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SNS: atrás de mim virá...

por Teresa Ribeiro, em 06.06.15

  

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Fiquei a saber por uma amiga que as urgências dos hospitais particulares já não são o que eram. Desde que os seguros de saúde se popularizaram, as salas de espera começaram a encher e o atendimento a degradar-se. O tempo em que as pessoas eram logo recebidas pelo médico já lá vai. Ela, que por razões de saúde recorre com frequência a estes serviços, está a ver crescer o seu rol de queixas a olhos vistos. O último episódio aconteceu há dias. Entrou no hospital da Luz a deitar sangue pelo nariz e pela boca, sem motivo evidente, e deixaram-na plantada à espera, com um saco para aparar a hemorragia na mão, alegando que ali o atendimento é por ordem de chegada.

Há uns tempos, desta feita no hospital da CUF, também eu fui surpreendida por uma cena ao melhor estilo do SNS. Uma médica teve o topete de me dizer, para começo de conversa, que só tinha 15 minutos para me atender. Num centro de saúde os mimos seriam os mesmos só que ficariam muito mais em conta.

Tudo isto me fez pensar na morte anunciada do SNS e nos mitos que paralelamente se têm alimentado acerca da excelência dos serviços de saúde privados. Com a massificação do acesso das pessoas a estes cuidados é claro que a qualidade tende a degradar-se. Aquela médica que precisava de me despachar em 15 minutos devia ter um contrato de outsourcing com o hospital que a obrigava a aviar x doentes à hora. Para oferecerem tarifas competitivas, estes hospitais têm que despachar muita gente em pouco tempo. No caso das urgências aplica-se a mesma lógica com a agravante de a facturação por utente poder subir exponencialmente em função dos exames pedidos, o que nos remeterá sempre para dúvidas quanto à real necessidade de alguns desses exames. Business is business

Faço um flash back e vêm-me à memória as inúmeras decepções que apanhei com o nosso Estado Social. Sempre me senti roubada por ser obrigada a pagar tantos impostos por tão baixo retorno. Idealmente o que o Estado nos cobra devia corresponder a serviços de excelência, só que tal nunca aconteceu nem acontecerá, bem sei. Mas como diz o ditado popular, "atrás de mim virá quem de mim bom fará". 

Se é para pagar um mau serviço prefiro o que me custa menos dinheiro e não seja para lucro de investidores privados. Admito que nesta minha escolha há uma base ideológica. Não abdico da convicção de que o melhor sistema é o que assegura aos contribuintes o retorno dos seus impostos através de apoio à doença, à velhice e no desemprego. Isso faz de mim, aos olhos dos meus amigos liberais, uma estatista, com a cabeça cheia de ideias anquilosadas, defensora de um modelo de sociedade que só aproveita aos parasitas que não têm fibra para se fazer à vida sem o Estado a pôr a mão por baixo.

Mas a verdade é que não me importo de sustentar com o dinheiro dos meus impostos os "parasitas" que recorrem ao SNS e vão inscrever-se no centro de emprego para ganhar algum nos cursos de formação. Não foram esses que entupiram a administração pública de tachos, blindaram a justiça, puseram o que deviam descontar para impostos a render em off-shores, desperdiçaram os rios de dinheiro que nos chegaram da UE em tempo útil e assinaram  contratos que levaram o Estado à ruína.

Os meus amigos que um dia vão sentir no seu lliberal pêlo o que é adoecer e envelhecer numa sociedade quase sem protecção social, ainda vão ter muitas saudades do velho SNS enquanto secam na urgência que puderem pagar, pelos cuidados que o seu seguro de saúde cobrir. 

 

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Alguma coisa deve recear o BCE para no início deste mês ter colocado no terreno toda a artilharia pesada. O objectivo das medidas (novo programa de injecção monetária no sector bancário e compra de activos titularizados, incluindo créditos ao sector imobiliário) é combater uma situação pré-deflacionária, em que a inflação subjacente para o conjunto da zona euro é de 0,9%, para situá-la em torno dos 2%. Mas confundir a inflação resultante de um desajustamento temporal dos factores de produção quando a economia cresce impulsionada por uma procura robusta, com a taumaturgia de que aumentando a massa monetária e desencadeando um processo inflacionário conseguiríamos espicaçar a procura, isso, lamento, é absurdo.

 

Mas o dislate é apenas aparente, porque as medidas monetaristas adoptadas em 4 de Setembro são apenas o álibi que permite a Draghi enviar a sua verdadeira mensagem: com estas medidas esgotámos todos os cartuchos de que dispomos e que são permitidos pelos estatutos do BCE para estimular a procura pela via monetária; a partir de agora toca aos políticos empreender as reformas necessárias para relançar a economia. Sem reformas estruturais profundas e corajosas as políticas monetárias por si só não nos tirarão do marasmo generalizado em que a UE se encontra. É necessária uma política concertada de reformas a nível europeu, com metas e mecanismos claros de implementação, para superar a presente situação de empobrecimento progressivo. Em Portugal fez-se alguma coisa, mas muito pouco. Qualquer tentativa de reforma esbarra na constituição ou provoca o levantamento dos "defensores" do Estado Social, quando é precisamente o imobilismo face às mudanças na sociedade e no mundo que o faz perigar.

 

Só um programa de reformas europeu poderá romper os escolhos de políticas nacionais de vistas curtas e populistas, mais interessadas em cortejar votantes que em sanear estruturas e mecanismos obsoletos. Um novo Pacto de Estabilidade e Crescimento. Uma concertação indispensável para cimentar solidamente uma prosperidade que nos permita continuar a pagar o Estado Social de que beneficiamos, que constitui um dos grandes feitos da Europa e é talvez, a par do humanismo, o nosso maior património.

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Penso rápido (34)

por Pedro Correia, em 31.07.14

O Estado Social é inseparável do crescimento económico: nos 30 anos subsequentes à II Guerra Mundial, estas duas realidades progrediram a par. Potenciadas por múltiplos factores entretanto desaparecidos: mercados coloniais, matérias-primas baratas, petróleo a bom preço, taxa de natalidade muito elevada, proteccionismo industrial, restrições à circulação de produtos, pessoas e bens. Tudo isso terminou. Fomos os últimos a fazer cair o pano com o fim do nosso império, em 1975. As três décadas seguintes caracterizaram-se pela inversão dos dados anteriores. E, portanto, pela atrofia europeia enquanto as restantes regiões do globo registavam índices de prosperidade jamais alcançados. Alguns que tanto defenderam a globalização - a quebra de fronteiras e barreiras - sentem-se agora vítimas dela e pretendem regressar ao quadro anterior. Que é impossível. Não há colónias como mercado de escoamento de bens manufacturados e fonte de matérias-primas baratas. Nem petróleo a preços reduzidos. Nem restrições à circulação de pessoas e capitais. Nem filhos em número suficiente. Nem pode haver, por tudo isto, o Estado Social que houve em tempos anteriores.

