a um par de anos, se alguém voltar a mencionar o assunto.

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Madalenas de Proust

por Francisca Prieto, em 21.02.16

Hoje o meu irmão Zé fez anos. Temos os dois uma sintonia estratosférica que faz com que, para além de irmãos, sejamos companheiros de quotidiano. É raro o dia em que não mandamos mensagens parvas um ao outro com pequenos episódios que acabámos de presenciar, ou com frases que encontrámos num livro, ou com uma qualquer piadola que sabemos que vai fazer com que o outro se ria.

Muitas vezes, aproveito esta nossa cumplicidade para pregar o sermão aos meus filhos sobre a importância de serem manos uns para os outros. Sempre que há gritaria, eu berro num décibel acima a já célebre frase “Parem com isso. Sejam manos”.

Calhou que o meu filho Manel fosse hoje jogar ténis a um torneio em Belas, de maneira que aproveitei o caminho para pensar no que é que podia oferecer ao meu irmão como presente de anos. Não é fácil oferecer presentes a quem já tem idade para não dar muita importância a quinquelharia material.

Foi quando dei de frente com a pastelaria que vende Fofos de Belas que se me fez luz no espírito. O que me apetecia oferecer-lhe era uma madalena de Proust, ou, no caso, um par de Fofos, iguaizinhos aos que o avô Eduardo lhe comprava quando resolviam ir em passeata de domingo, ainda antes de eu nascer.

Parei o carro e expliquei ao Manel o que ia fazer, evocando a história das madalenas de Proust.

Levando em conta que muito provavelmente o Manel não faz a mínima ideia de quem foi Proust, muito menos da sua ligação a um bolo da família do queque, perguntei-lhe se ele sabia o que era aquilo de que eu estava a falar.

Respondeu-me prontamente: “Está a ser mana”.

Afinal, sabia mais do que pensava.

 

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De Quem nos Deixa Saudades

por Francisca Prieto, em 04.12.15

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A tia Mette sempre foi a nossa tia exótica. Dinamarquesa, casou com o meu tio Eduardo por duas vezes. Da primeira, de vestido branco, comprido, como manda a tradição. O cabelo curto e os dentes da frente ligeiramente encavalitados faziam adivinhar um espírito irreverente. Pelo menos nos anos sessenta de uma Lisboa onde as mulheres ainda andavam de saias e nem todas eram detentoras de carta de condução.

A tia Mette era para mim o cúmulo da sofisticação. Fumava longos cigarros SG gigante em pose de revista; à noite, na cozinha, segurava num copo de vinho de pé alto e brindava em dinamarquês com o meu tio e, sobretudo, conduzia o seu citroen com as mãos na parte de dentro do volante.

A sua casa combinava o melhor gosto das tradições portuguesas, com móveis de madeira nórdica, maciça, e algumas referências de pintura taitiana do seu bisavô – o pintor Paul Gauguin.

No Natal, ao contrário das árvores com bolas de todas as cores e fitas estridentes que povoavam as nossas casas, em casa da tia Mette havia sempre decorações de um bom gosto inédito. Claro que hoje sabemos que eram compradas no Ikea de Copenhaga, mas na altura sabíamos lá o que era o Ikea.

Como o aniversário de um dos meus primos é a 31 de Dezembro, passávamos sempre lá o ano em família. Os adultos à mesa, com talheres de um dourado baço a combinar com o serviço de loiça egípcio da minha avó, e nós, a miudagem, a correr pela casa, fazendo razias à árvore de Natal com velas verdadeiras acesas. Nem sei como nunca nos imolámos inadvertidamente.

Um dia, quando eu tinha uns doze anos, os meus tios desentenderam-se e a tia Mette pegou nos três filhos e em meia dúzia de malotes e rumou à Dinamarca.

Tive um desgosto tremendo e durante muitos anos lembrava-me desta tia com uma imensa saudade.

Passaram-se uma catrefada de anos e um dia fiquei a saber que o tio Eduardo e a tia Mette se iam casar outra vez. Parece que foram jantar fora um dia e que ela, arisca, lhe terá perguntado se ele queria ser seu amante. Reza a história que ele terá respondido que sim, mas só se ela se casasse com ele.

De maneira que foi assim que a tia voltou às nossas vidas. Um par de décadas mais velha, com mais meia dúzia de quilos, mas sempre com um sorriso e um piscar de olho que nos fazia saber o quanto gostava de nós.

Viveu em Portugal os últimos quinze ou vinte anos da sua vida, feliz, sempre de porta aberta para receber com pratos exóticos esta família que também era a sua.

Um dia, a dormir, chamaram-na do céu e lá foi ela, deixando-nos a nós outra vez cheios de saudades.

Lembrei-me disto tudo a propósito de uns enfeites de Natal que comprei no outro dia, iguaizinhos aos que ela costumava ter. Não sei se agora está no céu a evangelizar o Menino Jesus sobre a importância do sentido de humor, ou se só vive nos interstícios dos nossos corações mas, seja como for, desejo-lhe um Natal de arromba.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 24.05.15

Caiu um dente ao Pinto. Claro que o perdeu. Estava no caixote do lixo embrulhado num guardanapo de papel. O Ratón Perez trouxe-lhe 5 euros e deixou um post-it a agradecer.

(O Ratón é galego, claro, para não haver hipótese de ser apanhado no portuñol dos post-its que escreve)

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Os que já cá não estão

por Pedro Correia, em 30.04.15

 

Um dos efeitos da passagem dos anos é verificarmos como coexistimos com gente que apenas nos perdura na memória. Confesso não estar ainda vacinado contra o espanto que isto me causa. Há dias, na saída do metro, cruzou-se comigo alguém que me fez lembrar muito uma antiga colega de trabalho. "Será ela?", questionei-me. E só daí a momentos caí na real, como dizem os brasileiros. Essa colega morreu há vários anos, num trágico acidente de aviação.

Há uns tempos, de férias em Cabanas, descobri a Rua Dr. João Amaral. Fiquei a olhar para a placa toponímica ainda meio incrédulo: conheci muito bem este ex-deputado e dirigente comunista, fiz-lhe uma das últimas entrevistas que ele concedeu a um jornal e por vezes ainda me custa acreditar que já morreu. Há dias, folheando uma agenda telefónica com números anotados em 1999, quase fiquei chocado ao verificar como são tantos os nomes daqueles que partiram de vez.

Sentir o tempo passar por nós é também isto: verificar a soma crescente das ausências. Uma voz familiar ao telefone que se apagou de súbito e jamais voltaremos a escutar.

 

Reedito este texto no dia em que os meus pais fariam 60 anos de casados. Sempre associo esta data a um clima de alegria redobrada lá em casa. Festejaram-na durante 55 anos. Hoje, pela primeira vez, evoco-a sem nenhum dos dois cá estar.

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Gui, Zé, Cácá, Lili,

metiam-me na ordem

e encaixavam-me

na bagageira da bicicleta

estrada fora

em curvas rápidas

de cem à hora

(menos a Gui

que nunca aprendeu

a andar de bicicleta)

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

riam-se da minha meminice

e troçavam da tontice

às vezes

mandavam-me calar

e eu fechava o bico

para não dar chatice

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

tinham segredos

de crescidos

que eu não podia saber

mas faziam corridas

comigo às cavalitas

davam-me gelados

e levavam-me

sempre atrelada.

