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Pequeno teste (com consulta)

por José António Abreu, em 02.04.15

Considere as seguintes previsões para a variação do PIB da Grécia em 2015:

+ 2,87% (FMI, Outubro de 2014).

+ 2,3% (OCDE, Novembro de 2014).

+ 2,5% (Comissão Europeia, início de Fevereiro de 2015).

+ 1,4% (Governo da Grécia, na lista de 'medidas' enviada ao «Grupo de Bruxelas» - ex-Instituições, ex-Troika -, final de Março de 2015).

 

A. O governo grego (que - tenha em atenção - é diferente para melhor de todos os outros, com excepção do cubano e do venezuelano):

1. Devia acreditar mais nas suas capacidades.

2. Embora não o possa admitir, sabe que as perspectivas de crescimento pioraram desde que tomou conta da situação e está a ser realista.

3. Na linha de tantos governos acusados de apresentarem números fantasiosos, está ainda assim a ser optimista.

4. Não faz ideia do que está a fazer nem do que vai acontecer.

 

B. Levando em conta as previsões e sabendo que o PIB da Grécia cresceu 0,8% em 2014, qual será a variação em 2015?

1. Acima de 3% (a austeridade era o problema e a Merkel cederá em toda a linha).

2. Entre 2% e 3%, como previam as instituições internacionais (o Syriza tem estilo mas é irrelevante).

3. Entre 1,4% e 2% (Varoufakis é ainda melhor do que pensa ser).

4. Exactamente 1,4% (Varoufakis é infalível).

5. Entre 0% e 1,4% (a teimosia da União Europeia tem custos).

6. Entre -1 e 0% (a teimosia da União Europeia e do BCE tem custos).

7. Mais negativa do que a temperatura média em Murmansk durante o mês de Janeiro (a Grécia liberta-se do euro e adopta um novo dracma, ligado ao rublo).

 

C. Elabore um texto com não mais de dez linhas sobre a hipótese de Varoufakis chegar um dia a líder do FMI.

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Outra diferença

por João André, em 17.03.15

Outra diferença: José Sócrates não teve um BCE a comprar dívida.

Mais uma: Passos Coelho parece não ser alvo de prefácios, independentemente daquilo que faça.

 

Sabemos que Sócrates não é um menino de coro, mas é escusado andar a branquear a incompetência do governo de Passos Coelho.

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Ministro da Defesa da Grécia ameaça deixar entrar na Europa jihadistas do Estado Islâmico se o governo grego não obtiver o que deseja.

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Alexis Chávez ou seguindo o modelo à risca

por José António Abreu, em 28.02.15

Passos elevado à condição de «grande satã» Bush é que não lembrava ao diabo.

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No seguimento do texto anterior

por José António Abreu, em 28.02.15

(Este texto.)

Os partidos populistas, baseando a conquista de votos não apenas em promessas impossíveis de concretizar mas na denúncia da promiscuidade entre os governos dos partidos «tradicionais» e o sector privado, caem numa aparente contradição quando exigem uma moeda - seja esta um euro fraco ou novas-velhas moedas nacionais - capaz de a disfarçar. Uma moeda fraca está inextricavelmente  ligada a regimes mais corruptos e a menores níveis de riqueza geral. Compare-se outro Sul com o Norte de sempre. Os países da América Latina têm tradicionalmente moedas que acomodam a corrupção e os exageros populistas dos políticos - até ao momento em que mesmo isso deixa de ser possível. Os países do Centro e do Norte da Europa favorecem tradicionalmente moedas fortes e estáveis, que obrigam os empresários a apostar na competitividade e os políticos a justificarem opções perante o eleitorado. Por não disfarçar os problemas, a moeda forte torna os eleitores mais exigentes e dificulta a realização de promessas vãs. Ou seja, dificulta os populismos. É por isso que a contradição não passa de aparência e é também por isso que os políticos minimamente honestos enfrentam enormes dificuldades em épocas de crise.

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A ver se entendi

por José António Abreu, em 24.02.15

O governo grego compromete-se a:

- Pagar a dívida pública;

- Manter as privatizações feitas e em curso; avaliar a melhor altura para executar as restantes;

- Combater a evasão fiscal;

- Reduzir a despesa pública;

- Aumentar impostos;

- Cortar pensões, poupando as mais baixas.

- Rever o código laboral e não aumentar para já o salário mínimo;

- Aumentar o nível de concorrência na economia;

- Liberalizar o enquadramento de profissões reguladas;

- Estudar medidas de apoio social que não tenham impacto negativo nas contas públicas.

E ainda se dizia que não existiam alternativas.

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O novo hino europeu.

por Luís Menezes Leitão, em 24.02.15

 

Não sei se haverá alguma federação de Estados no mundo que aceite submeter-se aos ditames de um único Estado. Ninguém nos Estados Unidos admitiria que o Estado de Nova Iorque passasse a mandar na União, e muito menos os brasileiros permitiriam que o Estado de São Paulo decidisse assumir a liderança do Brasil. Na Europa, no entanto, assiste-se descaradamente a uma assunção da liderança da União Europeia pela Alemanha, por vezes com o apêndice francês, como se viu em Minsk, o que pelos vistos gera inúmeros apoios. Apenas os pérfidos eurocépticos não aceitam o natural direito da Alemanha a mandar na Europa e escandalizam-se estranhamente com os actos de vassalagem a um Ministro alemão, quando ele está a ser contestado no seu próprio governo. É altura de acabarmos com o horrível eurocepticismo e passar a cantar loas à grande liderança prussiana, tão bem representada por Angela Merkel. Vamos passar todos a entoar a Preußenlied como novo hino europeu: "Wir sind ja Preußen, laßt uns Preußen sein". 

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"Astounding 56%"

por José António Abreu, em 24.02.15

Identificar medidas de poupança de custos através de uma exaustiva revisão dos gastos de cada Ministério e da racionalização das despesas não relacionadas com salários e pensões, que actualmente representam uns assombrosos 56% do total da despesa pública.

