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Alguma coisa deve recear o BCE para no início deste mês ter colocado no terreno toda a artilharia pesada. O objectivo das medidas (novo programa de injecção monetária no sector bancário e compra de activos titularizados, incluindo créditos ao sector imobiliário) é combater uma situação pré-deflacionária, em que a inflação subjacente para o conjunto da zona euro é de 0,9%, para situá-la em torno dos 2%. Mas confundir a inflação resultante de um desajustamento temporal dos factores de produção quando a economia cresce impulsionada por uma procura robusta, com a taumaturgia de que aumentando a massa monetária e desencadeando um processo inflacionário conseguiríamos espicaçar a procura, isso, lamento, é absurdo.

 

Mas o dislate é apenas aparente, porque as medidas monetaristas adoptadas em 4 de Setembro são apenas o álibi que permite a Draghi enviar a sua verdadeira mensagem: com estas medidas esgotámos todos os cartuchos de que dispomos e que são permitidos pelos estatutos do BCE para estimular a procura pela via monetária; a partir de agora toca aos políticos empreender as reformas necessárias para relançar a economia. Sem reformas estruturais profundas e corajosas as políticas monetárias por si só não nos tirarão do marasmo generalizado em que a UE se encontra. É necessária uma política concertada de reformas a nível europeu, com metas e mecanismos claros de implementação, para superar a presente situação de empobrecimento progressivo. Em Portugal fez-se alguma coisa, mas muito pouco. Qualquer tentativa de reforma esbarra na constituição ou provoca o levantamento dos "defensores" do Estado Social, quando é precisamente o imobilismo face às mudanças na sociedade e no mundo que o faz perigar.

 

Só um programa de reformas europeu poderá romper os escolhos de políticas nacionais de vistas curtas e populistas, mais interessadas em cortejar votantes que em sanear estruturas e mecanismos obsoletos. Um novo Pacto de Estabilidade e Crescimento. Uma concertação indispensável para cimentar solidamente uma prosperidade que nos permita continuar a pagar o Estado Social de que beneficiamos, que constitui um dos grandes feitos da Europa e é talvez, a par do humanismo, o nosso maior património.

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Uma boa notícia para a Europa

por Pedro Correia, em 19.09.14

 Foto Carol McCabe/Daily Telegraph

 

Os escoceses demonstraram a sua opinião sobre a fragmentação do Reino Unido, rejeitando-a num referendo em que participaram 84,5% dos cidadãos recenseados. Fizeram-no com indiscutível maturidade democrática. O Partido Nacional, embora derrotado nas urnas, obtém no entanto mais autonomia para a Escócia, o que é positivo e adequado à realidade.

Este processo -- como já tinha sublinhado aqui -- decorreu sem rupturas constitucionais, o que merece ser enaltecido. Todas as forças políticas conservam vias de diálogo e margem de progressão para fazer evoluir as suas teses. Porque um dos aspectos positivos nesta vitória do não é a possibilidade de fazer novos referendos. A vitória do sim seria sempre de sentido único: nunca mais haveria referendo algum.

Os nacionalismos que já ferviam de júbilo perante um possível triunfo das teses independentistas na Escócia vão arrefecer ligeiramente. E, de caminho, os seus arautos devem meditar nos motivos que levaram uma clara maioria dos eleitores a optar pelo não. Aliás valeria a pena fazer tal reflexão mesmo que o sim vencesse por curta margem.

Uma declaração de independência só faz sentido se estiver apoiada na vontade largamente maioritária do povo -- como sucedeu em Timor-Leste, por exemplo, no referendo de 1999. Num mundo globalizado, nenhum país é totalmente independente -- salvo, talvez, a Coreia do Norte. Em termos políticos, ou a independência é um projecto realmente colectivo -- disposto a enfrentar todos os riscos -- ou não é nada. Dite a aritmética das urnas o que ditar.

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Dois espectros percorrem neste momento a Europa: o do nacionalismo e o da demagogia populista. Quando ambos germinam de mãos dadas, estamos num quadro de tempestade perfeita.

É neste quadro que deve ser lida a pressão centrífuga em várias regiões europeias. Desde a que se desenrola na ponta dos fuzis, no extremo oriental da Ucrânia, até ao processo independentista em marcha acelerada na Catalunha, pronto a fragmentar o Estado espanhol.

Num mundo que se vai organizando em blocos regionais para enfrentar os desafios da globalização, a Europa caminha em passo trocado, separando-se em vez de se unir. Visto de outros continentes, aquele em que vivemos surge como um reduto cada vez mais frágil e bipolar, sedento de reavivar glórias passadas enquanto cede à permanente tentação da utopia.

O próximo teste sério à unidade europeia ocorrerá amanhã, quando os escoceses forem às urnas num referendo sobre o destino do Reino Unido que vai acendendo paixões políticas um pouco por toda a parte. Porque noutros povos europeus não falta quem pretenda trilhar a via da Escócia, rumo à independência.  

 

 

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Há que fazer um ponto prévio: este é um processo exemplar a vários títulos. Desde logo por ter cumprido todas as etapas legais, em consenso com o conjunto dos órgãos de soberania britânicos, sem rupturas constitucionais. Também é modelar pela moderação do Partido Nacionalista Escocês e do seu líder: Alex Salmond reivindica a independência, mantendo no entanto a Rainha Isabel II como Chefe do Estado e a libra como moeda, integrada numa hipotética “zona esterlina”.

Uma Escócia independente, embora sem cortar os laços financeiros com o Banco de Inglaterra e a City londrina, teria de sujeitar-se a um processo de adesão à União Europeia a partir do zero, sujeitando-se aos humores não só da classe dirigente britânica mas também de todas as capitais que receiam ver no precedente escocês o prenúncio de turbulências dentro das próprias fronteiras.

Está fora de causa a capacidade autonómica de uma Escócia sem amarras políticas com Londres. Os escoceses possuem 60% das reservas petrolíferas da União Europeia, com capacidade para produzir 24 mil milhões de barris nas próximas três décadas. E só a indústria do whisky gera quatro mil milhões de euros por ano em exportações. Mas os impostos aumentariam, tal como os custos de bens e serviços, e o investimento externo sofreria uma redução de dimensões imprevisíveis.

«Muitos de nós fazemos opções patrióticas no acto de comprar. Adquirimos salmão escocês ou carne escocesa em vez de salmão da Noruega ou carne da Irlanda, porque gostamos de apoiar a nossa economia. Mas se a Escócia se tornar um país estrangeiro, essa motivação desaparecerá», observa Robert Peston, editor de economia da BBC.

 

 

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Salmond pretende transformar a Escócia numa nova Noruega: este é o apelo mais tentador do nacionalista que sonha ver a bandeira com a cruz de Santo André em fundo azul hasteada em Edimburgo, como símbolo do novo Estado independente, a 24 de Março de 2016.

A decisão está nas mãos dos eleitores, incluindo 125 mil novos inscritos, com 16 e 17 anos, maioritariamente inclinados para a independência -- enquanto os mais velhos preferem manter o statu quo. Uns e outros decidirão amanhã prolongar ou interromper um ciclo histórico iniciado em 1603 com a agregação dos dois reinos (inglês e escocês) numa união dinástica sob a mesma coroa, envergada por Jaime VI da Escócia (Jaime I de Inglaterra), e prosseguido em 1707, quando ambos os parlamentos ratificaram o nascimento da orgulhosa Grã-Bretanha, hoje o 11º maior Estado da Europa.

«Trezentos anos de experiência comum, na guerra e na paz, em maus e bons tempos, serão atirados para o caixote de lixo da história – e para quê, exactamente? Para que os escoceses passem a ter assento no Conselho Europeu, ao lado da Eslovénia e da Eslováquia?», questionava há dias Simon Schama no Financial Times. Lembrando dois escoceses mundialmente conhecidos que também integram o património intelectual inglês: Adam Smith e David Hume. Ambos, admite este prestigiado colunista, votariam “não” à independência no referendo de amanhã.

 

 

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Julgo que essa acabará por ser a opção maioritária dos escoceses, contrariando a opinião de figuras mediáticas como o actor Sean Connery e a cantora Annie Lennox, e a tendência revelada nas mais recentes sondagens. Num mundo interdependente como o actual, isso representaria uma boa notícia para o conjunto da Europa. E uma péssima notícia para alguns incendiários que pretendem arvorar o nacionalismo radical como a novidade do momento em locais tão diferentes como a Flandres, a Córsega, a Padânia e o País Basco.

Parece novidade, mas não é: nenhuma bandeira ideológica é tão velha  e tão pervertida como esta.

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A decadência da Europa

por Rui Herbon, em 15.09.14

Há motivos para aceitar como algo inevitável que a Europa não recuperará das tensões provocadas pela crise e pelo extenso sentimento de que estamos no fim de um ciclo que deslocará em definitivo a centralidade do mundo para a Ásia e o Pacífico. Mas isso não vai ocorrer da maneira imediata. Arnold Toynbee estabeleceu a teoria cíclica das civilizações que nascem e morrem em companhia dos séculos que as vão sepultando. Mas as correntes de fundo que movem as culturas e os impérios não param abruptamente. 

 

Faz agora cem anos, em vésperas da Grande Guerra, Oswald Spengler concluiu a sua obra "A decadência do Ocidente", na qual expunha que as civilizações tinham ciclos de vida naturais e que o mundo ocidental havia chegado ao seu ocaso. Nas sociedades abertas e livres, a tendência para enegrecer o futuro é um recurso frequente que conduz ao pessimismo e a situações de medo colectivo. Já se sabe que o medo não é sobre o que vivemos ou sofremos, mas sobre as incertezas que os nossos presságios projectam. No Ocidente em geral, e na Europa em particular, onde o nível de vida continua a ser muito superior ao da média, parece que entrámos já, por antecipação, nesse espaço de grande sofrimento que pressagiamos. Mas o futuro reiventa-se permanentemente e todas as previsões para uma tão grande escala de tempo, espaço, economia, população, etc, são precipitadas. 

 

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 04.09.14

«As potências ocidentais não podem deixar de fazer tudo o que devem para impedir que a Ucrânia se torne pela força membro da União Euroasiática de Putin. A próxima cimeira da NATO é uma boa altura para se avaliar a decisão ocidental, que também é uma decisão portuguesa. Em 1976, o ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo de Mário Soares, José Medeiros Ferreira, explicou que a fronteira de segurança da democracia portuguesa era em Berlim. Talvez seja necessário repetir que a fronteira da segurança portuguesa é em Talin, Riga ou Vílnius, para pôr no devido lugar a santa aliança entre os nostálgicos dos velhos impérios.»

