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O meu pai nasceu em 1923 e morreu já nesta década. Faz-me falta. Claro que não só por isso mas também, e muito, pelos infindáveis (e inacabados) debates, encetados na minha adolescência. Comunista ferrenho, viperino em matérias políticas (em questões pessoais era uma jóia), irónico, sarcástico. Auto-irónico: no hospital, muito enfraquecido, eu ao fundo da cama, a seu lado a neta Patricia, um dos seus grandes amores, disse-lhe "Avô, hoje estás mais rosado" (e de facto estava menos translúcido). E ele murmurou, quase inaudível: "Rosa por fora, mas vermelho por dentro". Morreu umas horas depois. Foi com este camarada Pimentel que aprendi a debater, a ficar desarmado mas não convencido. E que há áreas que não vale a pena discutir. E que só são aceitáveis naqueles que têm a tal auto-ironia, essa que é, de facto, a única forma de relativismo intelectualmente digna, pois delineando os limites da crença / dos princípios, sem dela/deles abdicar.

 

De duas das suas formulações muito me lembro. Até irado com a sua abjecção aos "dissidentes" remeti-lhe um "Se vivesses na URSS tinhas sido fuzilado" e ele, de imediato, "Com toda a certeza!". Uma outra vez, desesperei, de novo, com a sua filiação à horrível distopia. E ele, calmo, "tu esqueces-te que eu cresci durante a guerra de Espanha" (e depois na II GM, aquela do "paizinho dos povos", convém juntar). Lembrei-me disto (e dele) ao ler agora mesmo, no Facebook, um intelectual renomado, presumível tardo-sexagenário, botando "Viva a Catalunha livre do franquismo do governo de Espanha". Se o camarada Pimentel fosse vivo eu contar-lhe-ia esta tirada (entre outras) e ele, ateu anti-clerical ainda para mais, abanaria a cabeça naquele seu vagar de sarcasmo e exclamaria "Meu Deus!". E beberíamos um cálice de genebra. Ou de rum.

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Catalunha: o desafio separatista

por Pedro Correia, em 22.09.17

Aqueles que do lado de cá aplaudem sem reservas a deriva separatista catalã, mescla da burguesia nacionalista com a extrema-esquerda vociferante nas ruas e nos media, apontam o dedo ao suposto "défice democrático" espanhol. Acontece que o regime constitucional que vigora em Espanha tem mais sólidos alicerces democráticos do que o nosso. A Constituição do país vizinho resultou não apenas da eleição de uma assembleia dotada de poderes constituintes a partir do sufrágio universal, tal como entre nós, mas foi também ratificada em referendo nacional, ao contrário do que sucedeu com a lei fundamental portuguesa, jamais referendada.

Na Catalunha, região que dispõe dos mais amplos poderes descentralizados de que há registo no quadro político europeu, também os seus dois Estatutos Autonómicos foram submetidos ao voto popular. O primeiro em Outubro de 1979, o segundo - versão actualizada e muito modificada do anterior - em Junho de 2006.

 

Nos últimos 40 anos os catalães foram 35 vezes às urnas. Têm os órgãos políticos que escolheram livremente, sem constrangimentos. Em eleições locais, autonómicas, nacionais e europeias, além dos três referendos já mencionados. Gozam do maior nível de autonomia em toda a sua história. Têm representantes nos órgãos estatais (Congresso, Senado) e no Parlamento Europeu.

O Executivo da Catalunha só não tem capacidade jurídica nem política para convocar pseudo-referendos, à margem da Constituição e do Estatuto que os seus membros juraram cumprir. Porque isso colide com a legalidade democrática e transgride o mandato obtido nas urnas. Como aliás ditou o mais recente acórdão do Tribunal Constitucional, que considerou ferida de nulidade a iniciativa plebiscitária de Barcelona, interdita na lei fundamental do Estado espanhol, também sufragada na Catalunha.

De resto, tal plebiscito seria sempre questionável em diversos planos. Não só por falta de fundamento constitucional mas também por ter sido convocado sem universo eleitoral definido, sem cadernos eleitorais credíveis, sem a possibilidade de uma campanha livre e justa nem condições mínimas para o exercício do contraditório. Num contexto de insulto permanente a todos os catalães que ousam pronunciar-se contra a suposta independência - como aconteceu há dias ao grande escritor Juan Marsé, apodado de "traidor"  pelas patrulhas separatistas.

 

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De resto - há que dizê-lo com clareza - os independentistas não conseguem sequer mobilizar para a sua causa pelo menos 51% da opinião pública catalã. O que aliás seria manifestamente pouco. Não há semi-independências: ou há independências por inteiro, com o apoio de pelo menos três quartos da opinião pública interna, ou não há.
Em Julho, segundo o instituto oficial de sondagens da Catalunha (CIS), havia 49,4% de eleitores contrários à independência e apenas 41,1% pró-secessão. Acontece que o Governo catalão, iludido pelos estribilhos panfletários anti-Madrid, desistiu de representar a maioria dos seus cidadãos, cuja opinião jamais se reflecte nos meios oficiais de comunicação autonómicos, rendidos à propaganda nacionalista.

 

Qualquer declaração unilateral de independência colide com o princípio da legalidade democrática, plasmado na Constituição espanhola e no Estatuto da Catalunha, os dois documentos que conferem estrutura jurídica aos órgãos políticos catalães.

Não por acaso, a sentença do Tribunal Constitucional merece o respaldo de três dos principais partidos políticos espanhóis (o PP, do primeiro-ministro Mariano Rajoy, o PSOE e o Cidadãos), que somaram quase 70% dos votos nas legislativas de Junho de 2016.

Tal como o conservador Rajoy, também o socialista Pedro Sánchez e o liberal Albert Rivera recusam a fragmentação de Espanha. Um Governo nacional que aceitasse hoje o independentismo unilateral na Catalunha estaria confrontado com pressões centrífugas amanhã no País Basco, depois de amanhã nas Baleares, no mês que vem na Galiza, para o ano em Aragão e no País Valenciano, depois nas Canárias, a seguir em Navarra, talvez na Andaluzia, etc. Seria o suicídio político do Estado espanhol, potenciando uma vaga de conflitos sem fim à vista.

Seria também uma péssima notícia para a Europa, pelo precedente criado. E em particular para Portugal. Não esqueçamos que Espanha é o nosso principal parceiro comercial: para lá exportámos mais de 16,2 mil milhões de bens e serviços só em 2016. Uma Espanha mergulhada em conflitos políticos e convulsões sociais será fatalmente uma Espanha em crise económica. E há reflexos inevitáveis de um país em crise no comércio externo. A política não se alimenta apenas de evidências geográficas ou condicionalismos históricos: depende muito dos circuitos económicos, que hoje nos tornam parcelas do mesmo arquipélago. Diga a retórica soberanista o que disser.

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A ler

por Diogo Noivo, em 18.08.17

 

Vamos ganando, de Jorge Galindo, na Jot Down.

 

 

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O primeiro atentado

por Diogo Noivo, em 18.08.17

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Era mais um dia normal de serviço no restaurante. Mas em poucos segundos tudo mudou: um engenho explosivo colocado junto ao balcão foi detonado matando 18 pessoas e destruindo uma parte importante do restaurante "El Descanso", situado no quilómetro 14 da estrada Madrid-Barcelona. Foi no dia 12 de Abril de 1985. Cerca de 16 anos antes dos atentados de 11 de Setembro, nos Estados Unidos da América, Espanha sofria o seu primeiro ataque jihadista. Esta acção terrorista foi reivindicada por uma organização intitulada Jihad Islâmica, embora os detalhes da operação - autores materiais e morais, propósito, perfil da organização, etc - ainda hoje estejam por esclarecer.
O atentado de ontem em Barcelona é mais um episódio repugnante e condenável de uma longa e tortuosa história. Em Espanha, a Catalunha é a região com maior incidência de actividade jihadista desde há bastantes anos. De resto, como refere Ignacio Cembrero no livro La España de Alá, 50 das 98 mesquitas e oratórios salafistas sinalizados pelo Ministério do Interior estão na Catalunha. Por lá passaram organizações terroristas de diferentes países, da Argélia ao Paquistão. O problema é grave, mas não é novo. Em suma, e enquanto a poeira não assenta, importa evitar análises apocalípticas e especialistas de ocasião.

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Um herói caído em desgraça

por Diogo Noivo, em 15.08.17

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Em Espanha, Alberto Casillas foi um herói para os manifestantes anti-tudo. No dia 25 de Setembro de 2012, jovens "indignados", pertencentes a movimentos anti-sistema, anti-globalização e a uma lista infindável de associações ditas cívicas, promoveram a iniciativa Rodea el Congreso ("Cerca o Parlamento", um mote que, como é bom de ver, jorra civismo por todo o lado). Houve excessos por parte dos manifestantes e a polícia espanhola não é famosa por ser meiga. Aqueles que não foram detidos procuraram refúgio. Os que entraram no bar El Prado, em Madrid, tiveram a protecção de Alberto Casillas Asenjo, um empregado de mesa que se meteu entre os manifestantes e o corpo de intervenção. Alberto disse à polícia não querer violar a lei, mas foi irredutível na defesa dos manifestantes que se encontravam dentro do bar, afirmando que não autorizaria um "massacre". As imagens do acto de bravura de Alberto tornaram-se virais. Os colectivos anti-tudo saudaram o herói e desdobraram-se em agradecimentos laudatórios nas redes sociais.

 

Passaram uns anos e Alberto Casillas voltou às notícias: em 2014, interrompeu um acto público, em Madrid, onde Pablo Iglesias, caudillo do Podemos, era o convidado principal. Iglesias, que assessorou o regime chavista e que dele conseguiu financiamento para criar o Podemos, entretinha-se a criticar a "casta", os políticos "de siempre". Alberto levantou a voz e perguntou ao líder do Podemos se não tinha vergonha de ter assessorado o regime venezuelano. "Mi esposa no puede comprar papel ni comida", disse Alberto, que tem a mulher e a filha a viverem na Venezuela. Alberto foi expulso da conferência. Ao regressar ao trabalho no bar El Prado, Alberto encontrou ameaças e insultos e, uns tempos depois, o desemprego.

Este ano, num outro acto público onde representantes do partido Izquierda Unida se deleitavam a branquear a manipulação eleitoral e o autoritarismo do regime de Nicolás Maduro, Alberto volta à carga para dizer que o rei vai nu. "Están matando a jóvenes!", gritou, incomodando a fina flor da extrema-esquerda espanhola. Acabou na rua.

 

A avaliar pelo que fez no passado e pelo que fez agora, Alberto deve ser um tipo decente. Parece ter o coração no sítio certo. No entanto, acabou proscrito por aqueles que o elevaram ao Olimpo. O crime de Alberto foi o de não entender que para a extrema-esquerda a violência policial num Estado de Direito é hedionda, mas quando perpetrada por um regime autoritário afim é uma defesa legítima da soberania nacional. Agora não o aplaudem.

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Breve história de um fim provisório

por Diogo Noivo, em 13.04.17

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No passado fim-de-semana a ETA entregou as armas. Ao contrário do que sucedeu com o IRA ou com as FARC, o desarmamento da ETA foi unilateral, sem contrapartidas. Foi uma rendição. A organização terrorista chega aos dias de hoje sem ter ganho nada: nem independência, nem a junção do País Basco a Navarra, nem a transferência de presos etarras para estabelecimentos prisionais bascos, nem a internacionalização do “conflito”, nem amnistias. Nada. Chega aos dias de hoje sem apoio popular - o pouco que existiu é agora negligenciável. A única coisa que conseguiu foi deixar um rasto de terror feito à custa de mais de 800 cadáveres. 

 

O estertor do terrorismo etarra faz-se de duas datas: 10 de Janeiro e 20 de Outubro de 2011. A 10 de Janeiro de 2011 a organização terrorista ETA anuncia um cessar-fogo "permanente, geral e verificável", três palavras que nunca estiveram juntas em anteriores interrupções de hostilidades. A 20 de Outubro do mesmo ano, a ETA anuncia o "cese definitivo", o fim. Para decretar o óbito de 40 anos de terror faltava apenas que a organização entregasse as armas e, depois, anunciasse oficialmente a sua dissolução. No passado fim-de-semana cumpriu-se a primeira etapa. Aguardamos o cumprimento da segunda.

 

O estado da arte deve-se a diferentes factores que, juntos, criaram a tempestade perfeita. Em primeiro lugar, um processo negocial, o terceiro em 40 anos de terror. Já trouxe ao DELITO a história desta negociação: Negociador (Borja Cobeaga, 2014) é a adaptação cinematográfica criativa do livro onde Jesús Eguiguren, o principal negociador, conta como conversas exploratórias entre ele, do Partido Socialista Basco, e Arnaldo Otegi, uma das figuras mais conhecidas e activas da esquerda abertzale, evoluíram para rondas negociais entre o Governo, a esquerda abertzale e a ETA. Este processo, à semelhança dos anteriores, fracassou. Ainda assim, conseguiu cavar as clivagens existentes na esquerda pró-etarra e, assim, afastar a estrutura partidária da estrutura terrorista. Além do filme e do livro, o processo é agora explicado em El fin de ETA (Justin Webster, 2016), um documentário notável, muitíssimo bem feito, disponível em Portugal no Netflix. Espero trazê-lo em breve ao DELITO.

Em segundo lugar, a pressão policial e judicial. No ano 2000, a ETA contava com cerca de 1000 operacionais; seis anos depois este número desceu para aproximadamente 50. A aplicação da lei foi essencial para que a imensa maioria dos terroristas com experiência operacional e política acabassem presos. O vazio de poder na cúpula da ETA foi então preenchido por jovens impreparados, muitos vindos directamente da kale borroka (guerrilha urbana), gente com manifesta inépcia política.

A nova liderança terrorista é o terceiro factor: o seu fanatismo exacerbado impediu-a de ver a realidade e de perceber que à medida que o tempo passava a organização ficava cada vez mais isolada. A ETA continuou a matar, visando com frequência vítimas de oportunidade, os mais fracos ou mais desprotegidos, pessoas como Isaías Carrasco. Mostrou que a única forma de fazer política que conhecia era matar.

 

Tudo indica que a ETA chegou felizmente ao fim. Porém, manda o conhecimento do modus operandi da organização que esperemos pelo anúncio oficial de dissolução. Recorde-se que a 30 de Dezembro de 2006, em pleno processo negocial, a ETA detonou um carro-bomba no Terminal 4 do aeroporto de Barajas, em Madrid, matando duas pessoas e destruindo por completo um bloco de estacionamento. Recorde-se também que em Outubro desse ano a ETA roubou cerca de 300 armas e munições na véspera do dia em que o Executivo espanhol levou o Caso Basco e representantes das forças políticas separatistas ao Parlamento Europeu. O Governo esforçava-se por encontrar soluções, arriscava muito do seu capital político ao abrir a porta à internacionalização do “conflito”, mas a ETA aproveitava o momento para se rearmar. Por último, recordemos que a ETA defendeu e aplicou aquilo a que chamou de “socialização do sofrimento”, um conceito mórbido segundo o qual a violência tinha de chegar a todos: políticos, polícias, jornalistas, professores, enfim, a todos os que se opunham publicamente à utilização da violência como instrumento de acção política.

Compreende-se, assim, o cepticismo de vários sectores da sociedade espanhola. Além do mais, existe o risco de que os partidos independentistas recuperem o legado político da ETA, ainda que sem recorrer ao terror. Se tal acontecer, será praticamente impossível sarar a chaga social aberta ao longo de 40 anos de terrorismo. Também por isso é importante que a ETA assuma publicamente a sua dissolução.

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Quando a democracia vence o terrorismo

por Diogo Noivo, em 10.04.17

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 Monumento a la Constitución, 21 de Outubro de 1983

 

O desarmamento da ETA chega tarde. 

Manda a prudência, o percurso desta organização terrorista e o sofrimento das vítimas que não lancemos foguetes. Pelo menos, para já. Tentarei escrever sobre o tema. Por ora, partilho uma magnífica fotogaleria do El País dedicada à luta cidadã. Estas imagens e o pequeno enquadramento histórico de cada uma delas é suficiente para perceber a inanidade de uma peça recente da SIC que chamou "luta armada" ao terrorismo e "grupo separatista" à ETA.

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Ainda tão cedo para dizer adeus

por Pedro Correia, em 09.04.17

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 Carme Chacón (1971-2017)

 

Há menos de uma década era uma das mais promissoras políticas de Espanha. Ministra da Defesa, primeira mulher a assumir tais funções, a sua imagem a passar revista aos soldados já grávida de sete meses deu volta ao mundo.

Bonita, inteligente, talentosa, Carme Chacón quase ascendeu à liderança do PSOE no fim do mandato de Rodríguez Zapatero, quase ascendeu ao posto máximo dos socialistas catalães, a região de onde era natural, quase teve a maioria da esquerda moderada espanhola a seus pés.

Tempos irrepetíveis: do fulgor da fama à penumbra do esquecimento foi um curto passo, antes impensável. Bem demonstrativo de que como é ilusória e transitória a espuma da política.

Ex-ministra, ex-deputada, ex-personalidade promissora da política espanhola, Carme morreu hoje, na solidão do seu apartamento madrileno, com apenas 46 anos - "insuportavelmente jovem", na certeira definição do obituário do El Mundo. A sua última aparição pública ocorrera há precisamente duas semanas, presença discreta num comício de apoio à candidatura de Susana Díaz na campanha interna para a liderança do Partido Socialista. Há três candidatos em liça, ela ficou à margem. Irremediavelmente arredada dos holofotes.

Tanto prometia, tanto deixou por concretizar. Parte quando era ainda tão cedo para dizer adeus. E há neste momento espanhóis de diversos quadrantes a chorar a sua morte, atordoados com a brutal notícia. Tudo é tão fugaz e desconcertante nesta álgebra incerta a que chamamos vida.