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

são agora

do meu tamanho

e às vezes

pedem-me ajuda

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 15.03.15

Uma pessoa põe uma filha na ordem e, quando chega à cama, tem uma ameaça destas em cima da almofada. Céus.

 

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 02.02.15

Rita Prieto entra pela CUF a dentro e comenta aos berros que já lá esteve uma vez que teve (e passo a citar) "uma infecção ordinária".

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Família alargada

por Pedro Correia, em 29.12.14

I

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 II

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 III

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 09.12.14

Então e quando a malta vai jogar às escondidas para a rua e grita "coito, cooooito, cooooooooito" aos berros e uma mãe não pode fazer mais nada senão morrer de vergonha e sentir-se parva e ficar ali caladinha à espera que ninguém oiça?

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 05.11.14

Rita Prieto, do alto dos seus sete anitos, resolve com toda a limpeza o velho conflito ideológico da origem da humanidade: “Olha mãe, sabes quem foram os primeiros seres vivos do planeta, sabes? Adão, Eva e os macacos”.

É o que dá ter uma filha num colégio católico com irmãos que discutem as teorias de Darwin.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 18.06.14

"Uma vez, no acampamento dos escuteiros, encontrámos droga atrás da tenda. Era Cannabis".
(e eu, para mim, que sim, que havia de ser cannabis daninha)

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 16.06.14

Esta semana, Xiquinha Prieto leu NA-NI nas costas de uma camisola do Manchester United. Do ponto de vista dos rapazes cá de casa, o objectivo académico deste ano escolar está cumprido.

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Constatações

por Francisca Prieto, em 11.05.14

Poucas coisas farão mais pela popularidade de uma rapariga da escola primária do que um gesso e um par de muletas.

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Hábitos de trabalho e família

por João André, em 08.04.14

Henrique assinou no Expresso um texto onde avança como razão para a baixa natalidade em Portugal o facto de os portugueses começarem a trabalhar, segundo ele, a «meio da manhã» em comparação com alemães e holandeses. Tivesse ele referido suecos, finlandeses ou japoneses e os meus comentários seriam menores. Trabalhando e vivendo eu em ambos os países, tenho maior familiaridade e decido comentar.

 

O primeiro ponto é simples: independentemente da hora a que se começa a trabalhar, o dia tem o mesmo número de horas em todos os países: 24 (talvez não na Coreia do Norte ou Venezuela, países de prodígios). Isso significa que se se trabalharem o mesmo número de horas sobra o mesmo tempo para a família. Deixemos no entanto este ponto de lado e olhemos para o resto dos argumentos que demonstram como a comparação é forçada.

 

O primeiro ponto é a geografia. Quem estiver interessado em ver as horas de nascer do sol nos três países pode usar este site. Seja como for, em países onde o sol nasce mais cedo(mais a Alemanha, menos a Holanda), é normal que se comece a trabalhar mais cedo.

 

Quanto ao hábito de chegar e começar a trabalhar de imediato, não sei onde trabalhou Raposo, mas não foi nas empresas onde eu ou os meus amigos trabalharam. Na Holanda o dia começa invariavelmente com o café e tem interrupções a meio da manhã e da tarde para outro (tudo entre 15 a 30 minutos). Os alemães começam também com um café mas mais curto. Compensam isto com um almoço mais longo que o de meia hora dos holandeses.

 

Onde Raposo tem alguma razão é na insistência da vida familiar. Há pressão da parte dos empregadores para não se trabalhar demais. Isso está ligado à pressão que recebem dos sindicatos e das regras dos contratos colectivos de trabalho. Os horários não são um objectivo em si, mas o resultado da influência dos sindicatos. Talvez Raposo pudesse dedicar um pouco mais de atenção a este aspecto. Seja como for, a maior parte dos meus colegas chegam ao escritório entre as 8 e as 8 e meia. Muitos fazem-no mais tarde.

 

E a razão para isso são os horários de jardins de infância e creches. É aqui que os horários são feitos. Se uma creche aceitar crianças até às 9, o trabalhador não terá incentivo para começar mais cedo. Se a criança tiver de chegar até às 8, então a coisa pia mais fino. O mesmo se passa com a hora de ir buscar os filhos.

 

E falta então a protecção às famílias que querem ter filhos. Na Alemanha e Holanda há (em modelos diferentes) protecção de emprego para os pais durante 2 a 3 anos após o nascimento. Isso ajuda a planear o crescimento da família. Por outro lado há maior pressão social para que as mães se mantenham em casa para cuidar dos filhos.

 

Como uma amiga minha referiu em resposta a estas  minhas objecções ao texto de Henrique Raposo, «resume-se tudo a isto: não sei em que país vive Raposo, mas não é em Portugal». No fundo trata-se de mais uma das inúmeras variações do famoso lá fora.

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 20.03.14

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A Minha Mãe Sofre de Uma Síndrome Rara

por Francisca Prieto, em 14.03.14

Hoje a minha mãe faz 80 anos e eu estou tão contente que resolvi ir repescar um texto que escrevi sobre ela há uma data de anos, que permanece perfeitamente actual. Diz assim:

 

A minha mãe é uma pessoa fora de qualquer padrão, que combina em si vários ingredientes contraditórios. Tem uma pitada de loucura conjugada com uma enorme dose de bom senso. Dá conselhos sábios mas é incapaz de lidar com dois comandos ao mesmo tempo. Nunca tirou a carta de condução porque é muito distraída e sabia de antemão que não era boa ideia sentar-se ao volante de um carro. Mas sempre soube instintivamente ajudar a conduzir a vida de cada um dos filhos.

 

Uma vez disse-me, em tom de brincadeira, que tinha a certeza de que sofria de uma qualquer síndrome que ainda não tinha sido descoberta pela ciência. Não era Alzheimer, não era Parkinson, seria uma qualquer combinação das duas, com alguns acrescentos, a que a medicina ainda iria um dia dar um nome.

 

Quando dá uma opinião socorre-se generosamente de gestos grandiosos e expressivos para sublinhar os pontos mais importantes, o que implica uma varridela, com impressionante efeito dominó, de todas as molduras em cima de qualquer aparador.

E, ao contar uma história, perde-se de forma exasperante por todas as intersecções do caminho, o que requer muitos parêntesis curvos, rectos e duplo rectos, até que se consiga dar de novo com a ponta da meada. Esturram-se assim invariavelmente todos os tachos que estão ao lume mas a família fica semi informada acerca de vários assuntos completamente díspares.

 

Para delícia dos netos, é capaz de muito facilmente simular um desmaio no chão da sala sem que parta nenhum osso. E é dona de um saco mágico ao qual chama “material didático” de onde saem objectos inesperadas que servem de mote para começar a contar uma história.

 

A minha mãe é ímpar porque, ao contrário da maior parte das pessoas que conheço, construiu a sua vida sem expectativas o que quer dizer que nunca sofreu nenhuma grande decepção. Vive gozando com tranquilidade o que vida lhe vai oferecendo e, numa atitude prática invejável, resigna-se facilmente face a qualquer contrariedade.

 

Nunca se achou bonita e nunca teve qualquer ímpeto de vaidade. Mas arranja-se sempre que a ocasião o exige para não nos deixar ficar mal.

