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A esquerda submissa e ajoelhada

por Pedro Correia, em 11.08.17

 

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O bolivarismo - versão caribenha do socialismo real - andou todos estes anos a contaminar a esquerda clássica europeia, que persiste em nada extrair das lições da história. Jean-Luc Mélenchon, o líder da chamada "França Insumissa", chegou a proclamar que Nicolás Maduro lhe servia de "fonte de inspiração" - a tal ponto que, se desembarcasse no Palácio do Eliseu, prometia transformar Paris numa das capitais da exótica Aliança Bolivariana Pelos Povos das Nossas Américas, de braço dado com o ditador de Caracas. Na Venezuela, o candidato derrotado por Emmanuel Macron nas presidenciais francesas alinha com aqueles que esmagam os insubmissos, incapaz de condenar a repressão.

Do outro lado da Mancha, o mesmo tom. Jeremy Corbyn, o Mélenchon inglês, recusa condenar o regime tirânico do sucessor de Hugo Chávez, que só nos últimos quatro meses já provocou 127 vítimas mortais em protestos de rua contra o endurecimento da ditadura e levou a Comissão de Direitos Humanos da ONU a insurgir-se contra o  "uso generalizado e sistemático da violência e as detenções arbitrárias" de opositores na Venezuela.

Louve-se ao menos a coerência do líder trabalhista, derrotado por Theresa May nas recentes legislativas britânicas: nem mesmo desafiado por deputados e membros do Governo-sombra do seu próprio partido, renega a fidelidade ao regime de Caracas. Em 2013, Corbyn proclamou Chávez como "inspiração para todos quantos combatem o neoliberalismo e a austeridade". No ano seguinte, foi exibido na televisão pública venezuelana por um sorridente Maduro, que o apresentou como seu "amigo".

Submissa afinal, a "verdadeira esquerda". Herdeira directa das esquerdas que durante décadas entoaram hossanas a Estaline, Mao, Brejnev, Honecker, Enver Hoxha e Pol Pot - a esquerda que demoniza as vítimas e glorifica os carrascos, ajoelhando em perpétuo tributo aos piores déspotas que o mundo já conheceu.

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A Nova Ordem da Culpa

por Rui Rocha, em 08.05.17

Assistimos periodicamente à introdução de determinados temas na discussão pública que seguem os interesses de uma determinada agenda. Foi o que aconteceu, recentemente, com vários textos que pretendem fundamentar um direito de regresso (direito de regresso de quem é aliás coisa que em geral não nos conseguem explicar) sobre o apuramento e a imputação de responsabilidades pela escravatura. Vejamos:
1º Não é sem espanto que constatamos que num momento histórico em que Deus se vai progressivamente retirando do espaço público, se é que não morreu como nos afiançou Nietzsche, a ideia de culpa que era inerente e fundamental em territórios tomados pelo divino, longe de partir para parte incerta, é apropriada por alguns para construir uma nova condenação decalcada sobre a ideia de pecado original (já lá iremos no ponto 2º ao esclarecimento de que pecado é esse afinal) num sistema construído para proporcionar a esses mesmos uma redenção final sem necessidade sequer de confissão e contrição (como se verá no ponto 3º). Por agora, é suficiente sublinhar o primeiro traço da hipocrisia: são os mais ferozes soldados da guerra santa pela erradicação de Deus e da religião da comunidade que, longe de nos libertarem das amarras da heteronormatividade imposta pelo divino, quase sempre alicerçada nos conceitos operacionais de culpa e de expiação, tomam para si a missão de anunciar, evangelizar e, se os deixássemos, punir, a partir de uma ideia de culpa de cujas escrituras se arrogam agora ser os únicos intérpretes. Pense-se o que se quiser sobre a culpa com Deus (ou por Deus, ou contra Deus), mas parece óbvio que não ficaremos melhor com uma culpa que persiste sem Deus, ainda por cima com tais pastores.
2º Num mundo interconectado, com acesso amplo a informação, é fácil promover a expansão da culpa (de uma determinada culpa) no tempo e no espaço. A nossa culpa, se a quisermos tomar ou se nos deixarmos convencer dela, pode estender-se à pobreza extrema de África, à exploração do trabalho na Ásia ou às catástrofes ambientais na América. Note-se que num estado inicial, a culpa perante Deus era individual ou de um grupo, mas suportava-se num nexo de causalidade com actos próprios de que o indivíduo ou a comunidade eram responsáveis. A divindade castigava por um comportamento concreto (devassidão, apostasia, etc.) e com uma consequência directa (perda das colheitas, cheias, uma doença, para só dar alguns exemplos). Agora, o nexo de causalidade e punição perderam a sua relação unívoca com o prevaricador. A culpa tem o tamanho do mundo. Qualquer acto meu de consumo pode aparentemente desencadear a barbárie a milhares de quilómetros. Qualquer acto meu pode desencadear a punição não de mim ou dos meus, mas de pessoas que não conheço que são castigadas com incêndios ou inundações do outro lado do mundo. Esta é uma culpa universal e expansionista. Uma culpa incontrolável e insaciável. Uma culpa que se estende também no tempo. Somos culpados aqui e agora. Mas também somos culpados pelo que aconteceu há 200 anos. Ou mais, se for preciso. Mas não há então limites a essa culpa? Há, claro. Para percebermos quem e o que fica aquém e além dessa culpa é necessário interpretarmos os textos dos acólitos que nos querem impingir este novo tempo. E o traço comum a esta Nova Ordem da Culpa é a sua natureza unidireccional. Embora persistente e expansível até ao infinito no espaço e no tempo, esta culpa é apenas a da civilização ocidental. Sim, temos culpa pelo esclavagismo em África. Mas jamais poderemos culpar os muçulmanos pela invasão da Península Ibérica. Ou criticar os maridos que lêem no Corão que a palavra de Deus é infligir maus tratos às mulheres como forma de reforçar os sagrados laços do casamento. Para um determinado acto, a existência da culpa não é determinada pelo seu valor intrínseco mas pela condição de quem o pratica. É ocidental? Culpado. Não é? Então não temos nada que nos meter nisso. Temos então aqui esclarecido o novo fundamento teológico da culpa. O novo pecado original é o pecado ocidental. A culpa que interessa impôr é então infinita no espaço e no tempo mas é simultaneamente descontínua. Ali onde não se possa imputar à civilização ocidental, entendida como aquela que resulta das democracias liberais, da economia de mercado e, trema-se, do modo de produção capitalista, simplesmente não existe culpa. É este entendimento que permite a um estrénuo defensor do pecado ocidental que nos faz responsáveis pela escravatura do século XVIII, fechar no momento seguinte os olhos à carnificina de Estaline, ao genocídio de Pol Pot, à tortura de Fidel Castro ou à violência de Estado na Venezuela. Não integram no património genético o cromossoma fundador da civilização ocidental? Não são culpados, coitados. Está então desmascarado o 2º traço da hipocrisia dos sacerdotes do Templo da Culpa Ocidental: derrotados pela História, confrontados com os resultados de uma ideologia que desembocou invariavelmente na miséria, na morte e na repressão, não desistem de um impulso de desforra, ainda que para isso tenham que incorrer na mais tortuosa arbitrariedade.
3º Esta culpa que nos querem vender é então uma culpa só dos ocidentais. Mas de todos os ocidentais? Não, na verdade. Qualquer sistema de culpa inclui uma hipótese de redenção. Os judeus acertavam contas pelo sacrifício de bodes expiatórios. Os católicos redimem-se pela contrição, pela confissão e pelas avés-marias. Os vigários da Nova Ordem da Culpa encontraram um mecanismo mais sofisticado. A confissão, por exemplo, pressupõe a assunção de culpa. Os vigários querem a alma lavada mas não assumem culpa nenhuma. Para se eximirem ao pecado ocidental, identificam-se com a vítima. Quando pedem o pagamento de uma reparação pela escravatura, colocam-se do lado de lá. É como se eles próprios tivessem sido levados da costa de África em barcos de negreiros para trabalhos forçados nas roças de café do Brasil. E é isto mesmo que lhes permite usar um Iphone sem problemas de consciência. Bebem do fino mas não estão disponíveis para pagarem por ele. É este o 3º traço de hipocrisia e, no final, aquele que desmascara definitivamente a imoralidade do sistema de culpa, expiação e redenção que nos propõem e que nunca os inclui como réus do julgamento que pretendem conduzir.

NOTAS FINAIS:
1) O sistema de culpa baseado no pecado ocidental funciona, mutatis mutandis, para outras questões como o colonialismo ou as questões ambientais.
2) Sou ateu mas não sou parvo (creio que ainda me vou arrepender de ter usado a adversativa). Entre culpa julgada pelo Deus do Antigo Testamento ou a vida virtuosa orientada de acordo com os ensinamentos de um Livro das Expiações ditado por Boaventura Sousa Santos, fico como o Burro de Buridan: que venha o Diabo e escolha.

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O valor dos argumentos

por Diogo Noivo, em 15.02.17

Sou, sempre fui, favorável à despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Porém, discordâncias à parte, tenho de aplaudir o João Pedro Pimenta pela forma como responde aos talibãs do komentariado nacional que, nesta e noutras matérias, procuram fazer da ética um argumento de disciplina (e de imposição) em detrimento de um debate são, sério e democrático. 

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Frases de 2016 (36)

por Pedro Correia, em 21.12.16

«O puritanismo está hoje do lado da esquerda.»

