Ainda sobre as duplas candidaturas, Sócrates sentiu-se obrigado a dizer que as candidaturas de Ana Gomes e Elisa Ferreira ao Parlamento Europeu foram «uma afirmação superior» – seja lá o que isso for – mas que as duas polémicas candidaturas actuais às autárquicas constituem «a prioridade política» de ambas. Chama-se a isto falar sem dizer nada. Vejamos.
1. Explicar que a escolha daquelas duas figuras para eurodeputadas foi «uma afirmação superior» inferioriza certamente muitas outras figuras destacadas do PS. A menos que não as haja.
2. Aceitar que Ana Gomes e Elisa Ferreira são candidatas a duas autarquias com as eleições autárquicas à vista só pode ser «a prioridade política» das duas. Por muita imaginação que houvesse, ninguém descortinaria coisa diferente.
3. Fazer-se esquecido para não dizer se elas ficam como simples vereadoras se não obtiverem maiorias é insistir na visão oblíqua de que somos todos parvos. Começa a ser maçador ter de ouvir permanentemente afirmações enviezadas como se de grandes declarações se tratasse.
Em suma: Sócrates pode continuar a dizer o que muito bem entender; como sempre acontece quando os assuntos são muito incómodos, quanto mais fala, mais se enterra.
Inesperadamente, Sócrates quis esfriar a polémica fora do PS e abriu a polémica dentro do partido: impediu as candidaturas duplas às legislativas e às autárquicas, estragou o sonho de alguns candidatos socialistas e salvou os seus pares já com lugar assegurado no Parlamento Europeu (PE) e que levam em frente as suas candidaturas a autarcas.
Não admira que alguns candidatos duplos do PS estejam a protestar e que outros estejam felizes. Entre os que não cabem em si de contentes estão, por exemplo, Elisa Ferreira, candidata ao Porto, e Ana Gomes, candidata a Sintra, ambas já com assento garantido no PE: a primeira nem encontra palavras para descrever a sua satisfação; a segunda vai dizendo que concorda com a decisão para pôr cobro aos dichotes lançados pela oposição.
Ana Gomes até diz mais: «Neste momento, sou candidata apenas à câmara municipal e, se for eleita, é na câmara que fico; se não for eleita, é no PE que fico em exclusividade». Claro que sim: ela não é também candidata às legislativas, os outros dois cargos à escolha são exercidos em exclusividade e um deles já está no papo. Mas não é bem como ela diz: perder a presidência da câmara de Sintra não é perder a câmara, só que Ana Gomes está visto que desistirá de ser vereadora para ser eurodeputada.
Conclusão: Sócrates acaba com os candidatos duplos, mas não tem mão nos candidatos ambíguos. A única vantagem que retira é a de todos eles lhe mostrarem os dentes. Uns a sorrir, outros a rosnar.
O PSD VOLTA A SER PPD
A vitória eleitoral de Manuela Ferreira Leite, por interposto candidato, esteve longe de ser o passeio triunfal que alguns, sentados de camarote, vislumbraram na blogosfera. A prova? Vinte e quatro horas depois do escrutínio, quem representou o PSD no debate pós-eleitoral da RTP foi Pedro Santana Lopes. Precisamente o maior derrotado nas eleições internas de 2008 - o homem contra quem Ferreira Leite e cavaquistas, enojados, andavam a clamar desde 2004, verbalmente e por escrito. Há regressos que dizem tudo sobre um programa - e sobre a capacidade de regeneração de um partido que ambiciona voltar às luzes e aos lustres dos grandes dias.
ADENDA: Com este texto concluo um conjunto de cem postais sobre as europeias iniciado em 14 de Abril e subdividido em três séries: Europeias (50), Vencedores (30) e Derrotados (20). Daqui a algum tempo inicio outra, intitulada Legislativas.
