Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Do Pico

por Francisca Prieto, em 21.07.17

Há uns quantos dias que fazes tenções de te sentar a escrever sobre as gentes do Pico. Mas não tens conseguido baixar o volume do que se passa à tua volta de forma a estruturar o que trouxeste debaixo da pele.

Quando começaste as tuas primeiras viagens, preferiste lugares longínquos, sempre na ideia de que os Açores era um destino para visitar na meia idade.

Hoje, ainda que muitos dias te sintas uma miúda, tens essa meia idade. Talvez tenha sido por isso que foste finalmente aos Açores. Mas o que não podias prever era que antes da meia idade e antes de teres calcorreado mundo, nunca irias conseguir perceber a Ilha do Pico. Nunca terias um aperto a disparar do coração para a garganta de tanto que tu, que não percebes nada de ilhas, que não tinhas qualquer interesse em ver baleias e que queres lá saber de rocha vulcânica, sentes que aquele recanto do mundo faz parte de ti.

Nunca poderias imaginar que o azul cerrado do Atlântico, que te entra pelos olhos a cada curva da estrada e que se mistura com os muretes negros que acondicionam a vinha, te levariam de volta à simplicidade da tua essência.

Ficas a saber histórias de baleeiros, desses homens que por valentia, galhardia e fome, se atiravam ao mar em botes para levar um punhado de dólares para casa. Ficas a saber que o terreno da ilha era tão árido e rochoso que não havia forma de cultivar os alimentos mais essenciais. Percebes, mais uma vez, a fome. Ficas a saber que se importou terra do Faial para distribuir pela base rochosa e plantar vinha. Que se fizeram pequenos rectângulos de rocha vulcânica em redor da vinha para proteger as uvas do vento e da humidade. Que hoje, esse engenho de sobrevivência, que tornou a paisagem estarrecedora, é património da UNESCO. Que o vinho é diferente de qualquer outro que tenhas experimentado porque te escorrega pela garganta e te deixa no palato um rasto a sal idêntico ao que levas no corpo depois de um dia a mergulhar

Descobres a estrada do meio da ilha, debruada a hortenses de todas as cores, que tens de partilhar com manadas de vacas que não conhecem sinais de trânsito.

A montanha é omnipresente e tens vontade de a subir, mas ainda não calhou embarcares nessa aventura.

Deitas-te à noite com a chinfrineira dos cagarros, sabendo que mesmo ali defronte moram baleias, golfinhos e tubarões.

E sabes, sem perceber exactamente porquê, que tudo aquilo passará irremediavelmente a fazer parte de ti.

 

Pico.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pensamentos de Verão

por Rui Rocha, em 04.07.17

Em geral, procuro marcar férias assegurando a possibilidade de as cancelar com custos reduzidos para prevenir a eventualidade de não as poder gozar devido a qualquer imprevisto familiar ou profissional. Mas claro. Isso sou eu que tenho uma função muitíssimo importante. Não sou cá a mixuruquice de um primeiro-ministro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

António Costa em férias.

por Luís Menezes Leitão, em 03.07.17

Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que fui mas é veranear
Antes de férias, só existi
Cansado e sem nada para dar

 

Portugal, ouve as minhas preces
Não peças que regresse, não quero perder
Estes dias a apanhar um solzinho
Talvez, devagarinho, continues a arder

 

Portugal, ouve as minhas preces
Não peças que regresse, não quero perder
Estes dias a apanhar um solzinho
Talvez, devagarinho, continues a arder

 

Se os meus Ministros não quiserem ceder
Não se demitirem, não quiserem perder
O cargo actual p'lo que virá depois,
Eu e o Marcelo aguentaremos os dois.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Reviver o passado em Caminha

por Pedro Correia, em 15.06.17

DSC07225[1].JPG

 

Devido à profissão dos meus pais, ambos professores, passei a infância a saltitar de terra em terra. Quando fiz 12 anos vivia já na oitava casa onde morei, em cinco terras muito diferentes.

Na altura, como julgo ser normal acontecer com qualquer miúdo nas mesmas circunstâncias, isso entristecia-me. Porque me sentia incapaz de cultivar amizades de infância que perdurassem para a vida. Hoje, pelo contrário, considero que esta constante itinerância produziu efeitos muito mais positivos do que negativos. Graças a ela, posso gabar-me de ter várias terras em vez de uma só.

 

Há quem não valorize isto, mas eu gosto de sentir que fui dispersando raízes por diversos quadrantes a que de algum modo posso chamar meus. Mesmo quando estou muitos anos sem visitá-los. Tem-me acontecido por estes dias, aproveitando as férias de Junho. Passei toda a semana anterior numa das minhas terras adoptivas: Tavira, que frequento com raras intermitências desde há vinte anos.

De um dia para o outro, no entanto, decidi rumar do extremo sudeste ao extremo noroeste do País. Confirmando que bastam oito horas para atravessarmos Portugal de lés a lés. E cá estou em Caminha, onde não pousava há três décadas. Não por falta de vontade mas por falta de oportunidade.

 

Ainda bem que voltei. Porque esta é uma das paisagens da minha infância. Vivi três anos em Viana do Castelo e fazíamos praia um pouco onde calhava, ao longo da estrada nacional 13: Carreço, Afife, Vila Praia de Âncora. Há poucas horas passei defronte da antiga Pensão Meira, hoje um orgulhoso hotel de Âncora, onde a família se alojava durante parte da estação estival.

Mas as minhas melhores memórias infantis de Verão são daqui, da foz do Rio Minho que tenho neste preciso momento defronte dos meus olhos. Do areal de Moledo, onde pela primeira vez vi pára-ventos, presença obrigatória nas praias minhotas batidas pela nortada. Das águas plácidas do rio, que frequentávamos quando o oceano ficava mais agitado. Da aprazível mata do Camarido, com o seu parque de campismo e os seus aromas a flores silvestres. Das caldeiradas em família no entretanto desaparecido Pirata, situado junto ao posto da velha Guarda Fiscal

 

P1010739[1].jpg

 

Regressei. E fiz bem. Calcorreando no presente os trilhos do passado quase como se não houvesse décadas de permeio. Eis-me de volta à marginal, que acompanha o vasto rio fronteiriço - semelhante aos cenários que transplantámos para todas as paragens onde deixámos marca, do Rio de Janeiro a Díli, de Luanda a Macau, de Goa a São Tomé.

A paisagem do passado ecoando no presente: a muralha seiscentista, a matriz, as tílias na praça central, a torre do relógio, o Coura desaguando no Minho, a silhueta tutelar da Serra d' Arga e a massa imponente do Monte de Santa Tecla, na Galiza, atraindo-nos para o outro lado da foz.

Sinto-me miúdo outra vez enquanto cruzo estas ruas. Quando cá vínhamos, abancávamos por vezes na Adega do Chico, típico restaurante familiar. Nunca mais soube dele até há dois dias, quando deparei com ele quase por acaso. Está praticamente na mesma: só deixou de haver serradura no chão, como era habitual nas adegas daquele tempo.

Até o prato mais emblemático ainda é o célebre bacalhau à Chico.

