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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 19.01.16

Quando há mais na equação; Laura expulsa os filhos; Jaime toma uma atitude; Carmen não sabe que pensam nela; a gentileza marca o momento

 

Carlota tentou apaziguar a versão de Carmen. Afinal, os irmãos estão sempre em lados opostos. É quase uma inevitabilidade. E o mesmo se pode dizer da competição. Carmen abanou a cabeça, fumava mais um cigarro e olhava para lá da amiga. Não queria explicar a maldade que sabia existir em Martim, queria apenas que Carlota não caísse na tentação de voltar a estar com aquele homem, um desconhecido.

Jaime e Paulo mantiveram-se na varanda a conversar durante algum tempo. Laura fingia dormir e atormentava-se com ideias esmagadoras, estranhas, cenários que era capaz de fazer desde miúda. Por momentos, a lucidez chegava-lhe como uma estalada e sabia que tinha culpa do estado das coisas, que não podia dizer ao mundo que tudo iria ficar bem. O melhor seria expulsar os filhos como, na verdade, tinha feito anteriormente. Evitar quem se ama para não ver reflectido o pior que existe dentro da nossa pele, pensava Laura.

Laura continuou no sofá e Jaime beijou-a na testa.

 

Vou buscar jantar, mãe. O Paulo fica aqui.

 

Nem um som. Apenas o estremecer das pálpebras, a noção de que existia a possibilidade de ser ouvido. Jaime estava confuso. Queria perguntar ao irmão a razão pela qual tinha saído da festa com Carmen, a ex namorada dele para quem Paulo só tinha adjectivos qualificativos negativos, mas a mãe, o estado da mãe, não lhe permitia. Ou talvez sim, por isso perguntou, virando-se para Paulo.

 

E a Carmen?

Ainda no restaurante, enfrentando as palavras de Carlota como alguém que evita um confronto, Carmen sente-se num cenário de guerra afectivo. Não pode dizer tudo, não sabe como, e tão-pouco se atreve a fazer perguntas. Nunca sente que mereça, seja o que for, muito menos que pensem nela com carinho ou com alguma percepção maior, elevação, inteligência, beleza. Sabe que driblou de forma eficaz o irmão do Jaime, tem a certeza de que sim, mas teria sido ela ou o álcool?

Paulo fora gentil, teria de admitir que a palavra acertada era essa: gentil. Bom ouvinte, incapaz de uma interjeição que a obrigasse a parar o discurso que, subitamente, lhe parecia crescer dentro do peito, um esgar, ou um vómito, pronto para ser expulso. A necessidade de expor, de dizer, falar sem controle, numa velocidade estranha e ele, sem interromper, atento, olhando Carmen nos olhos, à espera. Não podia dizer ao irmão que tinha cometido um erro, a ex namorada era, afinal, uma mulher interessante. Por isso, respondeu a Jaime com poucas palavras, sem desviar o olhar da televisão muda do apartamento da mãe:

Carmen? Não sei. Porque perguntas?

Saíram juntos da festa...

Isso não foi nada

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 12.01.16

Onde a ironia toma conta; Laura compensa o vazio; os recados estão pela casa; o silêncio é a solução;tudo não passa; a vergonha pode impedir a acção; Paulo ouve uma doente; a mãe quer salvar o filho mais novo; uma confronta e a outra segue o mesmo modelo; o mar é infinito; tudo ainda pode acontecer; se esclarece o básico;

ficar pendurada é a realidade; o verbo confrontar não se desfaz;  se conhece melhor a peça; Jaime berra sem dizer nada; Martim é personagem principal;  a traição é fundadora; um acidente é fatal; a conversa é recordada; o futuro é um lugar imediato

 

Paulo podia ligar a Carmen mas para isso seria preciso ter o número de telemóvel da ex namorada do irmão, a ex namorada de um período longo, mesmo muito longo. Mas ele preferira ignorá-la. Maldizê-la. Não quis ver nada de bom em Carmen e, de ressaca, incapaz de dormir, bebendo cafés duplos na pastelaria do costume, a tentar acertar quantas consultas podia desmarcar, sentiu-se infantil. Precisava de saber o número daquela mulher.

