Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Os livros que fomos lendo

por Pedro Correia, em 15.10.13

 

Durante quatro meses, fomos aqui revelando as leituras que íamos fazendo, partilhando-as com os leitores. Chegou o momento do balanço desta série, desenrolada em 19 etapas.

 

O João Campos, a 6 de Junho, dava o pontapé de saída. Revelando qual era o seu livro de cabeceira: Consider Phlebas, de Iain M. Banks.

 

O José Gomes André, a 12 de Junho, falou-nos de um livro que acabara de ler: Fatherland, de Robert Harris.

 

O José Maria Gui Pimentel, a 21 de Junho, saltava da ficção científica para a História. Com a leitura da História de Portugal, de Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro e Rui Ramos.

 

O José Navarro de Andrade, a 27 de Junho, rumava à América Central com a leitura do romance El Señor Presidente, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias, galardoado com o Nobel.

 

O JPT, a 2 de Julho, dava-nos notícia d' A Maldição de Ondina, de António Cabrita -- radicado em Moçambique, tal como ele.

 

A Laura Ramos, a 10 de Julho, levantava o véu sobre o seu livro de cabeceira: Uma Vida Francesa, de Jean-Paul Dubois, "mestre no retrato da sociedade e da cidadania política".

 

A Leonor Barros, a 21 de Julho, ia lendo "com prazer" Mentiras & Diamantes, de José Rentes de Carvalho.

 

O Luís Menezes Leitão, a 24 de Julho, escreveu sobre as Memórias, de Humberto Delgado, publicadas originalmente em Londres, em 1964 -- meses antes de o "general sem medo" ter sido assassinado.

 

A Marta Spínola, a 29 de Julho, mencionou um dos livros que acabara de ler: Notas de Cozinha de Leonardo Da Vinci.

 

A Patrícia Reis, a 1 de Agosto, reafirmava que gosta de ler várias obras ao mesmo tempo: Os Antiquários, de Pablo de Santis, era uma delas.

 

A 5 de Agosto, foi a minha vez: aqui escrevi o que pensava sobre uma obra muito estimulante: De Gaulle, de Éric Roussel -- uma das minhas melhores leituras deste Verão.

 

A Teresa Ribeiro, a 9 de Agosto, trazia-nos aqui a sua perspectiva sobre Os Enamoramentos, de Javier Marías. Um escritor digno do Nobel, como garante Pedro Mexia, que revelou ter boa pontaria ao vaticinar a escolha de Alice Munro pelo júri de Estocolmo.

 

A Ana Cláudia Vicente, a 30 de Agosto, lamentava-se da falta de tempo para leituras. Mesmo assim ainda conseguiu ler O Coleccionador de Erva, de Francisco José Viegas.

 

A Ana Lima, a 8 de Setembro, falou-nos dos Contos Impopulares, de Agustina Bessa-Luís. Há sempre uma primeira vez para ler Agustina: chegou a vez dela.

 

A Ana Vidal, a 20 de Setembro, falou-nos de El Amor de mi Vida, de Rosa Montero. E foi tão convincente que eu corri a comprar o livro.

 

O Bandeira, a 28 de Setembro, trouxe-nos notícias de uma colectânea: The Collected Stories of Lydia Davis.

 

O Fernando Sousa, a 30 de Setembro, apresentou-nos Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Adichie.

 

A Ivone Mendes da Silva, a 4 de Outubro, lia A Ilha de Sukkwan, de David Vann.

 

E a série terminou ontem, 14 de Outubro, com o João André. Leitor da obra The German Genius, de Peter Watson.

 

.............................................................................................

 

Como ele bem disse, em breve haveremos de ter outra série colectiva. Conto dar-vos notícia dela a curto prazo. E de outra mais pessoal, sobre jornalismo e política, depois de ter conseguido arrumar a biblioteca.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (19)

por João André, em 14.10.13

Uma dos maiores falhas no ensino que sofri foi a nível de história. Recebi uma introdução à pré-história, algo sobre as civilizações da antiguidade (Suméria, Egipto, Grécia, Roma) e depois disso só voltei a aprender algo sobre história não portuguesa quando cheguei às guerras mundiais do século XX. Para a disciplina de história (pelo menos de quem estudou as ciências naturais na escola secundária), o resto do mundo ou pelo menos da Europa pouco interesse tinha. Desde então que vou tentando compensar as minhas enormes lacunas nessa área, especalmente levando em consideração que vivo no centro da Europa.

 

É nesse sentido que acabei por comprar este livro: The German Genius, de Peter Watson. No prefácio/introdução, o autor explica que se decidiu a escrever o livro dada a falta de conhecimento em Inglaterra acerca da História e Cultura alemãs exceptuando as duas Guerras Mundiais (especialmente a segunda). O objectivo é então falar acerca do que chama de terceiro Renascimento europeu (a seguir ao italiano e ao britânico e francês - essencialmente o iluminismo) e da influência que teve na cultura alemã e europeia. Deve ser notado que quando Watson fala da Alemanha, está essencialmente a referir-se ao espaço de língua alemã, que incluía a região que é hoje Alemanha mas também a Suíça, a Áustria (com um território bastante mais extenso nos séculos XVIII e XIX) e a partes do que é hoje Polónia, República Checa, Eslováquia, etc.

 

O livro lê-se a espaços muito bem, quando Watson escreve sobre os movimentos históricos, as reformas institucionais ou a mudança de paradigma que estas acarretaram. Quando entra em pormenores como filosofia, filologia, literatura ou outros semelhantes, confesso que me sinto de tempos a tempos perdido, por me faltarem bases mais sólidas nestas áreas do saber. Quando entra pela área da Biologia, Matemática, Física ou Química sinto-me mais à vontade para o seguir, mas também se nota que o autor tem mais dificuldade em explicar estas áreas e prefere referir a sua importância histórica em vez de se debruçar mais profundamente sobre a revolução que estes conceitos científicos acarretaram.

 

De uma forma geral o livro lê-se bem e dá uma excelente perspectiva sobre a influência que este Renascimento alemão teve sobre o mundo que temos hoje. Entre outros explica como foi fundada a nova universidade, com a integração do doutoramento como o entendemos hoje; as publicações científicas; as novas visões filosóficas do mundo e como influenciaram a sociedade alemã e, a espaços, a inglesa e americana; a forma alemã de ver a História, baseada nas relações entre sociedades e potências e menos debruçadas sobre o indivíduo ou pequenos grupos; etc.

 

Os principais defeitos são uma enervante tendência de cair em name dropping, onde certos nomes são dados, por vezes indicando que são importantes ou até mesmo acompanhados de uma curta biografia, mas sem grandes esclarecimentos sobre a sua importância. Outro defeito é uma tendência para engrandecer a influência alemã ou mesmo o esforço para demonstrar que foram alemães os primeiros autores de certos conceitos, em desfavor de outros nomes ou países europeus (franceses, ingleses e escoceses são frequentemente referidos como contribuindo com um conceito inicial mas pouco desenvolvido ou como receptores da sabedoria alemã).

 

Apesar de ainda não ter terminado o livro (na edição que estou a ler tem umas extensas 700 páginas), é já possível entender as origens de certas formas de pensar que noto no meu dia a dia em colegas alemães. The German Genius terá lacunas e defeitos, certamente, mas para um público genérico é um excelente ponto de partida para entender as origens daquele que será o mais importante estado europeu dos nossos tempos.

 

Quando terminar este livro, avançarei para um outro que se debruça também sobre um momento fundamental da história alemã, mas com repercussões muito mais extensas para toda a Europa: a Guerra dos Trinta Anos, no livro Europe's Tragedy, de Peter H. Wilson. Depois darei notícias.

 

Com este post terminamos a série O que estou a ler. Em breve teremos outras.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (18)

por Ivone Mendes da Silva, em 04.10.13

 

Não foi por esta ilha que comecei David Vann mas pela outra, a de Caribou. Prendi-me logo àquela escrita de mundo fechado e passado incessante a alagar o quotidiano dorido das personagens. E a paisagem. A paisagem impiedosa, também ela personagem e das agrestes. Ou alter-ego das personagens. Espelho, às vezes.

A ilha que leio é A ilha de Sukkwan, editada pela Ahab numa tradução de José Lima e há por lá um pai, Jim, e um filho, Roy, enclausurados em si mesmos. Jim já falhou demasiado e nem sempre falhou melhor, do trabalho ao amor. O desafio de passarem um ano juntos na ilha, longe do mundo, é um projecto de beatitude rapidamente transformada em frio, solidão, medo. Incapacidade. Ódio também. Roy, nos seus treze anos, é o menos frágil. Menos passado, menos peso a puxá-lo para o fundo, para a águas negras que Vann conhece como ninguém.

Eu sabia, porque li as críticas, que a dado momento uma reviravolta narrativa iria surpreender o leitor. Já lá cheguei. Grandioso. Evito aqui o fascinante porque é o raio de um adjectivo que não combina com o tom do texto.

Digo como se lê David Vann: a respirar de vez em quando. Depois fecha-se o livro, sorve-se uma grande golfada de ar e dizemos que já passou. 

 

 

E agora conta tu, João André. Que andas a ler?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (17)

por Fernando Sousa, em 30.09.13

 

Não sei quantas vezes interrompi um livro ou o pus de lado. De forma que esta nota teria mais cabimento numa rubrica como a do Pedro sobre livros deixados do que aqui. Mas foi o que acabou de acontecer com mais um da Mercè Rodoreda. A gente veste a roupa conforme o frio e talvez seja assim também com os livros e a disposição, isto para libertar desde já a autora de A Praça de Diamante, de qualquer culpa. Para ir ao ponto: deixei A Morte e a Primavera a meio, literalmente a meio, ainda sem saber como lá cheguei. O relato começou por me atrair, na Feira do Livro, pelos seus 3 euros e a meditação sobre os ciclos da vida, mas assim que me senti um freguês da sua aldeia desolada, tanto a cheirar a estrume como a glicínias, entre gente sem cara, cruel e comedora de cavalos, divertida a esmagar abelhas, dentro de uma atmosfera medievalizante e irreal, e de uma escrita obsessiva, comecei a torcer o nariz e a roer as unhas, e a sentir-me mal; e interrompi. Já me tinha acontecido isso com Quanta, quanta guerra e o seu herói, Adriá Guinart, que nunca a viu e tudo o que fez foi matar uma velha. Quem uma vez leu A Praça do Diamante quis com certeza ler mais alguma coisa de Rodoreda, cuja vida, a fugir de franquistas e nazis, justifica a densidade dramática da sua escrita, que se nos mete debaixo da pele, que inflama. Mas como disse precisamos de estar com a disposição certa, e eu não estava. [Ia fazer também um apontamentozinho sobre o Brumário, de Arménio Vieira, Prémio Camões de 2009, mas inibi-me]. Entretenho agora a alma com o Meio Sol Amarelo (ASA), da nigeriana Chimamanda Adichie. Já sei para onde me leva e ainda vou no cenário, nos sonhos revolucionários do senhor Odenigbo e nos amores das irmãs Olanna e Kainene; cheira-me a petróleo e a genocídio. Era muito miúdo quando o pivot da televisão anunciou que iam transmitir imagens susceptíveis de chocar as pessoas e mandaram-me para a cama. Terá sido aí por 1967. Ainda hoje vejo pela frincha da porta um ibo a ser fuzilado. Disse “ai, aiiii” – e caiu. Tenho-o nos ouvidos. Mas hoje já ninguém me manda para a cama.

 

E tu, Ivone? Que leituras andas a fazer?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (16)

por Bandeira, em 28.09.13

«The girl wrote a story. "But how much better it would be if you wrote a novel," said her mother. The girl built a dollhouse. "But how much better if it were a real house," her mother said. The girl made a small pillow for her father. "But wouldn't a quilt be more practical," said her mother. The girl dug a small hole in the garden. "But how much better if you dug a large hole," said her mother. The girl dug a large hole and went to sleep in it. "But how much better if you slept forever," said her mother.»


 

 

 

Manuel António Pina dizia que qualquer texto pode, no limite, ser reduzido a uma palavra apenas. A nova-iorquina Lydia Davis ainda não chegou a tanto (ou tão pouco), mas não por falta de tentar:


“It has been so long since she used a metaphor!”


Percebe-se melhor a opção de Lydia Davis pelo conto curto quando se conhece dois factos: 1) é preguiçosa, e 2) traduziu Proust. Mas nem todos os contos de Lydia Davis são tão curtos quanto o supracitado. Os maiores estendem-se por uma dúzia de páginas. Outros, sendo de facto curtos, apenas porque conhecem o porteiro entram na categoria de contos. Não há propriamente respeito pelas regras do género. 
Os personagens só excepcionalmente têm nome, ou por nome têm todo um programa (“Old Mother”, “the Grouch”). Os locais são de geografia incerta. O narrador, quase sempre uma mulher, pode ou não ser a autora (que sei eu), mas em muitos casos é impossível ignorar uma voz autobiográfica. E por sobre todos os textos, não importa o quão desconcertantes ou desesperados, adeja um sentido de humor apurado. Certo é que cada conto - ou o que se lhes chame – é como que um monobloco, uma entidade tão acabada e expurgada de elementos supérfluos que qualquer adição ou subtracção, parece-me, a tornaria uma coisa completamente outra.

 

“My mother's dream is that someday she will save enough money to leave me and live in the country.”

 

Eu queria ser mais crítico, escrever uma recensão digna do nome, falar em como o estilo cirúrgico de Lydia Davis contém e transforma, mas de todo anula, as emoções; fico com a sensação de que já escrevi palavras a mais quando o que queria dizer era tão-só "Leia Lydia". Ponto. E desculpe as citações em inglês, mas tenho apenas a versão na língua original.

 

“I have decided to take a certain book with me when I go. I am tired and can’t think how I will carry it, though it is a small book. I am reading it before I go, and I read: 'The antique bracelet she gave me with dozens of flowers etched into the tarnished brass.' Now I think that when I go out I will be able to wear the book around my wrist."


E tu, caríssimo Fernando, diz cá – por que páginas vens tu passeando os olhos nestes dias?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (15)

por Ana Vidal, em 20.09.13

De nenhum livro poderei dizer com tanta propriedade que é o que "estou a ler" como de um livro de poesia. Porque um bom livro de poesia nunca está definitivamente lido, volto a ele muitas vezes e descubro-lhe sempre novas leituras, novas nuances que dependem mais do meu estado de espírito e do meu olhar do momento do que daqueles que presidiram à sua escrita original. Neste sentido, mais do que qualquer outro género literário, a poesia pode equiparar-se à pintura abstracta ou à música, tem o mesmo efeito de interacção cúmplice que estas exercem em quem se deixa envolver por elas. São artes caleidoscópicas, que requerem interpretação e retorno alheios para estarem verdadeiramente completas. Sou cada vez mais uma leitora apaixonada de poesia. As minhas mesas de cabeceira sufocam, encantadas, debaixo dos deslumbrantes delírios de Borges ou de Pessoa, das delicadas rendas de Nuno Júdice ou de Astrid Cabral, dos intrigantes labirintos de Drummond ou de Rilke, das íntimas pulsões de Maria Teresa Horta ou de David Mourão-Ferreira, das domésticas alquimias de Ana Luisa Amaral ou de Adélia Prado. Entre muitos, muitos outros. Vou intervalando poesia com outras leituras, e mesmo dessas raramente leio só um livro de cada vez.

 

Mas não é de poesia o livro de que quero aqui falar. O livro que agora "estou a ler", ou, melhor dizendo, aquele que neste momento mede forças com os meus poetas, é El amor de mi vida, de Rosa Montero. Todo o livro é uma empolgada e empolgante declaração de amor à literatura, às leituras que mais impressionaram esta escritora que sigo religiosamente desde esse extraordinário livro que é "La loca de la casa", curiosamente também ele dedicado à sua grande paixão pela escrita. El amor de mi vida é uma compilação de crónicas publicadas no El País (além de escritora e psicóloga, Rosa é também uma respeitada e muito premiada jornalista) com o tema da literatura, cada uma mergulhando num livro específico e no seu universo muito próprio. Mas Rosa Montero não se limita à simples crítica literária, nem sequer a uma apresentação mais aprofundada da narrativa e das personagens. Vai ainda mais longe, traçando-nos um perfil psicológico do autor através de episódios da sua vida, de factos que influenciaram directa ou indirectamente a sua escrita. É, também, um fascinante trabalho de investigação. Revela-nos, por exemplo, as verdadeiras razões que atiraram Charles Darwin para uma volta ao mundo a bordo do pequeno Beagle - "Viagem de um naturalista à volta do mundo" -, transformando um médico e um sacerdote frustrados num apaixonado cientista que deixaria ao mundo a colossal teoria sobre "A Origem das Espécies". Ou os abismos de outra aterradora viagem - "Até ao Amanhecer" - desta vez aos labirintos mais tenebrosos da loucura, voluntária e corajosamente enfrentada pelo escritor Michael Greenberg por amor a uma filha bipolar em pleno transe psicótico.