 

É o que peço, sentado na esplanada, enquanto escrevinho estas linhas, acompanhadas de goles de um fresquíssimo verde de Ponte de Lima - outra paisagem da minha infância que quero revisitar.

Cada vez mais me convenço que a felicidade em abstracto não passa de uma utopia: existem, isso sim, múltiplos momentos felizes.

Este é um deles. E há que aproveitá-los todos: cada qual é um pedaço de eternidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Esplanada de praia

por Teresa Ribeiro, em 30.07.16

praia1.jpg

 

Desamparado, o casal seguia com uma atenção esforçada a conversa do miúdo. Falava do quê? Talvez do Pokemon Go. O pai segurava o sorriso, olhos distraídos, mais atentos aos seus gestos e expressões animadas do que ao que dizia. A mãe observava-o silenciosa, naquela paz desconsolada de quem sabe que está a perder qualquer coisa, embora não saiba o quê.

No mar, famílias como a deles preenchiam com mergulhos e braçadas o mesmo sudoku feito de horas e horas de tempo livre. Mas havia os outros, os que em grupos ruidosos faziam o Verão. Gargalhadas e conversas alheias mescladas de pregões "Olhá bola de berlim!", choros de bebés, ralhetes "Agora não vais para a água!". A banda sonora de sempre.

Mais tarde, depois do banho, quando o casal e o filho se estenderem na toalha ao Sol, essa vida difusa há-de embalá-los e compor, enquanto dormitam, uma apaziguadora ideia de férias.

Autoria e outros dados (tags, etc)

É fazer as contas, como dizia outro

por Rui Rocha, em 06.06.16

Fazendo umas contas por alto, um ano tem cerca de 250 dias úteis. Se tivermos em conta que o direito a férias remuneradas corresponde a 22 dias por ano, sobram coisa de 228 dias úteis para trabalhar. A redução do horário de trabalho na função pública para 35 horas semanais corresponde a menos 1 hora de trabalho por dia. Isto é, o empregador Estado acaba de somar aos 22 dias úteis de férias normais mais uma "dispensa" equivalente a cerca de 28 dias por ano (1 hora x 228 dias de trabalho / 8 horas diárias de trabalho = 28,5). Exacto. É o que acabaram de ler e que repito para o caso de não ter ficado claro: é de uma medida equivalente a um acréscimo de 28 (vinte e oito) dias de férias anuais para cada funcionário público que estamos a falar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Somos nós a pertencer aos livros

por Pedro Correia, em 31.05.16

libros-1435254404854[1].jpg

 

Não sei se convosco acontece o mesmo, mas eu tenho por hábito levar para férias alguns livros que já não voltam na bagagem. São livros mais velhos que tenciono ler apenas uma vez, acabando por deixá-los ficar nos hotéis por onde passo - leituras momentâneas, semelhantes a diversas pessoas com quem nos vamos cruzando vida fora. Chegam e partem.

É também uma forma de partilhar leituras: acho estimulante a ideia de imaginar que aquela janela que para mim ficou fechada tavez possa abrir-se inesperadamente para alguém que nunca conhecerei. Por cá temos pouco esse hábito: ainda sacralizamos o livro enquanto objecto - por vezes na proporção inversa à verdadeira atenção que lhe dispensamos. Ao contrário do que acontece por exemplo com alemães e britânicos, com um nível de alfabetização geral muito anterior e superior ao nosso.

 

Inciei esta tradição pessoal há 25 anos em Patong, na Tailândia. Levava para férias a Cabra-Cega, de Roger Vailland, e a Memória de Elefante, de António Lobo Antunes. Lidos os livros, antes de fazer as malas entreguei-os à pequena biblioteca pública local, inaugurando ali a secção de obras em português. Cinco anos depois, quando voltei à capital da ilha de Pukhet, revisitei o local: a Memória de Elefante não estava lá, mas o livro de Vailland que foi temporariamente meu permanecia na prateleira onde eu o deixara - sem outro livro em português.

Nem quero imaginar onde estará agora: Patong foi uma das povoações devastadas pelo brutal maremoto de 26 de Dezembro de 2004 no Sueste Asiático. É um daqueles locais onde só voltarei em pensamento.

 

Escrevo estas linhas no mesmo hotel algarvio onde há um ano passei um fim de semana alargado. Cá reencontrei no salão principal um livro que aqui deixei então - isolado título português em elegantes prateleiras cheias de volumes em alemão, inglês ou francês. Pego nele e vou à página final, onde sempre inscrevo a data e o local em que terminei a leitura: "Tavira, 1.5.2015". E mantenho-o na nova morada que passou a ter naquele dia. Continua sem a companhia de nenhum outro no nosso idioma.

E uma vez mais me interrogo: porque teremos tanta dificuldade em desapegar-nos de livros que foram nossa efémera companhia de férias em vez de lhes proporcionarmos novos leitores? Isto sempre me fez alguma confusão. Porque, em boa verdade, não somos donos deles. Na melhor das hipóteses, somos nós a pertencer aos livros. É pura ilusão pensarmos que eles nos pertencem.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Elefantes Brancos

por Francisca Prieto, em 19.05.16

As redes sociais têm sido um suporte insuperável na missão de trazer à tona episódios embaraçosos que a nossa memória selectiva já tinha atirado para o subconsciente há séculos e que agradeceríamos que por lá permanecessem. É certo e sabido que, mais cedo ou mais tarde, alguém nos adiciona a um velho grupo da faculdade e que, de repente, desatamos a ser identificados em fotografias onde nos apresentamos de franja, camisa com chumaços e rosetas estampadas nas bochechas.

Mas se é verdade que há coisas que preferíamos esquecer, também é verdade que há momentos que merecem ser relembrados.

Hoje, quando me dei conta de que andava a circular pelo facebook de sombrero mexicano, mão na anca e cara de quem já tinha dado conta de um par de tequilhas, rendi-me à nostalgia e ingressei numa viagem no tempo à Meca dos finalistas universitários – Cancún.

sombrero.jpg

A viagem há-de ter sido idêntica à de tantos outros finalistas, mas, para além dos episódios previsíveis, ficou-me na memória a relutância em comprar um sombrero. Enquanto todos os colegas escolhiam o seu exemplar, entre várias cores e modelos, alguma coisa me dizia que importar sombreros não era a melhor ideia do mundo. Tinha muita graça no local, mas não conseguia vislumbrar qualquer utilidade para um chapéu daquelas dimensões, à chegada a Lisboa. Vieram-se a confirmar os meus piores temores logo à entrada do avião, quando cinquenta viajantes tentavam, em gestos épicos, arrumar cinquenta sombreros nas bagageiras.

Depois desta aventura fiz várias outras viagens e, sempre que me sentia a ceder à tentação consumista que nos invade em terras estranhas, lembrava-me do episódio dos sombreros e resistia estoicamente.