Jaime tinha dois dias de férias. Estavam marcados há muito tempo. Deitara-se tarde, andara por aí e, pelas duas da tarde, tomou duche e decidiu que precisava de ver a mãe. Não havia nenhuma razão. Geralmente, visitava-a ao sábado, uma vez por mês. Não era muito, não era pouco, era o possível. Paulo raramente ia. Falavam ao telemóvel, explicava-lhe o irmão como se fosse natural. Jaime sabia que Laura lhe tinha falhado há muito tempo – porventura falhara aos dois, mas Jaime preferia não o entender assim. Estacionou a dois quarteirões da casa da mãe.

Laura não estava preparada para nenhuma visita. Não era sábado. A casa estava a desfazer-se, os dois gatos miavam à volta da tijela de água. O cabelo estava por lavar. O odor que saía dela era algo incompatível com a ideia que se tem de uma mãe. Jaime olhou à volta e percebeu várias coisas. O terceiro marido não vivia ali. Por todo o lado, em vários móveis, estão fixos post it com frases como

 

Comer

 

Lavar os dentes

 

Dar de comer aos gatos

 

Sábado Jaime

 

Era o caos. Laura tentou não olhar o filho mais novo, apressou-se a retirar algo de cima do sofá, um monte de coisas que Jaime não entendeu o que eram. Entre eles o espaço para palavras tinha sido eliminado. Incapazes de dizer. Confuso, Jaime deu água aos gatos. Tirou o casaco e começou a arrumar. Não sabia o destino da maioria das coisas e esse desentendimento com o mundo da mãe, levou-o a um caos ainda maior: cada gaveta era uma surpresa, um susto. Um cheiro repugnante vinha de algures. Laura manteve-se no sofá e, por momentos, fez-se adormecer.

Havia comportamentos distintos dentro dela. Era capaz de distinguir os ruídos do filho que arrumava a casa. Sentia um dos gatos, provavelmente o Baltazar, que se aninhara perto do seu corpo. Não precisava de se esforçar muito para relembrar os filhos a brincar na praia. Teriam cinco anos, talvez seis. Sim, o Paulo já andava na escola, era um menino bem comportado, sempre atento ao irmão. Tinha exigido dele o que ninguém podia imaginar e isso, só isso, a consumia com uma culpa que era galopante. Não passava, desobedecendo a essa crença universal de que tudo passa.

Jaime considerava se deveria telefonar ao irmão. Afinal, era o especialista, como é que ele dizia? Especialista em saúde mental. O que seria isso, numa equação exacta, lógica, matemática, Jaime desconhecia. Ser saudável era ter o colesterol equilibrado, não era estar isento de pensamentos, ideias, impulsos negativos. Saúde mental. Matutou no termo enquanto fazia a cama da mãe de lavado. Tinha a máquina da roupa já cheia, teria de esperar. A visita prolongar-se-ia até ao infinito. Jaime sentiu-se infeliz. Quis telefonar ao irmão. Teve vergonha.

Paulo tentava explicar à sua paciente que o melhor seria rever a matéria dada. Na verdade, o que lhe apetecia dizer era

 

Conheço a sua tipologia de ginjeira.

 

Mas não o disse. A mulher à sua frente ainda tinha auto-estima. O casaco combinava com a mala, os sapatos de salto alto estavam impecáveis, não eram sandálias de borracha. Podiam ser. Ela não era ainda um farrapo, era apenas alguém que precisava de uma reorganização, de ver a vida através de outra janela, outra perspectiva. E foi isso que Paulo foi afirmando, aqui e ali interrompendo o discurso perto do lacrimejante, até que passaram os sessenta e cinco minutos, os minutos da sessão e a tolerância, e teve de se despedir.

 

Laura, no sofá, pegou no telemóvel e escreveu

 

O teu irmão está cá. A casa está uma desgraça. Eu também. O teu irmão vai ficar desfeito, tens de o vir buscar. Desculpa.