Carlos Gaspar, no Público

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Penso rápido (37)

por Pedro Correia, em 04.08.14

A União Europeia, um projecto visionário, está a ser confrontada com as suas contradições. Por toda a parte despontam ancestrais ódios étnicos e seculares disputas fronteiriças que pareciam adormecidas voltam à tona. O nacionalismo tornou-se moeda corrente. Países que eram referência absoluta de progresso, como a Dinamarca, voltam a fechar as fronteiras enquanto os partidos xenófobos ganham terreno eleitoral em cidades tão cosmopolitas como Londres, Helsínquia, Amesterdão, Viena e Marselha.

A crise subsequente ao colapso dos mercados financeiros, com os seus 27 milhões de desempregados, potenciou este cenário. Mas a maior crise -- que é de identidade, de projecto -- já vinha de trás.

A Conferência de Versalhes (1919) e a Conferência de Ialta (1945) estão na origem de muitos dos conflitos europeus: os mapas da maioria das nações do nosso continente foram várias vezes redesenhados, nomeadamente nessas cimeiras internacionais. Fronteiras étnicas, linguísticas, religiosas e até orográficas eram subitamente alteradas a regra e esquadro por decisores políticos situados a milhares de quilómetros de distância.

Como se quisessem apagar os vestígios da História. Esquecendo-se de que a História, mesmo quando parece adormecida, pode sempre regressar a galope. E mais veloz que nunca.

Passou há muito o tempo em que o "projecto europeu" se esgotava numa união comercial. O problema, percebe-se agora, foi o passo ter sido maior que a perna: construiu-se uma união monetária sem verdadeira união política.

Mas a União Europeia ou é uma verdadeira união política ou não será nada de substancial.

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100 anos (complemento)

por Rui Herbon, em 26.07.14

 

Complemento desde meu post, onde o livro e a autora são referenciados.

 

[Agradecimento à Irene Pimentel que me chamou a atenção para o vídeo no Facebook.]

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100 anos

por Rui Herbon, em 25.07.14

Há momentos na história dos povos em que se pisa o acelerador com tal intensidade que os dirigentes perdem o controlo dos acontecimentos. Por esta altura, há cem anos, as principais capitais da cultura europeia viviam acostumadas à paz. Os principais centros da modernidade internacional localizavam-se em Berlim, Viena, Paris e Munique. Na capital do império austro-húngaro conviviam Sigmund Freud, Ludwig Wittgenstein, Arnold Schönberg, Oskar Kokoschka, Arthur Schnitzler e tantos outros que passariam a formar parte da chamada Escola de Viena. Ali se travavam as lutas pelo inconsciente, os sonhos, a nova música, a nova arquitectura, a nova lógica e a nova moral que tanto influiriam na modernidade do século passado.

 

Conta Florian Illies, no seu desenho do que era a vida nestes centros de cultura e de poder no ano anterior ao do início da Grande Guerra, que nos primeiros meses de 1913, por um breve período de tempo, coincidiram em Viena Estaline, Hitler e Tito, os dois maiores tiranos do século XX e um dos piores ditadores. O primeiro estudava a questão das nacionalidades, num quarto de hóspedes, o segundo pintava aguarelas num albergue para homens, e o terceiro dava voltas pela estrada de circunvalação para testar a resistência dos automóveis nas curvas.

 

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Penso rápido (25)

por Pedro Correia, em 15.07.14

Os herdeiros políticos da França de Pétain crescem hoje à custa dos herdeiros da França do general De Gaulle.
O mesmo sucede quando os eleitores gregos favorecem com o seu voto a formação de uma bancada de 21 deputados neonazis no Parlamento de Atenas, estando ainda vivos milhares de cidadãos que ali testemunharam a criminosa invasão grega pelos esbirros de Hitler.
Marine Le Pen e os neonazis gregos são totalmente indiferentes às lições da História - nomeadamente ao cortejo de crimes cometidos pelos regimes que lhes servem de inspiração.
É de uso corrente responsabilizar as forças moderadas pelo crescimento das franjas extremistas. Esta é, no fundo, uma justificação que pouco explica. Já os teóricos nas décadas de 20 e 30 utilizavam argumentos equivalentes, responsabilizando as "democracias decadentes" para conferir alguma aura de "racionalidade" à marcha sobre Roma conduzida por Mussolini em 1922, ao golpe militar de Primo de Rivera na Espanha de 1923 ou à alucinante cavalgada de Hitler rumo ao poder totalitário em Berlim sobre os escombros da República de Weimar.
Sabendo o que hoje sabemos, temos o dever cívico de fortalecer as forças políticas moderadas. Só elas poderão enfrentar com sucesso uma nova vaga de demonização da democracia política com base nos tais conceitos de povo, pátria, nação ou classe que servem para inflamar as massas mas são a receita garantida para um desastre muito superior a qualquer das nossas dificuldades actuais.

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Perdidos no labirinto

por José Gomes André, em 20.06.14

O Partido Popular Europeu reuniu-se no Algarve para discutir “crescimento e emprego”, procurando anunciar um novo ciclo na política europeia. Após anos de austeridade, é altura de enviar uma mensagem de esperança aos deprimidos povos europeus, ainda que ninguém saiba qual a receita milagrosa capaz de reactivar o mercado europeu e dinamizar as débeis economias da periferia, já para não falar de problemas crónicos como a crise demográfica, a imigração ilegal ou o futuro da Segurança Social.

A verdadeira agenda dos conservadores deverá pois concentrar-se em desafios mais prementes. Um deles é saber como lidar com o novo mapa político da União Europeia, mais fragmentado do que nunca e habitado por um número crescente de nacionalistas xenófobos, eurocépticos tradicionais e esquerdistas radicais, cujas intenções são bem conhecidas: enfraquecer (ainda mais) o que resta do projecto europeu.

A eleição do próximo Presidente da Comissão Europeia adquire por isso grande preponderância. O PPE encontra-se porém num complexo labirinto, em parte por si gerado: prometeu que Juncker seria o escolhido caso vencesse as eleições, mas uma vez conhecido o resultado, regressou ao velho jogo de bastidores da política europeia, onde dominam os egos, os números de circo e a estrita defesa dos “interesses nacionais”. Como acaba esta história? Em mês de Mundial, provavelmente ao jeito do famoso ditado futebolístico dos anos 90: são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha – ou seja, a escolha de Merkel...

[publicado no Diário Económico]

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 08.06.14

 

«Estas coisas da União Eueopria podem ser vistas na sua semelhança com o funcionamento interno de um país.
Todos os países têm desequilíbrios económicos nas suas regiões. Umas mais industrializadas do que outras, umas que souberam retirar dividendos pelo turismo, pelos serviços, etc.
A Alemanha não é excepção, e o norte recebe muitas transferências de fundos pela zona mais produtiva a sul, tal como o leste ainda recebe do oeste.

As regiões só têm que ser economicamente equilibradas quando se querem completamente independentes. Com independência, essa região pode controlar os desequilíbrios naturais, usando mecanismos pouco liberais e mais proteccionistas, com restrições ou estímulos direccionados.
Por exemplo, em Portugal, ninguém espera que Trás-os-Montes tenha uma balança equilibrada, e ninguém no seu correcto juízo achará que os transmontanos tenham um defeito congénito ou cultural.

O processo de formação da união europeia teve esse carácter federalista, de aceitar regiões em diferente grau de desenvolvimento, e de patrocinar o fim dos seus equilíbrios económicos produtivos, estimulando o fim dessa produção independente, com a ideia de concentrar a produção no centro da Europa, mais em particular na França/Alemanha, onde já era dominante.

Assistimos assim ao fenómeno das zonas industriais, que em Portugal estão centradas na costa litoral de Lisboa ao Porto, e que na Europa estão na zona central, circundante aos Alpes.
Não passaria pela cabeça de ninguém fazer uma regionalização de Portugal e dizer que as zonas interiores tinham que se "amanhar" para serem economicamente equilibradas, e sem lhes dar sequer mecanismos de independência económica.

Pois bem, depois de promoverem essa ideia de federalização que destruiu sectores produtivos a sul, a UE mudou de ideias e fez justamente isso... disse que as regiões a sul tinham que ter contas certas, sem independência económica.

Ora isso é quase impossível de se conseguir, por se partir de bases desiguais.
Por muito queijo da Serra que se produzisse nas Beiras, não iria haver equilíbrio. E se os beirões se lembrassem de produzir a sua própria cerveja, apanhavam com a Unicer e a Centralcer em cima. Para evitar os desequilíbrios teria que haver um proteccionismo mínimo.

Nós pagamos a autonomia de Açores e Madeira, e ninguém deve ter problemas com isso. É assim que funciona uma economia ligada num objectivo comum.
Se Açores e Madeira se tornassem independentes arranjariam maneira de equilibrar as suas contas... mas não seria a deixar entrar os produtos do continente como se fossem os grandes amigos de antes. Não, teriam que colocar barreiras, sob pena de estarem sob constante défice.

Por isso se a UE quer brincar a esse jogo... só há uma resposta em bom português:
- Puta que os pariu!»

 

Do nosso leitor da Maia. A propósito deste texto do Rui Hebron.

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E agora, Europa?

por Rui Herbon, em 29.05.14

Em muitos países do mundo os seus cidadãos estariam muito contentes por poder participar em eleições livres, mas os europeus preferiram combater os diversos défices da União cedendo ao populismo que impulsiona a eurofobia e a abstenção; défices que incluem entre outras a falta de verdadeira democracia, a complexidade do sistema, a vergonhosa ausência de uma voz perante as crises internacionais ou a submissão ao cronómetro do mercado. A pobreza das campanhas também não ajudou: a construção europeia vende-se mal, sobretudo porque ninguém a encarna com a força de um ideal. E as sociedades atingidas pelo empobrecimento receiam a Europa: julgam-na responsável pela crise e consequentemente pelo desemprego, consideram-na fraca ou demasiado obediente ao sistema financeiro e pouco interessada nos destinos dos povos que a compõem.

 

Os resultados mostram que os movimentos radicais, xenófobos e/ou eurocépticos, assediam o projecto comum. Mas, por mais que durante os próximos cinco anos se dediquem a debilitar a UE ou a acabar com o euro, enfrentam uma tarefa de Sísifo, sem qualquer perspectiva de sucesso. É certo que o Parlamento ficará mais fragmentado, com os extremistas/populistas de esquerda e de direita a ganharem força. Mas pouco mais poderão fazer além de pronunciar os seus discursos inflamados, cuja retórica se dirigirá para contentar os eleitores dos seus países de origem, já que não terão capacidade para bloquear as funções da câmara nem desfazer a maranha tecnocrática da Europa e, em reposta, os partidos pró-europeus mover-se-ão de forma mais coesa.