ABSTENÇÃO: UM ESPECTRO NA EUROPA
Os resultados eleitorais, esbatendo o bipartidarismo em Portugal, reforçam o papel do Presidente da República no eixo central da política portuguesa. Não por acaso, e como aqui se previu há um mês, no rescaldo imediato do escrutínio Aníbal Cavaco Silva vetou as alterações à lei do financiamento dos partidos, indiferente ao facto de ter merecido aprovação quase unânime na Assembleia da República. O poder - e refiro-me ao poder que conta, não às suas máscaras inseridas em mecanismos de propaganda - mede-se por estes gestos. O desfecho das europeias dá-me ainda mais motivos para manter o que escrevi a 25 de Janeiro: este vai ser o primeiro ano que porá verdadeiramente à prova Cavaco Silva enquanto Presidente da República. Um ano em que as questões de fundo pesarão mais do que as questões de forma.
MAIORIA ABSOLUTA
José Sócrates confundiu mandato para governar com permissão para o autoritarismo.
Asfixiou o debate interno no partido.
Divorciou-se da ala esquerda protagonizada por Manuel Alegre.
Permitiu que figuras como Augusto Santos Silva e Vital Moreira rompessem pontes de diálogo com os partidos à esquerda, procurando por todos os meios desqualificar os adversários políticos.
Rasgou promessas eleitorais, como a do referendo europeu e a da garantia de que não subiria os impostos.
Transformou cada sessão parlamentar, mês após mês, num ajuste de contas com os seus antecessores no Governo.
Elaborou, em Setembro de 2008, o orçamento para este ano sem fazer a mínima ideia da profundidade da crise económica.
Cometeu o erro supremo de hostilizar o Presidente da República em questões como o estatuto dos Açores.
Confundiu o acto de governar com acções de propaganda em sessões contínuas.
Permaneceu indiferente aos sinais de profundo desagrado que lhe chegavam dos mais diversos sectores da sociedade portuguesa.
Esqueceu-se, enfim, que a política é a arte do possível.
Tudo devido à maioria absoluta de que dispôs no Parlamento. Não a repetirá.
Imagem: interior do Palácio de Versalhes
BLOCO CENTRAL
Nas europeias de 2004, PS e PSD (este coligado com o CDS) somaram 77,8% dos votos. Nestas eleições, a percentagem obtida pelos dois partidos encolheu quase vinte pontos: obtiveram apenas 58,3%. O que significa isto? Que o bloco central de que tanto se falou nos últimos meses tem hoje muito menos condições de vingar no País do que tinha há cinco anos. À esquerda e à direita, desenvolvem-se maiorias aritméticas consistentes e alternativas. Resta ver se algumas destas maiorias aritméticas se transforma em maioria parlamentar. O facto é que a expressão 'bloco central' parece agora mais fora de moda que nunca - a tal ponto que ninguém voltou a mencioná-la desde a noite de 7 de Junho. Enfim, um indício de sanidade na vida política portuguesa.
Dizia-se dantes que a direita francesa era a mais estúpida do mundo. Bem pode hoje dizer-se o mesmo da esquerda francesa, que ainda não conseguiu recuperar da derrota claríssima infligida por Nicolas Sarkozy a Ségolène Royal nas presidenciais de Maio de 2007, em que praticamente só Ana Gomes, confundindo desejos com realidades, vaticinava a vitória da candidata socialista. Depois disso, Ségolène e Martine Aubry envolveram-se numa luta fratricida para tomar as rédeas do partido do falecido François Mitterrand que a segunda ganharia por um punhado de votos. Os eleitores, cada vez mais enfastiados com estas guerras de Alecrim e Manjerona, penalizaram duramente o PSF.
"De nada servirá minimizar a amplitude da nossa derrota apontando outros períodos mais dolorosos da nossa história", reconheceu Aubry, numa lúcida autocrítica que não teve paralelo em todos os derrotados nestas europeias. Fica-lhe bem esta humildade: afinal os socialistas ficaram 12 pontos percentuais abaixo da UMP de Sarkozy e tiveram apenas mais 0,2% do que os ecologistas de Daniel Cohn-Bendit: uns humilhantes 16,48%. Um autêntico naufrágio, na justa definição de Les Ecos. E o segundo pior resultado de sempre dos socialistas franceses em 30 anos de eleições europeias.