 

Não esperava uma resposta. Paulo era demasiado contido para responder, como se as palavras nunca coubessem realmente no sentido pretendido. Laura ficou só à espera que chegasse. Jaime continuou a arrumar. Silencioso.

Uma das teorias de vida que as unia: enfrentar. Carmen e Carlota já tinham perdido a conta ao número de vezes que relataram, nos tais almoços regulares, os confrontos com A ou com B, a necessidade de ver e analisar o problema. De falar sobre. Fosse o que fosse. Não lhes restava, portanto, grande hipótese, não podiam defraudar o seu próprio objectivo de frontalidade. Era preciso confrontar os acontecimentos.

Carlota chegou mais cedo. Queria ter a certeza de estar sentada, de ver a amiga chegar, de perceber como estava, como iria ser a conversa. Na presunção de que a conhecia como a palma da mão. Presunção idiota, claro, já que Carmen estava sentada no restaurante, na mesa do costume, a fumar um cigarro e, ao contrário do que tinha imaginado, não usava os óculos escuros para esconder um mar infinito de mágoa ou de raiva.

 Carmen ergue-se para a beijar. Um gesto banal, costumeiro, sem agressões. Havia algo de diferente, Carlota não saberia dizer o quê e, de repente, o empregado já estava a sorrir e a dizer coisas, Carmen fez o pedido, olhando a amiga só para ter a validação necessária.

 

Hoje, para variar, acho que bebemos um copo de vinho tinto. Alentejo de preferência.

 

Que tal?

O quê?

O meu irmão?

Bem... Quer dizer, só estive com ele na noite da festa, nem sabia que era o teu irmão.

E se soubesses teria feito alguma diferença?

Não, acho que não.

Pois, ainda bem.

E tu saíste com o Paulo? Ele não te odiava?

Odeia-me menos.

Ah.

 

Paulo pediu um uber. Recebeu uma sms a dizer que o motorista Hugo estaria à porta do consultório dali a quatro minutos e quatro minutos era manifestamente pouco para o que precisava de fazer, porém não se apressou. A ideia de a mãe destruir mais um dia era-lhe insuportável. Pensava em Jaime perdido na casa desleixada​. No tempo que passaria a explicar que a mãe tinha uma depressão diagnosticada, que o terceiro marido a tinha deixado há mais tempo do que ela aceitava ou dizia. Laura disfarçava sempre

 

Não, não, estou sozinha. Há muito trabalho, sabes? Ele tem de trabalhar.

 

Paulo acatou durante uns meses. Depois recebeu uma chamada da gestora de conta da mãe, conta que tinham os dois no mesmo banco, desde sempre, parecia-lhe, embora ainda conseguisse recordar o dia preciso em que lhe dissera

 

Mãe, vamos a abrir uma conta no banco os dois, para que não fiques pendurada.

 

Pendurada, Paulo?

 

Pendurada, mãe.

 

Carlota estava preparada para um ataque. Carmen imaginara uma amiga tagarela, a fazer graças sem riso, a empatar, porém tinham despachado no primeiro assalto as palavras mais duras. Carlota teria achado piada a Martim. Paulo odiava Carmen um pouco menos e, embora não tivesse​ dito a ninguém, ficara com a certeza, ao ver​ o tal V irritante que o Facebook coloca nas mensagens lidas, que ela lera a ​mensagem que lhe escrevera​

 

Carmen. Ficaste bem? Não te liguei, não tenho o teu número. Beijo Paulo

 

Não percebeu exactamente a necessidade da assinatura. Percebia nas entrelinhas uma justificação e isso fê-la sorrir. Adiava o momento de responder por inépcia, por não ter as palavras certas. Carmen teria partilhado este acontecimento com Carlota sem hesitação. Haveria um burburinho quase adolescente e uma troca de possibilidades. Concluiu que a amizade não estava aí, nessa dimensão feliz das confidências. Seria preciso manter o confronto, para que ambas conseguissem regressar ao um estado normalizado de serem uma na outra aquilo que sempre tinham sido.

 

Carlota fechou os olhos e suspirou. Disse:

 

Vamos ficar mal, uma com a outra, por causa do teu irmão?

