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Bloco Operatório

por Rui Rocha, em 02.12.15

Daqui por 20 ou 30 anos a expressão "rir a bandeiras despregadas" cairá definitivamente em desuso e será substituída por "rir como um cirurgião que não fez o exame do básico".

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Pedido de ajuda

por Rui Rocha, em 01.12.15

Desculpem se vos incomodo com as minhas consumições, mas ando mesmo muito angustiado. A minha filha Leonor fez os exames do básico há mais de dois anos e, ao contrário do que seria de esperar, não apresenta sinais de qualquer trauma. Para ser sincero, ainda agora a apanhei a rir à gargalhada. Conhecem outros casos semelhantes? Não acho isto normal...

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exame nacional de Português, 9º ano

por Patrícia Reis, em 17.06.14

O miúdo chegou a casa descontraído.

O teste? Ridículo. Adjectivo dele.

Entrevista ao Mário de Carvalho por Carlos Vaz Marques e um excerto de Memórias de Cubas Brás de Machado de Assis.

Entregou-me o teste e sorriu.

 

Nada de especial.

 

Perguntei pelo próximo, o de matemática. Ao contrário dos Lusíadas ou do Auto da Barca do Inferno, a matemática é mesmo uma equação estranha para a minha criatura adolescente.

 

Já não levanto a nota, mãe, esquece.

 

Já esqueci. Depois, sem grande alarido, o miúdo diz ainda

 

O terceiro ciclo já está. Venha o secundário.

 

 

 

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Qual é a dúvida?

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.05.14

Com a devida vénia, ao quatro almas, sem perceber se o professor compreendeu o sentido da resposta do aluno.

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O exame

por Patrícia Reis, em 18.06.13

o exame

O miúdo sabe de Pessoa. Até sabe mais que muitos, já foi à Casa Fernando Pessoa, já disse alto e bom som para um mini filme uma carta que o poeta terá escrito a Ofélia, uma carta que começa com bebé, meu bebezinho. O miúdo sabe e, por isso, não hesita, ataca o exame a pensar que depois é o futuro. Seja ele o que for. Nem pensa na nota de português ou na injustiça da nota de português, pensa nos heterónimos e de como gosta de Álvaro de Campos. Não se lembra se leu ou não o Ano da Morte de Ricardo Reis, talvez sim. A sua caneta anda tão depressa quanto a sua mão o permite. Felizmente não faz parte do lote dos 22 mil alunos que não conseguiram fazer o exame. Para ele é um alívio. Está cansado. Cansado da pressão, do secundário, de dar descontos a este ou aquele. Quer crescer, mesmo sabendo que crescer é difícil.

 

A prova, mãe? Era difícil, devo ter um 17.

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Inteiros numa fé talvez sem causa

por Pedro Correia, em 17.06.13

 

Vários colegas de blogue já comentaram a greve dos professores. Eu prefiro comentar estas declarações, para mim espantosas, da presidente da auto-intitulada Associação de Professores de Português (quantos professores representa esta associação?) que vem contestar o carácter "dúbio" do exame do 12º ano hoje realizado.

Dúbio, para a professora Edviges Antunes Ferreira, é algo que merece crítica. Como se a literatura pertencesse ao reino das matemáticas, em que dois mais dois serão sempre quatro.

Admira-se esta docente que houvesse "questões dúbias" sobre Ricardo Reis, por sinal um dos mais dúbios autores da literatura portuguesa, heterónimo de um poeta que ultrapassava os restantes naquela ambiguidade que por vezes molda o génio.

Dúbio, em literatura, não é defeito: é qualidade. Queria o quê, doutora Edviges? Um teste à americana, cheio de quadradinhos, como quem preenche um boletim do Euromilhões?

"Tem quatro questões e duas delas podiam ser mais objectivas", queixa-se a docente, esquecendo talvez que o enunciado em causa não se destinava a alunos do ensino básico mas a um exame do 12º ano de escolaridade, em que se pressupõe que qualquer estudante esteja apto a interpretar textos que ultrapassem a linearidade objectiva de uma notícia de jornal. "O poema, só por si, é subjectivo", pasma a doutora Edviges. E nós pasmamos com ela. Como se a subjectividade, inerente à melhor literatura, fosse defeito em vez de qualidade.