 

A minha mãe está sempre cansada porque está sempre a acudir a pessoas e a fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Para sobreviver, passa as tardes de sábado deitada. Mas isso não a impede de tratar do que quer que seja. São históricos os momentos em que, entre as pregas do lençol, deu explicações de francês a filhos e netos, coseu botões de camisas, fez inúmeros trabalhos de faculdade, cortou unhas, contou histórias e, se necessário fosse, descascaria uma saca de batatas.

 

Quando ainda trabalhava, adormecia frequentemente nos comboios da linha de Cascais. Às vezes tinha sorte e era acordada pelo revisor, outras vezes seguia recambiada para Lisboa sem dar por nada.

 

Não sei ao certo qual é a síndrome rara de que padece a minha mãe, mas era bom que fosse contagiosa, ou pelo menos hereditária, porque o mundo seria muito melhor e bastante mais divertido com uma data de pessoas como ela.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 20.02.14

Rita Prieto, 6 anos, com ares de importante: "Desde criança que confundo o Jumbo com o Lidl". Há uma eternidade, portanto. Toda uma vida de engano na área da grande distribuição. Coitada.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 06.02.14

 

Hoje chamei insolente ao meu filho Manel. Ele não sabia o que era. Foi quando lhe chamei analfabeto.

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Idiossincrasias

por Francisca Prieto, em 15.01.14

Dorotheia nunca foi mulher de alinhavos. Na profissão, tal como na vida, fazia ponto de honra em costuras pespontadas a rigor, acertadas com esmero e mestria.

Mãe viúva, sozinha aos trinta e poucos anos, criou dois filhos como se não gostasse deles. Não porque realmente não gostasse, mas porque o esforço de viver lhe exigia tanto que não lhe sobrava energia para os afectos.

O meu pai e o meu tio foram criados entre cortes de tecido, carrinhos de linhas, latas de botões com tampas de amores-perfeitos e muitas femininas conversas misteriosas sussurradas entre as aprendizas.

 

Senhora Dona Dorotheia era modista reconhecida, capaz de transformar um vulgar pedaço de pano numa cópia fiel de qualquer modelo Chanel acabado de chegar de Paris.

Encarava a vida de forma austera e raramente se permitia uma extravagância. O seu luxo consistia em admirar, entre os dedos, dezenas de pedras luminosas que coleccionava para pregar nos vestidos. Pequenas missangas prateadas, lantejoulas ou botões acetinados que guardava religiosamente em caixas de cartão à espera de uma ocasião que lhes fizesse justiça.

 

Quando a conheci foi como avó Thea. Quando os anos já tinham levado grande parte da amargura e dos desgostos e, na lata dos amores-perfeitos, os botões tinham dado lugar a bolachas de chocolate subrepticiamente surripiadas pelos netos.

Mas ainda presenciei, por várias vezes, a sua mórbida obsessão pelos cerimoniais da morte. Tendo enterrado a maior parte dos seus entes queridos, para nosso desespero entretinha-se a planear o seu próprio funeral até ao mais ínfimo pormenor. Fez-nos jurar que lhe cobriríamos a cara com um lenço rendilhado oferecido por uma antiga cliente, que lhe colocaríamos uma lápide de mármore na sepultura, que mandaríamos gravar na lápide as datas de nascimento e de morte, que a cobriríamos de flores, eu sei lá.

 

Num dia em que, no atelier de costura, todos admirávamos um lindíssimo vestido de seda preta, acompanhado de cinto de brilhantes, lembrou-se de repente que gostaria de o usar a caminho da última morada. Acrescentou, no entanto, que fizessemos o favor de lhe tirar o cinto porque era mal empregado para a ocasião.

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Agora é a mãe...

por Helena Sacadura Cabral, em 04.12.13

Está a tornar-se hábito que os familiares de políticos vejam a sua vida pessoal na praça pública como se exercessem funções que a tal impusessem.

Agora é um jornal que coloca em primeira página que a mãe do engenheiro Socrates deve dinheiro ao fisco por via de mais valias na venda de uma sua casa. Mas o que é que algum de nós tem que ver com a vida da senhora? Se deve, é o fisco e só ele que tem de resolver o assunto. Se não deve, é uma calúnia que merece ser punida.

É evidente que o que se pretende é atingir o ex PM. Mas a continuarmos assim, sem que ninguém se insurja, daqui a pouco estamos a pagar pelo que fizeram os nossos trisavós ou primos em quarto grau.

Não sou amiga do Eng. Socrates nem da sua ascendente. Mas considero inaceitáveis processos deste tipo. Os filhos não respondem pelos pais e o inverso também é verdadeiro. A que propósito é que a vida da senhora é tornada pública, visando uma matéria da sua estrita esfera privada?

A saga da transparência está, no nosso país, a alcançar proporções insanas, que ofendem profundamente o direito à vida privada e à defesa do bom nome pessoal.

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Empresas e promoção da natalidade

por João André, em 03.12.13

No Arrastão, Daniel Oliveira escreveu sobre o envelhecimento da população portuguesa. Refere no post um inquérito pelo INE onde as razões para a baixa fecundidade são expostas. O principal culpado é o esperado: a situação financeira dos casais. Não discuto este ponto. Se eu tiver dificuldades em pagar a minha casa e a minha comida também hesitarei antes de decidir ter filhos.

 

A este aspecto gostaria no entanto de acrescentar outro, talvez pouco presente em Portugal no momento, mas cada vez mais notório noutros países europeus: a carreira dos casais (não só das mulheres). As empresas modernas exigem aos seus quadros qualificados cada vez mais disponibilidade. Isto significa que uma vida familiar é um obstáculo frequente à progressão profissional. Há filhos que adoecem, há que levá-los às creche ou escola, há que os ir buscar, levá-los às suas actividades, brincar com eles, ajudá-los com as suas tarefas, educá-los, vesti-los (literalmente - uma birra de uma criança quando está a ser vestida pode levar a atrasos complicados na chegada ao trabalho), etc. Isto para lá da questão óbvia da licença de maternidade e do tratamento pela mesma medida de homens e mulheres por parte das empresas.

 

A realidade é que, mesmo um casal que tem uma boa situação financeira e profissional, poderá ter tendência a adiar os filhos à espera de um momento em que a sua carreira tenha atingido um patamar mais estável onde uma criança não complique as suas obrigações. Infelizmente, num mundo empresarial onde há cada vez maior mudança de funções (para motivar empregados), essa estabilidade não é facilmente atingida.

 

Antes que me perguntem, não tenho uma solução mágica para mudar a situação. Muitas empresas promovem o trabalho flexível, a partir de casa, por exemplo. Esta solução tem demonstrado que os empregados são mais eficientes e produtivos e, muito importante, mais felizes. Também acaba por aumentar o número de horas que um empregado trabalha, mas poderá ser uma troca aceitável. Outras soluções passam por ter creches e jardins de infância da/na empresa (só possível para grandes empresas ou em associação com outras pequenas e médias empresas) e ter horários flexíveis.

 

Este não será um problema da generalidade da população portuguesa, mas serve para ilustrar como não podemos esperar que o governo venha, por artes mágicas, resolver tudo. Há uma responsabilidade da sociedade civil e das empresas privadas para com o tecido socio-económico em que estão inseridas. Cumpri-la pode ser não só um imperativo moral, pode também trazer benefícios próprios.