 

Tu não conheces a peça.

 

Não. Tens razão. E agradeço a tua sms.

 

Tinha de te avisar.

 

Bolas, Carmen, pegavas no telemóvel, dizias qualquer coisa na festa...

 

Desculpa.

 

Não faz mal.

  

Carmen tentou explicar à amiga. Tinha recordações antigas e essas surgiram com facilidade. Carlota percebeu de imediato que havia ali uma competição: superar o Martim era o jogo solitário de Carmen desde miúda. Não gostava daquele lado imprevisível, sempre fora controlada; não apreciava a facilidade com que Martim se livrara de todas as chatices e trabalhos, ela trabalhava que nem uma louca; não percebia as opções de vida do irmão, culpava-o de viver uma vida boa sem mérito, baseado apenas na presunção de que ela era, implicitamente, melhor. Carlota percebeu tudo. E manteve-se em silêncio.

Quando chegou a casa da mãe, Laura fingia dormir no sofá, Jaime estava sentado na poltrona, a televisão sem som. Paulo fez-lhe um gesto quase imperceptível, um código entre eles que era claro: precisavam de conversar. A varanda do quarto de Laura era o local mais seguro e ambos o sabiam. Paulo abriu a varanda e puxou de um cigarro. Jaime olhou-o e conseguiu conter-se para não perguntar em voz alta, para não desatar aos berros a exigir uma explicação para aquela vivência caótica da mãe, como se tivesse sido, em qualquer altura da vida, de outra forma.
 

O que queres que te diga? Tem uma depressão. E o tipo foi-se embora.

 

E não me dizias nada?

 

Jaime, as coisas entre nós, a mãe e eu, são sempre mais complicadas e não quis que te...

 

Ah, poupavas-me.

 

Pois, Jaime, é o que faço desde que existes.

 

Obrigado por mo recordares.

 

Não é isso. Tu sabes.

 

Não, Paulo, não sei.

 

A nossa mãe tem problemas. Será sempre um problema.

 

Mas tu vais ajudar?

 

Claro.

 

Martim gostava da ideia de se saber mais do que outros. O mais inteligente, o mais sábio, o mais. O comparativo de superioridade era-lhe essencial. Acreditava que o facto de projectar uma imagem de vencedor lhe permitia viver assim, de jogo em jogo, recolhendo as fichas, encaixando sucessos, validando-se através da miséria dos outros. Os outros com tanta coisa que falha. A conversa cansada das mulheres sempre cansadas. Os traumas de infância deste e daquele. As fobias e as doenças, nunca esquecer as doenças.

  

Martim tinha-se preparado para ser um super herói sem questões. Tratava-se de ser a personagem principal do seu filme.

Carlota não era mais do que uma mulher numa noite. Era-lhe indiferente para lá do prazer ou da sedução. Incapaz de se comprometer, Martim nunca amara ninguém. O ódio era-lhe mais conveniente e isso podia agradecer ao pai e à mãe. À traição do pai e da mãe.

A memória é mestre nos enganos. Ao longo dos anos, Martim testemunhou branqueamentos, esquecimentos, lapsos de histórias, reconstruções. Aprendeu a detectar omissões e mentiras teria uns cinco anos. Foi quando ouviu, por acidente, sem ter essa intenção, a conversa que mudaria a forma de ver o dia seguinte.

 

Ele nunca saberá.

 

Não acho uma decisão acertada. Não temos...

 

Desculpe, sou mãe dele e não há mais conversas.

 

Maria Luísa, por favor, seja razoável. Não há uma única fotografia dele em bebé, da gravidez.

 

Existem as da Carmen, podemos sempre mentir, por favor...

 

O Martim vai descobrir.

 

Não tem como.

 

Martim dispôs-se a compreender. Apesar dos poucos anos, iria fazer seis, diziam que seria passar o verão, e ele teria idade para ir para a escola. Os sonhos com outra casa pareceram-lhe exactos. Não eram construções. Ele não pertencia àquela espaço. Tivera outro colo e havia ainda a lembrança ténue de um sorriso que se abria e partia numa gargalhada, o corpo dele a voar para cair nos braços de alguém.