Até que uns anos mais tarde, em Banguecoque, dei de caras com um cozinheiro de madeira maciça com uns quarenta centímetros de altura, que resolvi que era imprescindível para decorar a cozinha da nossa casa nova. Não me ocorreu que depois da visita à capital, íamos em périplo para Puket, Ilhas Pi-Pi e Krabi. De maneira que, após o entusiasmo inicial, andei a rogar pragas ao malfadado cozinheiro que foi arrastado por terras tailandesas, entre ventos e intempéries, durante mais de duas semanas. Mas o pior é que ainda hoje, volta não volta, dou com o raio do boneco numa qualquer arrecadação, de onde nunca saiu porque era um mono tão grande que nunca coube numa bancada de cozinha.

Voltei assim aos bons hábitos de viajar com pouca bagagem e de, sobretudo, não me lançar em compras estapafúrdias. Isto, claro, até me ter lembrado de comprar um poncho peruano. Dos genuínos.

ponche.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

Teste Delitoratura - Fim

por Teresa Ribeiro, em 19.08.14

Léah trabalhava e encantava numa hospedaria, que José Rodrigues Miguéis descreve no conto homónimo que integra o seu livro Léah e outras Histórias.

A nossa leitora Antonieta venceu este round, perfazendo um total de três respostas certas, o que faz dela também vencedora do Teste Delitoteratura ex aequo com Carlos Cunha, que acertou igualmente em três respostas.

 

Como ameacei logo a abrir, os vencedores serão convidados a estar presentes no próximo almoço do Delito, pelo que serão contactados para o efeito em tempo útil. Obrigada a todos os que participaram e boas leituras.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (21)

por José Maria Gui Pimentel, em 23.07.14

TSF - Tubo de Ensaio

 

 

Programa já com sete anos de emissões diárias na TSF (com interrupção para férias), contando com voz de Bruno Nogueira e textos deste e de João Quadros. É neste programa que os autores têm mostrado todo o seu espírito cáustico, o que por vezes lhes tem custado algumas críticas. Entre momentos geniais, meramente banais, ou polémicos, o Tubo de Ensaio é um programa original e corajoso que se torna difícil de definir. Leve na forma, é por vezes mais profundo no conteúdo do que aparenta . 

 

E assim termina esta série, com 21 sugestões de podcasts, dos mais diversos tipos e feitios. Outros há por aí. Alguns que também conheço mas que ouço menos vezes e que por isso não incluí aqui. Outros -- muitos mais -- com que ainda não me cruzei. Ficam as sugestões, espero que tenham gostado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Para encher a barriga

por Pedro Correia, em 29.06.14

 

Manhã muito cedo, já o pescador veio aviado. Traz um carregamento de peixe que vai amanhando e atirando para um grande balde. Com gestos mecânicos e expeditos, serve-se da faca para lhes retirar as vísceras, que deposita ali, nas águas plácidas da ria. As incisões são feitas a bom ritmo e com precisão cirúrgica: não tarda, o balde vai enchendo.

O homem prossegue a tarefa, imperturbável. Está descalço, de pés plantados na ria, calças de ganga arregaçadas. Esquarteja ferreiras e besugos que daqui a poucas horas estarão estendidos nas grelhas.

O sol já se ergueu acima da linha dos telhados, o calor aumenta, a faca prossegue o seu curso na mão direita do homem, seco e tisnado. Há um frenesim de gaivotas em seu redor: disputam as vísceras dos peixes numa atmosfera de solene algazarra. As mais possantes afastam a concorrência à força de bicadas, o alarido de umas depressa atrai as atenções de outras que logo se aproximam.

Mas não parece haver necessidade de lutas: o petisco chega para todas.

 

Da marginal de Cabanas, uma senhora pergunta ao pescador a como lhe vende o peixe. O homem informa-a sem sequer a olhar nem abrandar o ritmo: extrai as entranhas, lava o peixe e atira-o para o balde.

A senhora aproxima-se, interessada, já de nota na mão.

"Eu quero aquele maior para encher a barriga", diz-lhe, apontando com o dedo. O peixe recém-pescado salta do balde para um saco de plástico em poucos segundos. O homem prossegue o seu labor, imperturbável. As gaivotas navegam à sua volta, como se fossem patos num inquieto alvoroço. A senhora regressa à marginal em passo pausado por força conjugada da idade e do calor.

Espreita o saco: o peixe é grande. O almoço de hoje está garantido, amanhã logo se vê.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tavira, Verão de 2013

por Pedro Correia, em 07.07.13

 

Rolas, andorinhas e pardais, à vez, vêm beber à borda da piscina. O calor é tanto que, mesmo antes de a manhã chegar a meio, só conseguimos estar à sombra: à falta de guarda-sóis, servem as palmeiras, substituindo-as com vantagem. Miúdos de várias nacionalidades, esquecidos por momentos dos gadgets electrónicos, brincam como sempre as crianças brincaram: correm, saltam, riam, jogam à bola, ensaiam movimentos ritmados de natação. "Agarra-te aos pelos do peito do pai", diz alguém. E todos riem.

 

Duas senhoras exercitam a antiquíssima arte da conversa, ao recato da sombra: "Então a sua menina como está?"; "Muito bem, por enquanto muito bem." Tão português, tão cauto e previdente, este "por enquanto"...

Mais adiante, uma jovem abre-se em confidências a uma amiga em tom suficientemente elevado para ser escutada nas proximidades: "Ficou chateado por eu estar na boa com ele..."

Eles e elas aparecem cada vez mais tatuados. Não tatuagens discretas, mas tão espampanantes quanto possível, em tentativas de imitação do jogador Raul Meireles e da sua mulher Ivone, presenças constantes nas páginas da imprensa tablóide. Um dia, não muito distante, haveremos de lembrar esta absurda moda como hoje lembramos os longos cabelos frisados e os bigodes à Obélix dos anos 70, paradigmas da breguice tuga.

 

O calor tudo dissolve: obrigações inadiáveis, ponteiros do relógio, preocupações que sobraram dos meses precedentes. Aguardamos por ele todos os anos - mas desta vez já o ansiávamos com alguma impaciência após a maratona de um Inverno que parecia não ter fim.

Como os primeiros figos do ano - as saudades que eu já tinha deles. Logo à noite, na Noélia, virá para a mesa um arroz de limão com corvina e amêijoas: carne não entra nestes menus algarvios.

Muitos franceses, alguns ingleses e alemães, mas desta vez quase não vejo espanhóis: na vizinha Andaluzia o desemprego já se situa nos 37% e há dois terços de jovens sem trabalho.

Apesar da crise - ou por causa dela - a Olá lançou cinco novos sabores do seu Magnum para este Verão. Falta-me só experimentar um. Até ao momento, o meu favorito é o de merengue e frutos silvestres.

 

 

Basta dar uma olhada em redor para se perceber que o livro electrónico vai ganhando terreno acelerado ao formato tradicional - serve, desde logo, para ocupar menos lugar na mala. Conservador, prefiro a leitura em papel: acabo de ler Amantes e Inimigos, um delicioso volume de contos de Rosa Montero.

Quatro estrangeiros em redor de uma mesa no bar junto à piscina: todos em silêncio, cada qual mergulhado no seu iPad. Dizia o resmungão Nelson Rodrigues, numa das mais saborosas frases que conheço em língua portuguesa: "A televisão matou a janela." Parafraseando o mestre, concluo que a vida virtual vai matando a vida real.