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Os homens falham...

por Helena Sacadura Cabral, em 02.10.13

Este fim de semana comecei a ler os jornais atrasados e respectivas revistas. Numa delas vem um artigo que me deixou surpreendida. Trata-se de um jovem luso americano que será filho de Salgueiro Maia e de uma senhora açoriana com quem o herói nacional terá mantido uma relação de dez anos.

O filho cresceu em New Jersey e só em 2008 - nasceu em 1984 - soube quem era o seu verdadeiro pai. Decidiu e bem, em Agosto último, interpor uma acção de investigação de paternidade. Salgueiro Maia nunca reconheceu este filho para não magoar a sua mulher oficial, com quem teve dois filhos adoptados.

Ninguém tem o direito de julgar ninguém e não serei eu a faze-lo. Mas sempre fui contra a injusta discriminação que a nossa anterior legislação fazia entre filhos legítimos e ilegítimos. Um filho é sempre legítimo. Os pais é que podem não o ser.

Faz bem este jovem em reclamar a paternidade por integridade. Porque, de facto, ele tem direito ao pai que lhe pertence por direito.

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Regresso ao passado (VII)

por Pedro Correia, em 03.08.13

 

Folhear exemplares antigos do Jornal do Fundão, em particular as notícias relacionadas com a actividade dos tribunais, é mergulhar num país com reminiscências camilianas ou aparentado com a ficção de Aquilino.

Destaco duas notícias datadas de há meio século, ambas impressas em 8 de Dezembro de 1963.

 

"Roubou a caixa de esmolas" era o título da primeira. Que passo a transcrever omitindo o apelido da pessoa em causa:

"Américo..., solteiro, de 20 anos de idade, residente em Silvares, foi julgado por ter furtado da caixa de esmolas das Alminhas, daquela freguesia, 86$80 [oitenta e seis escudos e oitenta centavos].

O réu, que era bem comportado, fez aquele furto por se encontrar embriagado. Prevendo a Lei o perdão para casos em que o valor do furto é inferior a 100$00, o Mtmo juiz perguntou ao queixoso se perdoava ao réu. Como todavia respondeu negativamente, o julgamento teve de prosseguir até final. Foi condenado em 15 dias de prisão a 30$ por dia e também a 30$ diários. Em virtude da sua menoridade, de se mostrar arrependido do mal que praticou e do seu bom comportamento, a pena foi-lhe suspensa por três anos se dentro de 20 dias entregar ao Pároco de Silvares aquela quantia de 86$80 e ainda os prejuízos que causou na caixa de esmolas."

 

Eis a segunda notícia, intitulada "E depois do fandango...":

"Foram julgados Joaquim Craveiro e Armando da Silva, jornaleiros, residentes no concelho de Penacova, por se encontrarem acusados de em 8 de Setembro findo, ao anoitecer, terem esperado na serra do Monte Leal, e depois ofendido corporalmente, João Pires, casado, agricultor, do concelho de Abrantes. Passou-se que naquele dia agredido e réus estiveram juntos com mais companheiros numa taberna de Monte Leal, tendo nessa altura o ofendido, já tocado pelo vinho, divertido os assistentes dançando o fandango. Ao anoitecer e quando se dirigia para o local onde trabalhava, o ofendido encontrou, em local ermo, os dois parceiros, tendo o Craveiro dito que tinha a mania de dançar o fandango. O João Pires respondeu-lhe e o Craveiro, que não gostou da resposta, passou a agredi-lo com um pau, só desistindo da agressão quando companheiros do ofendido acudiram aos seus gritos.

Não se provou que o réu Armando da Silva tivesse praticado qualquer agressão, pelo que foi absolvido. O réu Joaquim Craveiro foi condenado a 40 dias de prisão substituída por igual tempo de multa a 10$ diários e em 600$ de indemnização."

 

Hoje as notícias são muito diferentes. E a forma de as redigir também mudou. O que se dirá daqui a meio século daquilo que agora acontece e do modo como é descrito?

 

Imagem: Silvares em 1937, fotografia de Orlando Ribeiro (do arquivo fotográfico de Duarte Belo)

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Regresso ao passado (VI)

por Pedro Correia, em 02.08.13

 

Duas rubricas sempre muito apreciadas no Jornal do Fundão, ao longo das décadas, foram a "vida municipal", que relatava as sessões da câmara, e os ecos dos tribunais, que davam conta dos litígios dirimidos pelas autoridades judiciais. Eram janelas abertas para o país real mesmo em período de implacável censura à imprensa: por ali o leitor vislumbrava retalhos concretos da sociedade portuguesa em geral e da fundanense em particular.

No seu estilo inconfundível, António Paulouro - fundador do jornal em 1946 e seu director durante quase meio século - queixava-se em meados da década de 60 da inutilidade de relatar as sessões da câmara quando as decisões já ali chegavam pré-decididas no gabinete do presidente do município, condenando todo o debate ao fracasso.

Estes alertas do grande jornalista que Paulouro foi faziam a pedagogia política possível num tempo em que a imprensa regional fiel à sua verdadeira missão, como era o caso, assumia a voz da consciência pública quando o poder local democrático mais não era do que uma miragem.

 

Numa edição de Maio de 1955 dou conta das prioridades municipais: abertura de estradas em duas aldeias, reparação da casa mortuária do cemitério de Alpedrinha, autorização para uma esplanada com 18 mesas no Café Nacional e arrendamento do recém-inaugurado bar da piscina. Decidiu-se também "promover o internamento, a expensa do Município, a doentes pobres das seguintes localidades: Fundão, Souto da Casa, Enxabarda, Zebras e Aldeia Nova."

O adjectivo pobre era, aliás, usado sem parcimónia num tempo que era de facto marcado pela pobreza. Na mesma sessão camarária "foi presente um ofício da Junta da Província da Beira Baixa a pedir que se recomende aos médicos o máximo cuidado na escolha das crianças [pobres] que hão-de beneficiar do tratamento hélio-marítimo e a perguntar qual o contingente concelhio." E "foi lido um ofício da Direcção Geral de Saúde a recomendar a conveniência de se elucidarem as populações acerca dos benefícios do abastecimento de água pura".

Mais sugestivas ainda eram as notícias das sessões do Tribunal da Comarca do Fundão. Delas falarei aqui amanhã, no último texto desta série.

 

Imagem: piscina do Fundão, nos anos 50 (do blogue Postais do Fundão)

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Regresso ao passado (V)

por Pedro Correia, em 01.08.13

 

Na manhã da passada sexta-feira desloquei-me ao excelente edifício onde funciona a biblioteca municipal do Fundão, apropriadamente baptizada com o nome de Eugénio de Andrade (natural da Póvoa da Atalaia, uma das freguesias do concelho) para prosseguir a minha pesquisa de notícias relacionadas com familiares meus.

Li o obituário - devidamente destacado - do meu tio-avô António, que foi durante quase meio século funcionário administrativo do Diário de Notícias: ao seu funeral, fiquei a saber, compareceram vários dos nomes mais destacados do corpo redactorial do jornal e até um membro da direcção. Li também o obituário do meu tio-avô José, que emigrou muito jovem para os Estados Unidos, tornando-se proprietário de um resturante em Brooklyn: quando vinha de férias a Portugal, era sempre uma festa para a família e nunca faltavam prendas originais para a garotada. Viajava sempre de barco. Mas, na última viagem, disse à mulher: "Desta vez vamos de avião." Morreu pouco depois de chegar: de algum modo escolheu ficar para sempre no país de onde partira quase meio século antes.