Não se pode nunca ter o melhor de dois mundos.

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Com jeito vai

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.04.14

"Não haverá aumento de impostos ou esforço extra sobre salários e pensões", Maria Luís Albuquerque, 15/04/2014

 

"IVA sobe para 23,25%";

"A taxa contributiva, conhecida como TSU, vai aumentar 0,2 pontos percentuais para todos os trabalhadores, subindo, assim, de 11% para 11,2%";

"Pensões acima de mil euros pagam nova CES"

 

A Rádio Renascença, que deve andar mancomunada com a CGTP e o camarada Jerónimo, confirmou-me que, efectivamente, a ministra disse uma coisa no dia 15 de Abril e duas semanas depois acabou a dar o dito por não dito. Sei que o Governo também anunciou que os aumentos seriam só para 2015, que as previsões para o desemprego são mais optimistas do que as da troika e que em 2018 não haverá défice. Boas notícias, portanto.

Registo que com a mesma seriedade disseram antes que não iam cortar salários nem subsídios; que ninguém mexeria nas pensões; que o OE de 2012 foi condicionado, mas que o de 2013 é que já era deles. Enfim, a execução orçamental seria uma maravilha, a economia estaria a crescer no final de 2012, sem cortes, e por aí fora. Pelo caminho percebi que Passos Coelho se estava a lixar para as eleições. Os portugueses até nisto acreditaram e estoicamente tudo suportaram. Tinham motivos para isso.

Agora que tudo passou, que vêm aí as eleições europeias, que vejo os reformados e os trabalhadores muito mais aliviados nas suas pensões e salários, estou tão baralhado que entrei na fase em que acredito em tudo. Até na ministra.

Convenci-me, sabe-se lá porquê, como diz o exagerado do Pedro Santos Guerreiro, que "o martírio é agora diferente". Exultei com a boa nova. Estou tão esperançoso com o futuro dos meus compatriotas e do meu longínquo Portugal que não sei se compre uma garrafa de champagne. Ou, estou indeciso, se aproveitarei o facto de estarmos no Primeiro de Maio para acender uma vela à família Pingo Doce e encomendar uns panchões para celebrar as conquistas deste novo Abril, quarenta anos depois.

De qualquer modo, penso que os portugueses vão ficar satisfeitos. As coisas estão a compor-se. Tanto mais que agora vem aí mais um grupo de trabalho para transformar Portugal numa enorme cozinha, cheia de pançudos e de estrelas Michelin, há todos os motivos para celebrar.

Para os mais cépticos - sim, porque nestas ocasiões aparecem sempre uns tipos a desfazer estas conquistas -, e de maneira a que o martírio se torne ainda menos doloroso e se transforme em prazer, pois que já se sabe que apesar das iguarias só ficaremos limpos lá para 2018, o melhor mesmo é os portugueses estarem preparados para o que ainda aí vem. E ouvirem tudo com muita atenção. Os sorteios de carros do fisco já ninguém os tira, mas não tarda e o ministro Paulo Macedo, já me confidenciaram, anunciará com o seu à-vontade de fadista o aprofundamento do estado social e a compartição integral do Serviço Nacional de Saúde na aquisição de bisnagas de vaselina. Este Governo sabe que quando se trata de abrir alas para a entrada dos clisteres que nos irão ajudar a libertar as gorduras e reformar o Estado, não há nada como ter alguém que zele por nós, garanta os cuidados paliativos e nos facilite o martírio.

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Insegurança social - VII

por Teresa Ribeiro, em 28.11.13

Não me esqueço do dia em que ao sentar-me para mais uma "entrevista", informando enquanto tirava um molho de papéis da mala que tinha vários assuntos a tratar, uma funcionária de olhos nos meus me diz em voz baixa: "Desculpe, mas eu vou ter que lhe pedir para não demorar muito tempo. É que eu fui aqui colocada pelo centro de emprego há poucos meses e tenho ordens para não perder mais do que 15 minutos com cada pessoa. A minha chefe não quer saber se atendo bem ou mal. O que não posso é baixar a média de atendimento de quatro pessoas por hora. Quando me avisou que tinha muitos assuntos para tratar achei melhor pedir-lhe desde já este favor porque é a manutenção do meu emprego que está em causa, entende?"

Foi surreal, mas entendi. Longe de mim comprometer o emprego da senhora. Entendi tudo: o stress dela e a suprema hipocrisia dos responsáveis pelos "serviços de apoio" aos contribuintes, onde o que contam são os índices de produtividade e não a qualidade da resposta que é dada aos utentes.

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Insegurança social - VI

por Teresa Ribeiro, em 27.11.13

Há trabalhadores independentes que para fugir à mão pesada da Segurança Social passam a vida a abrir e a fechar actividade. Uns porque têm rendimentos irregulares, outros porque apesar de exercerem actividade regular ou mesmo contínua, recebem quando o rei faz anos. Nestas andanças pode haver desnorte, como foi o caso de uma senhora que sem se aperceber manteve a actividade aberta apesar de ter estado sem trabalhar vários meses.

Enquanto esperava pela sua entrevista sentada ao meu lado confidenciou-me: "Não tenho esperança de reaver o dinheiro que eu sei que me hão-de cobrar". E eu perguntei-me se ela estava a ser realista ou se aquele conformismo não tinha razão de ser. Poderá a Segurança Social cobrar sobre rendimento zero só porque o trabalhador, por algum motivo, não deu baixa da sua actividade?

A sua entrevista decorreu muito antes da minha, de modo que quando já estava de saída pude perguntar-lhe: "Então?" Respondeu-me: "Entreguei um pedido de reavaliação da minha dívida mas a funcionária que me atendeu não me deu esperança. Eu não lhe dizia?"

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Insegurança social - V

por Teresa Ribeiro, em 26.11.13

Há casos que ecoam pela sala enquanto se espera por vez, como o daquela mulher que desesperada vociferou: "De 800 euros que recebi no ano passado a Segurança Social tirou-me mais de 400 e você diz-me que isto pode acontecer?!"

