Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



1509985125_818003_1510055691_noticia_normal_recort

Justiniano Martínez Medina (foto El País) 

 

"Fui guerrillero, pasaba la muga con las planchas del prohibido Mundo Obrero a mis espaldas, fui responsable del PCE de Murcia en la clandestinidad, fui detenido, fui torturado, como atestiguan mis vértebras, cumplí seis años de cárcel, grité amnistía, perdoné a mi torturador. No me hablen de libertades quienes solo las han disfrutado.

No importa, me llaman fascista. Pero el fascismo mata, el franquismo mataba, que lo sepan esos miserables que al mentir, insultan la memoria de nuestros muertos y muertas."

Justiniano Martínez Medina, ex Secretário Geral do Partido Comunista Espanhol - "Gracias, Paco" (El País, 7.11.2017)

 

 

"Somos millones los españoles que conocimos directamente la dictadura franquista. Muchos miles de nosotros no solo sufrimos su represión genérica y colectiva, sino la individual y específica destinada a cuantos nos comprometimos en la lucha por derribar aquel régimen y recuperar las libertades. A cuantos sufrimos en nuestras carnes aquella represión tiene que indignarnos la campaña desatada por los secesionistas catalanes y sus amigos, presentando algunos incidentes y medidas, consecuencia de su locura rupturista, como un retorno de Franco y sus métodos. (...)

Métodos franquistas son también esos otros tres juicios a los que fui sometido ante un tribunal especial, el de orden público, por los “delitos” de asociación, reunión y manifestación, por los que fui condenado a algo más de seis años de cárcel. Comparar aquello con lo actual, hablar de la “vuelta de Franco”, debería abochornar hasta a los que lo han venido pregonando."

Julian Ariza Rico, membro fundador das Comisiones Obreras, a principal central sindical em Espanha - "No banalicemos el franquismo" (El País, 4.11.2017)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Critérios de extradição.

por Luís Menezes Leitão, em 08.11.17

Não deixa de ser curioso que, enquanto é pedida a extradição imediata de Puigdemont, Iñaki Urdangarin, "cunhadíssimo" do actual Rei de Espanha, condenado a seis anos e três meses de prisão por corrupção, continue a viver feliz e contente na Suíça, sem que nenhuma autoridade espanhola o incomode.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Política de ódio

por Diogo Noivo, em 06.11.17

Miguel_de_Unamuno_1925.jpg

Miguel de Unamuno

 

O problema catalão é antigo. Não me refiro às origens de uma alegada singularidade histórica que, se bem adobada, justificará a independência. Refiro-me ao que Miguel de Unamuno topou em 1906:

 

La especial megalomanía colectiva o social de que está enferma Barcelona les lleva a la obligada consecuencia de la megalomanía a um delírio de persecuciones (...). Y asi hablan de odio a Cataluña, y se empeñan en ver en buena parte de los restantes españoles una ojeriza hacia ellos, hacia los catalanes (...). Y tal odio no existe. No existe odio a Cataluña, ni a Barcelona, ni existe la envidia tampoco. Lo que hay es que los españoles de las demás regiones han estado constantemente ponderando y exaltando la laboriosidad e industrializacion de los catalanes (...) y con esto les ha recalentado y excitado esa nativa vanidad que con tanta fuerza arriaga y cresce bajo el sol del Mediterráneo. Y esa vanidad, esa petulante jactancia y jactanciosa petulancia que se masca en el aire de Barcelona, hace que las gentes sencillas y modestas (...) al encontrarse en aquel ambiente de agressiva petulancia, se sientan heridas y molestas”.

 

Embora desnecessário, recorde-se que Unamuno foi tudo menos um simpatizante franquista, como demonstra o célebre episódio no Paraninfo da Universidade de Salamanca, uma mostra notável de coragem física e intelectual que o Pedro Correia homenageou aqui no DELITO há não muito tempo. Recorde-se também que Unamuno nunca se moveu por anti-catalanismos. Louvava a sensibilidade cultural catalã – por oposição à apatia de Madrid. Dizia que era através dos catalães que se relacionava com o mundo da cultura externa, palavras escritas ao pintor Santiago Rusiñol, agora compiladas num maravilhoso epistolário que acaba de ser publicado.

 

De facto, é de “agressiva petulancia” e de politização do ódio que se faz o chamado procés. Como assinala Javier Marías num artigo em defesa dos catalães, o independentismo que assaltou o Estado de Direito assenta em mentiras e deturpações, num carácter totalitário e quase racista, um sequestro da maioria por parte de uma minoria. “Os independentistas precisam de acreditar que o seu país é tão odiado como odiado é por eles o resto da nação. Não é nem nunca foi o caso”. Se descontarmos o teatro e a radicalização, é tão-somente isto que está em causa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Agradecer aos catalães pela Restauração? E aos outros?

por João Pedro Pimenta, em 05.11.17

Uma das trivialidades que mais se tem repetido nos últimos tempos, a propósito da situação na Catalunha, é que Portugal "deve a sua independência aos catalães", em razão da revolta que por lá estalou em 1640 ter permitido que as tropas espanholas se concentrassem naquele território e se desviassem deste rectângulo mais a oeste. Conceitos de independência à parte, os defensores desta tese nem notam que estão a reduzir Portugal a um mero estatuto regional e a colocar uma nação velha de séculos ao lado de regiões que nunca foram estados, e que circunstancialmente têm um grupo grande que pretende formar um.

 

É bizarro que se considere sequer que os seguidores de Pau Claris tivessem pensado um segundo que fosse em Portugal. Mas e se a tese da gratidão que devemos aos catalães fosse correcta? Nesse caso, pecaria por defeito. É que seria mais fácil escolher quem é que não estava em guerra com a Espanha nesses anos quarenta do século XVII do que o contrário, incluindo (ou sobretudo) nos seus próprios domínios.

 

A década começou com a Guerra dos Trinta Anos contra a França, as Províncias Unidas (Holanda), um ex-domínio que procurava manter, e os adversários dos Habsburgos em geral, além de algumas batalhas navais com a Inglaterra. Os tercios espanhóis, uma máquina de guerra temível ao tempo, combatiam nos Pirinéus, na Flandres, nos Países Baixos e na Alemanha, e obtiveram alguns êxitos, como a tomada de Breda, imortalizada por Velasquez.

 

Resultado de imagem para rendicion de breda

 

Em 1640 rebentou a referida revolta catalã, ou "Guerra dos Segadores", que começou por ser uma revolta popular contra os abusos das tropas aí estacionadas, e que acabou por levar a Generalitat a proclamar a república e a aclamar posteriormente Luís XIII como soberano. A revolta e a perda de território para o inimigo levaram a que Espanha deslocasse mais tropas para a região, que seria recuperada (parte dela, já que Perpignan ficou para os franceses) apenas em 1659. É este o pretexto para se dizer que "Portugal deve a sua independência à Catalunha".

 

Mas ao contrário do que se pensa, a Catalunha não foi a única rebelião ibérica. Uma conspiração andaluza, encabeçada por Grandes de Espanha, começando no nobilíssimo Duque de Medina Sidónia  (irmão da já então Rainha de Portugal D. Luísa de Gusmão), impediu que tropas espanholas se concentrassem perto de Portugal. A conspiração acabou por ser descoberta e os seus autores punidos com o cárcere e perdas de bens e regalias, mas ficou na dúvida quais os reais motivos da conjura, havendo quem creia que se pretendia mesmo a secessão da Andaluzia, com Medina Sidónia como novo soberano de Sevilha, com o auxílio do real cunhado.

 

Mais tarde, em 1648, outro grupo de conspiradores, estes em Aragão, veriam também os seus planos desfeitos. Aqui a conjura era ainda mais ambiciosa: pretendia, com auxílio de França e Portugal, separar o velho reino de Aragão de Castela, apoiando a Catalunha, oferecendo alguns territórios aos franceses e a Galiza a Portugal. Infelizmente para os galegos, também esta maquinação não conseguiu ir avante.

 

Por essa altura já tinha rebentado a revolta contra o vice-rei de Nápoles, na época também sob a coroa dos Habsburgos, revolta essa chefiada pelo pescador guerreiro Manasiello. Num primeiro momento, as tropas no terreno sufocaram a revolta e liquidaram Manasiello, mas pouco tempo depois houve novo levantamento, que levou à proclamação da república "régia" de Nápoles, entregando o título de Doge a Henri de Guise. A situação durou menos de um ano, até que os espanhóis, comandados pelo Infante D. João José de Áustria, tomaram de novo a cidade sem grande resistência, depois de uma estratégia de paciência e de conquista gradativa. Só em fins do século XVIII Nápoles teria o seu primeiro rei nascido em sol italiano.