Ricardo Araújo Pereira em entrevista à Visão, 30 de Novembro

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Post de actualização periódica

por Rui Rocha, em 16.12.16

Façamos então um breve ponto de situação sobre as grandes figuras messiânicas que mereceram o desvelo da(s) esquerda(s) nos últimos tempos:

José Sócrates: corrupto.
Lula da Silva: corrupto.
Hugo Chávez: oh pá, vão mas é contar passarinhos!
François Hollande: ahahahah!
Tsipras & Varoufakis: bah, tenham lá paciência!
Fidel Castro: bah, tenham lá vergonha!
Artur Baptista da Silva: credibilidade ligeiramente acima da média da amostra.

Convenhamos, pazinhos, que é poucochinho.

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Ba-ba-bababa-baba

por Rui Rocha, em 02.12.16

Uma breve e aleatória consulta do Google para uma incompleta cronologia dos factos:

13.01.2014 - PCP alerta para estratégia criminosa de Paulo Macedo.
5.02.2014 - Bloco de Esquerda acusa Paulo Macedo de preferir tratar a saúde dos credores à dos doentes.
08.07.2014 - CGTP acusa Paulo Macedo de ser o coveiro da Saúde.
10.07.2014 - PS considera Paulo Macedo inadaptado ao lugar de Ministro da Saúde.
08.01.2015: João Semedo pergunta no Parlamento a Paulo Macedo "que tragédia é preciso acontecer para o senhor mudar de política?".
27.01.2015 - PS acusa Paulo Macedo de estar em negação perante os problemas.
19.02.2015 - PS exige que Paulo Macedo resolva caos no SNS.
24.02.2015 - PS acusa o ministro da Saúde de ser "o principal responsável político" pelos problemas no acesso a medicamentos para a hepatite C, desafiando Paulo Macedo a avaliar se tem condições para se manter no cargo.
02.12.2016 - Finanças confirmam Paulo Macedo como Presidente da Caixa.

 

Num artigo de 14 de Abril de 2015, João Semedo concluía perguntando o que mais teria de acontecer para Paulo Macedo se demitir ou ser demitido. Perante esta cadeia de acontecimentos, é caso para perguntar: o que mais terá acontecido para Paulo Macedo ser agora escolhido para presidir à Caixa?

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Se a esquerda quer mesmo perceber como raio é possível alguém inteligente apoiar Trump, pode começar por perguntar a muita malta inteligente de esquerda por que raio gostava tanto de Hugo Chávez.

Luís Aguiar-Conraria, n'A Destreza das Dúvidas.

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Frases de 2016 (33)

por Pedro Correia, em 27.10.16

«O António Costa é um líder em formação.»

José Sócrates, em entrevista à TVI, 26 de Outubro

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Quem os viu e quem os vê (1)

por Pedro Correia, em 17.10.16

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É chocante o silêncio do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista sobre o condicionamento das pensões mínimas, únicas que poderão ficar sujeitas à  condição de recursos em 2017, sem serem abrangidas pelo aumento extraordinário previsto para as restantes no Orçamento do Estado. Chocante desde logo porque estes dois partidos reclamam a todo o momento solidariedade com os mais frágeis e desfavorecidos da sociedade - precisamente aqueles que auferem as magras pensões sociais (do regime não retributivo) e pensões rurais (do antigo regime rural), que oscilam entre 202,34 euros e 380,56 euros.

Que diferença entre a apatia actual e o tom enérgico usado por Jerónimo de Sousa em Novembro de 2014, vergastando em simultâneo o PS e os partidos à direita dos socialistas. "Foi o PS que abriu a porta aos cortes dos salários, à condição de recursos para tirar abonos e outras prestações sociais, ao congelamento de pensões mínimas, ao Pacto de Agressão e outras malfeitorias, mas é preciso dizer também com estreita colaboração e apoio do PSD e CDS que se aproveitaram mais uma vez da mão amiga do PS para arrombar as portas todas da injustiça e da exploração!" [sublinhados meus].

Que diferença entre a apatia actual e o tom categórico usado pela deputada bloquista Mariana Aiveca em Março de 2011, vergastando em simultâneo o PS e os partidos à direita dos socialistas sobre este mesmo tema, enquanto saía em defesa de "quem tem uma pensão tão mínima como 189 euros ou 227 euros" num debate parlamentar em que lembrou que "mais de um milhão e 600 mil pensionistas" se mantinham abaixo do limiar da pobreza. "Pela nossa parte, continuamos a pensar que a pensão mínima tem de caminhar no sentido da convergência com a remuneração mínima mensal garantida, até porque esse é o valor a partir do qual se considera que há alguma dignidade de vida. Esta é uma questão da qual o BE não abdicará", declarou a deputada, falando em nome do seu partido [sublinhados meus].

Bastou transitarem da oposição para a órbita do poder para os dois partidos baixarem os decibéis reivindicativos. Antes produziam declarações tonitruantes, agora sussurram baixinho. Não vá o ministro Mário Centeno sentir-se incomodado.

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O mundo ao contrário

por João André, em 19.09.16

Só uma perspectiva rápida ao conceito de «ir buscar dinheiro a quem o está a acumular» e fazendo a ressalva inicial (que vai ser ignorada) que estou contra isso: um dos países que os liberais da nossa praça mais admiram, a Holanda já o faz.

 

Na Holanda, o Estado taxa as poupanças dos seus contribuintes privados. Na declaração de impostos, feita online através do sistema de DigiD. Quando a declaração é preenchida online, os montantes existentes em todas as contas na Holanda já estão previamente preenchidos e apenas é necessário confirmá-los.

 

Em relação a taxar as poupanças, o valor a taxar é o montante total que existe nas diversas contas acima de um determinado patamar (que anda por volta dos 21.000 €). Abaixo desse valor o valor não é taxável. Acima dele, o montante extra é passível de ser taxado (por exemplo, quem tenha 25.000 € pagaria imposto sobre 4.000 €). O imposto parte do princípio que o valor tem um retorno anual de 4% e esse retorno fictício é taxável a 30%. Ou seja, se o retorno for inferior (e habitualmente é-o em contas poupança simples), o contribuinte pode pagar mais do que recebe de juros. Aliás, sei por experiência própria que é possível receber de juros apenas uns 30-40% do valor a pagar.

 

Este caso é apenas aplicável aos montantes em investimentos financeiros e, no caso do imobiliário, apenas a segundas habitações. Também se aplica a valores a partir dos 21.000 € (ou o dobro no caso de casais), valor que parece elevado. No entanto, se um indivíduo (ou casal) da classe média não quiser (ou tiver oportunidade) de comprar casa, é relativamente simples atingir tais níveis de poupanças na Holanda.

 

O caso português é diferente, claro está, mas quando alguma direita aponta o dedo a alguma esquerda em questões de sigilo bancário ou de taxar as contas bancárias, talvez fosse bom colocar os olhos num país que, em certos aspectos, foi mais longe no seu socialismo que se poderia esperar. E depois é elogiado pelo seu liberalismo.

 

Conclusão: não gosto de taxas às poupanças (outra coisa é taxar os juros ou retornos de investimento) e considero-o um ataque ao direito de cada um em fazer o que quiser com o dinheiro que ganhou e sobre o qual já pagou impostos. Por outro lado, é irónico ver que alguma esquerda portuguesa parece estar com vontade de seguir as melhores práticas de países ditos "liberais". É o mundo ao contrário.

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Trocar Marx por Astérix

por Pedro Correia, em 19.09.16

 

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Nunca a extrema-direita esteve tão próxima de ganhar eleições decisivas em França – incluindo a eleição presidencial. Mas, apesar disso, também nunca a Frente Nacional francesa beneficiou de um silêncio tão complacente de uma parte da esquerda europeia, sem excluir a portuguesa, que prefere virar baterias contra o actual primeiro-ministro Manuel Valls, um reformista moderado. O mesmo silêncio resignado que em Janeiro de 2015 acolheu a formação da coligação governamental em Atenas entre o Syriza e o partido xenófobo Gregos Independentes, da direita musculada.

Marine Le Pen, líder da FN, beneficia desta tolerância de sectores situados à esquerda do PS – e até de algumas franjas socialistas – por confluir com elas no discurso eurofóbico, na retórica anticapitalista, na declarada simpatia pela Rússia de Putin, na hostilidade à NATO, no apego ao Estado como motor da economia. Une-os o combate à democracia liberal, o culto do proteccionismo económico e o ódio aos Estados Unidos.

Esta esquerda, que sempre foi internacionalista, abraça hoje fervorosamente o nacionalismo e marcha sem pudor de braço dado com a direita extremista no combate à globalização. Outrora sonhava edificar o socialismo à escala universal. Agora, pelo contrário, sonha com um Ocidente entrincheirado em fronteiras inexpugnáveis. Com cada nação transformada numa aldeia gaulesa de banda desenhada, nutrida pela poção mágica de Moscovo.

Trocou Marx por Astérix. Marine – loira como o herói de Uderzo e Goscinny – sorri e agradece. O Eliseu já se vislumbra ao virar da esquina.

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As tácticas da política portuguesa

por Diogo Noivo, em 13.06.16

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Usei aqui um tweet de Catarina Martins para expor a descarada dualidade de critérios do Bloco de Esquerda e do PCP. Houve quem visse nesse post uma táctica difamatória. E eu expliquei-me. Hoje roubo ao 31 da Armada estas duas declarações, a primeira feita por Pedro Passos Coelho e a outra por António Costa. Separam-nas 5 anos. O que disseram BE e PCP sobre as declarações proferidas por Passos Coelho e como avaliam agora as declarações do actual Primeiro-Ministro? Há, sem dúvida, muita táctica nisto. Mas duvido que seja de direita.