 

Enfim, são quase cinquenta preciosas reflexões sobre outras tantas obras literárias, a maioria de referência (em alguns casos sobre toda a obra de um escritor), guiadas pela pena de mestre e visão original de uma leitora compulsiva e muito bem documentada. Recomendo vivamente.  Nas suas palavras de introdução a este El amor de mi vida, Rosa Montero deixa bem clara a natureza da sua relação com os livros:

 

"Sempre tive pena das pessoas que não lêem, não por serem mais incultas, que sem dúvida o são; ou por estarem mais indefesas ou serem menos livres, o que também é verdade; mas, sobretudo, porque vivem muitíssimo menos. A grande tragédia dos seres humanos é virem ao mundo cheios de ânsias de viver e estarem condenados a uma existência efémera." *


"Graças aos livros partilhamos os nossos sentimentos, aprendemos com os outros e sentimo-nos acompanhados não só na nossa pequena existência, mas também em algo muito mais abrangente, muito maior que nós, algo que nos une através do tempo e do espaço. Não é prodigioso poder vibrar com as palavras de alguém que já morreu há um século, por exemplo?" *


"Para mim os livros são verdadeiros talismãs. Se tenho algum à mão para ler, acho que sou capaz de aguentar quase tudo. São um antídoto para a dor, um calmante para a impaciência, um excitante contra o tédio. Nunca me sinto sozinha nem exitem horas perdidas quando me deixo submergir num texto." *

 

 

Nota* - A escolha e tradução das citações é minha (desde já as minhas desculpas a Rosa Montero) porque estou a ler o livro no original.

 

E tu, amigo Bandeira, em que leituras te perdes actualmente?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (14)

por Ana Lima, em 08.09.13

Nem sei bem porquê mas a verdade é que nunca tinha lido, até agora, uma obra de Agustina Bessa-Luís. Talvez tenha sido o ano passado ou no ano anterior que, na Feira do Livro, resolvi comprar os Contos Impopulares. As duas palavras despertaram-me a atenção. Eram contos, género que, se não é o meu preferido, está entre os meus preferidos, e eram impopulares o que, à partida, os afastava das histórias mais clássicas com um final ligado a alguma moral. É desta que vou ler Agustina, pensei.

 

Afinal algum tempo passou. Mas este Verão peguei no livro. Percebi, então, que se tratava de uma das primeiras obras da escritora, publicada no início dos anos 50 do século passado. Os diferentes ambientes e personagens são de uma enorme riqueza, desde os contos mais extensos aos mais pequenos. E a língua portuguesa! Que prazer ler palavras que vamos esquecendo! E que bom que é sentir a necessidade de ir ao dicionário consultar outras que andam tão arredadas do nosso quotidiano!

Não resisto a deixar aqui o mais pequeno destes contos que diz tanto, mas tanto...

 

O CORTEJO

- Quando passará? - perguntava a si próprio. Em vão arredava a fímbria da cortina, e olhava. A vidraça, onde aderiam as pequenas moscas dos estábulos, era baça, como que porosa e penetrada de bolhas de ar. E a rua era excêntrica, isolada, poeirenta, com margens de terrenos baldios onde cresciam, como abetos ponteagudos em miniatura, arbustos calcinados; as múltiplas flores bravias rompiam das valas, fulgurantes e apenas perceptíveis. Quando passará, quando virá o cortejo? - perguntava. Ali estava desde a madrugada, procurando divisar o cortejo que desceria das bandas da cidade, com as suas flâmulas brilhando e voando, enchendo o horizonte de cores inesperadas e palpitantes. Alongou-se o dia, as sombras mudaram de lugar; os cães de pastor trotavam circundando os campos, vigiando os rebanhos. A rua, deserta, com as suas velhas paredes que se desmoronam, mantidas ainda pelas garras das heras e a aglomeração dos silvados. «Quando virá o cortejo, quando será?» Cansado, ele inclina um momento a cabeça sobre o parapeito, e adormece. Não por muito tempo, não por muitas horas. Quando volta a arredar a orla da cortina, a olhar pela janela a rua desamparada que se perde na distância entre arbustos calcinados e flores apenas perceptíveis, ainda que fulgurantes, ele, perplexo e inquieto, indaga de si próprio: «Já teria passado o cortejo, quando teria passado?!» Abre a janela, e os vidros, mal seguros pelo betume ressequido, caem no chão, sem ruído, sobre a poeira. Todo o sol parece revolto, e um rasto de pegadas como que ondula e se entrecruza e se perde, por fim, varrido nos turbilhões de pó. Ele experimenta na boca, ao respirar, o sabor áspero e absurdo desse pó. Depois, fecha a janela, e, por detrás das vidraças partidas, continua a esperar.

 

in, Agustina Bessa-Luís, Contos Impopulares, Guimarães Editores, 2004, pág. 25-26

 

E agora que vou iniciar as Últimas Entrevistas a Roberto Bolaño gostava de saber o que andas tu a ler, Ana Vidal?

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (13)

por Ana Cláudia Vicente, em 30.08.13

Enquanto o Adolfo não vem, aproveito o ensejo para falar das minhas leituras. Este foi o Verão no qual menos pude ler, em muitos anos. Um só livro me acompanhou por estes dias : O Coleccionador de Erva, de Francisco José Viegas. Vou a páginas cento e nove, cento e dez:

 

 

 

«Alguma coisa acabou entretanto, alguma coisa que nunca mais registámos no deve e haver, naquela contabilidade inocente das nossas vidas.

Jaime Ramos pensou nisto porque o rosto de Irina era impenetrável, uma espécie de desafio à sua habilidade para arrancar confissões ou para perceber um caminho no meio dos becos dos subúrbios.»

 

Regresso então a Isaltino de Jesus, a Jaime Ramos, ao mundo da investigação de crimes de sangue num Portugal não tão ficcional quanto seria de desejar. Dois traços autorais me prendem a atenção, aí: a presença sensível de um território que nunca é apenas cenário ou decoração; a insistente sombra do insolúvel, apesar do progresso da acção.  Desta feita, há dois russos e uma africana aparecidos sem vida não longe do Porto, e uma portuguesa de velhas famílias desaparecida algures na Galiza. Ajustes novos, diferenças antigas. E o fim? E o título? Ainda não sei  comos nem porquês - prefiro disdesfrutar o caminho para lá chegar.  

     

 

Então e tu, Ana Lima, o que andas a ler?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (12)

por Teresa Ribeiro, em 09.08.13

Tenho um amigo que chama ao canal da cabo Foxlife o "Fox Gajas", por só passar "séries sobre relacionamentos". O tom desdenhoso que usa para pronunciar a palavra "relacionamentos" é todo um tratado sobre masculinidade. O sorrisinho e as sílabas marteladas indicam desde logo que "relacionamentos" não é, na sua opinião, tema com interesse para os homens nem aqui nem na China. Relacionamentos? Não há pachorra. Seguir historietas sobre namoros e famílias é para quem brincou às casinhas na infância e gostou.

Vem tudo isto a propósito do livro que estou a ler, um título que poria em pé os cabelos desse meu estereotipado amigo: "Os enamoramentos"(editado pela Alfaguara - Edições Prisa e traduzido por Pedro Tamen). Usando a expressão dele, é indiscutivelmente um "título de gaja", portanto dissuasor de "gajos", embora o nome do autor leve muitos, com certeza, a dar-lhe o benefício da dúvida.

Assinado por Javier Marias, este romance foi eleito pela imprensa espanhola "o melhor livro de 2011", ano que consagrou o autor com o Prémio Literário Europeu" pelo conjunto da sua obra.

O que posso dizer sobre "Os enamoramentos", além de lhe elogiar a escrita envolvente é que nos engana. Até meio nada na sua narrativa amável e serena nos faz pressentir um desvio para uma zona de sombra. Mas é o que acontece e a manipulação do autor resulta em cheio. Sobressaltos destes só em policiais ou livros de aventuras. Este romance não é um policial e não prima pela acção, antes nos arrasta para uma inesperada e inteligente reflexão sobre os limites éticos e morais do amor. Sim, pode dizer-se que é um livro sobre (eheheh) "relacionamentos". Mas recomendo-o certa de que não vai desapontar nem "gajas" nem "gajos".

 

Adolfo, agora és tu. Diz-nos: o que andas a ler? 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (11)

por Pedro Correia, em 05.08.13

 

Vivemos num tempo fragmentado, que convida a uma dispersão crescente, e somos vítimas desse fenómeno. A nossa capacidade de concentração é cada vez mais escassa. Paramos a série televisiva a meio para ver não importa o quê, tornámo-nos incapazes de assistir a um filme de duas horas sem interrupções, passamos o tempo a indagar se há novas mensagens no telemóvel mesmo quando não esperamos nenhuma, as redes sociais solicitam-nos a todo o instante um pequeno pensamento em inócuas pastilhas de 140 caracteres.

Este estúpido frenesim em que mergulhámos graças aos avanços tecnológicos não propicia leituras muito profundas.

 

Acabo também por viver fragmentado. Mas em matéria de leituras, valha a verdade, sempre fui errante. Enquanto um livro não me prende a atenção por inteiro, sobrepondo-se aos demais, vou-me dividindo por títulos e géneros muito diversos em coexistência pacífica um pouco por toda a casa.

Dos mais recentes que li, destaco a biografia de Mário Soares por Joaquim Vieira. Um livro sobre o qual tenciono escrever aqui muito em breve.

Neste momento vou lendo alternadamente O Intruso, de William Faulkner (interrompido, à espera de fôlego suplementar, na página 100), Um Gentleman na Ásia, de Somerset Maugham (em ponto morto desde a página 48), Pensar, de Vergílio Ferreira (suspenso sine die na página 46), Os Ditadores, de Richard Overy (obra gigantesca interrompida, até ver, na página 178), La Aventura de Pensar, de Fernando Savater (de que tenho lido pedaços não consecutivos), e o segundo volume da biografia do general Charles de Gaulle, de autoria de Eric Roussel.

Este é o que me tem captado mais a atenção.

 

É uma edição de bolso da editora francesa Perrin intitulada simplesmente De Gaulle II. 1946-1970, tendo na capa o último retrato conhecido do velho general, tirado poucos dias antes da sua morte. O primeiro volume, que ainda não abri, vai de 1890 a 1945 - do nascimento até ao ponto culminante do seu primeiro período no poder, quando conseguiu fazer ascender uma França desonrada e exangue, que chorava 600 mil mortos, ao reduzido patamar das potências do mundo pós-Ialta, com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (juntamente com os EUA, a URSS, o Reino Unido e a China) e ocupando uma parcela da Alemanha desmilitarizada (embora sem adquirir a soberania permanente do Sarre e do Rur, como o general pretendia).

 

Não sei se convosco acontece o mesmo: eu começo muitas vezes a leitura de biografias pelo fim. Sucedeu-me novamente com esta, em que me apressei a ler as cem páginas finais antes de ir às primeiras 170 (este volume tem 605 páginas).

Esta opção deveu-se, no caso concreto, à minha curiosidade em saber como respondeu o então presidente francês à rebelião de Maio de 1968, que apanhou de surpresa todas as estruturas políticas. Incluindo, à esquerda, o influente Partido Comunista, incapaz de compreender como aqueles "filhos da burguesia", sem "consciência revolucionária", abalaram os alicerces da nação francesa, prenunciando o advento de uma nova era - consumista, hedonista, individualista. Sans Dieu ni maître.

 

De Gaulle era um "príncipe da ambiguidade", como lhe chama o biógrafo, sem esconder o fascínio pela personagem, certamente um dos melhores políticos do século XX e um dos maiores franceses de todos os tempos. "Superior a Napoleão", como reconheceu em 1990 o insuspeito François Mitterrand, seu inimigo de estimação.

Mas não há políticos imunes ao erro. E, quanto maior a dimensão da luz, mais vastas são as sombras que projecta.

De Gaulle cultivava um aura de mistério mesmo para os colaboradores mais próximos e ostentava uma aura majestática que ia muito para além da pose, integrando-se na sua verdadeira personalidade. Era um homem que exigia dos outros um grau de lealdade que se confundia com devoção e não tolerava o mais leve indício de dissidência.

Os seus anos crepusculares no Palácio do Eliseu foram marcados por uma surda hostilidade entre o general e o primeiro-ministro Georges Pompidou, o mais destacado e brilhante elemento da corte gaullista. 

Maio de 68 foi o ponto de ruptura entre ambos.

Pompidou percebeu, muito mais cedo do que o idoso presidente, a natureza fracturante da revolta estudantil - condição indispensável para conseguir neutralizá-la. De Gaulle começou por desvalorizar a rebelião, considerando-a uma "rapaziada". Depois, ultrapassado pelos acontecimentos, quis "normalizar" a situação com mão pesada, recorrendo à repressão policial e chegando a equacionar a intervenção do exército para esvaziar as ruas de Paris. O chefe do Governo trocou-lhe as voltas com uma hábil estratégia negocial com a poderosa CGT, central sindical pró-comunista, destinada a isolar os estudantes.

O Partido Comunista, tão horrorizado como a burguesia parisiense com o "aventureirismo" da bagarre estudantil, pôde reclamar o triunfo que Pompidou sabiamente lhe concedeu nesta brilhante manobra táctica, concretizada no aumento de 33% do salário mínimo, que abrangeu dois milhões de trabalhadores, e benefícios de diversa ordem relacionados com a formação profissional, a segurança social e o reforço da presença sindical nas principais empresas.

 

 

Isolados os estudantes, sem suporte dos comunistas e dos seus parceiros sindicais, Maio de 68 chegava ao fim. E terminava também a longa carreira de Pompidou à frente do Governo: em Junho, De Gaulle substituiu-o por Maurice Couve de Murville. Como acontece tantas vezes às grandes personalidades, o presidente não tolerava que alguém pertencente ao seu reduto político brilhasse mais que ele.

Por ironia, um ano após ter cessado funções, o ex-primeiro-ministro ascenderia à Presidência da República, como sucessor do velho general, retirado da vida pública. De Gaulle e Pompidou não voltaram a encontrar-se.

O destino é tão imprevisível e caprichoso como os voláteis humores dos governantes. É disto que nos fala também a biografia escrita por Eric Roussel. E é este um dos motivos que me levam a gostar tanto deste livro.

 

(E agora pergunto à Teresa: o que tens andado a ler?) 

Foto de baixo: De Gaulle e Pompidou (ao centro) em 1964

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (10)

por Patrícia Reis, em 01.08.13

"Na minha casa não havia livros. Vi um livro pela primeira vez naquele dia em que parti o vidro da escola com uma fisga, feita com um ramo em forma de Y, duas tiras de pneu e um bocado de couro."

 

É assim que começa o livro "Antiquários" do escritor argentino Pablo De Santis (Prémio Planeta - Casa de América 2007, Prémio da Academia Argentina de Letras 2008 com o livro anterior, "O Enigma de Paris", já editado em Portugal pela mesma editora, Dom Quixote).

Eu gosto de misturar leituras - acho que tenho esse defeito ou qualidade, partilho com o Pedro Correia:) - e não consigo ler apenas um livro, mas escolhi este por ter um começo que me agarrou de imediato e por estar relacionado com máquinas de escrever (uma pancada minha), jornalismo, misticismo, livros antigos e antiquários.

É fantástico? Sim, é uma fantasia, com várias voltas e revoltas, com surpresas e momentos que nos transportam para Buenos Aires na década de cinquenta do século passado. Ao mesmo tempo, vou relendo coisas, mas "Os Antiquários", li em dois dias. Não é um livro grande, tem 231 páginas, a tradução é de Helena Pitta. A escrita é apelativa, a história transporta-nos com facilidade. Como gosto de literatura latino americana e gostei muito do livro anterior, lá fui por arrasto para esta fantasia. Nos tempos que correm, onde todos precisamos de um pouco mais de imaginação para viver, diria que é um livro aconselhável. Se pelo meio estiver a "Rua de Nenhures" de Pedro Tamen (poesia), pois melhor.

E agora a bola fica do lado do Pedro Correia.

Boas leituras 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (9)

por Marta Spínola, em 29.07.13

Pergunta o Luís. Eu estou sempre a ler muita coisa e leio nada. Livros a meio são mais de muitos (não são eles, sou eu) e tenho saudades de me prender a um livro de início ao fim. Entretanto, peguei num uma outra vez. 

O livro que reli mais recentemente, coisa que faço frequentemente com este livro, é o "Notas de Cozinha de Leonardo Da Vinci". Desta vez, a propósito de um post no facebok que coincidiu com a altura em que assisti a um curso sobre a Mesa Aristocrática no século XVIII (e aconselho o blog da autora Ana Marques Pereira, Garfadas On Line) e me lembrou muito as notas de Mestre Leonardo dois séculos antes.

Este livro, mais do que me interessar pelo conteúdo histórico, está cheio de pérolas de preocupação de Leonardo Da Vinci não só com a apresentação à mesa, como os modos dos seus contemporâneos. Percebe-se que sofria com a falta de civismo o que resulta, admito que também pela tradução, em notas engraçadíssimas. Ainda que a intenção dele não fosse fazer rir. 

Inocentemente - ou não - acaba por ser indiscreto nos hábitos de Sforzas e Borgias à mesa, dá-nos conta de algumas receitas da época e são mostrados alguns projectos de objectos para cozinha e mesa como o saca-rolhas e a batedeira (à escala humana, com pedais, impraticável uma vez que ou o conteúdo era pouco e o efeito não o pretendido, ou o "batedor" se afogaria). 

Relativamente a soluções práticas, diz-nos que o melhor para não ter a cozinha a cheirar a cabra é não ter cabras na cozinha. 

É um livro recheado de pepitas. Deixo umas imagens, mas vale bem a pena lê-lo. 

 

É com este livro que tenho andado para trás e para a frente, enquanto a vida se prepara para dar uma reviravolta.