Um brinde desta fresquíssima sangria branca às senhoras que vão praticando a arte da conversa. Elas não sabem, mas são já uma espécie em vias de extinção.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cabanas, 28 de Abril

por Pedro Correia, em 28.04.13

 

Pares de andorinhas varrem os ares, em voos vertiginosos, no incessante labor de alimentar as crias. Naturalistas garantem que 41% destas aves que nos são tão familiares extinguiram-se desde 1998, o que é uma excelente notícia para os insectos. Mas estas, na marginal junto à Ria Formosa, teimam em contrariar as estatísticas: regressam todas as Primaveras aos mesmos ninhos, nos mesmos beirais. Já lhes conheci pais e avós desde que frequento estas paragens.

Este é um pequeno paraíso para ornitólogos amadores: melros, poupas e pegas-rabudas esgravatam em liberdade nos jardins; gaivotas imitam patos flutuando nas águas plácidas da ria; garças aproveitam a maré baixa para petiscar em áreas lodosas; pombos arrulham cumprindo o destino que lhes está confiado até aos confins dos tempos, indiferentes ao incessante chilrear dos vizinhos pardais; uma cegonha de asas majestosas eleva-se no céu correspondendo ao suave embalo do vento e mira-nos lá de cima com olímpica indiferença.

À mesa da Noélia, ainda longe das enchentes de Verão, mato saudades das pataniscas de polvo com arroz de coentros. Na mesa ao lado, um jovem casal encomenda ao empregado "duas sopinhas" e uma dose de conquilhas para partilhar: a crise manifesta-se, um pouco por toda a parte, das formas mais imprevistas.

Saio a andar. Gosto de ler placas toponímicas. Passo pela Rua Dr. João Amaral, um deputado de quem fui amigo. Percebemos que estamos a envelhecer quando gente que conhecemos bem desaparece do nosso convívio e reaparece como nome de rua.

Outra placa anuncia a Rua José Luís do Carmo Pereira, um pescador nascido em 1951 e falecido (num naufrágio?) em 2003. Interrogo-me, a propósito: quantas ruas portuguesas terão sido baptizadas com nomes de pescadores?

Mais adiante, junto à sonolenta sede do clube columbófilo, dois velhotes de boné na cabeça discutem futebol com típico sotaque do sotavento algarvio. "O Arbeloa está lesionado mas o Messi não", argumenta um deles. Sinal inequívoco de que o último reduto do patriotismo português - o futebolístico - já foi abalado até aos alicerces nesta era de globalização da bola.

Vejo árvores familiares que catalogo mentalmente: amoreiras, casuarinas, magnólias, araucárias, choupos brancos ainda sem folhas. E vou escutando múltiplos sons de bichos que me devolvem às intermináveis tardes de infância na província: cigarras, grilos, osgas, rãs...

Cabanas, 28 de Abril de 2013: ao contrário do que dizia o outro, devemos regressar sempre aos lugares onde já fomos felizes. Há 16 anos que te conheço, há 16 anos que não resisto a este impulso cíclico de voltar para ti. Amor à primeira vista, amor para sempre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Férias remuneradas

por Rui Rocha, em 06.08.12

Daqui a uns dias, iniciarei um período de 15 dias úteis de férias remuneradas. São a contrapartida de um ano de trabalho. Mas são também o resultado de centenas de anos de lutas políticas e sindicais. E se é verdade que o sentimento actual é de desilusão com políticos e sindicalistas, que sinto que uns e outros perderam algures o fio da história e que não me revejo no modelo da luta de classes que constitui o mainstream do movimento sindical, devo todavia reconhecer que sem essa luta histórica não teria sido possível alcançar algumas das marcas de civilização que  caracterizam o mundo do trabalho actual. E mais. Perto de vinte anos de experiência profissional em diversas empresas deixam-me a certeza de que o equilíbrio entre os interesses de trabalhadores e o dos empregadores nunca seria possível se fosse deixado ao critério destes últimos. Agora que está quase a chegar a minha vez de gozar férias, nada mais justo do que reconhecê-lo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

A banhos

por Rui Rocha, em 29.07.12

Pelo visto, o bom velho Winston Churchill também gostava de ir a banhos. Se bem o conhecemos, deve ter visto o pôr-do-sol on the rocks. Pertinho do mar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Primeiro balanço

por Rui Rocha, em 28.07.12

A originalidade das histórias mirabolantes de férias é inversamente proporcional à qualidade dos destinos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Como assegurar bonitas fotografias de férias

por José António Abreu, em 21.09.11
Solução fácil, com resultados garantidos mesmo em condições climatéricas adversas, permite dispensar a deslocação aos locais retratados e ainda assim poder afirmar-se que «fui eu que tirei». Uma sugestão: é conveniente retirar os postais do expositor antes de os fotografar porque o arame talvez denuncie o estratagema. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O maravilhoso relato e as belas fotografias das férias

por José António Abreu, em 28.08.11

Regressa-se de férias e fala-se do tempo que se apanhou (nunca tão mau que tenha arruinado a experiência), dos locais que se visitaram (quase todos pelo menos muito giros), da temperatura da água da praia onde se ficou assim fantasticamente bronzeado (mas só se fala do bronzeado depois de alguém o mencionar primeiro). Evita-se abordar os maus momentos (de chatice, desilusão, irritação, cansaço) que, aliás, são empurrados para um canto escuro do cérebro onde, com sorte, apenas se voltará nas férias do ano seguinte, ao enfrentar momentos de chatice, desilusão, irritação e cansaço exactamente iguais. Trazem-se centenas ou milhares de fotografias que se mostram a familiares, amigos e colegas de trabalho. Noventa e cinco por cento (vêem, sou capaz de ser magnânimo) são más (tortas, desfocadas, tremidas, cheias de ruído digital, mostrando um primeiro plano vazio e um segundo plano desinteressante); pior, há uma média de trinta e oito fotografias por local, sendo que na maioria dos casos duas seriam suficientes (com frequência, uma; por vezes, nenhuma). Trata-se de um massacre que as vítimas (mas vítimas que tendem a pôr-se a jeito) suportam com um sorriso cada vez mais dorido. Ainda assim, toda a gente mantém as aparências.

 

No que me diz respeito, evito fazer longas descrições das minhas férias e quase não mostro fotografias. Explico que nem pensar em apresentá-las assim, por seleccionar. Seria demasiado penoso para quem as visse, acrescento. Não resulta. Ninguém parece ouvir-me. Ninguém percebe a mensagem implícita e toda a gente continua a mostrar-me cada uma das centenas de fotos que tirou nas férias e a repreender-me por não mostrar as minhas. Serei a única pessoa não-masoquista no raio do planeta? Decididamente, regressar de férias sucks. Mesmo quando são os outros a fazê-lo.

Catedral de Siena. Espectacular, é o que vos digo.
Tenho mais vinte e duas, só do interior.
Já sei: vou publicá-las ao ritmo de uma por dia, ok?
 