 

Imagem relacionada


Para se ficar com uma ideia mais ampla dos sarilhos com que Espanha se deparava na época, e se não se quiser percorrer grandes calhamaços de história,os livros de Arturo Perez Reverte, nomeadamente os da saga do Capitão Alatriste (que também existe em filme, com Viggo Mortensen a interpretar o vigoroso mercenário, e em série), onde entram figuras reais como Francisco de Quevedo e o Conde-Duque de Olivares (figura contra a qual boa parte destas revoltas se dirigiu), são um bom guia da situação

 

Ou seja, se queremos agradecer a quem, pela sua oposição, desviou as atenções e os recursos da temível força terrestre espanhola, devemos fazê-lo não apenas aos "nossos irmãos" catalães, mas também aos "nossos irmãos" franceses, holandeses, flamengos, napolitanos, e também a alguns andaluzes e aragoneses. E os que formarem movimentos secessionistas terão todos a nossa solidariedade. A gratidão é uma virtude muito bela e não devemos excluir ninguém.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A verdadeira defesa do Estado de Direito.

por Luís Menezes Leitão, em 05.11.17

Enquanto que tanta gente, na Europa e até em Portugal, olha para o lado perante a brutal prisão dos independentistas catalães, em Espanha a associação Jueces per la Democracia, constituída em 1983 para criar uma verdadeira justiça democrática na Espanha saída do franquismo, critica a decisão da juíza Carmen Lamela e avisa que a mera aplicação das leis não vai resolver o problema na Catalunha, apelando a uma solução política da questão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 04.11.17

«El señor Iglesias confunde a España con Venezuela, pero dice de nuestro país lo que nunca dijo del régimen de Maduro: «Me avergüenza que en mi país se encarcele a opositores». Dan ganas de preguntarle: ¿hay alguien que haga más oposición que usted, señor Iglesias, alguien que cada día se dedique más a destruir al Gobierno, al régimen y al jefe del Estado? ¿Y algún fiscal se ha querellado contra usted? ¿Alguien le ha pedido siquiera que deje de acosar o insultar?»

 

Fernando Ónega, Cuando Iglesias confunde a España con Venezuela, em La Voz de Galicia

Autoria e outros dados (tags, etc)

A ordem das palavras importa

por Diogo Noivo, em 03.11.17

Puigdemont.jpg

 

É certo e sabido que a Constituição de Espanha goza de um respaldo popular invulgar. Foi elaborada por uma Assembleia Constituinte eleita, que a aprovou, e depois submetida a um referendo onde colheu o voto favorável da esmagadora maioria dos espanhóis. Isto passou-se em 1978, data nada longínqua.

Na Catalunha, a Constituição mereceu a confiança de 90,46% da população. A dimensão deste voto favorável explica-se – pelo menos em parte – com as opções políticas do legislador. Saída de um regime autoritário e centralista, brutalmente repressor de qualquer expressão de nacionalismo regional, Espanha colocou no centro do seu processo de democratização a política de autonomias. Tendo em conta o contexto político da época, foi uma opção extraordinariamente corajosa.

 

O texto constitucional é de tal forma aberto que não são poucos os constitucionalistas a considerar que o articulado tanto permite um Estado descentralizado em autonomias como um Estado Federal. Essa abertura acabou por criar um sistema de governos autónomos com profundos desequilíbrios, onde algumas regiões detêm mais competências do que outras. A Catalunha é de longe das mais beneficiadas, não só porque soube ao longo do tempo usar a abertura constitucional a seu favor, mas sobretudo porque, ao contrário de outras regiões, a Constituição de 1978 a discrimina positivamente. Embora no artigo 2º “reconheça e garanta o direito à autonomia das nacionalidades e regiões”, as disposições transitórias da Constituição falavam explicitamente no reconhecimento dos “direitos históricos dos territórios forais”, algo que apenas diz respeito à Catalunha, ao País Basco e à Galiza. Ou seja, é criado um desequilíbrio de direitos entre autonomias no qual as três comunidades agora referidas saem em clara vantagem em relação às demais. Esta vantagem foi acentuada em Julho de 1981, quando Leopoldo Calvo-Sotelo, Presidente de Governo, e Felipe González, líder da oposição, criam uma divisão entre comunidades “históricas” e comunidades de regime comum no primeiro Pacto Autonómico de Espanha.

Desde então foi sempre a somar com a Catalunha na dianteira do pelotão. Assumiu todas as competências que a Constituição prevê para as comunidades autónomas, como ainda conseguiu responsabilidades em sectores onde está em clara concorrência com o Estado: da bandeira ao idioma, da saúde à educação, da segurança às finanças, pouco falta para a independência.

 

Assim, o que está actualmente em curso na Catalunha não é a resistência à opressão centralista de Madrid. Está sim em causa uma grotesca violação de um Estado de Direito Democrático que reconhece um elevado grau de autonomia às comunidades que o compõem, em particular à Catalunha. Aqui chegados, há quem empregue o argumento habilidoso de que se trata de uma questão política e não jurídica, esquecendo convenientemente que a política democrática se distingue das restantes pelo respeito a uma lei que assegura direitos, liberdades e garantias, além da obrigatória separação de poderes.

Ao contrário do que Puigdemont disse ontem, os membros da Generalitat não estão presos por causa dos seus ideais, mas sim como consequência dos seus actos. Os independentistas catalães e quem os apoia padecem do mesmo mal que assombra José Sócrates: não percebem a diferença entre um preso político e um político preso. A ordem das palavras é importante.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Carles Puigdemont, ex-presidente do executivo autónomo catalão, exigiu num hotel de Bruxelas a "libertação dos presos políticos" em Espanha, considerando que a detenção dos seus antigos companheiros de governo em Barcelona, por decisão de uma juíza de instrução em Madrid, "revela um clima de repressão e prisões políticas sem precedentes e inaceitável na Europa democrática do século XXI".

Puigdemont está enganado quanto aos precedentes. Em anos recentes, em Portugal, também houve pelo menos três personalidades vítimas da "repressão" e de "prisões políticas inaceitáveis". Nenhum de nós se esquece delas.

 

858149[1].jpg

Isaltino Morais

 

img_797x448$2016_04_01_18_20_40_161161[1].jpg

 Duarte Lima

 

vip-pt-15745-noticia-jose-socrates-visivelmente-ma

 José Sócrates

Autoria e outros dados (tags, etc)

À atenção dos apoiantes portugueses do governo de Madrid.

por Luís Menezes Leitão, em 02.11.17

Já começa a haver gente em Espanha que, embalada pela aplicação do art. 155, anda a propor a anexação de Portugal. Nada de novo. O outro galego também tinha um plano para o fazer. Por isso é que eu sempre achei que a independência da Catalunha só favoreceria Portugal, libertando-nos de vez do complexo espanholista de unificação da península ibérica.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resumo perfeito do estado da arte na Catalunha

por Diogo Noivo, em 31.10.17

"El artículo 155 tenía funciones disuasivas, como la bomba nuclear. Con su carácter coercitivo, servía para convencer a las comunidades autónomas sobre la necesidad de cumplir la Constitución en su territorio. Su indefinición permitió pensar que podía convertirse en una absorción de una administración por otra y en una anulación de la autonomía. Es lo que hubiera sucedido en caso de que se hubiera aplicado en la versión de seis meses solicitada inicialmente al Senado. (...)

 

No ha hecho falta nada de todo esto. Ni un sola competencia ha sufrido. Al contrario, el artículo 155 ha servido para defender el autogobierno catalán; y el instrumento utilizado para conseguirlo ha sido la disolución del parlamento, el más democrático que pueda haber. Nadie podrá alegar dentro y fuera de España que no se busca el consenso de los gobernados, expresado de la forma más democrática que existe, que es el de las elecciones multipartidistas propias de los sistemas liberales de democracia representativa."

 

Lluís Bassets, "No era una bomba nuclear, sino un misil certero", El País (31.10.2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Portugal, Espanha e a Catalunha

por Pedro Correia, em 31.10.17

17605991_02ubp[1].jpg

 

 

1

Declarações unilaterais de independência, no quadro da União Europeia, são totalmente inaceitáveis. A democracia, que assenta em grandes pactos políticos e sociais, é indissociável do império da lei.

 

2

Não houve nenhum pacto tão alargado na secular história de Espanha como a Constituição de 1978, elaborada por todas as forças políticas e sufragada nesse mesmo ano em referendo (algo que não sucedeu com a nossa Constituição de 1976).

 

3

O maior acto de lesa-democracia, neste abortado processo de independência unilateral da putativa República Catalã, ocorreu precisamente com o incumprimento da Constituição. Ao violarem a lei fundamental – discutível, como todas as leis, mas é a que vigora – os nacionalistas catalães revelaram uma insensatez nada correspondente à dos escoceses, que foram a votos em Setembro de 2014 num referendo previamente articulado com Londres, cumprindo escrupulosamente os mecanismos legais do Reino Unido.