Et maintenant? Não custa adivinhar que Aubry e Royal prosseguirão a sua contenda pessoal, continuando a dar todo o palco ao casal Sarkozy-Carla Bruni, pronto a amealhar novas vitórias. La France a la gauche plus bête du monde.
A vitória da direita um pouco por toda a UE garante a recondução como presidente da Comissão Europeia de José Manuel Durão Barroso, que acaba assim por ser um dos triunfadores destas europeias. Confortado com os votos antecipados do PSD de Manuela Ferreira Leite, do PP de Mariano Rajoy (Espanha), do Partido Conservador de David Cameron (Reino Unido), do Povo da Liberdade de Silvio Berlusconi (Itália), da CDU de Angela Merkel (Alemanha), da UMP de Nicolas Sarkozy (França) e da Plataforma Cívica de Donald Tusk (Polónia), entre muitos outros.
Alguém aí falou em onda conservadora? Pois é isso mesmo. E Barroso faz surf nela.
A arrogância sai derrotada deste escrutínio europeu. Uma arrogância bem expressa nestes 20 segundos de declarações de Vital Moreira à Antena 1, no passado dia 1, sobre o seu rival Paulo Rangel em que procurava justificar a sua incompreensível falta de acordo para um frente-a-frente televisivo:
Seis dias depois, o País percebeu quem tinha afinal "incapacidade em ter o povo consigo". E talvez Vital Moreira tenha aprendido, embora tarde de mais, que a arrogância é sempre má conselheira. Na política como na vida.
A minha vénia à Joana Lopes, a quem pedi emprestado o som da Antena 1.
ADENDA. A arrogância, como já referi aqui, parece ter-se apossado também de alguns blogues socialistas, incapazes de lidar com a realidade. Só isso explica que haja quem se insurja contra a "tolice" dos eleitores, parecendo dar-lhes uma reprimenda por terem votado como votaram. Excessos de zelo que em nada beneficiam o PS: só o prejudicam.
EU NÃO DIZIA?
Como aqui previ, ainda antes de as urnas terem fechado, não tardaram as análises preocupadas, designadamente em blogues que muito prezo, com o crescimento do voto da 'extrema-esquerda'. Leia-se, a título de exemplo, o que escrevem João Maria Porto, Tiago Moreira Ramalho, Filipe de Arede Nunes, Maria João Marques, Rodrigo Adão da Fonseca, Nuno Pombo e André Azevedo Alves.
Como se isso não dissesse praticamente tudo sobre a oposição de 'direita', quase inexistente em Portugal.
A QUARTA DERROTA DE SÓCRATES
José Sócrates tem coleccionado mais derrotas do que vitórias. Perdeu as autárquicas em Outubro de 2005, ganhas pelo PSD de Marques Mendes. Perdeu duplamente as presidenciais de Janeiro de 2006 - o seu candidato, Mário Soares, foi copiosamente derrotado por Cavaco Silva e Manuel Alegre. Perdeu as regionais da Madeira em Maio de 2007 - em termos eleitorais e também por falta de comparência, pois nem se dignou participar numa só acção de campanha dos seus camaradas socialistas no Funchal. E acaba de perder as eleições europeias para o PSD de Manuela Ferreira Leite, vendo o PS relegado para a pior votação de sempre em números absolutos. Além das legislativas de 2005, venceu apenas as regionais açorianas, por interposto Carlos César, e as eleições intercalares de Lisboa, por interposto António Costa.
Com esta quarta derrota em quatro anos, o seu saldo eleitoral torna-se claramente negativo.
Mário Soares envolveu-se a fundo na campanha europeia, comparecendo no comício de encerramento do PS em Lisboa e mobilizando alguns antigos líderes europeus - incluindo o ex-chanceler alemão Gehrard Schröder, actual assalariado de Vladimir Putin - numa frente anti-Durão Barroso que se revelou um monumental fiasco.