Adenda: Se alguma daquelas pessoas que costumam mostrar-me centenas de fotografias de férias estiver a ler isto, é favor ter em conta que não estou a falar dela mas das outras pessoas que costumam mostrar-me centenas de fotografias de férias. (A sério: as tuas são super-giras.)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vendem-se t-shirts

por José António Abreu, em 25.08.11

Perfeitas para poupar saliva a quem regressa de férias. De cor branca ou preta, disponíveis em todos os tamanhos de adulto, com uma das seguintes frases estampada na parte frontal:

Versão 1: «O tempo esteve excelente e a água um espanto!»

Versão 2: «Ainda apanhámos um bocadinho de chuva mas esteve quase sempre bom.»

Versão 3: «Oh, assim como assim, o importante é descansar.»

Preço: €15,00 cada. Desconto de 10% na compra das três versões (aproveite: as que não usar este ano, usa nos próximos).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cale

por Laura Ramos, em 16.08.11

Na A1 em direcção ao Norte, rumo a esse trópico imaginário com nome alquímico: férias. Os preliminares enjoam-me. E o cansaço, este ano, devorou qualquer réstea de festa antecipada. -Quando conseguirei eu partir sem mais, de mãos a abanar, livres para agarrar tudo o que me espera? Excesso de bagagem. Malas mentais, a abarrotar de peso. Felizmente, neste percurso só há controladores de velocidade e flashes devassadores que disparam instantâneos sobre o meu carro, e os  de todos nós, os que desafiamos o limite estabelecido por decreto. Não há check-in nas autoestradas portuguesas (ai, se descobrem e se lembram, como se lembraram da via verde). Apesar de tudo, vou decidida mas de olho vivo em tudo e todos, não vá um doido quebrar o manual de sobrevivência do infractor, tacitamente aceite pelos viajantes do asfalto.
Saí pela fresca. A tardinha garante-me a paz de que preciso. Não gosto de calor e o ar condicionado faz-me mal. Prefiro a janela aberta, o vento na cara, a estrada razoavelmente livre e o Venham Mais Cinco em altos berros no leitor (ninguém ouve). Nas duas faixa S-N, o espectáculo de sempre: pesados a ultrapassar pesados, obrigando os ligeiros a travar, a bufar, a reduzir drasticamente a velocidade para que os tontos possam brincar impunemente. Passo o Porto, e o dédalo de entradas. Desta vez, nada com ele. Quero é a ponte do Freixo, a última cortada. A ver se não me engano na entrada para a A3 (eterna ratoeira para quem circula sempre pela esquerda).  Feito. A preceito. E então sim, suspiro, num arremedo de felicidade, porque me sinto a passar a barreira da atmosfera. Estou finalmente em terras do condado. Há lá força telúrica que se compare a isto... Começo a cantar alto e o parceiro do lado acorda, estremunhado (dorme sempre, num cumprimento à qualidade da minha navegação terrestre... gosto de pensar que é disso). Nomes deliciosos: Cruz. Celeirós. Um rio, Labriosque. Passos. Martim. Um pouco mais e pronto: eis-me chegada a estas paragens onde tudo é verde, tudo é granito escuro, a fazer brilhar hortênsias e glicínias, onde tudo é água e em suma, profusão. Agora, sim, apetece-me andar a 40. Quero sentir o cheiro forte a eucalipto, ouvir os cigarrais, gozar a noite fresca e perder-me a olhar o céu despudoradamente transparente, exibindo aquele disco branco, enorme, que me confirma a entrada num outro reino de grandezas. Essa lua diferente, imensa, nova-rica do espaço sideral, que teima em vir comigo estrada fora, até chegar ao portão verde da casa onde me aguardam.
Boa noite às coisas aqui em cima. Soou a minha hora!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cabanas, dez anos depois

por Pedro Correia, em 30.06.11

 

Quem disse que não devemos voltar a locais onde já fomos felizes? Uma década depois, regresso a Cabanas e sinto-me como se nunca tivesse trocado este magnífico cenário de férias por nenhum outro. Do apartamento onde estou, vislumbro três níveis diferentes de água: num primeiro plano a piscina, sobrevoada por andorinhas ao amanhecer e cegonhas ao fim da tarde; num plano intermédio, a Ria Formosa, que cada vez faz mais jus ao seu nome; além de tudo, o oceano. À varanda, chega-me o ruído compassado das ondas do mar enquanto os barcos de pesca circulam em várias direcções, preparando-se para abastecer os restaurantes. Amanhã, uma vez mais, o maior dilema será a escolha do local onde jantar. No Pedro, ensopado de enguias ou arroz de lingueirão. No Ideal, a insuperável sopa do mar em pão de trigo alentejano. N' A Fonte, o inevitável peito de pato com mel. E no restaurante Noélia e Jerónimo, no extremo oriental da freguesia, há raia de alhada, açorda de conquilhas e pataniscas de polvo com arroz de coentros. A saborear tranquilamente na esplanada enquanto o sol declina no horizonte.

Quem disse que não devemos voltar a locais onde já fomos felizes?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Tarde de Outono na Prainha

por Pedro Correia, em 09.10.10

 

Almoço tardio e prolongado no Caniço, na Prainha (Alvor). Pouca gente no restaurante, onde parece que o tempo se imobilizou. No Verão, é quase impossível estar aqui - e não se consegue arranjar lugar sem marcação prévia. Agora a atmosfera é tranquila. Enquanto aguardo pela sopa de peixe, dou uma espreitadela ao que se vai escrevendo nos jornais. Fantástico: Durão Barroso, o mesmo que debandou para Bruxelas em 2004, deixando o País como sabemos, apela agora à "responsabilidade nacional". E faz uma pressão indisfarçável para que o PSD viabilize o orçamento, como se um partido da oposição servisse para passar cheques em branco ao Governo ainda antes da apresentação formal da proposta de lei na Assembleia da República. O presidente da Comissão Europeia podia lembrar-se do caso espanhol, onde está igualmente em curso a negociação para o orçamento. O principal partido da oposição, o PP, já deixou claro que não viabilizará as contas públicas para 2011. Zapatero, em minoria no Parlamento, viu-se forçado a dialogar com outra força política - o Partido Nacionalista Basco, que já terá garantido os votos necessários.

Em democracia, o diálogo sem chantagens é fundamental - penso enquanto vejo as ondas a bater no paredão. É um espectáculo deslumbrante. Começa a cair uma chuva fina enquanto aguardo o crepe de camarão. "PSD deve clarificar já posição sobre OE", declara o ministro das Finanças, que continua sem esclarecer o que correu mal na execução do PEC2 - que antes do Verão tanto ele como o primeiro-ministro garantiam que bastava para estancar a crise. Noutro jornal, vislumbra-se um Teixeira dos Santos bem menos peremptório, garantindo que "o Governo está aberto a negociar". Negociar como, se o PSD "deve clarificar desde já" a sua posição? E surge um rasgado elogio de capa a Sócrates: "Ele é um dos melhores." Proferido por quem? Por Tony Blair, reconhecido à escala planetária como um prestigiado estadista.

