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A chama e o incêndio

por Laura Ramos, em 25.04.13

 

Nesse dia de Abril de 1974, ao 1º tempo, na aula de Latim, discutia-se se a revolta era de esquerda ou de direita. À época, estudava-se muito no liceu… mas não se pense que éramos parvos.
Aprendemos imenso.

Tempos antes, numa viagem a Lisboa com a professora de História, íamos rumo à Gulbenkian para a uma exposição de pintura sobre expressionismo alemão. Constará decerto dos anais, que eu eternizei numa série de fotos com a máquina do meu pai, de uma marca alemã (pfff...) com uma incómoda caixa acoplada de voluptuoso couro, coisa mais demodée.

A meio, decidimos parar, ignorantes, para um café na base da Ota, nesse tempo uma paragem normal. Aproximaram-se uns militares que, em vez de nos ralharem por estarmos a fumar - a consciência pesada devorava-nos por quase tudo, nesse tempo! - aconselharam-nos a voltar a casa, por obscuros motivos.

Viemos a saber, convenientemente depois, que era o 16 de Março. Mas fomos à exposição. A professora era durona e nós adorávamo-la.
Aprendemos imenso.


Na Páscoa anterior, durante a tradicional viagem de finalistas do '7ºano', para além da costumeira monumentália e do novíssimo 'Corte Inglés', ainda dera tempo para o meu grupo (que delicioso conceito…) abdicar com proveito de uma ida às cuevas do flamenco, à noite. E conviver com uns guapisimos muchachos no foyer do hotel, em Sevilha. Com quem falámos de política, madrugada dentro e cinzanos a esmo: Salazar, Franco, Marcelo e os americanos. Para nós, pura teoria...
Aprendemos imenso.

No liceu, a professora de Organização Política e Administrativa da Nação (OPAN) era um assombro. Margarida RC dava-nos a matéria num único período (canja). E, de Janeiro em diante, conversávamos sobre cultura, autores, mundo e liberdade de expressão. Todos sabíamos que ela fora interrogada pela PIDE variadíssimas vezes. E que era socialista.

Por isso, logo no dia 26, na sua aula, desafiou-nos a lançar os livros de OPAN ao cesto, passando o nosso manual, mediante proposta aceite por unanimidade, a ser o 'Expresso'. Semana a semana, aula após aula. Até ao verão.
Aprendemos imenso.

Entretanto, a professora de Latim, ao 1º tempo do dia vinte cinco do quatro, hesitava entre as duas respostas possíveis à nossa inquietação. - Esquerda? Direita? - Endurecimento? Libertação? Abstracções puras para nós, mas o que é que, de sério, não é abstracto nesta idade?
Mal o toque soou, corremos em polvorosa rumo ao gabinete da Reitora. Tínhamos 16-17 anos e éramos 'seniores', respeitáveis pré-universitárias. A brincar à idade adulta, boas alunas, muitas de nós inscritas no mal-amado 'quadro de honra'. Disgusting...

Só que, por isso mesmo, davam-nos desconto em questões de disciplina. E algumas liberalidades.
Mulher inteligente, essa Reitora… Não mudou o seu estilo num centímetro, mas deu-nos as chaves para entrar no carro dela e, sob o olhar festivo-vigilante da contínua, sintonizar a BBC.
A chama deflagrara.

À tarde não houve aulas. O almoço foi de família italiana. E depois saímos, competentemente tutelados pelos irmãos mais velhos, deambulando pela Praça em grupos cada vez maiores, para acabar em frente à PIDE, entre centenas e centenas de povo unido: uns a berrar, outros a rir, outros a chorar, outros a pensar.
Entretanto, o liceu feminino perdera a virgindade. Entravam amigos a toda a hora. O Sérgio, o célebre Sérgio S. - nosso colega de ano, mas do liceu masculino, o 'D. João III' -, inflamava as hostes femininas, de giraço que era... Culto, civilizado, brilhante, inspirador. Falava magnificamente, como Che: em cima de um muro, no palco do ginásio, onde quer que fosse. Bonito, inteligente, ardente, luminoso (um cocktail fatal).

Eram as primícias do MRPP, sem que soubéssemos.

Desde então sempre alinhei com eles, atrás da chama. Não gostava nada dos malcheirosos e sebentos dos comunistas, pardos e feiosos, entre quem eu conhecia um ou outro trânsfuga. Só sabiam pregar-nos lições de moral, ou sabotar as RGA, ou chamar-nos de filhos da burguesia e de traidores, com aquelas caras de velhos de 40 anos...

 

Hoje tenho-lhes genuíno respeito, ao contrário de então... sendo certo que nos estragaram a vida para sempre (o incêndio).
Desmantelaram as faculdades. Puseram-nos um ano à espera de nada, enquanto saneavam professores, ferozmente e à toa. E no fim do black-out, em Novembro de 75, ainda lá estavam à espera de nós, caloiros. Continuando por bons anos a dominar aquilo. Greves manipuladas, desordem, boicote às aulas... até que Sottomayor Cardia chegou para eles e pôs termo ao baile.
O PC foi, francamente, um verdadeiro estorvo.


Ganhei em cidadania e humanidade, sim...
Ganhei em tantas coisas. Mas perdi uma escola superior como devia ser. E esta coisa do ensino nunca mais se endireitou.
Mesmo assim, digo eu, valeu a pena.

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