Fiz contas por alto. Distribuídos pelos 12 meses do ano não chega a 80 euros por mês. Se aquela era a única fonte de rendimento não dava para viver. Como se tivesse adivinhado os meus pensamentos, a mulher acrescentou: "Não dá para sobreviver. Só me aguento porque tenho marido".

Perguntei-me se isto é legal. Se é possível não em teoria - porque em teoria não pode ser - mas na prática, derivado de alguma depravação do sistema tributário. A avaliar pelo que me ia chegando do discurso da funcionária que a atendeu sim, é possível.

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Insegurança social - IV

por Teresa Ribeiro, em 25.11.13

O principal desconforto na nossa relação com o Estado advém da consciência plena de que é desigual e injusta. Essa percepção é partilhada, evidentemente, pelos funcionários que dão rosto à burocracia. Daí a indiferença gélida ou, no extremo oposto, o falso empenhamento com que alguns profissionais por vezes nos brindam. Já me aconteceu ser atendida por uma senhora que me garantiu, para começo de conversa, que se interessava mesmo pelas pessoas, embora tenha verificado algum tempo depois, e por outra via, que o meu assunto tinha sido arquivado, sem que disso ela me tenha dado conhecimento, como prometera.

O tom mais comum é porém o que vai do polido fastio a uma cordialidade que, quando há empatia, se deixa contaminar, nos casos mais difíceis, por manifesta comiseração. Testemunhas privilegiadas da inoperância do sistema é assim que estes funcionários se blindam relativamente à desconfiança, desespero, irritação e demais efervescências que acompanham as pessoas que atendem uma a seguir a outra, dia após dia, das 9h às 17h, excepto sábados, domingos e feriados.

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Insegurança social - III

por Teresa Ribeiro, em 20.11.13

Para dar um ar de eficiência a Segurança Social criou linhas de atendimento directo, mas que não passam de call centers. As pessoas que atendem não são funcionárias da S.S. mas gente que recebeu formação nos moldes em que a tropa dos call centers costuma receber, ficando habilitada a responder a questões elementares e a distribuir os interlocutores mais complicados pelos vários balcões de atendimento mediante a marcação de entrevistas.

As chamadas são pagas e invariavelmente retêm os utentes durante vários minutos, até que um gravador os informa que "neste momento não é possível atender a sua chamada, por favor ligue mais tarde". Depois de muita insistência consegui que me atendessem, mas remeteram-me para outra linha, a 707200217. Não estranhei a gravação que me pediu para esperar em termos irrepreensíveis: "obrigada por aguardar, a sua chamada será atendida dentro de momentos, por favor não desligue", mas a cadência. Tão anormal que ao fim de poucos minutos pus-me a cronometrar, já de nervos em franja. Verifiquei que por minuto as pessoas que estão em linha ouvem esta mensagem sete vezes. Se aguardarem quatro minutos, que foi o que esperei, tê-la-ão ouvido 28 vezes. Como exercício de aquecimento posso assegurar que funciona.

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Insegurança social - II

por Teresa Ribeiro, em 19.11.13

O primeiro mandamento do utente da Administração Pública é: "Nunca resolverás os teus assuntos à primeira tentativa".

 

Ontem informaram-me, através da linha verde 808266266, que devia dirigir-me à Praça de Londres. Hoje, quando fui à Praça de Londres disseram-me que já não era ali que se ocupavam de casos como o meu e recambiaram-me para o Areeiro. É a Administração Pública no seu melhor. Incompetente e indiferente aos transtornos que a sua inoperância possa causar. Quando cheguei ao Areeiro já tinha 90 pessoas à minha frente. Não havia lugares sentados para tanta gente. Desisti, mas tenho apenas dez dias úteis para reclamar, não me posso armar em esquisita por muito mais tempo.

Um dia destes perguntei à senhora que me atendeu ao telefone que prazo tinha a Segurança Social para responder aos utentes, só para ver o que me respondia. Engasgou-se logo. Alegou que naquele serviço não podiam esclarecer esse género de dúvidas: "Não estamos afectos a nenhum centro distrital, nem a nenhuma secção, logo as nossas informações são restritas", disse. Aconselhou-me a colocar a questão online. 

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Insegurança social - I

por Teresa Ribeiro, em 18.11.13

A Segurança Social anda a cobrar-me acima do que era suposto. A situação arrasta-se apesar dos meus esforços para tentar resolvê-la. A consequência disto é que continuam a enviar-me periodicamente notas de dívida exigindo pagamentos indevidos, ainda por cima com juros acrescidos. Comecei por reclamar por escrito, depois pela linha de atendimento permanente, através da qual fui conseguindo entrevistas no centro do Areeiro, em Lisboa. É para lá que eu tenho caminhado a espaços, durante os últimos meses. Dou-lhes os elementos que pedem, pois não tenho nada a esconder, garantem-me uma resposta que nunca vem, ou vem sem justificação, algo que me é necessário se quiser contestá-la. E é neste círculo vicioso que me vão consumindo, à espera que baixe os braços.

Não por acaso, à entrada deste centro está sempre um polícia aparatosamente artilhado, com pistola à vista, algemas e cacetete. Num desses dias em que fui queimar o meu rico tempo para mais uma entrevista, meti-me com ele: "Isso é para desencorajar os mais nervosos?" Foi simpático. Sorriu e respondeu-me: "Pois, às vezes as pessoas perdem a cabeça".

Como eu as entendo.

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Pensões milionárias de sobrevivência

por Helena Sacadura Cabral, em 28.10.13

O Correio da Manhã noticia que dez pensionistas recebem prestações de sobrevivência que custam aos cofres da Segurança Social 893 mil euros por ano.
A ser verdade, e feita uma pequena conta de dividir, tal significaria que o/a sobrevivente casara e enviuvara de um verdadeiro “tubarão” salarial. Com efeito a viuvez permite que cada um destes pensionistas receba em média 89.300 euros anuais!

Há casos em que a viuvez parece compensar...

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 27.10.13

«Os europeus vivem uma viragem de época: por outras palavras, já não podem viver como dantes. A Europa tem no estado social um dos pilares da sua identidade e do consenso social. "O Estado social não tem preço", diz-se. Mas o contrato intergeracional está ameaçado de ruptura. A resistência à reforma é a mais rápida via para o colapso. E, mesmo reduzido e racionalizado, o sistema não será sustentável sem crescimento. E não haverá crescimento sem outras reformas, cmo a do mercado de trabalho -- já efectiva nos países do Norte, mas ainda tabu nos países do Sul. O mito do "trabalho fixo para toda a vida" é uma fábrica de desemprego e um meio de segregar os jovens.»