 

Passo a vez à Patrícia Reis, para sabermos o que lê de momento.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (8).

por Luís Menezes Leitão, em 24.07.13

 

Em boa hora a D. Quixote resolveu reeditar estas Memórias de Humberto Delgado, publicadas originariamente em Londres em 1964, que adquiri na última feira do livro. Sendo esta reedição de 2009, não está escrita felizmente no inenarrável "acordês" com que insistem em maltratar a nossa língua.

 

O livro é fascinante, permitindo-nos conhecer o percurso e o pensamento de uma personagem altamente complexa. Humberto Delgado faz uma avaliação histórica muito rigorosa do país, demonstrando uma erudição incomum. Inicialmente apoiante de Salazar, é curioso como se vai afastando dele por não conseguir concordar com o regime de ortodoxia financeira em que ele mantinha o país, em contraste com a expansão económica que a Europa vivia no pós-guerra em virtude do plano Marshall. Nas suas palavras, os outros países europeus tinham moedas fracas e inflação, mas as pessoas tinham dinheiro. Portugal tinha um escudo forte, sem inflação, mas o povo vivia na miséria. Não consegui deixar de fazer um paralelismo com a actual situação do euro.

 

É muito curioso que Humberto Delgado, que tinha uma posição de prestígio no Estado Novo, como Director-Geral da Aeronáutica, tenha aceite prescindir disso tudo para se envolver numa eleição presidencial, onde sabia desde o início que as cartas estavam viciadas. A explicação que ele próprio dá reside numa frase de Napoleão: "on s'engage et puis on voit". E efectivamente envolveu-se profundamente na campanha presidencial, tendo pronunciado a frase sacrílega para o regime: "Obviamente demito-o!", referindo-se a Salazar. No livro o autor refere as consequências do episódio, que a censura deixou passar, pois julgava que o país ia ficar indignado com Humberto Delgado, apressando-se os jornais a publicar diariamente ridículos comunicados de pessoas diversas, a desagravar Salazar por essa declaração. O efeito foi o contrário, sendo que a enorme adesão popular que Humberto Delgado suscitava fez o regime perceber que o país estava farto de Salazar.

 

Naturalmente que as eleições foram viciadas, como se esperava. Curiosamente Humberto Delgado aguardava uma reacção de indignação geral que não surgiu. Mesmo pessoas próximas encolhiam os ombros quando ele denunciava a fraude eleitoral: "Em Portugal as eleições foram sempre viciadas, até no tempo da Monarquia". O mesmo não se conformou, escolhendo o exílio, de onde procurou comandar a revolta contra o regime. Mas a oposição tradicional ia-se envolvendo nas suas questiúnculas internas, levando a que o regime ainda conseguisse durar mais 16 anos após o mais brutal ataque que sofreu.
O livro por isso diz muito, não apenas sobre um homem excepcional, mas também sobre o verdadeiro espírito do povo português, cuja enorme tolerância lhe permitiu viver 48 anos em ditadura. Não terá sido por acaso que recentemente outro Ministro das Finanças qualificou o povo português como o melhor povo do mundo.
E a Marta Spínola, o que anda a ler?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (7)

por Leonor Barros, em 21.07.13

Não há nada tão determinante num livro como as primeiras linhas ou as primeiras páginas. Em tempo de esbulho e saque e com o inevitável ajustamento das minhas finanças o exercício que faço para me decidir se o livro é merecedor dos euros sobejantes é o de ler o primeiro parágrafo. Quando pedi o livro emprestado o aviso foi peremptório Essas primeiras cenas são horríveis. E eram. E são. Escritas com um enorme realismo e sem pudores bacocos oscilamos entre parar ali ou ultrapassar aqueles primeiros horrores para acompanhar Jorge. Resolvi acompanhá-lo. Até agora não me arrependi. Um bocado ensimesmado, é verdade, aquele tal episódio declarou-lhe uma existência reservada e sofrida, feita de silêncios grandes no casarão algures lá para os Algarves onde habita com as Manas, suas fiéis zeladoras e das lides domésticas e outras da mansão, Samuel, e D. Rosa. Quando um dia, Sarah, uma escritora excêntrica aventureira e a viver no limite, se muda lá para casa, tudo muda. E muda ainda mais quando surge em cena Biafra, ávido por uma chantagem. E quando mais personagens se juntam para adensar a trama. E mais não digo.

Depois da desilusão de Mazagran e da paixão imediata e irrevogável – boa palavra – por A Amante Holandesa, este Mentiras & Diamantes de José Rentes de Carvalho tem um ritmo alucinante, uma deambular incessante entre mundos, palavras sem rodeios, e personagens fortes que não conseguimos esquecer. Lê-se com prazer. Cavalgam-se páginas para saber mais. Nesta minha nova condição de comprar livros de seis em seis meses, um Rentes de Carvalho será merecedor dos parcos euros. Só posso recomendar.

 

 

E agora passo a leitura ao Luís Menezes Leitão. Que andará ele a ler? 

Autoria e outros dados (tags, etc)


E se alguém, com pena desempoeirada e solta, olhar de lince e poucas proclamações, escrevesse um romance na primeira pessoa, retratando o quotidiano social português dos últimos 50 anos segundo uma engenharia capitular coincidente com os mandatos dos Presidentes da República?

Original, no mínimo. Apetecível. Tremendamente conforme à cabeça de um cidadão europeu do século XX.

Pois não é sobre nós… e sim sobre Uma Vida Francesa que esta diacronia se desenvolve, pela mão de Jean-Paul Dubois (sociólogo, jornalista do Nouvel Obs, escritor) levando-nos a percorrer, nesta obra ampla mas muito ágil, um lapso de cinco décadas marcantes para a sociedade francesa, arrumando a história da família, do país e do mundo nos marcos temporais dos consulados de De Gaulle (que habita o seu televisor Grandin…), e depois de Pompidou, Giscard e Chirac, retratando uma França tolhida pelo seu lastro histórico e ávida de todos os dias seguintes eleitorais. É aliás com muita pena minha que este livro, datado de 2005, não chega ao mandato psicótico seguinte, o de Sarkozy... simplesmente porque a escrita de Dubois é uma escrita que (com)promete e que me agrada particularmente: escorreita e franca, sem tentações clássicas, pouco dada a preconizações ou exibições de estilo, deixando-nos o prazer de colher as coisas grandes que, discretamente, nos vai dizendo por entre a narrativa.

A obra corre os dias de Paul Blick, o narrador, filho mais novo de um casal da média burguesia de Toulouse (e Espanha ali tão perto), amarfanhado e veladamente disfuncional desde a morte do irmão mais velho de Paul, cuja figura tutelar o acompanhará para sempre, vida fora. A narrativa começa precisamente assim, com a notícia da morte de Vincent, que Paul via como «um rapaz escultural, destinado a construir os alicerces de um novo mundo», no momento em que assiste ao fatídico telefonema do fundo do corredor, com 8 anos, já ciente da margem de clemência que o tempo ainda lhe concede até ser admitido, pelos adultos, ao vórtice da tragédia.
Paul, fruto daquele instinto profundo de sobrevivência prática tão cru nas crianças, corre antes de mais ao quarto do irmão para se apoderar do  brinquedo icónico que sempre lhe invejara: um coche de metal cromado puxado por seis cavalos brancos.

E assim vai crescendo o livro: através dos desencontros com o pai (vendedor de Simcas, «republicano, sem dúvida, mas concessionário em primeiro lugar»!), e depois através dos dias da adolescência, dos primeiros amores, do casamento, do nascimento dos filhos e, por fim, do divórcio, cruzando sempre, com um humor finíssimo, os grandes acontecimentos -  a morte de Franco, de Che Guevara, ou o Maio de 68 - com os simples jantares de família, a mediocridade do dia-a-dia, a usura do tempo, o labirinto sofrido ou glorioso das relações entre as pessoas, esse terrível exercício eternamente mal resolvido da condição humana.

Jean-Paul Dubois é mestre no retrato da sociedade e da cidadania política (enquanto estatuto imperfeito e paradoxal) e, neste livro em particular, caracteriza um período fascinante para qualquer pessoa da minha geração:

«A tomada de consciência política era ainda incipiente, mas estava em formação uma geração que já não queria que lhe cortassem o cabelo à escovinha, nem que lhe traçassem a vida a régua e esquadro ou a arrastassem para a missa (…), ansiosa por marcar distância em relação aos deuses e antigos mestres».

- Quem não se vê um pouco ao espelho nestas palavras?

Ou ainda nestas, sobre o Maio de 68, de que todos somos tributários enquanto membros de uma geração a cem mil léguas da precedente:

«Nunca houve, com certeza, na História, uma ruptura tão violenta, brutal e profunda no continuum de uma época. 1968 foi uma viagem intergaláctica, uma epopeia bem mais radical do que a modesta conquista espacial americana que ambicionava simplesmente dominar a Lua».

Não percam este, ou mesmo outro livro, de um autor a quem injustamente chamaram (certamente a  frase é de algum fresco trintão...) um cínico tranquilo.

- E tu, Leonor, o que andas a ler?

Uma Vida Francesa, Jean-Paul Dubois

1ª edição, Outubro de 2005

ASA Editores


Autoria e outros dados (tags, etc)

 

(Re)acabei agora este "A Maldição de Ondina" de António Cabrita. O autor, patrício imigrado em Moçambique há uma série de anos, que o XXI vai passando, poeta, prosador, jornalista, argumentista, crítico, professor, bloguista, editor, tradutor, vai tendo por cá uma actividade intensa, constante e profunda, afixada em vários livros, disseminada em múltiplos textos, um ritmo que não lhe prejudica densidade e ponderação. Este romance, publicado inicialmente no Brasil (Letras Selvagens, 2011) sairá em breve em Portugal (Abysmo), e também por isso aproveito esta nossa "série" no Delito de Opinião para o anunciar, coisa que vem do interesse do livro e desta vontade de amiguismo, que o Cabrita é um tipo que vale a pena e também porque se o bloguismo vale para algo é para dar uns abraços a quem nos apetece.

Aqui deixa o seu olhar, desencantado parece-me, sobre o seu Moçambique, esse onde nos encastramos. Um verbe mais depurada do que a sua habitual. Sem pitada de exotismos, das belezas tropicais ou das pobrezas bíblicas, sem mistérios austrais ou abismos pós-coloniais, utopias desvanecidas ou boas causas, mais ou menos poetizadas, que abundam em tantos outros. Com recurso a uma linha policial - e nisso, só nisso, se aparentando a algumas outras construções ficcionais portuguesas recentes sobre o país -, que acaba por ser apenas o fio de prumo para equilibrar as múltiplas variáveis do bailado melancólico que avassala as personagens.

Um manifesto iluminista, até expresso no título, em que o Cabrita se insurge com a persistência da história (de uma tradição moderna, direi), que vê como desagregadora, violadora da reciprocidade necessária ao bem comum, comunitarista que assim se desvenda o autor. Ainda assim, talvez paradoxal, europeu desiludido, deixando entender como é a prática africana que alimenta a acção europeia - é assim que vejo a articulação entre os dois protagonistas, o moçambicano Raul e o pós-moçambicano César (neste habitando algo do próprio autor, digo eu). No final, optimista trágico (?), deixa o autor a ténue esperança de uma mitigada redenção.

Raramente gostei tanto de um livro com o qual tanto discordo. Leiam-no, é a minha palavra.

 

E a seguir virão as (actuais) leituras da Laura Ramos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

                    

 

Pouco afeiçoado à tômbola das novidades, são muitas as vezes que melhor defino os meus gostos pelo que deliberadamente não estou a ler. O método, sendo um bocado cáustico, tem a enorme vantagem de reduzir ao mínimo as desilusões e dar sempre por bem empregue o dinheiro e o tempo despendido nas leituras selecionadas.

Bem podem os livros hibernarem anos na estante após a pulsão urgente da compra até ao dia em que misteriosos impulsos tornem a sua leitura imprescindível. Foi assim com “Tirano Banderas” comprado numa qualquer passagem por Badajoz e por motivos que as motivações esquecem (honni soit qui mal y pense) só convocado ao activo no princípio deste ano.

Já lido, apreciado e imaginado, que são estas as fases por que passam os livros, traz-se a obra-prima de Ramón del Valle-Inclán à colação porque a sua leitura inspirou prolongamento por “El Señor Presidente” de Miguel Ángel Asturias que hoje repousa na mesa de cabeceira durante o dia para à noite despertar quando lhe pego. É muito mais divertido os livros sucederem-se na órbitra uns do outros, este a pedir aquele e assim sucessivamente de universo em universo até sentir-se que é altura de mudar de viagem.

O picaresco da edad de oro, o castelhano adocicado e feroz do México e o ritmo truculento da modernidade daqueles épicos anos 20, convertem “Tirano Banderas” numa obra-prima do seu tempo, ou seja, sem uma ruga se lido hoje. É um livro faiscante em que os crioulismos disputam cada parágrafo ao finíssimo léxico clássico, e onde não há página em que não palpite o sangue, o suor e a canícula. Tais elementos são o combustível para a crueldade da narrativa e das personagens, às quais se equivale a escrita cruel de Valle-Inclán.

Publicado em 1926, “Tirano Banderas” foi lido pelo guatemalteco Asturias tinha ele 37 anos, já bem temperados pela luta política, cuja aventura mais trepidante fora a participação no derrube do tirano Manuel Estrada Cabreba. Que a obra de Valle-Inclán haja influenciado a inspiração de Ángel Asturias é um facto palpável quando se lêem ambos os livros de enfiada. Mal sabiam eles, infundidos na esperança típica dos escritores, que a Espanha estava a caminho de décadas "de sofrimento e que a Guatemala dele ainda não se tenha libertado, mesmo já século XXI adentro.

"El Señor Presidente foi escrito em 1933 mas ficou prudentemente guardado numa gaveta até 1946; o autor sabia bem as labaredas e os problemas que chamejavam daquelas páginas. Às rutilantes características da obra de Valle-Inclán, Asturias acrescentou uma elaboração narrativa pejada de acidentes verbais e linguísticos que há quem chame de surrealistas, mas entre nós basta dizê-los vigorosos, porque o amor à língua, não a tomando como um instrumento mas como um mármore escultórico, deveria ser a razão primeira que faz de alguém um escritor.

Se cada uma destas obras isoladamente refulge um brilho intenso, assim concatenadas como foram lidas, parece que nada fica por dizer da malvadez dos tiranos, da sabuja concupiscência dos seus acólitos, da amoralidade que inspiram na oposição e da violenta desesperança que derramam nas sociedades.

Na grave e ensimesmada literatura portuguesa do século XX, abarrotada de Dantas, Torgas, Namoras e quejandos urbano-telurismos, nenhuma obra ousou aproximar-se da vitalidade efusiva de “Tirano Banderas” e de “El Señor Presidente”; assim de longe talvez só “Dinossauro Excelentíssimo” de Cardoso Pires possa sugerir semelhante animação.

 

Passa ao outro e não ao mesmo, não é JPT?

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Depois do bisanço da ficção científica, segue-se – naturalmente, pois – um livro de História.

 

Esta História de Portugal não esconde ao que vem, pretendendo assumidamente constituir uma nova obra de referência na historiografia portuguesa, incorporando “os resultados das pesquisas e reflexões das mais recentes gerações de historiadores”. Como tal, e embora se procure um “texto legível e claro”, existe sempre uma primazia do conteúdo sobre a forma, o que pode tornar a sua leitura menos aliciante para algum público. Mas não poderia ser de outra forma.

 

Ao longo da obra (que ainda estou a ler – apenas para não fugir ao espírito da série, claro está) são evidentes várias “marcas” da abordagem que os autores pretenderam utilizar.

Antes de mais, é clara a intenção dos autores não só de fornecer uma análise imparcial mas – mais do que isso – de dar ao leitor os elementos necessários para este elaborar a sua própria opinião; estando assim praticamente ausentes conclusões definitivas em relação à acção de determinada personagem histórica. Claro que esta opção faz-se em parte sacrificando a atracção do interesse do leitor, mas numa obra com este propósito não poderia ser de outra forma. Na mesma linha, os autores procuram de um modo muito claro fugir aos episódios mais romanceados da História portuguesa, dando exclusividade ao valor intrínseco de cada evento. Fazem-no de um modo, porventura, exagerado, passando ao lado de episódios cuja referência viria completamente a propósito e em que se gastaria não mais do que meia dúzia de palavras. Acresce que há episódios e detalhes que, pelo seu carácter simultaneamente representativo e inusitado (aos olhos contemporâneos), constituiriam exemplos perfeitos para determinadas ideias expostas, ao mesmo tempo que ajudariam a manter o interesse do leitor (o que, não sendo o objectivo primário do livro, não deixa de ser importante).

 

Outro aspecto em que me teria agradado outra perspectiva diz respeito à comparação internacional. Um livro deste tipo teria muito a ganhar em dar maior relevo a uma perspectiva mais relativa da nossa História face à História da Europa e do Mundo. Claro que tal implicaria um livro mais espesso, mas determinadas análises extensivas que o livro contém tornam-se, sem essa contextualização, relativamente espúrias. Em todo o caso, imagino que na análise da idade contemporânea (a cargo de Rui Ramos) esse tipo de comparações seja mais frequente.