 

Penso no meu tio Zé, figura de referência da minha infância, ao ler esta notícia num exemplar do Jornal do Fundão de 1956 alusivo à belíssima aldeia de Castelo Novo: "Vindo do Brasil no vapor 'Vera Cruz', que chegou a Lisboa no dia 25 de Junho, encontra-se entre nós o sr. prof. José Esteves Carramenha, que há 45 anos não visitava a sua terra natal." Um emigrante também, como o meu tio da América.

Notícias que nos falavam de outro mundo - um mundo em que as viagens eram difíceis e muito dispendiosas, em que cada partida tinha sempre um carácter definitivo. Partia-se para sempre, até demonstração em contrário.

 

Era um mundo onde as pessoas se moviam numa escala muito familiar. Um pequeno mundo reflectido em anúncios como este: "Pombos e galinhas - impurezas de cereais. Vende a Moagem dos Ferreiras". Ou este, do oculista Bonina, na Covilhã: "Se o senhor é um homem cauteloso não se dispensa conhecer a pressão atmosférica. Evitará muitos incómodos. É sempre bom ter em casa um dos nossos barómetros."

Um mundo que se media tantas vezes à distância de uns quantos quintais. E que proporcionava deliciosas notícias como esta, intitulada "Pombo Correio", também numa edição de 1956: "No dia 6 de Maio à tarde foi encontrado pelo sr. X, do Freixial, um pombo correio com uma anilha de borracha e outra de alumínio, com os seguintes dizeres respectivamente: F561 e 390077 Portugal".

Num jornal contemporâneo, é impossível lermos uma notícia com alusões a pombos correios sem ser em sentido figurado. Muita inocência foi-se perdendo pelo caminho.

 

Imagem: centro histórico da aldeia de Castelo Novo

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Regresso ao passado (IV)

por Pedro Correia, em 31.07.13

 

A publicidade é uma das formas mais interessantes de acompanharmos a evolução de uma sociedade através dos jornais. Por exemplo, em 1967 era frequente haver anúncios a televisores e frigoríficos nas páginas do Jornal do Fundão, algo impensável poucos anos antes. E registavam-se já técnicas publicitárias a que hoje estamos muito habituados.

Repare-se nisto, que encontro na edição de 26 de Março de 1967: "Vive no Fundão e tem telefone? (título) Ao atender, que as primeiras palavras sejam Quem tem Butagaz tem tudo".

Falta acrescentar que naquele tempo, por estas bandas, os números de telefone tinham apenas três algarismos (ou dígitos, como hoje diríamos).

 

Eram alguns dos primeiros sinais da acelerada transição de um meio marcadamente agrícola, numa vila ainda cercada de quintas em todo o seu perímetro, para a urbe moderna em que se tornou, embora sem perder as raízes rurais. Já então - recordo-me bem desses tempos da minha infância - quem vinha das aldeias situadas em zonas mais remotas do concelho era facilmente reconhecível, em comparação com as gentes da crescente malha urbana, pela indumentária e pelo tom de pele, muito mais moreno devido à constante exposição ao vento e ao sol. O que de algum modo ainda sucede, nomeadamente às segundas-feiras, quando muitos forasteiros acorrem à concorrida feira municipal, tradição que perdura.

 

Nesse ano de 1967 já o Jornal do Fundão tinha nomes sonantes das letras, das artes e do jornalismo a escrever nas suas páginas - e não apenas ligados à região, como em épocas precedentes sucedia com António José Saraiva (que escrevia regularmente do exílio em Paris), José Hermano Saraiva ou Francisco Rolão Preto, nome histórico do nacional-sindicalismo e da resistência monárquica.

Refiro-me a figuras como José Cardoso Pires, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, José Carlos Vasconcelos e Lauro António. Artur Portela Filho era "enviado especial" do jornal à Jordânia, em plena Guerra dos Seis Dias. Vítor Silva Tavares editava um excelente suplemento cultural - chamado "& etc", predecessor da editora homónima - com um grafismo que pedia meças ao da melhor imprensa com difusão nacional e onde se escrevia sobre filmes como Pierrot le Fou e Blow Up. A palavra "sexo" já surgia em títulos, apesar do olhar sempre vigilante da censura, que mirava com vistas implacáveis um periódico então com fama (e proveito) de simpatias pela oposição democrática.

"Arranjei uma gravurinha do século XIX - uma mãozinha com uma tesoura - que reduzi e apliquei na primeira página, quatro ou cinco vezes nos lugares onde tinha havido cortes. Aprendemos com a censura a ler os sinais gráficos. Tudo poderia constituir mensagem, subliminar, escondida. Era um jogo de gato e rato", lembraria o editor numa entrevista, muitos anos depois.

Marcas de um certo cosmopolitismo nessa Cova da Beira do Portugal de Salazar ainda situada a muitas horas de viagem de Lisboa. Marcas reflectidas no próprio noticiário comum. Na contracapa do jornal, sempre tradicionalmente dedicada à cidade da Covilhã, o destaque era dado - nessa edição de Março de 1967 - a uma "notável palestra do sr. Manuel Mesquita Nunes [provavelmente familiar do nosso Adolfo] sobre os problemas actuais da indústria de lanifícios", numa conferência de rotarismo.

 

Na mesma edição, leio a notícia de que dois primos meus - o alferes miliciano Manuel Correia Saraiva e o furriel miliciano António Eduardo Correia Saraiva - tinham regressado ao Fundão, cumprido o serviço militar no Ultramar. Eram as referências possíveis à guerra que se travava em três frentes africanas muito distantes do rectângulo luso e da qual só chegavam ecos esparsos às páginas dos jornais.

 

Imagem: uma rua do Fundão nos anos 50 (foto Caradisiac)

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Regresso ao passado (III)

por Pedro Correia, em 30.07.13

 

Os periódicos regionais, como o Jornal do Fundão, cumpriam a vocação de acompanhar os ciclos vitais dos seus leitores. Lembro-me desde sempre de ver pais, avós, tias e primas abrindo o semanário enquanto diziam "deixa cá ver quem morreu..."

 

A primeira notícia verdadeiramente triste de que me lembro na minha família - como já evoquei aqui - foi a morte do meu avô, na segunda metade da década de 60. Lá vem ela relatada também nas páginas do Jornal do Fundão, sob letras grandes e negras: "Necrologia".

Era muito novo para me recordar de pormenores - e nem sequer estive presente no funeral: por esses dias, eu e o meu irmão ficámos à guarda dos meus outros avós, pais da minha mãe.