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Tácticas à esquerda

por Diogo Noivo, em 11.06.16

O João André, meu colega de blogue, publicou aqui no DELITO um texto no qual se insurge contra um post por mim publicado. Diz o João que o post em causa não passa de uma mera “boca”. Tem toda a razão. É, de facto, uma “boca”. No que a isto diz respeito, pela minha parte, não há polémica.

 

No entanto, a dita “boca” não foi movida por qualquer ânimo de difamação, ao contrário do que é sugerido pelo João André. O meu único propósito foi o de obter concordância linguística. Passo a explicar. Desde a sua fundação, uma parte substancial da actuação política do Bloco de Esquerda incide precisamente em provocações “simples e destituídas de reflexão”, cujo único intuito é o de achincalhar os seus adversários. Recordemo-nos, por exemplo, do célebre debate televisivo onde Francisco Louçã disse que Paulo Portas não podia falar de aborto porque não era pai. E, para não desfiar um rosário de boutades inenarráveis do mesmo teor, fiquemo-nos pelo caso recente do cartaz “Jesus também tinha dois pais”. Isto para não me alongar sobre aquilo que é a despesa política quotidiana do Bloco, onde as palavras “fascista” e “ladrão” são usadas de forma acrítica – aqui sim, João, “acrítica” – para expressar indignação. Mas enfim, pelo que posso perceber, para o João André nada disto tem um móbil difamatório ou é insultuoso. Só a minha “boca” é que foge ao tom.

 

O meu post é, como referi, uma “boca”. Como essa é a linguagem do Bloco, pareceu-me adequado. Contudo, ao contrário da praxis bloquista, não fui ofensivo. Quis tão simplesmente pôr em evidência a gritante e descarada dualidade de critérios do BE. Quando há um partido de esquerda no Governo (sobretudo com o Bloco a apoiar esse Executivo), os princípios são uns. Quando há um Governo de direita, já são outros. Faz lembrar um pequeno conto do Rubem Fonseca, autor descrito – e bem – pelo nosso Pedro Correia como um “dos maiores prosadores da língua portuguesa”. Nesse micro conto, escreve o magnífico autor brasileiro que “o que é nosso é sempre bom, pode ser um peido ou uma xícara de café; o que é dos outros é sempre ruim, pode ser um peido ou uma xícara de café”. E assim anda o Bloco. Há anos. E é tudo uma questão de propriedade privada.

 

Vamos então ao radicalismo que, segundo o João André, é um termo desadequado para caracterizar o BE e o PCP. Portanto, quem tem as suas origens e matriz política fundadas no marxismo-leninismo ou numa amálgama de trotskistas e maoistas é moderado. Fico mais descansado, João. A conversa podia ficar por aqui, mas não resisto a um momento chave no argumento do meu colega de blogue: PCP e BE não são radicais porque têm “representação parlamentar e [porque] seguem as regras da democracia.” Ou seja, porque elegeram deputados, porque respeitam os resultados eleitorais e porque respeitam os procedimentos institucionais do Estado não são radicais. Certo. Depreendo, portanto, que a Frente Nacional francesa, a AfD alemã e a Aurora Dourada grega não são formações políticas radicais. Lamento, João, mas temo que as nossas concepções de “radicalismo” e de “democracia” sejam irreconciliáveis. Creio que isto responde à insinuação pedestre a respeito da minha opinião sobre Donald Trump. Se não responder, João, lê este texto – tem “bocas”, desculpa – e vê as ligações que nele constam.

 

Por último, entendo que, segundo o João André, um blogue é um espaço onde apenas podem existir opiniões “altamente justificadas e fundamentadas”. Discordo, pois considero que há espaço para tudo. Porém, se só existe espaço para teses “altamente justificadas e fundamentadas”, há aqui no DELITO inúmeros posts dignos do teu repúdio, caro João. Mas escolheste o meu. Fico grato e tomo boa nota.

 

Termino manifestando uma certa ternura pelo intróito do João André. Escreve o meu colega de blogue que é de esquerda, mas que tem “sempre respeito por quem tem opiniões diferentes” das suas. Mutatis mutandis, é igual à advertência encalacrada atenção-que-eu-tenho-um-amigo-gay!, dita por quem se prepara para soltar uma qualquer alarvidade homofóbica.

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Tácticas à direita

por João André, em 10.06.16

Quem me lê sabe perfeitamente que eu sou de esquerda. Devido às minhas posições e ao contraste com os da maioria dos autores do blogue, muitos confundem o meu posicionamento político. Tento esclarecer o máximo possível as minhas posições, mas na realidade não me incomoda muito quando alguém confunde as minhas coordenadas.

 

Esta introdução, apesar de eu a considerar vã, é feita para poder esclarecer que, qualquer que seja a minha posição política, tenho sempre respeito por quem tem opiniões diferentes das minhas. Estou há muito afastado da política e não tenho interesse em a ela regressar, pelo que as minhas opiniões são minhas e, se coincidem ou não com as de outros, isso é sempre bem-vindo, desde que isso suceda por reflexões reais.

 

Comentários como o do Diogo Noivo aqui abaixo não mais é que uma "boca" gratuita, sem reflexão e com a intenção de difamar um partido. Nesses intuitos falha por várias razões. O primeiro é simples: sem definir o que é ser-se "esquerda radical", Diogo Noivo apenas pretende que se associe o Bloco de Esquerda ao epíteto de "radical" para desacreditar o partido. Se fizesse um exercício de reflexão honesto sobre o assunto, chegaria à conclusão que por muito que as posições sejam diferentes, "radical" não é algo que possa atribuir-se ao BE, a não ser que se tenha uma visão muito restrita do termo.

 

Por outro lado, tenta difamar ao associar o BE ao PCP. Dado que se trata de dois partidos com representação parlamentar e que seguem as regras da democracia portuguesa, a associação pode querer confundir os dois partidos mas para qualquer pessoa objectiva acaba por falhar o alvo - por muito que se copiassem, PCP e BE não seriam "radicais".

 

Por último, falha quando associa os dois partidos por causa de um comentário. Suponho que pela mesma lógica também associasse Donald Trump ao PCP, já que tem andado a atacar os grandes interesses económicos nos seus comentários populistas e, esses sim, violentamente radicais (sim, violentamente, é intencional e literal).

 

É um comportamento típico de todos os partidos, à esquerda e à direita, de se tornarem curiosamente míopes em relação às falhas dos próprios partidos (ou partidos próximos) quando no governo e de atacarem os outros partidos de forma cada vez mais forte e gratuita quando na oposição. No entanto, se a esquerda tem a tendência de ignorar os dados e se cingir cegamente à sua ideologia quando ataca um governo à direita, a direita opta por usar ataques cujo único propósito é conotar os governos de esquerda com algo de negativo.

 

Neste caso, o Diogo Noivo tenta meter dois partidos num único saco e dizer que são radicais, tentando assim, de uma única penada despachar os dois sem ter uma argumentação que se veja. O mesmo quando se fala na "geringonça", um termo que pegou e que é um disparate pegado, como qualquer democrata o perceberá (mas que escapará para sempre à cabecinha de Passos Coelho).

 

Mais abaixo o Luís, noutro tom, parece escolher os meios que lê ao escrever este post. Eu, que leio menos jornais que ele, já tinha percebido que a palavra "crise" andava a desaparecer dos jornais há um ano. Discordo em muito com o Luís sobre as razões e os supostos méritos do govrno de Passos Coelho, mas é um facto que o governo PS herdou um situação mais desafogada que a de há quatro anos. É por isso natural que o tom mude. E mesmo que não mudasse, que a crise estivesse apenas como antes, a simples fatiga leva os jornais a dar menos atenção. É algo que ele, como jornalista, saberá perfeitamente, mas terá esquecido no post. Por outro lado, não deixo de ler criticas constantes ao governo do PS, inclusivamente vindas da esquerda. Talvez eu tenha apenas sorte.

 

Seja como for, e seja lá quem for que esteja envolvido, irrita-me imenso quando a direita tenta lençar nuvens de poeira sobre o desempenho de um governo, olimpicamente ignorando factos quando lhe convém (hábito à esquerda e à direita) e, pior, tentando difamação por associação. Melhor seria ler posts como este da Ana, altamente justificado e fundamentado e o qual subscrevo.

 

Há muito por onde se pegar para qualquer ataque aos governos, é escusado andar a inventar nuvens negras.

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Ventos de Espanha

por Pedro Correia, em 22.05.16

Imaginem o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, coligados, ultrapassando o PS como força eleitoral. É o equivalente a isso que ressalta da sondagem de hoje do El País sobre as intenções de voto para as legislativas de 26 de Junho em Espanha.

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Esquerda-cigarra e PS-formiga

por Pedro Correia, em 18.04.16

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Acabou o tempo da retórica frentista: a necessidade de cumprir o Pacto de Estabilidade e Crescimento porá à prova a estabilidade da precária e conjuntural maioria de que António Costa ainda dispõe no Parlamento - maioria que aliás se dissolveu já na votação do orçamento rectificativo destinado a concretizar o processo de resolução do Banif.

A deliberada rispidez de Catarina Martins, interpelando cinco vezes Costa em tom crispado no debate quinzenal da passada sexta-feira, prenuncia novos ventos. Que soprarão cada vez com mais força caso se confirmem as exigências adicionais da Comissão Europeia hoje divulgadas no Correio da Manhã: veto ao aumento do salário mínimo para 600 euros até 2019 e chumbo da semana laboral de 35 horas na administração pública, por exemplo. Além de um "ajustamento orçamental" que possibilite a redução de 0,6% do défice português. Isto enquanto aumentam os juros da dívida e o FMI antecipa uma significativa redução das receitas fiscais anunciadas para 2016.