 

Finalmente, é perceptível a dificuldade dos autores ao longo do texto em conciliar uma linha necessariamente cronológica com o objectivo declarado de expor as dimensões “política, económica, social e cultural” da História de Portugal. Por vezes, essa gestão torna-se algo confusa, quando o texto se concentra durante longas páginas numa dessas dimensões (ou mesmo a diferentes frentes dentro de cada uma) em detrimento do fio condutor cronológico.

 

Em suma, e apesar de algumas vertentes em que é porventura menos feliz, trata-se de uma obra inegavelmente completa – a vários níveis – e, sobretudo, fresca, na medida em que possibilita uma apreciação simultaneamente esclarecida e imparcial, dentro dos dados verdadeiramente fidedignos que nos chegaram até hoje, os quais, particularmente na idade média, estão longe de ser abundantes e claros. 

 

Siga a série, com o José Navarro de Andrade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que estou a ler (2): "Fatherland", de Robert Harris

por José Gomes André, em 12.06.13

Esta série começou com um adepto de ficção científica e prossegue com um adepto de ficção científica. Sim, confesso que boa parte do meu tempo livre é passado junto de títulos sugestivos como "Um Túnel no Céu" ou "A Máquina do Tempo Acidental".

O livro que estou a ler (fiz batota porque já acabei, perdoem-me) chama-se "Fatherland" e é um dos mais notáveis exemplos de um sub-ramo da ficção científica: a "história alternativa". A premissa necessária deste género ("e se?") é na verdade um clássico - "e se os alemães tivessem ganho a 2ª Guerra Mundial?" - mas o autor, Robert Harris (um antigo jornalista, que escreve muito sobre os nazis e a Roma Antiga), aborda-a de uma forma particularmente feliz, tornando o livro num misto de policial, aventura e investigação histórica.

Por que gosto de ficção científica, especialmente de "história alternativa"? Ao contrário do que se pense, não por ter um qualquer fetiche com mundos imaginários ou uma tremenda saturação com a realidade, mas porque este género traz a derradeira compreensão sobre o que realmente aconteceu. Quase paradoxalmente, é ao considerarmos o que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, que melhor percebemos a singularidade do que aconteceu realmente, nos seus aspectos mais peculiares e extraordinários. Não só mergulhamos num "mundo paralelo", como acabamos por viajar "no nosso próprio mundo", que assim nos parece tão miraculoso, quanto fruto de milhares de pequenos acasos.

O livro de Harris pega neste paradoxo num ponto de grande importância - e que tantas vezes passa despercebida na nossa consciência histórica: o Holocausto. Com efeito, esquecemo-nos que só no fim da Guerra o mundo percebeu o horror levado a cabo pelos nazis, após a mais incrível operação de encobrimento da história, com a conivência da população alemã, da imprensa nacional e estrangeira e dos milhares de soldados do exército germânico. Em "Fatherland", os judeus desapareceram sem que se perceba bem porquê, mas o mundo vive tranquilamente com a ideia. Corre o ano de 1964. Ao investigar um homicídio suspeito, Xavier March, um detective das SS (mas pouco fiel à ideologia nazi), acabará por deter-se com uma série de estranhas descobertas sobre antigos oficiais nazis envolvidos num qualquer esquema ocorrido no Leste europeu, há mais de 20 anos.

Como já revelei (desculpem outra vez!), esse esquema foi na verdade a execução de milhões de judeus em campos de concentração. O mais curioso do livro é que March, tal como a humanidade no "mundo real", mesmo quando confrontado com provas evidentes do que sucedera, continua a recusar-se a acreditar nessa horrível hipótese, embora já saiba da sua existência. Pois admiti-la abertamente seria reconhecer a sua própria culpa - a nossa culpa - por ter permitido que tal tragédia se desenrolasse debaixo do seu nariz. Não é por acaso que ainda hoje muitos preferem esquecer o que aconteceu.

 

Siga a série, com o José Maria Gui Pimentel.

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Há qualquer coisa de muito interessante na leitura da obra de um escritor seguindo uma ordem mais ou menos cronológica, pegando nos seus livros mais antigos e seguindo-os até aos mais actuais. Sobretudo quando esse autor estabelece um universo ficcional no qual vai enquadrando ao longo dos anos a sua ficção, ou uma parte dela, dando aos seus leitores a possibilidade de o acompanharem de forma única na sua evolução enquanto autor. Há mais ou menos dois anos comecei a ler assim Discworld, de Terry Pratchett (ver como a escrita e o mundo ficiconal evoluem a cada livro é fascinante - e ainda nem cheguei a metade); há dias, e com o mesmo propósito, peguei em Consider Phlebas, livro de 1987 com o qual o autor escocês Iain Banks - ou, no caso, Iain M. Banks, ganhando o "M." nos seus títulos de ficção científica - deu início à série "Culture" (com um título, já agora, retirado de uma passagem de The Waste Land, de T.S. Eliot).

 

Na prática, e por aquilo que já tive oportunidade de ler (ainda não vou a meio), Consider Phlebas parece ser uma aventura quase ao estilo de space opera, construída num universo fascinante que assenta em ideias e em conceitos tradicionais de ficção científica (as esferas e os anéis de Dyson, as Inteligências Artificiais muito... peculiares, os shapeshifters). E, claro, com uma prosa rica, evocativa nas descrições, e viva nos diálogos. Até ao momento, as desventuras do protagonista com aquele que será porventura o grupo de mercenários mais azarado que o género já conheceu são divertidas - mas todos os pequenos detalhes que Banks sopra para o leitor sobre aquele universo pós-escassez na qual a Humanidade, ou uma qualquer forma de Humanidade, construiu a sua utopia hedonista com a ajuda (e a governação) de Inteligências Artificiais são aliciantes. É este universo que Banks explora ao longo dos vários livros que compõem a série "Culture" - e que conto descobrir nos próximos tempos, dos livros mais antigos aos mais recentes (ainda que tal ordem de leitura não seja de todo necessária). 

 

Até ao momento, Iain M. Banks (que sem o "M." publicou livros como The Wasp Factory, Complicity ou Stonemouth) publicou nove livros e uns poucos contos dentro do universo ficcional de "Culture" - e, infelizmente, é improvável que venha a escrever mais algum. Em Abril, o autor apanhou os seus muitos leitores (de ambas as ficções) de surpresa com um diagnóstico de cancro terminal, que provavelmente não lhe permitirá viver mais um ano completo. O seu próximo livro, The Quarry, com publicação prevista para breve, será à partida o seu último romance. 

 

 

Este texto, já agora, é o primeiro episódio da segunda temporada de uma série que por aqui experimentámos há alguns meses (ano e meio, vá - fica aqui o recap), e à qual agora regressamos. Não sei qual será o argumento do próximo episódio, mas podemos perguntar ao José Gomes André, a cargo da realização. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os livros que fomos lendo

por Pedro Correia, em 29.01.12

 

Durante quase três meses, fomos aqui revelando as leituras que íamos fazendo, partilhando-as com os leitores. Chegou o momento do balanço desta série, desenrolada em 24 etapas.

 

A Ivone Costa, a 3 de Novembro, relia A Mecânica da Ficção, de James Wood.

 

O JAA, a 7 de Novembro, falou-nos de um dos três livros que então lia: Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo.

 

O José Maria Pimentel, a 14 de Novembro, deixou-nos nota da obra que ia lendo: China: its History and Culture, de W. Scott Morton e Charlton Lewis.

 

O João Campos, a 15 de Novembro, fazia uma incursão pela banda desenhada: As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II - Apocalipse. De Filipe Melo (argumento) e Juan Cavia (ilustrações).

 

O João Carvalho, a 18 de Novembro, optava por "alcoviteirices": Amantes dos Reis de Portugal, de Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni.

 

A Laura Ramos, a 22 de Novembro, citava Leo Ferré à laia de introdução do seu texto sobre o livro A Confraria do Vinho, de John Fante.

 

A Leonor Barros, a 28 de Novembro, trouxe-nos literatura em alemão: Meine Russischen Nachbarn, de Wladimir Kaminer.

 

Luís M. Jorge, a 30 de Novembro, lamentava a perda do livro que estava a ler: The Sense of an Ending, de Julian Barnes.

 

O Luís Menezes Leitão, a 2 de Dezembro, assumia-se como apreciador de biografias ao escrever sobre Estaline, de Jean-Jacques Marie.

 

A Patrícia Reis, a 2 de Dezembro, escreveu sobre Dois Rios, de Salem Tatiana Levy, e a biografia de Lúcio Feteira, de Miguel Carvalho.

 

A 6 de Dezembro, foi a minha vez: deixei a minha opinião sobre uma obra muito interessante: A Liderança Segundo John Kennedy, de John Barnes.

 

O Rui Rocha, a 7 de Dezembro, desvendava-nos o livro que andava a reler: A Criação do Mundo, de Miguel Torga.

 

A Teresa Ribeiro, a 12 de Dezembro, trazia-nos aqui a sua perspectiva sobre Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer.

 

O Adolfo Mesquita Nunes, a 19 de Dezembro, confessou-nos a sua nada surpreendente predilecção por The Iron Lady, biografia de Margaret Thatcher escrita por John Campbell.

 

A Ana Cláudia Vicente, a 23 de Dezembro, interrompia Vitorino Nemésio para ler Luiz Pacheco.

 

A Ana Lima, a 26 de Dezembro, narrava-nos a sua opinião sobre O Retorno, de Dulce Maria Cardoso.

 

A Ana Margarida Craveiro, a 27 de Dezembro, andava a braços com "um tijolo de 800 páginas": The Better Angels of our Nature, de Steven Pinker.

 

A Ana Sofia Couto, a 30 de Dezembro, falou-nos de Mais Platão, Menos Prozac!, de Lou Marinoff.

 

A Ana Vidal, a 2 de Janeiro, trouxe-nos notícias d' O Túnel, de Ernesto Sabato.

 

O António Manuel Venda, a 3 de Janeiro, relia o Breviário das Más Inclinações, de José Riço Direitinho.

 

A Cláudia Köver, a 13 de Janeiro, transmitiu-nos as suas impressões sobre Comboio Nocturno para Lisboa, de Pascal Mercier.

 

O Fernando Sousa, a 20 de Janeiro, apresentou-nos os Contos Reunidos, de Felisberto Hernández.

 

A Helena Sacadura Cabral, a 21 de Janeiro, lia Longe é um Bom Lugar, de Mário Zambujal.

 

E a série terminou a 26 de Janeiro com o José Navarro de Andrade. Leitor d' Os Espiões, de Luís Fernando Veríssimo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que ando a ler (24)

por José Navarro de Andrade, em 26.01.12

Somos o único bicho incapaz de dormir ao relento. Somos também o único animal que lê na cama. Um livro bom de se ler deitado há-de ser suficientemente cativante para impedir que nos deixemos distrair por outras solicitações que possam surgir, como por exemplo, enfim, isso, mas também suficientemente magnânimo para nos permitir que deslizemos em paz para dentro do sono.

Nem toda a arte, neste passo a literatura, tem que ser um espinho cravado na consciência ou um tiro na cabeça. É um bocado redutor enfiá-la nessa caixa e dela não a deixar sair. Pode ser assim, pode ser assado, seja como o escritor quiser. Pode ser uma tentativa de atingir o Belo (uma proposta demodèe nos dias correntes), pode querer comover-nos, ou consolar-nos, ou apenas retirar-nos, durante o tempo que temos o livro entre mãos, da nossa amarga realidade e transportar-nos para outros lugares. Pode ser ainda uma forma de pôr em ordem uma parte do mundo que ficou por arrumar; pelo menos na cabeça de quem o escreve e de quem o lê.

Atrevo-me a considerar que todas estas formas são equivalentes em nobreza quando conseguem atingir aquilo a que se propõem. Atrevo-me ainda mais a dizer que “Os Espiões” de Luis Fernando Veríssimo é bom para ler na cama. Espero que percebas, ó sereno leitor, que estou a elogiar o livro e também espero que não te passe pela cabeça que faço o elogio da literatura light; suplico-te um esforço aristotélico para que não baralhes categorias, como tão amiúde se faz por preconceito e precipitação, ou apenas porque há quem não dê para mais.

“Os Espiões”:

Um enredo que no dizer do protagonista é digno de John le Carré, sobre uma misteriosa escritora que assina como Ariadne, logo eruditamente remetendo para os olimpos da mitologia, acaba desmistificado por na verdade decorrer à copofónica mesa de um botequim manhoso de Porto Alegre. Vidas conformadas, boémia de bairro, cosmopolitismo intelectual de meia tigela, tudo isto também é desmobilizado pela prosa irónica mas sem sobranceria, generosa com as personagens mas sem complacência, enfim divertida – palavra caída em desuso e normalmente substituída por “fluente” ou “conciso”.

Não sendo novidade, “Os Espiões” é novo de 2009. E guardado estava o bocado, pois Luis Fernando Veríssimo que nunca me cativara nas crónicas publicadas no “Expresso”, veio agora vencer-me com “Os Espiões”. Retrocedo, relerei as crónicas e retracto-me.

Mão amicíssima em boa hora mo fez chegar aos olhos, porque isto é da melhor literatura portuguesa actual. Portuguesa? Mas Luis Fernando não é brasileiro, descendente do anti-presbítero Érico? Sim, mas a nossa língua é só uma e só há a perder dividi-la pelos continentes. Boas noites.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que ando a ler (23)

por Helena Sacadura Cabral, em 21.01.12

 

Não será bem o que estou a ler, mas antes, o que acabei de ler. Pelo que vejo das escolhas da "confraria", eu sou a mais heterogenea... Acabei, há dias, a leitura de dois. Sim, sou megalómana e tenho, por norma, duas obras de cabeceira. 

Desta vez, foi o último livro do meu querido Mário Zambujal Longe é um bom lugar, colectânea deliciosa de short stories que é um dos meus estilos preferidos e com o qual o autor e eu própria não nos damos nada mal. Gaba-te cesto!

São contos sobre o quotidiano, com um marcado sentido do humor e que caracterizam os comportamentos de uma certa novel classe média nacional. Fiquei fiel ao Mário desde a velha "Crónica dos bons malandros" e assim continuarei enquanto ele publicar. Nada de filosófico, de intelectual, mas uma bonomia que faz falta neste país de fado triste.

Ao mesmo tempo, li a Ordem Breve da "nossa" Ivone Costa, uma colectânea de poesia difícil mas de rara qualidade e que, aos meus ouvidos - sim leio sempre alto poesia -, soou com uma harmoniosíssima sinfonia. Li-o duas vezes porque, no género, isso me acontece quase sempre. E à segunda volta, ainda gostei mais. Tanto, que tenciono, quando estiver inspirada, escrever um post sobre ele. Não coloco aqui a capa - linda - porque não tenho scanner e não encontrei foto na net. Alguém dá uma ajuda?

 

 

 

E pronto. A seguir apetece-me uma biografia de um homem forte. Tenho duas em mente, mas ainda me não decidi!

 

E tu, Zé Navarro, o que andas a ler agora?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que ando a ler (22)

por Fernando Sousa, em 20.01.12

 

Tomo estas notas a quente e frio, por causa de uma despedida e da temperatura que baixou, e por as duas coisas me terem lembrado umas férias de Verão, em 1966, de um imenso calor e de uma morte, de uma escultura de areia e de como a maré a desfez, seriam umas sete da tarde, isto para vos sugerir o que o uruguaio Felizberto Hernández levou a vida a fazer: a procurar, entre as palavras, os seus sentidos. Foi o autor que acabei de reler, porque a leitura é isso mesmo, voltar a ela. Mas que livro, este Contos Reunidos! Naqueles em que volta a ser menino, FH descobre o passado, e o homem que resultou dele, através por exemplo da amizade com Clemente Colling, um violinista virtuoso que nunca trocava de meias e tinha o corpo coberto de percevejos, de duas irmãs velhas que a mãe visitava, duas mulheres de véus caídos sobre as caras e de chás tomados na penumbra de uma sala igual há cinquenta anos, de como o atraiu, adolescente, o cesto de roupa suja da casa de banho de uma mulher bonita - e de como lhe bateu o coração com medo de que alguém de repente entrasse. Noutro, já homem e pianista, antes de trocar o mundo dos sons pelo das palavras, aceita ser convidado de uma matrona rica que vegeta, caprichosa e ferida de amores, numa casa alagada, onde só se pode andar de canoa, e as camas e os armários flutuam sobre bóias. Felizberto Hernández convive com as palavras para encontrar o sentido das coisas, umas vezes claro outras misterioso. “… Tenho como um processo de amizade com as palavras, primeiro faço-me amigo directo delas; e depois fico muito contente quando me aparecem juntas, duas que nunca haviam estado juntas, que se haviam simpatizado, ou que se haviam atraído nalgum lugar da minha alma não vigiado por mim. Mas há palavras que nunca poderão ser minhas amigas, as que não me parecem naturais ou as que não entram no mistério da simpatia” – escreveu a uma amiga. Portugal conhece pouco este abridor de caminhos, este autor incomparável - o mais próximo, no humor e na angústia, talvez seja Kafka. E no entanto Italo Calvino, Júlio Cortázar ou García Márquez, para citar só estes, têm-no como um dos seus maiores mentores. Este o livro que acabei de reler. O que estou a terminar, O Espião Alemão em Goa, de José António Barreiros, é outra história: de como, em Março de 1943, no porto de Mormugão, as tripulações de três navios mercantes alemães e um italiano, atacados por um comando britânico, preferiram metê-los no fundo, criando um problema ao Portugal neutral, que, não podendo reconhecer o ataque, fez julgar e condenar as quatro equipagens. Uma história feia, que o conhecido advogado soube investigar e trazer à tona.