 

O desafio mais iminente para evitar uma erosão da construção europeia é a maioria silenciosa: aqueles que por desconfiança e desencanto não quiseram votar. É a perigosa apatia de uma imensa maioria que parece dar por certo os muitos avanços económicos e sociais de que hoje gozam por existir uma união na Europa. Mas a paz, as viagens sem trâmites fronteiriços, trabalhar e estudar noutros estados, a moeda comum, o mercado único... a qualquer momento poderão perder-se. É preciso trabalhar por eles e defendê-los de forma permanente, sobretudo os líderes nacionais e europeus, que devem reagir reajustando as suas políticas: simplificando, democratizando e aproximando as instituições europeias dos cidadãos.

 

Apesar da crise e dos seus problemas e ineficiências, a UE é uma aposta na paz e um exemplo de construção política harmónica sem precedentes: 28 países, mais de 500 milhões de habitantes, 24 idiomas e um passado marcado por guerras terríveis. Continuamos a ter enormes privilégios à escala global graças a uma das aventuras políticas e humanas mais admiráveis do último meio século. Por isso para muitos europeus o grande ideal de um conjunto geográfico unido e em paz permanece de pé. Espero que destas eleições e da moldura institucional resultante saia uma Europa mais democrática e disposta a incluir os seus cidadãos, pois sem isso, como se viu, o projecto europeu comum poderá dar lugar a nacionalismos exacerbados e ao regresso a um passado que julgávamos definitivamente enterrado.

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Viva a Europa

por Rui Herbon, em 24.05.14

As eleições europeias transformaram-se na melhor oportunidade para os partidos extremistas: no caso do Reino Unido e França com claras hipóteses de terminar a corrida eleitoral na primeira posição, noutras nações europeias adquirindo uma indiscutível importância interna, e em todos eles perante a indiferença de uma grande parte da sociedade, que atingida por uma dura crise económica não se sente suficientemente interessada pelos assuntos europeus. Parece esquecido o entusiasmo dos europeístas que construíram as fundações da União para desterrar da Europa a dramática experiência de duas guerras, ou o fascínio dos primeiros passos para uma verdadeira união política, ou a esperança que o projecto europeu supôs para os países ex-comunistas. 

 

Não resta dúvida de que a crise tem muito que ver com o desânimo europeu, mas não é a única causa, nem sequer a mais profunda. A meu ver são duas as causas de longo alcance para entender o aturdimento dos cidadãos da União Europeia: o desaparecimento da política do processo de construção europeu e a dificuldade que os cidadãos dos diversos países têm – carregados que estão com uma poderosa simbologia sentimental de carácter nacional – para definir um âmbito afectivo e simbólico europeu comum.

 

Os dirigentes europeus, contagiados por um pós-modernismo ideológico, quiseram basear a construção europeia exclusivamente nos interesses dos diferentes países, esquecendo que as realidades políticas precisam de sonhos, esperanças, sentimentos; enfim, que tornem aceitáveis os desafios, os esforços e os sacrifícios. A política é a síntese do discurso com a acção, e quando falha um dos componentes tende a desvalorizar-se ou a desaparecer. O desaparecimento da acção em favor do discurso deixa-nos na inanidade, e o desaparecimento do discurso deixa-nos perante uma maquinaria que desumaniza o ser humano; e foi nisso que se converteu a arquitectura funcional da União Europeia, numa burocracia sem sentido nem sentimento.

 

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Em dia de reflexão

por Pedro Correia, em 24.05.14

 

Reflexões europeístas revisitadas:

 

1. A construção europeia é o único projecto de raiz utópica que trouxe prosperidade aos povos que dele beneficiaram enquanto lhes ampliava em simultâneo as fronteiras da liberdade no século XX, o mais sangrento e devastador de que há registo.

 

2. Um dos problemas da História é este mesmo: pode repetir-se a qualquer momento. Sobretudo quando as lições que nos vai deixando persistem em não ser escutadas.

 

3. Inflamar os nacionalismos é acender um rastilho de proporções impensáveis.

 

4. Não podemos fechar as fronteiras nem travar a torrente globalizadora.

 

5. O espaço europeu é inseparável da democracia política.

 

6. A União Europeia deve ampliar-se para lá do perímetro do continente europeu? E até onde?

 

7. A União Europeia pode ser construída sem europeus?

 

8. Ou haverá estado social dentro da Europa ou não haverá estado social de todo.

 

9. Em 1980 havia no espaço europeu mais 36 milhões de crianças do que reformados, hoje existem mais seis milhões de reformados do que crianças.

 

10. Em todas as etapas da construção europeia, nas últimas três décadas, os decisores políticos colocaram sempre os portugueses perante factos consumados.

 

11. É com a Europa que sairemos da crise - jamais contra a Europa.

 

12. A Europa hoje novamente desunida necessita de uma verdadeira refundação.

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Reflexões europeístas (12)

por Pedro Correia, em 23.05.14

 

Sem líderes à altura dos reptos dos nossos dias, com uma opinião pública egoísta colocada perante desafios quase intransponíveis, à mercê de diversos demagogos que inflamam as mentes com o veneno neonacionalista (que tem vários seguidores, à direita e à esquerda), a Europa hoje novamente desunida necessita de uma verdadeira refundação.

De baixo para cima, não de cima para baixo.

 

Há um erro recorrente que deve ser evitado a todo custo: a crescente cedência da soberania popular e democrática a um poder tecnocrático não sujeito ao escrutínio público. O caminho tem de ser o inverso: em vez de tornar ainda mais volumosas as estruturas burocráticas de Bruxelas, o processo de decisão deve ser devolvido aos políticos, respaldados no voto popular.

Parafraseando a célebre frase de Malraux sobre a religião no século XXI, a integração europeia ou caberá aos cidadãos europeus -- ou não será nada.

 

Eis a quadratura do círculo: com que políticos poderá o projecto europeu ser reconfigurado?

Faltam-nos estadistas equiparados aos "pais fundadores". Mas é precisamente ao exemplo destes visionários que precisamos de regressar. Para aprofundar os mecanismos democráticos, sem os quais a União Europeia está condenada a sucumbir. Para termos uma autêntica Europa dos cidadãos -- não a Europa dos tecnocratas, capazes de transformar o sonho da integração num insustentável pesadelo.

A Europa que esses pioneiros construíram deu certo, ao contrário desta. Porque o passo nunca foi então maior que a perna. Lamentavelmente, nenhum deles deixou verdadeiros discípulos entre os políticos actuais.

 

A melhor Europa é uma Europa mais integrada, sem qualquer abismo entre a vontade dos decisores políticos e a vontade dos povos.

Uma Europa que seja construída a partir de pequenas mas sólidas etapas e não em passadas largas, de "vanguardas" iluminadas que conduzem a inevitáveis recuos.

Uma Europa orgulhosa dos seus valores e do exemplar património imaterial edificado nas últimas seis décadas.

E também uma Europa muito consciente dos erros históricos cometidos. Para que não voltem a repetir-se com o seu cortejo de atrocidades.

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Reflexões europeístas (11)

por Pedro Correia, em 22.05.14

 Ulisses Cegando Polifemo, de William Turner (1829)

 

Em Portugal, indiferentes à realidade circundante, os mais diversos protagonistas ocupam a todo o momento os púlpitos mediáticos em pose e tom de salvadores da pátria: propõem medidas populistas destinadas por um lado a colher aplausos fáceis enquanto por outro agravam os riscos da execução orçamental e condicionam as nossas precárias finanças públicas prometendo cortar receitas e aumentar despesas. Exactamente ao contrário do que recomendaria a mais elementar prudência num país que foi sujeito a três intervenções externas de emergência em 38 anos de democracia constitucional.

Como se permanecêssemos mergulhados nos anos de ilusória prosperidade que conduziram à situação actual e a Europa, enquanto projecto de unidade económica e política, não estivesse hoje sob premente ameaça.

Não é preciso sequer ser um espectador diário de telejornais para se divisarem as nuvens negras a crescer no horizonte: antevê-se a prazo uma explosão de nacionalismos exacerbados, violência extremista, tensões xenófobas, pulsões autoritárias. Alguns indícios dessa tendência podem resultar já do escrutínio do próximo domingo.

 

Numa campanha onde ninguém discute a Europa -- quando há um ano não havia ninguém que não antevisse o "fim do euro" ou clamasse palavras de alerta sobre o "fim" da própria Europa -- apetece-me remar contra a corrente. Em defesa desta Europa -- mesmo descaracterizada, mesmo intranquila, mesmo vacilante. Porque a Europa, queiramos ou não, é cada vez mais importante nas vidas de todos nós.

É para a Europa que emigram muitos jovens portugueses.

É da Europa que chega a maior parte do investimento que nos é tão indispensável.

É com a Europa que asseguramos a esmagadora maioria das nossas trocas comerciais.

E é com a Europa que sairemos da crise - jamais contra a Europa.

 

As fronteiras europeias foram durante séculos as mais perigosas do globo. Jean Monnet, Robert Schuman, Alcide di Gasperi, Winston Churchill, Ernest Bevin, Paul-Henri Spaak e Konrad Adenauer -- além do presidente norte-americano Harry Truman, através do Plano Marshall -- contribuíram para diluir conflitos e limar arestas que pareciam insuperáveis, reiventando a Europa que emergiu das cinzas da guerra como um baluarte de cidadania, concórdia, progresso e esperança.

Vivemos numa expectativa tensa, num fugaz tempo de interlúdio. Um tempo em que os deuses morreram e Cristo ainda está por nascer, para usar uma magnífica metáfora de Marguerite Yourcenar -- património franco-belga, património da Europa, património do mundo sem fronteiras.

 

Contra o que apregoam os profetas da desgraça, que tentam dividir para reinar, tenhamos noção daquilo que nos une. A filosofia grega é património comum de cada europeu. Como o direito romano. E a Odisseia, de Homero, que inaugura a história da literatura. Da Vinci é património europeu. Como Mozart.

Não há rasto nem memória de tão rico e diverso património cultural em qualquer outro continente. É algo que nos honra. E deve suscitar-nos orgulho -- de Gdansk a Trieste, de Helsínquia a Lisboa.

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Reflexões europeístas (10)

por Pedro Correia, em 21.05.14

 

Na campanha em curso para a eleição de domingo, várias forças políticas defendem a saída, unilateral ou negociada, de Portugal do euro. Há mesmo um partido que apela ao regresso imediato ao escudo. As consequências? Depois logo se vê, confessa o cabeça-de-lista sem pruridos nem temores. Chegou a esta indigência o debate político entre nós.