Nada melhor como remate de refeição. Crise? Qual crise? As ondas continuam a bater contra as rochas enquanto a tarde cai sobre o Caniço. Aos poucos foi deixando de chover.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Com o mar em fundo

por Pedro Correia, em 25.07.10

 

- A tia de Cascais, de telemóvel em riste, fala de maneira a que todos a ouçam em redor da piscina: "Já estamos no Algarve... Sim, já estamos no Algarve... no Algarve." À medida que repete a frase, soa cada vez mais a tia.

 

- A morena triste mira-se furtivamente ao espelho e arranca um pêlo das sobrancelhas com uma pinça antes de voltar a mergulhar na leitura do romance de Margarida Rebelo Pinto.

 

- O futebolista angolano tenta impressionar a namorada, uma bonita mestiça, encomendando a bebida mais cara do cardápio: sangria de champanhe. Azar: ela declara não gostar de sangria, nem sequer de champanhe. Mas o que conta é a intenção: a bebida mantém-se quase intacta no jarro enquanto a conversa entre os dois vai aquecendo.

 

- O viciado em fórmula um vira costas à piscina, fixando os olhos no grande ecrã televisivo. Ninguém mais o imita neste gesto: as corridas de bólides deixam o resto da tribo indiferente. A começar pela mulher dele, solitária na esplanada, sem vontade sequer de folhear a Lux.

 

- A loirinha com adesivos na cara explica a alguém, com quem fala ao telemóvel, que a operação plástica "não correu muito bem" e terá de ser repetida. A mãe, que não a larga, olha para ela com ar magoado e enternecido.

 

- Os miúdos alemães jogam com uma bola que por vezes cai à piscina, salpicando a tia com pingos de água. "Don't do that", ralha a melindrosa senhora. Eles não a entendem. E voltam teimosamente ao mesmo. Tem lógica: na Europa, são os alemães a ditar as regras.

 

- O director de jornal chega tarde à piscina, de telemóvel numa mão e um saco do Expresso na outra. Tem um ar preocupado. Parece hesitar se ficará ou não ali instalado debaixo de um guarda-sol. Opta enfim por retirar-se. Lá vai ele, com o saco do Expresso e o ar preocupado.

 

- Um jovem casal-que-não-se-fala: ele senta-se na espreguiçadeira no momento em que ela se levanta, depois levanta-se mal ela regressa. Vão à piscina em momentos alternados como se obedecessem a uma espécie de coreografia muito particular. Estão juntos mas parecem ignorar-se: silenciosamente desencontrados.

 

- No parque infantil, miúdos preparam-se para uma partidinha de futebol. "Eu sou o David Villa", diz um. "Não, eu é que sou o Villa", contesta outro. São portugueses, mas não mencionam Cristiano Ronaldo. Para azar de José Sócrates, não houve golden share no Mundial de futebol.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O PS queria...

por João Carvalho, em 23.07.10

... desesperadamente partir para férias a cavalgar a revisão constitucional. Tentar, o PS tentou. Em vão.

Porquê em vão? Porque se limitou a reprovar ideias do PSD e lhe faltou uma ideia própria com pernas para andar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Noite de São João

por Pedro Correia, em 23.06.10

 

Fabulosa noite de São João. Tavira inteira parece estar na rua: largas centenas de pessoas concentram-se na Praça da República vendo desfilar as marchas. Habitantes locais, algarvios de outras paragens e turistas das mais diversas proveniências cruzam-se nas rotas amenas destas ruas. Há arraiais, uns mais organizados outros mais espontâneos. Assam-se sardinhas. As esplanadas abarrotam de gente que há meses ansiava por jantar ao ar livre.

Como uns saborosos camarões grelhados num restaurante junto ao rio. Do som da televisão chega-me a voz do primeiro-ministro, que vem agora defender a instalação de portagens nas sete auto-estradas "sem custo para o utilizador" (SCUT). Mas ressalvando que os "residentes" (residentes onde?) e os "utilizadores regulares" (com que regularidade?) ficarão isentos do pagamento, o que tresanda a monumental trapalhada. Trocando por miúdos: mais uma bandeira eleitoral que deu maioria absoluta ao Partido Socialista em 2005 acaba de ser rasgada com a mesma ligeireza e a mesma irresponsabilidade com que foi lançada. A sigla terá forçosamente de mudar: passará a ser CCUT (com custos para o utilizador).

Desinteresso-me rapidamente do telediário, concentrando-me na paisagem que tenho à minha frente. Por mais vezes que aqui venha, não me canso de contemplar este rio, hoje iluminado por uma lua quase cheia. Chega-me ao longe o som dos arraiais que não tarda a sobrepor-se ao da televisão. Os camarões estão óptimos. O Governo é péssimo, mas isso agora não me interessa nada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um jantar em Tavira

por Pedro Correia, em 22.06.10

 

No ponto mais alto de Tavira, junto ao castelo, com uma vista deslumbrante. A tarde vai-se escoando lentamente, ao ritmo deste Verão que tanto tardou a chegar. Gosto de rever as olaias e as oliveiras no largo fronteiro, de ouvir o som dos sinos a assinalar a passagem das horas, de ver o céu riscado pelo labor incessante das andorinhas. Janto na larga varanda debruçada sobre a cidade num dos meus restaurantes de eleição. A Ver Tavira. Entrada: pétalas de tomate confitado com lascas de bacalhau e tapete de massa brick regado com azeite de tomilho. Leio num jornal que a frota automóvel do Estado português aumentou em 1200 veículos entre 2008 e 2009 - excelente exemplo num país em crise. Perante casos como este, como é que o Governo socialista tem autoridade moral para pedir cada vez mais sacrifícios aos portugueses, nomeadamente no plano fiscal?

A noite vai caindo. Chega-me agora à mesa o prato principal: lombinho de tamboril enrolado em bacon confitado servido com camarão e risotto de coentros com molho de caril. Outro jornal informa-me que há já quem, a pretexto da crise, queira reduzir os feriados para o número mínimo (Natal e pouco mais) e questione até as "férias pagas" dos trabalhadores portugueses. Para esta gente, que se proclama de direita, o cenário ideal é o da China, onde o Partido Comunista funciona simultaneamente como entidade patronal e comissão liquidatária de todos os direitos laborais - incluindo o direito à greve e o direito ao sindicalismo independente do poder político. Uma vez mais, os extremos tocam-se.

Mas não há só más notícias nas páginas dos diários portugueses e espanhóis que folheio em férias. Um taxista britânico acaba de receber em herança 300 mil euros de uma velhota sem família recém-falecida num lar. O homem conduziu a senhora diariamente, durante duas décadas - e ela mostrou não ser ingrata, o que nos leva não perder por completo a fé na natureza humana. Parece aquele filme, Driving Miss Daisy. Mas os enredos da vida real ultrapassam tantas vezes os da ficção. Em quantidade e qualidade.