E aqui vai, Cláudia, com um enorme pedido de desculpas pelo atraso, o meu contributo para esta série. E tu, Helena Sacadura, o que andas a ler?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que ando a ler (21)

por Cláudia Köver, em 13.01.12

 

Escolhi o livro não pelo título, autor ou imensa vastidão de páginas, mas porque insisto em ler em alemão e foi esta a obra que a minha mãe me colocou na mala antes de eu partir para Istambul. O tempo para a leitura foi escasso, mas a obra “Comboio Nocturno para Lisboa” de Pascal Mercier fez me companhia em algumas noites de insónia. Não o terminei, nem a meio estou. Não por desgostar mas por falta de tempo e dedicação.

O livro inicia-se com uma fuga irracional (ou um acto de coragem dependendo do leitor) para a cidade de Lisboa. Um breve instante na vida do protagonista leva-o a arrancar-se da sua monotonia em Berna e a embarcar numa viagem que o levará a questionar todo o seu estilo de vida e decisões tomadas até então (a forma como viveu as discussões coma sua ex-mulher, a forma como exercera a sua profissão, etc.) Trata-se de um homem invulgarmente inteligente com fracas capacidades sociais e pouca vontade de mudar, que num dia chuvoso se encontra numa situação invulgar e encantadora. A busca por uma mulher portuguesa deixa o cair nos braços de uma obra de Amadeu Inácio de Almeida Prado, escritor português que falecera 30 anos antes, em 1975. O homem míope e que fugia a tudo - exactamente por se negar à evasão e se afundar na leitura dos seus amados livros - dá corpo ao terceiro romance deste autor suíço. A obra foi traduzida em 15 idiomas, tendo sido um grande sucesso na Alemanha, mantendo-se no top durante três anos. Um autor apaixonado por Pessoa, cujas descrições “thrillescas” nos levam a uma Lisboa mística que reflecte bem a sensação que tantos visitantes dizem ter ao visitarem a nossa capital, e que nós – por termos o privilégio de aqui vivermos – tantas vezes escolhemos ignorar.

Não sei o que me espera nos próximos dias em Lisboa (no livro, digo eu), mas sei que sempre que estou “lá por fora” sinto a falta desta cidade e de muita coisa que se representa neste livro: o vintage, o velho, o local remoto, romântico e por vezes esquecido e abandonado pelos seus próprios habitantes.

 

Espero que o Fernado esteja mais dedicado à leitura do que eu!

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que ando a ler (19)

por Ana Vidal, em 02.01.12

Essa pergunta não é de resposta fácil, Ana Sofia. Acho que já disse por aqui que nunca leio só um livro de cada vez. Mas, como a maioria dos livros que empilho na mesa de cabeceira é de poesia - neste momento há uma invasão da maravilhosa poesia brasileira, vários livros oferecidos e com dedicatórias que me comovem - falarei aqui do último que li em prosa, acabado ontem mesmo (atravessou comigo o ano, por sinal). É O Túnel, o primeiro romance do argentino Ernesto Sabato. Dele, já tinha lido em tempos "Heróis e túmulos", um livro empolgante que me deixou água na boca e foi considerado, penso que muito justamente, o melhor romance argentino do século XX. O Túnel é um texto muito diferente, embora nos agarre igualmente pelos colarinhos e não nos deixe respirar até à última página. A estrutura é quase policial: um mergulho lento e a cada capítulo mais profundo numa trama obsessiva e tão bem urdida que, mesmo revelado o desfecho logo na primeira frase do livro, a história não perde o suspense, pelo contrário.

 

 

Juan Pablo Castel, um pintor de talento reconhecido - embora despreze totalmente as opiniões dos críticos sobre a sua obra - repara, numa exposição sua, numa mulher que, por sua vez, observa um dos seus quadros atentamente. Maravilha-o que ela se fixe num pormenor do quadro que ninguém mais parece valorizar: uma pequena janela, a um canto, através da qual se vê uma mulher olhando o mar. Está dado o mote: esta sequência, aparentemente inocente, de observadores e objectos de interesse - pintor>mulher>quadro>janela>mulher>mar - dá início a um caleidoscópio alucinante, um jogo de espelhos em permanente mutação que nos desvenda a labiríntica e tortuosa mente do narrador, o próprio pintor. Sob a batuta  de uma paixão súbita e avassaladora (não mais do que um pretexto, já que o amor por Maria não passa da busca de um nome para um papel pré-definido), começa o opressivo bailado nupcial de predador e presa, dois seres desesperados e cada um deles perdido na sua própria e inescapável solidão: Maria, a vítima, que permanece triste e misteriosa até ao fim, e Castel, o implacável algoz, que nos vai conduzindo até à exaustão pelos abismos do seu pensamento, meticulosamente organizado mas circular: "Em geral, esta sensação de estar só no mundo aparece misturada com um orgulhoso sentimento de superioridade. Desprezo os homens, vejo-os feios, sujos, incapazes, ávidos, grosseiros e mesquinhos. E então a minha solidão não me assusta, é quase olímpica. Mas naquele momento, como noutros semelhantes, encontrava-me só como consequência dos meus piores atributos, das minhas baixas acções. Em tais casos sinto que o mundo é desprezível, mas também que faço parte dele, e sou invadido por uma fúria de aniquilação." É este homem que, mesmo nos momentos de felicidade com a mulher que considera a sua alma gémea e a única pessoa no mundo capaz de compreendê-lo, é incapaz de aceitar essa felicidade e semeia nela uma dúvida envenenada até deitar tudo a perder. Um espírito destrutivo que tão bem cabe naquela frase de Schopenhauer: "Quando não tenho nenhuma angústia, é isso mesmo que me angustia".

 

A narrativa, primorosamente escrita e rica de inquietantes metáforas (não falta até uma referência a Kafka e às suas metamorfoses, com a descrição de uma transformação do narrador em pássaro, num sonho), vai num crescendo de angústia e loucura que só pode levar a um final trágico. Já o sabíamos desde a primeira página, mas chegamos lá sem fôlego e ainda expectantes de alguma coisa que possa ter-nos escapado.

 

Ernesto Sabato é um desses escritores mágicos em que a América Latina tem sido pródiga. Tem uma escrita vibrante e lúcida, que prende irremediavelmente o leitor desde as primeiras linhas. Morreu neste ano que agora acabou, a dois meses de completar cem anos. Vale a pena lê-lo.

 

Título: "O Túnel"

Autor: Ernesto Sabato

Editora portuguesa: Relógio d'Água

135 páginas (de puro prazer)

 

E tu, António, o que andas a ler por estes dias?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que ando a ler (18)

por Ana Sofia Couto, em 30.12.11

 

Cruzámo-nos muitas vezes nas livrarias antes de eu o levar comigo. Houve razões para tanta hesitação. Não sei se foi uma embirração com o título, a influência de um professor que eu admiro e que não tinha grande simpatia pelo livro ou, simplesmente, por causa das minhas dúvidas a respeito de um medicamento filosófico (uma expressão que é toda uma teoria). Mesmo assim, decidi dar-lhe uma oportunidade e comecei a ler, há poucos dias, Mais Platão, Menos Prozac!, de Lou Marinoff. O livro tem como ponto de partida a ideia de que é possível encontrar nos filósofos (e em alguns romancistas) um conjunto de preceitos que nos orientem e nos ajudem a tomar decisões. Nas primeiras páginas, percebemos que o método proposto pretende roubar clientes à psicologia e à psiquiatria. Os problemas de realização pessoal podem ser – é uma ideia reiterada – resolvidos com a ajuda dos grandes filósofos. Assim, no capítulo “Utilidade dos Estudos de Filosofia”, encontramos uma síntese das principais teses de filosofia moral que surgiram no pensamento ocidental, apesar de o “Oriente” também merecer uns parágrafos. Depois desta síntese, o autor passa à demonstração da aplicação do método. Nos dois primeiros casos (foi o que li até agora), o aconselhamento visa o autoconhecimento e a formulação de soluções através da leitura, mais ou menos orientada, de frases dos grandes pensadores. Fica, no entanto, e para desilusão de quem criou algumas expectativas na primeira parte, a ideia de que a resolução dos problemas depende da utilização de uma espécie de fórmula encontrada nas leituras sugeridas. Ou seja, apesar de afirmar a importância da meditação e sublinhar que a abordagem filosófica dos problemas traz consigo a responsabilidade pessoal, o autor explica a evolução dos vários casos de estudo descrevendo de forma muito pobre o modo como cada pessoa foi capaz de relacionar o pensamento de outros com a sua vida. Ler e perceber que não é assim tão fácil.     

 

E tu, Ana Vidal, o que tens andado a ler?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que ando a ler (17)

por Ana Margarida Craveiro, em 27.12.11

 

Nas últimas semanas, tenho andado a braços com um tijolo de 800 páginas. O autor é Steven Pinker, psicólogo social, que nos oferece este The Better Angels of Our Nature - The Decline of Violence in History and Its Causes. O subtítulo explica exactamente o conteúdo: a violência tem vindo a diminuir, ao longo do tempo, e o autor procura as causas desse declínio, recorrendo à história, sociologia, economia, psicologia e filosofia política.

Contrariamente às teses mais negras sobre a contemporaneidade, Pinker explica-nos, por estatísticas, gráficos e exemplos, que nunca vivemos tão em paz e tão tranquilos. O período posterior à Segunda Guerra Mundial caracteriza-se por uma longa paz, um período pacífico como nunca antes a espécie humana conheceu. E apresenta quatro grandes tendências que explicam esta paz: processo de pacificação, processo civilizacional, revolução humanitária e revolução dos direitos.

Os primeiros capítulos são uma descrição da nossa evolução: massacres, torturas, escravidão, guerras, enfim. A nossa história é um longo banho de sangue, que se verifica empiricamente nos esqueletos mutilados dos primeiros homens e simbolicamente nos relatos bíblicos. Só a Idade Moderna vem refrear os nossos ímpetos de chacina em massa, com o aparecimento do Estado, e o seu monopólio da violência. Pinker confirma que Hobbes tinha razão: sem o Leviathan, a vida era mesmo "nasty, brutish, and short". É o chamado Processo de Pacificação, que diminuiu as hipóteses de morrermos vítimas de homicídio ou guerra. Claro que passámos a morrer às mãos dos governantes, mas os números indicam que a vida passou a ser um bocadinho melhor.

O processo seguinte centra-se numa teoria de Norbert Elias, um daqueles autores prejudicados pelo timing inconveniente das suas conclusões. Judeu na Alemanha Nazi, Elias centrou a sua carreira na teoria do Processo Civilizacional, que nos explica como lentamente passámos a controlar melhor os nossos ímpetos, tendo como consequência uma descida, por exemplo, do número de homicídios e crimes violentos. Substituímos uma série de códigos morais relacionados com o indivíduo (duelos por honra, a vingança) por uma acção em sociedade, arbitrada pelo Estado. Ao mesmo tempo, fomos reforçando os laços societais, através do comércio, e isso também nos levou a dominarmo-nos em público. Esfaquear um sócio de negócios é capaz de não ser boa publicidade para o nosso próprio negócio.

O Iluminismo trouxe-nos a Revolução Humanitária, devidamente amplificada pelo fenómeno da imprensa. De repente, cortar pedaços aos prisioneiros e atirar mulheres amarradas para dentro de rios a ver se boiavam passou a ser cada vez mais mal visto. Livros como A Cabana do Pai Tomás foram fundamentais para desmontar mitos e ideias falsas sobre os negros, isto é, sobre a diferença. Os próprios animais beneficiaram desta revolução, com a queima lenta de gatos a deixar de ser um desporto das elites. A última grande tendência é a revolução dos direitos, incluindo mulheres, minorias étnicas e sexuais, crianças e animais.

Pinker oferece sempre números para esta difícil realidade. O nosso problema, parece, é de memória: lembramo-nos imediatamente de Hitler e de Estaline, mas esquecemos os milhões mortos pelos Mongóis, durante a Rebelião de Taiping, durante a conquista das Américas ou pela escravatura. Lembramo-nos do que está mais perto, e muito naturalmente damos mais importância. Na verdade, hoje ligamos a televisão e anunciam-nos que morreram dez afegãos ou dez iraquianos. Não há muito tempo, anunciavam-nos alguns milhares de vietnamitas. Antes disso, milhões de chineses. Passámos, inconscientemente, a dar mais valor a cada vida, e isso é bom. A espécie humana melhorou um bocadinho, mas nós temos dificuldade em aceitá-lo. Procuramos logo outros números que o desmintam: então e os Balcãs? E o Ruanda, ou o Sudão? Mas os gráficos do autor, recolhidos de várias fontes, demonstram que somos mesmo míopes: olhando para a "bigger picture", a tendência é mesmo de descida. 

Estou nas páginas finais deste livro, à descoberta dos tais "better angels" que explicam tudo isto. Mas uma coisa é certa: Kant tinha razão. A paz perpétua pode não ser perpétua, num certo sentido determinista, mas existe. Pelas instituições políticas e pelas instituições económicas, conseguimos uma sociedade um bocadinho mais cosmopolita, um bocadinho mais aberta. E, sobretudo, mais pacífica.

 

Posto isto, Ana Sofia Couto, que andas tu a ler?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que ando a ler (16)

por Ana Lima, em 26.12.11

A primeira vez que li um livro de Dulce Maria Cardoso, “Campo de Sangue”, o primeiro romance que publicou, tive uma estranha sensação. Senti que aquele livro poderia ter sido escrito por mim, ou melhor, mesmo que o tema fosse outro, aquele seria, pelo estilo, pela  construção das frases, o livro que eu escreveria se soubesse e pudesse escrever. Os outros livros que li da mesma autora não tiveram o mesmo impacto em mim mas deixaram-me a certeza que ela é uma escritora que nunca deixarei de acompanhar. Foi por isso que comprei este “O Retorno” mal ele foi publicado. Acabei de o ler na sexta-feira. 

 

Através de “O Retorno” regressamos ao ano de 1975 para acompanharmos o Rui, adolescente, desde os últimos dias em Luanda, quando se vê obrigado a deixar a sua casa, onde a mãe colocou, pela última vez, na mesa da cozinha uma toalha com dálias bordadas, até ao dia em que a sua família se muda para uma casa “com janelas coladas ao tecto”, já na metrópole, onde ele pensava existirem, com abundância, cerejas e raparigas bonitas. 

É um tempo de crescimento, de aprendizagem, um tempo em que, a viver num hotel de 5 estrelas, no Estoril, transformado pelo IARN em residência temporária de famílias sem habitação, Rui descobre o lado de cá de um império que tentava aprender, naqueles dias, a sobreviver reduzido ao seu espaço mais pequeno. Do seu quarto acanhado só a vista para um mar imenso lhe permitia sonhar com a América para onde levaria a sua mãe e a sua irmã. Não foi para a América. O seu corpo aprendeu a habituar-se à água fria deste mar, mas não se habituou ao lugar que as professoras lhe reservavam no fundo da sala por ser retornado. 

Nunca estive em África. Podia ter estado. Se os meus pais não tivessem optado pela migração interna, quando quiseram afastar-se da pobreza que os tolhia. De ambas as famílias foram os únicos. Todos os meus tios saíram de Portugal. Os mais velhos, primeiro, para o Brasil. Os outros depois para Moçambique. Estes últimos “vieram com o Rui”. Eu era demasiado pequena para compreender a revolta, a tristeza, a estranheza perante uma terra que alguns tinham deixado jurando que a ela só voltariam quando pudessem enfrentá-la com a certeza de que ela já não voltaria a rir-se deles; e que os mais novos só conheciam de fotografias. Mas não era assim tão pequena que não me tivesse ficado na memória aquele quarto de pensão em Setúbal onde as camas estavam a um palmo do fogão. Era ali que os meus primos mudavam as fraldas às bebés nascidas havia apenas alguns meses. E era ali, certamente, que eles recordavam a vida que deixaram para trás. Este livro fez-me compreendê-los melhor. 

Há dois retornos presentes nesta obra: a vinda para Portugal dos que residiam nestes territórios que passaram a constituir países independentes; e a tomada de consciência de que o sonho que se tinha ficou pelo caminho e que se está preso a uma realidade que se conhece mal mas que é preciso absorver para que se possa renascer para uma nova vida. Muitos dos que retornaram terão feito os dois. Outros terão ficado pelo retorno físico. A nenhuns a história do Rui será estranha. E nem aos que não viveram este retorno mas que sabem que a vida também se desenha em círculos e não apenas em linhas rectas.

 

E tu, Ana Margarida, queres falar-nos do livro que andas a ler?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que ando a ler (15)

por Ana Cláudia Vicente, em 23.12.11

... Adolfo, é, por coincidência, uma biografia também. E devo dizer que não foi a clássica imprecação feita título, depois de arremessada pelo biografado em modo de resposta final na entrevista à Revista Ler, em 1995, que me fez poisar por uns dias o Nemésio com que me tenho andado a entreter. Foi um excerto do Diário de 1982 citado na dobra da capa, no qual Luiz Pacheco, escritor, crítico, polemista, malandrista e outras coisas mais, evoca o período de 'vida louca de Massamá', o qual inclui certa peregrinação em pijama e casaco até Lisboa, a 25 de Abril de 1974. 