 

Quando a melhor defesa é o ataque

 

Os pais de Martim e de Carmen era, assim, pais biológicos dela, pais adoptivos dele e o mundo não sabia. O facto de ter descoberto a mentira com seis anos de idade fez com que Martim se tornasse, no mínimo, uma criança difícil. Estava zangado e não entendia, queria que lhe explicassem e ninguém o fazia. Era agressivo e fazia exactamente o contrário lhe pediam. Quando tinha ocasião destruía as coisas da irmã, Carmen, e batia-lhe. A miúda ficava a vê-lo arrancar cabelos às bonecas e não percebia como é que a mãe não o castigava. Martim atacou tudo e todos até chegar à suprema arrogância de optar pela indiferença.

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 25.08.15

onde um afago rápido podia ser a salvação dela

O pai jantava no escritório, pontualmente às oito, o tabuleiro seguia nas mãos da mãe, depois de verificar que Isabelinha não trocara a ordem dos talheres, que o guardanapo estava imaculado. Não olhava sequer para as crianças. E, sempre que o fazia, o alvo era Martim. O único alvo do seu afecto que se resumia a um gesto rápido, um afago na cabeça.

 

onde se explica o papel do pai e outras inconfidências

Carmen tinha com o pai uma relação distinta. Como se vivessem uma vida escrita em duas linhas paralelas. Quando o pai ia a casa da avó, brincava com Carmen, perguntava pela escola e ainda, um dia, atreveu-se a dizer em voz alta que seria bom ela estudar

Assim, filha, podes herdar o consultório e o esqueleto.

Carmen nunca considerara medicina, estava mais interessada em endireitar o mundo, tinha um fascínio pela lei e pelos contornos, curvas e contra curvas de um sistema que mal entendia. Lia de fio a pavio o jornal que a avó comprava todos os dias. Sabia coisas que os pais não sabiam, sabia pormenores da história actual que escapavam ao pai e, sinceramente, não considerava sequer possível estudar para ser médica e herdar o tal esqueleto que pendia os ossos logo na entrada do consultório. A avó, entendendo os seus silêncios, os ombros encolhidos, arrumava o assunto com alguma facilidade

Direito. Alguém tem de estudar Direito. O Martim que vá para Medicina. A Carmen seguirá o curso do teu pai, Deus o tenha.

O Martim? Ó mãe...

Se não têm mão no Martim, não mo digas. Avisei, avisei várias vezes que o teu casamento...

Mãe, por favor.

 

Onde a fé salva do convívio triste de uma família que não o é

A conversa entre a avó e o pai repetira-se algumas vezes e Carmen percebera que a avó não aprovava o casamento do filho. Não era apenas a conversa, era a impossibilidade de ir a casa dos pais, de preferir o almoço de Natal no hotel mais afamado de Coimbra a pretexto de que a consoada era um momento de pré reflexão para a missa do galo. Carmen fez a catequese, primeira comunhão, crisma. Não questionou. A avó ficava encantada com o seu silêncio, era uma menina dócil, uma jovem agradável, uma adulta pronta para ir para Lisboa, com boa cabeça. O contrário do irmão, já se sabe, mesmo que Martim não estivesse preocupado com nada.

 

onde se relata o sucesso de Martim, o irmão marialva

Com o dinheiro herdado do avô, o mesmo que podia aceder aos 21 anos, tal como a irmã, montou um negócio nocturno. Era assim que lhe chamava a avó: negócio nocturno, um bar com uma pista de dança cujo sucesso foi imediato. Depois deste bar, Martim abriu mais nove pelo país e tornou-se um empresário de sucesso, sempre desprezado pela família ​por falta de canudo e de estabilidade. Carmen explicara a Carlota o marialva que era o irmão

Ele sabe as regras. Tu para quebrares as regras tens de as saber e ele sabe, ignora por opção. Sempre escolheu a liberdade acima de tudo.

E tu escolheste o quê?