Deixou-me portanto uma sensação amarga e doce, a leitura desta notícia a tantos anos de distância na sala onde funciona o arquivo do jornal. Amarga por me fazer reviver aqueles dias tristes da minha infância. Doce por fornecer um retrato do falecido que sublinha as suas qualidades profissionais e humanas. Assim ficarão registadas para a posteridade, graças ao redactor anónimo daquelas linhas. A tal ponto que não resisto a transcrevê-la parcialmente:

 

"Na madrugada do dia 25 faleceu no Hospital da Misericórdia o nosso prezado amigo sr. Luís Correia, de 72 anos de idade, funcionário, aposentado, da Federação Nacional dos Produtores de Trigo. Muito considerado nesta vila, de onde era natural, foi vereador da Câmara Municipal do Fundão, regedor da freguesia e durante muitos anos secretário da Liga dos Combatentes da Grande Guerra. Profissional zeloso, bairrista devotado, o extinto, quer pela lhaneza do trato, quer pelas suas qualidades pessoais, contava inúmeros amigos. (...) O funeral, realizado para o cemitério do Fundão, e para o talhão dos Combatentes da Grande Guerra, foi uma grande manifestação de pesar."

 

O avô Luís era "muito considerado", "bairrista devotado", conhecido pelas "qualidades pessoais" e com "inúmeros amigos". Um legado destes, documentado nas páginas de um prestigiado semanário, vale por toda a fortuna que pudesse ter recebido em herança.

Obrigado, Jornal do Fundão, por teres feito do meu avô notícia. E por teres conseguido tornar também doce uma recordação que para mim era apenas triste.

 

Imagem: praça do município do Fundão, nos anos 30 (do blogue Postais do Fundão)

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Regresso ao passado (II)

por Pedro Correia, em 29.07.13

 

Leio a notícia do casamento dos meus pais, na segunda metade dos anos 50. São quatro parágrafos, encimando uma coluna também de "notícias pessoais" - incluindo um "pedido de casamento", a transferência para outra zona do País de um tesoureiro que "durante alguns anos exerceu as suas funções no Fundão onde, pelo seu nobre carácter e excelentes qualidades, conquistou sólidas amizades", a partida "com destino a Luanda do nosso conterrâneo e amigo" senhor Fulano de Tal "aceitando um convite que lhe foi dirigido pela Companhia dos Diamantes de Angola" e a boa nova da menina Maria do Céu..., "operada com pleno êxito ao nariz".

A notícia sobre os meus pais publicada no Jornal do Fundão, que transcreverei parcialmente, é muito completa. E obedece aos cânones técnicos da escrita jornalística, respondendo às questões fundamentais: o quê, quem, quando, onde.

"Na Igreja da Sé, em Castelo Branco, realizou-se no passado dia 30 o casamento do nosso distinto colaborador e amigo sr. Félix da Silva Correia, funcionário da Direcção-Geral de Saúde em Lisboa, filho do sr. Luís Correia e da srª D. Maria Ângela da Silva Correia, com a srª D. Isabel de Magalhães Mendes Correia, gentil filha do sr. major Mendes Correia e da srª D. Maria do Patrocínio Mendes Correia."

Além dos nomes dos noivos e dos pais, são também mencionados os padrinhos e madrinhas. E a prosa rematava desta forma: "Em casa dos pais da noiva foi servido aos convidados um fino copo de água. Os noivos fixam residência na Costa da Caparica. Ao novo lar desejamos incontáveis felicidades."

 

Relance de um jornalismo de proximidade, espécie de rascunho dos livros de História do futuro a partir do qual reconstituímos uma parcela significativa da vida quotidiana que passou. Um tempo em que os órgãos de informação desejavam "incontáveis felicidades" a jovens recém-casados: instantes felizes fixados para a posteridade numa coluna de jornal.

 

Imagem: Sé de Castelo Branco, num postal antigo (do blogue O Albicastrense)

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Regresso ao passado (I)

por Pedro Correia, em 28.07.13

 

Se há coisa de que sempre gostei foi de consultar jornais antigos. Sou capaz de estar horas esquecidas numa biblioteca ou numa hemeroteca, aprendendo em cada notícia sobre o passado - e, através dele, conseguindo perceber também um pouco melhor o presente.

Sucedeu-me na tarde de quinta-feira, numa consulta à colecção do Jornal do Fundão, em cuja redacção fui muito bem recebido. Pretendia ler, fotocopiar e guardar notícias especificamente relacionadas com a minha família. Houve épocas em que os jornais - particularmente os jornais sedeados em cidades ou vilas da província - eram repositório de acontecimentos que constituíam marcos na vida privada de muitos dos seus assinantes e leitores, tornando-os notícia.

A partir de muitos desses textos é possível reconstituir hoje grande parte do quotidiano das décadas precedentes.

 

 

 

Recolhi várias notícias que de algum modo me diziam respeito. Incluindo a notícia do meu próprio nascimento, que não possuía em nenhum arquivo familiar. Seis linhas apenas, numa coluna do jornal que tinha imensa leitura, sob a epígrafe "notícias pessoais". Uma coluna que registava nascimentos e casamentos, naturalmente. Mas também internamentos hospitalares. Ou alterações de estatuto profissional ("Foi nomeado tesoureiro da Agência Geral de Depósitos em Oliveira de Azeméis o nosso amigo sr. X a quem cumprimentamos e desejamos os melhores êxitos"), ou simples visitas em gozo de licença ou de férias ("cumprimentámos o sr. Y, natural do Alcaide, oficial da Força Aérea em Lunda, que no continente se encontra em visita de alguns dias à família").

E há pormenores deliciosos, que nos remetem para um imaginário nada condizente com os nossos dias e nos falam de um Portugal que há muito deixou de existir.

 

Uma das rubricas fixas destas "notícias pessoais" era a dos pedidos de casamento. Lá vêm dois, registados para os devidos efeitos, na edição da semana em que nasci.

Não resisto a transcrever uma destas notícias (omitindo apelidos):

"Pela srª D. Otelinda... e sr. Aníbal..., solicitador e residente em Anadia, foi pedida em casamento para seu filho sr. dr. Serafim..., Delegado do Procurador da República em Lagos, a srª D. Maria..., gentil filha da srª D. Regina... e do sr. Francisco..., falecido."

Outros hábitos, outros costumes, outra imprensa, até outra linguagem. Outro País.

 

Imagem: avenida principal do Fundão, nos anos 50 (do blogue Postais do Fundão)

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O último nevão do meu avô

por Pedro Correia, em 10.06.13

Um dia o avô morreu - foi talvez o único dia triste da minha infância. Deixei de ver aquele senhor alto e magro, de bigode fino e sorriso benevolente, que me levava cuidadosamente pela mão nos seus passeios. Era o pai do meu pai.

Foi a primeira vez que travei conhecimento com a palavra morte. E com outras palavras que lhe vêm associadas - como a palavra luto, ao ver as mulheres da família vestidas de preto.

Onze anos depois, já eu era adolescente, morreu a avó. Partiu tão de repente como partira o avô, a três dias do aniversário da morte do homem com quem vivera quase meio século. Se existem casamentos perfeitos, aquele era um deles. Uma das últimas frases de que me lembro dela tinha precisamente a ver com a data que se aproximava. Como se pressentisse que não chegaria lá.

Quando a avó morreu, durante um par de anos, ainda conservámos a casa. Mas um dia impôs-se a evidência: fazia pouco sentido continuar a arrendar aquele rés-do-chão com quintal, agora desabitado.

Desmanchou-se a casa, divisão a divisão. E vieram então à tona objectos há muito esquecidos. O mais inesperado, que jazia no fundo de um guarda-vestidos, era uma antiquíssima máquina fotográfica fabricada antes da guerra e envolta num estojo de couro, em forma de um pequeno caixote, pertencente ao avô. Aparelhos como aquele, já então, só tinham guarida em museus da especialidade.