[Foto: JL, in JRF]

Porque enfim, como pode uma moderadamente pacata mactamense viver sem perceber em que consistiu a vida louca de um dos seus mais ilustres  vizinhos? Não pode: a solução é fruir da resposta serzida, entre outras, pelo autor que em tempos também brincou aos blogues, de seu nome João Pedro George. Pelo que já li - e ainda estou a chegar a meio - a obra tem disto e muito mais, em modo vivo e limpo de dizer. 

 

[Nota: Ficaram curiosos? A Tinta-da-China disponibiliza algumas páginas para degustação.]

 

Mas então e tu, Ana Lima, o que andas por estes dias a ler? Conta, conta!

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que ando a ler (14)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 19.12.11

Quando a Teresa me reencaminhou o desafio de revelar o que ando a ler pensei imediatamente em mentir. Não por vergonha mas tão simplesmente porque a revelação não só desviará a atenção para a política como me afastará do meu género de eleição, que é a ficção.

Ponderei por isso em falar da Flannery, que me enche as medidas, ou da Agustina, que merece que se fale dela. Uma e outra poderiam dar bem conta do que me apaixona na leitura. Mas tenho a leve sensação de que a Flannery não gostaria que mentisse, ainda que a Agustina, aposto, se divertisse com a coisa. Para não deixar uma vencer sobre a outra, optei pela verdade. Se não ficam a conhecer os meus gostos literários, ficam com certeza a conhecer os meus gostos políticos (venham de lá as pedras).

O que estou a ler é isto:

 

 

Não é possível descrever esta obra sem falar de Thatcher, a líder política que mais inspira, talvez porque se tenha inspirado, como eu, nas ideias de Hayek. E falar de Thatcher afasta-me um pouco dos meus propósitos neste blogue e, parece-me, da intenção desta série de posts. Sobretudo porque, apesar da recente reabilitação dos seus discursos e ideias, gostar de Thatcher ainda requer muitas explicações e gera alguma controvérsia. Ela não beneficiou nunca de uma complacência que se tem por quem vem de outros quadrantes políticos em que a bondade e a sensibilidade social são pressupostas e não têm de ser demonstradas. Mas isso é toda uma outra discussão que fica para outros plenários. Para quem a quiser conhecer melhor, antecipando o filme que aí vem, é uma boa proposta de leitura.

 

E tu, Ana Cláudia, o que andas a ler?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que ando a ler (13)

por Teresa Ribeiro, em 12.12.11

 

O que ando a ler? Bem, para não fugir à verdade tenho de responder que ando agora a ler um misógino nojento, que chegou ao cúmulo de esfaquear em público uma das suas seis mulheres. Pior que ele só mesmo o Barba Azul. Machista assumido, insuportável fanfarrão, Norman Mailer, o escritor que tenho agora à cabeceira, podia ter um péssimo carácter, mas escrevia como poucos. Dele já tinha lido O Sonho Americano (1965) e Os Duros Não Dançam (1984). Gostei dos dois romances. Da crueza do estilo, da atenção aos detalhes quando se trata de descrever a natureza humana, em que ele obviamente não acredita. Já lhe chamaram, num tom tão ácido e cínico que só poderia ser inspirado no seu, "metafísico das entranhas". Ignorem o "metafísico", que foi acrescentado às "entranhas" por blague, quanto ao resto não há exagero. Mailer vai ao fundo, mas como faz o culto exacerbado do macho man style e gosta de se identificar com os estereotipos, esforça-se também por ser bruto a escrever. Usa vocábulos duros, calão, vernáculo. Descreve as suas personagens masculinas com termos apropriados para um "gajo", tanto para o que descreve como para o que é descrito (queixo forte, mãos firmes, mandíbula longa, expressão de desprezo) e de sexo fala assumindo o mais despudorado sexismo. Mais um pouco e esse estilo tornar-se-ia caricatural. Mas estamos a falar de uma bomba que tem tanto de adrenalina como de talento, por isso o instinto preservou-o de derivas de mau gosto.

Ler Mailer é uma experiência forte. Envolve-me e ao mesmo tempo alimenta o meu voyeurismo feminino, ajudando-me a ver o mundo pelas lentes embaciadas da testosterona. Se gostei daqueles dois romances seria imperioso mais tarde ou mais cedo ler a sua masterpiece, Os Nus e os Mortos. Chegaram a compará-lo à Guerra e Paz, quando em 1948 foi editado nos Estados Unidos. Foi a estreia literária de Mailer, tinha então apenas 25 anos. Não admira que se tenha tornado no ser insuportável que o mundo conheceu. O sucesso precoce e instantâneo, como se sabe, faz mal à saúde.

Ainda nem cheguei a meio deste romance de 700 páginas mas já estou em condições de dizer que é, sem dúvida, um dos mais bem escritos e apaixonantes que já ali. Baseado na experiência de guerra do autor, que se alistou durante a Segunda Guerra Mundial e serviu nas Filipinas e no Japão, descreve as provações por que passa um grupo de soldados norte-americanos durante a invasão de uma ilha do Pacífico Sul ocupada pelos japoneses.

Narrada num estilo muito cinematográfico, esta obra, que não por acaso veio a ser adaptada para o cinema dez anos depois, descreve o horror da guerra à escala humana: "Red estava a pensar mais uma vez nos cadáveres da clareira. Sentia uma estranha fascinação ao lembrar-se da sua aparência. Uma vaga de medo penetrou no torvelinho do seu cérebro e olhou por cima do ombro, para trás de si"; "As vozes e os comandos ecoavam no vazio, perdiam-se num coro de obscenidades e roucos murmúrios, os sons esforçados e suados de homens que labutam. Ao fim duma hora nada mais existia para eles senão o pequeno canhão que tinham de puxar ao longo do trilho".

Em Os Nus e os Mortos todos os personagens têm uma biografia através da qual percebemos de que mescla de americanos são feitos os EUA, mas sendo todos homens, apesar das suas diferenças partilham com raras excepções a doença do autor, o homem que dizia que "uma mulher só se conhece verdadeiramente em tribunal": "Há só dois ingredientes para fazer uma boa festa: bebida suficiente e algumas fêmeas condescendentes" (Conn); "Eu não vou lá muito com mulheres. O que elas querem é apanhar-te, tenho visto exemplos que cheguem" (Red), "Não há uma única mulher que mereça confiança" (Brown) "Estou bem contente de não ter de me preocupar acerca de uma dessas cadelas me fazer cornudo" (Polack), "A verdade é, Robert, que a minha mulher é uma cadela" (Cummings). And so on...

Enfim, é por estas e por outras que se diz que todo o romance é autobiográfico.

 

Norman Mailer, Os Nus e os Mortos. Tradução de António Neves-Pedro. Portugália Editora (1957). 705 páginas.

 

E tu, Adolfo, o que andas a ler?

Autoria e outros dados (tags, etc)

António José Faria de Barros foi o meu primeiro chefe. Transmontano, sisudo, teimoso, frio, áspero. Ou… nada disso. Antes de mais, um ser humano marcado pela vida. A mulher morreu prematuramente. Os dois filhos, deficientes profundos, sobreviveram um par de anos à mãe. Ao longo dos cinco anos em que trabalhámos juntos, os seus olhos só se iluminavam quando, depois de um dia de trabalho duro, contava algumas histórias de caça. Foi assim, pelos relatos de interposta pessoa, que conheci Adolfo Rocha. Eram amigos de longa data e caçavam juntos. As peripécias eram saborosas e bem contadas. Por vezes, imaginava-me com eles a comer achigãs na Foz do Sabor. Ou a caminhar ao seu lado, com os pés enterrados nas lamas transmontanas de Novembro. Um dia, disse-me: sabe, a minha mulher detestava o Torga… Mantive-me em silêncio, dando-lhe tempo para esconder o rosto atrás do monitor, enquanto uma lágrima de saudade lhe desfigurava a máscara gelada com que sempre se apresentava ao mundo. Pelo visto, em determinada altura, Torga teria tido um comentário mais frio sobre os filhos deficientes do casal: não podem viver só para eles. Nada de ofensivo ou brutal. Algo até muito natural para os ouvidos de qualquer outro interlocutor. Um punhal para o coração daquela mãe. E o Senhor Dr. como reagiu, perguntei-lhe. Sabe, eu li a Criação do Mundo, pisei com ele as pedras dos caminhos de São Martinho de Anta, estive com ele no sítio onde ele tratava do estrume enquanto os outros miúdos brincavam… por isso, percebo. Da obra de Torga, até então, tinha apenas suportado Os Bichos no ensino secundário. Por obrigação e com muito pouco entusiasmo e menos proveito. O tempo foi passando, mas aquela frase ficou: eu li a Criação do Mundo. A curiosidade foi crescendo e acabei por comprar o livro. Comecei a ler sem grande esperança ou entusiasmo. A memória do Corvo Vicente ainda estava demasiado presente… Depois, o assombro foi crescendo. Em termos estruturais, o livro divide-se em 6 partes, correspondendo cada uma delas a uma fase da vida de Torga. As duas primeiras (a infância em Trás-os-Montes e a adolescência e parte da juventude no Brasil) são relatadas em páginas que me marcaram como poucos livros o fizeram. É claro que, mais para a frente, perdi a magia. Digo que a perdi eu e não o livro porque é provável que seja assim. Se bem me lembro, desliguei-me do texto a partir do momento em que Torga descreve uma viagem em automóvel, por paragens de Espanha, e cai no auto-elogio. Agora, estou a relê-lo. É uma forma de recordar António José Faria de Barros e de agradecer tantos ensinamentos que não soube retribuir-lhe, sequer em palavras, em vida. De dizer-lhe que também eu percebo tudo, todos e nada ou nenhum deles. E, sobretudo, de tentar refazer a leitura a partir do episódio de Espanha. Se tiver a sorte de reaver a magia, direi que a Criação do Mundo é, no seu todo, um livro inesquecível.

 

Como deve ser, o melhor fica para o fim: em breve, a Teresa Ribeiro vai dar continuidade à série.

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

"UM PERÍODO QUASE IDÍLICO" DE PAZ E PROSPERIDADE

 

A frase que mais contribuiu para imortalizar John Fitzgerald Kennedy no decurso dos mil dias do seu mandato na Casa Branca não foi pronunciada em inglês, mas em alemão. Ao declarar-se cidadão de Berlim no local mais emblemático da Guerra Fria, por onde passava a última fronteira do mundo livre, o 35º presidente dos Estados Unidos atingia um patamar inédito de popularidade. Ninguém imaginava, nesse dia 26 de Junho de 1963, que o seu mandato terminaria menos de cinco meses depois, ao fim de uma manhã de sol outonal em Dallas.

Muita gente ignora que essa frase não constava da versão original do seu discurso. Foi o próprio Kennedy que decidiu pronunciá-la enquanto a viatura que o conduzia nas avenidas de Berlim era saudada por multidões entusiásticas vitoriando o seu nome. Fora-lhe sugerida pelo principal conselheiro do presidente -- o seu irmão Robert Kennedy, na altura procurador-geral dos EUA.

"Há dois mil anos a afirmação mais orgulhosa era Civis Romanus suma. Hoje, no mundo da liberdade, a afirmação mais orgulhosa é Ich bin ein Berliner", declarou o líder norte-americano nas imediações do Muro da Vergonha erigido apenas dois anos antes pelos soviéticos na cidade dividida.

A génese desta frase ilustra bem a forma de trabalhar de Kennedy, um homem que gostava de funcionar em equipa e absorvia com rara intuição as melhores sugestões da sua competentíssima equipa de conselheiros. Três deles, curiosamente, oriundos das fileiras do Partido Republicano -- o secretário da Defesa, Robert McNamara, o secretário do Tesouro, C. Douglas Dillon, e o conselheiro da Segurança Nacional, McGeorge Bundy. O facto de serem simpatizantes do partido rival -- e um deles, Dillon, ter chegado a integrar a anterior administração Eisenhower e a contribuir com 26 mil dólares para a campanha presidencial de Richard Nixon -- não os impediu de atingir o primeiro plano no Executivo democrata, prova evidente do rasgo político de Kennedy. Ao ser convidado para liderar o Pentágono, McNamara reagiu com surpresa, dizendo que não tinha experiência governativa. "Também não há escola para presidentes. Aprenderemos juntos", respondeu-lhe o inquilino da Casa Branca.

 

A Liderança segundo John F. Kennedy, um livro do jornalista e colunista John A. Barnes, conduz-nos aos bastidores da vida política do mais popular presidente dos EUA no século XX que atingiu uma extraordinária taxa de aprovação -- 83% -- e à data da sua morte, segundo a Gallup, era aplaudido por 70% dos americanos.

Oriundo de uma família milionária de Boston, herói da II Guerra Mundial, congressista e depois senador pelo Massachusetts, galardoado com o Prémio Pulitzer pelo seu livro Retratos de Coragem (com uma tardia mas notável tradução portuguesa a cargo do nosso José Gomes André) e o mais jovem presidente eleito desde sempre pelo Partido Democrata, em Novembro de 1960, Kennedy tinha uma sólida cultura e um dos mais fascinantes percursos biográficos de que há memória entre os inquilinos da Casa Branca. Filho do embaixador americano em Londres, Joseph Patrick Kennedy, tinha 22 anos quando assistiu à declaração de guerra britânica à Alemanha, na manhã de 3 de Setembro de 1939, na galeria dos visitantes da Câmara dos Comuns. Um episódio que nunca mais esqueceu.

Barnes deixa bem claro nesta obra, imprescindível para todos quantos se interessam pelo processo de formação das decisões políticas: Kennedy foi um precursor em vários domínios. Estava 20 anos à frente da maioria dos políticos do seu tempo. Foi ele que pela primeira vez compreendeu a importância da televisão -- ao ponto de se ter inscrito em 1959 num curso da CBS destinado a dominar as técnicas televisivas. Foi também o primeiro presidente a conceder conferências de imprensa regulares na Casa Branca e a responder em directo aos repórteres da TV. Deu um toque majestático à presidência com os banquetes de Estado aos visitantes, inspirado na recepção de que foi alvo no Palácio de Buckingham em Junho de 1961. Baptizou o avião presidencial -- um Boeing 707 -- com o nome Air Force One, "para que descesse dos céus como símbolo do próprio poder presidencial". Transformou os assessores da Casa Branca em decisores políticos, instituindo o cargo de conselheiro da Segurança Nacional, mais importante do que muitos postos no Governo.

Onde outros viam problemas, ele via oportunidades. "Ele adorava ser presidente", lembrou o historiador Arthur Schlesinger, que também integrou  a administração Kennedy, como biógrafo oficial, apontando desta forma um dos ingredientes do sucesso deste mandato.

 

Ficaram para a história muitas frases que Kennedy proferiu nos seus discursos. Eis algumas: "Não perguntem ao vosso país o que poderá fazer por vós, perguntem a vós próprios o que podereis fazer pelo vosso país"; "Se uma sociedade livre não consegue ajudar os seus inúmeros pobres não conseguirá salvar os seus raros ricos"; "Nunca negociemos por medo -- mas nunca tenhamos medo de negociar"; "A vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã"; "Decidimos ir à Lua nesta década não porque seja fácil mas porque é difícil"; "A corrida ao armamento deve ser extinta antes que nos extinga a nós"; "Apoiamos qualquer amigo e enfrentamos qualquer inimigo para assegurar a sobrevivência e o êxito da liberdade"; "Não procuremos a resposta republicana ou a resposta democrata, mas a resposta certa".

Hoje olhamos para a presidência Kennedy e parece-nos, como acentua Barnes, "um período quase idílico" de paz e prosperidade. É sempre assim: só a passagem do tempo presta verdadeira justiça aos políticos, separando os estadistas dos restantes. Kennedy foi um estadista: já ninguém duvida disso.

............................................................................

 

Nota final: não falta quem se queixe dos preços dos livros. Depende. Comprei este há poucas semanas, na Livraria Barata -- uma das mais prestigiadas de Lisboa. Estava num recanto destinado a títulos considerados "fundo de armazém". Custou-me apenas quatro euros. É fundamental saber procurar.

............................................................................

 

John A. Barnes, A Liderança segundo John F. Kennedy. Tradução de Paulo Tiago Bento. Casa das Letras (2008). 278 páginas.

............................................................................

 

E agora passo a bola -- ou melhor, passo o livro -- ao Rui Rocha.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que ando a ler (10)

por Patrícia Reis, em 02.12.11

 

Tatiana Salem Levy é uma jovem autora brasileira, nasceu em 1979. Li o primeiro romance - A chave de casa - e agora estou a terminar este: Dois Rios. É uma leitura sincopada, como uma música quase repetitiva (no melhor dos sentidos), com um ritmo muito bom e extremamente bem escrita. Relata o encontro de Joana com Marie-Ange, uma brasileira a viver com a mãe, uma francesa de visita ao Rio de Janeiro. Uma das raridades da literatura, diria, é conseguir encontrar uma voz que se possa distinguir das demais. Tatiana Salem Levy consegue isso com uma escrita singular, envolvendo-nos numa história de amor, de culpa, de alguma loucura, de segredos, encontros e desencontros. O livro não está ainda editado em Portugal, a edição brasileira é da responsabilidade da Record. Deixo-vos o video para que possam ouvir e ver a autora.