Soares não acerta uma desde a sua malograda campanha presidencial de 2006. Andava há anos, por exemplo, a prognosticar com tão aparente convicção uma imparável maré eleitoral de esquerda por toda a Europa que alguns chegaram mesmo a acreditar no que dizia.
Percebo a decepção desta boa gente. Aliás, a avaliar por isto, parece que ele próprio também acreditava...
Paulo Rangel
Deixas criar às portas o inimigo
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe!
Buscas o incerto e incógnito perigo,
Por que a fama te exalte e te lisonje,
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia!
Os Lusíadas, Canto IV
O multimilionário Declan Ganley ganhou notoriedade política ao liderar com êxito a campanha pelo 'não' na Irlanda ao Tratado de Lisboa. Não lhe bastou este sucesso no país natal: nas europeias lançou uma espécie de franchise eleitoral em vários países (Portugal incluído), sob o rótulo Libertas, para formar um grupo parlamentar em Bruxelas. Não conseguiu eleger um só deputado, o que até tem lógica: o que vale para um país, sob a bandeira do nacionalismo, não vale para os restantes. Uma lição para outros milionários com ambições políticas: o dinheiro não compra tudo.
Pior do que a arrogância de um vencedor, só a arrogância de um derrotado. Aconteceu em Madrid, com Rodríguez Zapatero, justamente penalizado pelos eleitores do seu país, que o responsabilizam pela existência de mais de quatro milhões de desempregados quando há 16 meses garantia que não haveria crise económica em Espanha. Confirmado o desaire nas urnas que só ele não anteviu, o chefe do Executivo espanhol não se dignou sequer comparecer perantes os jornalistas na noite das eleições, que confirmaram a derrota do seu Partido Socialista, a quatro pontos percentuais de distância do Partido Popular. Um silêncio que diz tudo sobre o desempenho deste governante, incapaz de honrar promessas e também de cumprir as regras da mais elementar etiqueta política. Comparado com Zapatero, José Sócrates faz figura de estadista.
A democracia representativa fez marcha-atrás nestas europeias, em que se registou a mais baixa taxa de participação eleitoral de sempre. Um facto que deve fazer pensar todos os políticos: a Europa não se constrói sem votos. Como ensinava Tácito há vinte séculos, "para aqueles que só ambicionam o poder não há meio caminho entre o cume e o precipício".
DAVID CAMERON (Reino Unido)
Partido Conservador: 27,7% (25 eurodeputados)
Partido da Independência do Reino Unido (eurocéptico): 16,5% (13 eurodeputados)
Abstenção: 66,73% (61,48% em 2004)
Não fossem as várias empresas de sondagens terem repetido à exaustão que o PSD iria perder estas eleições, nunca a tímida vitória do PSD teria o impacto que teve. Os social-democratas bem podem agradecer-lhes.
Ana Gomes escreveu aqui, no dia 28 de Maio, que Paulo Rangel é o "mais refinado exemplo de hipocrisia, inconsistência de convicções, oportunismo político e argumentação enganosa".
Ana Gomes escreveu aqui, no dia 29 de Maio, que Paulo Rangel tem "total falta de autoridade moral e de credibilidade política".
No domingo, a lista liderada por Paulo Rangel ganhou as europeias e a lista em que Ana Gomes se integrava foi derrotada por decisão soberana dos eleitores. Esperei em vão que no seu blogue, Causa Nossa, a eurodeputada socialista endereçasse os parabéns ao seu antagonista que dias antes, durante a campanha, criticara em termos tão duros.
Esperei em vão.
Em política, pior do que perder é não saber perder. Ana Gomes não soube.
Eleições: notas. Do Henrique Raposo, no Clube das Repúblicas Mortas.
Só umas notas. De Luciano Amaral, n' O Insurgente.
Notas sobre as europeias. De José Costa e Silva, no Lóbi do Chá.
Quatro nótulas avulsas sobre as 'europeias'. Do Miguel Castelo-Branco, no Combustões.