Peguei na máquina como se fosse uma relíquia. E reparei, estupefacto, que continha no interior película fotográfica que nunca havia sido revelada.

Levei-a a um estúdio fotográfico, na esperança de que ainda estivesse em condições de reprodução tantos anos depois. Estava, de facto. Quando lá regressei, dias mais tarde, encontrei dentro de um envelope as últimas fotografias tiradas pelo avô. Na manhã seguinte a um fortíssimo nevão na vila - aquele que foi, seguramente, o derradeiro nevão no último Inverno da sua vida.

Fotos a preto e branco, de uma nitidez perfeita. Fotos sem pessoas. Apenas fixando fragmentos de neve, límpida e pura, cobrindo árvores e muros e bermas e vielas, no início de uma manhã já tingida pelo sol. O espectáculo assombroso da natureza, como uma espécie de hino ao milagre do mundo, fixado para a posteridade por quem estava prestes a despedir-se dele. 

Há quem receba dinheiro. Ou palavras. Ou diários íntimos. Há quem não receba nada. Eu recebi como testamento do meu avô esta poesia muda das últimas fotografias que tirou, recolhidas durante mais de uma década no interior da sua antiquíssima Rolleiflex. Quase em jeito de epitáfio, como se pretendesse transmitir por imagens ao neto que nunca mais veria: não procures mais, o essencial da vida é isto.

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A primeira casa a que digo adeus

por Pedro Correia, em 17.02.13

As casas onde vivemos farão sempre parte do nosso roteiro afectivo.

Há pessoas que passam uma vida inteira numa só cidade, num só bairro, numa só rua, numa só habitação. Outras vão mudando de morada ao sabor de circunstâncias imprevistas, de sobressaltos familiares, de imposições profissionais que por vezes nos levam até a passar temporadas ocasionais em casas de empréstimo.

Incluo-me entre estes últimos, que conhecem bem o significado daqueles versos cantados por Sérgio Godinho: "E é então que amigos nos oferecem leito / entra-se cansado e sai-se refeito."

 

Já vivi - semanas, meses, anos - em mais de vinte casas: dava para uma série em que contasse a minha relação com qualquer delas. Talvez me lance nessa empreitada um dia destes.

Mantive-me de algum modo ligado a elas e revisito-as periodicamente, sempre que posso - ao vivo ou através de viagens virtuais no Google Earth às mais distantes, noutros países ou continentes. Sou capaz, ainda hoje, de desenhar a planta do interior de quase todas.

Ainda há um par de meses revi a casa onde morei parte da infância, em Viana do Castelo. Não faço a menor ideia de quem lá vive agora e nem me atrevi a tocar à campainha para que me abrissem a porta sob qualquer pretexto. Mas olhei para a fachada daquele edifício tão bem conservado e senti um orgulho indisfarçado como se fosse meu, mirei a janela aberta daquele segundo andar que correspondia ao meu antigo quarto de menino e logo me assaltaram suaves recordações de infância e também de um pesadelo nocturno, da única vez que me lembro de um pesadelo enquanto dormia, um pesadelo em que era esmagado por um comboio a toda a velocidade. O prédio fica perto da estação ferroviária, talvez uma coisa tivesse a ver com a outra.

 

Mas há pesadelos bem reais. Ontem senti um desses pesadelos ao ver, nos telediários da RTP e da SIC, as imagens de uma casa em chamas, no Fundão.

Era a antiga casa dos meus avós.

 

 

Passei quase todas as minhas férias grandes até aos 18 anos numa fracção desta casa de quatro inquilinos. Os avós habitaram-na durante um quarto de século. Era um apartamento humilde mas povoado de memórias muito felizes. Numa das minhas fotografias preferidas, estou com apenas ano e meio numa das janelas desta casa - correspondente ao quarto dos meus pais - ao colo da minha mãe. Ambos com sorrisos perpetuados para a eternidade nesse dia sem sombras das primeiras férias natalícias em que me familiarizei com a neve.

Situada na parte mais alta da vila, hoje cidade, a casa tinha como complemento natural o parque desportivo implantado já na vertente da Gardunha com o seu complexo de psicinas e rinques de patinagem. Nas férias, eu e o meu irmão ali nadávamos e jogávamos à bola e andávamos de bicicleta em movimento sem fim do nascer ao pôr do sol.

Não havia computadores nem televisão nem telemóveis: só um telefone tardio, com apenas três dígitos. Ouvíamos os Parodiantes ou os folhetins radiofónicos na telefonia e espreitávamos um ou outro programa televisivo em serões na casa dos vizinhos, espécie de prolongamento da nossa, como então faziam milhões de portugueses.

Conversava-se e convivia-se muito mais naquele tempo em que a rua, quase sem trânsito, também funcionava como prolongamento da casa e era palco de brincadeiras sem fim com primos ou amigos ocasionais que passavam sem transição de simples desconhecidos para alegres compinchas de jogos e travessuras infantis.

 

 

Dormi pela última vez nesta casa na Páscoa dos meus 19 anos, quando regressei ao encontro da neve, já os avós tinham morrido e o meu pai decidira não continuar a pagar renda por aquele rés-do-chão direito onde íamos cada vez mais de longe a longe nessa época sem auto-estradas em que as viagens rodoviárias entre o Fundão e a capital podiam durar seis horas ou até mais.

Não a revi durante muitos anos a não ser nas fotografias dos álbuns familiares e nas minhas recordações - cada vez mais distantes, cada vez mais próximas. Percebo agora, muito melhor do que percebia há dez ou vinte anos, o significado da frase "a criança dita e o homem escreve", de Julien Green, que seleccionei para hoje na minha série diária sobre escritores.

Revi-a em 2011 e no ano passado, em três visitas sucessivas. Tirando a rua, hoje muito mais movimentada por se inserir actualmente na circunvalação da cidade, parecia estar tudo como dantes. Pintada de fresco, com o mesmo ar acolhedor e as mesmas portadas de madeira na janela onde o pai nos tirou aquela fotografia de que tanto gosto.

 

 

Voltei a vê-la ontem à noite, em chamas. Dizem as notícias que o fogo começou na casa da vizinha que era antigamente o prolongamento da nossa. Revi o quintal onde se situavam as capoeiras e as coelheiras, e onde havia um barracão no qual o avô guardava alfaias e ferramentas, e onde uma rudimentar latada nos fornecia uma sombra saborosa nas tardes mais quentes de Verão.

Refaço mentalmente a planta da casa que vejo incinerada nas dolorosas imagens televisivas e nas fotos publicadas no Jornal do Fundão (e que aqui reproduzo, com uma vénia comovida). Há tantos anos deixei de morar ali e mesmo assim, ao ver estas imagens do pequeno prédio agora sem tecto nem parte do telhado, sinto que me arrancaram um órgão vital.

É a primeira casa de que me despeço não com um até já ou um até sempre, mas com um até nunca mais.

Amanhã regressa a rotina adulta, hoje volto a ser criança pela última vez, subitamente devolvido àquelas manhãs em que todos estavam vivos quando eu fazia anos e toda a gente sorria nessas fotografias que num dia muito distante a poeira do tempo apagará.