Jorge Almeida Fernandes, Público

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Portugal, 2015

por Rui Rocha, em 03.12.12

Chegámos ao debate sobre o Estado Social sem que previamente se tenha discutido de forma séria a necessidade de expurgar a administração central e local do desperdício, das redes clientelares e das correspondentes ineficiências. Os partidos do arco da governação (ou do arco do memorando) paralisam a discussão apontando a evidência de que as grandes rubricas da despesa são os custos com pessoal e as prestações sociais. Ora, se isto é verdade, tal não implica que não exista uma precedência natural (e ética) que impõe que postos de trabalho e dimensão social só possam ser atingidos depois, e nunca antes, de ser racionalizada (que não racionada) a máquina do Estado. Os restantes partidos da esquerda, ou do arco da velha, apresentam um condicionamento que os impede de discutir em bases sérias qualquer aspecto relacionado com a dimensão e as funções do Estado: tudo no Estado é bom, incluindo o que é mau. À direita, a ala liberal padece de atavismo inverso: tudo é mau no Estado, incluindo o que é bom. O resultado de tudo isto é um bloqueio no debate que não impede o curso inexorável dos acontecimentos. Endividado e dependente de uma economia incapaz de contrariar a hemorragia, o Estado português embaterá na realidade e ver-se-á obrigado a reduzir drasticamente a despesa. Os interesses instalados e o viés ideológico à esquerda e à direita terão impedido, por essa altura, qualquer reestruturação racional que liberte o país das clientelas incrustadas na máquina do Estado (vejam-se, a título de meros exemplos, a resistência consentida por Relvas a qualquer reorganização ao nível dos municípios ou a permanência dos lobbies universitários que acabam de impor a sua vontade em prejuízo do financiamento do ensino básico e secundário). Isto é, os portugueses passarão de uma situação em que beneficiavam de uma protecção social que aspirava a ser de tipo escandinavo (passe o exagero) suportada por uma economia periclitante, para uma outra em que uma contribuição fiscal de nível escandinavo (sem exagero) terá como contrapartida uma protecção social miserável. Teremos então o pior de dois mundos. Um Estado ineficaz e capturado por interesses que é incapaz de oferecer qualquer contrapartida. Um Estado ávido de impostos que servirão para pagar boys, rotundas, iluminações de Natal e rendas de empresas de regime, mas já não pensões, subsídios de desemprego ou a instrução dos nossos filhos. Um Estado incapaz, sequer, de cumprir razoavelmente qualquer das suas outras funções essenciais. Portugal, em 2015, não será apenas um Estado falido. Ter-se-á tornado, entretanto, um Estado imoral.

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Refundar o Estado Social.

por Luís Menezes Leitão, em 30.11.12

Se já nos estamos a ver gregos com o Orçamento para 2013, imagine-se o que será em 2014, em que vai ser preciso cortar 4.000 milhões para pôr o défice nos miraculosos 2,5% do PIB, que aliás ainda estão longe dos 0,5% exigidos pelo Tratado Orçamental. Conhecendo o actual Governo, imagino as propostas que aí vêm:

1) Limitar a escolaridade obrigatória à 4ª classe. No tempo dos nossos avós era assim. A seguir fecham-se todas as escolas secundárias e  universidades públicas. Quem quiser ter educação complementar que vá para uma escola privada. Mas em bom rigor nem isso será necessário, pois o que se pretende é que os alunos deixem de ser piegas e comecem a trabalhar muito cedo. Daqui a vinte anos terão sempre possibilidade de pedir equivalência à licenciatura ou até ao doutoramento com base no currículo profissional.

2) Extinguir todo o sistema de saúde público. Quando mais depressa morrermos, mais depressa deixamos de ser um encargo para a segurança social. Aliás, para acelerar a coisa, até se deve passar a tributar mais reduzidamente o tabaco e as bebidas. Os portugueses vivem demasiado tempo para o Estado social que temos.

3) Se o despedimento dos funcionários públicos resultante de 1) e 2) não chegar, despedir até 100.000 funcionários públicos. Para evitar iniquidades nesse despedimento, o Governo proporá uma roleta onde serão sorteados os números de funcionários a abater (em sentido figurado, claro) aos quadros.

4) Como o previsto em 3) atirará o desemprego para os 20%, o Governo proporá extinguir imediatamente o subsídio de desemprego. Para o Governo não faria sentido nenhum andar a sortear o despedimento de funcionários e depois ainda ter que lhes pagar subsídios. Aliás subsídios é palavra abolida para todo o sempre no Estado Social refundado. E o mesmo sucede com o rendimento mínimo garantido. Com é que se quer ter alguma coisa garantida neste novo Estado Social?

5) Elevar a idade de reforma para os 100 anos. Se o Manuel de Oliveira conseguiu trabalhar com esta idade, porque não o hão-de fazer todos os outros?

Devem ser estas as medidas que aí vêm para 2014 e que permitirão um glorioso sucesso ao programa de ajustamento. Se a constituição o impedir, ela vai ter que mudar por força da realidade. Aliás, nem isso será necessário pois nem o Presidente nem o Tribunal Constitucional impedirão a aplicação das geniais medidas do Professor Gaspar. Mas a fazer-se uma revisão constitucional, provavelmente o artigo 1º passará a ser "Portugal é um protectorado,  baseado na indignidade da pessoa humana e na vontade dos credores, e empenhado na sua transformação numa sociedade obediente, injusta e austera".

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Igualdade de oportunidades. Até para as Bestas.

por André Couto, em 27.08.12

 

Paul Ryan, a escolha de Mitt Romney para candidato a vice-presidente dos Estados Unidos, é um ideólogo como muitos em Portugal. É contra a Segurança Social nas suas várias vertentes, como saúde, educação e apoios sociais, querendo assumidamente terminar com ela. O curioso é que Ryan, quando mais novo e perante a morte do seu pai, foi salvo pela Segurança Social que hoje quer destruir. Doutra forma, sem apoio do Estado, não teria tido a possibilidade de estudar e hoje ser candidato a tamanha responsabilidade.

É por isto que defendo o Estado Social com unhas e dentes, porque garante igualdade de oportunidades ao longo da vida. Até a bestas ingratas, como é o caso.

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Custa

por Laura Ramos, em 18.05.12


Como está difícil, de repente, o reconhecimento de qualquer direito relacionado com o estatuto de profissional do Estado, antigamente tão fácil e automático. Isto é, baseado numa condição laboral honesta, transparente e sindicável. E ainda na boa-fé distributiva.
Dou um exemplo: pedir um cartão da ADSE para um filho que não usufrui de outro sistema de saúde.