Europeias. De Bruno Vieira Amaral, n' O Cachimbo de Magritte.
Europeias: BE. Do Daniel Oliveira, no Arrastão.
Resultados dos partidos no governo. De Gabriel Silva, no Blasfémias.
Sobre saber vencer e saber perder. Do Afonso Azevedo Neves, no 31 da Armada.
O resultado das europeias e o PS. De João Gomes de Almeida, no Risco Contínuo.
Rescaldo eleitoral-PS. De António de Almeida, no Direito de Opinião.
Derrota em duas frentes. De José Medeiros Ferreira, no Bicho Carpinteiro.
Eleições no eucaliptal. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.
Emoções básicas (58). Do Luís Naves, no Corta-Fitas.
A formiga e a cigarra. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
Lição para as legislativas. De Bernardo Pires de Lima, na União de Facto.
As europeias de Cavaco. Do Paulo Pinto Mascarenhas, no ABC do PPM.
Corta palavra. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Sr. Luís.
Adivinham-se tempos difíceis. Do António Figueira, no 5 Dias.
Sinais muito preocupantes. Do Eduardo Pitta, no Da Literatura.
"Por uma maioria de esquerda". De José Simões, no Der Terrorist.
A maioria silenciosa volta a atacar. Do André Carvalho, na Geração Rasca.
HELLE THORNING-SCHMIDT (Dinamarca)
Partido Social-Democrata: 20,9% (quatro eurodeputados)
Partido Liberal: 19,6% (três eurodeputados)
Abstenção: 40,48% (52,11% em 2004)
MIRCEA GEOANA (Roménia)
Aliança sociais-democratas/conservadores: 30,82% (11 eurodeputados)
Partido Democrático Liberal: 29,75% (dez eurodeputados)
Abstenção: 73,6% (70,53% em 2007)
JANEZ JANSA (Eslovénia)
Partido Democrático da Eslovénia (centro-direita): 26,92% (dois eurodeputados)
Partido Social-Democrata: 18,45% (dois eurodeputados)
Abstenção: 71,75% (71,65% em 2004)
JOSEPH MUSCAT (Malta)
Partido Trabalhista: 54,77% (três eurodeputados)
Partido Nacionalista: 40,49% (dois eurodeputados)
Abstenção: 21,19% (17,61% em 2004)
O Tratado de Lisboa. O crescimento evidente das forças centrífugas nestas europeias enterrou de vez a reforma institucional, confirmando que Bruxelas pretendeu dar o passo maior que o pé ao fazer aprovar em petit comité, na cimeira de Lisboa, um documento à revelia da vontade real dos povos. Só falta mesmo o Partido Conservador chegar ao poder em Londres e concretizar aquilo que os trabalhistas deviam ter posto em prática: um referendo sobre o tratado. O referendo que também nos foi negado apesar de constar das promessas eleitorais feitas em 2005 por socialistas e sociais-democratas.
Na hora em que alguns já festejam um fim de ciclo, confundindo europeias com legislativas e a abstenção de Junho com a abstenção de Outubro, convém sublinhar: nada distingue o discurso europeu do PS e do PSD. Nada mesmo.
JYRKI KATAINEN (Finlândia)
Partido da Coligação Nacional (conservador): 23,2% (três eurodeputados)
Partido do Centro: 19% (três eurodeputados)
Abstenção: 59,6% (61,57% em 2004)
Alguns blogues socialistas, muito frequentados pela rapaziada que presta assessoria a José Sócrates e aos seus ministros e adjuntos. Blogues como este, que dias antes das eleições europeias publicava posts do mais fino gosto sobre o cabeça de lista do PSD e depois do escrutínio, procurando descortinar motivos para a pesada derrota socialista, que jamais haviam imaginado, congeminou justificações realmente delirantes. Um exemplo: "Votar Bloco de Esquerda é votar PSD."
Estes blogues baixaram desde domingo o tom da habitual insolência dirigida a quem não pensa como eles, mas vê-se que não aprenderam nada com o desaire: o culto devoto que dedicam ao chefe impede-os de perceber o que se passa à volta. Como se o País fosse relativo e só o partido fosse real.