 

Foto antiga da piscina do Fundão, extraída do blogue do meu primo Eduardo Saraiva, O Andarilho. As fotos do incêndio de ontem são de Catarina Canotilho e estão na edição em linha do Jornal do Fundão

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Muito cedo na vida é demasiado tarde

por Pedro Correia, em 20.12.12

Despedi-me ontem de uma tia na solidão cinzenta e gélida do crematório dos Olivais. Enquanto espreitava em fundo a estrutura arquitectónica que Santiago Calatrava concebeu para a Gare do Oriente e a feia floresta de cimento em que se transformou o Parque das Nações, ia pensando nos retratos que me habituei a ver desta tia nos velhos álbuns de família. Era uma mulher muito bonita, que nas décadas de 40 e 50 posava para as máquinas fotográficas como réplica das estrelas de Hollywood tão populares nessa época.

Olho hoje estas imagens e parecem-me saídas de uma era muito mais remota, envolta em névoa, em flagrante contraste com estes vertiginosos dias que vivemos.

 

Eram quatro irmãs - entre elas a minha mãe. Elos de uma família muito unida, embora espalhada pelas mais diversas paragens do globo. Esta tia era a primogénita - e também foi a primeira a partir, em sintonia com um princípio que devia ser obrigatório: sai mais cedo de cena quem primeiro cá chega.

Infelizmente não foi assim no caso dela: há quatro anos, de forma inesperada, morreu-lhe um filho, o mais velho, o primeiro de um clã de dez primos direitos de que faço parte, espécie de irmãos em segundo grau - sempre nos vi assim, sempre assim nos verei.

Quando o Zé embarcou na grande viagem sem regresso todos percebemos que ela, de algum modo, desistiria também de viver. A natureza é inclemente por definição. Mas nada é tão impiedoso como uma mãe que se vê condenada a enterrar um filho.

Ela assim o fez - destruída por dentro, aparentemente indestrutível por fora. Desde aí foi-se deixando entregar à morte aos poucos, como se cada folha suplementar do calendário já não lhe pertencesse por inteiro.

"Somos pó", ensinou-nos o salmista. Do pó viemos, ao pó voltamos.

 

Enquanto o sacerdote recitava as palavras que dos padres sempre se esperam, eu ia lembrando as imagens desta tia nos álbuns fotográficos. Em criança, adolescente, jovem adulta. Com os pais e as irmãs. Em Coimbra, na Figueira, nos anos felizes decorridos sob o sol africano, nas férias esporádicas na aldeia da Beira Baixa. Na última fotografia em que as quatro estão juntas, no dia do casamento dos meus pais, na Sé de Castelo Branco.

Tempos felizes, perpetuados nestas imagens a preto e branco. Com sorrisos rasgados para a eternidade, no tempo em que os dias se mediam pela imensidão dos sonhos. Elas voltaram a reunir-se muitas vezes depois disso. Mas nunca mais as quatro em simultâneo, nunca mais com uma máquina fotográfica a servir de testemunha, nunca mais com aqueles irrepetíveis rostos juvenis transbordantes de felicidade.

 

Partiu de vez, esta tia professora. Mas já tinha partido antes, de algum modo, sem se conformar com a despedida do filho piloto da Força Aérea, que não esperou por ela para abraçar a eternidade.

Na minha infância, só esporadicamente a encontrei. O meu avô era militar, revejo-o de farda imaculada nas fotografias, cumprindo várias comissões em África. As filhas receberam no berço este vírus da errância. Desde miúdo me habituei a ter parentes no Brasil, na América, em Cabo Verde, em Angola ou Moçambique. Uma das minhas tias nasceu em Malange, outra casou na Beira. Os meus pais viveram em locais tão diversos como a Alemanha ou Timor. As casas de todos nós tornaram-se inesgotáveis repositórios de recordações colhidas em cada destino perseguido e encontrado. Portugueses, cidadãos do mundo: transporto comigo este código genético, como uma espécie de tesouro íntimo. Vale mais do que todo o dinheiro à face da Terra.

 

Enquanto os funcionários da agência funerária desempenhavam a sua missão com sóbrio zelo, eu ia-me lembrando de duas prendas de aniversário que esta tia me deu. Um livro quando fiz nove anos, outro quando fiz dez. Antes disso, depois disso, ela estava a milhares de quilómetros de distância - em Díli, em Vila Luso, na Cidade da Praia - porque o marido, também militar como era o pai dela, meu avô, estava quase sempre longe. E ela esteve sempre com ele: foi um casamento de meio século, daqueles à moda antiga, que só se desfaziam quando um deles se cansava de viver.

Duas singelas prendas que jamais esqueci.

Não era muito de oferecer presentes, a minha tia. Mas por vezes basta um livro passar de uma mão adulta para uma mão de criança para que esta se lembre vida fora desse objecto como uma janela aberta aos inesgotáveis mistérios do mundo.

 

No crematório, tudo se conclui com eficiência mecânica: minutos volvidos, eis-nos devolvidos ao frenesim rotineiro da cidade. Encaminho-me a pé para o Parque das Nações pensando numa frase de Marguerite Duras: "Muito cedo na vida é demasiado tarde." Uma frase que fica a ecoar dentro de mim como um doloroso dobre de sinos neste agreste e melancólico Natal.

 

Imagem: interior do crematório dos Olivais, Lisboa (do blogue Lisboa S.O.S.)

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4 gerações

por Patrícia Reis, em 05.08.12

A avó que é bisavó.

A avó que é mãe.

E a mãe que é mãe. Foi a explicação dada por um dos miúdos.

Sábado à noite, à volta de arroz de cabrito ou de risotto de alheira, a família acolheu os amigos mais próximos, mesmo aqueles que vivem em Madrid ou em Beja.

A festa fez-se de conversas cruzadas, algumas fotografias e um silêncio maravilhado quando a lua nasceu amarela num rio escuro, ponteado de luzes da outra banda. Os risos e os gestos. Os bolos conventuais. 

A minha mãe fez 60 anos.

A minha bisavó insistiu na necessidade de uma fotografia, afinal quatro gerações juntas é um feito. Para variar estarão desfocadas. Não faz mal.

Temos esta, já com seis anos. Não mostra 4 gerações, apenas 3, faltam os meus filhos. Apesar disso tem uma particularidade que poucos conhecem: aqui estão reunidas as três Pilares da família. Se um dos meus filhos tivesse menina seria quarta Pilar da família. Eu gosto do nome e não imagino nada mais certeiro para a minha mãe. Ela é um pilar na minha vida. Possa eu ser na dela. E assim, o melhor retrato será sempre a memória: a minha mãe abraçada aos amigos, surpreendida, coberta de flores e sacos com pequenas lembranças. Chegou aos 60 anos com o mesmo sorriso que lhe recordo de outros tempos e, contra marés e outros bruxedos, ainda cá estamos. Haja saúde.  

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"Quem tem uma mãe tem tudo..."?

por Ana Lima, em 22.09.11

Os cientistas sociais há muito que estudam os fenómenos ligados às transformações que têm ocorrido, nas últimas décadas, na composição das famílias, bem como as implicações dessas transformações na forma como a sociedade se reorganiza. Mas situações como estas, que passam da mera pressão suave para a acção judicial, é que muitos não antecipariam. Mais uma vez, a dinâmica social nos vai surpreendendo.

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