 

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 Grávida de sete meses, passando revista às tropas enquanto ministra da Defesa (2008)

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Procurar razão

por Diogo Noivo, em 11.03.17

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Com apenas 16 anos de idade Gabriel Vidal “Baby” tornou-se o centro de todas as atenções em Espanha: foi o primeiro a ser condenado pela justiça daquele país na sequência da investigação aos atentados terroristas de 11 de Março de 2004, em Madrid.
Apodado “El Gitanillo” pelos órgãos de comunicação social, Gabriel pertencia à “trama asturiana”, um pequeno grupo de delinquentes de Avilês que se dedicavam ao tráfico de estupefacientes e a delitos comuns. Rufias de bairro que por ganância, por laxismo e por força de um habitual encolher de ombros acabaram por fornecer a jihadistas os explosivos que mataram 191 pessoas e feriram cerca de 1000 na capital espanhola. “Baby” foi quem transportou os explosivos das Astúrias até Madrid e os entregou à célula terrorista que cometeu o atentado.
Em Nos vemos en esta vida o en la otra, Manuel Jabois, jornalista e colunista no diário El País, usa a história de “Baby” como estribo para descrever os factos, os personagens e as ligações que culminaram no acto terrorista mais devastador ocorrido na Europa Ocidental. A partir de várias conversas com o jovem asturiano, as primeiras que “Baby” teve com um jornalista, Jabois mapeia o contexto difuso de uma rede composta por redes, destrinçando com clareza as fronteiras entre a pequena criminalidade e o terrorismo; ao mesmo tempo, expõe o papel crucial que a oportunidade, o acaso e a indiferença de gente que nada tem que ver com o terrorismo desempenharam neste atentado. Aqui como noutros casos, o fanatismo religioso é manifestamente curto para explicar a confluência de acontecimentos e de diferentes percursos de vida que acabam por desaguar em massacre.
O livro é um trabalho notável de reportagem, muitíssimo bem documentado e escrito, que faz as perguntas certas, mas que não se angustia quando as respostas são demasiado triviais ou mesmo estúpidas. Todos os ângulos da história, todos os intervenientes (o livro refere mais de 50), todos os momentos que antecederam o atentado são trabalhados com minúcia e talento para tentar explicar o que parece destituído de razão.
Hoje assinalam-se os 13 anos do atentado em Madrid. No ano passado, escrevi aqui no DELITO que "[h]abituada à chaga terrorista, Espanha combateu a barbárie sendo irredutível na defesa da normalidade democrática." Nos vemos en esta vida o en la otra é mais uma expressão dessa normalidade. Manuel Jabois investiga e escreve sem assumir as dores de ninguém, sem tomar partidos, mas sem esquecer que existem vítimas. O livro é um esforço intenso, mas sereno de compreensão de um marco nefasto na história contemporânea de Espanha. Foi uma das leituras mais interessantes e impressivas que fiz em 2016. Se há dia para o recomendar, e merece sê-lo, hoje é sem dúvida esse dia.

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Tristes tempos!

por Luís Menezes Leitão, em 29.11.16

Ainda sou do tempo em que na escola primária se ensinava a verdadeira tragédia nacional que foi o desastre de Alcácer-Quibir, que implicou que a Coroa de Portugal viesse a ser herdada dois anos mais tarde por Filipe II de Espanha. Seguiram-se 60 anos de decadência nacional, com Filipe III e Filipe IV, em que o país quase se converteu numa província espanhola. Só escapámos a esse destino graças ao heroísmo dos conjurados do 1º de Dezembro de 1640, que voltaram a colocar no trono um Rei português, D. João IV. Na altura ensinavam-nos na escola que por esse motivo é que celebrávamos o 1º de Dezembro, data da restauração da nossa independência.

 

Passados mais de 370 anos sobre essa data, tive ocasião de assistir à vergonha de ver um primeiro-ministro português decretar a abolição desse feriado. Este ano voltou a ser reinstituído mas, na véspera do mesmo, assiste-se à visita de outro Filipe, desta vez o VI, que pelos vistos a população do Porto entende que deve ser recebido com gritos de "Viva o Rei!", enchendo-se a cidade com bandeiras espanholas, como se estivéssemos em Madrid. Estou convencido de que nem em Barcelona ou em Vigo o Rei de Espanha seria recebido assim. Pelos vistos, há muita gente em Portugal que perdeu de vez, não só o orgulho nacional, como também a própria noção do ridículo. Tristes tempos, na verdade!

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Acabou a novela, mas não acabou o drama

por Diogo Noivo, em 30.10.16

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Ouvi há dias uma frase que resume na perfeição o último ano da política espanhola: Mariano Rajoy é o único animal no planeta que avança sem se mover. O líder dos Populares não tem carisma, não tem o dom da palavra, lidera um partido com vários militantes e antigos militantes envolvidos em casos de corrupção e de branqueamento de capitais, não fez grandes cedências à oposição apesar de carecer de uma maioria absoluta, mas avança. Aliás, olhando para o percurso de Rajoy na política nacional vemos uma história quase inexplicável de sobrevivência. Uns dirão que se trata do triunfo da mediocridade, outros que é um bom exemplo da importância do sangue-frio e da estratégia em política. Seja como for, o homem resiste.
Isso deve-se, em parte, à hecatombe socialista, que analisei aqui. O desastre estratégico e eleitoral do PSOE levou o partido a um Comité Federal, realizado no passado domingo. Ao órgão máximo do PSOE competia-lhe tirar os socialistas de uma encruzilhada asfixiante: abster-se na investidura de Rajoy, permitindo que Populares formassem governo, ou votar “não” e levar o país a terceiras eleições. Esta era a escolha visível e imediata, aquela que se assume perante as câmaras. Mas, como na música, havia outra, mais importante: ganhar tempo para reconstruir o partido ou ser ultrapassado nas urnas pelo Podemos e, consequentemente, tornar-se irrelevante. Sem surpresa, o PSOE optou pela abstenção, ou seja, por manter o lugar de principal força política de esquerda.

 

O Podemos não gostou. Ainda com Pedro Sánchez no lugar de Secretário-Geral, Pablo Iglesias y sus muchach@s (assim, com arroba, à Podemos) pressionavam diária e intensamente o PSOE. Segundo o Podemos, os socialistas não podiam ceder aos apelos à responsabilidade, tinham que ser intransigentes no “não” ao PP. Para o Podemos, este era o caminho para o sucesso: as terceiras eleições fariam dele o primeiro partido de esquerda em Espanha, seguido por um PSOE de rastos e sem condições para se reafirmar no panorama político nacional. Era uma oportunidade de ouro. Decidida a abstenção socialista no passado domingo, o radicalismo e a ferocidade do Podemos atingem novos patamares. Pablo Iglesias e os seus dizem do PSOE o que Sócrates não disse de Cavaco (pelo menos em público), evidenciando um discurso típico de mau perdedor. “Traidores”, “marca branca do PP” e “casta” figuram entre os apodos mais simpáticos, ditos nos intervalos da exploração das fracturas internas que um profundamente inábil Pedro Sánchez deixou no PSOE.
Mas Iglesias também extrema posições num espaço político mais vasto. Após defender que o Podemos devia menorizar o papel das instituições e fazer política na rua, Pablo Iglesias mostrou-se favorável à ideia de um protesto que cercasse o Congreso de los Diputados, uma manifestação cujo intuito é de tal forma contrário ao espírito e aos procedimentos do Estado de Direito Democrático que dispensa comentários adicionais. Pelo meio, manifestantes de cara tapada impediram Felipe González, antigo Presidente de Governo e histórico líder socialista, de dar uma conferência na Universidade Autónoma de Madrid. É verdade que não houve um apoio formal do Podemos a estes manifestantes, mas é igualmente verdade que as palavras de ordem foram copiadas de diferentes intervenções públicas de Pablo Iglesias. É caso para evocar as brujas que não existem, mas que vão aparecendo.
No passado domingo, o PSOE optou por sobreviver, como aliás demonstra a reacção visceral do Podemos. Os socialistas têm tempo e o Governo de Mariano Rajoy nas mãos, o que é um bom ponto de partida. Mas a pressão à sua esquerda deve continuar num trajecto ascendente.


Acabou a novela da investidura em Espanha porque há desde ontem um Presidente de Governo. Tal como Mariano Rajoy, o PSOE sobrevive. É o melhor cenário para ambos. Mas os problemas de um e do outro estão longe de estar resolvidos. Rajoy estará nas mãos do PSOE e o PSOE talvez esteja nas mãos do Podemos. Há drama no horizonte.

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O aparatoso declínio do PSOE

por Pedro Correia, em 25.10.16

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 Um partido em sério risco de desmembramento

 

«Quando Marx pode mais que as hormonas, não há nada a fazer»

Julián Marías

 

1

O Partido Socialista Operário Espanhol, reunindo de emergência o seu órgão máximo entre congressos, decidiu no sábado viabilizar um novo Executivo do Partido Popular, liderado por Mariano Rajoy, com um “mandato imperativo” aos seus deputados, que deverão abster-se na votação de investidura.

Com esta decisão do seu Comité Federal – assumida por 139 votos favoráveis e 96 contra – o PSOE demonstrou uma responsabilidade institucional que há muito tardava, rompendo enfim um bloqueio de 300 dias sem formação de governo após duas eleições legislativas em que o PP conseguiu triunfar, embora sem maioria absoluta - a 20 de Dezembro de 2015 e a 26 de Junho deste ano.

Um bloqueio que se devia à intransigência do ex-líder socialista, Pedro Sánchez, apesar de o seu partido contar com apenas 85 deputados no Parlamento espanhol – menos 52 do que os 137 do Partido Popular. Uma diferença inultrapassável, fosse qual fosse a aritmética política. E que transformou em utopia o cenário de umas terceiras legislativas, que deviam ocorrer em vésperas do Natal.

 

2

Desde que perdeu a eleição parlamentar de 2011, após a fracassada governação de Rodríguez Zapatero que quase conduziu Espanha a um resgate financeiro de emergência idêntico ao ocorrido em Portugal, o PSOE foi resvalando até ao limiar da luta pela sobrevivência política em que se encontra agora.

A viabilização de um novo Governo de centro-direita, mais do que um tardio gesto de responsabilidade, aliás avalizado pela maioria dos eleitores socialistas, constitui portanto uma reacção instintiva à hecatombe que se avizinhava: uma sondagem muito recente divulgada pelo jornal El País, historicamente afim aos socialistas, atribuía uma votação quase irrisória ao PSOE, ultrapassado largamente à direita pelo PP e à esquerda pelo Podemos – amálgama de organizações da esquerda radical, que em diversas zonas do país mantém estreitos vínculos às forças nacionalistas e separatistas.

 

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 Pedro Sánchez: pura incompetência política

 

3

Fundado pelo sindicalista Pablo Iglesias em 1879, o PSOE é um dos mais antigos partidos europeus. E o único que resta dos que firmaram os pactos de transição em 1977 e 1978 que permitiram a refundação da democracia espanhola após quatro décadas de ditadura. A UCD de Adolfo Suárez dissolveu-se há 30 anos, a Aliança Popular de Fraga Iribarne transfigurou-se no final da década de 80 no actual PP e o Partido Comunista de Santiago Carrillo tornou-se uma curiosidade microscópica, sem qualquer relevância na Espanha contemporânea.

Os socialistas assumiram-se nestes 40 anos como uma força pendular na sociedade espanhola, tendo exercido funções governativas durante mais tempo do que os restantes partidos somados (UCD e PP). O seu líder mais carismático, Felipe González, rompeu com a orientação marxista num congresso extraordinário em 1979 e já enquanto primeiro-ministro, em 1986, desafiou a ala esquerdista do partido ao fazer ingressar o país na NATO.

A moderação de González fez alargar a base sociológica do PSOE, tornando-o um partido com verdadeira implantação nacional, que chegou a ocupar a presidência da maioria dos executivos autonómicos - incluindo a Catalunha, com José Montilla, entre 2006 e 2010, e o País Basco, com Patxi López, de 2009 a 2012.

Tudo isso mudou. Hoje está reduzido a dois feudos regionais: Andaluzia e Extremadura.

Em Madrid tornou-se a quarta força política. Em Barcelona, a quinta.

 

4

Sánchez é um caso clamoroso de incompetência política que apenas pôde manter-se ao leme da Calle Ferraz devido à manifesta cobardia da maior parte dos quadros socialistas – incluindo o que resta do seu baronato regional – que só despertaram ao ver o partido quase reduzido a escombros. Incapazes de fazer frente ao líder, preferiram desgastá-lo ao longo destes meses com relatos de "fontes anónimas" impressos nos jornais.

Em apenas dois anos, o medíocre Sánchez perdeu todas as eleições, por esta ordem cronológica: municipais, regionais, autonómicas na Catalunha, legislativas de 2015 e 2016.

As duas derrotas mais recentes ocorreram a 25 de Setembro nas autonómicas da Galiza e do País Basco. No primeiro caso, o PSOE perdeu quase 45 mil votos, baixando de 18 para 14 deputados no parlamento regional, dominado por uma inequívoca maioria absoluta do PP; no segundo, viu fugir-lhe cerca de 86 mil votos, e desceu de 16 para nove deputados, com o Partido Nacionalista Basco saindo triunfador das urnas.

Nem assim renunciou ao cargo. De desastre em desastre, preparava-se para levar o partido ao naufrágio maior: a terceira eleição legislativa em doze meses, que tornaria ainda mais irrelevante o PSOE na sua estonteada fuga para a frente.

As bases, representadas no Comité Federal, acabam de dizer-lhe: basta. Aconteceu aquilo que previ aqui, há quase três meses: “Sánchez sairá da pior maneira, empurrado pelos barões regionais do partido, com Susana Díaz à cabeça. Já recebeu um solene aviso dos seus pares, mais sintonizados do que ele com a vox populi: não haverá terceiras legislativas. Tal cenário seria catastrófico para os socialistas espanhóis, que vão recuando a cada novo teste eleitoral.”

 

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Juan Negrín e Indalecio Prieto nos anos 30: as lições da história 

 

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É triste verificar que alguns líderes políticos só abandonam a cena ao serem empurrados, quando a ética da responsabilidade lhes impunha a demissão ao fim de duas ou três derrotas. No caso de Sánchez foi preciso esperar por sete para o empurrão surgir.

Empurrado, mas não convencido. Alguns dos seus apaniguados garantem que violará a disciplina de voto no Congresso dos Deputados, onde mantém assento: incapaz de aceitar a regra da maioria, ameaça votar não. E não tardou a tuitar esta mensagem: “Rapidamente chegará o momento em que a militância recuperará e reconstruirá o seu PSOE.”

Já afastado, continua a comportar-se como se ainda aspirasse disputar o poder a Rajoy num escrutínio do qual sairia inevitavelmente um PSOE ainda mais enfraquecido, transformado em parceiro menor da extrema-esquerda. No fundo, o sonho da direita espanhola.

 

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Instala-se agora o fantasma do fraccionismo no partido, com a facção moderada a enfrentar aqueles que defendem uma aproximação dos socialistas ao Podemos. Nada de novo na história do partido, que durante a guerra civil (1936-39) assistiu ao choque das tendências internas – nomeadamente entre os reformistas como Indalecio Prieto e os ultra-radicais como Largo Caballero, auto-intitulado “Lenine espanhol”, contando estes com aliados como o titubeante Juan Negrín, apanhado entre dois fogos.

Hoje novamente fragmentado em inúmeros feudos internos, sem uma liderança firme, dividido entre o constitucionalismo que lhe serviu de bandeira nos anos em que foi mais forte e a pulsão populista proporcionada pelo ar dos tempos, com ocasionais flirts separatistas na Catalunha, o PSOE luta por sobreviver enquanto grande partido nacional. Com González, chegou aos 202 parlamentares. No período pós-Zapatero foi baixando sucessivamente: 110 deputados em 2011, 90 em 2015, 85 este ano.

A nível europeu, só o quase desaparecido PASOK grego se afundou tanto em tão pouco tempo.

A incapacidade de aprender as lições da história origina erros trágicos na política, algo que o aparatoso declínio dos socialistas espanhóis bem demonstra. Como se estivesse escrito nas estrelas: os prenúncios eram evidentes e nenhuma advertência foi escutada em tempo útil.

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Pátria de violência e ódio

por Diogo Noivo, em 20.10.16

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A ETA, a esquerda abertzale e o regime fascista que ambas instituíram no País Basco sempre mereceram pouca atenção em Portugal, nuns casos por laxismo, noutros por conivência. Durante 40 anos, ser democrata e exercer o direito à liberdade de expressão foram, no País Basco, crimes de delito de opinião. O criminoso era penalizado com ameaças, quando não com a morte. Professores, escritores, cineastas, jornalistas, polícias, políticos e até humildes portageiros eram confrontados com uma escolha: aceitar uma liberdade timorata, mutilada e tutelada pela violência terrorista, ou fazer valer os seus direitos e ideias. Os que optaram pela segunda via assumiram um custo. Para os próprios e para as suas famílias.

O País Basco foi ao longo de quatro décadas uma região bizarra, em absoluta divergência da construção de liberdades no espaço europeu. Os verdadeiros criminosos saiam à rua, faziam as suas vidas com relativa impunidade, enquanto as vítimas viviam num regime de detenção, sob permanente escolta armada, impedidos de actos normais e quotidianos como ir ao cinema ou visitar um familiar quando bem lhes aprouvesse.

A nuvem de chumbo que pairou sobre a Euskadi é hoje uma névoa rarefeita. Mas não se dissipou. No passado fim-de-semana, dois militares da Guardia Civil, que gozavam uma noite de folga na localidade navarra de Alsasua, foram brutalmente agredidos por cerca de 50 indivíduos pertencentes à esquerda abertzale. Os militares e as suas namoradas. Ser polícia no País Basco ainda é um crime. Ser amigo ou companheiro de um polícia é um crime por associação. Julgamento e pena são servidos de uma assentada pelos auto-denominados “representantes do povo basco” que, para além de carecerem de legitimidade democrática, nunca representaram nada nem ninguém.