Da carta enviada pelo governo grego ao Eurogrupo. Tradução minha.

 

A carta está cheia de propostas vagas, sem quantificação de resultados previstos, mas tem no mínimo uma utilidade: demonstra que a Grécia precisa menos de perdões de dívida do que de uma gestão minimamente competente. Tomara o governo português ter disposto de uma margem como a revelada no trecho acima.

 

Versão original do parágrafo traduzido:

Identify cost saving measures through a thorough spending review of every Ministry and rationalisation of non-salary and non-pension expenditures which, at present, account for an astounding 56% of total public expenditure.

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Twilight zone

por Pedro Correia, em 21.02.15

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«A Alemanha teve de ceder.»

Nicolau Santos (hoje, na SIC Notícias), comentando a decisão do Eurogrupo de estender por quatro meses a assistência financeira à Grécia sob a condição de Atenas manter o programa de austeridade

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Negativos

Governos da Zona Euro ver-se-ão obrigados a apresentar orçamentos rectificativos para acomodar aumento de despesas com viagens. O anúncio gerará contestação na Bélgica, levando à demissão do governo (seguindo tradição local, as perspectivas de desempenho da economia melhorarão de imediato).

 

Positivos

Companhias aéreas europeias comunicarão ter tido o melhor mês de Fevereiro do milénio. Aeroporto de Bruxelas ocupará lugar entre os mais concorridos do planeta. Governo português anunciará que as receitas previstas com a privatização da TAP foram revistas em alta, devendo permitir eliminar a sobretaxa do IRS antes das eleições legislativas. Lufthansa anunciará instalação de um lugar para atracagem de cadeiras de rodas em todos os aviões (responsável afirmará: «Para além de ser positivo para a nossa imagem, julgamos que é rentável e evita que as assistentes de bordo tenham que andar todos os dias com o ministro das finanças ao colo»).

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Respiração assistida

por Pedro Correia, em 21.02.15

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A economia grega ganhou ontem, in extremis, quatro meses suplementares de respiração assistida, quando se torna bem evidente que não consegue recapitalizar-se nos mercados financeiros.


Neste processo, que tem dominado as manchetes no continente, várias promessas eleitorais do Syriza já ficaram pelo caminho:
- Fim do programa de assistência externa;

- Conferência europeia para a supressão parcial da dívida;

- Obtenção de ajuda financeira sem contrapartida em austeridade;
- Dívida remanescente indexada à taxa do crescimento económico;
- Moratória para o serviço da dívida;
- Reposição do salário mínimo;
- Electricidade grátis para 300 mil famílias;
- Aumento do investimento público em 4 mil milhões de euros;
- Exigência à Alemanha do pagamento de indemnizações de guerra.

Tudo isto decorre num cenário de rápida deterioração do sistema financeiro helénico.

Desde Dezembro, voaram dos bancos gregos cerca de 25 mil milhões de euros em depósitos. Só nos últimos dois dias foram levantados mil milhões de euros.
Confrontado com gravíssimos problemas de tesouraria e a quebra acentuada das receitas fiscais, sem acesso a vias de financiamento autónomo, o executivo de Atenas cedeu a todas as exigências da Alemanha apesar das bravatas para consumo propagandístico interno, replicadas pelos partidos congéneres que persistem em confundir desejos com a realidade.

E agora?

A Grécia tem um prazo de 72 horas para apresentar um plano de novas medidas de contenção financeira que deverá merecer o aval do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional. E terá que se reger pelo memorando assinado em 2012 pela antiga coligação governamental.

Os parceiros europeus não deixaram lugar a dúvidas: o ajustamento orçamental em Atenas é matéria inegociável.

Recapitulemos: o que dizia Alexis Tsipras antes das recentes legislativas, entre bravatas eleiçoeiras sobre "soberania nacional"?
Que com ele no governo os credores deixariam de ditar as regras.
Mas nada mudou de essencial.

Eis os factos.
Prejudicam a retórica ideológica dominante nos debates cá do burgo, é certo. Mas têm uma força imparável. Superior a toda a retórica, por mais torrencial que seja.

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'Destroikando' em miúdos

por José António Abreu, em 21.02.15

Quem ganhou? Acima de tudo, a Grécia perdeu. O governo aceitou quase todas as exigências e o país está hoje pior do que estava há três meses. Sobra a retórica imbatível de Varoufakis, o sexy e sincero, que conseguiu uma provável descida do objectivo para o excedente primário e que «a Troika» fosse substituída no léxico oficial por «as Instituições».

O acordo é para levar a sério? Sem sombra de dúvida, talvez. Para já, é preciso concluí-lo e para isso as medidas a apresentar pelo governo grego na próxima segunda-feira têm de ser credíveis (nada menos certo). Depois, ninguém estranhará se for desrespeitado nos meses seguintes, através da aplicação de medidas não previstas ou da recusa em corrigir eventuais desvios orçamentais. Hipótese mais divertida: não passar de um estratagema para ganhar tempo e preparar a saída do euro.

Porquê quatro meses e não seis? Porque em Julho e Agosto a Grécia tem de efectuar pagamentos de quase 7 mil milhões de euros e um bocadinho de pressão extra sobre Tsipras e Varoufakis só pode ajudar nas negociações para um novo plano de financiamento. Porque Portugal e Espanha têm eleições antes do fim do ano e convém ter o governo grego domesticado – ou a Grécia fora do euro – a tempo dos eleitores perceberem a inutilidade que é votar em Syrizas.

E por cá? Tem piada ver bloquistas a comemorar.

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A virtude da coerência

por José Maria Gui Pimentel, em 20.02.15

 Um amigo meu conta um episódio caricato ocorrido no primeiro dia de trabalho num fundo de investimento. À chegada, o novo chefe deu-lhe um conselho invulgar: “neste negócio, tu ou és vendedor ou comprador; quando optares por uma postura, mantém-te sempre nessa linha”.