 

O segundo livro que estou a ler (sou incapaz de ler apenas um livro, desculpem lá) é a biografia de Lúcio Feteira escrita pelo jornalista da Visão Miguel Carvalho. O Miguel é meu amigo, logo seria injusto não ser honesta convosco: gosto muito dele, gosto muito do que escreve e sigo o blog dele todos os dias (A Devida Comédia) que aconselho vivamente. A história deste livro é a história da vida de um homem sobre quem temos ouvido falar a propósito de uma herança, de uma morte, de suspeitas e outras coisas. O que me importa a mim este livro, além de ter sido escrito por um amigo? O que me importa é este gosto especial que tenho pelas biografias, aprendemos muito a ler sobre a vida dos outros. A última biografia que li e recomendo, antes desta, foi a de Clarice Lispector por Benjamin Moser, um trabalho notável. Aqui, no caso de Lúcio Feteira, vamos percorrendo a história e a vida de um homem a quem chamaram louco, génio, visionário. Miguel Carvalho levanta várias questões e a forma como escreve e nos relata quem foi Lúcio Feteira é fruto de uma pesquisa e investigação séria e, claramente, exaustiva. Ainda não terminei, mas estou a gostar. 

 

 

Passo a palavra ao Pedro Correia! Boas leituras.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estou a ler a biografia de Estaline de Jean-Jacques Marie (9)

por Luís Menezes Leitão, em 02.12.11

 

Gosto de ler biografias de personagens históricas. A História que aprendi no Liceu baseava-se na escola dos Annales,  consistente apenas no estudo da evolução económica, deixando completamente de fora as pessoas, e portanto a vida. As biografias permitem suprir essa lacuna, transmitindo-nos a vida das pessoas que modificaram a história do mundo.

 

Kissinger disse que a capacidade de Estaline nas relações internacionais justificava que ele fosse qualificado como o Cardeal Richelieu do séc. XX. O livro não transmite essa impressão. Revela-nos um homem fraco, desconfiado, e muito preocupado com a sua imagem. Era extraordinariamente baixo, ao contrário do que as fotografias sistematicamente sugerem. Mas era um homem absolutamente implacável, até nas relações familiares. A sua mulher suicidou-se, o que ele considerou como um ataque pessoal. O seu filho foi soldado no exército russo, tendo sido capturado pelos alemães. Quando estes lhe propuseram trocá-lo pelo Marechal Von Paulus, preso em Estalinegrado, Estaline respondeu que nunca trocaria um marechal por um simples soldado.

 

O período mais interessante do livro é o da II Guerra Mundial. Revela os inúmeros erros que foram cometidos por Estaline nesse período, que quase levaram a União Soviética a perder a guerra. Mas revela também que foi a sua implacável determinação, que chegava ao ponto de eliminar os subordinados que lhe desobedeciam, que no fim permitiu a vitória. Repare-se neste diálogo a pp. 513 entre Estaline e as suas tropas:

"Em meados de Outubro, o comissário político Stepanov, do Estado-Maior da Frente Oeste estacionada em Perkhuchovo, nos arredores de Moscovo, telefona ao GQG. Informa Estaline que o Estado-Maior propõe instalar-se mais a leste, em Arzamas, e o posto do comando mais perto da capital. Depois de um longo silêncio, Estaline declara: <<Camarada Stepanov, pergunte aos camaradas se têm pás.>> Stepanov não compreende. Estaline repete: <<Será que os camaradas têm aí pás?>>. Stepanov interroga os membros do Estado-Maior, depois inquire: <<Pás de sapador ou pás normais? - Tanto faz>>, responde Estaline. Stepanov, todo contente, informa-o de que dispõem de pás e pergunta-lhe o que é que deverão fazer com elas. A resposta de Estaline cai como um cutelo: <<Aconselhe os seus camaradas a pegarem nas pás e escavarem os seus próprios túmulos. Não abandonaremos Moscovo, o GQG ficará em Moscovo, e quanto a eles, não abandonarão Perkhuchovo>>".  

 

E agora chegou a vez de outro membro deste blogue: que livro andará Patrícia Reis a ler?

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Estava, digo bem, porque perdi o maldito livro hoje mesmo.

 

Ao sair para tomar café e levantar dinheiro no multibanco e visitar uma loja de electrodomésticos onde há umas merdas a bom preço (sou um Scrooge no que toca a electrodomésticos e detergentes, ao contrário da minha mulher-a-dias que é a raínha de Sabá, a Ivana Trump dos limpa-vidros) de repente olhei para as mãos — e tungas, estavam vazias. Regresso à loja de electrodomésticos, ao multibanco e ao café, entrei por desfastio numa frutaria, numa loja de candeeiros e no Celeiro, quase comprei uma barra energética com sementes de sésamo e alfafa, e telefonei para a minha namorada a choramingar. Ela é uma santa, mas mais gira, disse-me deixa lá querido, oh que azar, coitadinho, não penses nisso.

 

E eu pensei: Está bem, abelha.

 

Mal entrei em casa encomendei outro. Para poupar portes de envio mandei vir também este, este, este e este. Como precisava de um miminho, e ainda ontem fiz anos, julguei que não era mal nenhum acrescentar este. E já agora este. Ou seja, fiz um excelente negócio em portes e dei um bom uso aos meus euros, que agora estão a salvo em Inglaterra. 

 

O livro é muito bom — sei disso porque já ia na página 23. Tem a palavra o Luis Menezes Leitão

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estou a ler "Meine russischen Nachbarn" (7)

por Leonor Barros, em 28.11.11

O penúltimo dia de Agosto brindou-me com chuva. Pela janela um dia cinzento. A cidade meio pálida e precocemente escura. Largo as malas e faço o que mais gosto: passear, ver, deambular com a ligeireza de quem nada tem para fazer se não deixar-se ir por entre a multidão e sentir, respirar, ver.

Subo a rua. O passo mais rápido pela chuva insistente na cidade que me surpreende sempre e nunca se esgota em cada visita. E entro na livraria. Resisto a quase tudo menos a uma livraria recheada de títulos novos, livros baratos e o ambiente de uma religiosidade veneranda de silêncios pontilhados de virar de páginas virgens à espera de serem lidas. Um livro. Falta-me sempre um livro. Os olhos recaem sobre o mais recente livro, à data, de Wladimir Kaminer, Meine russischen Nachbarn, e é esse que há acompanhar-me nos dias de Berlim, dias de sol e de chuva, dias de muito ver e de digerir história e gente a cada esquina. Não o acabarei, contudo. A cidade absorve-me.

Meine russichen Nachbarn, os meus vizinhos russos, conta a história de dois russos, Andrej e Sergej que convenientemente ocupam o andar por cima do de Wladimir Kaminer, lá na Schönhauser Allee, algures em Prenzlauer Berg, uma zona emergente de Berlim a viver os seus melhores dias depois da Queda do Muro em Novembro de 1989. Andrej e Sergej encetam uma nova vida nesta nova Europa que se quer livre e democrática derrubados os muros físicos que a cortavam em duas, os de lá e os de cá, Ossis e Wessis. Rondando os trinta anos, Andrej de Leningrado, hoje São Petersburgo, e Sergej da Bielorússia provocam uma pequena revolução na vida aparentemente pacata dos habitantes do prédio de Schönhauser Alle. A porteira não gosta, os vizinhos reclamam do trompete logo pela manhã. Andrej luta com a língua alemã e apaixona-se pela professora enquanto Sergej assina exemplares d'O Capital de Karl Marx que venderá no e-bay como relíquias do grande filósofo e ideólogo. As aventuras sucedem-se.

E ambos teriam tido uma vida anónima e tranquila, caso tivessem escolhido um outro local para viver. É que Kaminer é um observador atento da realidade, um crítico mordaz das várias vidas que já teve e escritor implacável a quem as aventuras acontecem sempre e de forma renovada. Não poderia desperdiçar esta oportunidade e fixa-os a uma narrativa de leitura muito fácil sem artifícios ou malabarismos estilísticos e despojadamente cativante. Na vida destes dois russos vemos desfilar a União Soviética a que Kaminer disse adeus em 1990 para abraçar Berlim como sua nova pátria, as cidades também são pátria. E as histórias entrelaçam-se. E os tempos. Há a União Soviética com as suas características peculiares, os russos que não riem e Kaminer explica porquê, os moscovitas, reconhecidamente rudes nos modos e a Rússia actual de novos-ricos. E há a Alemanha e Berlim, a vida na cidade, ressentimentos e singularidades. Muito portanto num pequeno livro de 222 páginas em tom humorístico e divertido.

A leitura implica um tu com que se possam trocar impressões, um interlocutor que se possa rir connosco ou opor-se ao que bebemos nos livros, um duelo de palavras e ideias. Para minha grande pena só dois livros de Kaminer estão traduzidos em Português O panorama literário alemão virou uma página acompanhando os ventos de mudança na Alemanha e na Europa. Wladimir Kaminer é um dos mais lidos escritores de língua alemã, por cá quase um desconhecido. Para quando mais um Kaminer em português, senhores editores? Até lá deixo-vos com uma pequena amostra: "Um professor esforça-se por explicar a um pioneiro o que é o comunismo numa linguagem acessível. 'O comunismo é', diz ele, 'quando tens de comer morangos com natas todos os dias ao pequeno-almoço'. ‘Mas eu não gosto de morangos com natas’ responde o pioneiro. 'Não interessa', esclarece o professor, 'vais comê-los na mesma, quer gostes quer não'."

 


É isto que acabei de ler, Laura. Passo o testemunho ao Luis M. Jorge. O que estás a ler, Luís?  

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estou a ler "A Confraria do Vinho" (6)

por Laura Ramos, em 22.11.11

‘La lumière ne se fait que sur les tombes’, dizia Leo Ferré. Esta verdade irritava-me e citei a frase muitas vezes para me insurgir contra a ideia de predestinação dos grandes artistas à injustiça do anonimato e à implacabilidade da dura sobrevivência. Não tinha de ser assim, uma sociedade culta devia saber reconhecê-los em vida e obrigar-se a dar a cada dom sublime o seu merecido mecenas. Avec le temps, aprendi com Ferré que, de facto, para esses poucos a vida é quase sempre um gosto e seis vinténs. Mas nem por isso deixei de sentir uma emoção acrescida perante um talento que se tenha encarniçado contra as marés da sorte e sobrevivido à indiferença dos seus contemporâneos.

John Fante foi isso mesmo: um escritor americano filho de italianos pobres imigrados no Colorado, cujo pai assentava tijolos com brios de escultor e vivia entregue à bebedeira constante, às permanentes infidelidades à mulher e ao quase desprezo pelos filhos, numa espiral autoritária e primitiva que marcou o escritor para sempre.

A Confraria do Vinho é assumidamente autobiográfico e um dos últimos livros publicados por este ‘Hemingway italo-americano’, como lhe chamaram, girando em torno dos derradeiros dias do pai, quando o escritor, já casado e a viver em Malibu, regressa penosamente à casa da família perto de Sacramento e à vida entre os paisani, dominados pela idolatria às vinhas de Musso, afogados em chianti (o leite das suas segundas infâncias), eternos malandros deambulando pelas tascas à espera de se atirarem a qualquer rabo de saias.

O livro tem momentos de humor inesquecíveis, perpassados de uma sensibilidade extrema, ainda que esta se revele - nas palavras do narrador, Henry Molise – através de uma escrita que, sendo vigorosa e directa, varia entre os timbres opostos da crueza distante e do afecto profundo, à medida que se embrenha pelas descrições da vida em San Elmo, a terra onde nasce e de onde parte o mais cedo que pode, absolutamente determinado a entregar-se à paixão da escrita (uma obsessão que o consome depois de conhecer autores como Dostoyevsky, Steinbeck, Jack London, Fitzgerald, Wolfe e Chandler).

Fante até isso revive: os tempos em que, entregue a si próprio, longe do gueto italiano, é mais um homeless que desce ao fundo dos horrores da privação. Procura trabalho desesperadamente, não tem dinheiro e chega a dormir debaixo das pontes como um clochard. E quando consegue a estabilidade mínima (um quarto, uma cama, uma máquina de escrever) começa a produzir contos e histórias soltas para vários jornais e revistas, como o Evening Post, a Harper’s e a Esquire, mas é a debilidade económica que o leva a tomar em definitivo o ofício de argumentista de Hollywood, actividade pelo que ficará sobretudo conhecido. Com uma produção muito irregular, e apesar de publicar obras de grande envergadura, John Fante jamais conseguirá o estatuto de verdadeiro escritor. Será só em 1980, três anos antes da sua morte, que o poeta Buchovsky consegue, num ultimatum à sua editora, que a principal obra do escritor (Ask the Dust) seja reeditada, provocando um revivalismo da produção de Fante que o devolve à sua justa dimensão, mais de 40 anos depois da sua primeira publicação.

 

FANTE, John
'A Confraria do Vinho'                          

(The brotherhood of the grape)  
tradução de Luís Ruivo
editorial Teorema, 2007

colecção "outras estórias"

capa: Fernando Mateus

isbn 978-972-695-723-2


Passo agora a palavra à Leonor: - O que estás a ler quando não escreves?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estou a ler... alcoviteirices (5)

por João Carvalho, em 18.11.11

 

Se fosse há ainda não muito tempo, teria de dizer-vos que estava a ler o "Manual de Acolhimento do Centro Hospitalar de Gaia", vejam só. Afastada esta que mais parece uma nota de humor negro, tenho de confessar que estou a ler (imaginem) Amantes dos Reis de Portugal, um livro de segredinhos e mexericos históricos de alcova que tive de interromper há já vários meses e em que repeguei agora.

Não, não posso cair na tentação alcoviteira de agitar camas e reposteiros, sedas e damascos, linhos e estopas; tão-pouco devo deixar que se escapem alfazemas e suores ou outros aromas e odores. Não posso, porque seria injusto. O trabalho de quase 400 páginas é sério na pesquisa profunda e no modo fundamentado como expõe as histórias da História que são propostas: «o "estatuto" das amantes dos Reis de Portugal», entre «o proibido e o legitimado».

 

Dir-se-ia que um tema destes só poderia ser escrito por mulheres, certo? Deixo isso aqui à vossa consideração. Ora vejam só: uma Professora Auxiliar do Departamento de História, uma licenciada em História e Mestre em História Moderna e uma doutorada, as três da (ou pela) Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, co-autoras deste livro.

Com elas, percorremos a Dinastia Afonsina, recuada ao nascimento do Reino e à relação de D. Henrique e D. Teresa, a Dinastia de Avis, que arranca com um bastardo feito rei, a Dinastia Filipina, em que só o do meio é fiel à sua rainha, e a Dinastia de Bragança, o longo período de um regime que caminha para uma agonia cheia de pecados que ainda hoje desafiam os nossos sentidos.

 

Narrativas que devassam a vida na Corte em séculos de Monarquia, através de passos disfarçados e de olhares fugidios, carregados de culpa? Intromissão concupiscente e lânguida em camarins e docéis, antecâmaras e quartos, corredores escuros e lugares esconsos da Casa Real? Nada disso: «este não é um livro de história frívola, anedótica e muito menos voluptuosa que pretenda estudar um tema tão apelativo, mas nem por isso menos complexo», conforme garantem as autoras.

Nos matrimónios de Estado e na sucessão dinástica, não raro «os afectos secundarizavam-se face às estratégias políticas régias». Procriar, assegurar o nascimento de um varão e ultrapassar as eventuais frustrações dos soberanos (das rainhas, em especial) nesse capítulo essencial justificavam um padrão comportamental que colocava a política em primeiro lugar (ou nela se escudava para cobrir ilicitudes), em amplos períodos da História de antanho. Já noutros períodos mais chegados, com princípios morais menos elásticos e políticas mais adaptadas à realidade para que a continuidade da nação não fosse posta em perigo, passaram a considerar-se bem menos recomendáveis os devaneios incontidos do poder.

 

«Por detrás da história oficial dos reis portugueses e dos seus casamentos de Estado com princesas de toda a Europa, esconde-se uma história de paixões arrebatadoras, filhos ilegítimos e amores ilícitos que nunca foi contada.

Damas da rainha, prostitutas, barregãs, negras, escravas, cantoras líricas, atrizes, mulheres do povo ou senhoras da alta burguesia, todas competiam pela atenção e pelos favores do rei.»

Escrito por historiadoras, tem o mérito de integrar a historiografia portuguesa sem discussões, numa abordagem inesperada e inédita. E nem sequer perde tempo a decidir se voluptuosidade se escreve com p ou sem p, ou se capela-mor é com hífen ou sem hífen, porque a escrita, essa, passa ao lado do "novo acordo ortográfico" sem pestanejar.

 

É a tua vez, Laura. Conta-nos lá o que andas a ler.

 

Amantes dos Reis de Portugal

Paula Lourenço (coord.), Ana Cristina Pereira e Joana Troni

Edição: A Esfera dos Livros

1.ª ed.: Novembro/2008

2.ª ed.: Dezembro/2008

3.ª ed.: Dezembro/2008

Imagem da capa: Geoffrey Clements – Corbis

ISBN 978-989-626-136-8

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Enfim, deixem-me agora dar continuidade à jogada que o passe de belo efeito e mestria técnica do José (o meu futebolês anda cada vez melhor) proporciona. E continuo com a confissão de uma falha: não estou a ler este livro. Na verdade, já o li há alguns dias, mas como a alternativa seria, uma vez mais, escrever sobre um livro de ficção científica, opto antes por a banda desenhada. Melhor ainda: para a banda desenhada em Português de Portugal (o bom e velho). Falo do álbum As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II - Apocalipse, escrito por Filipe Melo, desenhado pelo argentino Juan Cavia e colorido pelo também argentino Santiago Villa. É a sequela a um álbum lançado em 2010 que conheceu um enorme sucesso (actualmente está esgotado): As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy. Em jeito de paródia à pulp fiction, ao cinema de terror, aos filmes de "série B" (e não só) e à cultura pop, a narrativa acompanha Eurico, um distribuidor de pizzas (no segundo volume trabalha num call center), João Vicente "Dog" Mendonça, detective do oculto, Pazuul, um demónio com seis milénios no corpo de uma miúda de seis anos, e a cabeça de uma gárgula - um grupo no mínimo estranho que, sem querer, vai salvar o mundo (três vezes em dois álbuns) na cidade de Lisboa. 