O mais recente romance de Fernando Aramburu é, por isso, infelizmente oportuno. “Patria” acompanha a história de duas famílias separadas pelo medo e pela violência. Em cerca de 650 páginas, Aramburu abarca décadas de agressões, de gente subjugada, e fá-lo desde uma perspectiva pouco habitual: olhando para o quotidiano. O livro é um puzzle de ficção, cujas peças saíram de uma realidade dolente. O aparelho de repressão da ETA, os funerais, as tabernas onde se aprendia a odiar em conjunto, os arruaceiros e a cobardia são elementos que perpassam “Patria” do princípio ao fim, criando uma imagem tão impressionante como fidedigna. Em entrevista ao Babélia, o suplemento de cultura do El País, Fernando Aramburu afirma que a derrota literária da ETA continua pendente. Este livro é sem dúvida um valiosíssimo contributo para conseguir essa derrota e uma oportunidade para perceber que, durante décadas, houve na Europa das liberdades uma região agrilhoada por uma ditadura violenta e alimentada pelo ódio.

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Anatomia de uma hecatombe

por Diogo Noivo, em 03.10.16

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A pressão exercida pelos barões socialistas forçou Pedro Sánchez a demitir-se das funções de secretário-geral do Partido Socialista Obreiro Espanhol (PSOE). Esta não é a verdade dos factos, mas é a verdade para alguma imprensa portuguesa. Vamos por partes.

No dia 20 de Dezembro de 2015, o PSOE, capitaneado por Pedro Sánchez, obteve o seu pior resultado eleitoral de sempre em eleições legislativas, o resultado mais baixo desde 1977. Deste acto eleitoral não saiu um governo e, como tal, foi necessário repetir eleições. No dia 26 de Junho de 2016 os espanhóis voltaram às urnas e o PSOE bate o seu próprio recorde: perdeu 5 deputados e cerca de 156 mil votos. Nova derrota histórica. O seu adversário directo, o Partido Popular (PP), reforçou a vitória obtida em Dezembro, conseguindo mais votos (aproximadamente mais 600 mil) e mandatos (mais 14), isto apesar de ser a força política associada à austeridade, à subserviência a Bruxelas e, pior, a casos de corrupção e de branqueamento de capitais. Por outras palavras, mais do que uma derrota histórica, o resultado dos socialistas a 26 de Junho de 2016 foi uma humilhação sem paliativos.

No plano local o cenário não é mais ameno. Nas eleições celebradas recentemente na Galiza e no País Basco, o grande derrotado foi o PSOE. Na Galiza perdeu 5 mandatos, na Euskadi perdeu 7 mandatos e 40% dos votos, e em ambas é ultrapassado pelo Podemos. Importa recordar que, entre 2009 e 2012, o PSOE governou o País Basco.

Em suma, associando os resultados nacionais aos resultados locais, o PSOE foi de derrota histórica em derrota histórica até uma cada vez mais provável irrelevância final. Pedro Sánchez pegou num partido com vocação de governo, uma força política fundamental no processo de consolidação da democracia em Espanha, e levou-o à beira da irrelevância. No entanto, nada disto foi suficiente para que Sánchez assumisse publicamente quaisquer responsabilidades. A este rosário deprimente há ainda que somar episódios pouco edificantes como, por exemplo, o “Comando Luena”: César Luena, braço direito de Sánchez, organizou uma ‘tropa de choque’ para, nas redes sociais, denegrir e insultar todos aqueles que ousavam criticar a direcção socialista. Ou seja, derrotados nas urnas e totalitários na gestão interna do partido.

 

 

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Comunicação Política da boa

por Diogo Noivo, em 21.09.16

O País Basco vai a votos este domingo. O Partido Popular divulgou um vídeo de campanha que é original, inteligente, bastante provocador, mas educado, com o intuito de apelar aos votantes do Ciudadanos.

 

Não perdeu pela demora. O Ciudadanos respondeu com um vídeo igualmente bom e contido nas formas.

Um dia, espero que mais cedo do que tarde, Portugal terá comunicação política assim.  

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Duas notas sobre Espanha e Reino Unido

por Alexandre Guerra, em 05.09.16

1. Quando, há poucos anos, Espanha viu surgir novos (em idade e notoriedade) actores políticos, fiquei bastante expectante em relação ao que eles trariam de refrescante para a cena política do país vizinho. Pedro Sánchez, Albert Rivera e Pablo Iglesias, todos eles entre os 35 e 45 anos, portanto jovens para os cânones da política, davam ares de tempo novo, de sofisticação, libertos das amarras da velha e bafienta partidarite que, em certa medida, tinha Mariano Rajoy como a sua personificação. Sánchez e Rivera, ambos com boa imagem e ar de bons rapazes, tinham trunfos para ir buscar uma parte do eleitorado flutuante "mainstream" ao PP. Já Iglesias, uma espécie de Catarina Martins numa versão mais tolerável, representava as novas tendências sociais, muitas delas de protesto, tinha muito potencial para ir recolher votos junto do eleitorado mais jovem e urbano (como aliás o chegou a fazer). Este "tríptico" tinha tudo para "agarrar" a Espanha e relegar o PP de Mariano Rajoy para uma oposição minoritária. Mas, chegados até aqui, com a Espanha num impasse político, duas legislativas no espaço de poucos meses e a caminho das terceiras eleições num intervalo de um ano, não só Rajoy continua no poder, como reforçou a sua votação nas últimas eleições, face à perda dos seus principais opositores. Sánchez, Rivera e Iglesias não conseguiram imprimir uma dinâmica regeneradora e vitoriosa e deixaram-se enveredar pelos piores males da política: a vaidade, a arrogância, a cegueira e, sobretudo, e perda de noção pelo interesse maior, que é a Espanha e os seus cidadãos. Obviamente, que o comportamento de cada um dos três merece uma análise mais detalhada e cuidada, já que existem importantes nuances entre Sánchez, Rivera e Iglesias, mas no final de contas, é Rajoy, aquele político que durante anos foi gozado e que muitos diziam que jamais chegaria a chefe do Governo, que continua a merecer a confiança da maior parte dos espanhóis. Dá que pensar.     

 

2. Uma solução para a problemática do Brexit é aquilo que proponho a Theresa May, primeira-ministra britânica, e que foi, juntamente com David Cameron, defensora da manutenção do Reino Unido na União Europeia. May já veio dizer (e bem) que não irá realizar um segundo referendo e que pretende cumprir com a vontade da maioria dos ingleses que votaram no referendo, mas já alertou que vai ser um processo longo e demorado, com as primeiras fricções a surgirem entre ela e Boris Johnson, chefe da diplomacia, e o principal rosto do Brexit. Após alguma reflexão, vislumbra-se uma saída para toda esta questão e que, por um lado, permitiria legitimar popularmente o poder de May e, por outro, abrir uma oportunidade democrática para que o processo pudesse parar. E que via seria essa? Simples, a de eleições antecipadas. Embora a tradição democrática inglesa veja com normalidade a sucessão de chefes de Governo sem irem a eleições (aconteceu com Churchill em 1940), nos dias que correm seria perfeitamente aceitável que May quisesse (ou venha a querer) legitimar o seu cargo com o voto popular. E caso isso viesse a acontecer, May apresentar-se-ia aos eleitores com o seu programa, o qual teria como prioridade inverter o processo de Brexit. Perante este cenário, ninguém poderia criticar May por querer ir a eleições e muito menos por ter no seu programa uma convicção que sempre defendeu. E nestas eventuais eleições, não havia qualquer impedimento que um outro candidato conservador defensor do Brexit se pudesse apresentar. Boris Johnson poderia fazê-lo. Tal como todos os outros candidatos dos diferentes partidos estariam livres de o fazer, defendendo ou não o Brexit. E aqui, os eleitores tinham duas escolhas: ou dariam a vitória a um candidato que defendesse o Brexit e tudo seguiria o seu curso; ou então dariam o seu voto a May ou a um mais que provável candidato trabalhista que se oporia à saída do Reino Unido. E se este último cenário acontecesse, alguém teria coragem de ir contra a vontade da maioria dos eleitores? Dificilmente, até porque aquilo que é apresentado e legitimado em eleições democráticos teria, à partida, mais peso político do que algo que foi referendado. 

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Quando dava formação a jovens candidatos a jornalistas, costumava fazer testes de elementar cultura geral a esses estagiários. Entre outras perguntas, pedia-lhes que me dissessem o nome da capital das Honduras. E logo ali ficava evidente quem tinha leituras e saberes acumulados, mesmo sem alguma vez lhe passar pela cabeça visitar Tegucigalpa.

Testes deste tipo pelos vistos prosseguem, com as perguntas mais diversas e nas ocasiões mais inesperadas. Por vezes até em directo nas televisões.

Juan Carlos Monedero, um dos fundadores do Podemos e presença habitual nas tertúlias televisivas em Espanha, lembrou-se há dias de perguntar a um jornalista, seu parceiro de painel num acalorado debate no programa Espejo Público, da Antena 3, se ele sabia o nome do Presidente da República de Portugal.

Estupefacção em estúdio: ninguém parecia ter ouvido alguma vez falar em Marcelo Rebelo de Sousa. E a própria apresentadora do programa - Susanna Griso, uma das mais conhecidas jornalistas da televisão espanhola - acabou mesmo por dizer: "Quase ninguém sabe como se chama o Presidente de Portugal."

Este momento lapidar de Espejo Público funciona como espelho, sim. Da gritante ignorância espanhola em relação ao nosso país e da chocante incultura dos tudólogos que pululam nos estúdios televisivos. Tanto lá como cá.

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A Europa a duas velocidades

por Pedro Correia, em 16.08.16

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 Rajoy, Sánchez, Rivera, Iglesias: Espanha está há 240 dias sem Governo

 

A 23 de Junho realizou-se no Reino Unido o histórico referendo que ditou o fim de 43 anos de integração do país no espaço comunitário europeu. Horas após o apuramento dos resultados, o primeiro-ministro britânico David Cameron, vendo a sua política integracionista derrotada nas urnas, anunciou que renunciaria àquelas funções.

Abriu-se um processo de sucessão interna no Partido Conservador, com vários candidatos. Venceu Theresa May, a 11 de Julho. Dois dias depois aceitou a  indigitação da Rainha para substituir Cameron, iniciando nessa mesma quarta-feira as funções de primeira-ministra. A 14 de Julho, foram conhecidos os nomes dos ministros e no dia 17  todos os restantes membros do elenco governativo estavam nomeados.

Apesar da turbulência política provocada pelo resultado do referendo, o processo de sucessão de Cameron concluiu-se em três semanas.


Entretanto Espanha mantém-se há oito meses - 240 dias, a completar amanhã - com um Executivo em mera gestão corrente. Um Executivo incapaz de produzir leis, sem efectiva fiscalização do Parlamento, incapacitado de elaborar o orçamento do Estado - instrumento essencial da acção governativa.

O desfecho das urnas foi inconclusivo nas legislativas de 20 de Dezembro: perante o impasse político a que se chegou, os complexos mecanismos constitucionais do Estado espanhol forçaram a realização a 26 de Junho de um segundo acto eleitoral, igualmente inconclusivo. E desde então os partidos continuam com o seu tacticismo calculista. Todos dizem rejeitar o cenário de uma terceira eleição, que de acordo com os prazos previstos na lei fundamental só poderia ocorrer em Dezembro, mas comportam-se como se não pensassem noutra coisa. Isto quando já se avizinham eleições autonómicas na Galiza e no País Basco, marcadas para 25 de Setembro, e se agrava a crise constitucional aberta pela minoria separatista da Catalunha.

O interesse partidário primeiro, o interesse nacional muito depois. Isto apesar de, na ausência de um Orçamento do Estado para 2017 aprovado até 15 de Outubro, Espanha arriscar uma pesadíssima multa de cinco mil milhões de euros da Comissão Europeia por incumprimento do défice e o fecho da torneira do Banco Europeu de Investimento, que em 2015 emprestou 12 mil milhões de euros a Madrid. Além do inevitável congelamento de 1,1 mil milhões de euros em fundos estruturais.

 

Duas Europas, duas velocidades. Duas maneiras opostas de fazer política.

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A ética de geometria variável

por Pedro Correia, em 04.08.16

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Pedro Sánchez conduziu o PSOE aos dois piores resultados da história do partido - o segundo mais antigo da Europa do seu espectro político, logo após o SPD alemão. José Luis Rodríguez Zapatero, o anterior presidente do executivo socialista, demitiu-se ao perder as legislativas de 2011 para o Partido Popular. O seu sucessor, Alfredo Pérez Rubalcaba, demitiu-se ao perder as europeias de 2014.

Sánchez, que já perdeu duas legislativas em seis meses e tentou em vão ser chefe do Governo, insiste em manter-se agarrado ao que lhe resta do poder interno. Indiferente aos apelos à razão lançados por iustres socialistas, como Felipe González, submete toda a estratégia do PSOE à sua luta pela sobrevivência: neste caso já não está em causa o interesse nacional nem sequer o interesse partidário, mas apenas o interesse pessoal. A ética da responsabilidade, que políticos como ele tanto apregoam, só é aplicável aos outros. Uma tese de geometria variável, bem adequada aos tempos actuais.

Sairá da pior maneira, empurrado pelos barões regionais do partido, com Susana Díaz à cabeça. Já recebeu um solene aviso dos seus pares, mais sintonizados do que ele com a vox populi: não haverá terceiras legislativas. Tal cenário seria catastrófico para os socialistas espanhóis, que vão recuando a cada novo teste eleitoral.

Em 2010, convém recordar, o PSOE e o PSC - partido "irmão" da Catalunha - tinham 169 dos 350 deputados no Congresso de Espanha. Nos tempos áureos de González chegaram aos 202. Hoje restam-lhes 85.

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Notas soltas

por Alexandre Guerra, em 18.07.16

1. Grande ambiente em Amarante, cidade banhada pelo Tâmega, com um dos centros históricos mais bonitos do país, que este fim-de-semana recebeu o Festival Mimo, naquela que foi a primeira vez que esta iniciativa decorreu fora do Brasil. Pena mesmo, foi não ter conseguido ver ontem à noite o concerto de Pat Metheny com o lendário Ron Carter. As autoridades locais e os promotores estão de parabéns.

 

2. Já aqui no Delito tinha falado sobre Kendrick Lamar e este fim-de-semana todos se renderam ao seu brilhantismo no Super Bock Super Rock. Mais do que um músico sofisticado, é também já uma figura influente com uma voz activa na cena social e política americana. 

 

3. Marques Mendes disse ontem que o Governo já tinha enviado para Bruxelas a famosa "carta" para evitar as sanções. Hoje, o Público foi atrás e deu também isso como certo. Como é hábito, os outros meios seguiram. Entretanto, a Comissão e o Governo fizeram saber esta manhã que, afinal, a carta ainda não tinha sido enviada. O documento só seguiu para Bruxelas já quase à hora de almoço desta Segunda. É preciso dizer mais?

 

4. Nem sempre aquilo que parece ser mais evidente corresponde ao que aconteceu. É preciso ainda tempo e mais informação para se perceberem os contornos que envolveram o brutal atentado de Nice e a tentativa de golpe de Estado na Turquia. 

 

5. Hoje, começa um grande show político em Clevelend: a Convenção do Partido Republicano para eleger Donald Trump como candidato formal às eleições presidenciais dos Estados Unidos.

 

6. Em Espanha, Pedro Sánchez devia mostrar mais inteligência e menos egoísmo na leitura dos resultados das duas eleições que já se realizaram naquele país no espaço de seis meses e, no mínimo, devia garantir a abstenção do PSOE e permitir a Rajoy formar Governo.

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As duas Espanhas

por Pedro Correia, em 18.07.16

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«Nos duele esta España eterna.»

Pedro G. Cuartango

 

No 80.º aniversário do início da Guerra Civil de Espanha, hoje assinalado, é patente que as marcas deste conflito permanecem cristalizadas em sectores políticos e mediáticos do país. Há referências insistentes às “duas Espanhas” – a franquista e a republicana – e reedita-se em colunas de jornal o espírito de trincheira que dilacerou o país durante um triénio sangrento – de Julho de 1936 a Março de 1939. Não falta quem procure fazer tábua rasa do espírito da transição protagonizada nos anos imediatos do pós-franquismo pelo Rei Juan Carlos e pelo então primeiro-ministro Adolfo Suárez, um dos mais hábeis estadistas europeus da segunda metade do século XX.

A Lei de Amnistia, de 15 de Outubro de 1977, e a Constituição, aprovada pelas Cortes em 31 de Outubro de 1978, selaram um pacto duradouro entre essas duas Espanhas que se defrontaram ferozmente nos campos de batalha. Desenterrar os fantasmas do passado é de uma irresponsabilidade sem limites, numa proporção inversa ao espírito de concórdia que animou todos os sectores da sociedade espanhola naqueles dias de recuperação da liberdade após os anos de chumbo do franquismo – da Aliança Popular liderada por Manuel Fraga Iribarne, ex-ministro de Franco, ao Partido Comunista de Espanha (PCE), onde então pontificavam figuras quase mitológicas, como La Pasionaria e o poeta Rafael Alberti, além do próprio secretário-geral, Santiago Carrillo.

 

No debate da Lei de Amnistia, falando precisamente em nome do PCE, o sindicalista Marcelino Camacho, líder histórico das Comissões Operárias, deixou bem claro que o seu partido tinha “enterrado os seus mortos e os rancores”, decidindo “apagar o passado de uma vez para sempre”. Pondo assim em prática a política de reconciliação nacional aprovada pelo Comité Central em Junho de 1956.

 

É criminoso fomentar o mito das duas Espanhas. Convém ter sempre presente, a propósito disto, um dos mais notáveis discursos de que há memória no país vizinho, proferido no município de Barcelona em 1938, pelo presidente espanhol Manuel Azaña. A guerra estava no auge, com centenas de milhares de vítimas já contabilizadas, e anteviam-se ainda muitos combates sangrentos. Azaña proferiu então as palavras que se impunham - mas que ninguém parece ter escutado durante décadas:

“Quando a tocha passar a outras mãos, a outros homens, a outras gerações, se alguma vez sentirem que lhes ferve o sangue iracundo e outra vez o génio espanhol voltar a enfurecer-se com a intolerância e o ódio e o apetite de destruição, devem pensar nos mortos e escutar a lição que nos transmitem: esses homens que caíram embravecidos na batalha, lutando magnanimamente por um ideal grandioso e que agora, abrigados na terra materna, já sem sentirem ódio nem alimentarem rancor, enviam-nos com o fulgor da sua luz, tranquila e remota como a de uma estrela, a mensagem da pátria eterna que diz a todos os seus filhos: paz, piedade, perdão.”