Elementar, meu caro Watson. - Certo? Concedido e carimbado, como os ovos.

Mas não.... espera-nos um calvário. Uma máquina desconfiada, cínica e obtusa.

E eu pergunto-me, inevitavelmente: - Para que desconto, descontei e descontarei, se parece que essa contribuição não existe e me tratam como se  exigisse uma mordomia?

Encarniço-me contra os hipócritas que clamam contra o fim do Estado Social, no sentido em que não é legítimo eleger este ou qualquer Governo do século como "o culpado".

É uma desonestidade intelectual, claro.

Desde que eu entrei na vida activa (já lá vão quase 30) li e estudei e desenvolvi aplicadamente, em exames de cursos de formação que fiz, obedientemente, as previsões deste fim.

Os cenários negros bailaram-me debaixo dos olhos em milhentos profetas da desgraça, cientificamente acreditados. Transmiti-as em aulas que dei. Fui avisada. E avisei.
Portanto, é uma hipocrisia fazer de conta que isto é uma opção, quando é uma consequência inevitável.
Mas sofrer na carne a atrofia do dito cujo (Estado Social) custa.

Isso não se aprende nos livros.

 

(E já agora... - Podem largar-me as canelas? Chega.)

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Terapia de choque

por José Navarro de Andrade, em 12.01.12

 Maurizio Cattelan, “Hanging children”, 2004

(instalação na Piazza XXIV Maggio de Milão, patrocionada pela Fondazione Nicola Trussardi)

 

Monica Ali não é a melhor escritora do mundo. Se o seu primeiro romance, “Brick Lane”, teve um êxito estrondoso e levantou uma acesa polémica entre a comunidade bangladeshi no Reino Unido, à qual ela pertence e cujo quotidiano desenraizado é minuciosa e conflituosamente descrito no livro, já a segunda obra publicada por Ali intrigou os literatos e o público. Chama-se “Alentejo Blue” e decorre nessa estranha e despovoada charneca, perdida no extremo sudoeste da Europa. Contar histórias acerca da gente exótica que vive no meio de nós e nos escapa à atenção é muito atraente, misterioso até; agora discorrer sobre um lugar que a ninguém diz nada nem nunca ouviu falar, que melhor receita poderia haver para o insucesso?

Todavia em “Alentejo Blue” Monica Ali demonstra ter bastante apurada uma das qualidades primordiais de um escritor: o poder de observação. Ou seja, a capacidade de recolher de uma realidade aquilo que estando à vista de todos, a todos permanece obscuro. Por exemplo: “Alentejo Blues” começa com um homem enforcado, um velho que se suicida e é descido da árvore por outro velho, seu amigo de infância que durante primeiro capítulo recorda tudo por que passaram juntos.

A um leitor britânico isto é apenas uma construção dramática e muito provavelmente também um leitor urbano português assim o entenderá. Nos últimos 40 anos o Alentejo rural esvaziou, converteu-se num baldio dada a inviabilidade da agricultura de sequeiro e ganhou entre os citadinos nacionais, agora a maior parte da população, a ilusória imagem de um paraíso de tranquilidade e de ecologia. Tal olhar beatífico esquece que era habitual os velhos suicidarem-se, num acto de puro altruísmo, para não pesarem nas famílias. O trabalho era sazonal, nem sempre havia pão para pôr na mesa e o pouco que havia era inconveniente desperdiça-lo em quem já não tinha força nos braços para render mais uns imprescindíveis tostões. Com um baraço e um sólido ramo no alto de uma azinheira, equilibrava-se a economia doméstica. Embora contrário aos preceitos vigentes, tão comum e tido como decente era o suicídio, tão natural digamos, que a igreja declarou o Alentejo como terra de missão.

Esta tradição foi quebrada por Marcello Caetano quando, talvez no único gesto memorável do seu ministério, estendeu a segurança social ao povo rural. A decisão teve um efeito dramático na taxa de suicídios no Alentejo cuja curva mergulhou a pique como os papéis do PSI20. Depois foram estes anos que lá em baixo pareceram de leite e mel. Não que os jovens quisessem continuar naquela vida, que bem perceberam, pelo que contavam os velhos, não ter presente quanto mais futuro, mas agora sempre um ancião podia gozar o solinho das manhãs sem ter que, literalmente, deitar contas à vida – do mal o menos.

Parece, no entanto, ter havido no outro dia uma senhora das situações a falar do Sistema com maiúscula e a dizer que ele não aguenta se não voltarmos aos dias anteriores a Marcello Caetano, aos tempos do quem paga pode, em vez do vigente quem pode paga. Ela lá sabe as contas que faz.

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Bons excessos

por Laura Ramos, em 29.11.11

Como imaginam, raras vezes a leitura do Diário da nossa República nos reserva mais do que bocejos e urgentes  escapadelas para um café. Devia estar no index: digo sempre. Combateríamos assim o absentismo e a contaminação do fenómeno da quadratura mental. Mas hoje saiu - como diria o Eça - um diplomazinho importante para a qualidade de vida dos portugueses, em que se estabelece o regime da formação do preço dos medicamento e se diminui a margem de lucro arrecadada pelas farmácias e pelos distribuidores.

A revisão da política do medicamento em Portugal era urgente por variadas razões, nem todas especialmente novas - como a transparência do mercado farmacêutico - mas agora assume um papel redobradamente importante, actuando também na suavização dos efeitos da austeridade.
Quer pelo lado do consumidor privado, porque a baixa generalizada dos preços lhe facilita o acesso a terapêuticas de custos comportáveis. Quer pelo lado do consumidor público, o Estado, que assim poderá reduzir os seus gastos sem comprometer uma parcela dos objectivos do SNS.

Algumas destas medidas cumprem metas assumidas no 'Memorando de Entendimento' com a Troika, é verdade. Mas vão mais além, concretizando linhas de acção estabelecidas no programa do Governo.
Era assim que eu gostava de ver o Governo a exceder os compromissos com a Troika: distribuindo o ónus da crise por todos os portugueses, incluindo os grupos de interesses privados.

- Isto não lhe diz respeito porque não toma remédios?
- Não importa: ligue-se, porque um dia tomará.

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O estado social e os seus inimigos

por Pedro Correia, em 06.11.11

João José Cardoso, no Aventar, mostra-se cheio de azia por eu ter aqui mencionado o caso da ilha grega onde 700 putativos "cegos" recebem pensões de invalidez, sem atestado de cegueira, sugando de forma vergonhosa os cofres estatais de Atenas. Proclamando a sua imensa "falta de pachorra" para o debate destas questões, como se fossem tabu, JJC sustenta que o simples facto de se falar delas constitui uma prova de que "a direita" só pretende "vergastar o estado social".