Este adágio improvisado adapta-se a vários campos da vida e é especialmente válido numa sociedade que dá extremo valor à ‘coerência’, como um fim em si mesmo. No fundo, a receita é esta: é preferível defender um erro disfarçável do que rever uma posição assumida. Lembro-me, inevitavelmente, dos profusos elogios à coerência de Álvaro Cunhal, aquando da sua morte.

Ora, o Governo português parece ter incorporado integralmente esta táctica. Tendo abraçado, logo de início, e de corpo e alma, a narrativa germânica para explicar (e solucionar) a crise do euro, não mais a largou, mesmo quando a realidade justificava uma postura mais proactiva. E é essa mesma táctica – creio – que explica a postura exageradamente belicosa assumida pelo Governo em relação ao novo governo grego. Já era, de facto, tarde para voltar atrás, pelo que mais vale escolher uma equipa e esperar que esta ganhe – pensarão. E assim sucedem-se declarações: contra o Governo grego, a favor da posição alemã e – é aqui que a coerência começa a dar de si – até enjeitando a inesperada solidariedade do anterior presidente do Eurogrupo e actual presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker.

Sucede que a partida pode ser decisiva e, no caso de a equipa defendida pelo Governo se ver forçada a ceder de alguma forma, Passos Coelho terá bastante dificuldade durante a campanha eleitoral em explicar a postura assumida. Seja como for, a táctica não é, de facto, despropositada: dificilmente o Governo ganharia alguma coisa – qualquer que fosse o desfecho – se tivesse revisto a sua posição no início da telenovela grega ou se, num meio termo, tivesse optado por uma posição neutra. Esperemos pelo final do jogo.

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A Europa rendida ao medo (10)

por Pedro Correia, em 16.02.15

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O tradicional corso carnavalesco em Braunschweig foi anulado pela polícia alemã, hora e meia antes da hora prevista, por fortes suspeitas de um ataque terrorista de matriz islâmica. Em 2014 o Carnaval nesta cidade da Baixa Saxónia atraiu mais de 250 mil visitantes.

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Penso rápido (64)

por Pedro Correia, em 13.02.15

Já li mil textos a profetizar o desmembramento da União Europeia e a derrocada do euro. Enquanto esses textos se sucediam a um ritmo imparável, a União Europeia alargava-se continuamente (passando de 12 países em 1986 para os 28 actuais). A mais recente adesão foi a da Croácia, em 2013. E o euro ia conquistando terreno: já nesta segunda década do século XXI passou a circular oficialmente nos estados bálticos (Estónia, Letónia, Lituânia).
Nenhum estado-membro, por decisão soberana, decidiu abandonar a UE. Pelo contrário, quase metade dos países comunitários (13 em 28) aderiu de 2004 para cá. E vários outros já bateram à porta, aguardando resposta favorável: Turquia, Montenegro, Macedónia, Islândia, Albânia e Sérvia.
Nenhum deles, vá-se lá saber porquê, deu ouvidos aos profetas da desgraça.

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Metamorfose da revolução

por José António Abreu, em 13.02.15

Agora foi a surpresa, os trabalhadores não apareceram na rua de punho ao alto para esmagar a reacção. As 200 famílias, quando não estão em tribunal por qualquer vigarice comum, continuam em casa. A doença infantil do esquerdismo acabou por se instalar no Governo da Grécia e viaja por aí freneticamente de avião. E a grande força do progresso passou agora a ser o imenso proletariado do funcionalismo e dos subsídios do Estado. O manifesto obrigatório da “inteligência”, assinado pelas luminárias do costume, é dirigido ao pobre dr. Passos Coelho, que certamente ficou atarantado com a sua súbita importância histórica. De resto, por razões que se compreendem, nem Sartre, nem Beauvoir se deram ao trabalho de ir deixar uma frase em Atenas, coisa que não nos faltou em Lisboa.

Não interessa. Nada disto diminui o Syriza, porque o Syriza encenou a sua erupção na consciência das massas para o tempo da televisão e da Internet; e aí foi, reconheçamos, magistral. A ideia de não pôr gravata não ocorreria a Lenine. O nacionalismo e o justo ódio aos mercados do capital oligárquico e especulativo não se vêem e não ganham com a alta definição o Facebook ou o Twitter. Em contrapartida, o couro preto não engana ninguém e não há ninguém que não conheça a sua ilustre linhagem: os comissários do Exército Vermelho, os generais do Führer, os super-homens da SS. O couro preto e o pormenor moderno da fralda de fora indicam agressivamente o macho Alfa, a sua virilidade e a sua vontade de domínio. Características que, se não comovem a sra. Merkel, intimidam os burocratas da economia e arrasam as feministas de serviço. A velha Europa precisava desta metamorfose da revolução.

Parte da coluna de Vasco Pulido Valente, hoje no Público.

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A Europa rendida ao medo (9)

por Pedro Correia, em 12.02.15

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A exibição de L' Apôtre [O Apóstolo], da cineasta Chéyenne Carron, foi adiada em algumas salas francesas, a pedido das autoridades, para evitar "riscos de ataques". Motivo? A comunidade islâmica poderia sentir-se "provocada" pelo filme, centrado num jovem muçulmano francês convertido ao cristianismo.

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O mercado interno, o euro e os encantos do passado

por José António Abreu, em 12.02.15

Resumindo, não é possível um mercado interno com união aduaneira, a funcionar correctamente – e durante muito tempo –, num ambiente de distintas moedas. Não é possível na União e não foi nunca em parte alguma do Mundo. É bom que os detractores do euro pensem nisso quando pensam nisso: sem moeda única, não há mercado interno.

[...]