O colete que Bruxelas quer ver ainda mais apertado, somado à degradação acelerada do nosso frágil sistema financeiro e aos alertas que sucessivas entidades - como a OCDE e a Universidade Católica - vêm lançando como duche frio nas risonhas previsões do ministro Mário Centeno, não augura nada de bom para a saúde da esdrúxula coligação formada em Novembro. Uma coligação parlamentar de três partidos e um apêndice em que apenas o PS-formiga assume responsabilidades governativas enquanto a esquerda-cigarra vai mandando bitaites, replicando os treinadores de bancada.

Este é o dilema estratégico que Costa deverá defrontar a curto prazo: ou alarga o elenco governativo a esses partidos, forçando-os a um grau de compromisso muito maior do que o actual, ou não tardará a reviver os dias agrestes de José Sócrates no malogrado biénio 2009-11 - que acabou como sabemos. Entre este penoso cenário e a nada invejável hipótese de tornar-se o Tsipras português, resta-lhe uma via estreita e sinuosa. Mas é preferível que comece a trilhá-la desde já.

 

Leitura complementar: Notas políticas (7)

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Comentário político vaudeville

por Diogo Noivo, em 13.03.16

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O governo português está com dificuldade em reunir os votos necessários para aprovar um pacote de ajuda à Turquia. O Bloco de Esquerda está a sair do guião estabelecido por António Costa e a coisa pode não se concretizar. Mas, como é evidente, a culpa é da direita. Pelo menos foi isso que nos disse esta tarde um profissional do comentário – e digo ‘profissional do comentário’ porque não lhe é conhecida qualquer outra profissão. Calvo de ideias, mas grávido de certezas, o comentador disse ficar mal ao PSD a recusa em aprovar o referido pacote de ajuda e, consequentemente, não ser solidário com o governo de Ancara e com os refugiados (uma simplificação grosseira, típica da criatura em apreço, mas adiante). Ou seja, as esquerdas juntam-se e viabilizam um governo com base no pressuposto de serem capazes de gerar uma solução política estável e funcional. Quando, ao passar da teoria à prática, se vê que a estabilidade da esquerda não é grande coisa, a culpa (pasme-se) é da direita. Percebi hoje que “tempo novo” equivale a “novo patamar de desfaçatez intelectual”.

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Queremos uma esquerda "à séria"!

por Rui Rocha, em 02.03.16

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O Costa que presida ao Conselho de Ministro em fato de treino. O Carlos César que use rabo-de-cavalo. O Jerónimo de Sousa que pregue um xoxo ao Ferro Rodrigues durante o próximo debate quinzenal.

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Frases de 2016 (17)

por Pedro Correia, em 18.02.16

«Governo não é de esquerda. E falta muito para ser de centro-esquerda.»

Arménio Carlos, Expresso, 14 de Fevereiro

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 01.02.16

«A esquerda marxista clássica lia os grandes livros. Pelo contrário, a nossa doméstica esquerda pós-moderna confunde a bruta e fera realidade, onde se joga o destino pessoal e colectivo de dez milhões de portugueses, com um teste à sua boa consciência. Nem a tragédia do esmagamento da Grécia do Syriza lhe parece ter ensinado a perceber a desagradável diferença entre virtude e razão de Estado.»

Viriato Soromenho-Marques, no Diário de Notícias

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Pós-eleitorais (3)

por Pedro Correia, em 28.01.16

As chamadas esquerdas quiseram medir forças nas presidenciais. Perverteram o espírito deste escrutínio, transformando-o numa segunda volta das legislativas (e em novo round das primárias do PS, no caso do confronto Nóvoa/Belém). Alegavam que só a multiplicação das candidaturas conseguiria travar o passo ao "candidato da direita". Pura mistificação, como a linguagem das urnas demonstrou: as esquerdas multiplicadas valem hoje apenas 38,1%. Em política o aumento de parcelas costuma produzir efeitos destes: subtrair em vez de somar.

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A utilização da morte como argumento de acção política é de uma indigência inenarrável. Contudo, e sem surpresa (pelo menos, para mim), Bloco de Esquerda, Partido Comunista Português e Os Verdes lançaram-se ontem num festim de necrofagia política raras vezes visto no Parlamento. Sem sinal de assombro ou de pudor, nem tão pouco de respeito pela família em luto, a morte do jovem David Duarte no hospital de São José foi usada pela esquerda para ataques e apartes no debate parlamentar – e para lamentar.

Felizmente, a inanidade da esquerda nacional foi mitigada no mesmo dia por uma excelente entrevista do Ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, à TVI. O início da conversa foi o evidente para qualquer pessoa de elementar bom senso: A morte “não pode ter uma leitura política”. Ponto. Isto não impediu o Ministro de fazer as críticas e os reparos que entendeu serem necessários. Disse, por exemplo, que o “SNS de 2015 não é melhor do que o de 2011”. Afirmou ainda que lhe parece “totalmente inaceitável que se considere que tudo se deve aos cortes, como também [lhe] parece inaceitável que se diga que os cortes não tiveram qualquer tipo de efeito”. Mais do que qualquer outra coisa, as declarações do Ministro da Saúde tiveram o mérito de repor a decência no debate e a capacidade de afastar o Governo da delinquência em auto-gestão vigente nos partidos que o apoiam.

Quanto às causas do sucedido, o Ministro foi prudente dizendo aguardar a conclusão do inquérito. Mas deu uma notícia. Discretamente, Adalberto Campos Fernandes declarou estar convencido que se tivesse havido um apelo a uma equipa de neurocirurgia de outro hospital, público ou privado, seguramente a resposta seria positiva – algo já sugerido pelo médico Luís Carvalho Rodrigues num artigo de opinião publicado no Observador. O hospital terá que se explicar a este respeito. Resta agora esperar que as inquirições em curso não bocejem em resultados inconclusivos ou habilmente salomónicos. O Ministro da Saúde promete que nunca se justificará com as condições que o antecederam. Cá estaremos para ver.

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Uma dúvida

por Pedro Correia, em 07.01.16

Depois disto ainda se poderá dizer que este é um governo socialista com apoio parlamentar à esquerda?

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Situação política

por Tiago Mota Saraiva, em 06.12.15

Foi particularmente interessante assistir aos debates parlamentares que decorreram durante a semana.
A maioria que sustentou o actual governo demonstra estar tranquila com a sua diversidade. Um governo do PS, uma maioria de esquerda à qual só faltará juntar um presidente de esquerda - mas esta questão fica para outros escritos.
A posição conjunta entre PS e BE, PCP e PEV é um bom ponto de partida que parece ser simpático para todos. Ainda assim, muitos desafios terão pela frente. Ao contrário do que a trupe de comentadores que se repete nas TV's, demasiado ocupados a papaguear questões financeiras, o grande engulho para a maioria parlamentar não será o orçamento ou o défice mas, muito provavelmente, as eleições autárquicas - caso não sejam preparadas em conjunto (que não quer dizer em coligação) e com tempo.
Ao invés, PSD e CDS, estão em processo de auto-flagelação. A tese da ilegitimidade e o ataque de carácter a Costa tem eco na população. O problema é que não se consegue resistir quatro anos a dizê-lo. O pico máximo de popularidade dessa tese ocorreu no dia em que foi declarada pela primeira vez. A partir daí só perde simpatizantes. Mais dia menos dia o PSD deverá ir para Congresso. Fora do poder, com um Passos Coelho radicalmente contra o governo de Costa e, muito provavelmente, com algumas das suas medidas sob investigação (política e judicial) surgirá, certamente, um candidato que procure retomar as pontes ao centro porque isso significa mais votos e muitos lugares na administração pública, mesmo com um governo do PS. Para já o CDS parece-me imprevisível. Veremos se os próximos tempos ajudarão a clarificar-se.

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Notas políticas (7)

por Pedro Correia, em 17.11.15

Falando com uma franqueza a todos os títulos notável, Catarina Martins deixa bem evidente, numa entrevista publicada sábado no El País, a fragilidade das folhas de papel assinadas à porta fechada entre o PS e três partidos à sua esquerda.

São palavras que merecem ser destacadas por nelas se vislumbrar a velha semente do divisionismo identitário que impediu durante décadas entendimentos duradouros à esquerda. Superado o obstáculo que congregava pela negativa, neste caso o Executivo PSD-CDS entretanto derrubado na Assembleia da República, logo emergem as dificuldades de sempre em construir alternativas de governo.

Repare-se no argumento invocado ao jornal espanhol pela porta-voz do BE, justificando assim o facto de o seu partido ter recusado participar no elenco ministerial: "A convergência permite um apoio parlamentar, mas não a [nossa] entrada no Governo, devido às profundas divergências que mantemos, por exemplo, quando ao Tratado Orçamental ou à reestruturação da dívida, que continuamos a defender." (Tradução minha, sublinhados também meus).

 

Noutro trecho da entrevista, Catarina Martins faz questão de acentuar que existe "uma grande divergência entre nós [BE] e o PS sobre a dívida", confessando "não gostar do cenário macroeconómico" dos socialistas. "Não será um Governo de ruptura com os compromissos europeus. O Bloco está contra eles, mas o PS exigiu mantê-los."

Deixa ainda uma palavra nada amena contra o programa eleitoral de António Costa, que "descapitalizava a segurança social", e o lamento pelo travão socialista ao aumento imediato do salário mínimo para 600 euros.