É enternecedor verificar a extrema tolerância de uma certa esquerda perante quem suga fraudulentamente o dinheiro que resulta da contribuição de todos. Esses sim, são os inimigos do 'estado social' -- porque o sabotam por dentro, aproveitando-se dele para o sangrar. Os notórios abusos de uns impedem quem verdadeiramente precisa de ter acesso à protecção estatal.

Se a Grécia chegou ao ponto extremo a que chegou, hipotecando a sua soberania ao directório franco-alemão, foi devido à multiplicação de situações como a que refiro e à conivência das autoridades estatais perante casos deste género, impossíveis na generalidade dos países da União Europeia. Casos que, curiosamente, não recebem uma palavra de censura de quem por cá continua a mostrar vocação para coveiro do 'estado social' ao confundi-lo com os seus inimigos.

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Ainda Londres, umas semanas depois

por José António Abreu, em 29.08.11

Escreveu-se muito sobre as diferenças como direita e esquerda viram os «motins» ou «manifestações» (os termos fazem toda a diferença) no Reino Unido. No fogo cruzado, creio que são misturados pelo menos três níveis de análise.

 

O primeiro passa por tentar perceber se havia motivações ideológicas por trás dos acontecimentos. De forma geral, a direita respondeu que não. Que aqueles jovens aproveitaram uma oportunidade (a morte de um cidadão às mãos da polícia) para destruir e roubar o que se lhes apresentava à frente (quase apenas lojas de pessoas que dificilmente podem ser consideradas ricas). Por seu turno, muita esquerda (não toda) preferiu ver nos acontecimentos uma manifestação de opções políticas. Aqueles jovens, ainda que de forma atabalhoada, estavam a querer transmitir uma mensagem política e não era por aproveitarem a oportunidade para roubar LCDs e telemóveis que a mensagem não devia ser ouvida. A minha opinião foi, e continua a ser, que todo o enquadramento ideológico é obra externa. O que se passou em Londres foi essencialmente o aproveitamento de uma oportunidade para destruir propriedade (à semelhança do que fazem elementos das claques de futebol nas áreas de serviço) e ganhar dinheiro. Quase todas as declarações de jovens envolvidos tendem a reforçar esta posição e é perfeitamente possível que alguns refiram motivações políticas sem que estas realmente tenham existido pois constituem agora a melhor justificação disponível para quem deseja parecer algo mais do que vândalo e ladrão. Mas avancemos: não me custa admitir que este seja o nível de análise menos importante.

 

No segundo plano de análise pode discutir-se se, independentemente das motivações concretas da maioria daqueles jovens, as condições de vida que têm servem de justificação para actos de protesto, e especialmente actos de protesto envolvendo violência. A esquerda acha que sim: inseridos em comunidades pobres, muitas vezes ostracizados por questões étnicas, com reduzidos níveis de escolaridade, alvo de cortes de subsídios, estes jovens, tenham ou não consciência plena do facto, representam uma insatisfação que se estende a muito mais gente do que eles – aos pais deles, por exemplo – e são um símbolo da falência do capitalismo. Como tal, para a esquerda eles não só podem como devem manifestar-se e, de forma similar ao que se passa nos protestos anti-globalização e anti-G20, a violência é tolerada, quando não aplaudida. Por seu turno, a direita considera que os desequilíbrios existentes são menos graves do que nos querem fazer crer (afinal, a maioria brande telemóveis de última geração e vive melhor do que, por exemplo, os pais deles alguma vez viveram), que parte da responsabilidade é dos próprios (muitos terão desperdiçado oportunidades para estudar e/ou trabalhar, preferindo viver de subsídios públicos) e das suas famílias (por não lhes incutirem valores «correctos»), e que, acima de tudo, nada justifica a violência. «Nada» é, evidentemente, demasiado definitivo e também demasiado teórico. Há situações que justificam violência – mas nem o Reino Unido é a Síria (as decisões governamentais estão validadas por eleições bastante recentes) nem a violência indiscriminada pode alguma vez ser aceite, ocorra onde ocorrer (também na Síria seria inaceitável que, em protesto contra o governo, se destruíssem lojas de cidadãos anónimos). Quanto ao resto, haverá parte de verdade tanto nas posições da esquerda (claro que as condições sociais em que eles vivem não são as melhores) como da direita (sim, em muitos casos parte da responsabilidade será deles e/ou das suas famílias e não vale a pena estar sempre a desculpar as pessoas só porque são pobres).

 

Finalmente, há um terceiro nível de análise, que não depende das circunstâncias concretas daqueles jovens londrinos e das suas famílias, e que passa por definir se pessoas com dificuldades económicas devem ser ajudadas pela comunidade e, em caso de resposta afirmativa, em que moldes. Franjas radicais exceptuadas, creio ser consensual da esquerda à direita que uma sociedade minimamente coesa e saudável tem de apoiar os seus elementos em dificuldades. É uma questão de ética e de bom senso (de segurança, se preferirem). As dificuldades prendem-se com saber identificar esses elementos, estabelecer (ou não) condições para a ajuda e definir montantes mas também formas de a prestar (descontos no acesso a bens e serviços, entrega de géneros em vez de apenas dinheiro, etc). Sendo este um debate complexo, em que a esquerda tende a ver como positivo o aumento dos apoios sociais e a contestar dúvidas sobre o merecimento de algumas pessoas que os recebem, permitam-me algumas notas:

a) Na sequência dos problemas orçamentais, em grande parte atribuíveis ao crescimento exagerado das próprias despesas sociais nas últimas décadas, cortes são inevitáveis, por muitos impostos extraordinários que ainda possam vir a inventar-se, incidindo sobre os ricos, os remediados ou os canídeos de porte altivo;

b) A única forma de melhorar as condições de vida da generalidade dos cidadãos (numa perspectiva materialista, que é aquela com que quase toda a gente se preocupa) é através do crescimento económico;

c) Um Estado que precisa de muito dinheiro para obras, empresas e institutos públicos de utilidade duvidosa dificilmente terá dinheiro suficiente para fazer justiça social sem afundar a economia;

d) O dinheiro gasto em apoios sociais gera algum consumo mas muito pouco investimento (isto é, os subsídios sociais –  e, na realidade, não só os sociais – pouco ajudam o crescimento económico);