E no entanto devo reconhecer a alguns economistas -- com destaque para João Ferreira do Amaral -- o mérito da coerência, do desassombro e da persistência ao pronunciarem-se contra a permanência portuguesa no euro.

É útil que este debate seja travado. Em todas as etapas da construção europeia, nas últimas três décadas, os decisores políticos colocaram sempre os portugueses perante factos consumados. Refiro-me, em especial, a Mário Soares, Cavaco Silva e António Guterres: nenhum pensou seriamente convocar um referendo sobre esta matéria, todos fizeram questão de colocar o País nos sucessivos "pelotões da frente". Ao contrário, por exemplo, do que fizeram os britânicos, que recusaram dissolver a libra no sistema monetário europeu e obedecer aos ditames do Banco Central Europeu.

 

Dito isto, e reiterando o mérito da discussão, considero absurda a tese que nos pretende reconduzir ao vetusto recanto "orgulhosamente só". Como se Portugal fosse a aldeia do Astérix. Mas sem a poção mágica.

Sem o euro, o impacto da crise dos últimos cinco anos tinha sido ainda mais duro - um facto que não é ignorado nas capitais do Velho Continente. O poder de atracção da UE ficou aliás bem patente no Verão passado: enquanto alguns profetizavam o pior para o destino europeu, a Croácia tornava-se o 28º estado membro da união, com adesão ao euro já prevista para 2017.

Vale a pena parar para pensar: quanto teríamos de pagar em escudos pelas dívidas que contraímos em euros?

Um hipotético regresso ao escudo, com a consequente desvalorização da moeda nacional, conduziria a falências em cadeia, à descapitalização das empresas, à fuga de capitais, ao aumento drástico da dívida pública, a uma inflação galopante, à quebra da coesão social, à radicalização abrupta da nossa vida política e a um empobrecimento dos portugueses em larga escala.

Não admira que o tal nostálgico do escudo tenha respondido com um "logo se vê" ao ser questionado sobre as consequências daquilo que defende...


Por mim, não tenho dúvidas: devemos continuar no euro - tal como farão os espanhóis, nossos principais parceiros comerciais. Mas de olhos bem abertos para este fenómeno imparável que é a globalização. Um fenómeno que nos forçará a reformar o Estado e a repensar as suas funções - não à escala nacional mas à escala continental.
A economia mundial, o livre comércio e a desregulamentação de muitas actividades outrora blindadas à luz dos parâmetros dos "estados nacionais", fazendo da Europa uma fortaleza inexpugnável, colocam-nos problemas novos todos os dias. Não adianta bradar contra eles: seria tão inútil como bradarmos contra a internet e a revolução operada no domínio das telecomunicações.

Além disso devemos pensar que a globalização tem sido uma onda libertadora para quatro quintos da Humanidade.
É a velha Europa que tem de adaptar-se. Não será o resto do mundo a adaptar-se à velha Europa.

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Déjà vu

por Teresa Ribeiro, em 21.05.14

Sei lá porquê, quando o Claude nos chamou geniais (geniais porque nos deixámos esfolar sem levantar cabelo? Geniais porque conseguimos sobreviver com uma média salarial abaixo do salário mínimo de alguns dos nossos parceiros da UE e apesar dos impostos pornográficos que nos cobram?) lembrei-me daquela frase com que outrora os franceses brindavam os tugas: "les portugais sont toujours gais".

 

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Reflexões europeístas (9)

por Pedro Correia, em 20.05.14
 
O apogeu do modelo social europeu alicerçou-se entre 1950 e 1980  em espectaculares taxas de crescimento económico e de produção industrial na Europa (na década de 60 o produto francês aumentou em média 5% por ano, enquanto em Portugal e Espanha crescia 6% e na Irlanda 4%, no mesmo período). E deveu-se também à contínua renovação de gerações face à elevada taxa de natalidade. E ao afluxo de matérias-primas baratas, oriundas dos mercados coloniais. E -- pormenor que convém não esquecer -- ocorreu antes do controlo do mercado internacional do petróleo pelas chamadas nações emergentes. E quando mais de dois mil milhões de pessoas -- residentes para além da cortina de ferro e da cortina de bambu ou nos países subdesenvolvidos -- permaneciam à margem do mercado globalizado do trabalho, incapazes portanto de concorrer com os trabalhadores deste lado do planeta.
Tudo isso acabou.
 
Vivemos hoje num mundo pós-colonial, caíram os diques no velho império comunista. A época é já outra.
O "progresso" não nos trouxe só a internet, a pílula do dia seguinte, a televisão por cabo e a easy jet. Trouxe a globalização também no domínio laboral: largas dezenas de países entraram nas últimas duas décadas em competição directa e acesa com a Europa, que deixou fatalmente de estar no centro do mundo.
Um modelo em crise numa Europa em crise? Certamente. Em meio século, o índice de fecundidade caiu quase para metade, de cerca de três filhos por casal em 1960 para 1,6 em 2013. Em 1980 havia no espaço europeu mais 36 milhões de crianças do que reformados, hoje existem mais seis milhões de reformados do que crianças. Com o número de contribuintes para a segurança social a cair e as despesas de saúde a aumentar num continente onde as pessoas com mais de 65 anos deverão ser 22,5% do total de habitantes já em 2025.
Não há sistema de segurança social que resista à implacável dureza desta demografia em declínio. Por algum motivo chamamos Velho Continente à Europa.

Eis-nos portanto num espaço crepuscular, onde cada vez menos cidadãos financiam o estado social, o que conduz fatalmente a uma escolha que é de natureza política mas não pode deixar de ser condicionada por parâmetros financeiros para além dos quadrantes ideológicos: haverá aumentos consecutivos da carga fiscal ou novos cortes nas prestações sociais?
O resto é quadratura do círculo. Ou cenários de alquimia.
Enquanto não descobrirmos petróleo temos de viver com as receitas que gerarmos. A menos que regressemos ao ciclo infernal da dívida & do défice que nos coloque de novo nas mãos dos prestamistas internacionais e nos reconduza a esta apagada e vil tristeza em que começamos por perder o respeito alheio e acabamos por perder também o respeito por nós próprios. Ficando assim à mercê do primeiro candidato a "homem providencial" que se apresentar em palco munido de impecáveis credenciais populistas. Sem um cavalo branco, como o do Sidónio. Mas a galope acelerado, ao ritmo a que a História dos nossos dias se processa.

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Reflexões europeístas (8)

por Pedro Correia, em 19.05.14

 

Algumas forças políticas, em alegada defesa do estado social, consideram que o problema é a Europa. Como se a solução estivesse fora da Europa. Mas não está. Porque a verdade é esta: ou haverá estado social dentro da Europa ou não haverá estado social de todo.

Convém não abusarmos da falta de memória: o estado social português só se generalizou e consolidou após a nossa adesão à Comunidade Económica Europeia. O modelo social europeu é, de resto, uma das grandes conquistas da segunda metade do século XX -- prenunciada na legislação sobre benefícios sociais decretada pelo chanceler alemão Otto von Bismarck ainda no século XIX, e na legislação do Governo da Frente Popular (1936-37) liderado por Léon Blum em França, que concedeu pela primeira vez subsídio de férias aos trabalhadores e reduziu a semana laboral para 40 horas.

Muitos dos que hoje falam desdenhosamente na Europa "dos mercados" esquecem o contributo desta mesma Europa para as conquistas civilizacionais no domínio social. Também neste domínio -- como no da liberdade política, da fruição cultural e na defesa das liberdades essenciais -- a Europa serve de exemplo ao mundo.

 

Portugal só tem hoje estado social porque abandonou as ilusões terceiromundistas do período revolucionário e tomou como referência a Europa. O nosso estado social beneficiou do financiamento europeu, por muito que os vendedores de ilusões pretendam agora convencer-nos do contrário.

De resto, quando hoje alguns se indignam contra os "recuos" sociais em curso, prestam uma homenagem involuntária à década e meia de apogeu do estado social português, que não por acaso coincidiu com o período de maior prosperidade de que guardamos memória - um período que correspondeu aos mandatos dos primeiros-ministros Cavaco Silva e António Guterres, entre 1986 e 2001.

 

O problema é que o estado social não existe no vácuo. Se alguma lição a crise que conduziu à intervenção financeira externa em Portugal entre 2011 e 2014 nos ensinou foi esta: o ajustamento orçamental é condição indispensável para um Estado assumir livremente opções de carácter político. Há que manter uma relação equilibrada entre as receitas que somos capazes de gerar e o nosso montante de despesa pública.

Desde logo perante esta realidade inelutável: os pensionistas do sistema geral e da Caixa Geral de Aposentações representam 40% da nossa população e Portugal gasta 26,4% da riqueza que produz em despesas sociais (acima de países como a Alemanha, a Holanda, o Reino Unido, a Hungria, a Polónia, a Grécia, a Noruega e o Luxemburgo, em termos percentuais).

Num país ainda marcado por graves assimetrias sociais, como o nosso, as desigualdades agravam-se num cenário de colapso das contas públicas -- que fatalmente lesam mais os pobres do que os ricos. É inútil, portanto, separar a economia das finanças. A economia só adquire real autonomia num quadro de finanças sustentáveis, com um sistema bancário capitalizado. Não há "escolhas políticas" num país falido.

O que, podendo ser dramático, tem pelo menos o mérito de clarificar o rumo a seguir.

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Reflexões europeístas (7)

por Pedro Correia, em 18.05.14

 

"Nós, europeus” – expressão que leio num dos principais cartazes de propaganda eleitoral na pré-campanha já em curso – significa exactamente o quê?

Que a condição europeia é uma espécie de estádio superior de cidadania? Ou que, pelo contrário, somos um sujeito sem predicado? Somos uma realidade geográfica, confinada às fronteiras históricas do Velho Continente? Nesta hipótese, significa isso que excluimos a Turquia – país maioritariamente asiático – do espaço europeu?

“Nós, europeus” significa que somos europeus antes de ser portugueses? Isso exclui-me a mim, que me sinto português antes de ser europeu? Excluimos os africanos, asiáticos e americanos que vivem em Portugal e até podem já votar nas eleições autárquicas? E não há portugueses africanos? E não há portugueses asiáticos? E não há portugueses americanos? Portugal, país de emigrantes, pode ser considerado apenas pela sua componente europeia, excluindo os portugueses que não se encaixam nesta dimensão? Portugal, país de imigrantes, pode ser considerado apenas pela sua componente europeia, excluindo os aqui radicados que não se encaixam nesta dimensão?

 

O facto de estas eleições se destinarem a eleger o novo elenco do Parlamento Europeu significa algo mais que isso? Que leitura política devemos fazer se a abstenção for gigantesca?