 

Invulgar? Sem dúvida. Junte-se a este improvável grupo de (anti)heróis as ilustrações soberbas de Cavia e Villa (basta ver a imagem da Ponte 25 de Abril sob o céu vermelho do Apocalipse - em baixo - ou as Torres das Amoreiras rodeadas por uma praga bíblica de gafanhotos) e a história atribulada, satírica e extremamente divertida de Filipe Melo para se chegar à conclusão de que esta obra é, de facto, única na BD portuguesa. E não só: a popularidade de Dog Mendonça e Pizzaboy já saiu do rectângulo, e os autores foram convidados a publicar alguns capítulos especials pela Dark Horse - a maior editora independente de banda desenhada norte-americana, com títulos consagrados como Sin City de Frank Miller. 

 

Já agora: o primeiro álbum contou com um prefácio de John Landis, realizador consagrado responsável, entre outras coisas, pelo filme de culto An American Werewolf in London e pelo mais famoso videoclip de todos os tempos: Thriller, de Michael Jackson. O segundo álbum, por seu lado, conta com prefácio de George Romero, que desde o clássico Night of the Living Dead dispensa quaisquer apresentações. 

 

Em resumo: para quem gosta de BD, é leitura mais do que recomendada. 

 

E a série continua com o João Carvalho.

 

 

 

As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II - Apocalipse

Argumento: Filipe Melo

Ilustração: Juan Cavia

Cor: Santiago Villa

Tinta da China, 2011

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estou a ler "China: its History and Culture" (3)

por José Maria Gui Pimentel, em 14.11.11

 

Qualquer jogador de futebol sabe que não se deve desaproveitar uma bola passada sem querer, e por isso aproveito o esférico que o jaa me enviou, tabelando no José Gomes André.

 

Foi há pouco – muito pouco – tempo que assimilei por completo um facto de que me vinha apercebendo lentamente nos últimos anos, designadamente a dimensão da Civilização Chinesa, e o facto de esta ter sido, até aos Descobrimentos, não só garantidamente rival como, muito possivelmente, mesmo superior àquilo a que simplisticamente chamarei Civilização Ocidental. Por um lado – decerto – por culpa própria, por outro também devido a um sistema de ensino enviesado, o meu olhar perante a História foi sempre eurocêntrico (bem sei que este termo já é usado para outro fim). O Livro “China: its History and Culture”, de W. Scott Morton e Charlton M. Lewis (este último creditado apenas na 4ª edição, visto que escreveu essencialmente a parte de História contemporânea) é uma concisa e eficaz introdução à enorme História da China. Uma História que, embora não deixe de ser fragmentada, é bastante mais unida do que a nossa, em virtude de factores muito específicos: China throughout its history has been comparatively isolated owing to geographical barriers. The vast Pacific Ocean on the east, the impassable gorges of the Burma border and the inhospitable plateau of Tibet to the south and west, and the arid and sparsely populated lands of Central Asia and Mongolia to the northwest and north have caused China to have less than average contact with other major civilizations and to develop its own way of life in relative isolation (pp.5).


O livro tenta, até ver com algum sucesso, contar de um modo simultaneamente apelativo e organizado as várias componentes da História – política, religiosa, económica, social, cultural, artística, etc – realçando o facto de os períodos bons num determinado aspecto não o serem necessariamente noutras vertentes. As diferenças nos campos da Religião e da Arte são as mais evidentes, até porque, designadamente no primeiro caso, continuam a manifestar-se hoje em dia, quando a China é considerada por alguns inquéritos o país mais ateu do mundo, uma categorização que, aplicada àquela cultura, é claramente desadequada. In China there was no creation myth, no source of divine law outside nature. Nature thus partook of the divine, and moral law was securely fixed in human authority, as represented by the sage kings, the Zhou founders, and Confucius. Religion for the Chinese has a practical rather than a highly mystical concern; likewise, Chinese philosophy has to do primarily with ethics and conduct in actual life, and not to any great degree with abstract questions such as are dealt with in Western metaphysics. There are notable exceptions: Buddhism, coming from India, is both mystical and intellectually complex, while Daoism does deal with Being and Nonbeing. But the practical, this-worldly tendency is inherent in Chinese religion and philosophy and finds its fullest expression in the dominant school of Confucius (pp.32). Mais à frente, Morton destaca outro factor importante: the Chinese have never felt that to hold one belief it is necessary to exclude others (pp.65)


No campo da Arte, embora a pintura tenha, tal como no Ocidente, lugar de destaque, é na paisagem e não no retrato que esta atinge o seu expoente máximo, uma realidade a que não é estranha a referida ligação do Divino à natureza. Deste modo, while the eye of the Western artist takes in the scene from the level of the average man five or six feet above the ground, the Chinese artist works from a raised viewpoint, on a hillside opposite the scene, as it were, so that he is delivered from too much teasing detail in the foreground and can obtain an overview of the whole.


Ao nível da História política, mais do que as diferenças, são as semelhanças que impressionam face à Civilização ocidental, uma vez que até aos Descobrimentos (e, mesmo depois destes, até ao século XIX) não houve praticamente contacto entre os dois mundos. É especialmente curioso e, em certo sentido, desconcertante, o modo como duas grandes civilizações como a chinesa e a romana coexistiram sem praticamente qualquer contacto, porém, em ambos os casos, atingindo um desenvolvimento civilizacional espantoso. It is evident that the Chinese knew more about Rome than the Romans knew about China. The dynastic histories of the Later Han and subsequent shorter dynasties contain these statements in their summary accounts: The people of Ta Ts’in (Rome) have historians and interpreters for foreign languages as the Han have. The walls of their cities are built of stone. They cut their hair short, wear embroidered garments, and ride in very small chariots. Their rulers only govern for a short time and are chosen from among the most worthy men. When things go badly they are changed. [An anachronism at this point, referring to the consuls under the Republic—C.P.F.] The people of Ta Ts’in are big men. . . . They dress differently from the Chinese. Their country produces gold and silver, all kinds of precious goods, amber, glass and giant eggs (ostrich eggs). From China by way of An Hsi (Parthia) they obtain silk which they re-spin into fine gauze. (…) The Ta Ts’in are honest. Prices are fixed and grain is always cheap. The granaries and public treasury are always full. (…) The Ta Ts’in first sent envoys to us (in 166 a.d.).

 

Termino com uma pequena história, que nunca destacaria não fosse a sua inegável graça: A famous scholar at court, Dong Fangsuo, was more fortunate. He was discovered to have drunk a potion of an elixir of immortality prepared for the emperor. Wu Di (importante Imperador da dinastia Han: 156 AC-87 AC) was furious and ordered him to be killed, to which Dong Fangsuo, with admirable presence of mind, saved himself by replying, “If the elixir was genuine, your Majesty can do me no harm; if it was not, what harm have I done?


Morton, W. Scott and Lewis, Charlton M. – China: Its History and Culture, 4th ed (2004)

McGraw-Hill

 

E agora chuto a bola ao João Campos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estou a ler Uma Mentira Mil Vezes Repetida (2)

por José António Abreu, em 07.11.11
A Ivone passou-me a bola mas, na altura, eu nem me dei conta, o que suponho constituir prova suficiente de que o mecanismo de defesa que me permite não ver indicações cujo objectivo seja fazer-me trabalhar mais está a funcionar correctamente. (Nota: trata-se mesmo de não ver e não de fingir não ver, que isso seria batota.) Ainda assim, não escapei ao repto e, porque no 'Delito' o alfabeto começa onde um homem (ou, neste caso, uma mulher) quiser (para grande alívio do Adolfo, que já admitiu ter ficado farto de ser o primeiro a ser chamado na escola), cabe-me continuar a série de textos sobre os livros que cada um de nós anda a ler.

 

Ora bem, estou a ler pelo menos três mas dois de forma irregular: Os Crimes dos Viúvos Negros, de Isaac Asimov, livro que há uma semana e tal me fez passar uma vergonha na Fnac, e Mortes Imaginárias, de Michel Schneider. Sendo formados por textos curtos e independentes (contos no primeiro caso, ensaios no segundo), vou-lhes pegando quando acabo outras obras. Quanto ao terceiro livro, aquele que estou verdadeiramente a ler no momento, é Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo. Peguei-lhe na Sexta-Feira, cumprindo uma promessa feita dias antes a mim mesmo de que, acabado o livro que então estava a ler, a minha próxima leitura sairia de um montinho na minha mesa da sala com quatro obras recentes de autores portugueses contemporâneos: Uma Mentira Mil Vezes Repetida; O Retorno, de Dulce Maria Cardoso; Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho; e Por Este Mundo Acima, da minha colega delituosa Patrícia Reis (já agora, façam-me o favor de manter em segredo o facto de eu ainda não ter lido o livro dela, ok?). Por que escolhi a do Marmelo? Hmmm, querem mesmo saber? Os que responderam «não» façam o favor de se mudar imediatamente para o Arrastão ou para o Blasfémias. Os restantes merecem a verdade: tenho um fetiche por chapéus de coco desde os tempos em que Mr. Steed era tão cool usando um que conseguia ter Mrs. Peel como parceira (estranhamente, a minha relação com os guarda-chuvas é cem por cento impessoal ou até um pouco antagónica).

 

Mas basta de falar de mim. Do que trata Uma Mentira Mil Vezes Repetida, se é que a ficção trata alguma vez de alguma coisa? Tão simples que se conta numa frase: trata das histórias escritas por Marcos Sacatepequez, um autor do Belize que levou à falência todas as editoras que o publicaram e cujo corpo sem vida andou a passear pelo mundo em resultado de um conflito legal entre a viúva e o governo da Guatemala antes de desaparecer em parte incerta, e também de acontecimentos da vida de Albrecht, um marinheiro flamengo que se julga amaldiçoado depois de partilhar um navio com o cadáver de Sacatepequez, e ainda do facto de um e outro serem personagens de Cidade Conquistada, a monumental obra de Oscar Schidinski, um desconhecido escritor húngaro que em fuga ao nazismo terá passado por Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial antes de também ele desaparecer num navio efectuando a travessia do Atlântico (a menos que, como alvitra Afonso Cão, um mendigo de Gondomar que o conheceu em Lisboa, tenha ido para a Argentina e ficado famoso com o nome de Jorge Luis Borges), e ainda da circunstância de Cidade Conquistada e o seu autor serem afinal obra de um portuense que aproveita o tempo de que dispõe na sequência da generosa reforma por invalidez que, aos trinta e seis anos de idade, lhe foi atribuída em resultado de uma grave doença de pele causada pelo «implacável stresse do funcionalismo público» para se sentar nos transportes públicos agarrando um volumoso calhamaço de mil e duzentas páginas com o título Cidade Conquistada, que ele próprio encheu de textos avulsos retirados da internet (entre os quais um de Borges) e mandou depois encadernar, o qual lhe serve de pretexto para meter conversa com os outros passageiros, a quem conta episódios da vida de Schidinski e histórias de Sacatepequez (como a excelente O homem-zebra, pretensamente incluída em Cidade Conquistada e que abre Uma Mentira Mil Vezes Repetida), salientando quão injusto é um escritor de tal calibre permanecer desconhecido da maioria do público, tudo na esperança de, incapaz de escrever um livro de sucesso ele mesmo (apesar de algumas brilhantes ideias tidas no passado mas antecipadas por escritores como José Saramago e Almudena Grandes), acabar por se tornar num intelectual famoso, convidado para colóquios e programas televisivos como especialista maior num autor monumental e enigmático. (Ponto1: Eu não garanti que se explicava numa frase? Ponto 2: Não é curioso como essa frase, oficialmente a mais longa que alguma vez escrevi, parece acabar cedo demais? Uma pessoa começa a ler, activa o regulador de velocidade e depois está distraída quando é preciso travar...) Ah, só mais um pormenor: tudo isto (o portuense nos transportes públicos, o livro do autor húngaro e as personagens desse mesmo livro) é afinal obra de um portuense, Manuel Jorge Marmelo, que anda há meses a colocar no seu blogue crónicas de viagens de autocarro pela cidade do Porto.

 

Confusos? You won't be, after this week's episode of... Soap. (Credo, duas referências a séries televisivas de culto no mesmo post. Ainda bem que miúdos com menos de trinta anos não lêem textos deste tamanho ou entrariam em parafuso.) A verdade é que, lendo o livro, torna-se fácil distinguir os vários planos e isto constitui um elogio tanto à forma como ele se encontra estruturado como escrito. Uma Mentira Mil Vezes Repetida encaixa-se naquela corrente literária em que, por inserção de vários níveis de ficção, e pelo modo como esta se intercala com e sobrepõe à realidade (também ela parcial ou totalmente ficcionada), se questiona o papel da literatura na vida comum, e cujos expoentes máximos são gente como Jorge Luis Borges (obviamente, mencionado no livro de forma nada acidental), Italo Calvino, Enrique Vila-Matas e Roberto Bolaño. Terceiro livro de Manuel Jorge Marmelo que leio (após Os Fantasmas de Pessoa e As Sereias do Mindelo), Uma Mentira Mil Vezes Repetida ameaça ser o melhor. Porém, encontrando-me apenas a meio, não posso emitir um juízo concludente nem contar-vos como acaba. Posso apenas desejar que o narrador não se veja afectado pelo anunciado corte de linhas nos transportes públicos.

 

E agora cabe-me passar a vez. O que é que andas ler, José Gomes André

  

Marmelo, Manuel Jorge Uma Mentira Mil Vezes Repetida

Quetzal Editores (2011)

Col. Língua Comum

ISBN 9789725649725

(Nota: Apesar de ser uma edição da Quetzal, Uma Mentira Mil Vezes Repetida encontra-se em português.)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estou a ler A Mecânica da Ficção (1)

por Ivone Mendes da Silva, em 03.11.11

 

Ontem, na caixa de comentários ao post que escrevi sobre releituras, resolvemos iniciar uma série nova no Delito: Estou a ler

Mais me valia ter estado caladinha, em dieta de posts. Coube-me começar a série, que avançará por ordem alfabética. Um por dia.

Como lá disse, de momento releio A Mecânica da Ficçãode James Wood. Não me perguntem o porquê da releitura. Não sei.

Lembro-me de ter estado, há dias, a escrever num mail uma frase de Mau tempo no canal , “Margarida não ia triste nem alegre: ia embrulhada no casaco cinzento, de gola puxada para cima”, porque era uma excelente frase para ilustrar o que pretendia dizer, mudada a cor do casaco.

Que associação de ideias fiz, não vo-la sei contar, o certo é que, dali a instantes, estava sentada no sofá a beber chá dos Açores e a ler, a reler, A Mecânica da Ficção.

James Wood é um renomado crítico literário, com aversões e admirações como qualquer bom crítico que se preze e, actualmente, professor de Prática da Crítica Literária em Harvard.

Neste livro, conduz-nos ao longo de pequenos capítulos aforísticos entre metáforas e diálogos, como se de uma visita guiada se tratasse. Wood aponta, mostra, chama a atenção. De Iris Murdoch a Tolstói, de Saramago a Joyce, de Proust a Virginia Woolf, de Updike a Shakespeare, de Coetzee a Flaubert, está lá tudo. Quase tudo.

Eu que me prendo, às vezes, nos emaranhados gongóricos de algumas frases e estilos e, por muito que não queira, acabo sempre por voltar ao damasco ondulado de certas formas de dizer e de contar as coisas, não deixo, não quero deixar nunca, de me deslumbrar com a capacidade iluminadora de parágrafos como este:

 

Em Sea and Sardinia, Lawrence descreve as pernas curtas do rei Vítor Manuel; mas refere-se às “suas pequenas pernas curtas”. Tecnicamente, não há necessidade para “pequenas” e “curtas” na mesma frase. Se Lawrence fosse um estudante, o seu professor teria escrito “redundância” na margem da folha e riscado um dos adjectivos. Mas se repetirmos a frase em voz alta, o que é redundante passa a ser inevitável. A frase precisa das duas palavras, porque só as duas juntas produzem o efeito cómico. E “pequenas” não significa exactamente o mesmo que “curtas”: as duas desfrutam da companhia uma da outra; e “pequenas pernas curtas” é mais original que do “curtas pernas pequenas”, por ser mais eufónico, mais absurdo, forçando-nos a tropeçar ligeiramente – um tropeção de pernas curtas – no ritmo inesperado.

 

Estou sempre disposta a que me ensinem a ler melhor. Estou convicta de que ler melhor é viver melhor.

E agora passo ao jaa.

 

Wood, James A Mecânica da Ficção

Tradução de Rogério Casanova

Livros Quetzal (2010)

Col. Textos Breves

ISBN 9789725648551

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D