 

Estas palavras imortais de Azaña, figura trágica desses anos em que o incêndio de Espanha antecipou a mais devastadora de todas as guerras, deviam ressoar hoje como o dobre de um sino em sinal de alerta. Quem não aprende com os erros da História está condenado a repeti-los.

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Portugal, Espanha e o Brexit

por Diogo Noivo, em 30.06.16

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Os portugueses votaram nos partidos que compõem a actual maioria de governo, mas não a validaram nas urnas. Já os espanhóis tiveram esse privilégio. Durante os últimos seis meses, o PSOE, o segundo partido mais votado nas eleições legislativas de Dezembro, tentou repetidamente formar uma maioria de governo com o Podemos e com o Ciudadanos. O objectivo era impedir o Partido Popular, o mais votado, de governar. Meio ano depois, estes partidos submeteram-se novamente ao voto popular e o resultado é claro: PSOE perde votos e mandatos, obtendo o pior resultado de sempre; o Ciudadanos perde votos e mandatos, tornando-se ainda menos relevante; o Podemos, apesar de coligado com a Izquierda Unida, não consegue mais mandatos, perde mais de 1 milhão de votos e falha o lugar de principal força de esquerda. O Partido Popular, inimigo público número 1 para os três partidos que pugnaram por um arranjo parlamentar, reforça a vitória obtida em Dezembro com mais 14 deputados e mais 600 mil votos. Em Espanha, ensaiou-se uma maioria para desalojar o partido mais votado, e os partidos envolvidos nesse empreendimento foram seriamente penalizados. Já o partido que foi impedido de assumir funções saiu mais forte do acto eleitoral. Talvez seja uma coincidência.

 

Terá sido o Brexit?

É impossível determinar com exactidão o efeito real do Brexit nas escolhas feitas pelos eleitores espanhóis. No entanto, os dados sugerem que esse efeito foi marginal. Em primeiro lugar, PSOE e Ciudadanos, dois dos três partidos mais penalizados, têm fortes convicções europeístas e são contrários ao Brexit. Por isso, é pouco plausível que o eleitorado os tenha sancionado por força do “sim” no referendo.

Em segundo lugar, a flutuação de votos em relação às eleições de 20 de Dezembro sugere que os resultados do passado domingo se devem maioritariamente a assuntos internos. Isto é especialmente visível quando olhamos para a coligação entre Podemos e Izquierda Unida, o Unidos Podemos. Com excepção de Barcelona, o Unidos Podemos foi penalizado em todos os municípios onde governa o Podemos, o que indicia eleitores com motivações locais. Subamos agora um degrau na escala político-administrativa e olhemos para as comunidades. Em Madrid, na Catalunha e na Comunidade Valenciana, o Unidos Podemos perdeu os votos que pertenciam à Izquierda Unida, o que sugere um desagrado dos votantes comunistas causado por guerras internas da extrema-esquerda (cada vez mais audíveis). Por último, se o Unidos Podemos fosse prejudicado por causa do seu anti-europeísmo, seria expectável que houvesse uma transferência de votos do UP para partidos defensores da causa europeia (em particular, para o PSOE). No entanto, o número de votos perdidos pelo Unidos Podemos é praticamente igual ao número de novos abstencionistas.

A motivação dos eleitores é diversificada e cheia de subtilezas, logo não existem causas únicas para explicar resultados eleitorais. No entanto, em Espanha, os dados sugerem motivações de política interna. Assim sendo, coincidência ou não, insisto: os três partidos que tentaram desalojar o partido mais votado foram todos penalizados.

 

Bipartidarismo

No que respeita ao bipartidarismo, há semelhanças entre os vizinhos ibéricos. Em Portugal, nas últimas eleições legislativas, a ameaça à hegemonia do PSD e do PS era substancialmente menor do que a ameaça sentida pelos dois principais partidos espanhóis. No entanto, embora com um cenário parlamentar mais fragmentado, PP e PSOE continuam a ser os principais partidos nacionais. A “nova política” chegou a Espanha, mas ainda não se instalou.

À esquerda encontramos mais parecenças: em Portugal como em Espanha, os socialismos e as extremas-esquerdas na oposição não capitalizaram nas urnas o descontentamento popular contra os governos neo-liberais, contra os Executivos que tinham na austeridade uma opção ideológica, contra a direita subserviente a Berlim, contra aqueles que aniquilam o estado social. Era um aproveitamento inevitável, segundo boa parte da imprensa ibérica. Porém, não aconteceu. Haverá nesta pequena península um divórcio entre a opinião pública e a opinião publicada?

 

Pactos de Governo

Tal como em Portugal, a soma dos derrotados em Espanha ultrapassa a barreira da maioria absoluta. Juntos, PSOE, Unidos Podemos e Ciudadanos contam com 188 deputados (são necessários 176 para a maioria absoluta). A aritmética bate certo, mas a política dificilmente a viabilizará. Ciudadanos e Unidos Podemos são incompatíveis e o perfil Albert Rivera, presidente do Ciudadanos, não se coadunará com cedências de princípios a troco de lugares ou de influência legislativa. Rivera fará exigências que a coligação de extrema-esquerda não poderá cumprir. E vice-versa. Por outro lado, estes últimos seis meses degradaram bastante as relações entre socialistas e podemitas. O acordo entre estas duas forças políticas é teoricamente possível, mas são várias as personalidades de relevo no PSOE que o rejeitam. Vale o que vale, mas o sms enviado por Pablo Iglesias a Pedro Sánchez continua sem resposta – esta terça-feira, na primeira entrevista televisiva depois do acto eleitoral, o líder do Podemos queixou-se do silêncio socialista.

Apesar de derrotados nas urnas, PSOE, Ciudadanos e Unidos Podemos, mantêm o veto a Mariano Rajoy. Em política tudo é possível e 48 horas são uma eternidade que permite vários avanços e recuos. Vão aparecendo sinais de mudança. Mas, para já, as linhas vermelhas são praticamente as mesmas.

 

Principais diferenças de contexto entre Portugal e Espanha

Das várias diferenças entre os cenários políticos de Portugal e de Espanha, três são especialmente significativas: (i) houve maior utilitarismo na esquerda portuguesa; (ii) perante a possibilidade real de integrar um Governo, a extrema-esquerda espanhola viu-se obrigada a apresentar um programa de governo que fosse para além das utopias e dos protestos habituais – e os eleitores do centro ficaram horrorizados com o que viram; (iii) em Espanha houve seis meses de debate e de escrutínio das intenções partidárias, nomeadamente dos propósitos socialistas. Os seis meses de interregno entre escrutínios foram importantes. O eleitorado falou e não ficou tudo na mesma.

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Novo mapa eleitoral espanhol

por Pedro Correia, em 29.06.16

O Partido Popular ganha votos nas 52 províncias de Espanha, o PSOE progride em 32, os Cidadãos recuam em 48 e a coligação Unidos Podemos cai em 46. Conclusão: o impasse político de seis meses beneficiou claramente Mariano Rajoy.

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A primeira vítima do Brexit

por Pedro Correia, em 28.06.16

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Pablo Iglesias: menos 1,1 milhões de votos seis meses depois

 

Durou pouco a euforia dos eurocépticos que festejaram a vitória do populismo abrindo garrafas de champanhe para festejar o Brexit em nome dos sacrossantos princípios soberanistas contra as forças do mal encarnadas na "burocracia de Bruxelas".

Passados cinco dias, os estragos provocados pelo referendo são já evidentes: Reino Unido sem governo, pulsões racistas à solta, o separatismo a ganhar terreno na Escócia, campanhas de subscrição pública para uma nova consulta popular sobre a Europa no mais curto prazo possível, tentativas desesperadas de protelar o divórcio decretado nas urnas por parte de alguns que mais o defenderam na campanha, os dois principais partidos mergulhados em convulsões internas, uma  crise política com inevitáveis consequências no plano financeiro da segunda maior economia europeia, uma fractura social de que só agora vislumbramos os primeiros contornos, uma sensação geral de irresponsabilidade que no fim só afastará ainda mais os cidadãos das instituições.

Um quadro de desorientação a que por enquanto só parece escapar o UKIP, que deu o tom e visibilidade máxima à campanha referendária para pôr fim à relação de 43 anos entre o Reino Unido e o espaço comunitário. O mesmo UKIP xenófobo que clama contra a absorção de "um milhão de imigrantes por década" no país e ao qual o neo-soberanista Pacheco Pereira acha muita graça: na última edição da Quadratura do Círculo o ex-líder parlamentar do PSD chegou a elogiar um slogan eurofóbico do partido de Nigel Farage: "Mais vale o buldogue inglês do que a couve de Bruxelas." Perante o óbvio e compreensível constrangimento de Jorge Coelho e Lobo Xavier, seus parceiros de painel.

 

Em política há males que vêm por bem. Acontece que o Brexit começou a funcionar como vacina para os europeus. Isso acaba de verificar-se em Espanha, onde os eleitores acorreram às urnas pela segunda vez em seis meses. Premiando o Partido Popular de Mariano Rajoy, inabalavelmente pró-europeu, ao qual confiaram mais 700 mil votos, e castigando o populismo de Pablo Iglesias, o Alexis Tsipras espanhol, que perdeu mais de 1,1 milhões de votos em relação ao anterior escrutínio apesar de contar nesta campanha com o que resta do outrora influente Partido Comunista, agora reduzido a estilhaços. O aventureirismo galopante de Iglesias, com as suas prédicas de tele-evangelista anti-sistema, foi duramente penalizado ao surgir desta vez abraçado nos palcos eleitorais à Esquerda Unida que sempre combateu a opção europeia de Espanha.

Os nacionalismos aliados ao populismo mais desbragado ameaçam produzir muitos estragos em pouco tempo num continente que pagou em sangue e cinzas o preço de dois conflitos mundiais que nele tiveram o epicentro. Dois conflitos provocados precisamente pelas mesmas receitas que alguns, à esquerda e à direita, hoje advogam irresponsavelmente no espaço público.

Estes pregadores que rasgam as vestes em nome da soberania nacional contra a União Europeia menosprezam o instinto de preservação dos povos, sedimentado pelas lições da história. No Reino Unido ficaram com o Brexit nos braços sem saber o que fazer com ele. Por cá, desenvolvem uma retórica delirante sobre o destino da Europa, que voltaria a incendiar-se se eles alguma vez saltassem das pantalhas televisivas para os centros de decisão política.

É deixá-los estar nas televisões e nos jornais, onde apesar de tudo produzem menos estragos.

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Os blogues não têm que dar notícias. Não estão vinculados a códigos deontológicos. Abreviando, os blogues não são órgãos de comunicação social no sentido estrito do conceito. No entanto, com a série A caminho do 26J, o Delito de Opinião (DO),  ainda que inadvertidamente, acabou por competir com a comunicação social portuguesa.

 

O DO chegou primeiro à notícia sobre a coligação entre Podemos e Izquierda Unida, quando esta era ainda um simples pré-acordo sem designação oficial. Estávamos a 10 de Maio e não tinha ainda iniciado esta série. Escrevi que, em política, dois mais dois não são quatro e expliquei as minhas dúvidas sobre à eficácia eleitoral desta coligação. Mais tarde, quando a união da extrema-esquerda se oficializou, regressei às minhas dúvidas e analisei as hesitações e os problemas existentes no seio do Podemos e da Izquierda Unida, sem nunca esquecer as sondagens que iam marcando o debate político. Naquele momento, dominava a ideia segundo a qual esta coligação fidelizava votos e tinha potencial de crescimento – uma ideia que, de acordo com os responsáveis das empresas de sondagens, esteve na base dos erros de previsão. Tive as minhas dúvidas e não me enganei: a coligação limitou-se a somar os deputados das duas forças políticas que a compõem, e perdeu mais de 1 milhão de votos. Portanto, a união não acrescentou nada, sendo incapaz de alcançar o sorpaso previsto em todas as sondagens. Ainda no que respeita à extrema-esquerda, o DO foi, salvo o erro, o primeiro em Portugal a comentar o novo e encantador amor de Pablo Iglesias pela social-democracia.

 

Em matéria de sondagens, o DO publicou os resultados do CIS antes da generalidade da imprensa portuguesa. Era a última de muitas sondagens a garantir um PSOE ultrapassado pela esquerda. A obliteração dos socialistas às mãos do Unidos Podemos estava então praticamente garantida. Ainda assim, os números foram comentados com a prudência que todas as sondagens recomendam.

 

Aqui no DO comentámos o debate televisivo entre os quatro principais candidatos e, pelo que pude perceber, fizemo-lo antes de qualquer jornal ou televisão portugueses. Com base nessas e noutras declarações partidárias, fizemos um mapa de alianças, uma breve geometria de possíveis pactos de governo. O resultado das eleições alterou seriamente as relações de força entre os partidos, mas a avaliar pelas declarações pós-eleitorais do PSOE, o mapa que aqui apresentámos continua a fazer algum sentido.

 

Na noite eleitoral, apresentámos as sondagens à boca de urna praticamente em simultâneo com a imprensa portuguesa e, com base na cronologia feita pelo Pedro Correia, assinalámos o fracasso das sondagens antes da generalidade das televisões. Aliás, pela leitura que fui fazendo dos jornais online, os seguidores do DO foram os primeiros a ler um comentário à admissão de derrota feita por Iñigo Errejón, número dois do Podemos.

 

Espanha é o único país com o qual Portugal tem fronteira. É o principal destino das nossas exportações e a principal origem das nossas importações. Desconfiamos dos ventos que de lá vêm, mas a verdade é que Espanha está longe de ser irrelevante para Portugal. No DO fez-se o que se pôde para manter os nossos leitores actualizados sobre as eleições legislativas do passado domingo, a primeira vez na História da democracia espanhola em que o país foi forçado a repetir um acto eleitoral. Espero que este A caminho do 26J tenha sido útil. 

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O erro das sondagens em Espanha

por Diogo Noivo, em 27.06.16

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Sondagens à boca das urnas TVE/FORTA e COPE/ABC (imagem El Mundo)

 

A noite de ontem foi uma vitória para o Partido Popular e uma derrota para as sondagens. Não é a primeira vez que as empresas de sondagens falham em Espanha. Porém, os especialistas na matéria contrapõem e dizem que não é bem assim. Segundo eles, uma sondagem é como uma fotografia, um simples retrato de um dado momento. Como os eleitores mudam de opinião, é normal que uma sondagem se possa tornar obsoleta ao fim de alguns dias. Por essa razão, recomendam os especialistas, durante uma campanha eleitoral é importante realizar sondagens de maneira regular e periódica com vista a identificar a evolução da tendência de voto e, consequentemente, a obter uma imagem mais nítida da vontade dos eleitores. As sondagens realizadas pelo El Mundo e pelo El País estariam portanto correctas no momento em que foram realizadas. Tal como estaria correcta a sondagem realizada pelo CIS (que chegou ao Delito de Opinião antes de ter sido anunciada na imprensa portuguesa), o instituto cujos resultados são, em regra, mais fidedignos. O problema é que as sondagens à boca das urnas - feitas mais de 15 dias depois - descreviam um quadro em tudo semelhante. Semelhante e errado. Ou seja, olhando para os resultados finais e tendo presente a imagem dada pelas várias sondagens, uma parte muito significativa dos eleitores mudou de opinião quando já estavam metidos na cabine de voto, ou pura e simplesmente mentiram às empresas de sondagens. O que é pouco plausível.

Quando analisamos as sondagens realizadas à boca das urnas, percebemos que o erro não foi generalizado. Na verdade, apenas existem desvios importantes em dois partidos: No Partido Popular e no Unidos Podemos. Dos nove partidos mais votados, as sondagens enganaram-se em dois. Foi o suficiente.

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A marcha da desinformação na TV

por Pedro Correia, em 27.06.16

Ontem à noite todos os telediários portugueses - mesmo com correspondentes e enviados a Madrid - caíram na esparrela das sondagens, que em Espanha falham por sistema. Confundindo projecções com números reais, sem um sobressalto de dúvida, foram desinformando os portugueses sobre o resultado da eleição para o novo Parlamento espanhol.

Foi preciso que um par de comentadores, sem carteira de jornalista, repusesse a verdade dos factos. O que, reconheçamos, não abona nada a favor dos profissionais da informação.

Eis o filme dos acontecimentos:

 

RTP, 19.02: «Deu-se o sorpasso, essa expressão italiana que dominou esta campanha. Esta coligação de Pablo Iglesias, unido aos comunistas, consegue ultrapassar o Partido Socialista.»

RTP, 19.03: «O PP de Mariano Rajoy desce pelo menos dois lugares no Congresso em termos de deputados. Este é um terramoto político. É um abalo sem precedentes em Espanha.»

TVI, 19.57: «A principal mudança no sufrágio de hoje foi a passagem do Podemos para segundo lugar, ultrapassando o PSOE.»

SIC, 19.59: «O Unidos Podemos acaba por ser o grande vencedor da noite e é nesta coligação que pode estar a chave para o futuro governo espanhol.»

TVI, 21.02: «O Podemos deve ultrapassar o PSOE como segunda força política. Em termos de deputados, há a possibilidade de uma maioria de esquerda.»

SIC, 21.13: «A grande surpresa aqui é o segundo lugar do Unidos Podemos.»

 

Este, repito, foi o discurso jornalístico. Que se prolongou por mais de duas horas nas pantalhas lusas.

Felizmente havia comentadores - um em estúdio, outro em Madrid - a recomendar moderação, mais atentos aos factos do que à espuma.

O primeiro foi Paulo Portas, recém-contratado como comentador de temas internacionais da TVI. Eram 21.03 quando ele alertou, falando em directo da capital espanhola: «O resultado dos votos contados aponta para um sentido completamente diferente das sondagens.»

Dez minutos mais tarde, na SIC, Luís Marques Mendes também deitava água na fervura: «Aquilo que foram as sondagens à boca das urnas não está a confirmar-se na contagem dos votos.»

Tinham ambos razão. Os jornalistas é que andavam distraídos: foram os últimos a saber.