e) Os apoios sociais são sempre uma transferência daqueles que poupam (ou seja, daqueles que ainda têm dinheiro disponível para entregar ao Estado) para aqueles que não o fazem (e não se trata necessariamente de uma questão de falta de recursos à partida: imagine-se uma família de classe média atolada em dívidas e que perde tudo – deve ser ajudada da mesma forma que uma família que, apesar dos seus esforços, nunca conseguiu ganhar o suficiente para chegar a ter hipótese de poupar o que quer que fosse?);

f) Com ou sem ameaça de violência nas ruas, smartphones e ténis de marca não constituem bens de primeira necessidade;

g) Aqueles que, mesmo ganhando pouco, trabalham e pagam os impostos que legalmente lhes são exigidos sentem-se com frequência explorados (de forma tanto mais intensa quanto mais altos forem os impostos) por quem parece viver, muitas vezes tão bem ou melhor do que eles, sem mexer uma palha;

h) A raiva das pessoas referidas na alínea anterior também dá azo a uma situação potencialmente explosiva; o crescimento dos partidos de extrema-direita em vários países europeus devia servir-nos de aviso.

 

Conclusão? Uma muito simples: é importante procurar que toda a gente tenha um mínimo que lhe permita viver com dignidade (o que provavelmente não incluirá iPhones) e, acima de tudo, que tenha oportunidades de melhoria das suas condições de vida (através de acesso a estudos e de uma economia que cresça) mas a ameaça de violência não pode levar-nos a pagar chantagens, até porque ao fazê-lo estaríamos a abrir a porta a consequências económicas e sociais no mínimo tão assustadoras como as que estes jovens, sejam meros ladrões ou utópicos revolucionários, podem despoletar.

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Notícias do 'estado social' (50)

por Pedro Correia, em 24.08.11

«Factura com telemóvel dos gestores públicos aumentou 20% em 2010»

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Notícias do 'estado social' (49)

por Pedro Correia, em 03.08.11

«150 mil funcionários públicos têm direito a descontos na CP»

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Notícias do 'estado social' (48)

por Pedro Correia, em 29.07.11

"Um bilião gasto em negócios do Estado sob suspeita"

Manchete do Jornal de Notícias

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Notícias do "estado social" (47)

por Pedro Correia, em 19.07.11

«Há 150 chefes da PSP com direito a carro e motorista.»

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Notícias do Estado Social (47)

por Rui Rocha, em 18.07.11

«José Sócrates vai ficar um ano sem ter acesso a qualquer subsídio do Estado, pelo desempenho de cargos públicos desde 1987» e «no ano em que irá para Paris não receberá mesmo nada».

 

Adenda às 18h30: Acabei de tomar conhecimento da morte do pai de José Sócrates. O presente post tem ímplícita uma crítica e uma ironia que considero justificadas. Todavia, face à circunstância, qualquer comentário adicional poderia ser entendido como uma falta de respeito pela situação pessoal de José Sócrates, sendo que essa não é a intenção do autor. Assim, não aceitarei novos comentários nem farei eu próprio qualquer comentário adicional. 

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Dia de Portugal, 2011

por Pedro Correia, em 10.06.11

Portugueses vão perder poder de compra pelo menos até 2016.

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Notícias do "estado social" (46)

por Pedro Correia, em 23.05.11

Mais de 200 mil pessoas já desistiram de procurar emprego em Portugal.

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Notícias do "estado social" (45)

por Pedro Correia, em 18.05.11

Desemprego em Portugal atinge máximo histórico de 12,4%.

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Notícias do "estado social" (44)

por Pedro Correia, em 14.05.11

«Estado cortou 900 mil apoios sociais num só ano»

Manchete do i

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Notícias do 'estado social' (43)

por Pedro Correia, em 10.05.11

«Mulheres da limpeza arrumaram as vassouras na escola da PSP por falta de pagamento.»

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Um homem que deixa obra

por Pedro Correia, em 04.05.11

 

O defensor do "estado social" decretou o fim do abono de família para agregados familiares que recebiam cerca de 700 euros por mês, o fim da comparticipação a 100% dos medicamentos dos idosos com pensões mais baixas, a perda de apoios à compra de material escolar e refeições dos filhos em famílias com mais de 275 euros de rendimento por cabeça, o corte das deduções fiscais nas despesas de saúde e educação para quem ganha mais de 605 euros mensais, a redução dos salários da função pública superiores a 1500 euros, o fim do prolongamento por seis meses do subsídio social de desemprego, o fim da redução em 3% das contribuições para a segurança social de micro e pequenas empresas com trabalhadores com mais de 45 anos...

É obra.

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Notícias do "estado social" (42)

por Pedro Correia, em 02.05.11

Em seis meses, 645 mil crianças e jovens portugueses deixaram de estar abrangidos pelo abono de família.

 

ADENDA: A esquerda deles, do Filipe Tourais.

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Notícias do "estado social" (41)

por Pedro Correia, em 24.04.11

Casais desempregados quase triplicam em cinco meses.

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Notícias do "estado social" (40)

por Pedro Correia, em 23.04.11

«Governo corta nos apoios aos alunos deficientes»

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Mais do "estado social"

por João Carvalho, em 13.04.11

O Estado poupou 53 milhões em pensões. Os novos pensionistas do Estado já estão a ganhar menos do que os antigos. A diferença reflecte as novas penalizações.

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Notícias do "estado social" (39)

por Pedro Correia, em 13.04.11

Portugal é o país europeu da OCDE onde mais horas se trabalha. Em matéria de horas não remuneradas, Portugal também ocupa o lugar cimeiro da lista europeia elaborada pela OCDE: 3,8 horas por dia.