 

4

Os referendos só funcionam em sentido único: pode haver sucessivas consultas pré-independência mas não há nenhuma que torne a independência um facto reversível. Até por este motivo a Europa - cada vez mais interdependente - não deve brincar às independências, dando lastro aos nacionalismos. Sempre redutores, sempre identitários, sempre com traços xenófobos.

 

5

Tendo o nacionalismo populista agido contra a Constituição na Catalunha, alguns separatistas ainda esperavam que os partidos constitucionalistas apoiassem esta deriva anticonstitucional. O que demonstra até que ponto estão desligados da realidade.

 

6

A Catalunha será sempre o que os catalães decidirem. Mas não uma minoria de catalães a decidir por todos. Nem só os catalães "bacteriologicamente puros", que aliás são minoria na Catalunha. As famílias catalãs e castelhanas ou andaluzas, ou valencianas ou aragonesas, estão misturadas há séculos. E ainda bem.

 

7

A estabilidade em Espanha é do estrito interesse de Portugal. Trata-se da nossa única fronteira terrestre actual. É a quarta maior economia da zona euro e de longe o nosso maior parceiro económico. Uma tempestade em Espanha, seja de que natureza for, produz efeitos desastrosos em Portugal. Nada nos interessa uma Península atomizada e balcanizada, cheia de mini-estados regionais, insolventes, pseudo-independentes e ultranacionalistas, transformada num caldeirão permanente de conflitos.

 

8

Ao nível peninsular, temos toda a conveniência em manter um parceiro forte, estável e prestigiado. A última coisa que nos interessaria seria qualquer envolvimento nas guerras de Alecrim e Manjerona das autonomias espanholas. É do nosso estrito interesse estratégico circunscrever o diálogo com Espanha ao plano das relações entre as chancelarias de Lisboa e Madrid. Descer o patamar dessa relação, elegendo outros interlocutores, seria rebaixar-nos enquanto Estado. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Contra o "racismo identitário"

por Pedro Correia, em 30.10.17

 

O mais obsceno, na fuga para o abismo protagonizada pelos separatistas espanhófobos que lançaram a Catalunha no caos, é a sua persistente tentativa de instrumentalizarem a língua – património de todos os catalães, sem discriminações – para efeitos de propaganda política. Falar catalão passou a equivaler a senha independentista, na óptica dos promotores da ruptura com o Estado espanhol, que sempre se comportaram como donos do idioma.

Acontece que as línguas não têm proprietários: são sempre elos de ligação, nunca muralhas que se levantam entre habitantes do mesmo território. O catalão é a língua materna de milhões de catalães que, sem abdicarem um milímetro da sua identidade cultural, se sentem irmanados aos restantes povos de Espanha e rejeitam em absoluto o aventureirismo irresponsável daqueles que fazem do ódio a Madrid a única bandeira do seu ideário político.

 

Ainda ontem isso ficou bem evidente, na  megamanifestação que congregou centenas de milhares de pessoas no centro de Barcelona em defesa da Constituição espanhola e do respeito pelas decisões do poder judicial. Intervieram vários oradores: todos se exprimiram em catalão. Deixando claro que têm tanto direito ao idioma como os separatistas e recusam ser tratados como cidadãos de segunda na própria terra que habitam só porque são partidários de uma Catalunha espanhola. Não são independentistas nem nacionalistas. E não têm que pedir desculpa a ninguém por isso.

“Somos mestiços de pura cepa”, declarou com orgulho o filósofo Félix Ovejero, um dos mais respeitados intelectuais catalães, resumindo nesta frase tão feliz o que é a essência da Catalunha, unida há cinco séculos às restantes parcelas de Espanha. Enquanto o ex-secretário-geral do Partido Comunista espanhol, Francisco Frutos, subiu ao palanque para se insurgir com vigor contra o "racismo identitário" e o "dogmatismo sectário" dos separatistas.

 

A Catalunha mais genuína é mesmo esta: a que se assume como "mestiça" e recusa o "racismo identitário". A Catalunha cosmopolita, ponto de convergência de povos e culturas tão bem cantada por Joan Manuel Serrat nesta sua bela canção que é Mediterrâneo. Perseguido pelo franquismo só porque ousava cantar em catalão, Serrat é agora insultado nas tribunas secessionistas por se declarar opositor da independência. Os netos da burguesia catalã que enriqueceu durante a ditadura atrevem-se a chamar-lhe "traidor" e "nazi".

Chegámos a esta encruzilhada na capital mediterrânica da Península Ibérica, cidade aberta que alguns sonham ver rodeada de muros: quem não for independentista não pode ser considerado catalão. Isto demonstra até que ponto o vírus do nacionalismo, que pegou fogo várias vezes à Europa, tem corroído a Catalunha. Felizmente vai ser derrotado na jornada eleitoral de 21 de Dezembro, estou certo disso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Micro-imperialismo espanhofóbico

por Pedro Correia, em 28.10.17

image_content_7330443_20171019093609[1].jpg

 

Reparem neste mapa da pretensa República Catalã posto a circular em panfletos de um movimento espanhofóbico: engloba não apenas a Catalunha mas toda a Comunidade Valenciana e o arquipélago das Baleares.

Como já escrevi aqui muito antes de surgirem legiões de tudólogos a palrar sobre o tema nas pantalhas, como se percebessem alguma coisa do assunto, para os nacionalistas mais fanáticos - que têm comandado a deriva separatista em Barcelona, cada vez mais desligados da realidade - as fronteiras do "país catalão" ultrapassam largamente as da actual região autónoma. Estes micro-imperialistas, no seu delírio, sonham com uma "grande Catalunha livre", que integre o arquipélago das Baleares, parte do País Valenciano, uma parcela oriental do território aragonês, Andorra, a Alta Sardenha e o departamento francês dos Pirenéus Orientais, onde se integra  o Rossilhão. Tudo em nome de pretensos direitos históricos, mais que contestáveis.

Para azar destes aprendizes de feiticeiro e da sua cartilha incendiária, é muito mais fácil desenhar mapas do que forjar independências, com ou sem aspas. Como a comunidade internacional lhes tem demonstrado por estes dias.

 

 

ADENDA: Separatistas, ma non troppo: os 17 deputados e 16 senadores dos dois partidos catalães pró-independência vão manter os assentos nos dois órgãos legislativos em Madrid, onde recebem, em média, 4.685 euros mensais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma nota de humorismo.

por Luís Menezes Leitão, em 28.10.17

Como de lá fora se olha para a balcanização da Espanha.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sobre a aprendizagem

por Diogo Noivo, em 28.10.17

IMG_5774.JPG

 

No discurso que se seguiu ao Conselho de Ministros de ontem, Rajoy fez tudo bem:
- anunciou uma aplicação limitada do artigo 155 da Constituição, normativa que permitia ao Governo ir muito mais longe;
- referiu que a aplicação deste artigo acontece com o apoio convicto dos principais partidos nacionais, PSOE e Ciudadanos, não sendo portanto um acto de prepotência cega do Governo;
- Ao mesmo tempo que destitui os principais órgãos políticos da Catalunha, anuncia eleições autonómicas para breve (21 de Dezembro), desmontando o argumento pateta segundo o qual os Catalães estão a ser vítimas de um neo-franquismo que pretende ocupar sine die o poder naquela região autónoma.

 

Depois do auto-denominado referendo, Governo, PSOE e Ciudadanos ofereceram às autoridades políticas catalãs espaço para negociar e uma revisão constitucional. O Govern catalão recusou a oferta e acentuou a chantagem, um percurso autoritário que teve o seu ponto alto ontem com a declaração unilateral de independência.
O espaço para o diálogo fechou-se por acção deliberada do Govern da Catalunha. Rajoy e o seu Executivo respondem com uma frente unida de democratas, mandatados pela imensa maioria da sociedade espanhola, através de uma acção firme, mas muito serena e proporcional. Rajoy parece ter aprendido com os erros do passado. Já o independentismo catalão continua alegre e irresponsavelmente por uma vereda perigosa e inconsequente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mau presságio

por Diogo Noivo, em 27.10.17

Ao serem incapazes de desenvolver um processo independentista no campo político, os independentistas catalães - e, em particular, Puigdemont e Junqueras - decidiram não assumir as suas responsabilidades. Optaram por mais uma fuga para a frente, ou, nas palavras do Secretário-Geral do PSOE, por uma "fuga para o vazio".  Pegaram na política e atiraram-na para as ruas. A festa independentista de hoje é a festa do Titanic.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Voltar ao passado na Catalunha

por Pedro Correia, em 27.10.17

15091117592261[1].jpg

 

Diga o semiparlamento autonómico de Barcelona o que quiser, numa triste sessão com quase metade dos lugares vazios, não há maioria sociológica pró-independentismo na Catalunha.