É hora da sobremesa. Bolo de mousse de chocolate com gelado de manga e framboesa. Todas as luzes de Tavira já se acenderam. Confirmo: é uma cidade de um encanto sem par.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A visitar, sempre

por Pedro Correia, em 02.05.10

 

Valldemossa, na ilha de Maiorca. O mais deslumbrante local do mundo, segundo Chopin.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Crónicas maiorquinas (8)

por Pedro Correia, em 21.04.10

 

As praias. Maiorca tem este encanto suplementar: estão aqui algumas das mais deslumbrantes praias da Europa. Aconselho aliás quem procura a ilha essencialmente em busca de praia a não ficar em Palma de Maiorca – apesar de haver pelo menos cinco nas imediações da capital maiorquina, incluindo a enorme Platja de Palma, de seis quilómetros de extensão e com bandeira azul atribuída pela União Europeia. Podem optar pelas ilhas vizinhas. Mas nesta altura do ano só 16 por cento dos hotéis de Ibiza e 10 por cento dos de Formentera estão abertos.

O melhor destino, para este efeito, é no extremo oposto de Maiorca: percorrer a ilha de sul para norte, com quase todo o percurso já feito em auto-estrada, e aportar à vasta baía de Alcudía, cheia de praias convidativas e hotéis a condizer. Ou ficar ali perto, na zona de Formentor, também com praias excelentes. Num dia de sorte, podemos até cruzar-nos com Catherine Zeta-Jones – ela e Michael Douglas têm casa em Maiorca.

Por mim, no entanto, não trocava nada por um recanto que só descobri nesta segunda visita à maior das ilhas Baleares: Port de Sóller, pequena vila piscatória, aparição deslumbrante no termo de um percurso que se pode fazer por caminho-de-ferro ou através de uma serpenteante estrada na Serra da Tramontana, com passagem obrigatória por Valldemossa, a fascinante aldeia de montanha onde viveu Chopin.

Já visitei alguns locais mágicos – Port de Sóller é um deles. Saboreio devagar um almoço tardio num dos extremos da baía, em forma de concha. O cenário ideal, à temperatura ideal, céu, sol e mar em conjunção perfeita. Como calamares relleños de verduritas, bebo um rosado da casa, bem fresco. E alimento-me sobretudo da paisagem. Há sítios que visitamos onde gostaríamos de permanecer para sempre. Este é um deles.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Crónicas maiorquinas (7)

por Pedro Correia, em 20.04.10

 

Enterradas outras ideologias, mantém-se pujante a “ideologia de género”. O Governo balear, socialista, elaborou um "anteprojecto de lei de igualdade de mulheres e homens”. Entre outras inovações, impõe-se o “uso não sexista nem androcêntrico da linguagem” nos órgãos de informação, públicos ou privados, e em todos os organismos públicos das Baleares. Determina-se a existência de “paridade de membros entre homens e mulheres” em todos os conselhos directivos de todas as escolas. A “linguagem sexista”, seja lá o que isso for, desaparecerá dos livros escolares e cada centro educativo terá “uma pessoa responsável pela co-educação, com formação específica, que impulsione a igualdade de género”. E em toda a administração pública balear – incluindo municípios com mais de 20 mil habitantes – haverá uma nova “unidade administrativa” (mais burocracia, palavra sexista, do género feminino) destinada a garantir a aplicação da lei. Com todos os funcionários previamente “formados em matéria de igualdade”. Todos e todas – rectifico, já imbuído do espírito do anteprojecto de lei.

Não se admirem de ver uma brilhante inovação legislativa muito semelhante a esta brevemente introduzida pelo Governo socialista em Portugal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Crónicas maiorquinas (6)

por Pedro Correia, em 19.04.10

  • Além da catedral, há muitas igrejas em Palma – como acontece em todas as grandes cidades espanholas. À entrada e à saída das missas, vêem-se mulheres de mãos estendidas, a pedir esmola. São magrebinas, de véu islâmico. Interrogo-me: haverá cristãos a pedir esmola às portas das mesquitas nos países que seguem o islão?
  • O Corte Inglés ocupa um quarteirão inteiro de Palma de Maiorca, na zona central da cidade. Bate certo. É um símbolo perfeito da Espanha contemporânea. A Espanha frívola e consumista, onde o cartão de crédito substitui o espírito de poupança. A Espanha que vive cada dia como se não houvesse amanhã.
  • Autoria e outros dados (tags, etc)

    Crónicas maiorquinas (5)

    por Pedro Correia, em 18.04.10

     

    Come-se muito bem em Maiorca. E a preços extremamente razoáveis. Há mais de dez anos que aqui não vinha e não me apercebo que o custo de vida – na perspectiva de um turista – esteja pior. Antes pelo contrário.

    Aconselho o pescado: há excelente peixe por cá, cozinhado na parrilla ou con salsa. E marisco de todo o género – lagosta, lavagante, camarão, amêijoa. Do mar saem os grandes trunfos da culinária balear – este convidativo Mediterrâneo muito azul já a convidar a bons mergulhos. Por mim, o que mais aprecio são as paellas de marisco. Os melhores locais para as saborearmos em Palma de Maiorca são os bairros marítimos de Portitxol e Es Molinar, no prolongamento para leste da avenida marginal. Também no Paseo Mallorca e nas imediações do popular Mercado del Olivar não faltam bons restaurantes para apreciar a cozinha maiorquina, mediterrânica, catalã, valenciana, italiana e das mais diversas proveniências. Acompanhada com excelente vinho da Catalunha, que aqui se encontra a preços muito convidativos.

    Autoria e outros dados (tags, etc)

    Crónicas maiorquinas (4)

    por Pedro Correia, em 17.04.10

     

    Por estes dias, um dos locais de maior atracção turística em Palma de Maiorca é a sumptuosa mansão do ex-presidente do Governo balear, Jaume Matas, antigo ministro do Ambiente de José María Aznar. Acusado de enriquecimento ilícito e peculato pelo Ministério Público espanhol, Matas arrisca uma pesada pena de prisão a menos que consiga provar detalhadamente como atingiu o nível de vida luxuosíssimo que passou a exibir após ter liderado o Executivo das Baleares. Espantoso: uma investigação exaustiva permitiu concluir que nos últimos três anos só levantou 450 euros das contas bancárias, o que suscita todo o género de suspeições sobre a origem dos seus proventos. O juiz fixou-lhe entretanto a fiança em três milhões de euros – a mais alta de sempre para um político espanhol.

    Os jornais catalães que aqui vou lendo, como El Periódico, dedicam sucessivas manchetes ao assunto. Uma delas com um título muito bem conseguido: “Jaque a Matas”. No mesmo jornal, Jordi Nieva Ferroll – professor de Direito Processual da Universidade de Barcelona – alerta: as autoridades que investigam crimes em Espanha recorrem excessivamente às escutas telefónicas, existindo por outro lado um preocupante “vazio legal” no acesso da polícia a mensagens de correio electrónico. Vivemos numa época em que “vale tudo” em matéria de violação da privacidade, sublinha o professor. Que acentua: “Um estado totalitário é aquele em que a privacidade dos cidadãos desaparece.”

    Isto faz-vos lembrar alguma coisa?