Duas coisas me irritam, confesso, nos cépticos do euro: a constante referência à soberania nacional e o apelo ao regresso ao tempo do escudo, quando o mel e o leite corriam abundantes pelas doces encostas pátrias, concedendo a todos o benefício do progresso e do bem-estar. Quanto à soberania, lamento, não sei do que falam: há quanto tempo não é Portugal verdadeiramente soberano nas matérias que transferiu para a União e cuja recuperação formal não serviria de qualquer modo para nada? Num Mundo global, países da nossa dimensão e com os nossos recursos têm pouca soberania – sustento aliás que Portugal ganha soberania na condição de membro da União. Quanto ao argumento do passado, de um tempo em que um escudo pujante nos garantia um lugar cimeiro entre as nações ricas do Mundo: quando foi isso? Portugal tinha em 1985, ano anterior à adesão, um PIB per capita pouco superior a 50% da média comunitária, tendo crescido desde então acima dos 70%. Querem comparar o país com escudo com o Portugal de hoje? Era melhor em quê? Havia desemprego, inflação, juros altos, salários em atraso. Melhor em quê? E ao que voltaremos no dia em que, recuperado o amado (e não assim tão velhinho) escudo, sucessivas desvalorizações empobrecerem o país como fizeram tantas vezes ao longo da nossa História, pondo-nos ainda mais longe dos tais países ricos que alegadamente nos exploram dentro da UE (coisa que não farão quando estivermos fora, claro – isto é uma ironia)?

[...]

E não sendo novidade, também é facto que está feita boa parte do caminho da integração, logo da resolução dos defeitos da concepção da zona euro. Como escreveu Alberto Gallo do Bank of Scotland, a zona euro está cada vez mais unida, com união bancária (ainda incompleta, é certo), união financeira (a meio caminho), união orçamental (a fazer-se) e até com a prometida compra de títulos da dívida soberana e sua mutualização (parcial, nos 20% assumidos pelo BCE do Quantitative Easing). Pediam solidariedade europeia? Pediam injecções de dinheiro “à americana”? Pediam a diminuição do preço do euro para beneficiar os deficitários? Check, check, check. Quando a crise começou e sobretudo a partir daquilo a que chamo o tempo dos resgates (2011), nada do que desde então se fez era previsível. Muitos eurocépticos (contra o euro, pelo menos), previram então a saída da Grécia – e de Portugal – e a desagregação iminente da zona euro e da própria União. Já lá vão 4 anos, eles continuaram a prevê-la a cada sinal de crise, muito mudou mas a união não se desagregou. A Europa, quer queiram quer não, está unida. A Alemanha, tão e sempre odiada e apontada como responsável pela crise, continua a ser o travão contra os excessos e as euforias induzidas pelos Syrizas do dia, ainda que continue a ceder sempre que é preciso – sempre que a Europa precisa.

 

Paulo de Almeida Sande, no Observador. Há muito mais no artigo, sobre passado, presente e eventual futuro. O risco não abordado - com potencial para tornar excessivo o optimismo revelado no final do texto - é que os populismos destruam um processo forçosamente lento, pela necessidade de efectuar reformas difíceis em alguns países (que lhes permitam não constituir um peso excessivo e permanente) e de levar outros a aceitar uma progressiva união fiscal e orçamental (através de um orçamento comunitário reforçado, por exemplo).

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embrulha

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.02.15

0013.jpg(foto Reuters, via Expresso)

 - "Competentes e inteligentes". Então, pá, emudeceste? Que cara é essa? Confessa lá que não estavas à espera desta saída de madame Lagarde?

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Penso rápido (63)

por Pedro Correia, em 11.02.15

A opinião pública alemã foi no início fortemente contrária à integração no euro. Os alemães orgulhavam-se do marco e pretendiam manter a divisa nacional. O sistema monetário europeu foi concebido pelo presidente Mitterrand para amarrar Berlim ao compromisso comunitário, pois receava que a Alemanha reunificada voltasse a ter uma voz plenamente autónoma numa Europa que progredia para Leste.
Este desígnio estratégico permanece em vigor. Digam o que disserem os quixotes de turno, a construção europeia não se fará sem a Alemanha e muito menos contra a Alemanha: eis uma evidência que fala por si. E ainda bem: graças a ela, pudemos disfrutar de sete décadas de paz na Europa.

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A primeira barricada do imobilismo

por José António Abreu, em 10.02.15

Sem as chamadas “reformas”, o dinheiro, só por si, nunca será mais do que um paliativo temporário, tal como os perdões de dívida, porque a economia da Grécia não é capaz de usar os recursos de outra maneira. Muito provavelmente, serviria apenas para aumentar as importações com origem na Alemanha, como já está a acontecer em Portugal. Ora, ao eleger o governo do Syriza e da extrema-direita, o eleitorado grego sinalizou que não quer adaptar a sua economia para funcionar dentro da zona Euro. É este o problema que não cabe na análise de Vítor Bento.

Neste ponto, chegámos ao maior erro da zona Euro, e que, esse sim, é o erro fatal: a ideia de que o enquadramento e a pressão externa bastariam para provocar mudanças na Grécia e em outros países, independentemente das configurações de forças políticas internas. Bem apertados, os gregos arranjar-se-iam para resolver o problema. Não se arranjaram. Pelo contrário: a pressão externa serviu apenas para fazer os partidos europeístas parecerem agentes de um castigo estrangeiro, e deu a bandeira da soberania aos populismos da extrema-esquerda e da extrema-direita. Mais: o enquadramento do Euro criou a expectativa de que, para preservar a união monetária, toda a UE acabaria por submeter-se ao Syriza, cujo despesismo pareceu assim credível aos eleitores gregos. Ironia da história: o Euro, que se julgava fosse o instrumento de transformação do sul, funciona agora como a primeira barricada do imobilismo.

Rui Ramos, no Observador. Convém ler o resto.

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Desperta, Europa

por Pedro Correia, em 06.02.15

Timothy Garton Ash no Guardian: «Este conflito armado [na Ucrânia] já provocou cerca de cinco mil mortos e mais de 500 mil desalojados. A Europa, preocupada com a Grécia e a zona euro, vai deixando outra Bósnia deflagrar à sua frente. Desperta, Europa. Se a História nos ensinou alguma coisa é que devemos travar Putin.»