 

"Nós, europeus”, temos uma língua comum? “Nós, europeus”, temos um exército comum? “Nós, europeus”, temos um sistema político comum que nos torna simultaneamente concidadãos do senhor Nicolas Sarkozy, súbditos da senhora Elizabeth de Windsor e vassalos da burocracia de Bruxelas?

São “europeus” os valões que querem separar-se dos flamengos e os flamengos que querem separar-se dos valões na minúscula Bélgica?

São “europeus” os bascos nacionalistas que matam bascos que se sentem espanhóis?

Gibraltar é “europeia”? Olivença é “europeia”? As Ilhas Caimão são “Europa”? Guadalupe e Reunião são “Europa”? A Union Jack deixou de ser hasteada em Guernsey, terra do exílio de Victor Hugo, com a costa francesa ali defronte?

A União Europeia pode ser construída sem europeus?

"Nós, europeus” significa exactamente o quê?

 

A quantidade de perguntas que um simples cartaz pode suscitar.

 

Texto aqui publicado durante a campanha eleitoral de 2009 e que decidi reeditar

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Reflexões europeístas (6)

por Pedro Correia, em 17.05.14

 

Ignoro se haverá algum debate entre os candidatos dos diversos partidos à eleição do próximo dia 25. Mas se houver deixo aqui dez sugestões de temas europeus que justificam discussão.

 

1. A Turquia deve entrar na União Europeia? Antes ou depois de solucionada a questão de Chipre? Quanto custará a adesão turca a cada contribuinte português?

2. A União Monetária deve prosseguir? E em que moldes? Os efeitos da crise foram ou não agravados pela existência da moeda única? Portugal deve abandonar a zona euro?

3. O Pacto de Estabilidade e Crescimento deve ser revogado? Este pacto potenciou os efeitos da crise nos países da União Europeia?

4. Deve ser aprovada uma nova Agenda de Lisboa, que privilegie as políticas sociais e a criação de emprego?

5. Que política de imigração deve adoptar a União Europeia? Faz sentido reequacionar os critérios que levaram à adopção do Espaço Schengen?

6. Deve ser renovada a Aliança Transatlântica, pilar das relações entre a UE e os Estados Unidos? Faz sentido acelerar a criação de um exército europeu em prejuízo da cooperação militar com Washington?

7. A UE deve continuar a reger-se pelo princípio da intergovernabilidade ou privilegiar o reforço dos poderes efectivos do Parlamento Europeu?

8. Se parcelas dos actuais Estados membros declararem a independência -- na sequência de um referendo, como se anuncia na Escócia, ou de modo unilateral, como pode vir a suceder na Catalunha -- esses novos países receberão luz verde para se tornarem a curto prazo membros da UE? Que limites devem ser estabelecidos ao tradicional princípio da inviolabilidade das fronteiras?

9. Durão Barroso foi um bom presidente da Comissão Europeia? Em caso afirmativo, destacou-se em que domínios? Em caso negativo, qual o seu pior legado?

10. A União Europeia deve ampliar-se para lá do perímetro do continente europeu? E até onde?

 

Gostava de ver estes temas debatidos pelos cabeças-de-lista. Até para perceber se cada um deles tem um pensamento minimamente estruturado a propósito destas questões. Apostaria que não. Mas admito estar enganado.

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Reflexões europeístas (5)

por Pedro Correia, em 16.05.14

 Ruínas do Templo de Delfos, no Monte Parnaso (Grécia central)

 

A Europa, tal como foi imaginada pelos seus pais fundadores, é inseparável de um projecto de crescimento e desenvolvimento, tanto no plano económico como no plano social e cultural.

O balanço da integração europeia também deve fazer-se a este nível: que qualidade de vida têm os cidadãos da União Europeia em comparação com quem habita outros pedaços do mundo?

 

A resposta bem fundamentada a esta questão é demolidora para as teses eurocépticas. Porque o balanço é incomparavelmente positivo para o Velho Continente nestas quase seis décadas de integração europeia.

Desde logo porque o espaço europeu é inseparável da democracia política. Portugal, Espanha e Grécia apenas receberam luz verde para ingressar na Comunidade Económica Europeia após a queda dos respectivos regimes ditatoriais. A mesma lógica aplicou-se aos países da Europa de Leste, que só começaram a libertar-se das ditaduras comunistas a partir de 1989.

Ter a democracia como senha de identidade comum a todos os Estados-membros confere uma irrefutável autoridade moral à União Europeia. Este é um património inestimável, que não pode ser desperdiçado ao sabor de ventos conjunturais. E que deve ser continuamente valorizado, nas palavas e nos actos dos protagonistas políticos deste espaço civilizacional herdeiro da pedagogia filosófica da Grécia clássica e do primado da lei posto em prática na Roma antiga.

 

A democracia não se esgota no plano político: tem repercussões inevitáveis em todos os domínios da actividade humana. E também neste aspecto a Europa tem motivos de genuíno orgulho no confronto com qualquer dos restantes fragmentos do globo.

Em que outro recanto do planeta existe tanta liberdade de expressão?

Em que outro continente há tanta criatividade e fruição artística?

Em que parcela do vasto mundo habitada pela espécie humana existe tanta liberdade de imprensa e tanto pluralismo político?

Onde haverá menos desigualdade social do que na velha e tolerante Europa?

Nenhum outro continente propicia o aparecimento de tantos poetas, cientistas, pensadores, filósofos, inventores, arquitectos, engenheiros, ambientalistas, génios de todo o género, profetas de todos os matizes.

 

Este é um património único. Mas é também um património frágil. Compete a cada um de nós contribuir para a sua preservação, algo que não é tarefa sujeita a prazo ou calendário: é uma batalha de todos os dias.

Contra o discurso flagelatório proferido pelas sentinelas de turno das brigadas eurocépticas.

Contra os que semeiam ventos para colher tempestades.

Contra os arautos de novos paraísos, tão tentadores quanto inviáveis.

Contra os vendedores de utopias a granel, que prometem aos povos futuros patamares de sonho que redundam sempre em pesadelo.

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Reflexões europeístas (4)

por Pedro Correia, em 15.05.14

 

É impossível usufruirmos do melhor de dois mundos. Não há benefícios sem sacrifícios.

Do qual estamos afinal, nós, europeus, dispostos a abdicar?

Não podemos fechar as fronteiras nem travar a torrente globalizadora. Já não vivemos no tempo dos amplos mercados coloniais, nem das matérias-primas a desaguar na Europa a baixos preços, nem da natalidade elevadíssima, nem dos níveis de crescimento económico superiores a 5% que serviram de base a três décadas de contínua prosperidade, fazendo do nosso continente o que é, no período subsequente à II Guerra Mundial, e permitiram que o Estado-providência se tornasse no que se tornou.

Temos graves problemas estruturais numa zona euro sob ameaça de estagnação económica. Entretanto, outras parte do globo crescem: enfrentamos a concorrência imparável dos mercados emergentes.

O Plano Marshall, que entre 1948 e 1952 fez desaguar no Velho Continente uma quantia equivalente a 148 mil milhões de dólares (ao câmbio actual), em assistência técnica e económica, é irrepetível. E, se o não fosse, apontaria noutras direcções, hoje muito mais carenciadas. Porque a guerra na Europa terminou há 69 anos.

Imaginar que nada disto beliscaria as políticas de redistribuição e que o estado-providência permaneceria inalterado é acreditar que existe um pote de ouro no fim de cada arco-íris.

De que parcela deste Estado-providência estamos dispostos a abdicar?

Que nível fiscal estamos dispostos a suportar?

Aceitaremos a redução das pensões de reforma para adequar os pagamentos ao nível de contribuições existente quebrando um pacto intergeracional  devido às novas imposições da demografia?

Ou, em alternativa, deverão cada vez menos cidadãos suportar contribuições cada vez maiores? E estas perguntas não são retóricas. São cruciais. Iludi-las não nos conduzirá a lado nenhum. Ou antes: conduzirá ao progressivo definhamento da Europa, que vista de outras paragens se arrisca a parecer uma senhora parada no tempo, alimentando-se da difusa nostalgia de um passado que não regressa.

Uma espécie de Gloria Swanson em Sunset Boulevard.

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Reflexões europeístas (3)

por Pedro Correia, em 14.05.14

 

O que vemos por essa Europa fora?

A Ucrânia ameaça fragmentar-se sob fortíssima pressão russa depois da recente humilhação sofrida na Crimeia, anexada por tropas de Moscovo à margem do direito internacional. A Escócia avança para um referendo independentista, pronta a cortar os elos políticos com Londres. Húngaros e eslovacos esgrimem tensos argumentos dos dois lados da fronteira. A minoria húngara na Roménia reclama direitos que, segundo garante, não lhe são reconhecidos. O mesmo se passa com a minoria russa na Letónia. O exército turco desfila em parada para lembrar o dia em que esmagou os invasores de Atenas, conquistando-lhes a Trácia. Chipre é uma ilha dividida há 30 anos entre gregos e turcos, armados até aos dentes. Bascos e catalães estão em pré-ruptura com Madrid. Na Finlândia e na Lituânia, as recordações dos massacres soviéticos ainda ferem muitas sensibilidades. A Bélgica ameaça implodir a todo o momento, fragmentada por conflitos étnicos e linguísticos. Na Padânia aumentam as vozes dos que defendem um movimento secessionista destinado a amputar todo o norte da Itália. A Córsega persiste na luta contra o centralismo jacobino do Estado francês. A Transnítria, em pré-ruptura com a Moldávia, pode seguir os passos da Ossétia do Sul e da Abcásia em relação à Geórgia, privilegiando os laços políticos com Moscovo. Os Balcãs são um barril de pólvora temporariamente neutralizado. Na antiga Alemanha de Leste crescem os sentimentos xenófobos: os movimentos de extrema-direita atingem já mais de 20 por cento das simpatias dos eleitores jovens em certas cidades.

 

A Europa é uma construção política demasiado frágil para podermos adormecer confiados em sonhos de paz perpétua. Não nos iludamos: este continente em que vivemos mantém feridas mal cicatrizadas, fronteiras mal definidas, conflitos de toda a natureza que poderão reavivar-se a qualquer pretexto.

Inflamar os nacionalismos é acender um rastilho de proporções impensáveis. Que pode desde logo virar-se contra os seus autores, materiais ou espirituais. É esse, aliás, o destino de todos os aprendizes de feiticeiro.

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Reflexões europeístas (2)

por Pedro Correia, em 13.05.14

Dresden em ruínas (1945)

 

Se o euro sucumbisse, a Europa voltaria a mergulhar na guerra no prazo máximo de uma década.