Talvez pelo entusiasmo proporcionado pela "histórica" assinatura das folhas de papel que menciono no parágrafo de abertura deste texto, Catarina Martins insiste em falar não só pelo BE mas também pelo PCP: "El Bloco y el PC nunca respaldarán a un Gobierno que corte los rendimientos del trabajo. Nuestra matriz ideológica es la reposición de rendimientos y derechos de trabajo, la salvaguarda  del Estado Social y parar las privatizaciones." (Desta vez mantenho o castelhano, que tem mais salero.)

 

Não admira que os comunistas se distanciem do voluntarismo desta "actriz profissional" (assim é apresentada pelo El País). Ao ponto de a Comissão Política do Comité Central do PCP ter sentido a necessidade de sublinhar isto: "Face ao muito que tem sido dito neste período e ao muito que se continuará a ouvir e a ler, quase sempre sem fundamento, reafirma-se que pelo PCP fala o PCP, pela sua própria voz e palavras, com as suas posições e o rigor das suas formulações."

A coisa promete.

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Notas políticas (1)

por Pedro Correia, em 10.11.15

Há um mês, prometia-se uma solução alternativa imediata: só agora ficou esboçada. Prometia-se um acordo unitário: houve três. Prometia-se convergência à esquerda: ela não existiu sequer na formulação de uma moção de rejeição conjunta ao XX Governo Constitucional, que foi derrubado esta tarde. Prometia-se um pacto de legislatura: os documentos hoje assinados à hora de almoço estão muito longe disso -  não assegurando sequer posições solidárias na apreciação de orçamentos do Estado e na votação de moções de censura. Prometia-se abertura - mas as assinaturas, em separado, decorreram à porta fechada, sem televisões, quase em segredo. "Sequencial com momentos individualizados", por determinação dos comunistas. O partido que mais defende a colectivização é afinal muito cioso da sua privacidade.

Como diria António Costa noutra constelação, tudo isto é poucochinho.

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Alarmismos e revanchismos

por João André, em 10.11.15

Quando faço os meus ataques a posições adversárias tento apresentar tanto quanto possível a minha argumentação. Quando não tenho factos concretos, apenas uma sucessão de "impressões" também o direi. Não sou perfeito (longe disso) nem infalível (honra apenas do excelentíssimo presidente). São apenas regras gerais que tento seguir.

 

Gosto por isso de ler quem faz o mesmo. Quem apresenta factos e argumentos e os defende como tal. Gosto por isso de ler determinados autores à esquerda e à direita, os quais apresentam a sua visão dos factos. Posições ideológicas opostas não invalidam esta postura. pelo contrário, clarificam-na.

 

Nas discussões sobre a formação do próximo governo temos visto pouco disso. À esquerda infelizmente sobra o triunfalismo e revanchismo, especialmente do lado da esquerda "mais à esquerda" (a direita chama isso de "extrema esquerda", eu prefiro guardar o epíteto de "extrema" para quem não aceita o jogo democrático). À direita tem-se vincado o alarmismo, uma forma de tentar assustar as massas numa acção de "avec la gauche, le déluge".

 

O Delito de Opinião é um espaço de debate político essencialmente virado para a direita. Nada contra isso. Serei dos poucos que assumem um posicionamento de esquerda ou centro-esquerda dentro do blogue. Ajudo à diversidade e, honra seja feita aos autores que já cá estavam e me acolheram, ao debate de pontos de vista diferentes. Não sou o melhor representante da esquerda, longe disso (nem sequer no blogue), mas vou fazendo o meu melhor seguindo as linhas directrizes que apontei acima.

 

Por isso mesmo não posso deixar de apontar uma falha aqui dentro desta casa neste debate. Por parte de alguns, o debate tem sido extremado com poucas considerações para com os argumentos de outros. Em alguns casos a argumentação pode ser dura, mas existe. Não me reverei nem um grama nas posições, mas consigo compreender os pontos de vista. Noutros casos tenho lido opiniões extremistas e alarmistas, quase a apontar que com um governo PS-PCP-BE Portugal será uma nova Cuba, travestidas de humor (na realidade inexistente, porque forçado).

 

Não é uma tendência necessariamente antiga, mas é algo que espero que volte a desaparecer. O debate esquerda-direita é político e é na política que deve ficar. Tem a ver com objectivos e formas de lá chegar. Tem a ver com valores. Alarmismos pertencem a manifestações e folhas de Excel a (pobres) economistas. Os argumentos devem prevalecer sempre com a perspectiva dos objectivos. A esquerda e a direita poderão não concordar em mais nada, mas se concordarem em tentar compreender os argumentos de ambos os lados a democracia será fortalecida.

 

Não posso com este (ou outros posts) fazer nada pelo debate nacional, mas internamente no blogue e com os comentadores posso fazer esse pedido. Não esqueçamos que os argumentos dos outros lados merecem ser ouvidos. No fundo, a democracia é só isto. O respeito entre maioria e minoria.

 

PS - um mau exemplo de jornalismo de opinião é dado sempre que leio os artigos de João Miguel Tavares no Público. Há dias publicou uma verborreia sobre como a esquerda só quer fazer política e a direita compreende que números são números. Alguém lhe explique para que serve a política, por favor. Hoje leio-lhe a comparação entre António Costa e Salazar. Esta é tão nojenta que não mereceria ser publicada sem levar uma grande ensaboadela de um editor. Melhor serviço tem feito José Vítor Malheiros que, apesar de resvalar ocasionalmente para o triunfalismo, apresenta argumentações. Quem me dera ler no Público de alguém à direita algo de semelhante.

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O acordo de Schrödinger

por Rui Rocha, em 04.11.15

Existia nas reuniões com o Presidente da República e não existia das portas de Belém para fora.

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Um mês depois

por Pedro Correia, em 04.11.15

Um mês após a realização das eleições legislativas, as "forças maioritárias" que prometem constituir um "governo de esquerda" ainda não conseguiram sequer entender-se sobre a apresentação de uma moção de rejeição conjunta ao executivo PSD-CDS. "Ponderamos e, ao mesmo tempo, não ponderamos", diz com involuntário humor alguém do inenarrável partido 'Os Verdes', que teima em permanecer na bolsa marsupial do PCP. Uma frase que serve de legenda perfeita ao actual momento político.

Andamos nisto. A coisa promete.

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O País pode esperar

por Pedro Correia, em 02.11.15

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Foto Alberto Frias/Expresso

 

Existe legitimidade parlamentar para uma maioria alternativa à formada pelo PSD e pelo CDS, como é óbvio. A questão é que esta existe, a outra por enquanto é só virtual. Vejo-a apenas estampada em títulos da imprensa, nas pregações de alguns comentadores e no comportamento de Catarina Martins, em permanente manobra de antecipação aos comunistas, ao assumir-se desde já como porta-voz das boas novas de um executivo liderado pelo PS.

Ora um país não se governa com títulos de jornais nem declarações nas pantalhas, por mais arrebatadas ou ofegantes que sejam.

 

Não vale a pena fazer esforços dialécticos para contrapor uma maioria virtual, ainda que absoluta, a uma maioria real, ainda que relativa.

De resto, o sistema politico-constitucional português está desenhado para governos com maiorias simples. Seria um enorme passo atrás concluirmos que só executivos com maioria absoluta, daqui para a frente, poderão entrar em funções. Se esta lógica prevalecesse, os executivos de Mário Soares em 1976, de Cavaco Silva em 1985, de António Guterres em 1995 e 1999, e de José Sócrates em 2009 nunca teriam chegado a tomar posse.

 

Um mês decorrido desde a eleição legislativa, quando todos continuamos a discutir cenários virtuais, António Costa já devia ter anunciado ao País que solução real de governo propõe aos portugueses, sem se escudar em porta-vozes de outras cores partidárias.

Afinal Alexis Tsipras, tão elogiado em Janeiro por vários dirigentes socialistas, formou uma coligação em 24 horas entre o Syriza e a direita nacionalista - forças políticas entre as quais aparentemente era muito maior a distância do que aquela que separa o PS do BE e do PCP.

 

Por cá, todas as conversações têm decorrido no segredo dos deuses, à revelia da opinião pública, com avanços e recuos retóricos (os recuos mais relevantes têm vindo da boca do secretário-geral do PCP, que parece demarcar-se de quase tudo, incluindo da existência de uma moção de rejeição conjunta, enquanto o deputado António Filipe recorre à ironia para designar o próximo "governo do PS", como se não houvesse coligação à vista) e claríssimos sinais de desconforto face a uma "frente de esquerda" oriundos do partido fundado por Soares.

Socialistas como Francisco Assis pressentem que Costa está a tomar decisões destinadas a afastar irreversivelmente o partido dos eleitores de centro que sempre votaram PS e querem Portugal governado por uma grande família europeia, sem ver o País empurrado para qualquer dos extremos do espectro político.

Outros, como Fernando Medina, vão deixando sérios avisos à navegação. "Só um compromisso firme com as regras de participação na moeda única e com um governo estável para a legislatura poderá dar ao País garantias de uma boa governação e de reais perspectivas de mudança política", observa o actual presidente da câmara de Lisboa.

Como mais ninguém se movimenta na faixa central, Assis encarrega-se disso. E faz muito bem. A política tem horror ao vácuo. E se existe vácuo neste momento na política portuguesa é ali mesmo, na sequência da fuga de Costa para o flanco esquerdo - não por imperativo de consciência ou convicção doutrinária, mas pelo mais elementar tacticismo com vista à sua sobrevivência política após ter saído derrotado das urnas.

 

Do secretismo das negociações emerge a convicção de que o ex-autarca de Lisboa joga tudo na lógica inversa às prioridades definidas pelos estadistas: em primeiro lugar surge o puro interesse pessoal, logo seguido da conveniência partidária momentânea.

E o País? O País pode esperar.