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A Europa em implosão.

por Luís Menezes Leitão, em 06.02.15

O que se vê desta conferência de imprensa conjunta de Schäuble e Varoufakis parece muito claro: a Alemanha pretende permanecer irredutível em relação à Grécia, que trata como um mero estado vassalo. Não deixo de achar significativo que durante toda a conferência Schäuble tenha falado sempre em alemão, língua que Varoufakis não domina. Acho que a resposta de Varoufakis deveria ter sido falar por sua vez em grego, o que teria sido divertido ver Schäuble tentar seguir.

 

A única vez que Schäuble falou em inglês foi para dizer uma frase corriqueira: "We agree to disagree". Mas nem essa frase Varoufakis deixou passar: "We didn´t reach an agreement, it was never on the cards that we would, we didn't even agree to disagree from where I am standing". É difícil ser mais claro no sentido da divergência total entre os dois Ministros das Finanças. A continuarmos neste registo, e sendo já assumido por todos os países na Europa que o euro é propriedade dos alemães, parece claro que a Grécia vai ser expulsa do euro por indecente e má figura a muito curto prazo. O que não parece perturbar muito os gregos, um povo orgulhoso, que está farto de ser tratado desta maneira.

 

O problema é as questões geoestratégicas que esta situação provoca e que me parece que não estão a ser equacionadas. Outro dia, na fantástica série dinamarquesa Borgen, que passa na RTP2, uma personagem comentava que toda a Europa do Sul estava na bancarrota e que, para elidir esse facto óbvio, as troikas tinham mandado os países vender as suas empresas públicas a pataco, que imediatamente tinham sido compradas por chineses, o que constituía um enorme risco geoestratégico. A personagem acrescentava que daí a pouco em toda a Europa do Sul só se falaria mandarim.

 

A mesma questão pode-se colocar em relação à Rússia, que no entanto neste momento é muito mais perigosa que a China. Depois da disparatada estratégia europeia de apoiar o derrube do governo ucraniano por uma manifestação numa praça, a situação na Ucrânia evoluiu para uma guerra civil séria, sem que no entanto o governo ucraniano se mostre minimamente capaz de controlar os rebeldes russos. Depois de uma série de derrotas militares, o presidente ucraniano Poroshenko recebeu uma carinhosa visita de apoio de Merkel e de Hollande, tendo este último ameaçado que se poderia entrar em guerra total. Putin não se ficou e antes mesmo de receber estes dois, formulou um convite a Tsipras para visitar a Rússia. A Europa pode implodir de um momento para o outro e, como em 1914, os seus governantes parecem sonâmbulos que não vêem o que estão a fazer.

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texto roubado ao mural do facebook do autor

por Patrícia Reis, em 04.02.15

As Novas Cortinas de Ferro
Back to the Cold War

Tsipras espera que a promiscuidade do Syriza com a Rússia assuste Merkel. A chanceler cresceu na RDA e as ligações de um partido comunista a Moscovo podem despertar uma certa nostalgia.
A Grécia tem historial de causar tensões entre o ocidente e o leste. Foi assim no pós-Viena, na mesma década da Questão Oriental que viria a dar a Guerra da Crimeia em 1853. Os ortodoxos seduziram um czar conservador a patrocinar uma revolução, obrigando os ingleses a meter o nariz e um príncipe germânico a tomar conta.
Com a bipolaridade de final do século XX, os helénicos voltaram a obrigar o ocidente a intervir, face à influência soviética nos revolucionários de esquerda. Desta feita, os americanos em vez do Concerto Vienense.
Até quando podemos negar o reemergir da Guerra Fria?
O encontro de Alexis Tsipras com Putin, as suas posições contra as sanções económicas à invasão da Crimeia (a Crimeia outra vez...) e a sua aliança com os Gregos Independentes (a direita ortodoxa outra vez...) querem inverter o desequilíbrio comportamental de Bruxelas, que é mansa com os brutos e bruta com os mansos.
Tsipras está a dizer "Ou se deixam de coisas ou prefiro ser um satélite russo a um escravo europeu". Merkel andará descansada devido à fragilidade económica dos russos, mas num mundo que perdeu a sua bipolaridade será interessante ver como reage a China ao ver Atenas "à venda" e com vontade de mudar de senhoria e a reação dos EUA a tudo isto com um Presidente Republicano a caminho.
Gostava de saber onde é que o Sr. Fukuyama - que declara o "fim da história" quando ela se repete inevitavelmente - enfiou as ilhas de paz e o Sr. Coelho viu o conto de fadas.

 

Sebastião Bugalho, via FB, estudante, 19 anos

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A Europa rendida ao medo (8)

por Pedro Correia, em 04.02.15

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Uma  exposição sobre a censura através da história no centro cultural de Welkenraedt (Bélgica) foi encerrada "por precaução" 24 horas após abrir ao público. A exposição incluía um painel sobre o Charlie Hebdo e a censura religiosa contemporânea.

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A Europa rendida ao medo (7)

por Pedro Correia, em 02.02.15

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Um festival de cinema em Tournai (uma das capitais culturais da Bélgica) foi adiado devido a ameaças terroristas. Neste certame estava prevista a exibição do filme Timbuktu, produção franco-mauritana que tem como pano de fundo o extremismo islâmico.

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A Europa rendida ao medo (6)

por Pedro Correia, em 31.01.15

Alegoria ao Charlie Hebdo, com uma caneta no cano de uma arma, proibida no Carnaval em Colónia, contrariando planos iniciais. "Não queremos um carro alegórico que atrapalhe a atmosfera livre e descontraída do Carnaval", diz a comissão de festas.

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A Europa rendida ao medo (5)

por Pedro Correia, em 30.01.15

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Uma instalação artística "blasfema" foi removida de uma exposição nos arredores de Paris por receio de causar protestos violentos. Esta instalação, da franco-argelina Zoulikha Bouabdellah, exibia sapatos de salto alto sobre tapetes de oração islâmica.