De quantas derrotas mais precisarão para perceberem que Portugal não é o Rato?
SILVIO BERLUSCONI (Itália)
Povo da Liberdade (conservador): 35,25% (29 eurodeputados)
Partido Democrático (centro-esquerda): 26,14% (22 eurodeputados)
Abstenção: 33,54% (29,28% em 2004)
SANDRA KALNIETE (Letónia)
União Cívica: 24,32% (dois eurodeputados)
Centro de Harmonia (minoria russa): 19,54% (dois eurodeputados)
Abstenção: 47,44% (59,66% em 2004)
EDGAR SAVISAAR (Estónia)
Partido do Centro (liberal): 26,07% (dois eurodeputados)
Indrek Tarand (candidato independente): 25,81% (um eurodeputado)
Abstenção: 56,8% (73,17% em 2004)
ROBERT FICO (Eslováquia)
SMER (esquerda): 32,1% (cinco eurodeputados)
SDKU (liberais): 16,98% (dois eurodeputados)
Abstenção: 80,96% (83% em 2004)
MONA SAHLIN (Suécia)
Partido Social-Democrata: 24,6% (cinco eurodeputados)
Partido Moderado (centro-direita): 18,8% (quatro eurodeputados)
Abstenção: 56,2% (62,15% em 2004)
Não tinha intenção de escrever sobre os resultados eleitorais de ontem, mas vejo por aí uns patrulheiros que querem condicionar o que se pode escrever no day after das eleições, motivo que me leva a reagir.
1. O resultado do PSD não me surpreende. Já aqui escrevi que estas eram as eleições mais favoráveis ao PSD. Confirmou-se.
2. No PSD há dois vencedores. Manuela Ferreira Leite, naturalmente, porque foi quem delineou a estratégia, em parte contra a opinião dos seus pares. Paulo Rangel porque foi ele quem, no terreno, a executou de forma eficaz e eficiente.
3. Isto dito, convém manter os pés bem assentes no chão. A maioria dos votos que o PS perde não foi para o PSD. Ou seja, o PSD continua a revelar dificuldade em captar o voto dos descontentes.
4. Dito de outra maneira, cuidado com as ilacções. Mais de 60% dos portugueses optou por não votar. Não foram para a praia, não foram de férias. Não votaram, ponto. Quem quiser perceber...
5. A única surpresa, para mim, foi a dimensão da derrota do PS. Já esperava que parte dos eleitores votasse com os pés, nas mais diversas formas. Mesmo assim, surpreende-me o mau resultado do PS.
6. Termino com uma nota sobre a suposta derrota que Pedro Passos Coelho terá sofrido ontem. Não é por nada, mas acho que estão a ver mal o filme. Em toda a linha. Depois falamos.
[Adenda]
Parece que anda no ar uma algazarra silenciosa de teor conspirativo sobre quem foi o grande vencedor de ontem, i.e. Ferreira Leite ou Rangel. Aparentemente, quem salienta o papel de Rangel, em primeiro lugar, quer desvalorizar Ferreira Leite. (Não sei se, uma vez mais, isto tem a pegada sinistra dos Passos Coelhistas...) Pela minha parte podem estar descansados porque dou, com muito gosto, o caneco por inteiro a Ferreira Leite. Se não percebem, faço um desenho.
Augusto Santos Silva, mestre da estratégia eleitoral socialista
BOYKO BORÍSSOV (Bulgária)
GERB (centro-direita): 24,8% (cinco eurodeputados)
Partido Socialista Búlgaro: 18,59% (quatro eurodeputados)
Abstenção: 62,5% (71,78% em 2007)
MIREK TOPOLÁNEK (República Checa)
Partido Democrata Cívico (conservador): 31,45% (nove eurodeputados)
Partido Social Democrata: 22,38% (sete eurodeputados)
Abstenção: 71,7% (71,78% em 2004)
Maria de Lurdes Rodrigues
A Assembleia da República. Três dos seus melhores deputados - Paulo Rangel (PSD), Diogo Feio e Nuno Melo (CDS) - vão trocar São Bento pelo Parlamento Europeu.