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Feito o escrutínio dos votos expressos em urna, o debate sobre a fiabilidade das sondagens voltará a estar na ordem do dia. O falhanço das previsões não foi total, mas quase. Ainda que interessante, deixemos essa discussão de lado e olhemos para os resultados finais.

 

O Partido Popular volta a ganhar as eleições e nisso as sondagens acertaram. O que não foram capazes de prever foi a dimensão da vitória: o PP reforça o seu grupo parlamentar com mais 14 deputados. E, em relação ao último acto eleitoral, obtém aproximadamente mais 600 mil votos. Todos os partidos criticavam o PP e todos pediam a demissão de Mariano Rajoy. Mas o PP cresce em votos e em mandatos. Quem almejava a demissão de Mariano Rajoy e sonhava com uma geringonça con salero tem agora a vida muito mais complicada.

 

O PSOE sobrevive ao evitar o sorpaso. Os socialistas mantêm-se no lugar de segunda força política mais votada, o que lhes permite superar as expectativas criadas por todas as sondagens. Porém, o PSOE perde 5 deputados e cerca de 156 mil votos. Como o Pedro Correia aqui comentou, na actual composição do parlamento, a diferença entre o PP e o PSOE é de 33 deputados. Essa diferença passa agora a 52. Se tivermos presente que nas últimas eleições, em Dezembro, o PSOE teve o pior resultado desde 1977, os números saídos destas eleições são dramáticos. Depois de contados os votos, a única vitória do PSOE é manter-se como líder da esquerda. O que é manifestamente pouco.

 

Se o PSOE vence as expectativas, o Unidos Podemos foi vítima delas. O cabeça de lista Pablo Iglesias admitiu que os resultados não são satisfatórios. Acrescentou que pretende privilegiar o diálogo entre as forças políticas progressistas – um diálogo que dinamitou quase diariamente ao longo dos últimos seis meses. Por último, Iglesias disse ter enviado um sms a Pedro Sánchez. Mas não obteve resposta. A união do Podemos com a Izquierda Unida não acrescentou nada: 71 mandatos, a mera soma dos deputados que estas duas forças políticas já tinham. A campanha do Unidos Podemos teve como mote "la sonrisa de un país". No entanto, Pablo Iglesias não sorriu quando falou esta noite ao país.

 

O Ciudadanos perde 8 mandatos, vendo o seu grupo parlamentar reduzir-se de 40 para 32 deputados. O apelo do PP ao voto útil terá funcionado, o que prejudicou o Ciudadanos de Albert Rivera. Este partido não foi determinante nos últimos seis meses e continuará a não sê-lo. Há uns tempos, um bom amigo disse-me que o Ciudadanos é o PRD espanhol. Talvez tenha razão.

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Está a ser uma noite imprópria para cardíacos mas de sonho para quem gosta de política. Com cerca de 81% dos votos escrutinados, o Partido Popular vence as eleições e reforça o seu grupo parlamentar. A dinâmica do voto útil parece ter funcionado: os deputados perdidos pelo Ciudadanos vão todos para o PP. Os representantes do Ciudadanos vão culpando o sistema eleitoral.

O Unidos Podemos, por agora, não ultrapassa o PSOE. A confirmarem-se estes os resultados, Pedro Sánchez, Secretário-Geral dos socialistas, sobrevive. Iñigo Errejón, secretário de política e número dois do Podemos, acabou de fazer uma primeira apreciação do escrutínio. Disse que não são os resultados esperados. Acrescentou que estes números atrasam o processo de mudança em Espanha, isto é, inviabilizam a nova transição que o Podemos tanto ambicionava. Por outras palavras, reconhecem ter ficado aquém dos seus objectivos. A noite será longa.

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Como fui escrevendo aqui na série A caminho do 26J, o sorpaso está praticamente garantido. A extrema-esquerda do Unidos Podemos ultrapassa o PSOE pela esquerda, remetendo os socialistas para um terceiro lugar vexatório, sobretudo se tivermos presente a importância do PSOE nas últimas quatro décadas. A dúvida consiste em saber se, para além de perder em votos, os socialistas perderão também em mandatos. A sondagem à boca das urnas da TVE e uma sondagem da COPE afirmam que sim: os socialistas sofrem uma derrota em toda a linha.

 

Vai aparecendo nos plateaux televisivos uma ideia, cada vez mais comum, segundo a qual os socialistas apoiarão o Unidos Podemos e farão de Pablo Iglesias o novo Presidente de Governo. Parece-me improvável, mas não há antecedente que permita uma extrapolação segura. Nunca o PSOE desceu tanto. E, por isso, nunca um Secretário Geral socialista esteve numa posição eleitoral tão difícil.

 

A participação eleitoral às 14h era semelhante à que se verificou nas eleições anteriores, mas às 18h já era a mais baixa de sempre. Com base nas sondagens e na distribuição de votos por círculo eleitoral, PP e Unidos Podemos beneficiarão da abstenção, e o PSOE sairá prejudicado.

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Espanha: um teste vital ao PSOE

por Pedro Correia, em 26.06.16

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 Pedro Sánchez e Susana Díaz: socialistas numa encruzilhada

 

Tudo indicia que o veredicto das urnas deixará hoje a política espanhola ainda mais embrulhada, com um eleitorado fatigado a acorrer às urnas pela segunda vez em seis meses, um Executivo que se encontra em mera  gestão corrente desde Dezembro e partidos que teimam em desentender-se em torno de programas e personalidades, confundindo a segunda década do século XXI com os anos 30 do século XX.

É um cenário nada auspicioso para os espanhóis e péssimo para nós, sob diversos aspectos. Interessa-nos uma Espanha próspera e tranquila, não uma Espanha convulsa, a debater-se com os seus fantasmas históricos.

 

Segundo o que indicam as sondagens, e de acordo com os cenários que o Diogo já aqui enumerou, creio que o mais provável é sair das urnas um frágil Executivo do PP de Mariano Rajoy, longe de conseguir maioria parlamentar mas apoiado pelos Cidadãos de Albert Rivera, podendo contar ainda com a abstenção socialista na sessão de investidura.

Este Governo terá curta expectativa de vida, que poderá prolongar-se por um período equivalente à aprovação de dois orçamentos do Estado, até ao final de 2018. Será talvez o melhor que se arranja, dadas as circunstâncias. Não creio que a irresponsabilidade política em Madrid vá ao ponto de gerar um vácuo destinado a forçar um terceiro acto eleitoral a curtíssimo prazo destinado a deixar tudo na mesma.

 

A vedeta eleitoral do momento é o líder do Podemos, Pablo Iglesias - antigo militante da juventude comunista, politólogo, comentador televisivo, hábil utilizador da linguagem mediática. Ao contrário de Luther King, que tinha o sonho de unir gente de todas as cores num abraço fraterno de dimensão universal, Iglesias teve o sonho de desunir a esquerda para mais tarde unificá-la sob a sua liderança carismática, com esmerada coreografia 'podemista' - que passa por aparecer sempre de mangas arregaçadas, tratar toda a gente por tu e usar um rabo-de-cavalo modernaço em contraste com os circunspectos socialistas e comunistas, representantes da esquerda clássica.

Depois de engolir a Esquerda Unida maioritariamente composta pelo Partido Comunista de Espanha, tendo-a levado a abdicar da sua sigla para se diluir na lista do Podemos, com escassos candidatos em lugares elegíveis, Iglesias ambiciona agora engolir também o Partido Socialista Operário Espanhol e "reconstruir" a esquerda a partir da sua mixórdia programática pós-ideológica - que é constitucionalista em Madrid e soberanista em Barcelona, social-democrata quando se vira para o centro e orgulhosamente marxista quando se vira para a esquerda.
Uma espécie de Beppe Grillo com verniz retórico académico.

 

O grande teste eleitoral de hoje, mais do que a um Partido Popular em relativa estagnação e a um Podemos em fase de crescimento, dirige-se ao PSOE, um dos escassos partidos europeus fundados ainda no século XIX e que chegou a ser força hegemónica na Espanha pós-franquista.

Hoje fragmentado em inúmeros feudos internos, sem uma liderança firme, dividido entre o constitucionalismo que lhe serviu de bandeira nos anos em que foi mais forte e a pulsão populista proporcionada pelo ar dos tempos, com ocasionais flirts separatistas na Catalunha, o PSOE luta no patamar da sobrevivência enquanto grande partido nacional.

 

Com Alfredo Pérez Rubalcaba, em Novembro de 2011, teve o pior resultado eleitoral de sempre em legislativas, recolhendo 28,8% dos votos. Já com Pedro Sánchez ao leme socialista, em Dezembro de 2015, ficou ainda pior, caindo para 22%. Em Madrid, nas autárquicas de 2015, quedou-se num distante terceiro lugar, com apenas 15,3%. Restam-lhe os feudos autonómicos da Andaluzia e Extremadura, onde governa, para emitir prova de vida. Muito pouco para um partido que em 1982, com Felipe González, conquistou a mais dilatada maioria de sempre numas legislativas espanholas.

O tempo que vai seguir-se ao escrutínio de hoje será vital para o PSOE lamber as feridas, arrumar a casa, reorganizar as suas errantes metas programáticas e eleger outro núcleo directivo, que poderá ser encabeçado pela actual presidente andaluza, Susana Díaz. Um toque de salero sevilhano a animar a modorrenta sede central socialista na calle de Ferraz, construindo uma remontada a pensar no médio prazo. Porque de políticos com vistas curtas já os espanhóis estão fartos.

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A caminho do 26J (VII) – Pactos de Governo

por Diogo Noivo, em 25.06.16

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Pela primeira vez na História da democracia espanhola, o país é forçado a repetir eleições. Amanhã, Espanha vai a votos pela segunda vez num espaço de seis meses. Embora os principais líderes partidários garantam que não haverá uma terceira ronda, qualquer análise prudente das sondagens não descarta essa hipótese. Mais uma vez, tudo dependerá dos pactos de governo – ou da falta deles. Com base nas sondagens, mais do que o número de votos, será a vontade dos partidos a decidir se haverá governo – e que tipo de governo será. A pouco menos de vinte e quatro horas das generales não há acordos políticos evidentes. Poucos são os partidos que mostram as cartas e assumem as suas preferências de parcerias políticas, apesar de instados por diversas vezes a abrir o jogo. O mapa das geometrias interpartidárias é difuso, mas podemos resumir a informação conhecida em 6 pontos.

 

1.

O Unidos Podemos é claro: apenas está disponível para celebrar um pacto de governo com o PSOE. Quer fique em segundo lugar – como anunciam as sondagens –, quer fique em terceiro ou em quarto, a formação política capitaneada por Pablo Iglesias só admite associar-se aos socialistas. Iglesias ainda não foi explícito na reivindicação da Presidência de Governo. Mas vai avisando todos os dias que, em política, existem dois princípios indissociáveis: (i) as eleições são ganhas pelo partido que tem mais votos (dissidência ontológica da geringonça portuguesa), uma vez que o PSOE, embora perdendo em votos, pode ainda vencer em mandatos; (ii) não menos importante, a Chefia do Executivo pertencerá a quem reunir mais apoios. Em suma, o Unidos Podemos confia que será a segunda força política mais votada e exige o apoio do PSOE para fazer de Pablo Iglesias o próximo Presidente de Governo de Espanha.

 

2.

O Partido Popular é igualmente claro: vence quem tem mais votos e mais mandatos. Os populares defendem que Espanha precisa de uma grande coligação de governo, isto é, de PP, PSOE e Ciudadanos no Executivo. Celebrar um acordo com o Unidos Podemos nem sob lei marcial. Para o PP, o Unidos Podemos constitui uma ameaça ao amplo consenso constitucional no qual Espanha se alicerça, para além de ser um perigo para a economia, a quarta maior da zona euro.

 

3.

No PSOE as intenções são menos evidentes. O discurso político é óbvio e compreensível: Espanha necessita de mudar e a única alternativa viável está no Partido Socialista Obreiro Espanhol. Até ao lavar dos cestos é vindima e o PSOE dará o tudo por tudo até domingo para evitar que o Unidos Podemos o ultrapasse pela esquerda.

Para os socialistas, dada a enorme polarização eleitoral, assumir preferências de coligação traduzir-se-ia em votos perdidos. No entanto, uma vez que o eleitorado está consciente da importância dos pactos de governo, esta estratégia de esconder o jogo lançou um manto de incerteza (até de suspeição) sobre as reais intenções socialistas, o que está a prejudicar o partido na captação dos votos indecisos. Os eleitores mais à esquerda temem que o PSOE viabilize um governo do PP, enquanto os votantes mais ao centro estão horrorizados com a possibilidade de um pacto PSOE-Unidos Podemos. Pedro Sánchez tenta quadrar o círculo: insiste no veto a Mariano Rajoy, que já não é exactamente um veto ao PP, ao mesmo tempo que massacra Pablo Iglesias, recordando diariamente – e bem – que foi o líder do Podemos quem impediu a criação de um governo progressista de esquerda. Sánchez tem sido violento nas críticas ao cinismo e à ambição de poder de Iglesias. Porém, não foi ainda taxativo na recusa de um acordo com a coligação de extrema-esquerda. Sánchez promete que haverá governo depois de domingo. Visto que o PSOE está obrigado a escolher entre PP e Unidos Podemos, resta saber que tipo de governo sairá do 26J.

 

4.

O Ciudadanos afasta o que considera serem os extremos, ou seja, não apoiará o PP nem o Unidos Podemos. Há, no entanto, um matiz. O veto de Albert Rivera, presidente do Ciudadanos, à direita termina com a saída de Mariano Rajoy. O PP substitui o seu presidente e há acordo. No entanto, Rivera disse esta semana estar disponível para se sentar com Rajoy e Sánchez depois de domingo, sem nunca recuar no veto ao primeiro. A avaliar pelas sondagens, uma coisa parece certa: sozinho, o Ciudadanos não chega para viabilizar um governo do PP ou do PSOE. O partido não foi determinante nos últimos seis meses e tudo indica que assim continuará.

 

5.

Vistas as posições dos principais partidos, não será abusivo especular sobre a criação de uma frente PSOE-Ciudadanos que exija a demissão de Mariano Rajoy como condição para integrar um governo chefiado pelos populares. Porventura adivinhando esta estratégia, o presidente do PP deixou uma pergunta no ar: "se eu ganho eleições e tenho que sair, os restantes líderes partidários ficam todos no mesmo sítio?". Se esta estratégia PSOE-Ciudadanos for para a frente, alguém terá que se imolar no altar da pátria. E talvez a coisa não se resolva com apenas uma demissão. Caso contrário, e assumindo que as intenções dos principais partidos são para levar a sério, terceiras eleições à vista.

 

6.

Para Espanha, tal como para Portugal, a adesão ao projecto europeu marca fim do processo de transição democrática. Simboliza a criação de um vínculo ao Estado de Direito, de um compromisso com o modelo democrático da Europa Ocidental. Em suma, a adesão à Europa foi uma mensagem enviada por Espanha ao mundo e, no plano interno, a todos aqueles que pugnavam pela manutenção de um Franquismo sem caudillo: o país mudou, as instituições mudaram, há uma nova ordem constitucional e “entrar na Europa” torna o processo de transição democrática irreversível. Dada a importância que a Europa tem para Espanha e, por outro lado, visto que a ordem constitucional constitui um dos elementos centrais no debate político espanhol, o Brexit pode revelar-se um cautionary tale. Isto é, pode assumir a premência de um sinal de alerta. Não que seja suficiente para alterar as intenções de voto, mas talvez baste para alterar as intenções partidárias. PP, PSOE e Ciudadanos, os partidos subscritores da ordem constitucional vigente, podem ver no Brexit um sintoma de um mal sistémico que apele à sua responsabilidade e, consequentemente, facilite acordos de governo que isolem o populismo do Unidos Podemos.

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A caminho do 26J (VI) – A recta final

por Diogo Noivo, em 20.06.16

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Espanha entra hoje na última semana de campanha eleitoral. Mantém-se no horizonte a forte possibilidade de obliteração dos socialistas às mãos do Unidos Podemos. Por essa razão, a coligação de extrema-esquerda aposta tudo no voto útil. O discurso de recta final assenta num quadro eleitoral binário: ou vence o Partido Popular, um partido do “sistema”, da “casta”, dos “corruptos”; ou vence o Unidos Podemos, o projecto da “regeneração”, da “esperança”, da “refundação moral” do regime.

Pelo meio, Pablo Iglesias, líder do Podemos, lançou uma hábil ofensiva à direcção nacional do PSOE. Em conversa com jornalistas, confessou admirar José Luis Rodríguez Zapatero, antigo Primeiro-Ministro e antecessor de Pedro Sánchez na liderança do PSOE. O cabeça de lista do Unidos Podemos alardeou as excelentes relações pessoais que mantém com Zapatero, acrescentando que procura com frequência aconselhamento junto do antigo Presidente de Governo, o “melhor de sempre”, na sua opinião. Com estas declarações, Pablo Iglesias quis reclamar para si o estatuto de viúva política do zapaterismo (se é que tal coisa existe) e, dessa forma, debilitar a direcção nacional do PSOE, já muito fragilizada pelo resultado que obteve nas eleições de 20 de Dezembro e, pior, pelo resultado que sondagens adivinham para o próximo domingo. Os socialistas reagiram com notório enfado. Tentaram virar o discurso de Iglesias, dizendo que se este tem tanto apreço por Zapatero o melhor que tem a fazer é unir-se às fileiras socialistas, sobretudo dado o novo amor de Iglesias pela social-democracia. No entanto, da resposta dos socialistas apenas sobreveio nervosismo e algum desespero. O PSOE está à porta do sepulcro onde já descansam os socialistas gregos do PASOK.

 

O Partido Popular tem a vida facilitada: perante as sondagens, qualquer voto que não vá para o PP é um voto a favor do populismo. A estratégia dos populares consiste então num “a favor” do país, do Estado de Direito Democrático, do quadro constitucional e da Europa. O PP tem o seu eleitorado mobilizado e tudo indica que será novamente o partido mais votado. Tal como o Unidos Podemos, os populares também aproveitam a debilidade dos socialistas: acenam o ramo de oliveira e sugerem um governo de coligação. Esta pode ser a única hipótese de sobrevivência do PSOE – o que, no entanto, dificilmente evitará o fim político de Pedro Sánchez.