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Reticências

por Pedro Correia, em 02.11.15

Francisco Seixas da Costa, na Rádio Renascença:

«Mantenho as reticências que, desde o início, mostro quanto à capacidade de sustentação, à esquerda, de um governo PS.»

«Ao Partido Socialista basta perder o apoio de um destes partidos [PCP ou BE] numa determinada votação numa questão essencial para que este próprio acordo entre em crise.»

«Não se facilita o processo quando Jerónimo de Sousa diz ‘não sei por que razão o défice deve ser 3%, até pode ser 4%’. Aqui começa a introduzir um factor que, não vale a pena esconder, terá leituras externas importantes.»

«Custa-me muito ver no dia 10, à volta da Assembleia da República, uma manifestação da CGTP. Num quadro internacional pode parecer uma espécie de pressão de natureza política. Não me parece ser o momento certo para fazer esta manifestação.»

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Os amanhãs que cantam

por Pedro Correia, em 31.10.15

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"A austeridade acabou de facto." (Pedro Lains, 29 de Outubro)

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O mérito de falar com clareza

por Pedro Correia, em 30.10.15

"Obviamente", o PCP não respeita nem respeitará o Tratado Orçamental.

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A esquerda cada vez mais unida

por Pedro Correia, em 29.10.15

 

No primado da estabilidade política:

"Programa do PS não responde à aspiração da ruptura com a política de direita""Há significativas diferenças entre o PCP e o PS que, aliás, têm estado presentes nas reuniões que se têm realizado.""Prosseguem reuniões para exame de possibilidades de soluções políticas, num quadro de compreensíveis e previsíveis dificuldades que decorrem de programas e de opções estruturantes diferentes." (Excertos dos editoriais do Avante! de 15, 22 e 29 de Outubro)

 

Na adesão ao projecto europeu:

PCP e Bloco de Esquerda votam no Parlamento Europeu uma emenda ao orçamento comunitário para 2016 que prevê o fim do Tratado de Estabilidade Orçamental. Eurodeputados socialistas votam em sentido contrário.

 

Na salvaguarda do sistema monetário europeu:

Eurodeputados do PCP querem incluir no orçamento comunitário uma rubrica para financiar a saída de Estados da zona euro. 

 

No respeito pelos tratados internacionais subscritos pelo Estado português:

Dirigentes comunistas e da CGTP participam, em Lisboa, num desfile "contra os exercícios militares da NATO". E Bloco de Esquerda contesta exercício da NATO em Beja, exigindo "dissolução da aliança militar".

 

Na sintonia de metas nas próximas presidenciais:

«Não nos podemos resignar à actual subordinação de Portugal aos centros do capitalismo, expressa pela UE através de pactos e programas que só agridem as condições de vida dos portugueses», declarou o candidato presidencial comunista, Edgar Silva.

 

Nas bases ideológicas:

Jerónimo de Sousa reafirma a fidelidade do PCP aos princípios do marxismo-leninismo, [doutrina que concebe a luta de classes como motor da história e preconiza o derrube do sistema capitalista por acção revolucionária dos trabalhadores enquanto vanguarda social].

 

Na defesa dos direitos humanos à escala internacional:

Deputados municipais do PCP em Lisboa rejeitam voto de solidariedade a Luaty Beirão, preso político em Angola, apresentado pelo Bloco de Esquerda. 

 

Na definição de objectivos comuns:

Programa do novo Governo PSD/CDS vai ser chumbado com uma moção de rejeição comum pelas forças parlamentares de esquerda, segundo fontes socialistas e bloquistas. Mas Jerónimo de Sousa diz que tal cenário nunca foi discutido nas reuniões à esquerda até agora realizadas.

 

Actualizado

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A esquerda cada vez mais unida

por Pedro Correia, em 22.10.15

No primado da estabilidade política:

"Programa do PS não responde à aspiração da ruptura com a política de direita" e "há significativas diferenças entre o PCP e o PS que, aliás, têm estado presentes nas reuniões que se têm realizado." (Excertos dos editoriais do Avante! de 15 e 22 de Outubro)

 

Na adesão ao projecto europeu e aos compromissos do Tratado Orçamental:

«Não nos podemos resignar à actual subordinação de Portugal aos centros do capitalismo, expressa pela UE através de pactos e programas que só agridem as condições de vida dos portugueses», declarou o candidato presidencial comunista, Edgar Silva.

 

Na salvaguarda do sistema monetário europeu:

Eurodeputados do PCP querem incluir no orçamento comunitário uma rubrica para financiar a saída de Estados da zona euro. 

 

No respeito pelos tratados internacionais subscritos pelo Estado português:

Dirigentes comunistas e da CGTP participam amanhã, em Lisboa, num desfile "contra os exercícios militares da NATO". E Bloco de Esquerda contesta exercício da NATO em Beja, exigindo "dissolução da aliança militar".

 

Na defesa dos direitos humanos à escala internacional:

Deputados municipais do PCP em Lisboa rejeitam voto de solidariedade a Luaty Beirão, preso político em Angola, apresentado pelo Bloco de Esquerda. 

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Álvaro Beleza, membro da Comissão Política do PS:

«O Bloco e o PCP não aceitam a Europa em que nós estamos. São dois partidos que não defendem a economia de mercado. Nós somos sociais-democratas e aí há uma linha vermelha.»

 

Ana Gomes, eurodeputada do PS:

«Mais do que uma vitória da coligação há uma derrota do PS. O partido, mais do que nunca, tem que fazer uma análise nos órgãos próprios.»

 

António Galamba, ex-deputado e membro da Comissão Política do PS:

«Depois de quatro anos de vale-tudo à direita, a tentação de um vale-tudo à esquerda. Uma solução sem respeito pela vontade popular, ao arrepio dos valores republicanos e democráticos.»

 

Ascenso Simões, deputado, cabeça-de-lista do PS por Vila Real e ex-director de campanha de António Costa:

«Deve o PS assumir os riscos de uma gestão dificílima em que, sem qualquer linha de contacto à direita, se confrontaria, logo no primeiro orçamento, com o inevitável aumento da despesa e a circunstância previsível de incumprir as obrigações europeias? Que condições encontraria na concertação social perante uma UGT fragilizada e uma CGTP mais robustecida?»

 

Augusto Santos Silva, ex-ministro da Defesa, da Educação e dos Assuntos Parlamentares:

«A Constituição dá uma margem grande ao Presidente para interpretar os resultados eleitorais. O critério relevante deve ser o do grupo parlamentar mais numeroso. É este que deve assumir as responsabilidades de formar governo.»

 

Carlos Silva, secretário-geral da UGT:

«Não me parece que as forças à esquerda do Partido Socialista dêem garantias de estabilidade em relação ao futuro.» 

 

Carlos Zorrinho, ex-líder parlamentar e eurodeputado do PS:

«Os eleitores que confiaram no PS não perdoarão uma troca dos seus votos por cargos de poder. Esperarão, antes, o uso desses votos para concretizar melhorias concretas na vida do País e nas suas vidas.»

 

Eduardo Marçal Grilo, ex-ministro da Educação do governo Guterres:

«O País está entalado. Governo à esquerda será um enorme desastre.»

 

Eurico Brilhante Dias, deputado e ex-membro do Secretariado Nacional do PS:

«Quem perde as eleições deve ir para a oposição. Um governo minoritário do PS que substitua um governo minoritário da coligação, tendo esta ganho as eleições, é politicamente pouco sustentável e é um governo que começa politicamente fragilizado - se assim for. O mais razoável é que a coligação e o PS cheguem a um entendimento.»

 

Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa:

«A esquerda não pode propor ao País, face a uma solução minoritária que é em si mais instável, outra solução minoritária, com a desvantagem de não ter o partido mais votado.»

 

Francisco Assis, ex-líder parlamentar e eurodeputado do PS:

«Quanto à perspectiva de se constituir uma maioria assente num apoio parlamentar dos partidos de esquerda, mantenho o cepticismo que sempre tive. Entendo que subsistem divergências de tal modo insanáveis que não vislumbro a possibilidade de se constituir um Governo de coligação – o que me parece absolutamente impensável.»

 

Francisco Seixas da Costa, ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus:

«Não tenho a menor confiança - e reivindico essa liberdade - de que seja possível garantir que o PCP e o BE sustentem, ao longo da legislatura, um apoio contínuo que, por exemplo, permita aprovar eventuais medidas, de natureza institucional ou em matéria de política financeira, que possam vir a ser indispensáveis para garantir a continuidade da nossa presença no euro.»

 

Helena Freitas, deputada e cabeça-de-lista do PS por Coimbra:

«Passos Coelho ganhou as eleições e tem todo o direito a governar. (...) Uma maioria que não se apresentou aos eleitores e portanto, para efeitos de governo, não existe, não é legítima.»

 

João Proença, ex-secretário-geral da UGT:

«O PS está a subverter os resultados eleitorais e isso é perigoso.»

 

José Lello, ex-ministro e deputado do PS:

«Esses indivíduos do BE e do PCP não estão a ser sérios. Há 15 dias diziam uma coisa totalmente diferente. Não vão aceitar o euro nem o Tratado Orçamental nem coisa nenhuma. Eles mudaram assim tanto?»

 

José Luís Carneiro, líder do PS-Porto, a maior distrital socialista:

«Quem ganha as eleições deve ter condições para governar.»

 

José Vera Jardim, ex-ministro da Justiça e membro da Comissão Política do PS:

«Vejo o diálogo com a coligação PSD/CDS. Com a esquerda não vejo capacidade nenhuma de diálogo.»