Escolhi não fazer barulho. Depois vim para Lisboa.

Aqui também não fazes muito barulho, Carmen, tens a melhor média da turma...

Isso não quer dizer nada.

És certinha.

Sou. Não faz mal.

 

onde a história de vida não interessa

Carmen revive tudo isto sem conseguir perceber onde a vida, aquela vida, terminou. Quando é que se tornara uma mulher sem normas, a cobrar e a dizer a Jaime tudo o que pensava, pela simples razão de não conseguir estar calada. A avó não a reconheceria. Em noites de enlevo amoroso, chegara a afirmar como teria sido importante ter a avó viva, como ela aprovaria a pessoa de Jaime na sua totalidade. Não era verdade. Agora podia pensar assim.

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Fictiongram, continuação

por Patrícia Reis, em 10.08.15

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onde o futuro será político apesar de mulher

Carmen vislumbrava pontualmente uma Carlota de fato saia e casaco, formal, em comentários na televisão, sempre naquele tom rápido de quem já pensou em argumentos e contra-argumentos. Mais tarde ou mais cedo, o partido onde milita iria convocá-la para outros voos. Mas não falavam sobre política. Agora, Carlota ainda tinha trinta e poucos anos e, como se sabe, nessa idade ainda se é pouco. Ou quase pouco. Em especial na política, para mais sendo mulher.  

 

 

onde a amizade obriga

Carmen sentiu-se velha. Hesitou na resposta. Consciente das ferramentas de fiscalização do facebook, sabendo que a mensagem seria vista como tendo sido lida pelo receptor, um “v” de “visto”, sem qualquer vitória, que a atraía e obrigava a uma resposta. Suspirou.

Iria jantar com Carlota e teria, por fim, de a enfrentar. Até ao momento não tinham falado sobre Jaime ou a separação. Não era um tabu. Carlota respeitava o silêncio e o tal desgosto.

 

 

Onde se chega a um ponto em que não se sabe de nada

A primeira vez que jantaram, pós separação, a destruição era tão evidente no rosto da amiga, que Carlota começara por perguntar

O que foi? Carmen, o que foi?

Encolhera-se no cadeirão confortável, acendera um cigarro e fizera sinal ao empregado para dizer que era o costume e um cinzeiro, se faz favor. Depois, tentara olhar para a amiga, os olhos caíram em lágrimas e Carlota teve o bom senso de dizer

Falamos de outra coisa. Já te contei que inventaram uma conta com o meu nome no Yahoo? Imagina! Além de ser perigoso, é muito perigoso, pergunto-me o que escreverão fazendo-se passar por mim. Enfim, fiz uma denúncia e agora é esperar e ver. Já te contei que temos um novo colega lá no escritório? Pois temos, e já é sócio. Há coisas que deixam uma mulher simplesmente cansada...

 

 

onde falar é impossível

E continuou a palrar, a encher o silêncio, sabendo que não estava a ser ouvida. A amizade também é isso. Carmen mal tocou na carne, bebeu o vinho a copo e pediu um segundo apenas com um gesto e olhou pela montra, ficam sempre perto de uma mesa que dá para a rua, olhou sentindo que estar ali era uma forma de morte. Carlota não se atemorizou. No dia seguinte mandou sms

Estás bem? Precisas de alguma coisa? Queres falar?

Carmen respondeu

Ainda não consigo falar.

 

 

onde tudo é obrigação

E passou trinta dias, até ao jantar seguinte, numa não-existência de repente possível por terem terminado as aulas. Ser professora assistente não era uma tarefa fácil. Carmen controlava minimamente o que tinha em mãos e o professor estava desejoso de rumar a Guimarães onde tinha uma quinta de família. Não se preocupou com as olheiras da assistente, a súbita magreza, a falta de palavras. O Verão estava aí. Se havia problemas, pois que os resolvesse e, de preferência, longe dele. Alguns alunos mandaram emails, Carmen esforçou-se por responder. A sua existência ter sido derrotada pela separação não podia significar mais do que isso, ou seja, estava ciente de que era preciso viver e manter um determinado registo.

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