 

Já o Ciudadanos combate desde uma posição de equidistância. Foi mais claro do que nunca na recusa a um governo presidido por Rajoy – não votará a favor nem se absterá. Não se trata de um veto ao PP, mas sim ao seu presidente. Albert Rivera e outros altos quadros do Ciudadanos chegaram mesmo a propor putativos substitutos de Mariano Rajoy. Ainda que haja no eleitorado do PP disponibilidade para abdicar do actual líder, quando a sugestão vem de fora o efeito pode ser contraproducente: qualquer militante popular que sugira a mudança de líder será agora visto como membro de uma quinta coluna do Ciudadanos. Para além de continuar implacável na denúncia do populismo do Unidos Podemos, Rivera inovou este fim-de-semana ao abandonar a contemporização com os socialistas do PSOE, acusando-os de cumplicidade com o populismo de Iglesias. De qualquer forma, o Ciudadanos já definiu o preço do seu apoio: a implementação de dez grandes reformas nos primeiros 100 dias de governação.

 

As sondagens afastam por completo a existência de uma maioria absoluta. E, fazendo fé nas previsões de votos e de mandatos por partido, não se antevêem pactos de governo fáceis. Mas a possibilidade de um governo do Unidos Podemos deverá – ou deveria – desbloquear o impasse. Existem sérios riscos associados à governação da extrema-esquerda - riscos que fui referindo aqui no DELITO - e este fim-de-semana o Podemos ofereceu novos motivos de preocupação: Juan Carlos Monedero, co-fundador e bússola ideológica do Podemos, desferiu um importante golpe contra o princípio de separação de poderes.

Em França, os partidos do centro democrático fizeram um cordão sanitário em redor da Frente Nacional para evitar que o partido de Marine Le Pen saísse vitorioso das eleições locais de Dezembro de 2015. Porventura não seria má ideia se o mesmo sucedesse em Espanha, com Podemos e Izquierda Unida remetidos para um bloco de quarentena.

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A caminho do 26J (V) – O debate

por Diogo Noivo, em 14.06.16

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Ontem à noite, Mariano Rajoy (PP), Pedro Sanchez (PSOE), Albert Rivera (Ciudadanos) e Pablo Iglesias (Unidos Podemos) defrontaram-se no primeiro e único debate entre os principais candidatos a Presidente de Governo de Espanha. Os indecisos rondam os 30%, a maior percentagem desde a transição democrática, e a possibilidade de que um dos quatro partidos obtenha a maioria absoluta é tão real como um unicórnio. O cenário político, embora diferente daquele que saiu das eleições de 20 de Dezembro, continua a ser de bloqueio. O debate era, portanto, decisivo. Tentei resumir as 9 páginas de notas e de rabiscos que fui tirando ao longo das duas horas de debate. Eis o resumo possível:

 

1. Unidos Podemos“No soy tu rival, Pedro”

Pablo Iglesias fez valer a posição de segunda força política nacional que lhe foi outorgada pelas sondagens. Tratou o PSOE com condescendência e ignorou o Ciudadanos, conferindo assim a Mariano Rajoy a condição de único adversário. Falou de igual para igual com o Presidente de Governo em funções. De acordo com as sondagens, só um dos dois poderá chefiar o Executivo, uma ideia que Iglesias explorou à saciedade, tanto na forma como no conteúdo. Defendeu-se dos vários ataques que lhe foram dirigidos por Pedro Sánchez, Secretário-Geral do PSOE, com a frase “no soy tu rival, Pedro”, recentrando dessa forma as baterias em Rajoy e no Partido Popular.

Tendo por base o programa eleitoral do Unidos Podemos, um dos moderadores perguntou a Iglesias se ia a Bruxelas com um Orçamento de Estado onde dispara a despesa pública. Iglesias disse que sim. Acrescentou que há outros líderes europeus a fazer o mesmo, entre os quais “el señor Costas (sic), de Portugal”. Portugal esteve no debate uma única vez e foi na qualidade de exemplo respeitável para o Unidos Podemos

 

2. Partido Popular“Governar no es fácil”

Dos quatro candidatos, Mariano Rajoy é o único candidato com experiência governativa. Por essa razão, o presidente dos populares tentou transformá-la num activo. E foi esse o eixo central das suas intervenções.

Enfatizou os números positivos: exportações, criação de emprego, inflação, entre outros. Defendeu-se como pôde em matéria de corrupção, um tema onde chocou bastante com Albert Rivera e Pablo Iglesias. Para Rajoy, a obsessão dos outros partidos com a corrupção no PP é fruto de uma “mentalidade inquisitória”.  

Rajoy foi atacado por todos, mas não perdeu a pose de estadista. A última legislatura mostra que a imutabilidade do presidente do PP é simultaneamente um defeito e uma virtude. Ontem foi uma virtude. E venceu a guerra das expectativas: não foi tão atacado como se esperava, dividindo o pelourinho com Pablo Iglesias – o que beneficiou o presidente dos populares.

 

3. PSOE“Los extremos no lo permitieron”

Pedro Sánchez estava obrigado a atacar. Tinha dois objectivos indissociáveis a cumprir: constituir-se como a única alternativa viável ao PP; e recuperar a liderança da esquerda. A cada objectivo, Sánchez fez corresponder uma mensagem. Em primeiro lugar, disse não ter formado governo porque foi impedido pelos extremos, leia-se pelo PP e pelo Podemos. Ao colocar Rajoy e Iglesias em extremos opostos, Sánchez pretendia tornar-se o representante do centro moderado. Em segundo lugar, e apesar das inúmeras críticas a Iglesias, o fel do líder socialista foi quase todo dirigido a Mariano Rajoy. Isto é, tentou içar-se ao lugar de principal oponente da direita.

Sánchez não trouxe nada de novo, não foi capaz de surpreender e não explicou as poucas propostas que apresentou. Foi incapaz de perturbar Mariano Rajoy, ao contrário do que sucedeu no frente-a-frente para as eleições de 20 de Dezembro.

 

4. Ciudadanos“Frenar el populismo”

Alert Rivera foi impiedoso com Pablo Iglesias. Entre outros ataques, recuperou um tweet do líder do Podemos a respeito da vitória do Syriza na Grécia - "chegou a mudança: primeiro a Grécia, depois Espanha". Ou seja, não fosse alguém esquecer-se, Rivera lembrou sempre que pôde ao eleitorado que Iglesias é populista e radical. 

O presidente do Ciudadanos foi igualmente duro com Mariano Rajoy, mas deu um passo ao lado. Isto é, deixou de ser explícito na exigência de renúncia, dizendo agora que o líder do PP deveria reflectir sobre a sua permanência na liderança do partido. De forma hábil, afirmou que a manutenção de Rajoy contribui para o crescimento do populismo do Podemos. E não se esqueceu de referir uma sondagem recente onde a maioria dos votantes do PP dizem admitir a saída de Rajoy se isso facilitar os acordos de governo.

Albert Rivera dedicou-se demasiado aos soundbites e às intenções oníricas, adquirindo um tom demagógico que é raro nele.

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A caminho do 26J (IV) – última sondagem

por Diogo Noivo, em 09.06.16

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Imagem El País

O Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS), um organismo público e independente cuja função é o estudo científico da sociedade espanhola, publicou hoje uma sondagem sobre as próximas eleições de 26 de Junho. Tal como as demais sondagens, afirma que a coligação Unidos Podemos ultrapassa os socialistas do PSOE, tornando-se desta forma a segunda força política mais votada. O PSOE é então remetido para o difícil – e, no caso, vexatório – lugar de kingmaker. Feitas as contas, e tendo presente que a maioria absoluta se obtém com 176 deputados, o PSOE ver-se-á forçado a escolher entre Mariano Rajoy (PP) e Pablo Iglesias (Unidos Podemos). Se este estudo do CIS se confirmar nas urnas, um dos dois será o próximo Presidente de Governo.

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Nas últimas semanas, Portugal entreteve-se a discutir as origens do fascismo, uma cortesia de José Rodrigues dos Santos que as luminárias doutorais da pátria agradeceram com regozijo e soberba. Espanha tem agora a possibilidade de seguir as pegadas do seu vizinho ibérico: Pablo Iglesias, líder do Podemos, afirmou esta semana que a coligação por ele dirigida é social-democrata. Mais, empenhou-se em demonstrar que a social-democracia é um sucedâneo directo do marxismo. E, para rematar a faena, muniu-se das suas credenciais de professor de ciência política para afirmar que Karl Marx e Friedrich Engels eram social-democratas.

 

Como seria de esperar, Alberto Garzón, Coordenador Federal da Izquierda Unida (IU) e comunista confesso, foi rapidamente cercado por jornalistas interessadíssimos em saber o que pensava ele deste novo amor ideológico do seu parceiro de coligação. “Sinto-me confortável nesta aliança com o Podemos”. A vida em política não é fácil, sobretudo quando se está ao lado de Pablo Iglesias. No entanto, porque a política é um espaço onde impera a eficiência e porque há um PSOE para eliminar, a intelectualidade da IU reuniu-se com a imprensa para matar a polémica com uma cartilha preparada para a ocasião: “El comunismo es una tradición política que nace como escisión teórica y práctica de la socialdemocracia. Por eso, Lenin, Marx y todos los comunistas del siglo XIX eran de partidos socialdemócratas, y hablaban en sus textos como socialdemócratas. Solo que entonces socialdemócrata significada lo que hoy comunismo”.

 

Não me meterei no debate de filosofia política pois temo que a concorrência será mais do que muita. E deixarei a dissonância cognitiva de Iglesias para os psicólogos. Contudo, vale a pena dar uso à ciência política – a ciência social, não o veículo de doutrinação militante que alguns fazem passar por ciência nas universidades. Num ensaio muito recomendável, o cientista político Víctor Lapuente traça o perfil da nova estirpe de populismos que, à esquerda e à direita, tem despontado na Europa. Entre outras características, Lapuente adverte que à mínima oportunidade de conquistar o poder, independentemente do país em causa, os populistas (descritos pelo autor como “xamãs”) deslocam o seu discurso para o centro do espectro ideológico. Isto explica parte os conflitos de Marine Le Pen com o seu pai, fundador da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen. Explica igualmente o desdém que Syriza e Podemos nutrem pela tradicional dicotomia esquerda-direita. A ausência de grilhetas ideológicas declaradas oferece uma liberdade de actuação táctica essencial para o acesso ao poder. Numa referência implícita ao célebre trabalho de Zigmunt Bauman, Víctor Lapuente afirma que estes populismos configuram partidos gasosos, e não líquidos. Há nos novos populismos uma obsessão com a conquista do poder ou, nas palavras de Pablo Iglesias, com “asaltar el cielo”. Resta saber se, perante a nova social-democracia do Podemos, este partido espanhol continuará a ser convidado de honra do Bloco de Esquerda em campanhas eleitorais.

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Seis meses de gestão

Vistos os resultados das eleições de 20 de Dezembro de 2015, todos os partidos se recusaram a celebrar um pacto com o PP ou mesmo a viabilizar a posse de um governo Popular no parlamento – o Ciudadanos chegou a admitir essa hipótese, mas não com Mariano Rajoy na liderança do partido. Aliás, generalizou-se a ideia que Rajoy é “o” problema e que a sua saída facilitaria a resolução do impasse político. A ser verdade, é difícil explicar o como e o porquê de afastar alguém que ganha eleições e que o faz nas condições mais adversas.

 

Sabendo que não dispunha dos apoios necessários para ser investido, Mariano Rajoy recusou a indigitação oferecida pelo Rei Filipe VI. Passou então a bola para o campo da oposição. O resultado foi um impasse político motivado pelas razões que escrevi aqui. As conversações entre PSOE, Ciudadanos e Podemos, e em particular as guerras à esquerda, sequestraram por completo o espaço mediático, o que ofereceu a Mariano Rajoy a possibilidade de não ter que entrar em despesas políticas.

No entanto, os problemas não desapareceram. Os processos judiciais que envolvem militantes do PP tiveram novos desenvolvimentos (todos pouco edificantes) e Mariano Rajoy perdeu um ministro da sua confiança pessoal ao ser revelado que este tivera contas na offshore do Panamá.

 

Chega o mês das eleições. Segundo as sondagens, o PP repete a vitória, embora continue a faltar a maioria que permite governar sem depender de terceiros. Rajoy é mal amado, lidera um partido popular apenas de nome, enfrenta condições extraordinariamente adversas, mas continua a ser o líder mais votado. Haverá uma componente de mistério nestes resultados, mas é possível elencar algumas das razões que explicam os números favoráveis do PP: (i) o eleitorado dos Populares é – junto com o eleitorado do Unidos Podemos – dos mais mobilizados para o acto eleitoral; (ii) o PSOE, adversário tradicional do PP, não acerta com a mensagem e não fixa os seus eleitores; (iii) Rajoy, ainda que sem carisma, é visto como alguém simpático, simples e acessível, o que contrasta com os desvarios de alguns quadros do PP envolvidos em processos judiciais; (iv) o radicalismo do Unidos Podemos parece assustar o centro, votantes que ainda decidem eleições; (v) Rajoy não entrou na arena de insultos e de tensão que caracteriza a pré-campanha, preservando assim uma imagem de serenidade e de sentido de Estado que é útil a quem quer convencer os espanhóis de estar em melhores condições para liderar o país.

 

O tom da campanha

Esta segunda-feira o PP divulgou o seu vídeo de campanha eleitoral. Simples, original, com sentido de humor e com uma mensagem positiva. Numa frase, a ideia é a seguinte: sabemos que somos impopulares, sabemos que uma parte importante do eleitorado está cansada de nós, mas não votem nos outros apenas para nos penalizar pois está em jogo o futuro do país. A frase central, "A Favor", é um apelo à responsabilidade dos cidadãos, mas é igualmente um recado para os partidos da oposição, especificamente para o PSOE e para o Ciudadanos. Ou seja, é um estender de mão a estes dois partidos, convidando-os a abandonar as linhas vermelhas e as acrimónias pessoais.

 

 

Para já, não resultou. Todos continuam com o PP na mira. O Unidos Podemos, cuja razão de ser é o sorpaso ao PSOE e disfarçar a perda de votos sofrida pelo Podemos, esconde estes propósitos inconfessáveis em público sob a capa de desinstalar a direita do poder. O PSOE, acossado pela sua esquerda, tenta conquistar o centro e recuperar alguns dos votos perdidos para o Unidos Podemos, mas sempre defendendo que a mudança só e possível com um governo progressista de esquerda. Ou seja, tem como alvo o PP. O Ciudadanos admite negociar com todos, sendo no entanto taxativo na recusa em chegar a um acordo com Rajoy – Albert Rivera, presidente do Ciudadanos, chegou a dizer que se estivesse Pablo Casado na liderança do PP tudo seria mais fácil. Mas a campanha ainda vai no adro.

 

[A primeira parte deste texto pode ser lida aqui]

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Mariano Rajoy Brey é um caso raro de sobrevivência política. O seu percurso, sobretudo nos últimos anos, é uma história quase inexplicável de resistência a tudo e a todos (e até a ele próprio). Perdeu duas eleições legislativas consecutivas sem nunca abandonar a liderança do Partido Popular (PP). Depois de oito anos na oposição, obtém uma maioria absoluta e forma governo para ver-se a braços com uma crise internacional, uma crise nacional e uma crise de reputação partidária. Repete a vitória nas legislativas de Dezembro de 2015, embora sem a maioria necessária para formar governo. Passados seis meses de chefia de um Executivo em gestão, Rajoy volta a apresentar-se às eleições generales do próximo dia 26 de Junho.

 

De derrota em derrota…

 

Em 2003, Mariano Rajoy é escolhido para suceder a José Maria Aznar na presidência do Partido Popular e, consequentemente, para assumir o papel de candidato a Presidente de Governo nas eleições legislativas do ano seguinte. À mesa dos mentideros, Rajoy é visto como a consequência da vaidade de Aznar. Zeloso do seu legado político, Aznar terá visto em Rajoy um político tímido e sem carisma. Portanto, alguém que não faria sombra aos oito anos do Executivo “España va bien” por ele liderado. Trate-se ou não de um maquiavelismo mal intencionado de quem conspira nos arrabaldes do poder, a verdade é que suceder a uma figura carismática e forte como Aznar não foi certamente uma tarefa fácil.

Tudo parecia estar de feição para uma vitória do PP nas generales de Março de 2004. Porém, dias antes das eleições, um brutal atentando terrorista, a reacção do PP a esse atentado e a organização de manifestações “espontâneas” contra o governo Popular provocaram um terramoto no sentido do voto dos eleitores. O PP perdeu as eleições para o PSOE de José Luis Rodríguez Zapatero. Rajoy manteve-se na liderança do partido.

Quatro anos mais tarde, em Março de 2008, Rajoy volta a apresentar-se como candidato a Presidente de Governo. Perde novamente as eleições para os socialistas de Zapatero. Rajoy permanece na presidência do PP.

 

…até à vitória aritmética.

 

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Após oito anos de oposição, Mariano Rajoy consegue vencer as eleições de 2011. O PP obtém a maioria absoluta com 186 mandatos (num total de 350) e com 44% dos votos. Mas as razões para festejar rapidamente desapareceram. A crise internacional destapou um conjunto de problemas estruturais do país, em particular no sector imobiliário. Apesar de não ter pedido um programa de resgate formal, o Governo espanhol viu-se obrigado a implementar sérias medidas de austeridade. Como um problema nunca vem só, o espaço público foi invadido por uma torrente de casos de corrupção e de branqueamento de capitais onde estavam envolvidos militantes do PP – um desses casos, porventura o mais célebre, já tem versão cinematográfica. Olhando acriticamente para as notícias, parece não haver no PP um único lugar impoluto: das estruturas nacionais às locais, de militantes de base a altos quadros do partido, nada parece escapar à obscuridade do crime financeiro e do abuso de poder. Pelo contrário, um olhar atento verá que não há uma situação de corrupção endémica, que o PP não é o único partido com problemas com a justiça, e que em muitos dos casos ainda não foi deduzida acusação. Contudo, dos vários partidos, o PP é aquele cuja reputação mais sofre com os sucessivos casos de corrupção e de branqueamento de capitais.  