 

Luís Bernardo, ex-assessor de António Guterres e ex-director de comunicação de José Sócrates:

«O PS tem de virar a página. Terminar este seu ciclo santanista com uma liderança sustentada por uma elite que a todo o custo se quer perpetuar na política.»

 

Manuela Arcanjo, ex-ministra da Saúde e ex-secretária de Estado do Orçamento nos executivos de Guterres:

«O PR deverá começar por indigitar Passos Coelho mesmo que venha a existir uma moção de censura que chumbe o seu programa de governo. Alguns argumentam que tal seria uma perda de tempo. Pois que seja. Outros defendem que existe uma maioria absoluta à esquerda. Lamento, mas o que existe é uma maioria aritmética de deputados dos partidos que representam as diversas esquerdas.»

 

Rui Paulo Figueiredo, deputado do PS:

«Não acredito numa solução de entendimentos pontuais do PS com os partidos de esquerda.»

 

Sérgio Sousa Pinto, ex-líder da JS e membro do Secretariado Nacional do PS:

«Os comunistas não querem ir para o governo. Como também não o quer o Bloco. Não lhes interessa partilhar o fardo de governar. Querem um governo fraco do PS, para derrubarem quando for oportuno.»

 

Teixeira dos Santos, ex-ministro das Finanças dos executivos Sócrates:

«Pelo maior alinhamento que existe nas questões europeias entre a coligação [Portugal à Frente] e o PS, diria que à partida um acordo que envolvesse estas forças políticas teria maior probabilidade de garantir estabilidade.»

 

Vasco Cordeiro, líder do PS-Açores e presidente do Governo Regional açoriano:

«Mais importante do que os resultados das construções técnico-jurídicas de transformação de votos em mandatos, é o respeito pela vontade popular. E a vontade do povo, da mesma forma que foi clara nos Açores, foi clara a nível nacional.»

 

Victor Baptista, ex-deputado e ex-líder do PS-Coimbra:

«O PS alienará um capital de confiança política conseguido ao longo dos 40 anos de democracia. O centro-esquerda que deu vitórias ao PS, futuramente, afastar-se-á. E muitos cidadãos que votaram no PS nas legislativas de 4 de Outubro desejavam a vitória do PS e um Governo constituído por quem ganhasse as eleições. O PS não as venceu.»

 

Vital Moreira, constitucionalista e ex-deputado do PS:

«Trazer o PCP e o BE para a esfera do governo pode ser uma receita para o desastre.»

 

Vitalino Canas, deputado do PS:

«Não ouvi do BE ou do PCP uma única palavra da linha europeia. Esse é uma parte essencial do programa do PS. Vale a pena estabelecer linhas de actuação: o PS estabeleceu as suas, outros partidos não o fizeram.»

 

Vítor Ramalho, membro da Comissão Política do PS:

«A direita, tendo tido mais votos que o PS, deve governar.»

 

Edição revista e muito ampliada

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Penso rápido (75)

por Pedro Correia, em 19.10.15

Há quem persista em debater ideias com a subtileza de um sargento na parada, recorrendo a todo o tempo ao estribilho "esquerda, direita".

Estas etiquetas explicam muito pouco ou quase nada da política contemporânea.

 

Vejamos: o Syriza é da "esquerda" assumida e consequente? E o partido Gregos Independentes é da "direita" sem disfarces? Então o que faz uma força da "verdadeira esquerda" coligada com a "verdadeira direita" no executivo de Atenas? Isso mesmo: ambas são forças radicais nas respectivas expressões políticas. E porque será Marine Le Pen, líder da Frente Nacional francesa, uma fervorosa apoiante do Syriza? Pelo mesmo motivo.

Esta é a clivagem política do século XXI - entre forças radicais e forças moderadas. Dizer "direita", sem mais nada, é juntar no mesmo saco Passos Coelho e o Pinto Coelho do PNR. Dizer "esquerda", sem mais nada, é juntar no mesmo saco António Costa e o Garcia Pereira do MRPP. Isto explica e descreve e justifica alguma coisa? Evidentemente que não.

 

Há hoje fracturas de matriz diferente no xadrez europeu a respeito dos mais diversos temas: gestão das finanças públicas, reestruturação da dívida, crise dos refugiados, política de alianças geoestratégicas, soberania identitária versus federalismo. Temas que distinguem moderados, por um lado, e radicais pelo outro. Daí o PNR e o MRPP, em sintonia evidente, reivindicarem a saída de Portugal da NATO e exigirem o regresso imediato ao escudo.

Existem muito mais semelhanças do que diferenças entre os extremos do que entre o centro e os extremos.

 

Quem não perceber isto e continuar a usar as muletas retóricas e os ultrapassados conceitos do século XIX não percebe nada de essencial do mundo onde vivemos.

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Ana Gomes, eurodeputada do PS:

«Mais do que uma vitória da coligação há uma derrota do PS. O partido, mais do que nunca, tem que fazer uma análise nos órgãos próprios.»

 

Carlos Silva, secretário-geral da UGT:

«Não me parece que as forças à esquerda do Partido Socialista dêem garantias de estabilidade em relação ao futuro.» 

 

Carlos Zorrinho, ex-líder parlamentar e eurodeputado do PS:

«Os eleitores que confiaram no PS não perdoarão uma troca dos seus votos por cargos de poder. Esperarão, antes, o uso desses votos para concretizar melhorias concretas na vida do País e nas suas vidas.»

 

Eduardo Marçal Grilo, ex-ministro da Educação do governo Guterres:

«O País está entalado. Governo à esquerda será um enorme desastre.»

 

Eurico Brilhante Dias, deputado e ex-membro do Secretariado Nacional do PS:

«Quem perde as eleições deve ir para a oposição. Um governo minoritário do PS que substitua um governo minoritário da coligação, tendo esta ganho as eleições, é politicamente pouco sustentável e é um governo que começa politicamente fragilizado - se assim for. O mais razoável é que a coligação e o PS cheguem a um entendimento.»

 

Francisco Assis, ex-líder parlamentar e eurodeputado do PS:

«Quanto à perspectiva de se constituir uma maioria assente num apoio parlamentar dos partidos de esquerda, mantenho o cepticismo que sempre tive. Entendo que subsistem divergências de tal modo insanáveis que não vislumbro a possibilidade de se constituir um Governo de coligação – o que me parece absolutamente impensável.»

 

Helena Freitas, deputada e cabeça de lista do PS por Coimbra:

«Passos Coelho ganhou as eleições e tem todo o direito a governar. (...) Uma maioria que não se apresentou aos eleitores e portanto, para efeitos de governo, não existe, não é legítima.»

 

João Proença, ex-secretário-geral da UGT:

«O PS está a subverter os resultados eleitorais e isso é perigoso.»

 

José Lello, ex-ministro e deputado do PS:

«Esses indivíduos do BE e do PCP não estão a ser sérios. Há 15 dias diziam uma coisa totalmente diferente. Não vão aceitar o euro nem o Tratado Orçamental nem coisa nenhuma. Eles mudaram assim tanto?»

 

José Luís Carneiro, líder do PS/Porto, a maior distrital socialista:

«Quem ganha as eleições deve ter condições para governar.»

 

José Vera Jardim, ex-ministro da Justiça e membro da Comissão Política do PS:

«Vejo o diálogo com a coligação PSD/CDS. Com a esquerda não vejo capacidade nenhuma de diálogo.»

 

Luís Bernardo, ex-assessor de António Guterres e ex-director de comunicação de José Sócrates:

«O PS tem de virar a página. Terminar este seu ciclo santanista com uma liderança sustentada por uma elite que a todo o custo se quer perpetuar na política.»

 

Rui Paulo Figueiredo, deputado do PS:

«Não acredito numa solução de entendimentos pontuais do PS com os partidos de esquerda.»

 

Sérgio Sousa Pinto, ex-líder da JS e membro do Secretariado Nacional do PS:

«Os comunistas não querem ir para o governo. Como também não o quer o Bloco. Não lhes interessa partilhar o fardo de governar. Querem um governo fraco do PS, para derrubarem quando for oportuno.»

 

Vital Moreira, constitucionalista e ex-deputado do PS:

«Trazer o PCP e o BE para a esfera do governo pode ser uma receita para o desastre.»

 

Vítor Ramalho, membro da Comissão Política do PS:

«A direita, tendo tido mais votos que o PS, deve governar.»

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Um, dois, esquerda, direita

por Pedro Correia, em 12.10.15

«Vejo o PS a unir-se, se for necessário, à esquerda para pôr um ponto final àquilo que tem sido um impedimento para o crescimento português. (...) É expressão dos portugueses querer que o Parlamento tenha maioria de esquerda. O País deve ser governado pela expressão à esquerda.»

Gabriela Canavilhas, SIC N, na noite de 4 de Outubro

 

«Os portugueses elegeram uma maioria relativa para governar o País. Escolheram um governo. Sendo uma maioria relativa, tem os mínimos necessários para governar. (...) Não será com certeza o PS a inviabilizar a estabilidade. O grande teste vai ser a aprovação do Orçamento: será a grande oportunidade para o PS influenciar positivamente o Orçamento.»

Gabriela Canavilhas, RTP 2, na noite de 5 de Outubro

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A esquerda muralhada

por Pedro Correia, em 09.10.15

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A indigitação do teólogo madeirense Edgar Silva - desconhecido da esmagadora maioria dos portugueses - como candidato presidencial do PCP só demonstra que o simulacro de estratégia "frentista" ensaiado pelos comunistas na frente parlamentar não é mais do que isso: um simulacro.