É uma profecia arrepiante. Mas nem por isso deixou de ser escutada com máxima atenção pelos dirigentes da União Europeia. Foi feita em 2011 pelo então ministro polaco das Finanças, Jacek Rostowski, um homem que experimentou na pele o drama de uma Europa dividida: nasceu no Reino Unido, quando a família ali se encontrava refugiada na sequência da agressão conjunta ao seu país cometida por nazis e comunistas. A sua biografia pessoal conferia-lhe particular autoridade moral para lançar este aviso. Não esqueçamos que as duas guerras mundiais, ocorridas no último século, começaram precisamente na Europa. Quando a primeira começou, no dia 28 de Julho de 1914, ninguém acreditava que seria para durar. No final, quatro anos mais tarde, tinha deixado um macabro cortejo: pelo menos 35 milhões de vítimas.

O hipernacionalismo foi o maior vírus que desagregou o continente nesses dias tão trágicos. E o pior é que viria a desagregá-lo novamente vinte anos mais tarde. Dir-se-ia que temos a maior dificuldade em escutar os ecos que a História nos transmite, tantas vezes com o seu inapagável cortejo de horrores.

Recomendo, a propósito, a leitura das memórias de Stefan Zweig, O Mundo de Ontem: aquele período surge lá exemplarmente descrito. «Foi uma vaga que se abateu com tanta violência, tão subitamente sobre a humanidade que, ao cobrir de espuma a superfície, trouxe ao de cima as tendências obscuras do inconsciente e os instintos do animal humano -- aquilo a que Freud, numa visão profunda, deu o nome de "sentimento de aversão pela cultura", a necessidade de se romper uma vez com o mundo das leis e dos parágrafos e de se dar rédea solta aos instintos sanguinários primitivos», recorda o grande escritor austríaco.

Um dos problemas da História é este mesmo: pode repetir-se a qualquer momento. Sobretudo quando as lições que nos vai deixando persistem em não ser escutadas.

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Reflexões europeístas (1)

por Pedro Correia, em 12.05.14

 

Nos dias que correm, suscitam aplauso generalizado as opiniões destinadas a contestar a construção europeia. Estas opiniões convergem, à esquerda e à direita, num balanço muito negativo das décadas de edificação do desígnio traçado pelos grandes europeístas do pós-guerra: Monnet, Schuman, Churchill, Spaak, De Gasperi e Adenauer.

Em tempo de crise à escala continental, torna-se demasiado fácil apelar às emoções de quem viu traídas genuínas expectativas de enriquecimento e mobilidade social. O problema destes discursos populistas que apontam o dedo à Europa como fonte principal dos nossos problemas actuais é, desde logo, a falta de modelo alternativo: de nenhum deles resulta nada de mais consistente e promissor.

Mas a questão central, além da falta de modelo, é também a falta de memória. O discurso anti-europeísta -- dominante nos media que preferem registar os ecos de quem grita mais alto do que de quem não precisa de elevar a voz para ter razão -- não resiste a um teste de elementar conhecimento histórico. A construção europeia é o único projecto de raiz utópica que trouxe prosperidade aos povos que dele beneficiaram enquanto lhes ampliava em simultâneo as fronteiras da liberdade no século XX, o mais sangrento e devastador de que há registo. Escamotear este facto, mais do que comprovado, é inquinar à partida qualquer debate sério, desviando-o do imprescindível rigor factual.

Não adianta iludir a questão: devemos aos sucessivos patamares da edificação do chamado "sonho europeu" que desembocaram na actual União Europeia o mais longo período de paz e crescimento económico neste continente, transformado ao longo de seis décadas numa referência universal de progresso e civilidade. Com apenas 7% da população do globo, a Europa produz cerca de 25% da riqueza mundial e sustenta 50% das despesas de carácter social no planeta.

É inútil tornear esta evidência, por mais que isso perturbe todo o discurso anti-europeu estribado em argumentos de carácter populista hoje tão em voga, seja por respeitável convicção seja por detestável critério de mero cálculo eleitoral.

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Nós por cá, todos bem!

por Helena Sacadura Cabral, em 12.05.14



Quem se lembrasse, ontem, de abrir a televisão, perceberia que tinha começado qualquer coisa que entre nós se costuma apelidar de "campanha eleitoral". Claro que ninguém perceberia que se tratava das europeias...porque de Europa ninguém falava. Embora o ciclo infernal só tivesse início legal às 00:00h, o certo é que todos os partidos já se encontravam a antecipar o trabalhinho, com os líderes a marcarem presença nas respectivas caravanas.

Assim, Passos Coelho, em Macedo de Cavaleiros, lembrava o passado para que se não perdesse a memória da origem dos nossos problemas.

Já Seguro, em Vila Real, "confundia" os apoiantes dizendo que quanto mais votos o PS tiver, maior será a derrota do governo.

Em Grândola, Jerónimo, menos afectuoso do que é costume - confesso a minha simpatia pessoal por este homem - atirava-se ao perigo de um entendimento futuro entre o PS/PSD/CDS.

Mais estival, Catarina Martins, no Funchal, afirmava que a única alternativa para o país será a reestruturação da dívida.

Programas partidários face à Europa? Nem pensar. 

O que está em causa para Portugal nestas eleições? O que é que isso interessa face a um tempo de antena, gratuito, que tem de ser partidariamente aproveitado?

Que novo ciclo se pode iniciar na Europa? Quem é que fala disso?

Aqui está a previsão do que vão ser os próximos 15 dias. Trata-se, claro, da pré campanha para as legislativas, embora não sejam essas que estão em causa.

Por sanidade mental, qualquer médico aconselhará que se desligue o aparelho de tv. Vou pensar seriamente nisso. Ou, em alternativa, ver apenas canais de cozinha, que me tiram da crise. É que só assim poderei dizer, lembrando o Fernando Lopes, "Nós por cá, todos bem"!

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Os amigos escolhem-se

por Rui Herbon, em 30.04.14

Há um conflito na Ucrânia que ameaça a paz na Europa e, na passada segunda-feira, o presidente Putin abraçou o ex-chanceler alemão, Gerhard Schröder, que celebrava o seu septuagésimo aniversário em São Petersburgo. É uma bofetada na política externa alemã, um gesto que mancha a conduta de ex-governantes que vendem a sua influência por soldos muito suculentos. Os parentes não se escolhem, mas os amigos sim. Se o ex-governante quer celebrar o seu aniversário com o amigo Putin é livre de fazê-lo. Mas foi chanceler da Alemanha e sabe que esta acção terá uma interpretação política.

Schröder foi contratado pela russa Gazprom poucos meses após deixar a chancelaria. É o chairman da empresa que fornece boa parte da energia consumida pela Ucrânia, Alemanha e outros países da Europa central e de leste. Obteve o lugar pela sua condição de ex-chanceler que, incidentalmente, havia estabelecido as relações amistosas e contratuais com dita empresa.

Os seus correligionários social-democratas estão no governo com Merkel. Deixa-os numa posição muito delicada e podia, nesta ocasião, ter mantido algum distanciamento relativamente a Putin, que tenta alterar o direito internacional nas fronteiras ocidentais russas. Violou as regras do jogo com a anexação da Crimeia e impulsiona a brutalidade dos pró-russos da Ucrânia que pretendem repetir a estratégia na parte oriental do país.

Ninguém pretende um confronto aberto com Putin. Mas que um ex-chanceler europeu se preste a dar credibilidade à política expansionista do líder russo é de todo inaceitável. Schröder pode ganhar muito dinheiro mas perderá credibilidade entre os seus. O destino final dos políticos não pode ser tornarem-se milionários nem continuar a influenciar a vida pública como quando estavam no poder.

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Fronteiras humanas

por Rui Herbon, em 03.04.14

 

Há dias, um barco com mais de 400 imigrantes andava à deriva no mar de Creta. Nos cercados de Ceuta e Melilla centenas de subsarianos tentam alcançar território europeu, ainda que seja para serem confinados em centros de identificação e em seguida reenviados para os seus lugares de procedência. Os tártaros da Crimeia, cerca de 12% da população, vão organizar-se para não perderem a sua identidade e serem engolidos pelos russos. Em França expulsam-se milhares de romenos apesar de serem europeus, na Alemanha expulsar-se-ão os estrangeiros que não encontrem trabalho e David Cameron ameaçou expulsar os imigrantes que peçam esmola na rua.

 

Voltam as fronteiras imaginárias em função da nacionalidade ou da raça. Sopram ventos de xenofobia na Europa democrática, culta e, simultaneamente, receosa de tudo o que é estrangeiro. As eleições de domingo, em França, dão conta disso. A ocupação dos Sudetas e a anexação da Áustria pela Alemanha nos anos 30 foram perpetradas com esse tipo critério: defender "os nossos" onde quer que estejam e desprezar os outros mesmo que convivam normalmente connosco.

 

Este medo ao outro, aos bárbaros dos tempos da queda de Roma, é o nosso grande problema neste século. O inquietante não é que haja partidos de extrema-direita que consigam muitos votos; o preocupante é que a direita e esquerda também vão incorporando subtilmente estas ideias, que se traduzem em políticas.  Erguem-se muros e cercas de arame farpado e despreza-se o estrangeiro, se é pobre e foge da miséria claro.

 

É evidente que não podemos cair no extremismo de achar que a Europa pode acolher toda a gente, que migrações internas massivas não causam problemas na origem e no destino e que não existem indigentes profissionais e até redes de mendicantes, mas tratar este assunto como uma questão de nós e os outros (e este nós vai-se apertando, passando de continental a nacional e a regional) e usá-lo com fins políticos, acicatando instintos primários, é outra forma de extremismo. Há um meio termo, embora não haja soluções fáceis. E, caramba, o que nos distingue da barbárie não é o uso da força por quem pode, mas a defesa da dignidade da pessoa, sobretudo de quem não pode.

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Ucrânia: a irresponsabilidade europeia.

por Luís Menezes Leitão, em 27.03.14

 

Ao contrário do que sustenta o Pedro Correia, parece-me evidente, como aqui escrevi, que o comportamento da União Europeia na crise ucraniana foi de uma gigantesca irresponsabilidade, especialmente devido à excessiva influência alemã na Europa. Como é óbvio, tal não implica considerar que a Rússia não tenha sido agressora neste âmbito, mas quem conhecesse um mínimo de lógica geopolítica sabia que isso iria acontecer e poderia e deveria tê-lo evitado. É isso o que se faz todos os dias na arena internacional onde, por muito que gostássemos, as coisas não são a preto e branco, e todos sabem que não se pode alterar o status quo sem haver consequências, podendo as coisas ficar muito piores.