O contexto político saído destes quatro anos de governação prenunciava uma hecatombe eleitoral sem precedentes. Contra Rajoy jogava ainda o aparecimento de novos partidos, o Podemos e o Ciudadanos, muito críticos do bipartidarismo PP-PSOE, e que foram capazes de mobilizar eleitorado e de demonstrar uma sagacidade invulgar nas suas estratégias de comunicação política. Novos ou velhos, todos os partidos da oposição escolheram o PP como alvo a abater. No dia 20 de Dezembro de 2015, o PP perde votos e mandatos, mas ainda assim é o partido mais votado – o PP obtém 28,72% dos votos, o PSOE 22,01%, o Podemos 21,67% e o Ciudadanos 13,93%.

 

[Publicarei a segunda parte deste texto amanhã]

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A coligação entre Podemos e Izquierda Unida (IU), designada Unidos Podemos, consegue o "sorpaso": a avaliar pelas sondagens, será a segunda força política mais votada nas próximas eleições, ultrapassando os socialistas do PSOE pela esquerda, que são atirados para um pálido terceiro lugar. A pouco menos de um mês do acto eleitoral, as sondagens publicadas pelo El País e pelo El Mundo coincidem e dão ao Unidos Podemos cerca de 24% dos votos.

 

A união entre as duas forças de esquerda não é pacífica, desde logo no seio dos partidos que a constituem. Iñigo Errejón, número dois do Podemos, expressou em público as suas dúvidas, nomeadamente se a união dos dois partidos se traduzirá numa soma dos votos por eles obtidos nas eleições de 20 de Dezembro. Mas mais importante, Errejón acrescentou que o Podemos deve ser um partido transversal. Por outras palavras, deve evitar a tradicional dicotomia esquerda-direita e, à semelhança dos demais populismos que enxameiam a Europa, aferrar-se à lógica novos vs. velhos,  reformadores vs. sistema, “los de arriba vs. los de abajo”. Portanto, Iñigo Errejón teme que a aliança com a IU, aos olhos do eleitorado do Podemos, seja interpretada como uma cedência ao “sistema” e, por outro lado, uma inserção deliberada do Podemos no lado esquerdo do espectro político.

 

Do lado da IU também há dúvidas, embora menos audíveis. Julio Anguita, líder histórico da IU, sempre hesitou bastante a respeito da união com o Podemos. Mas houve um momento em que tudo parecia estar ultrapassado. No evento que oficializou a aliança eleitoral, Anguita deu um abraço emotivo a Pablo Iglesias e chegou a estar prevista a sua entrada nas listas para o parlamento, em lugar não elegível, como figura tutelar que apadrinha a união. No entanto, dias depois, Anguita afastou a possibilidade de fechar a lista do Unidos Podemos em Córdova e não tem participado na pré-campanha. Anguita disse não estar disponível para regressar à política activa, nem de forma simbólica. Observa “con asombro” que, desde que o Podemos propôs a sua integração nas listas “se extiende como un reguero de pólvora la idea de que yo voy a ir en el número seis, cuando nadie desde ese día me ha consultado sobre mi opinión al respecto.”

 

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Perante este quadro, e fazendo fé nas sondagens, o êxito eleitoral do Unidos Podemos é demérito do PSOE. Nas eleições de 20 de Dezembro, depois de quatro anos de políticas de austeridade capitaneadas pelo Partido Popular, o PSOE obteve o pior resultado desde 1977. Passadas as eleições, foi incapaz de formar governo e, segundo as sondagens do El País e do El Mundo, continua a perder votos, agora para o Ciudadanos e para a abstenção. Para rematar o cenário desastroso, note-se que o lugar de segunda força política está em jogo tanto em número de votos, como em mandatos. Para já, é pouco provável que o PSOE seja derrotado pelo Unidos Podemos em mandatos. Por isso, a aliança de esquerda, para além da nova aposta nos sorrisos, avisa diariamente que as eleições são ganhas por quem tem mais votos. O recado é claro. Em suma, o PSOE está há seis meses em maus lençóis e, vendo de fora, parece não saber como resolver o problema.

 

A confirmarem-se os resultados apresentados pelas sondagens, Pedro Sánchez, secretário-geral do PSOE, tem quatro caminhos: (i) viabilizar um governo do PP; (ii) celebrar um acordo pós-eleitoral com o PP para formar governo; (iii) viabilizar um governo do Unidos Podemos; ou (iv) entrar em pacto pós-eleitoral com o Unidos Podemos. O Ciudadanos será uma peça importante no momento em que Sánchez tiver que escolher. Mas seja qual for a opção, o PSOE corre o risco de ser o novo PASOK. E seja qual for a opção, Pedro Sánchez dificilmente permanecerá na liderança do PSOE.

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Extremismos

por Diogo Noivo, em 27.05.16

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Nas últimas noites, o bairro de Gràcia, em Barcelona, esteve a ferro e fogo. Um grupo de okupas tomou as ruas de assalto, deixando um rasto de destruição e os moradores aterrorizados. Montras de lojas e de sucursais bancárias, supermercados, contentores do lixo, scooters, carros, nada escapou à fúria. A presença de jornalistas em directo do local, também insultados e agredidos, permitiu ouvir as vozes de protesto. “A polícia é terrorista” é das poucas frases que posso reproduzir aqui. O vocabulário era desinibido e pouco exemplar.

 

A razão para tanta destruição, perdão, indignação é inaudita: deixaram de lhes pagar a renda. É verdade, eu também sou do tempo em que os okupas eram uns tipos destemidos que ocupavam imóveis contra a vontade do proprietário, contra as normas da lei, contra as decisões judiciais e contra a polícia. Enfim, sou do tempo em que usar bens pagos era, para os okupas, um vício burguês, uma contradição nos termos. Ser okupa num imóvel que alguém paga era como ser partidário da castidade e decidir viver num prostíbulo.

 

Os antecedentes desta história contam-se em três penadas. O imóvel, uma antiga dependência bancária, foi ocupado em 2011. Dois anos mais tarde, o proprietário, a Catalunya Caixa, fez chegar aos okupas a ordem de despejo. Os okupas protestaram para reivindicar o seu direito a um tecto e a uma vida digna, ou seja, saíram à rua para destruir propriedade pública e privada, para além de expiar frustrações na polícia. Perante a violência e o desrespeito pela lei, o então presidente da câmara municipal de Barcelona, Xavier Trias, decidiu que era chegado o momento de tomar uma decisão. Levantou a cabeça, encheu-se de coragem, assumiu os poderes públicos nele investidos e começou a pagar-lhes a renda. Aqui chegados, não sei se me devo revoltar com os okupas ou se devo aplaudi-los. O município de Barcelona passou então a desembolsar 5.500 € com cadência mensal. O maquiavelismo primário (e alguma benevolência com Trias) poderia ver nesta decisão do Executivo municipal uma estratégia audaz para subverter a identidade okupa. Acontece que a ideologia e os valores okupas são abnegados e irrenunciáveis, mas não há ideias no mundo que se comparem ao conforto de uma casa paga por terceiros.

 

Por razões que os okupas não entendem, a actual presidente de câmara, Alda Colau, considera que a renda de 5.500€ é danosa para o erário público. Por isso, mandou cancelar a transferência mensal. Note-se que não é uma posição de força. A alcaldesa de Barcelona, eleita por uma plataforma local do partido Podemos, distancia-se da violência, mas diz compreender os “manifestantes”.

 

E aqui termina a história, certo? Errado. A CUP (Candidatura d’Unitat Popular), partido anti-sistema de esquerda radical que sustenta o Executivo camarário, é um forte apoiante da causa okupa e, perante a decisão de Colau, vai dizendo entre dentes que o governo municipal pode cair. Abreviando, Barcelona pode ficar sem Executivo municipal porque um grupo de okupas exige que lhes paguem a renda. Mas ainda bem que a Áustria não elegeu um perigoso extremista.

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Ventos de Espanha

por Pedro Correia, em 22.05.16

Imaginem o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, coligados, ultrapassando o PS como força eleitoral. É o equivalente a isso que ressalta da sondagem de hoje do El País sobre as intenções de voto para as legislativas de 26 de Junho em Espanha.

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Em Espanha, Podemos e Izquierda Unida (IU) anunciaram ontem um pré-acordo de coligação destinado às eleições legislativas do próximo dia 26 de Junho. São dois a dançar o tango. Mas enquanto a IU pode acabar a dançar na corda – expressão utilizada para descrever o estertor de quem está pendurado pelo pescoço –, o Podemos pode tornar-se o rei da festa.

 

Comecemos pelo Podemos. Com esta aliança, o partido de Pablo Iglesias fica mais próximo de alcançar dois objectivos fundamentais. Primeiro objectivo: disfarçar. Com base em sondagens recentes, o Podemos é o partido que mais perde face aos resultados das últimas legislativas. A união com a IU constitui, portanto, um expediente para camuflar a penalização que o eleitorado lhe pretende infligir. Segundo objectivo: ultrapassar o PSOE pela esquerda. Por razões que expliquei aqui, a aliança com os socialistas espanhóis foi impossível e as relações entre os dois partidos deterioram-se de dia para dia. Logo, se não te podes juntar a eles para vence-los por dentro, vence-os directamente. O propósito de Iglesias com este acordo é o de içar a aliança com a IU ao lugar de segunda força política mais votada e, assim, substituir o PSOE como principal partido de esquerda.

 

Quando olhamos para esta aliança do ponto de vista da IU, a paisagem é mais agreste. Após anos de estagnação eleitoral, a IU corre o risco de ser vítima de fagocitose e acabar deglutida pelo Podemos. Conscientes do risco, são vários os notáveis da esquerda histórica a manifestar dúvidas (ou mesmo oposição frontal) ao acordo. De Gaspar Llamazares, antigo Secretário-Geral da IU, a Francisco Garrido, presidente do município de Zamora, a única capital de província governada pela IU, a dissidência faz-se ouvir. A estes notáveis junte-se outro: Julio Anguita. Líder histórico da IU e responsável pelos maiores êxitos eleitorais deste partido, Anguita tem sido prudente nas declarações, mas não se coíbe de expressar em público as suas dúvidas sobre o acordo. Importa ter presente que Julio Anguita está para a IU como Felipe González está para o PSOE: o que diz conta muito.

 

Chegamos então aos problemas que podem estragar as contas de Pablo Iglesias. Por um lado, em política, dois mais dois não são quatro. Herdeiros do Partido Comunista Espanhol de Santiago Carrilho e em grande medida forjados pelo génio de Julio Anguita, não é claro que todos os votantes da IU subscrevam esta aliança. Por outro lado, o acordo com a IU representa mais uma inflexão estrutural do Podemos. Embora assumidamente de esquerda, Pablo Iglesias nunca gostou de colocar o seu partido no espectro esquerda-direita. Para ele, Espanha divide-se entre “los de arriba y los de abajo”. Los de arriba são os partidos tradicionais, vulgo “o sistema”, um saco onde Iglesias colocou em tempos a IU, que apelidou de “estrunfe rezingão” e culpabilizou pela inexistência de mudanças profundas no país. Los de abajo são os todos aqueles que não se revêem nos partidos e no sistema, isto é, o eleitorado do Podemos. Ao aliar-se à IU o Podemos entra no sistema que tanto critica. Depois da corrida ao poleiro, depois de querer quatro grupos parlamentares (e as subvenções públicas que daí resultam), depois de dinamitar uma solução governativa à esquerda que apeasse a direita, este conluio com “los de arriba” começa a evidenciar cinismo a mais para que o Podemos, partido anti-castas, mantenha alguma verticalidade aos olhos do seu eleitorado.

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Winter is Coming

por Diogo Noivo, em 28.04.16

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As alianças durarão enquanto houver convergência de interesses. Na luta pelo poder, a eficácia sobrepõe-se a qualquer valor ou princípio. Em política, os estados de alma matam. Estas três frases constituem um dos vários resumos possíveis da série televisiva Game of Thrones, um verdadeiro fenómeno de audiências que, na opinião deste escriba, é inteiramente justificado. Bem sei que a adesão pública a fenómenos de massas invalida qualquer ambição de reconhecimento intelectual. Confesso que a taxonomia cultural que divide os intelectos em highbrows, middlebrows e lowbrows me parece anacrónica. Mas não tem importância. O pátio é pequeno para tanta mente ilustrada.

 

Pablo Iglesias, líder do partido político espanhol Podemos, tem uma predilecção especial por esta série da HBO – aliás bem patente no livro por ele coordenado “Ganar o Morir: Lecciones Políticas en Juego de Tronos” (Akal, 2014). O fascínio é de tal ordem que Iglesias, na condição de dirigente partidário, decidiu levar a série para o palco central da política espanhola. Em Abril de 2015, quando o Rei Filipe VI se encontrava em visita oficial às instituições europeias, Pablo Iglesias ofereceu ao monarca a colecção da série em DVD dizendo-lhe “Creo que le aportará algunas claves para entender la política española”. Mais do que uma oferta, o gesto foi uma advertência: vem aí o inverno. A política espanhola transformar-se-á num mundo medieval onde combaterão vários castelos e, aproveitando o novelo intrincado de interesses em jogo, o Podemos gelará as “castas” e o “sistema”. Acertou na primeira parte. Na segunda nem por isso.

 

Passado um ano, e não obstante o profundo conhecimento sobre as interpretações políticas que a série permite, Iglesias parece ser vítima dos excessos de confiança e das intrigas palacianas que enterraram vários personagens de Game of Thrones. Após muito contribuir para dinamitar uma solução governativa à esquerda, e de o ter feito com a jactância dos líderes ensimesmados que a série foi assassinando com diferentes graus de brutalidade, Pablo Iglesias tem agora problemas dentro do próprio castelo.

 

Primeiro, para manter o controlo férreo do partido, Iglesias sentiu a necessidade de perpetrar uma purga fulminante. Depois, na sequência desta purga, acentuaram-se as divergências entre Iglesias e o seu número dois, Iñigo Errejón. Agora é Victoria Rosell a criar problemas. Juíza de profissão e deputada do Podemos, Rosell está a ser investigada pelo Supremo Tribunal por um alegado delito de prevaricação. Ao contrário do que Pablo Iglesias sempre afirmou, parece que os problemas com a justiça não são um exclusivo dos partidos da “casta”.

 

Com as eleições legislativas no horizonte, Pablo Iglesias tenta celebrar uma aliança com a IU (Esquerda Unida), esquivar-se dos ataques desferidos pelo PSOE e manter as hostes do Podemos suficientemente calmas para dar um ar de normalidade interna. A avaliar pelas sondagens, parece que não chega.

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O mausoléu sindical

por Diogo Noivo, em 20.04.16

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O Público noticia hoje que a CGTP perdeu cerca de 64 mil afiliados nos últimos quatro anos. Na UGT, segundo Carlos Silva, foram 80 mil. Note-se, contudo, que esta sangria não é um problema exclusivamente português. Em Março deste ano, a revista Cambio 16 publicou uma interessantíssima reportagem sobre as estruturas sindicais em Espanha e o panorama não é diferente: em conjunto, as duas grandes centrais sindicais – Confederación Sindical de Comisiones Obreras (CC.OO.) e Unión General de Trabajadores (UGT) – perderam 400 mil afiliados durante a crise.

 

À primeira vista, parece um contra-senso. O aumento do desemprego, da precariedade, o enfraquecimento da negociação colectiva e as reformas laborais que recortaram “direitos adquiridos” deviam fortalecer as estruturas sindicais, não só em número de associados, mas também em força política. Porém, enquistados num espaço e num tempo que não é o de hoje, os sindicatos portugueses e espanhóis existem sobretudo para trabalhadores com contratos estáveis e do sector público. Em declarações à Cambio 16, Andrew J. Richards, docente na Universidade Carlos III, afirma que, directa ou indirectamente, as receitas sindicais provêm do Estado, razão pela qual as centrais sindicais estão pouco interessadas em abranger precários, contratados a termo e desempregados. E por isso minguam.

 

Sendo o problema comum aos dois países, seria expectável que as reacções sindicais de ambos os lados da fronteira fossem semelhantes. Mas não. Há um mundo que separa Portugal e Espanha.

 

Fernando Lezcano, secretário para a organização e comunicação nas CC.OO., faz o acto de contrição e concede que foram cometidos erros. Reconhece que as últimas greves gerais prejudicaram os sindicatos. Admite que a representação sindical aumenta consideravelmente conforme aumente o tamanho da empresa, assumindo que o sucesso dos sindicatos passa por enquadramentos legais e financeiros que beneficiem as empresas. A este respeito, Lezcano acaba por reconhecer também que os sindicatos espanhóis estão presos a uma economia de grandes empresas, sendo portanto obsoletos num país onde proliferam PME e startups. O dirigente das CC.OO. assume ainda que as centrais sindicais têm que se repensar para incluir trabalhadores precários, trabalhadores a tempo parcial, desempregados e voluntários (uma forma de trabalho que, segundo a inefável Catarina Martins, é “uma treta”). Concluindo, e como disse Fernández Toxo, secretário-geral das CC.OO., ou a central sindical se reinventa ou “se la lleva el viento de la historia.”

 

Já em Portugal lança-se mão à adversativa. Graciete Cruz, membro da comissão executiva da CGTP e responsável pelo departamento de organização, atribui a culpa pela redução de afiliados à crise, mas destaca outros sectores onde o saldo entre os que saíram e os que entraram é positivo. Ponto. Tudo está bem no reino sindical português. Resta saber se acabará bem.

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Apontamentos do outro lado da fronteira

por Diogo Noivo, em 19.04.16

Espanha é um país sem meias-tintas. Ainda que muito evidente na política, esta atitude perpassa todos os aspectos do quotidiano e sectores de actividade. Até nas traduções, onde se espera zelo e fidelidade às palavras originais, a postura desempoeirada de Espanha se faz notar. Comprei recentemente a edição espanhola do livro “Let’s Talk About Love: Why Other People Have Such a Bad Taste”, da autoria do crítico de música Carl Wilson. O título é longo, explicativo e está pejado de subtilezas. Nada spanish-friendly, portanto. Como foi traduzido para espanhol? Simples: “Música de Mierda”. O ensaio de Wilson versa sobre Céline Dion e procura entender como um fenómeno musical medíocre, duramente criticado no Canadá de Dion e no estrangeiro, atinge um sucesso planetário sem precedentes. Em suma, se um título deve ser claro e conciso, peçam a um espanhol que o escreva.