Todas as sondagens confirmam isto, todas as eleições têm confirmado isto.

 

Não existe sequer um "povo catalão", como os separatistas reivindicam. Pelo menos metade dos habitantes da Catalunha actual descendem directamente de espanhóis de outras proveniências - como é o caso da deputada da CUP Anna Gabriel, com pai nascido em Huelva e avós maternos oriundos de Múrcia.

Basta ver os apelidos de origem castelhana - começando pelo omnipresente García - que excedem os apelidos catalães. São os charnegos, como lhes chamam depreciativamente os autóctones que se imaginam bacteriologicamente puros.

 

Digam o que disserem, esta mescla tem enriquecido a Catalunha, não a empobrece. O ideal, ao contrário do que alguns afirmam, é a congregação, não a separação. Por isso costumo dizer que a União Europeia foi a única utopia realizável do nosso tempo - uma utopia que não produziu feridos nem mortos.

Bandeiras nacionalistas, fronteiras, alfândegas, guardas fronteiriços, passaportes - tudo isto pertence ao passado, felizmente, na Europa comunitária. Reivindicar tais velharias em nome dos valores da "esquerda", que sempre foi internacionalista e agora procura colar-se à direita mais rançosa e populista, é ainda mais absurdo.

 

Leitura complementar:

Um "estado falhado"? De Jorge Almeida Fernandes, no Público 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Catalunha em editoriais

por Pedro Correia, em 27.10.17

 

Excertos dos editoriais de hoje da imprensa de Madrid e Barcelona:

 

La Vanguardia: "Um país à deriva"

«Carles Puigdemont, presidente da Generalitat [executivo autónomo catalão], mantém a Catalunha montada num vagão de montanha russa. Não é uma montanha russa usual, com rota e velocidade pré-fixadas: é imprevisível e parece evoluir sem um timoneiro fiável. Já não sabemos quem comanda este vagão, submetendo todos os catalães nele embarcados à mais estonteante incerteza. (...) A declaração “El món ens mira” [O mundo observa-nos], que o soberanismo tem repetido tantas vezes com orgulho, deve causar-lhe agora alguma inquietação. Porque o grotesco espectáculo proporcionado nos últimos dias pelos soberanistas a esse mundo que nos observa é daqueles que hão-de recordar-se. Sem admiração.»

 

El País: "Caos e confusão"

«Noutra grotesca jornada que demonstra até que ponto o soberanismo bateu no fundo, Puigdemont submeteu ontem a cidadania a um novo exercício de malabarismo político. Convocados os meios de comunicação para três horários diferentes, com mensagens contraditórias sobre o conteúdo do que iria ser anunciado à opinião pública, Puigdemont optou uma vez mais por inundar-nos de retórica vazia, meias verdades e manifestas falsidades. (...) É radicalmente falso, como ele assinalava, que tenham sido esgotadas todas as vias de diálogo: a sua falta de comparência no Senado, que devia ter acontecido no preciso instante em que pronunciava o discurso [em Barcelona], é a prova mais recente de que o diálogo - tal como o entende o dirigente catalão - apenas se centra no modo de forçar o Estado a aceitar a independência da Catalunha, a bem ou a mal.»

 

El Mundo: "Puigdemont leva a Catalunha ao desastre"

«Após uma manhã mais própria de um farsante sem graça do que de um político responsável, Puigdemont teve de reconhecer já de tarde que vive os seus últimos dias como presidente da Generalitat. Depois de se exibir como paladino do diálogo, da prudência e dos pactos, algo em que ninguém já acredita, nem em Espanha nem em nenhuma chancelaria europeia, decidiu diluir a sua responsabilidade no Parlamento [catalão] para que seja este, numa votação que provavelmente se forçará hoje, a declarar a independência da Catalunha. Com esta votação, Puigdemont pretende demonstrar que existem duas legalidades paralelas: a das Cortes espanholas e a da câmara autonómica. Nada mais longe da realidade. A legalidade e a legitimidade residem apenas nas instituições do Estado que se mantêm fiéis à Constituição.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Están pasando más cosas increíbles de las que un cerebro normal puede procesar. Lo asombroso del procés no es que los ricos hayan organizado tomas de palacios para ampliar salones solo por sentirse bolcheviques durante un mes -octubre, naturalmente- sino la inmensa cantidad de gente que cree que no tendrá factura cruzar el río subida al escorpión. (...)

Nadie ha definido mejor el papel que la burguesía catalana se ha reservado en el procés: darse un capricho. Para poco menos que hacer caer el capitalismo. Una caída que, si alguna vez se llegase a producir, pagarían los mismos que llevan pagando las fiestas toda la vida, como se ha comprobado recientemente en España. Porque solo hay una cosa clara. Cuando esto termine -sea con victoria o derrota, signifique eso ya lo que quiera que signifique-, y lleguen las consecuencias del destrozo, unos se quedarán pagando la factura y otros se irán corriendo a refugiarse en su desconsideración y su fortuna."

 

Manuel Jabois, "Regálate un capricho", El País (20.10.2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Do aproveitamento político

por Pedro Correia, em 17.10.17

galiza86324161_base[1].jpg

 Imagem da manifestação de ontem em Ourense: fogos mataram quatro pessoas na Galiza

 

Milhares de pessoas manifestaram-se ontem em várias cidades da Galiza reclamando a demissão da junta governativa na sequência dos dramáticos incêndios que provocaram a morte de quatro pessoas naquela região autónoma de Espanha. Na maior manifestação, em Santiago de Compostela, participaram representantes de todos os partidos políticos da oposição. Entre as palavras de ordem, gritou-se: "Um governo que improvisa é um terrorista."

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cria cuervos *

por Pedro Correia, em 14.10.17

 

O separatismo catalão está a ser uma fábrica de nacionalistas espanhóis.

 

* Do antigo adágio castelhano: "Cría cuervos y te sacarán los ojos".

Autoria e outros dados (tags, etc)

É bom, não foi?

por Diogo Noivo, em 11.10.17

Detalhe delicioso na capa do El Mundo

Screen Shot 2017-10-11 at 10.29.22.png

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Balanço do dia na Catalunha

por Pedro Correia, em 10.10.17

 

Começou com uma promessa de ejaculação precoce, terminou com um coito interrompido.

Houve quem cronometrasse: a "independência" catalã durou oito segundos.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Freud em Barcelona

por Diogo Noivo, em 10.10.17

"Hasta ahora, el independentismo se había regido por el primer principio freudiano del funcionamiento mental: el principio del placer. (...)

Instalados en la excitación, los independentistas eran indiferentes a las condiciones impuestas por el mundo exterior. Pero el escenario ha cambiado en pocos días. De repente, la realidad ha hecho acto de presencia.(...)

Como consecuencia, muchos independentistas están asumiendo el segundo principio de Freud: el principio de realidad. Toca ajustar la búsqueda del placer al contexto en el que nos movemos."

 

Víctor Lapuente Giné, "Freud en Barcelona", El País (10.10.2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Despertar o monstro

por Pedro Correia, em 09.10.17

03-francisco-de-goya-y-lucientes-the-sleep-of-reas

 O Sono da Razão Gera Monstros (Goya, 1799)

 

Os imbecis separatistas catalães encabeçados por Carles Puigdemont e Carme Forcadell, espumando um histérico ódio visceral a Espanha com o aplauso cúmplice de alguns intelectuais portugueses, ameaçam despertar um monstro adormecido - o nacionalismo espanhol.

Chamo-lhes imbecis por sonharem ver Barcelona como capital de um segundo Kosovo, imaginando no seu delírio que o poder político em Madrid se prestará a imitar a Sérvia ajoelhada em 2008. E por parecerem incapazes de perceber as lições da História: a anterior insurreição catalã, em Outubro de 1934, funcionou como antecipado dobre a finados da II República Espanhola e prelúdio da guerra civil iniciada apenas 21 meses depois.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que disse Mario Vargas Llosa

por Pedro Correia, em 09.10.17

1176947_1[1].jpg

 Escritor hispano-peruano, Nobel da Literatura 2010, hoje em Barcelona

 

Excertos da vibrante intervenção de Mario Vargas Llosa na enorme manifestação anti-separatista que este domingo reuniu centenas de milhares de pessoas no centro de Barcelona:

 

«A paixão pode ser generosa e altruísta quando inspira a luta contra a pobreza e o desemprego. Mas a paixão também pode ser destruidora e feroz quando é movida pelo fanatismo e pelo racismo. A pior de todas, a que mais estragos causou na História, é a paixão nacionalista.»

