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Obrigado Estado Islâmico

por José Navarro de Andrade, em 16.10.14

Obrigado ISIS por recordares que as utopias são o horror perfeito. Que o mundo puro e absoluto oferecido em cada utopia só é atingível quando a imperfeição humana for corrigida ou eliminada, porque o puro é incompatível com o impuro e o belo não pode conviver com o defeituoso. É por isso que um militante do ISIS reclama, com toda a sinceridade e convicção, num vídeo que anda por aí: “Nós não somos maus, nós somos as melhores pessoas do mundo.” Claro que são – ou melhor: claro que julgam ser – maus são os outros que ainda não viram a luz e a beleza suprema do reino dos céus realizado na terra. A estes, com infinita misericórdia, o ISIS mimoseia-os com duas alternativas: ou se deixam iluminar pela verdade e se extasiam diante de tão impecável utopia, ou terão que ser, infelizmente, removidos do convívio com os sadios. Esta era a lógica dos inquisidores. Eles não laceravam as carnes dos hereges por mero deleite sádico. Apenas procuravam, repletos de piedade, libertar as almas do erro e da ilusão, com que o corpo e a realidade tangível enganam o espírito. Se o ímpio, finalmente expurgado pelo sacrifício, reconhecesse o seu mau caminho, talvez fosse perdoado; se fosse dado como relapso, outro remédio não havia que não o de assá-lo na fogueira, ou seja, reduzir o físico a cinzas para que a alma se pudesse desencarcerar. Obrigado também ISIS por recordares que fenómenos tão insignificantes e quotidianos como o bikini e a água canalizada são afinal privilégio da civilização que, provavelmente, mais conforto e conhecimento proporcionou à humanidade. A civilização que, apesar de tudo, melhor soube aprender com os seus erros e deficiências, que melhor soube acomodar a contradição, a controvérsia e o conflito. Porque é a única civilização que coloca a liberdade como questão fundamental e fundadora, mesmo que entre nós nunca se chegue a acordo sobre o que é isso da liberdade, mas que, precisamente em nome da liberdade, soube transformar o desacordo e a divergência numa vantagem e não num mal. Obrigado ainda ISIS por recordares que vivo numa civilização, que não obstante seja essencialmente religiosa, me permite proclamar em voz alta que sou ateu sem temer pela cabeça. Porque as Inquisições já a renegámos há muito tempo e as superámos deveras. Custou muito, mas o que nós andámos para aqui chegar. E os templos continuam abertos, em paz e sossego.

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À primeira vista, não deveria ser complicado estruturar uma crítica radical ao extremismo islâmico. Todavia, existe uma certa esquerda que se deixa assombrar por um indesmentível desconforto quando se trata de condenar expressamente as barbaridades cometidas pelos extremistas. A razão dessa incomodidade resulta, se não estou enganado, do facto de o extremismo islâmico colocar essa esquerda perante uma interpelação directa dos dogmas de fé que vai professando. Vejamos. O primeiro dogma dessa certa esquerda é o da negação da responsabilidade individual. Numa certa interpretação do mundo, todos os comportamentos desalinhados com um determinado padrão civilizacional são explicáveis através de motivações e circunstâncias sociais, políticas e económicas. A desresponsabilização por atitudes e comportamentos é inevitável. E sem responsabilidade não pode haver condenação. O segundo dogma esquerdista é o relativismo cultural. Todas as culturas são igualmente boas e nenhuma pode ser considerada especialmente propícia ao desenvolvimento da humanidade. Em conformidade, qualquer juízo de valor sobre determinado acontecimento está à partida condicionado. Não há juízo sem padrão civilizacional que sirva de referência. O terceiro dogma é o da equivalência moral. Na verdade, o único postulado moral absoluto que uma certa esquerda considera aceitável é aquele que diz que não há um juízo moral absoluto. Na falta de uma ideia definitiva de bem (ou de mal) , qualquer comportamento pode ser medido numa escala variável que é tendencialmente benigna e tolerante, independentemente da sua gravidade. A evidência é a de que o islamismo radical, como uma caricatura que enfatiza e exagera as características do modelo original, coloca essa esquerda perante as limitações insuperáveis da sua forma de entender o mundo. Não admira pois que a fractura fique exposta quando o politicamente correcto, bandeira última dessa esquerda, é confrontado com o entendimento que o islamismo radical tem do papel da mulher na sociedade ou com o tratamento que reserva a determinadas orientações sexuais.

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