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 Panos Kammenos e Alexis Tsipras

 

Nascido em 1974, Alexis Tsipras é filho do Maio de 68. Que consagrou esta palavra de ordem: «A imaginação ao poder: exige o impossível.»

Em Atenas, a imaginação chegou ao poder. Por via das urnas -- algo nunca antes acontecido -- e graças ao bónus de meia centena de deputados possibilitado por uma excêntrica lei eleitoral que transforma 99 lugares no parlamento em 149, uma federação de 12 partidos da esquerda radical acaba de formar governo com uma força política da direita xenófoba e eurofóbica. Numa bizarra simbiose de nacionalismo e populismo, em que o discurso contra o "estrangeiro" inflama as gargantas e os espíritos como fogo em palha. Distorcendo aliás a mensagem original do Maio de 68, que era internacionalista e manifestava um desdém absoluto pelo conceito de "soberania nacional".

Mas cumpre questionar: que soberania efectiva existe num país que mentiu aos seus parceiros sobre o volume real do défice das contas públicas, desbaratou milhares de milhões de euros em fundos estruturais lançados na maior "economia paralela" da União Europeia, detém ainda hoje o lamentável recorde de campeão europeu na fuga aos impostos e vive desde 2010 graças ao balão de oxigénio de 240 mil milhões de euros de auxílio de emergência destinado a travar in extremis a declaração de bancarrota?

 

Tendo chegado a imaginação ao poder, na insólita coligação de extremos simétricos protagonizada por Tsipras e Panos Kammenos, líder dos Gregos Independentes (ANEL), o novo chefe do executivo de Atenas trata agora de exigir o impossível: suprimir os compromissos estabelecidos com as entidades credoras. Cessam de imediato as privatizações em curso, o salário mínimo sobe 28% por decreto (passando de 586 para 751 euros), são readmitidos os funcionários públicos entretanto despedidos, estabelece-se um tecto de 12 mil euros de rendimento anual para isenção de imposto, suprimem-se as taxas moderadoras na saúde e lança-se um vasto pacote de medidas assistencialistas avaliado em 11,7 mil milhões de euros - ou seja, 6,5% do PIB helénico. O equivalente à soma dos depósitos que já voaram este mês dos bancos gregos.

Na prática, Atenas rasga o Tratado de Maastricht, que criou o sistema monetário europeu estabelecendo um conjunto de direitos e deveres aos estados signatários, e o Tratado Orçamental, que impõe limites à expansão do endividamento na UE. Lança assim novas achas na imensa fogueira da dívida pública grega ao prometer um pacote de gastos desmesurados com dinheiro que não tem. Exigindo o impossível com a sonora retórica da esquerda pura aliada à vibrante oratória da direita dura num país que representa menos de 2% do PIB comunitário.

«Os contribuintes da UE acabarão por pagar», consideram os arautos da nova coligação esquerdo-direitista de Atenas, unidos na aversão ao estrangeiro -- uma coligação contra naturam, que reúne todos os ingredientes indispensáveis para não funcionar. Porque congrega o pior dos dois hemisférios políticos numa mescla de bravatas populistas e ressentimento ideológico que ameaça acelerar o colapso das finanças públicas num país recém-saído de seis anos de recessão.

 

«Não sou ateniense nem grego, mas cidadão do mundo», ensinou Sócrates há 25 séculos. Este lema contraria o essencial da doutrina programática do novo executivo Tsipras-Kammenos, alicerçada no combate aos aliados externos transformados em inimigos para efeitos de propaganda política. Receio que, na atmosfera de irreprimível demagogia agora reinante em Atenas, sejam cada vez menos os que optem por seguir a sensata voz da sabedoria milenar.

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A aposta estúpida do PS e a aposta natural do BE

por José António Abreu, em 29.01.15

O desvelo dos socialistas nacionais para com a vitória do Syriza não configura apenas oportunismo mas também um erro monumental. Se a Grécia entrar em colapso ou tiver que recuar nas políticas anti-austeridade, nem os favores de que continua a gozar na comunicação social serão suficientes para disfarçar a perda de credibilidade de António Costa. (Ironia assinalável: a fuga de capitais dos bancos gregos mostra que existe por lá bastante gente menos crédula do que os socialistas portugueses.) Mas se o governo de Tsipras conseguir forçar uma mudança de rumo na União Europeia, então o PS tornar-se-á irrelevante porque outro partido apresenta uma relação com o Syriza e com as políticas que este defende muito mais antiga, forte e credível - e, ainda por cima, não está sobrecarregado com o peso da governação Sócrates nem com a imagem de abuso do poder para negócios pouco claros que hoje persegue os partidos do «arco governativo». O Bloco de Esquerda pode encontrar-se em processo de implosão mas, se o Syriza levar a Grécia a atingir aquilo a que Rui Ramos chama, muito adequadamente, «essa coisa curiosa: uma “independência” que depende inteiramente do dinheiro dos outros», até eu ponderarei seriamente votar nele.

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A Europa rendida ao medo (4)

por Pedro Correia, em 29.01.15

A BBC recusa utilizar a palavra "terrorista" em relação aos assassínios do Charlie Hebdo e outros actos criminosos por ser um termo "valorativo" que suscitaria dúvidas sobre a "imparcialidade" da estação entre autores e vítimas dos atentados.

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A Europa rendida ao medo (3)

por Pedro Correia, em 28.01.15

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Museu londrino Victoria & Albert retira da sua galeria on line um poster da autoria de um artista iraniano representando o profeta Maomé. "A imagem foi removida do nosso banco de dados por motivos de segurança", justifica uma porta-voz do museu.