(...)

«Estamos armados de ideias, de argumentos e da convicção profunda de que a democracia espanhola veio para ficar. E que nenhuma conspiração independentista irá destruí-la.»

(...)

«Queremos que a Catalunha volte a ser a capital cultural de Espanha, como era quando eu aqui vivi, durante uns anos que recordo com enorme nostalgia. Eram os últimos anos da ditadura franquista, então já muito desgastada. Nenhuma cidade espanhola aproveitou tanto como Barcelona esses resquícios de liberdade para se abrir ao mundo e trazer do mundo as melhores ideias, os melhores livros, todas as grandes conquistas da vanguarda.»

(...)

«Desde há 40 anos, para além das memórias de um passado grandioso e por vezes trágico, Espanha é também uma terra de liberdade, uma terra de legalidade. O independentismo não conseguirá destruir isto.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fuet catalão

por Diogo Noivo, em 05.10.17

"El expresidente del Gobierno Felipe González (el político español que más tuvo que negociar en sus 13 años de mandatos consecutivos) suele contar lo que le sucedía con los sindicatos. La táctica sindical era sentarse a negociar poniendo encima de la mesa la situación, como si fuera una barra de salchichón. Antes de empezar, cortaban el salchichón por la mitad, se guardaban su parte y proponían negociar sobre la mitad del Gobierno. Así, en sucesivas conversaciones, los representantes sindicales se iban quedando con casi todo el embutido y el Gobierno con dos o tres lonchas escasas.

 

Esa parece que es la táctica de los independentistas menos radicales (que son minoría clara). El mensaje que están lanzando a Mariano Rajoy, a través de Soraya Sáenz de Santamaría, es: convencemos a Puigdemont para que no declare la independencia de Cataluña a cambio de sentarnos a negociar sobre la base de lo conseguido hasta ahora; es decir, sobre la parte del salchichón del Estado. Así no se llega a ninguna parte."

 

Javier Ayuso, "Negociar desde la legalidad", El País (5.10.2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Catalunha: Estado de Coisas

por Diogo Noivo, em 04.10.17

No passado domingo, Espanha pode ter perdido a Catalunha. O veredicto não tardará em chegar e, em boa medida, depende do que PP, PSOE e Ciudadanos sejam capazes de fazer juntos – aqui, “juntos” é a palavra determinante. Porém, há algo que já é certo sobre o passado domingo: na Catalunha, o Estado de Direito entrou em extinção.

 

O alegado referendo nasceu de uma chapelada ao estilo chavista no Parlamento catalão e cresceu pejado de ilegalidades. Como um mal nunca vem só, à falta de cobertura jurídica e de legitimidade democrática juntou-se a completa falta de rigor. Como demonstrado pelo canal de televisão La Sexta e pelo movimento Sociedad Civil Catalana, era possível à mesma pessoa votar várias vezes. Igualmente interessante, o teste realizado pelo jornal El Mundo mostrou que até os não catalães puderam colocar votos nas urnas. Em resumo, o nacionalismo catalão votou várias vezes e, pelo contrário, aqueles que se opõem à independência abstiveram-se para não validar algo que foi ilegítimo. Portanto, os resultados do referendo não valem o papel onde foram impressos os boletins de voto. O pouco que sobrava do primado da lei tem vindo a ser dinamitado pelo nacionalismo desde segunda-feira por gestos de um autoritarismo repugnante, como, por exemplo, a separação de crianças em escolas com base na opinião que umas e outras têm sobre a actuação da polícia.

 

O referendo foi uma burla sem paliativos e um atentado grave ao Estado de Direito Democrático. Mas reacção do Estado espanhol não foi melhor. Cometeu um erro político clamoroso: o de não compreender que neste nosso mundo de indignações fáceis, instantâneas e acríticas, a imagem de um mártir vale mais do que a razão mais sólida e fundamentada. Sabemos hoje que muitas das imagens de abuso policial são falsas. Poder-se-ia falar de “pós-verdade” se os autores da fraude fossem correligionários de Trump. Seja como for, a acção contundente da polícia, ainda que feita ao abrigo da lei, contribuiu para radicalizar ainda mais o ambiente político. Sobretudo, contribuiu para que o Governo espanhol tenha perdido a batalha mediática no estrangeiro.

 

Ontem, a intervenção de Felipe VI não surpreendeu. Quem compreenda o processo de transição democrática em Espanha, nomeadamente a elaboração e aprovação da Constituição e o sucedido no dia 23 de Fevereiro de 1981 perceberá que o texto constitucional é a fonte de legitimidade política (mais do que jurídica) da Monarquia. Este ou qualquer outro monarca espanhol não se afastará um milímetro do que é definido pela Constituição. Dado o estado actual de coisas, não é um mau princípio.

 

A radicalização em torno da Catalunha é de tal ordem que qualquer cedência será vista como uma capitulação. A margem de manobra é reduzida. Só uma acção conjunta dos principais partidos constitucionalistas, que são os que mais votos têm em Espanha, poderá trazer o rio de volta ao seu leito.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tem a palavra o Rei

por João Pedro Pimenta, em 03.10.17

Na Catalunha assistimos a acontecimentos contraditórios e caóticos: o governo nacional a reagir à paulada, com cargas policiais desproporcionadas e excessivas que não auguram nada de bom; o governo regional a fazer um plebiscito violando a constituição, o estatuto autonómico e as próprias regras da assembleia regional; o dito plebiscito feito em urnas transparentes, com boletins trazidos de casa e eleitores a votar mais do que uma vez; protestos contra Piqué no treino da selecção espanhola, minando ainda mais o ambiente; e o presidente da Generalitat a anunciar uma futura "declaração unilateral de independência" quando a maioria dos eleitores recenseados nem votou (e os que votaram fizeram-no sabe-se lá em que condições), e nem sequer houve observadores internacionais, como se exige nestes casos. No fundo, mais uma vez chocaram o autoritarismo castelhano e o anarquismo catalão; noutras ocasiões em que tal aconteceu, mesmo quando conseguiram resolver o diferendo, houve sangue pelo meio.


Perante isto, e com a cegueira de parte a parte, impõe-se a intervenção do órgão mais livre e mais respeitável de Espanha: a Coroa. Felipe VI tem o dever de falar e de actuar como o obriga a Constituição. Tal como o seu Pai, que em 1981 usou as suas prerrogativas de soberano para acabar com um golpe de estado militar e consolidar a democracia.
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Paixão e sangue

por Alexandre Guerra, em 02.10.17

Este texto não pretende identificar os culpados por aquilo que se tem passado em Espanha, mas propõe-se a fazer uma leitura mais fria e racional, porventura, mais cínica e politicamente incorrecta dos acontecimentos em questão. Governo central, de um lado, e Generalitat, do outro, terão, eventualmente, razões várias para justificar os seus actos, o que não quer dizer que sejam legítimas ou até mesmo aceitáveis para um observador externo. Mas o que interessa mesmo é analisar a forma como os seus intervenientes olham para os argumentos apresentados por cada um dos campos em confronto. E, sobretudo, perceber-se até que ponto as ideias em confronto são de tal maneira mobilizadoras para que o povo saia à rua em “armas”, disposto a dar a vida pela independência. A secessão de uma região é nada mais menos do que uma questão de sobrevivência de um Estado, é um assunto literalmente de vida ou de morte. Fazer uma ruptura secessionista pacífica dentro de um Estado de Direito com um quadro institucional instituído é algo, por definição, contraditório. É um contrassenso, porque nenhum Governo aceita perder parte do seu território a não ser que tal solução lhe seja imposta pela persuasão da força. Tem sido assim ao longo da História. A “via negocial” é um eufemismo para aquilo que costuma ser a resignação forçada por parte de um Governo que, em determinada altura da sua história, seja obrigado a abdicar de parte do seu território.

 

O referendo da Catalunha foi uma farsa, não tanto pelo processo em si (totalmente descredibilizado), mas como elemento catalisador de uma independência que, a acontecer, deixaria a Espanha prostrada. Um movimento destes, que infligiria um rude golpe na existência daquele Estado, dificilmente aconteceria sem paixão e sangue. O que aconteceu no Domingo foi mais um espectáculo mediático, numa sociedade ocidental já pouco habituada a fracturas sangrentas no seu seio no que a nacionalismos diz respeito. Falou-se do excesso de violência no dia do referendo, com aquelas imagens sentimentais que hoje em dia facilmente se propagam pelas redes sociais, do polícia a ser abraçado pelo cidadão ou da manifestante a oferecer uma flor a um agente da autoridade. Pelo meio, mostram-se umas cabeças partidas ou uns arranhões e está feita a encenação para as manchetes dos jornais. Pois a leitura que se deve fazer é precisamente a contrária, ou seja, para o caldeirão que estava a ser criado, e tendo em conta o histórico de sangue da história espanhola, a violência foi praticamente inexistente (e ainda bem). A maior parte dos oitocentos feridos ou são ligeiros ou são ataques de ansiedade.