GIORGOS PAPANDREOU (Grécia)
Partido Socialista Pan-Helénico: 36,65% (nove eurodeputados)
Nova Democracia (conservadores): 32,29% (sete eurodeputados)
Abstenção: 47,37% (36,78% em 2004) *
* o voto na Grécia é obrigatório, embora sem sanções para os abstencionistas
A esquerda um pouco por toda a Europa.
JEAN-CLAUDE JUNCKER (Luxemburgo)
Partido Popular Social Cristão: 31,39% (três eurodeputados)
Partido Democrata: 19,27% (um eurodeputado)
Abstenção: 8,65% (9% em 2004) *
* o voto no Luxemburgo é obrigatório
ENDA KENNY (Irlanda)
Fine Gael (conservadores moderados): 29,13% (quatro eurodeputados)
Fianna Fáil (liberais): 24,08% (três eurodeputados)
Abstenção: 45% (41,32% em 2004)
MARIANNE THYSSEN (Bélgica)
CD&V (democratas-cristãos): 15,13% (três eurodeputados)
VLD (liberais): 13,02% (três eurodeputados)
Abstenção: 14,14% (9,19% em 2004) *
* o voto na Bélgica é obrigatório
JAN PETER BALKENENDE (Holanda)
CDA (democratas-cristãos): 19,9% (cinco eurodeputados)
Partido da Liberdade (extrema-direita): 17% (quatro eurodeputados)
Abstenção: 63,5% (61,8% em 2004)
ANDRIUS KUBILIUS (Lituânia)
TS-LKD (democratas-cristãos): 25,69% (quatro eurodeputados)
LSDP (sociais-democratas): 19,06% (três eurodeputados)
Abstenção: 79,46% (51,66% em 2004)
Que não haja qualquer dúvida: o grande derrotado da noite eleitoral é José Sócrates. Mas Vital Moreira não ajudou nada. Mesmo nada. Somou sobranceria à arrogância do primeiro-ministro, juntando o inútil ao desagradável.
Os resultados das europeias, embora possam ser interpretados como um sinal para as legislativas, não são suficientemente claros para fazer previsões. A vitória será um bom incentivo para o PSD mas não significa uma viragem.
Em primeiro lugar, não me parece que o PSD possa alcançar a maioria absoluta, mesmo coligado com o CDS/PP. Depois, não penso que uma vitória do PSD seja razão para deitar foguetes. É bom não esquecer que foi MFL quem começou a perseguição aos professores e aos funcionários públicos, que Sócrates depois erigiu como bandeira do seu governo. Foi também MFL quem alterou as regras da reforma e só não foi mais longe porque entretanto Durão Barroso fugiu para o seu exílio dourado em Bruxelas.
Logo, uma vitória do PSD significa a continuação da perseguição aos professores e funcionários públicos e, muito provavelmente, o agravamento das penalizações das reformas.
Se o PSD não conseguir maioria absoluta (sozinho ou em coligação com o CDS-PP) o problema será ainda mais intrincado e, o mais provável é que o país fique ingovernável. Se o Bloco Central já era uma hipótese remota, depois dos resultados das europeias praticamente deixou de ser uma possibilidade viável.
Se o BE e a CDU aguentarem as suas expressivas votações (o que em relação ao BE me parece pouco provável…) terão também uma palavra a dizer na formação de um futuro governo. Principalmente, se o vencedor for o PS - que perdeu qualquer hipótese de alcançar uma maioria absoluta.
A grande ilação a tirar dos resultados das europeias é que poderemos estar a caminho de um beco sem saída que, muito provavelmente, irá retardar a nossa saída da crise. Essas são as dúvidas de uma noite eleitoral em que o povo português, apesar da elevada abstenção, mostrou claramente não desejar a renovação de uma maioria absoluta. Seria até uma boa notícia, não se desse o caso de as forças políticas portuguesas não darem sinais de se entenderem.