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Notícias do "estado social" (38)

por Pedro Correia, em 12.04.11

«FMI prevê que Portugal em 2012 seja o único país da UE em crise»

Manchete do Diário de Notícias

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Notícias do "estado social" (37)

por Pedro Correia, em 01.04.11

«Mais 101mil famílias perdem abono»

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Notícias do Estado Social (36)

por Rui Rocha, em 28.03.11

AMI regista maior aumento de sempre de pobreza em Portugal

Os números de 2010 revelam o pior ano em termos de pobreza em Portugal desde que a AMI tem registo. Mais de 12.300 pessoas solicitaram apoio nos nove centros sociais da fundação pelo país, nas Olaias, Chelas, Cascais, Almada, Porto, Vila Nova de Gaia, Coimbra, Funchal e Angra do Heroísmo. Um valor sem precedentes, que representa um aumento de 40 por cento considerando os últimos cinco anos e de 24 por cento relativamente ao ano anterior.
As áreas metropolitanas de Lisboa e Porto continuam a ser as zonas mais afectadas pelo flagelo da pobreza e da exclusão social. Do total de pessoas apoiadas no ano passado pela AMI, 45 por cento reside na Grande Lisboa (Olaias, Chelas, Almada e Cascais) e 40 por cento no Grande Porto (Porto e Vila Nova de Gaia).
A acompanhar esta tendência de subida nos dois grandes centros urbanos estão também as pessoas em situação de sem-abrigo, que não param de aumentar em Portugal. Em 2010 recorreram à AMI 1.821 sem-abrigo, dos quais 701 pela primeira vez, mais 12 por cento do que em 2009. Nota mais uma vez o caso das mulheres nesta situação que já representam 29 por cento das pessoas sem-abrigo que procuraram a AMI pela primeira vez, uma agudização de 16 por cento em 12 anos.
A pobreza registada pela AMI em Portugal atinge sobretudo mulheres desempregadas, entre os 16 e os 65 anos, residentes nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.
A maioria da população (69 por cento) que recorre aos centros sociais da AMI encontra-se em idade activa, seguida dos menores de 16 anos (23 por cento) e finalmente, a população com mais de 65 anos, (18 por cento).
Uma nota final em relação aos Abrigos Nocturnos de Lisboa e do Porto. Foram acolhidos um total de 129 homens.


Fundação AMI
Departamento de Informação e Comunicação
28 de Março de 2011

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Notícias do "estado social" (35)

por Pedro Correia, em 22.03.11

«Governo corta benefícios no crédito à habitação»

Manchete do Diário Económico

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Notícias do "estado social" (34)

por Pedro Correia, em 22.03.11

«Novo PEC corta mais custos com salários»

Manchete do Jornal de Negócios

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Notícias do estado social (33)

por João Campos, em 10.03.11

Ou, se preferirem, "O Estado-Pulha: Exemplo Prático":

 

Doação de alimentos em risco por estar sujeita a IVA.

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Notícias do Estado Social (32)

por Rui Rocha, em 07.03.11

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Notícias do Estado Social (31)

por Rui Rocha, em 04.03.11

Novas regras cortaram 60 euros por mês no subsídio de desemprego.

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Notícias do "estado social" (30)

por Pedro Correia, em 03.03.11

Só em Janeiro, 450 casas foram entregues à banca.

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Notícias do "estado social" (29)

por Pedro Correia, em 18.02.11

«Portugueses compram menos remédios e já pedem crédito nas farmácias»

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Notícias do "estado social" (28)

por Pedro Correia, em 16.02.11

Taxa de desemprego no último trimestre de 2010 ultrapassou 11%. No conjunto do ano, a taxa de desemprego atingiu o valor mais elevado de sempre e ficou acima das previsões do Governo, que esperava chegar ao final de 2010 com uma taxa de 10,6%.

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O estado agiota

por Pedro Correia, em 15.02.11

 

 

Já se presumia, mas agora tivemos a certeza: para o estado somos só um número. Um número fiscal, de preferência. É a conclusão a que chegamos com o triste caso de D. Augusta Martinho, a senhora de 87 anos que morreu sem assistência num apartamento da Rinchoa e só veio a ser encontrada nove anos depois, simplesmente porque o andar tinha um novo proprietário após ter sido posto à venda em hasta pública pela administração fiscal.

"Estado social"? Que "estado social"? Todas as entidades públicas falharam neste caso: D. Augusta era um número que não lhes dizia respeito. PSP, GNR, Polícia Judiciária, Ministério Público, Tribunal de Sintra, CTT, serviços de saúde, segurança social, junta de freguesia: o dinheiro dos nossos impostos sustenta todas estas entidades, que revelaram total ineficácia neste caso. Eficaz, só mesmo a máquina fiscal. Que foi capaz de confiscar o apartamento a uma morta e levá-lo a leilão, certamente na convicção de que desempenhava uma nobre missão de "serviço público".

Ouço com frequência o líder do Bloco de Esquerda falar nos "agiotas" internacionais que mantêm sob o fio da navalha a chamada "dívida soberana" portuguesa. Aquilo a que nenhum dos nossos políticos aponta o dedo acusador é ao estado agiota. O estado que não policia, não julga, não vela, não zela, não cuida, não protege, não defende - o estado que apenas confisca. De que outra forma podemos designar a entidade capaz de se apropriar do apartamento de uma octogenária morta, a pretexto de uma dívida fiscal inferior a 1500 euros, e vendê-lo em hasta pública por trinta mil?

"Como é que é possível num país civilizado penhorar e vender a habitação de uma pessoa, aliás, por uma dívida insignificante, sem que essa pessoa seja citada para contestar? Sem que ninguém se certifique de que o visado tomou conhecimento desse processo? Como é possível comprar uma casa sem a avaliar, sem sequer a ver por dentro? Quem avaliou a casa? Quem fixou o seu preço?", pergunta - com toda a pertinência - António Marinho Pinto no Jornal de Notícias.

O estado que lucra com a morte de uma senhora velha, doente e solitária não pode ser considerado uma pessoa (colectiva) de bem. É mesmo uma exigência de cidadania recusar-lhe liminarmente esse rótulo.

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Magalhães 2.0

por Rui Rocha, em 04.02.11

Uma a uma, vão caindo todas as bandeiras dos Governos de Sócrates. Na área da Edcuação, A Escola a Tempo Inteiro, a Área de Projecto, o Estudo Acompanhado, os CEF e os EFA tinham o evidente objectivo de prolongar a ligação dos alunos e dos formandos à escola. Por mais horas e durante mais anos. Em 2011, com o implodir de muitas dessas medidas, o prolongamento da ligação aos estabelecimentos de ensino será assegurado, sobretudo, pela abertura das cantinas de muitas escolas aos fins-de-semana para que os alunos mais carenciados não passem fome. É toda uma nova abordagem de profundo sentido pedagógico e educativo. Ao eduquês sucede o sopadopobrês. Agora, é a vez do badalado Magalhães. O Governo acaba de anunciar que a aquisição desse símbolo da revolução socrática do conhecimento deixará de ter um apoio especial para os alunos mais carenciados. Ao programa e.escola sucede, diz-se, o e.escola 2.0. Faz sentido. O 2 implica o reconhecimento de que se trata de uma segunda abordagem, completamente oposta à primeira. Quanto ao 0, traduz o valor exacto e actual das políticas do Governo em matéria de protecção social e de educação.

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