 

A independência de uma região é coisa séria, não vai lá com likes no Facebook, tweets ou “manifs” de jovens urbanos e elites intelectuais que abraçam uma causa que nem eles próprios compreendem o seu alcance. E não vai lá com líderes que não percebem que nem todo o povo está com eles nos intentos secessionistas. Avançar com uma “brincadeira” destas é de uma irresponsabilidade quase criminosa, porque acaba por criar clivagens dentro da própria sociedade, neste caso a catalã. A independência de uma região deve ser sempre um acto civilizacional, de progresso, de crença positivista nos direitos humanos e nunca um processo de burocracias políticas e judiciais ao serviço do capricho de alguns. A independência é o fim último, almejado para que um povo alcance um estádio de libertação com vista ao bem comum. E tal só pode acontecer com muito sacrifício, crença, empenho total e, muito importante, com a inspiração dos seus líderes. Alguém acredita que o senhor Carles Puigdemont estaria disposto a dar a vida pela independência da Catalunha? Poderá ser exagerada esta questão, mas a verdade é que no passado já tantos outros deram as suas vidas para ver os seus territórios independentes (e não se está a falar de um passado assim tão distante, mesmo na Europa). A História tem demonstrado que uma independência só se consegue com paixão e sangue. E isso os catalães demonstraram no Domingo que não estão dispostos a dar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Doutrina presidencial

por Pedro Correia, em 01.10.17

«A Catalunha é uma questão interna do Estado espanhol, que deve ser resolvida de acordo com a lei e a Constituição espanholas.»

Marcelo Rebelo de Sousa, hoje, em Celorico de Basto

Autoria e outros dados (tags, etc)

Trump é catalão?

por Diogo Noivo, em 01.10.17

Segundo o jornal El País, as redes sociais pro-russas aumentaram 2.000% a sua actividade a favor do "referendo" na Catalunha. A The Atlantic explica porquê: "(...) the Russian interest seems, as usual, less about ideology and more about creating chaos, not only for Spain, but within the European Union."

Faltou referir que, à semelhança de regimes e organizações que tradicionalmente contam com apoio russo, também o nacionalismo catalão colocou crianças e idosos em locais de voto com o intuito de usá-los como dissuasor da invervenção policial. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ler (sobre a Catalunha)

por Pedro Correia, em 30.09.17

 

El Diario: declaração unilateral de independência divide Governo de Barcelona. 

 

El Mundo: anti-separatistas saíram enfim à rua: "Todos somos Espanha!"

 

El Confidencial: o inventor do slogan "Espanha rouba-nos" está desencantado.

 

El País: Vale de Arán quer ser independente de uma Catalunha independente.

 

El Periódico: 50 personalidades espanholas pronunciam-se sobre a questão catalã.

 

El Español: urnas eleitorais made in China invadem Catalunha a cinco euros cada.

 

ABC: como o ex-presidente espanhol Manuel Azaña viveu a crise catalã nos anos 30.

 

El Mundo: o dia em que a Catalunha se separou de Espanha.

 

La Vanguardia: Joan Manuel Serrat reage aos que agora lhe chamam "fascista".

 

Raúl del Pozo: "Vamos presenciar uma sessão arruaceira do teatro do absurdo."

 

Fernando Savater: "Um referendo em que uns se elegem a si mesmos para repartir o que é de todos."

 

Ignacio Camacho: "A vitória política do Governo face aos soberanistas tem de ser clara."

 

Félix Ovejero: "O nacionalismo devia ser combatido como o machismo ou o racismo."

 

Mario Vargas Llosa: "Todo o nacionalismo foi sempre uma catastrófica epidemia para os povos."

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Na defesa da democracia

por Diogo Noivo, em 30.09.17

A votação que poderá ocorrer amanhã na Catalunha é ilegal. Viola a Constituição de Espanha. Como já escrevi aqui, a Constituição de Espanha foi elaborada por uma assembleia constituinte (eleita), aprovada por essa assembleia, e submetida depois a um referendo onde a esmagadora maioria dos espanhóis (e dos catalães) a aprovaram. São poucas as Constituições na Europa que gozam de um respaldo popular tão alargado. Foi em 1978, o que, na História de um país, não foi assim há tanto tempo.

Mas, absurdo dos absurdos, a votação prevista para domingo viola também o Estatut, carta fundamental do autogoverno da Catalunha, elaborado nas Cortes e aprovado em referendo pelos catalães em 2006. Na defesa e na promoção da democracia, o respeito pela lei é tão importante como o voto. Afinal, é a lei, e não o voto, que consagra direitos, liberdades e garantias.

Mais, como explicado numa carta firmada por 400 docentes de Direito Internacional, o direito à autodeterminação não se aplica no caso catalão.

O dito referendo nasce de um golpe no parlamento catalão que excluiu metade daqueles que nele têm assento. Este é, de resto, o marcador genético do nacionalismo catalão dos últimos sete anos: um radicalismo que exclui o outro em detrimento da promoção da sua singularidade nacional.

Admitindo que era possível ignorar tudo isto, o alegado referendo não apresenta quaisquer garantias de transparência, de justiça e de respeito pelas liberdades políticas dos catalães. Só um anti-espanholismo ferrenho pode apoiar a burla que alguns querem realizar amanhã.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Catalunha e os "indocumentados"

por Diogo Noivo, em 25.09.17

José Soeiro, do Bloco de Esquerda, escreveu um artigo pateta sobre o processo catalão. É verdade, o assunto presta-se a debate aceso e existem argumentos solventes em ambos os lados da infeliz barricada. Porém, uma coisa é a divergência de opiniões e outra coisa completamente diferente é ser-se "indocumentado" - eufemismo simpático usado por Javier Martin, correspondente do El País em Portugal, para responder a Soeiro. O artigo do correspondente do jornal espanhol é imperdível, sobretudo porque centra o debate. Pode ser lido aqui

 

E já que falamos em centrar o debate, sobre a Constituição de Espanha e a sua legitimidade democrática, recupero o que escrevi em tempos no DELITO:

"A Constituição espanhola goza de legitimidade democrática reforçada. O texto constitucional foi elaborado e aprovado por uma Assembleia Constituinte e, posteriormente, foi submetido a referendo onde obteve a validação da esmagadora maioria dos espanhóis. É por isto que habitualmente se considera que a Constituição espanhola de 1978 tem dupla legitimidade eleitoral. Porém, a ordem político-constitucional de Espanha dispõe ainda de um terceiro argumento de força: a Lei da Reforma Política, aprovada em 1976. Com apenas cinco artigos e igualmente submetida a referendo, a Lei da Reforma Política foi o instrumento legal que desmantelou todo o edifício franquista e que, de facto, permitiu a transição da ditadura para a democracia." 

Por outras palavras, a ordem constitucional vigente em Espanha foi submetida a (e aprovada por) voto popular pelo menos 3 vezes. São poucas as democracias europeias que podem exibir tais pergaminhos. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O meu pai nasceu em 1923 e morreu já nesta década. Faz-me falta. Claro que não só por isso mas também, e muito, pelos infindáveis (e inacabados) debates, encetados na minha adolescência. Comunista ferrenho, viperino em matérias políticas (em questões pessoais era uma jóia), irónico, sarcástico. Auto-irónico: no hospital, muito enfraquecido, eu ao fundo da cama, a seu lado a neta Patricia, um dos seus grandes amores, disse-lhe "Avô, hoje estás mais rosado" (e de facto estava menos translúcido). E ele murmurou, quase inaudível: "Rosa por fora, mas vermelho por dentro". Morreu umas horas depois. Foi com este camarada Pimentel que aprendi a debater, a ficar desarmado mas não convencido. E que há áreas que não vale a pena discutir. E que só são aceitáveis naqueles que têm a tal auto-ironia, essa que é, de facto, a única forma de relativismo intelectualmente digna, pois delineando os limites da crença / dos princípios, sem dela/deles abdicar.