Hoje, porém, talvez Manuel Alegre tenha razões para sorrir. Uma vitória do PSD, ou um impasse na formação de um governo, aumentam as suas esperanças de ganhar as eleições presidenciais de 2011.
O PSD venceu as eleições. Não fiquei minimamente surpreendido. Sempre admiti a derrota do PS, embora não esperasse que fosse tão esmagadora.
Sem ter ainda feito a análise comparativa dos resultados com as Europeias de 2004, parece-me claro que o PSD, embora vencendo, não foi tão demolidor como o PS que, na altura, venceu com 44,1% dos votos.
Uma análise breve ao comportamento de cada um dos partidos:
PSD - Não foi Manuela Ferreira Leite que ganhou as eleições, mas sim Paulo Rangel. MFL andou escondida na primeira fase da campanha e só apareceu quando percebeu que o seu candidato poderia fazer uma gracinha. Ainda chegou a tempo de capitalizar a vitória, pela qual pouco lutou.
Digo, desde 2007, que Paulo Rangel tem todas as características para se tornar num político de sucesso. Algum deslumbramento pode traí-lo, mas iniciou hoje uma nova fase na vida do PSD e pode servir de alento a MFL para as legislativas. Pedro Passos Coelho foi o grande derrotado e a noite das “facas longas” ficou adiada, mas a alternativa a MFL terá de esperar. Santana Lopes e Rui Rio também perderam, mas podem reverter essa perda com vitórias claras nas autárquicas. Aguardemos por Outubro, mas o PSD tem agora boas condições para vencer as legislativas.
Resta saber o que irá fazer com essa vitória, (que não será certamente com maioria absoluta…) mas farei essa análise no próximo post.
PS - Derrota humilhante de Sócrates. Pagou pela má escolha do cabeça de lista e já era tarde quando se apercebeu disso. Ao entrar na campanha deverá ter pensado que poderia catapultar o seu candidato para a vitória e imediatamente pela sua cabeça passou a ideia de capitalizar essa vitória para reforçar a sua debilitada imagem pessoal.
Na hora da derrota Sócrates mostrou-se igual a si próprio: arrogante.
Talvez hoje, pela primeira vez desde que foi eleito secretário-geral do PS, Sócrates tenha percebido que não compensa rodear-se de súbditos e capangas que o bajulam e que a criação de uma central de informação que tudo seca à sua volta, não é suficiente para ganhar eleições. Os portugueses não querem outro SNI e hoje disseram-lhe, sem rodeios, que estão fartos de o aturar. Dificilmente o PS conseguirá inverter, nas legislativas, esta “dinâmica de derrota”. No dia seguinte às eleições Sócrates abandonará o partido, deixando-o à deriva. Na Cova da Beira talvez já se perfilem vários candidatos à sucessão, mas se o PS quiser voltar a ser um partido de esquerda, a solução não passará por aí.
BE - Neste momento continua a lutar taco a taco com a CDU pela obtenção do 3º deputado. Seja qual for o resultado, será outro grande vencedor destas eleições. Não acredito que mantenha a percentagem e o número de votos nas legislativas, mas poderá atrapalhar as contas finais.
CDU - Igual a si própria. Se forem ultrapassados pelo BE, os comunistas elegerão como principais adversários nas próximas legislativas o PS e os bloquistas. Infelizmente, a CDU não aprende. Alia-se mais facilmente ao PSD e à direita do que ao PS ou à esquerda.
CDS - Grande mistério de todos os actos eleitorais. As sua votações são sempre muito mais expressivas do que indicam as sondagens. Será que quem vota no CDS tem vergonha de o declarar? Aguentou os seus dois deputados e nas próximas legislativas poderá fazer valer esse peso para negociações com o partido vencedor.
Mais surpreendentes do que a vitória do PSD foram, em minha opinião, as vitórias de Sarkozy e Berlusconi. O PSOE - embora derrotado - aguentou-se bastante bem.
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