 

Kissinger referiu que, durante a presidência de Nixon, os EUA foram avisados pela URSS de que poderia haver um litígio com a China. Em linguagem diplomática, isso significa que preparavam uma guerra, tendo tido a imediata resposta de que os EUA não ficariam indiferentes perante um ataque à China, o que levou a que a guerra não tivesse ocorrido. Em 1990 Saddam Hussein perguntou à embaixadora dos EUA o que pensava de um litígio entre o Iraque e o Kuwait tendo tido como resposta de que os EUA não tinham opinião sobre litígios entre países árabes. Naturalmente que o Kuwait foi invadido e os EUA viram-se obrigados a travar uma guerra com muitos mais custos neste âmbito.

 

Hoje sabe-se que os EUA, depois da crise e com a presidência Obama, deixaram de estar disponíveis para ser o polícia do mundo. Sabe-se também que a dissolução da URSS criou um seriíssimo problema de populações russas espalhadas pelas antigas repúblicas soviéticas, cuja protecção foi assumida por Moscovo, e que têm vivido de forma mais ou menos autónoma em relação ao país onde estão. Quando em 2008 a Geórgia decidiu ocupar pela força as suas regiões da Ossétia do Sul e da Abkházia, de maioria russa, teve imediatamente uma invasão da Rússia, tendo ficado bem claro para todos que a Rússia não deixaria de agir em defesa das suas populações, estivessem elas onde estivessem. E argumentar que a maioria era outra antes das deportações da época soviética, como sucedia com os tártaros na Crimeia, é anunciar que pode haver novas deportações, agora de russos. Só que não é possível fazê-lo sem entrar em guerra com a Rússia, como esta já deixou bem claro.

 

Todos sabiam isto quando começou a crise ucraniana. Ora, Ianukovich podia ser um bandido, mas fora eleito democraticamente, com os votos das populações russas, podendo ter sido substituído nas eleições subsequentes. Apenas porque ele tomou a decisão de não assinar o acordo com a União Europeia, foi deposto num putsch à antiga, e substituído por um governo de extremistas, formado na Praça Maidan, que declarou ilegal o uso da língua russa no país. Como é óbvio, esta atitude poderia atirar a Ucrânia para a guerra civil, pois é claramente uma declaração de guerra aos russófonos, dizendo-lhe que os seus votos já não contam pois o governo passa a ser eleito na praça. Alguém imagina que as populações russas não reagiriam e que a Rússia ficaria quieta? Imagine-se o que teria sido se em Portugal em 1975 dissessem ao resto do país que os governos iam passar a ser formados por uma manifestação de extremistas no Terreiro do Paço. O norte do país não aceitaria e o leste da Ucrânia também hoje não o admite, como se vê por esta manifestação em Donetsk.

 

O bom senso implicaria que a União Europeia tivesse imediatamente dito que o novo governo não era reconhecido e que só assinaria o acordo de associação com um governo democraticamente eleito por todo o país. Foram a correr reconhecer o novo Governo, prometeram mundos e fundos aos novos governantes, e já assinaram o acordo, só que já não sabem com que Ucrânia. É por isso evidente que a actuação europeia foi de uma enorme irresponsabilidade. Se isso não desculpa a invasão russa, também não deve levar a que não se apurem as responsabilidades europeias por este desastre. Desastre de que ainda só vimos o princípio, pois parece-me que a procissão ainda vai no adro. 

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Alguém sabe como se diz Lebensraum em russo?

por Pedro Correia, em 02.03.14

O espaço vital russófono e russófilo, tal como é entendido por Vladimir Putin, faz evocar as piores recordações do século XX na Europa.

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Ucrânia também é Europa

por Pedro Correia, em 19.02.14

 

"Há um sonho que vos une, gente da Praça Maidan, e esse sonho é a Europa. Não aquela Europa cansada de si própria, que duvida da sua vocação e do seu sentido, mas uma Europa apaixonada, efervescente, heróica."

Da mensagem dirigida por Bernard-Henri Lévy aos manifestantes de Kiev, cidade em chamas

Foto Associated Press

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Paraísos de crescimento económico e justiça social

por José António Abreu, em 14.02.14

Argentina is once again at the centre of an emerging-market crisis. This one can be blamed on the incompetence of the president, Cristina Fernández, but she is merely the latest in a succession of economically illiterate populists, stretching back to Juan and Eva (Evita) Perón, and before. The Chilean and Uruguayans, the locals Argentines used to look down on, are now richer. Children from both those countries – and Brazil and Mexico too – do better in international education tests.

[…]

On Europe’s southern fringe, both government and business have avoided reality with Argentine disdain. Italy’s petulant demand that rating agencies should take into account its “cultural wealth”, instead of looking too closely at its dodgy government finances, sounded like Ms. Fernández. The European Union protects Spain or Greece from spiralling off into autarky. But what if the euro zone broke up?

The Economist, número saído hoje.

 

Nada que assuste os populistas de esquerda, tão activos como os de direita mas com muito melhor imprensa. Das duas, uma: como a Sra. Fernández e, um pouco mais a norte, o Sr. Maduro, não vêem os riscos ou estão mesmo convencidos (e iludidos) de que será possível forçar parte da Europa a cobrir-lhes a demagogia.

 

(Para que conste, no final de 2012 escrevi: Em 2013 continuará a discutir-se por cá a relação custo/benefício do euro. Na Argentina continuará a discutir-se a relação custo/benefício da inflação.)

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A excepção cultural

por jpt, em 24.09.13

Há alguns meses Durão Barroso comentou a posição francesa sobre a excepção cultural no seio da liberalização comercial. A reacção francesa foi iracunda e bastante desvalorizadora da Comissão Europeia, algo que vindo da pátria de Monnet e de Delors não deixou de ser surpreendente. Em Portugal li, logo, algumas céleres vozes criticando o dito de Durão Barroso. Claro, e para além do assunto, há que bater no homem. Por várias razões, uma das quais é esta esquizóide forma de xenofobia lusa, a de dizer mal de qualquer patrício mal ele tenha assomado além fronteiras. A barbárie barrosista foi logo proclamada, não só mas também pela intelectualidade bem-pensante. Na altura lembrei-me disto que se segue, mas não sabia onde estava, depois fui de férias e passou-me. Agora saltou da estante, esta delícia de Amselle, um belíssimo antropólogo francês ("Branchements", 2001, pp. 14-15).

 

"À cet égard, plutôt que de protester contre la domination américaine et de réclamer un état d'exception  culturelle assorti de quotas, il serait préfèrable de montrer en quoi la culture française contemporaine, son signifié, ne peut s'exprimer que dans un signifiant planétaire globalisé, celui de la culture américaine. Si celle-ci, à l'instar de la culture française au XVIIIe siècle, est devenue un opérateur d'universalisation, ainsi que le démontre le sens - France-États-Unis - dans lequel sont produits les remake, cela ne correspond pas pour autant à une situation d'aliénation ou de colonisation de l'esprit français par la puissance américaine, situation stigmatisée naguère par Étiemble à l'aide du vocable "franglais". Parler franglais, c'est peut-être, pour les Français, énoncer la vérité de leur culture, de même que, pour le groupe sarcellois Bisso na Bisso, se brancher sur le rap américain est le meilleur moyen de retrouver ses racines congolaises. Contrairement à ce que pensent les obsédés de la pureté des origines, la médiation est le chemin le plus court vers l'"authenticité" ... Par le biais du "samplage" (sampling) s'exprime l'originalité d'une culture dont on serait bien en peine de dire si elle est française, américaine ou africaine.

 

Talvez pouco interessante para muitos. Mas, e repito, uma delícia, principalmente quando recordo alguns indignistas, furibundos facebuquistas. Colegas, ou quase.

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Europa

por Teresa Ribeiro, em 23.09.13

Já foi uma ideia. Agora parece apenas um mau pretexto.

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Quando salvar os bancos é coisa boa

por José António Abreu, em 12.08.13

Existe há muito em Portugal a tendência para considerar que o dinheiro do Estado é inesgotável e que este apenas o recusa por maldade. Da exigência de cada vez mais serviços públicos (com consequente aumento de custos) à solicitação de apoios sempre que algo corre mal (cheias, incêndios, granizo, dificuldades financeiras de empresas públicas e privadas), os exemplos abundam. Ao tornar visível que o dinheiro do Estado sai do bolso dos contribuintes, a crise  abalou ligeiramente esta mentalidade mas não a eliminou. Longe disso. Ainda recentemente (um exemplo entre muitos possíveis) o bastonário da ordem dos médicos admitia que a situação financeira do Serviço Nacional de Saúde é preocupante mas acrescentava de imediato que tal não revela a existência de um problema no SNS, antes de um problema no país. Como se o país fosse uma realidade inteiramente separada das suas componentes. Como se fosse possível resolver problemas sem mexer na área em que eles ocorrem. Como se, aplicada a todos os sectores, tão brilhante conclusão não levasse a um (de resto, tradicional) completo imobilismo (em nada de específico se toca porque o problema não é específico), do qual resulta o irritante problema de saber quem no fim paga as contas (algo que não pareceu preocupar o bastonário porque, evidentemente, ele continua a acreditar que o dinheiro só não surge por má vontade). E a maioria das pessoas terá ouvido o bastonário e concordado se não com a interpretação altamente dissociativa que ele produziu pelo menos com a mensagem mais perceptível de que é preciso arranjar dinheiro para injectar no SNS.

Existe, todavia, uma área em que os portugueses parecem hoje incomodar-se a sério com a utilização de dinheiros públicos: o auxílio aos bancos. Aumentar impostos ou cortar salários e pensões para salvar os bancos? Inaceitável. Na verdade, nem tanto. Como se vê pelas reacções às soluções adoptadas em Espanha (o auxílio aos bancos não conta para o défice) e em Chipre (onde os maiores depositantes foram atingidos), bem como a várias notícias relacionadas com a união bancária, não é a ajuda aos bancos que incomoda os portugueses. Tendo mais ou menos percebido que o dinheiro público nacional lhes sai dos bolsos, os portugueses apenas passaram a desejar que outro dinheiro público resolva os problemas. O dinheiro público europeu, que, evidentemente, só não é inesgotável por má vontade de alguns povos (ou melhor: dos governantes de alguns povos). Com esse dinheiro, e entre muitas outras coisas, salvar os bancos não tem mal nenhum.