 

De duas das suas formulações muito me lembro. Até irado com a sua abjecção aos "dissidentes" remeti-lhe um "Se vivesses na URSS tinhas sido fuzilado" e ele, de imediato, "Com toda a certeza!". Uma outra vez, desesperei, de novo, com a sua filiação à horrível distopia. E ele, calmo, "tu esqueces-te que eu cresci durante a guerra de Espanha" (e depois na II GM, aquela do "paizinho dos povos", convém juntar). Lembrei-me disto (e dele) ao ler agora mesmo, no Facebook, um intelectual renomado, presumível tardo-sexagenário, botando "Viva a Catalunha livre do franquismo do governo de Espanha". Se o camarada Pimentel fosse vivo eu contar-lhe-ia esta tirada (entre outras) e ele, ateu anti-clerical ainda para mais, abanaria a cabeça naquele seu vagar de sarcasmo e exclamaria "Meu Deus!". E beberíamos um cálice de genebra. Ou de rum.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Catalunha: o desafio separatista

por Pedro Correia, em 22.09.17

Aqueles que do lado de cá aplaudem sem reservas a deriva separatista catalã, mescla da burguesia nacionalista com a extrema-esquerda vociferante nas ruas e nos media, apontam o dedo ao suposto "défice democrático" espanhol. Acontece que o regime constitucional que vigora em Espanha tem mais sólidos alicerces democráticos do que o nosso. A Constituição do país vizinho resultou não apenas da eleição de uma assembleia dotada de poderes constituintes a partir do sufrágio universal, tal como entre nós, mas foi também ratificada em referendo nacional, ao contrário do que sucedeu com a lei fundamental portuguesa, jamais referendada.

Na Catalunha, região que dispõe dos mais amplos poderes descentralizados de que há registo no quadro político europeu, também os seus dois Estatutos Autonómicos foram submetidos ao voto popular. O primeiro em Outubro de 1979, o segundo - versão actualizada e muito modificada do anterior - em Junho de 2006.

 

Nos últimos 40 anos os catalães foram 35 vezes às urnas. Têm os órgãos políticos que escolheram livremente, sem constrangimentos. Em eleições locais, autonómicas, nacionais e europeias, além dos três referendos já mencionados. Gozam do maior nível de autonomia em toda a sua história. Têm representantes nos órgãos estatais (Congresso, Senado) e no Parlamento Europeu.

O Executivo da Catalunha só não tem capacidade jurídica nem política para convocar pseudo-referendos, à margem da Constituição e do Estatuto que os seus membros juraram cumprir. Porque isso colide com a legalidade democrática e transgride o mandato obtido nas urnas. Como aliás ditou o mais recente acórdão do Tribunal Constitucional, que considerou ferida de nulidade a iniciativa plebiscitária de Barcelona, interdita na lei fundamental do Estado espanhol, também sufragada na Catalunha.

De resto, tal plebiscito seria sempre questionável em diversos planos. Não só por falta de fundamento constitucional mas também por ter sido convocado sem universo eleitoral definido, sem cadernos eleitorais credíveis, sem a possibilidade de uma campanha livre e justa nem condições mínimas para o exercício do contraditório. Num contexto de insulto permanente a todos os catalães que ousam pronunciar-se contra a suposta independência - como aconteceu há dias ao grande escritor Juan Marsé, apodado de "traidor"  pelas patrulhas separatistas.

 

la-consulta-catalana_1_2175056[1].jpg

  

De resto - há que dizê-lo com clareza - os independentistas não conseguem sequer mobilizar para a sua causa pelo menos 51% da opinião pública catalã. O que aliás seria manifestamente pouco. Não há semi-independências: ou há independências por inteiro, com o apoio de pelo menos três quartos da opinião pública interna, ou não há.
Em Julho, segundo o instituto oficial de sondagens da Catalunha (CIS), havia 49,4% de eleitores contrários à independência e apenas 41,1% pró-secessão. Acontece que o Governo catalão, iludido pelos estribilhos panfletários anti-Madrid, desistiu de representar a maioria dos seus cidadãos, cuja opinião jamais se reflecte nos meios oficiais de comunicação autonómicos, rendidos à propaganda nacionalista.

 

Qualquer declaração unilateral de independência colide com o princípio da legalidade democrática, plasmado na Constituição espanhola e no Estatuto da Catalunha, os dois documentos que conferem estrutura jurídica aos órgãos políticos catalães.

Não por acaso, a sentença do Tribunal Constitucional merece o respaldo de três dos principais partidos políticos espanhóis (o PP, do primeiro-ministro Mariano Rajoy, o PSOE e o Cidadãos), que somaram quase 70% dos votos nas legislativas de Junho de 2016.

Tal como o conservador Rajoy, também o socialista Pedro Sánchez e o liberal Albert Rivera recusam a fragmentação de Espanha. Um Governo nacional que aceitasse hoje o independentismo unilateral na Catalunha estaria confrontado com pressões centrífugas amanhã no País Basco, depois de amanhã nas Baleares, no mês que vem na Galiza, para o ano em Aragão e no País Valenciano, depois nas Canárias, a seguir em Navarra, talvez na Andaluzia, etc. Seria o suicídio político do Estado espanhol, potenciando uma vaga de conflitos sem fim à vista.

Seria também uma péssima notícia para a Europa, pelo precedente criado. E em particular para Portugal. Não esqueçamos que Espanha é o nosso principal parceiro comercial: para lá exportámos mais de 16,2 mil milhões de bens e serviços só em 2016. Uma Espanha mergulhada em conflitos políticos e convulsões sociais será fatalmente uma Espanha em crise económica. E há reflexos inevitáveis de um país em crise no comércio externo. A política não se alimenta apenas de evidências geográficas ou condicionalismos históricos: depende muito dos circuitos económicos, que hoje nos tornam parcelas do mesmo arquipélago. Diga a retórica soberanista o que disser.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A ler

por Diogo Noivo, em 18.08.17

 

Vamos ganando, de Jorge Galindo, na Jot Down.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O primeiro atentado

por Diogo Noivo, em 18.08.17

El Descanso.jpg

 

Era mais um dia normal de serviço no restaurante. Mas em poucos segundos tudo mudou: um engenho explosivo colocado junto ao balcão foi detonado matando 18 pessoas e destruindo uma parte importante do restaurante "El Descanso", situado no quilómetro 14 da estrada Madrid-Barcelona. Foi no dia 12 de Abril de 1985. Cerca de 16 anos antes dos atentados de 11 de Setembro, nos Estados Unidos da América, Espanha sofria o seu primeiro ataque jihadista. Esta acção terrorista foi reivindicada por uma organização intitulada Jihad Islâmica, embora os detalhes da operação - autores materiais e morais, propósito, perfil da organização, etc - ainda hoje estejam por esclarecer.
O atentado de ontem em Barcelona é mais um episódio repugnante e condenável de uma longa e tortuosa história. Em Espanha, a Catalunha é a região com maior incidência de actividade jihadista desde há bastantes anos. De resto, como refere Ignacio Cembrero no livro La España de Alá, 50 das 98 mesquitas e oratórios salafistas sinalizados pelo Ministério do Interior estão na Catalunha. Por lá passaram organizações terroristas de diferentes países, da Argélia ao Paquistão. O problema é grave, mas não é novo. Em suma, e enquanto a poeira não assenta, importa evitar análises apocalípticas e especialistas de ocasião.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um herói caído em desgraça

por Diogo Noivo, em 15.08.17

Alberto Casillas.jpg

 

Em Espanha, Alberto Casillas foi um herói para os manifestantes anti-tudo. No dia 25 de Setembro de 2012, jovens "indignados", pertencentes a movimentos anti-sistema, anti-globalização e a uma lista infindável de associações ditas cívicas, promoveram a iniciativa Rodea el Congreso ("Cerca o Parlamento", um mote que, como é bom de ver, jorra civismo por todo o lado). Houve excessos por parte dos manifestantes e a polícia espanhola não é famosa por ser meiga. Aqueles que não foram detidos procuraram refúgio. Os que entraram no bar El Prado, em Madrid, tiveram a protecção de Alberto Casillas Asenjo, um empregado de mesa que se meteu entre os manifestantes e o corpo de intervenção. Alberto disse à polícia não querer violar a lei, mas foi irredutível na defesa dos manifestantes que se encontravam dentro do bar, afirmando que não autorizaria um "massacre". As imagens do acto de bravura de Alberto tornaram-se virais. Os colectivos anti-tudo saudaram o herói e desdobraram-se em agradecimentos laudatórios nas redes sociais.

 

Passaram uns anos e Alberto Casillas voltou às notícias: em 2014, interrompeu um acto público, em Madrid, onde Pablo Iglesias, caudillo do Podemos, era o convidado principal. Iglesias, que assessorou o regime chavista e que dele conseguiu financiamento para criar o Podemos, entretinha-se a criticar a "casta", os políticos "de siempre". Alberto levantou a voz e perguntou ao líder do Podemos se não tinha vergonha de ter assessorado o regime venezuelano. "Mi esposa no puede comprar papel ni comida", disse Alberto, que tem a mulher e a filha a viverem na Venezuela. Alberto foi expulso da conferência. Ao regressar ao trabalho no bar El Prado, Alberto encontrou ameaças e insultos e, uns tempos depois, o desemprego.