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Baixando o nível

por José António Abreu, em 26.01.15

Nos tempos modernos, a Grécia nunca foi rica. Portugal também não e mesmo Espanha e Itália nunca conseguiram os níveis médios de rendimento e bem-estar de países como a Alemanha, a Áustria ou a Holanda. Os países do Sul (como, de resto, os seus 'discípulos' da América Latina) nunca perceberam as vantagens de manter contas públicas equilibradas. O exemplo português é elucidativo. Nos últimos séculos, os dois únicos períodos prolongados de crescimento deveram-se à acção de dois déspotas com preocupações de equilíbrio orçamental: o Marquês de Pombal e António de Oliveira Salazar. (O rendimento médio em Portugal era de cerca de 30% do rendimento médio europeu quando Salazar chegou ao poder e, apesar das medidas iniciais de austeridade, da guerra colonial e da filosofia de favorecimento de meia dúzia de grupos económicos, subira para mais de 50% no final do regime.) No Sul, a solução para os problemas passou invariavelmente pela desvalorização da moeda e subsequente inflação. Tome-se como exemplo o ano de 1981 (escolhido por ser o primeiro disponível para todos estes países nos Outlooks do FMI). A inflação nos sete países referidos foi de 21,2% (Portugal), 24,4 % (Grécia), 14,5% (Espanha), 19,5% (Itália), 6,3% (Alemanha), 6,8% (Áustria e Holanda). A separação de águas é demasiado notória para ser irrelevante (neste link podem ser comparados outros anos; a tendência mantém-se).

O euro fez com que, num primeiro momento, todos ganhassem: os países do Norte ficaram ainda mais competitivos e os países do Sul acederam a taxas de juro bastante mais favoráveis do que as suas economias recomendavam. Isto levou-os primeiro a níveis insensatos de investimento improdutivo e de endividamento e, depois, à inevitabilidade de corrigir abruptamente a trajectória (a austeridade é um efeito, não uma causa). Discute-se agora se é desejável atenuar – na verdade, eliminar – essa trajectória, perdoando dívidas e acabando com a austeridade. Para que tal suceda, será necessário assumir uma política em tudo contrária àquela que permitiu o enriquecimento dos países do Centro e Norte da Europa e em quase tudo idêntica à que nunca permitiu o enriquecimento dos países do Sul: aceitar os desequilíbrios em vez de os corrigir, emitir moeda, transferir fundos do Norte para o Sul (assumindo que é constitucionalmente possível). E o pior é que, permanecendo os países do Sul reticentes à aplicação de reformas que os possam tornar mais competitivos, nada permite considerar esta situação como temporária. Ou seja: quando o Syriza promete o fim da austeridade e o reforço das políticas públicas, está a fazê-lo às custas dos contribuintes alemães e holandeses e austríacos (e também portugueses e espanhóis e italianos mas estes têm razões para acreditar poderem sair beneficiados do processo) e nem sequer lhes permite a esperança de que dentro de poucos anos a economia grega consiga auto-sustentar-se. No fundo, a Grécia admite oficialmente desejar ser uma espécie de desempregado da Europa, recebendo o correspondente – e, tudo o indica, eterno – subsídio. Obviamente, caso tenha sucesso, outros lhe seguirão o exemplo.

De um inconsciente António Costa a uma bem consciente Marine Le Pen, muita gente ficou satisfeita com a vitória do Syriza. A curto prazo, ceder ao essencial das exigências de Tsipras e seus correligionários poderá permitir a sensação de que tudo melhora. A longo prazo, é um suicídio para a Europa.

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A Europa rendida ao medo (2)

por Pedro Correia, em 24.01.15

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O cartunista belga Philippe Geluck, talvez já farto de caricaturar Deus, apressa-se a jurar que jamais desenharia Maomé para não ferir a fé islâmica. Uma forma peculiar de homenagear os seus colegas do Charlie Hebdo, assassinados faz hoje 17 dias.

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A Europa rendida ao medo (1)

por Pedro Correia, em 23.01.15

Museu Hergé, na Bélgica, anula in extremis uma exposição de caricaturas satíricas que pretendiam homenagear o Charlie Hebdo com receio de represálias do terror islâmico. "O Museu não existe para atiçar o fogo", justifica o director da instituição.

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E que não me chamem xenófobo

por Pedro Correia, em 22.01.15

Se não estão satisfeitos por viverem num país liberal, podem emigrar e deixem-nos em paz.

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Quantitative (Un)Easing

por José António Abreu, em 19.01.15

Os analistas já estão, contudo, a tentar antecipar o nível de eficácia que esta medida, a confirma-se, terá. Alberto Gallo, economista do Royal Bank of Scotland, diz que “por si só, o programa Q.E. terá um impacto limitado”. “Produzirá um efeito através das exportações e da desvalorização da divisa mas não tanto através do efeito-riqueza ou do ponto de vista do investimento/consumo ou, ainda, da expansão do crédito”.

O próprio Mario Draghi, presidente do BCE, já reconheceu que a política monetária, por mais medidas que a instituição tome, não conseguirá, sozinha, acelerar a recuperação económica na zona euro. Em entrevista recente, Draghi disse que “são necessários mais progressos estruturais importantes – mercados de trabalho mais flexíveis, menos burocracia, impostos mais baixos”. O jornalista do Handelsblatt perguntou: “Pode ser um pouco mais específico, Sr. Presidente? Que países da zona euro precisam de fazer mais esforços?”. “Todos, respondeu.

De um artigo no Observador, sobre o programa de compra de dívida pública por parte do BCE.

 

Já se percebeu que vários países apenas implementarão reformas significativas quando forçados a isso. Ao aliviar a pressão, não apenas o quantitative easing falhará como terá efeitos contraproducentes. A Europa poderia perder os anéis mas salvar os dedos. Fechando os olhos à realidade (a conjuntura económica e demográfica das décadas pós-Segunda Guerra Mundial já não existe) e recusando ajustar o modelo de organização pública então criado (serviços, prestações sociais, burocracia, estruturas políticas) às disponibilidades do presente, acabará perdendo também alguns dedos.