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Será praga?

por José António Abreu, em 16.07.13

República Checa, 2013. O presidente, Miloš Zeman, foi eleito em Março. No mês passado, o primeiro-ministro Petr Nečas (em checo deve soar melhor), líder de uma coligação de três partidos de centro-direita, demitiu-se, acusado de corrupção (para conseguir fazer passar uma lei, terá pedido a três deputados que abandonassem o parlamento em troca de lugares na administração pública). A coligação propôs o nome de Miroslava Němcová para o substituir. O presidente recusou. Na passada quarta-feira (o dia em que, a milhares de quilómetros de distância, Cavaco Silva resolveu salvar Portugal), nomeou Jiří Rusmok, seu velho colaborador (há cerca de uma década foi ministro das finanças quando Zeman era primeiro-ministro), para o cargo. Rusmok é de centro-esquerda. O seu governo está legalmente obrigado a vencer uma moção de confiança que terá de ser votada nos trinta dias subsequentes à nomeação. Se a perder, o mais certo é a coligação propor novamente ao presidente o nome de Miroslava Němcová. E Zeman vetá-lo mais uma vez. Após uma segunda moção de confiança derrotada, o presidente será forçado a aceitar o nome indicado pelo parlamento. Mas Zeman pode adiar a segunda nomeação (e, por conseguinte, a segunda votação) tanto tempo quanto desejar, fazendo com que Rusmok governe durante meses, eventualmente (parece ser esse o plano) até às eleições previstas para a Primavera de 2014.

Trata-se apenas de mais um indício, a juntar à questão húngara, ao crescimento de partidos cuja única ideologia é a contestação, e até às declarações de um ou outro sindicalista português com bigode à Estaline, de que os ventos de desrespeito pelo sistema parlamentar (e, por conseguinte, democrático) se espalham pela Europa. A menos que prefiramos adoptar uma perspectiva benigna e perguntar que estirpe de vírus anda por aí a atacar presidentes europeus (O Vírus das Quartas-Feiras dava o título de um filme, não dava?), levando-os a congeminar soluções de governo que vão contra a vontade dos seus parlamentos.

 

Foto (obtida através do site do The Economist): capa da revista checa Respekt, retratando o presidente Zeman como um imperador romano.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 16.06.13

«Se preservarmos os valores fundamentais dos nossos sistemas, se encontrarmos um bom compromisso entre o poder público e os mercados, se conservarmos os nossos valores criativos e intelectuais sem entregar a cultura apenas ao mercado, se mantivermos as nossas especificidades, porque a Europa é rica na sua diversidade, temos 20 anos para resolver esta questão [manutenção do essencial do modelo social europeu] com resolução e firmeza. Se não o fizermos, é possível que daqui a 20 anos ainda exista uma organização europeia fraca - uma loose confederation, como dizem os ingleses -, podemos continuar a celebrar a Europa, mas será a Europa do desemprego, dos museus, da nostalgia...»

Jacques Delors, em entrevista ao Público

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Acordar um dia

por Ana Vidal, em 30.05.13

Belíssimo e contundente, este texto de Nuno Camarneiro sobre uma Europa que é cada vez mais uma espécie de museu do mundo, cheia de preciosidades mortas e pó nas esquinas das salas, à espera de turistas que venham de lugares longínquos para admirá-las depressa e voltar para as suas terras onde se vive uma vida de vivos. A Europa está a morrer, orgulhosamente agarrada aos seus pergaminhos de rainha-mãe e sem perceber que eles hão-de ser a sua mortalha. Mas ainda tenho esperança de um dia poder votar moções de nuvem e eleger pássaros.

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Os sonâmbulos

por Luís Menezes Leitão, em 28.05.13

 

Acho que nunca uma capa do Economist teve uma imagem tão violenta como esta. Mas a seriedade da crise do euro justifica-a plenamente. Os líderes europeus parecem de facto um grupo de sonâmbulos caminhando para o abismo, insensíveis a tudo o que se passa à sua volta. Mas o mais chocante na imagem nem é o passo decidido dos que caminham à frente, liderados por Merkel e Draghi. O que mais me perturba é ver no canto direito Durão Barroso e Passos Coelho, irmanados e cabisbaixos, seguindo os líderes do grupo como cordeiros no caminho do suicídio.

 

Neste momento, a situação do nosso país é objecto de comentário à escala mundial, com Paul Krugman a dar Portugal como exemplo de um pesadelo económico-financeiro. Mas imagine-se o que perturba o nosso Ministro das Finanças? O facto de os jornalistas terem dirigido uma pergunta ao Presidente do Eurogrupo e não a ele. Efectivamente só pode ser de sonambulismo que estamos a falar.

 

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O fim do euro.

por Luís Menezes Leitão, em 12.05.13

 

Parece evidente que os países do Sul da Europa precisam de imprimir dinheiro como de pão para a boca, sem o que vão continuar com um sufoco absoluto nas suas economias. Os Estados Unidos da América têm aliás dado o exemplo, uma vez que não têm parado de imprimir dólares desde que começou a crise, e não se têm dado mal com isso, não sofrendo o dólar da mesma desconfiança com que o euro é encarado a nível internacional. A Câmara de Nápoles já assumiu a dianteira e decidiu criar uma moeda própria, o napo, que faz circular em complemento com o euro, aumentando assim a massa monetária em circulação na sua cidade. Ora, é manifesto que se a moda pega, haverá imensas cidades a repetir a mesma iniciativa, a começar por Lisboa, onde António Costa não se deverá esquecer de lançar o lisbo, uma vez que, como se vê pelo amontoar de lixo nas ruas, Lisboa quase parece gémea de Nápoles. A questão é que os alemães, com a sua obsessão pela disciplina orçamental, acharão que os latinos os estão a tomar por "napos", inventando este tipo de estratagemas. É por isso manifesto que o euro não tem salvação possível.

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O passado não regressa

por Pedro Correia, em 09.04.13

 

É impossível usufruirmos do melhor de dois mundos. Não há benefícios sem sacrifícios.

Do qual estamos afinal, nós, europeus, dispostos a abdicar?

Não podemos fechar as fronteiras nem travar a torrente globalizadora.
Já não vivemos no tempo dos amplos mercados coloniais, nem das matérias-primas a desaguar na Europa a baixos preços, nem da natalidade elevadíssima, nem dos níveis de crescimento económico superiores a 5% que fizeram do nosso continente o que é, nas três décadas posteriores ao pós-guerra, e permitiram que o Estado-providência se tornasse no que se tornou.

Temos graves problemas estruturais numa zona euro mergulhada em recessão. Enquanto outras parte do globo crescem.

O Plano Marshall é irrepetível. E, se o não fosse, apontaria noutras direcções. Porque a guerra na Europa terminou há 68 anos.


De que parcela deste Estado-providência estamos dispostos a abdicar?

Que nível fiscal estamos dispostos a suportar?

Aceitaremos a redução das pensões de reforma para adequar os pagamentos ao nível de contribuições existente quebrando um pacto intergeracional devido às novas imposições da demografia? Ou, em alternativa, deverão cada vez menos cidadãos suportar contribuições cada vez maiores?
E estas perguntas não são retóricas. São cruciais. Iludi-las não nos conduzirá a lado nenhum. Ou antes: conduzirá ao progressivo definhamento da Europa, que vista de outras paragens parece uma senhora parada no tempo, alimentando-se da difusa nostalgia de um passado que não regressa.

Uma espécie de Gloria Swanson em Sunset Boulevard.

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Salvando os bancos

por José António Abreu, em 02.04.13

Por que motivo, em comparação com o que sucedeu nos Estados Unidos, tão poucos bancos encerraram na Europa desde o início da crise financeira? Devem os bancos europeus continuar a ser salvos com dinheiro dos contribuintes ou deve a solução encontrada para Chipre ser alargada a outros países? Este artigo, na edição online em inglês da Der Spiegel, ajuda a perceber que não há respostas fáceis.

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Como sempre foi

por José Navarro de Andrade, em 27.03.13

Karl Theodore acumulava títulos, tanto como nos seus celeiros se amontoava o trigo, oiro da terra. Kurfürst Karl Theodor von der Pfalz e Kurfürst von Bayern, o que trocado por miúdos leigos e lusos dir-se-á Duque da Baviera e Grande Eleitor do Palatinado do Reno – um dos mais notáveis Príncipes-Eleitores do Sacro Império Romano.

De tanto potencial e poder resultou uma figura por demais dada às artes – patrono das de palco, das ornamentais e das filosóficas, famoso amigo de Voltaire – e a essoutras artes da caça, tanto da grossa do bosque como da fina e feminil de salão. Descreviam-no portanto como um diletante, sem vontade política, preguiçoso e egoísta, rodeado de bastardos, tão prolíficos que deles nem tinha vagar para decorar os nomes.

Em 1763 a pintora Anna Dorothea Therbusch, píncaro do Rococó germânico, e que esplêndido de volutas e panejamentos ele foi, talvez sem igual, fixou a imortalidade de Karl Theodore a óleo, preservado hoje no museu de Mannheim.

Vem este portento a propósito de uma comparação. 13 anos antes o preciso Thomas Gainsborough havia retratato Mr. and Mrs. Andrews. O casal encosta-se a um canto da tela para que a maior área pictórica registe a extensão dos seus domínios. O Cavalheiro confirma o seu poderio com espingarda e cão, símbolos do ócio senhorial, e para que não restassem dúvidas, encosta-se sobranceiramente com displicência e de perna traçada, ao cadeirão onde posa a sua hirta Senhora.

 

 Robert Andrews era parte da gentry rural inglesa, o que não coibiu seu pai de ter ampliado a fortuna com generosos juros de empréstimos financeiros e no comércio com as colónias, para o qual dispunha de uma frota naval. Em 1748 Robert desposou Frances Mary Carter que trouxe no dote as propriedades de Aubrey, à frente das quais ambos posam. O pai de Frances, também ele era um industrial têxtil que prudentemente converteria o capital em terras.

Duas Europas em contraste tão exposto que o podemos ver explicado em dois quadros. Uma Europa até hoje pouco alterada desde esta segunda metade do séc. XVIII, no dealbar do Iluminismo e das Revoluções .

E Portugal?

Portugal na mesma, como se pode atestar no pobríssimo retrato de D. Lourenço de Lencastre, Marquês de Minas e Conde do Prado pelo casamento, muita grandeza porém muito paroquial, oiros brasileiros mas benzeduras de vilão. Obra do sofrível Vieira Lusitano, a mão direita de Lourenço será igual à de Karl, a fazer um gesto que sublinha o óbvio poderio, mas na esquerda, em vez da arma de fogo em descanso blasée de Andrews, olhem-na toda pimpona de canos para o ar. Ao peito, nem os arminhos teutónicos ou a casaca mercantil do inglês; ao baú dos avoengos há-de ter ido vasculhar a armadura negra de pretéritos heroísmos, reclamados como seus por mera infusão sanguínea.

Já éramos tão poucochinhos naqueles dias.  

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