Reparem nos sinais: no preciso momento em que dialoga com o PS, para construir um alegado "entendimento à esquerda", o partido da foice e do martelo lança esta candidatura divisionista de um membro do seu Comité Central, destinada no essencial a roubar votos à de Sampaio da Nóvoa, o tal candidato "unitário" que António Costa andou a empurrar para o palco nos idos de Abril e parece condenado a uma derrota esmagadora no escrutínio de Janeiro.

A "unidade", para os comunistas, é um conceito meramente instrumental e sempre adiado para um amanhã que nunca chega. O PCP recusa concessões que possam beliscar-lhe a forte identidade construída ao longo de décadas: um arremedo de Frente Popular em Portugal ou se ergue num futuro impreciso sob a sua bandeira ou jamais se alcançará.

Fiéis a este desígnio, os comunistas preocupam-se sobretudo em preservar um espaço muralhado, impedindo a dispersão dos 400 mil eleitores que constituem o seu eleitorado fixo. Que a construção da "unidade de esquerda" termine antes de começar é para eles uma irrelevância.

Alguém se espanta? Este filme é exibido em sessões contínuas desde 1975.

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Ninguem se lembrou?!

por Helena Sacadura Cabral, em 08.10.15

Começaram as conversas do PS com os vários partidos. Curiosamente, para já  são as "outras" esquerdas que se estão a arrogar impor condições ao partido de António Costa.

Mas será que no Partido Socialista, quando mais não seja por uma questão de honra, ninguém se lembrou que se há partido que, pelo menos por enquanto, imponha condições, é o PS e não a restante esquerda, seja ela o PC ou o BE?! 

 

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Admirável mundo novo

por Rui Rocha, em 08.10.15

Com um governo de coligação entre PS, BE e PCP, Portugal terá todas as condições para enfrentar os desafios do século XIX.

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Penso rápido (72)

por Pedro Correia, em 07.10.15

António Costa está metido num molho de brócolos. Tem de viabilizar o Executivo de direita, garantindo-lhe um inevitável balão de oxigénio parlamentar - sob pena de irmos para eleições antecipadas e o PS recuar ainda mais nas urnas. E tem de enfrentar a oposição interna no próprio partido, que cresce de dia para dia. Além do mais, ainda precisa de inventar um canto decorativo onde possa enfiar aquele jarrão pré-presidencial de barbas inventado pelo dr. Soares e que agora não serve para coisa nenhuma.
Demasiados problemas para um homem só. Manifestamente, o debilitado líder socialista não dispõe de vagar nem paciência para aturar os tacticismos da inefável Catarina Martins, que com palavras doces procura partir o PS em dois (algo que o dr. Cunhal já tentou, com manifesto insucesso, em 1974 e 1975).
Nada de novo debaixo do sol.

 

ADENDA: Com uma frase, Costa já se livrou do jarrão. Fez bem em seguir o excelente conselho que Jorge Coelho lhe dera em público na noite de domingo.

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A novidade mais velha

por Pedro Correia, em 06.10.15

Bloquistas e comunistas anunciaram que não viabilizarão o novo governo. É a novidade mais velha da política portuguesa: nunca até hoje PCP e BE viabilizaram governo algum.

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Mais um erro

por Pedro Correia, em 04.10.15

Alguns socialistas, talvez devido ao estado de choque da noite eleitoral, apelam à formação de um "governo de esquerda", que seria constituído pela soma dos derrotados. Ainda por cima derrotados que não se entendem em nada do que é essencial num programa governativo - do Tratado Orçamental à permanência de Portugal no euro.

Seria bom que o PS começasse a aprender alguma coisa com os erros cometidos desde que venceu as europeias, há ano e meio - erros que tenciono analisar aqui em pormenor nos próximos dias. Cortejar os partidos situados à sua esquerda que transformaram os socialistas em bombo da festa e adversário principal nesta campanha, será apenas mais um. Mas seguramente não o menos grave.

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O radicalismo trabalhista.

por Luís Menezes Leitão, em 14.09.15

Depois do desastre que foi a liderança de Ed Miliband, o Red Ed, cuja viragem à esquerda conduziu os trabalhistas a uma derrota histórica, esperava-se que os militantes do partido trabalhista ganhassem algum juízo e escolhessem um líder credível que os conduzisse novamente à vitória eleitoral. Mas não. Foram escolher Jeremy Corbyn, defensor de uma esquerda ainda mais radical, que propõe estabelecer o desarmamento inglês, um aumento colossal de impostos, e sucessivas impressões de moeda. Se alguma vez fosse eleito, o Reino Unido voltaria num ápice aos desastrosos anos 70 do século passado. Como David Cameron acaba de escrever no twitter: "The Labour Party is now a threat to our national security, our economic security and your family's security". Está tudo dito.

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O factor grego

por Pedro Correia, em 28.07.15

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A errática actuação do executivo de coligação em Atenas formado em Janeiro pelo Syriza e o Anel - partidos com a eurofobia como único traço identitário comum - começa a ter reflexos nas intenções de voto um pouco por toda a Europa. A experiência de poder da chamada esquerda radical, confrontada com a iniludível crueza dos factos, tem decepcionado uma fatia imensa de apoiantes que ainda há seis meses estavam convictos de que havia uma "verdadeira alternativa" ao Tratado Orçamental na eurozona. E nem preciso de evocar aqui as citações que venho enumerando na minha série Grécia Antiga para ilustrar esta diferença abissal entre os doces desejos e a amarga realidade. Basta recomendar a leitura atenta desta excelente reflexão de Jorge Bateira, insuspeito de simpatias pelo pensamento liberal ou conservador.

"Quando convocou o referendo, Tsipras tinha a obrigação de aceitar o repto da direita e dizer ao povo grego que a experiência de longos meses de negociações falhadas o obrigava a concluir que um “não” implicava a provável expulsão de facto do euro através do BCE. O que se seguiu foi penoso e humilhante. Uma pesada derrota para a esquerda que ainda acreditava na mudança da UE por dentro, uma derrota que terá repercussões negativas nos resultados eleitorais do Podemos em Espanha", escreveu aquele economista, na passada sexta-feira, no jornal i.

Tocou no ponto certo - como aliás ficou bem evidente logo dois dias depois, na sondagem divulgada este domingo no El País  sobre as intenções de voto dos espanhóis nas próximas legislativas. Os números demonstram uma queda abrupta do Podemos: dez pontos percentuais num semestre (28,2% em Janeiro, 18,1% em Julho) e mais de três pontos num só mês (em Junho tinham 21,5%).

 

Questões de âmbito interno ajudarão a explicar este recuo da esquerda radical espanhola, que há 14 meses irrompeu na cena política conquistando mais de um milhão de votos nas europeias. Com um líder telegénico, Pablo Iglesias, e um programa que mistura marxismo e populismo em doses bem estudadas, o Podemos prometeu "revolucionar" a política espanhola e pôr fim à "casta" dominada pelas duas maiores famílias ideológicas, a conservadora e a socialista. No início de 2015 chegou a liderar as intenções de voto.

A queda entretanto registada explica-se em grande parte pelo factor grego, que não deixará de ter também repercussões em Portugal. Nada mais natural, atendendo ao desvario estratégico do executivo de Atenas - que, sabe-se agora, chegou a ter preparado um  plano de abandono unilateral da eurozona que despenharia fatalmente a Grécia no caos financeiro.

Um plano que não avançou, por um lado, devido à escassez de reservas monetárias do país e, por outro, devido ao bom-senso revelado por Moscovo e Pequim: em ambas as capitais, Tsipras e o seu ex-protegido Yanis Varoufakis escutaram palavras cheias de realismo político. A Grécia falida não vale um conflito global com o Ocidente. Sobretudo agora, que a Rússia mergulha na recessão e a queda das bolsas chinesas começa a alarmar o planeta financeiro.

 

Entretanto já se anuncia um novo pacote de austeridade ainda antes de entrar em vigor o terceiro resgate de emergência à Grécia. Tornando ainda mais longínqua aquela demagógica proclamação de Tsipras na noite de 25 de Janeiro, enquanto celebrava a vitória eleitoral: "Vamos deixar a austeridade!"

Palavras prontamente desmentidas pelos factos.

Por tudo isto, o factor grego continuará a pesar na opinião europeia. E ajudará a determinar o desfecho das próximas contendas eleitorais no continente - queiram ou não queiram todos quantos ainda há pouco apontavam o Syriza como bóia salvadora.

Alguns já perceberam que andaram a aplaudir meros vendedores de ilusões. E talvez subscrevam agora o diagnóstico certeiro de Jorge Bateira: "A derrota do governo grego foi causada, em última instância, por uma cegueira ideológica que o impediu de perceber o significado do impasse em que caiu e de, a partir daí, mobilizar o povo grego para a aceitação das implicações últimas da recusa da austeridade."

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Dias difíceis para a esquerda portuguesa

por Rui Rocha, em 20.07.15

Com Varoufakis a banhos, Tsipras convertido ao neo-liberalismo, Krugman a revelar decepção com os novos heróis atenienses e o ainda recentemente recuperado Hollande a propor um governo europeu de acesso restrito, foi-se em poucos dias o entusiasmo com algumas das mais extraordinárias referências da esquerda portuguesa. Preparemo-nos, portanto, para citações maciças  de Manuela Ferreira Leite e de Pacheco Pereira. E de um ou outro arroubo de Sampaio da Nóvoa.

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Tarolas

por Rui Rocha, em 19.06.15

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Trambiqueiros, ressabiados, trânsfugas, demagogos, pataratas e motoqueiros. Estes são os líderes e pensadores que fizeram tremelicar os coraçõezinhos da esquerda portuguesa nos últimos 5 anos. Depois queixem-se se andarem a ensaiar a Grândola durante mais uns anos:

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