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Cine-Espanha (7) - Negociador

por Diogo Noivo, em 30.03.16

Negociador.jpg

 

Quando vi o Negociador pela primeira vez, sem leituras prévias ou comentários de quem já o tivesse visto, a história pareceu-me familiar. Mas não perdi muito tempo a tentar perceber porquê. O filme conquistou-me quase de imediato por aquilo que demonstrou ser: uma longa-metragem bem documentada, com uma estrutura que se via ser o resultado de muito e bom trabalho de investigação sobre a ETA e, em particular, sobre os vários processos negociais que envolveram governos democráticos e organizações terroristas. A atenção dada aos detalhes e a capacidade para destacar os aspectos mais sensíveis de uma negociação deste tipo são admiráveis.

 

Mais importante, o Negociador marca por uma inteligência e um bom gosto raros: pega num tema sério e melindroso como o terrorismo e olha-o com humor negro magnífico, sem incorrer em desconsiderações pelas vítimas e sem menorizar a complexidade do problema. De uma forma simples que não compromete o rigor que o tema exige, o filme expõe o ridículo do terrorismo etarra e dos processos negociais entre a ETA e os governos de turno. Por outras palavras, o Negociador enfatiza os momentos onde o absurdo da realidade supera a ficção. Destaco ainda que consegue abordar o terrorismo etarra sem tomar as dores dos partidos políticos – o que, dada a tensão que o assunto gera em Espanha, é louvável. Esta postura, mais do que cobardia política ou cómoda equidistância, é arte.  

 

 

Depois de muito andar, percebi a razão de me ser familiar: o filme é uma adaptação livre de “ETA: Las claves de la paz - Confesiones del negociador” (Aguilar, 2011), um livro que li logo no ano em que foi publicado. Escrito pelo jornalista Luis Rodríguez Aizpeolea e por Jesús Eguiguren, presidente do Partido Socialista de Euskadi (País Basco), além de estratega e executante de um processo negocial com a esquerda abertzale e com o terrorismo basco, “ETA: Las claves de la paz” é uma janela muito impressiva para os bastidores de uma negociação que ocorreu entre 2000 e 2006. Em cerca de 300 páginas, explicam-se com detalhe os procedimentos e alçapões de uma negociação política com uma organização terrorista. Analisam-se também as divergências políticas existentes nos meandros do terrorismo basco, tal como os ciclos de vida de grupos armados como a ETA. Tratam-se ainda as relações de causalidade entre terrorismo e anti-terrorismo. Se descontada a hagiografia de José Luis Rodríguez Zapatero, apresentado como herói e único responsável político pelo fim da ETA, o livro é um testemunho imperdível.

 

Borja Cobeaga, realizador e argumentista de Negociador, colhe da experiência de Jesús Eguiguren os elementos necessários a filme sólido, sóbrio e plausível, dono de um humor que o El País classifica de dolente, negríssimo, brilhante, trágico e atroz. A semelhança entre Jesús Eguiguren e Manu Aranguren (Ramón Barea), respectivamente, negociador real e negociador ficcionado, resume-se a um espírito castiço e echado para adelante segundo o qual “o mais simples é o que melhor funciona”. Tudo o resto é um grande filme, feito por um realizador com uma filmografia ainda curta, mas que se agiganta com este Negociador.

 

Realizador e Guionista: Borja Cobeaga

Elenco: Ramón Barea, Josean Bengoetxea, Carlos Areces, Melina Matthews, Jons Pappila, Raúl Arévalo (protagonista em La Isla Mínima, mas aqui com um papel secundário).

Ano: 2014

Prémios Goya: 1 nomeação na 30ª edição dos prémios Goya (2016) – Melhor Guião Original. Perdeu para Truman (2015, de Cesc Gay), o grande vencedor dos Goya neste ano de 2016 – um filme que oportunamente trarei ao Cine-Espanha. Na opinião deste escriba, ainda que se trate de um filme simples e sem grandes ambições, Negociador merecia mais, muito mais, desde logo nas nomeações.

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Cine-Espanha (6) - El Orfanato

por Diogo Noivo, em 22.03.16

El_orfanato.jpg

 

Tememos o desconhecido. Será talvez o mais primário e genuíno de todos os medos. O cinema tende a apresentá-lo sob duas formas distintas. Por um lado, algo cuja existência não sabemos explicar. Acontecimentos ou entidades que violam as mais elementares leis naturais e que, por conseguinte, não podemos compreender. O paranormal tem aqui as suas raízes. Por outro lado, existe uma faceta mais simples do horror pelo desconhecido: uma ameaça bem identificada, terrena e vulgar, mas a incapacidade de a ver quando sabemos que se aproxima provoca uma ansiedade irrefreável. É com base neste princípio que, em Jaws, Steven Spielberg demora mais de uma hora e vinte minutos a mostrar o tubarão na íntegra, gerando medo com base na mera sugestão da criatura e não mediante a sua imagem. El Orfanato deita mão às duas fórmulas. O paranormal mal se vê, mas é fortemente sugerido, uma sugestão que cresce à medida que o enredo se desenvolve. E como em qualquer bom filme, as conclusões ficam para o final e são pouco previsíveis. 

 

 

Laura (Belén Rueda) regressa ao orfanato onde cresceu. Com ela vai o marido, Carlos (Fernando Cayo), e o filho ainda criança, Simón (Roger Príncip). Mudam-se para a velha casa junto ao mar com o intuito de abrir uma pequena residência para crianças com deficiência. Pouco tempo depois de se instalarem, Simón desaparece. Laura empreende então uma série de jogos, seguindo pistas enigmáticas com vista a encontrar o filho.

A partir deste momento, Guillermo del Toro, produtor-executivo e padrinho do filme, torna-se omnipresente. Sem desprimor para o realizador, Juan Antonio Bayona, del Toro sequestra a fita. Tal como em El Labertinto del Fauno, longa-metragem que vimos aqui no Cine-Espanha na semana passada, as referências aos contos de fadas e às histórias infantis constituem a rede que suporta toda a narrativa. E tal como em El Laberinto del Fauno, esta é uma história onde, segundo o próprio Guillermo del Toro, a vontade de acreditar acaba por definir o curso da realidade.

A realização e a banda sonora são partes indissociáveis da trama. Na boa tradição do duo Alfred Hitchcock-Bernard Herrmann, os planos de câmara, a montagem e a música unem-se em El Orfanato para gerir de maneira exímia as percepções e as expectativas da audiência.

 

El Orfanato é a todos os títulos um filme notável e explica porque razão La Torre del Suso, igualmente em concurso na 22ª edição dos Goya e um filme do qual já falámos aqui no DELITO, não teve grande espaço para arrecadar galardões. Apesar de não ter vencido o Goya de Melhor Filme, El Orfanato foi a longa-metragem que mais prémios recebeu nos Goya de 2008. Com tanto de assustador como de magnífico, El Orfanato é um filme a não perder.

  

Curiosidades:

  1. O realizador recuperou a luz do cinema espanhol dos anos de 1970 e, como piscar de olhos à época, seleccionou Geraldine Chaplin para interpretar o papel de Aurora – Geraldine Chaplin participou em grandes clássicos do cinema espanhol, nomeadamente em Ana y los Lobos (1973) e Cría Cuervos (1976), ambos escritos e realizados por Carlos Saura.
  2. Geraldine Chaplin, filha do lendário Charlie Chaplin, voltaria a colaborar com o realizador J. A. Bayona em 2012 no filme Lo Imposible - sobre uma família apanhada pelo tsunami de 2004, no Oceano Índico, uma história protagonizada por Naomi Watts.
  3. Belén Rueda voltaria ao registo thriller/suspense/terror com Los Ojos de Julia (2010, de Guillem Morales) e com El Cuerpo (2012, de Oriol Paulo). Como anda sempre tudo ligado, Oriol Paulo realizou o filme de 2012, mas escreveu o de 2010 que, por sua vez, tal como este El Orfanato, contou com a maestria de Guillermo del Toro na produção.
  4. El Orfanato foi um êxito de bilheteira estrondoso em Espanha, capaz de destronar o já de si inaudito sucesso comercial de El Laberinto del Fauno (2006, de Guillermo del Toro). El Orfanato superou ainda os blockbusters Shrek The Third (2007, de Chris Miller e Raman Hui) e Pirates of the Caribbean: At World’s End (2007, Gore Verbinski).

 

Realizador: Juan Antonio Bayona

Elenco: Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Maribel Rivera, Geraldine Chaplin

Ano: 2007

Prémios Goya: 14 nomeações na 22ª edição dos prémios Goya (2008). Venceu em 6 categorias – Melhor Realizador Revelação, Melhor Guião Original, Melhor Direcção de Produção, Melhor Direcção Artística, Melhor Maquilhagem e Melhor Som.

Ficou a faltar o Goya para Melhor Filme, que foi para La Soledad (2007, de Jaime Rosales). Belén Rueda poderia ter vencido o Goya para Melhor Actriz Protagonista, mas foi Maribel Verdú a levar a estatueta – a actriz fez também parte do elenco de El Laberinto del Fauno e, como se vê na caixa de comentários do post sobre esse filme, Maribel Verdú conta com grandes admiradores aqui no DELITO.

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Esta manhã tinha no telemóvel uma mensagem de um amigo espanhol. O tom era jocoso e amigável, mas nas entrelinhas percebia-se que despontava aquele patriotismo do ¡Viva España! ¡Viva el Rey!. A mensagem resumia-se a um link de uma notícia do El País, acompanhado pela frase “pode ser que os postos da Galp em Espanha se lixem” (bom, não era exactamente “lixem”, mas a palavra que aqui uso serve perfeitamente para capturar o espírito da mensagem original).

Abri o link e a notícia era “A los patriotas se les identifica por la gasolinera – El ministro portugués de Economía, Manuel Caldeira Cabral, ha apelado al patriotismo de los conductores para que llenen los depósitos de sus vehículos en gasolineras del país, y no en las vecinas españolas.”

Se falta fizesse, fica mais uma vez demonstrado que aquilo que se diz em Portugal é lido no estrangeiro e, dessa forma, tem o potencial para afectar a imagem e a credibilidade do país lá fora. Resta agora esperar que os espanhóis continuem a adoptar a postura que sempre tiveram ao longo das últimas décadas – a de ignorar olimpicamente a política portuguesa – porque caso contrário alguns interesses económicos lusos em Espanha poderão sofrer as consequências do brilhantismo de S. Exa. o Ministro da Economia.

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Cine-Espanha (5) - El Laberinto del Fauno

por Diogo Noivo, em 15.03.16

El-laberinto-del-Fauno.jpg

 

Norte de Espanha, 1944. A Guerra Civil terminou há cinco anos. As poucas bolsas de resistência republicana que sobreviveram são cruelmente perseguidas pelo exército e pela polícia de Franco. Trata-se da ofensiva final, destinada a construir a “nueva España” ambicionada pelo Caudillo.  

Num pequeno pueblo de montanha, o Capitão Vidal (Sergi Lopez), oficial da infame Polícia Armada, é o responsável pela eliminação dos grupos de combate republicanos bem como de qualquer pessoa que com eles colabore. Carmen (Ariadna Gil), mulher de Vidal, a semanas de terminar uma gravidez de risco, faz uma longa viagem até à casa de montanha para se juntar ao marido. Acompanha-a Ofelia (Ivana Baquero), de 13 anos, filha nascida de um primeiro casamento. Na primeira noite passada em casa do padrasto, Ofelia é acordada por um insecto que a conduz até um labirinto. E é nesse labirinto que encontrará uma criatura, um fauno, que lhe fará uma revelação surpreendente e lhe abrirá as portas de um mundo fantástico “donde no existe la mentira ni el dolor”. Compete ao espectador decidir se esse mundo fantástico é real ou se é um refúgio criado pela imaginação de uma criança que quer fugir aos horrores do pós-guerra. Em boa verdade, estas duas opções não são mutuamente exclusivas.

 

  

A filmografia de Guillermo del Toro, sobretudo enquanto realizador, assenta na existência de mundos paralelos e soturnos, inacessíveis ao comum dos mortais, que embora sendo do domínio do paranormal dizem sempre mais sobre a espécie humana do que sobre as criaturas disformes que habitam essas realidades alternativas (vejam-se Hellboy I & II, Crimson Peak, Blade II ou ainda a série televisiva The Strain). El Laberinto del Fauno não é excepção. No entanto, este filme distingue-se dos restantes por subverter a ‘disneyficação’ das histórias infantis, invalidando por completo o tom benigno associado aos contos de fadas. De resto, segundo o próprio del Toro, a fantasia não é escapismo, mas sim uma forma de confrontar os horrores da realidade.

 

Dos filmes que apresentei até ao momento aqui no DELITO, via Cine-Espanha, este será o mais conhecido. É uma fama merecida. Produção conjunta entre Espanha e o México, El Laberinto del Fauno é a magnum opus do realizador, produtor e argumentista mexicano Guillermo del Toro.

 

Curiosidades:

  1. Obteve 3 dos 6 Óscares a que foi candidato – Melhor Maquilhagem, Melhor Direcção Artística e Melhor Fotografia. Perdeu na categoria de Melhor Filme Estrangeiro para a magistral longa-metragem alemã Das Leben der Anderen (As vidas dos outros, 2006).
  2. Ivana Baquero, cuja interpretação em El Laberinto del Fauno lhe valeu o Goya de Melhor Actriz Revelação, integra o elenco do recém-estreado filme português Gelo.
  3. O célebre realizador mexicano Alfonso Cuarón, o primeiro hispânico a vencer o Óscar para Melhor Realizador (com Gravity, de 2013), é um dos principais produtores deste El Laberinto del Fauno.
  4. Como em todos os filmes de Guillermo del Toro, também aqui não faltam insectos nem a habitual imagética recheada de referências a símbolos do catolicismo.

 

Realizador: Guillermo del Toro

Elenco: Álex Angulo, Ariadna Gil, Doug Jones, Ivana Baquero, Sergi López, Maribel Verdú

Ano: 2006

Prémios Goya: 13 nomeações na 21ª edição dos prémios Goya (2007). Venceu em 7 categorias – Melhor Guião Original, Melhor Direcção de Fotografia, Melhor Actriz Revelação, Melhor Montagem, Melhor Som, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Maquilhagem. Perdeu nas categorias de Melhor Filme e de Melhor Realização para Volver, de Pedro Almodóvar. Como é sabido, Volver e a escolha de Penélope Cruz como musa marcam o início do fim do interesse cinematográfico de Almodóvar.

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Cine-Espanha (4) - B

por Diogo Noivo, em 08.03.16

Cartel-en-exclusiva-de-B-la-pelicula-sobre-Barcena

 

Quem olhe para a vida política espanhola pensará que o país vizinho se transformou numa enorme cornucópia de onde apenas brotam corrupção e abusos de poder. Os casos surgem no espaço público em catadupa e parecem tocar tudo e todos, da direita à esquerda, da administração central à local, das empresas públicas às privadas. Ainda assim, o tema raras vezes foi abordado pelo cinema que se faz em Espanha, muito menos evocando um caso recente e os nomes nele envolvidos. O filme ‘B’ é por isso uma raridade.

Esta longa-metragem é uma adaptação cinematográfica da peça de teatro “Ruz-Bárcenas”, que esteve em cena no Teatro del Barrio, em Madrid. A história, mas também os actores, passam do palco para o grande ecrã. O guião é uma cópia quase textual das declarações prestadas por Luis Bárcenas, antigo tesoureiro do Partido Popular, numa sessão de inquérito presidida pelo juiz Pablo Ruz. Jordi Casanovas, o autor do texto, afirma não ter mudado uma só vírgula dos diálogos que encontrou na transcrição judicial, tendo apenas encurtado a duração das declarações.

 

No dia 15 de Julho de 2013, Luis Bárcenas, acusado de branqueamento de capitais e de fraude fiscal, revê afirmações prestadas anteriormente e assume perante o juiz, em plena Audiência Nacional, a existência de uma contabilidade ‘B’, de um ‘saco azul’ no Partido Popular. Na verdade, foi mais longe e implicou directamente no caso altos responsáveis do partido, entre os quais Mariano Rajoy, líder do PP e Presidente de Governo. O homem que controlou as contas dos Populares entre 1990 e 2009 assume então a existência de um sistema paralelo e oculto de receitas e despesas, feito de doações ilegais, de sobresueldos (complementos salariais não declarados), de obras na sede do partido, entre outras actividades que se podem resumir num longo e indecoroso et cetera.

‘B’ não é mais do que isto. O filme decorre na íntegra na sala de audiências e resume-se em grande medida à esgrima de perguntas e respostas entre juiz e arguido. A interacção entre os dois personagens sugere um registo que mistura um Frost/Nixon (2008, de Ron Howard, também uma adaptação de uma peça de teatro) com as clássicas cenas de capa e espada de Errol Flynn. O orçamento, reduzido e em boa parte obtido através de crowdfunding, não permite ao filme grandes distensões de produção, algo que é visível aos olhos do espectador menos atento. Vale a interpretação extraordinária de Pedro Casablanc (Bárcenas), que assumiu o risco de interpretar alguém cuja imagem, sotaque e maneirismos entram diariamente em casa do público pela televisão. É igualmente apreciável a inovação temática, embora se dispense a militância anti-sistema delatada pelas insinuações que resultam de alguns silêncios exagerados e hesitações cirúrgicas de Bárcenas.

De teatro-documentário para cinema-teatro, ‘B’ usa os reflexos entre a ficção e a realidade para criar um filme político, original no panorama espanhol, que ficará na memória pela gravidade e mediatização do caso, mas não tanto pela sua qualidade cinematográfica.

 

Realizador: David Ilundain

Elenco: Pedro Casablanc, Manolo Solo

Ano: 2015

Prémios Goya: 3 nomeações na 30ª edição dos Prémios Goya (2016) – Melhor Actor Principal, Melhor Actor Secundário e Melhor Guião Adaptado. Não obteve qualquer galardão.

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