    Autoria e outros dados (tags, etc)

    Crónicas maiorquinas (3)

    por Pedro Correia, em 16.04.10

     

    O que fazer por cá? Desde logo, um circuito pedestre. Palma é uma cidade plana, que se percorre bem a pé. Não falta também quem prefira a bicicleta. Há aqui o culto do pedal, incentivado pela existência de vastas áreas próprias para o efeito: é raro o espaço da capital balear não abrangido por ciclovias. O extenso Paseo Marítimo, muito maior do que a marginal do Funchal, é um desfile constante de gente a pedalar e a patinar. Faz-me lembrar Copacabana. Com a diferença de que no Rio há praia mesmo defronte do asfalto e em Palma só existe mar.

    Então e ver o quê? Desde logo, a soberba catedral gótica, começada a construir no século XIII, monumental até para os padrões de Espanha. Mesmo ao lado, o Palácio da Almudaina, residência de origem islâmica que foi habitada pelos monarcas medievais do Reino de Maiorca. E é indispensável visitar as igrejas de São Francisco e Santa Eulália, nas belas praças que têm os mesmos nomes. Vale a pena também subir ao Castelo de Bellver, no extremo ocidental da cidade, onde se desfruta o mais deslumbrante panorama de Palma de Maiorca. Importante ainda é uma deslocação à Fundação Pilar e Joan Miró, onde se situava o estúdio do artista catalão, que faleceu em Palma e está representado não só aqui mas também no museu de arte contemporânea da cidade, que exibe igualmente algumas das mais interessantes peças de cerâmica de Picasso.

    Autoria e outros dados (tags, etc)

    Crónicas maiorquinas (2)

    por Pedro Correia, em 15.04.10

     

    Palma de Maiorca, só por si, já merece uma visita. É uma das mais belas cidades espanholas – não apenas pelo magnífico cenário natural mas também pelo lastro histórico que aqui se foi sedimentando ao longo dos séculos, imprimindo características únicas à sua traça urbana. As Baleares orgulham-se justamente de terem sido um importante entreposto nas rotas comerciais do Mediterrâneo, desde o tempo dos fenícios, passando pelos romanos, vândalos e árabes. Mantiveram uma cultura própria, muito ligada à catalã, e resistiram a vários invasores. Os últimos, antes da chegada em força do turismo europeu na década de 60, foram as tropas expedicionárias de Mussolini: no arquipélago desenrolaram-se alguns dos mais sangrentos episódios da Guerra Civil de Espanha, como Bernanos documenta no seu livro Os Grande Cemitérios sob a Lua. Os tempos, felizmente, são agora bem mais pacíficos. E a única batalha actual – tirando a que se relaciona com a crise económica, pois há hoje 112 mil desempregados nas Baleares – é a linguística. A autonomia balear fez da língua catalã uma bandeira – ainda mais do que na própria Catalunha. É frequente os anúncios, os sinais de trânsito e os próprios folhetos que nos entregam em terminais rodoviários ou ferroviários estarem escritos apenas em catalão, o que indigna muitos madrilenos. Alguns protestam, em jornais como El Mundo, dizendo que sentem aqui uma atmosfera estrangeira. Ora eis o que nunca poderemos dizer da nossa Região Autónoma da Madeira, por mais esforços em contrário que faça Alberto João Jardim, candidato falhado a “libertador” da Pérola do Atlântico.

    Autoria e outros dados (tags, etc)

    Crónicas maiorquinas (1)

    por Pedro Correia, em 14.04.10

     

    Meia estação em Maiorca: nada das enchentes estivais. Circula-se à vontade em Palma, há lugar a qualquer hora em qualquer restaurante, os preços são convidativos: este é o lado bom da crise. Contemplo a belíssima baía da varanda do meu hotel, em Porto Pí: estou no alto de uma encosta, o panorama é soberbo. Paquetes de cruzeiros atracados no porto, largas dezenas de iates na marina, uns veleiros cruzando o horizonte. A televisão informa-me: prossegue o mau tempo na generalidade da Europa. Nada que afecte este reduto mediterrânico, soalheiro e já com temperaturas superiores a 20 graus. Turistas banham-se na piscina: ninguém diria que há dois meses a cidade onde os reis de Espanha têm a residência de férias chegou a estar coberta de neve. Entre os turistas que deambulam pelo casco histórico – o maior da Europa, como gostam de sublinhar os maiorquinos, com aparente exagero – vêem-se muitos alemães, bastantes italianos, alguns ingleses. Mas há sobretudo espanhóis do continente, com a sua ruidosa jovialidade e com uma capacidade de comunicar com estranhos bem maior do que a dos portugueses. “Hola”, cumprimentam invariavelmente à entrada de um elevador. “Hasta luego”, dizem à partida.

    Não vejo um só português por cá. Aos olhos lusitanos, estranhamente, as Baleares não são um destino da moda. Ainda bem.

    Autoria e outros dados (tags, etc)

    Até já

    por Pedro Correia, em 24.06.09

     

    Vou mergulhar algures por aí, aproveitando estes dias de bom tempo. Durante quase duas semanas deixo-vos com a minha selecção de praias, que vão aqui aparecendo a um ritmo diário, e com algumas expressões que detesto, que também surgirão com regularidade. A rubrica Ligação Directa, que se mantém sem interrupções (nem repetições) desde o primeiro dia deste blogue, irá igualmente continuar mesmo comigo em férias: ficou tudo programado para o efeito. Apesar do calor, convém que não se perca a pedalada.

    Então até já.

    Autoria e outros dados (tags, etc)

    Tavira, a minha terra

    por Pedro Correia, em 06.03.09

     

    Há cidades e vilas portuguesas onde me sinto sempre bem. Viana do Castelo, por exemplo, que há muito pertence ao meu roteiro afectivo. O Fundão, Castelo Branco e Coimbra, onde tenho as minhas raízes mais fundas. Mas também Chaves, Torre de Moncorvo, Amarante, Vila do Conde, Guimarães, Figueira da Foz, Tomar, Óbidos, Sintra, Castelo de Vide, Marvão, Évora, Alcácer do Sal, Mértola, Funchal, Horta.

    E ainda Tavira, aonde regresso agora. Quase não se vê um turista: estamos ainda na 'época baixa'. Mas esta cidadezinha é sempre acolhedora. Com os seus largos, os seus jardins, as suas encostas, as suas igrejas, o seu castelo. A "casa de pasto" que anuncia meias doses a 3,5 euros. A Vela 2, onde já comi algum do melhor peixe grelhado que guardo na memória. A livraria Quinito, onde passo sempre para me abastecer de livros - acabo de trazer de lá um de Juan José Millás (O Mundo), outro de Rosa Montero (Instruções para Salvar o Mundo). O cineteatro, onde ontem à noite vi um filme interessantíssimo: A Onda (Die Welle), do alemão Dennis Gansel. O mercado, o rio, a ponte, a magnífica pousada, a geladaria de sempre, os ninhos das andorinhas no edifício do tribunal, os rostos que já me parecem familiares.

    Há aqui uma certa doçura de viver que cada vez encontro menos em qualquer outro lugar. É também por isso que venho a Tavira com tanta frequência: apetece-me chamar minha a uma terra como esta.

    Autoria e outros dados (tags, etc)




    Links

    Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D