 

P.S.: Neste contexto, que António Costa (com entusiástico apoio de Rui Rio) tenha decidido voltar a propor a implantação de mais um nível político-administrativo em Portugal só pode constituir prova de insanidade.

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Um dia histórico para a Europa

por Pedro Correia, em 11.01.15

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Le Figaro:

Rassemblement sans précédent a Paris, plus d'un million de personnes en province

 

The Guardian:

Huge crowds for Paris anti-terror rally

 

El País:

Una multitud emocionada desborda París

 

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Daily Telegraph:

The largest demonstration in French history

 

Libération:

Marche républicaine a Paris: une ampleur sans précédent

 

El Mundo:

París se alza contra el terror y por la libertad

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O Islão e a Europa (2)

por João André, em 10.01.15

O meu post anterior fazia referência às perspectivas sobre as causas do terrorismo ou à ausência de vontade para as compreender. Neste abordo outro aspecto: a percepção da "ameaça islamista" na Europa.

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Na minha opinião, um dos cartoons mais relevantes que foi publicado na sequência do ataque foi o que está acima. Porquê? Porque as reacções ocidentais (especialmente as europeias) irão no sentido de apontar dedos (quando não outras extremidades mais sinistras) aos muçulmanos. Não é difícil imaginar Marine Le Pen e outros da mesma laia a salivarem-se de antecipação. Estes ataques são para eles uma profecia que se cumpre: a Europa está a ficar islamizada e os muçulmanos não só não se integram como são altamente hostir aos valores ocidentais.

 

Só que não é assim, pelo menos acreditando neste gráfico da Al-Jazeera, perdão, do Economist. Aparentemente nem a Europa está a islamizar-se tanto quanto se pensa nem há assim tantos riscos quanto isso. Os independentistas parecem ser mais perigosos que os islamistas.

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Porque razão esta disparidade (se me permitem que tente reflectir)? Bom, parece simples: pelas mesmas razões que referi antes. É mais simples hostilizar alguém que parece ter diferenças fundamentais em relação a nós (religião, cultura, cor, hábitos alimentares, vestuário, etc) do que aqueles que parecem perfeitamente iguais, ao ponto de não se compreender os motivos da violência (compare-se a diferença entre um árabe e um europeu e a que existe entre um basco e um andaluz).

 

E é este o perigo do populismo: reduz os temas que lhe interessam às questões que lhes interessam. Na Alemanha o Pegida nasceu em zonas onde os muçulmanos estão menos presentes. Na Suíça foram aprovados referendos que não só nasciam de falsas questões (há pouquíssimos minaretes no país) como eram prejudiciais ao país (pelo menos se os governantes e a UE não encontrarem soluções intermédias). A única solução para este problema é acção civil e informação. Na Alemanha, por exemplo, as contra-manifestações têm tido enorme sucesso. Faltaria uma mentalidade semelhante noutros países. É por isso que este movimento é tão importante como o Je suis Charlie. De certa forma, é mais importante.

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O Islão e a Europa (1)

por João André, em 10.01.15

E pronto. Bastaram uns dias e a esquerda já tem culpas no cartório. Até me admirei isto não ter aparecido mais cedo. A esquerda são aqueles tipos que comem criancinhas (não muçulmanas) ao pequeno almoço e que cometem esse pecado incrível de querer compreender as causas dos actos de indivíduos. Que disparate. Como se atrevem? Deviam era exercer o seu "direito ao silêncio" (adoro esta expressão novolinguística). Nem vale a pena explicar porque razão tais comentários seriam em si mesmos uma tentativa camuflada de limitar aquilo que pretendem defender.

 

O princípio de quem ataca esse tipo de declarações parece ser simples: os atacantes eram terroristas com ódio à liberdade de expressão do jornal e cartoonistas pelas suas aparentes injúrias ao Islão. Porque razão o fizeram? Porque eram terroristas. Porque razão eram terroristas? Porque o fizeram. O argumento anda, mais ramificação menos ramificação em torno des lógica (sic).

 

A muita gente dá jeito manter uma imagem monstruosa dos atacantes. Não são verdadeiramente humanos, são monstros com noções de cultura completamente díspares das nossas. Deveríamos era construir muros/deportá-los/prendê-los/massacrá-los (riscar o que não interessa). Quem são eles? Pois... eles, os terroristas. São muçulmanos, não é? Esses. Pois.

 

A desumanização do outro lado é truque tão antigo como a humanidade. Essa desumanização pode ser feita pelo lado da cor, cultura, raça, religião, ideologia, idade, etc. É a melhor forma de garantir a hostilidade. Infelizmente é também falsamente execrável. Qualquer ataque às tentativas de entender os possíveis motivos dos terroristas/assassinos (não riscar nenhuma opção) é não só um mau serviço à liberdade que se pretende defender, é também altamente contraproducente. As teorias para explicar o racismo ideológico, o ódio religioso ou a rejeição cultural de um grupo ou indivíduos podem estar completamente erradas. Sousa Santos poderá estar a dizer disparates atrás de disparates. Só que isso não sucede por tentar explicar.

 

Infelizmente ainda domina um conceito estranho que parece defender que é possível ser-se inatamente racista (seja lá qual for a forma que o racismo assuma) e que impede a análise destas mentalidades. Infelizmente não o somos (as coisas seriam mais simples) e há sempre razões sociais e individuais para os actos como os desta semana em França. A melhor forma de impedir a sua repetição é precisamente compreender aquilo que lhes deu origem. Não estamos a desculpar os terroristas, estamos a tentar evitar que outros surjam. Não o fazer seria o mesmo que condenar o virús do ebola por ser mau e não tentar compreender como evitar novos surtos.

 

Como o Pedro escreveu, não somos todos Charlie. Evitei tais facilitismos no meu texto por isso mesmo. Somos humanos. E, por muito que muitos o queiram ignorar colocando a cabeça na areia, os terroristas também o eram. Por isso são perigosos.

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