Queixa-se ainda a presidente da APP de, noutra parte do exame, estar incluído um texto de António Lobo Antunes, que exige - como qualquer texto deste escritor - "uma leitura muito atenta". E aponta o dedo acusador, segundo as declarações recolhidas pela Lusa: "Não chegaria uma vez. Os alunos teriam de encontrar as respostas ao longo de todo o texto". Até porque os alunos eram "obrigados a ter uma percepção global do texto" para conseguirem "responder a essas questões de uma forma correcta".

Eu é que pasmo cada vez mais. Mas qual é o problema de um exame requerer "leitura atenta" de quem o faz, doutora Edviges? A senhora prefere cultivar o facilitismo na escola em contraste com as crescentes dificuldades na vida extra-escolar? Algum dos seus alunos se sente capaz de interpretar um texto sem ter uma "percepção global" daquilo que lê? À luz de que patamares mínimos de exigência se deverá elaborar um enunciado destes que não implique uma "leitura atenta"?

E volto ao princípio: que critérios pedagógicos a senhora adopta, poupando "subjectividades" e "leituras atentas" aos seus alunos? Como sei de antemão que ficarei sem resposta, respondo eu próprio. Com estes versos - muito subjectivos - de Ricardo Reis: «Seja qual for o certo, / Mesmo para com esses / Que cremos serem deuses, não sejamos / Inteiros numa fé talvez sem causa.»

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Desde que chegou a casa, ontem ao fim da tarde, mantive-me atento e vigilante. Até ver, nada.  E isso ainda me perturba mais. Será esta aparente normalidade um sinal de que algo de muito grave se passa? Que terríveis consequências estarão a desenvolver-se enquanto a alegria, a vivacidade, o entusiasmo, o brilho nos olhos, esse mesmo de sempre, tudo isso se mantém. O próprio beijo que me deu à noite pareceu tão igual aos da semana passada. Não sei, confesso que não sei. Entretanto, temo e tremo. Enquanto redobro a atenção. Se isto continuar assim, sem que nada aconteça, levo-a ao médico. Afinal de contas, já passaram mais de vinte e quatro horas desde que a Leonor fez o exame de Matemática do 4º ano. E todos sabemos que isso só pode ter provocado sequelas traumáticas. 

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Os exames nacionais ou uma questão de fôlego

por Leonor Barros, em 26.06.12

Eram 9.00 horas, deu o toque final e centenas de alunos entraram para mais uma aventura no maravilhoso mundo dos exames nacionais. Estranho é como Isabel Alçada ainda não se inspirou nesta verdadeira epopeia a que nos sujeitam a todos com ares de distribuir competência e rigor.

Seriam umas 9.15 quando me trouxeram a prova de Alemão. Folheio-a, deito-lhe um olho, perscruto-a de várias perspectivas e começo a resolvê-la. Além do grau de dificuldade mais elevado que nos dois anos anteriores, e acrescento desde já que não viria daqui mal ao mundo, este ano tínhamos mais uma novidade: só um verdadeiro Zatopek no que a língua alemã diz respeito conseguiria fazer todas as tarefas obrigatórias com calma e tempo para reflectir, um maratonista cheio de fôlego, um Schuhmacher a lutar pela pole position. Zatopeks não temos, Schumachers idem e até o Carlos Lopes já pendurou as sapatilhas há muito tempo, mas Usain Bolt teria dado jeito hoje. Podemos preparar muito bem os alunos, podem até ser todos excelentes, aplicados, empenhados, interessados mas não os podemos preparar para estas ‘idiossincrasias’ do Gabinete de Avaliação Educacional, GAVE para os íntimos. Se é a isto que chamam rigor devem estar equivocados. Aquilo era uma prova de maratona. Só os que têm fôlego se salvarão, não necessariamente os que sabem.

E serve tudo isto para dizer que não, os exames nacionais não são fiáveis, não têm coerência alguma de ano para ano, uns anos são assim, outros assado e outros nem por isso, apesar de serem exactamente os mesmos programas. Servem propósitos vários mas não aquilo para que alegadamente foram instituídos. Dizia Nuno Crato que o Ministério da Educação devia ser implodido, isto antes de se tornar eminente Ministro da Educação, porque agora, fazendo parte do sistema, faz o que outros antes fizeram: muito pouco de jeito. É pena. É preciso ter fôlego.

 

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