Este ano, num outro acto público onde representantes do partido Izquierda Unida se deleitavam a branquear a manipulação eleitoral e o autoritarismo do regime de Nicolás Maduro, Alberto volta à carga para dizer que o rei vai nu. "Están matando a jóvenes!", gritou, incomodando a fina flor da extrema-esquerda espanhola. Acabou na rua.

 

A avaliar pelo que fez no passado e pelo que fez agora, Alberto deve ser um tipo decente. Parece ter o coração no sítio certo. No entanto, acabou proscrito por aqueles que o elevaram ao Olimpo. O crime de Alberto foi o de não entender que para a extrema-esquerda a violência policial num Estado de Direito é hedionda, mas quando perpetrada por um regime autoritário afim é uma defesa legítima da soberania nacional. Agora não o aplaudem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Breve história de um fim provisório

por Diogo Noivo, em 13.04.17

ETA.jpg

 

No passado fim-de-semana a ETA entregou as armas. Ao contrário do que sucedeu com o IRA ou com as FARC, o desarmamento da ETA foi unilateral, sem contrapartidas. Foi uma rendição. A organização terrorista chega aos dias de hoje sem ter ganho nada: nem independência, nem a junção do País Basco a Navarra, nem a transferência de presos etarras para estabelecimentos prisionais bascos, nem a internacionalização do “conflito”, nem amnistias. Nada. Chega aos dias de hoje sem apoio popular - o pouco que existiu é agora negligenciável. A única coisa que conseguiu foi deixar um rasto de terror feito à custa de mais de 800 cadáveres. 

 

O estertor do terrorismo etarra faz-se de duas datas: 10 de Janeiro e 20 de Outubro de 2011. A 10 de Janeiro de 2011 a organização terrorista ETA anuncia um cessar-fogo "permanente, geral e verificável", três palavras que nunca estiveram juntas em anteriores interrupções de hostilidades. A 20 de Outubro do mesmo ano, a ETA anuncia o "cese definitivo", o fim. Para decretar o óbito de 40 anos de terror faltava apenas que a organização entregasse as armas e, depois, anunciasse oficialmente a sua dissolução. No passado fim-de-semana cumpriu-se a primeira etapa. Aguardamos o cumprimento da segunda.

 

O estado da arte deve-se a diferentes factores que, juntos, criaram a tempestade perfeita. Em primeiro lugar, um processo negocial, o terceiro em 40 anos de terror. Já trouxe ao DELITO a história desta negociação: Negociador (Borja Cobeaga, 2014) é a adaptação cinematográfica criativa do livro onde Jesús Eguiguren, o principal negociador, conta como conversas exploratórias entre ele, do Partido Socialista Basco, e Arnaldo Otegi, uma das figuras mais conhecidas e activas da esquerda abertzale, evoluíram para rondas negociais entre o Governo, a esquerda abertzale e a ETA. Este processo, à semelhança dos anteriores, fracassou. Ainda assim, conseguiu cavar as clivagens existentes na esquerda pró-etarra e, assim, afastar a estrutura partidária da estrutura terrorista. Além do filme e do livro, o processo é agora explicado em El fin de ETA (Justin Webster, 2016), um documentário notável, muitíssimo bem feito, disponível em Portugal no Netflix. Espero trazê-lo em breve ao DELITO.

Em segundo lugar, a pressão policial e judicial. No ano 2000, a ETA contava com cerca de 1000 operacionais; seis anos depois este número desceu para aproximadamente 50. A aplicação da lei foi essencial para que a imensa maioria dos terroristas com experiência operacional e política acabassem presos. O vazio de poder na cúpula da ETA foi então preenchido por jovens impreparados, muitos vindos directamente da kale borroka (guerrilha urbana), gente com manifesta inépcia política.

A nova liderança terrorista é o terceiro factor: o seu fanatismo exacerbado impediu-a de ver a realidade e de perceber que à medida que o tempo passava a organização ficava cada vez mais isolada. A ETA continuou a matar, visando com frequência vítimas de oportunidade, os mais fracos ou mais desprotegidos, pessoas como Isaías Carrasco. Mostrou que a única forma de fazer política que conhecia era matar.

 

Tudo indica que a ETA chegou felizmente ao fim. Porém, manda o conhecimento do modus operandi da organização que esperemos pelo anúncio oficial de dissolução. Recorde-se que a 30 de Dezembro de 2006, em pleno processo negocial, a ETA detonou um carro-bomba no Terminal 4 do aeroporto de Barajas, em Madrid, matando duas pessoas e destruindo por completo um bloco de estacionamento. Recorde-se também que em Outubro desse ano a ETA roubou cerca de 300 armas e munições na véspera do dia em que o Executivo espanhol levou o Caso Basco e representantes das forças políticas separatistas ao Parlamento Europeu. O Governo esforçava-se por encontrar soluções, arriscava muito do seu capital político ao abrir a porta à internacionalização do “conflito”, mas a ETA aproveitava o momento para se rearmar. Por último, recordemos que a ETA defendeu e aplicou aquilo a que chamou de “socialização do sofrimento”, um conceito mórbido segundo o qual a violência tinha de chegar a todos: políticos, polícias, jornalistas, professores, enfim, a todos os que se opunham publicamente à utilização da violência como instrumento de acção política.

Compreende-se, assim, o cepticismo de vários sectores da sociedade espanhola. Além do mais, existe o risco de que os partidos independentistas recuperem o legado político da ETA, ainda que sem recorrer ao terror. Se tal acontecer, será praticamente impossível sarar a chaga social aberta ao longo de 40 anos de terrorismo. Também por isso é importante que a ETA assuma publicamente a sua dissolução.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quando a democracia vence o terrorismo

por Diogo Noivo, em 10.04.17

zdbmbgyxpxxlzzvlth2l.jpg

 Monumento a la Constitución, 21 de Outubro de 1983

 

O desarmamento da ETA chega tarde. 

Manda a prudência, o percurso desta organização terrorista e o sofrimento das vítimas que não lancemos foguetes. Pelo menos, para já. Tentarei escrever sobre o tema. Por ora, partilho uma magnífica fotogaleria do El País dedicada à luta cidadã. Estas imagens e o pequeno enquadramento histórico de cada uma delas é suficiente para perceber a inanidade de uma peça recente da SIC que chamou "luta armada" ao terrorismo e "grupo separatista" à ETA.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ainda tão cedo para dizer adeus

por Pedro Correia, em 09.04.17

s320x240[1].jpg

 Carme Chacón (1971-2017)

 

Há menos de uma década era uma das mais promissoras políticas de Espanha. Ministra da Defesa, primeira mulher a assumir tais funções, a sua imagem a passar revista aos soldados já grávida de sete meses deu volta ao mundo.

Bonita, inteligente, talentosa, Carme Chacón quase ascendeu à liderança do PSOE no fim do mandato de Rodríguez Zapatero, quase ascendeu ao posto máximo dos socialistas catalães, a região de onde era natural, quase teve a maioria da esquerda moderada espanhola a seus pés.

Tempos irrepetíveis: do fulgor da fama à penumbra do esquecimento foi um curto passo, antes impensável. Bem demonstrativo de que como é ilusória e transitória a espuma da política.

Ex-ministra, ex-deputada, ex-personalidade promissora da política espanhola, Carme morreu hoje, na solidão do seu apartamento madrileno, com apenas 46 anos - "insuportavelmente jovem", na certeira definição do obituário do El Mundo. A sua última aparição pública ocorrera há precisamente duas semanas, presença discreta num comício de apoio à candidatura de Susana Díaz na campanha interna para a liderança do Partido Socialista. Há três candidatos em liça, ela ficou à margem. Irremediavelmente arredada dos holofotes.

Tanto prometia, tanto deixou por concretizar. Parte quando era ainda tão cedo para dizer adeus. E há neste momento espanhóis de diversos quadrantes a chorar a sua morte, atordoados com a brutal notícia. Tudo é tão fugaz e desconcertante nesta álgebra incerta a que chamamos vida.

 

Espana_207241475_32432560_1024x576[1].jpg

 Grávida de sete meses, passando revista às tropas enquanto ministra da Defesa (2008)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Procurar razão

por Diogo Noivo, em 11.03.17

MVEEVOELO_Jabois.jpg

 

Com apenas 16 anos de idade Gabriel Vidal “Baby” tornou-se o centro de todas as atenções em Espanha: foi o primeiro a ser condenado pela justiça daquele país na sequência da investigação aos atentados terroristas de 11 de Março de 2004, em Madrid.
Apodado “El Gitanillo” pelos órgãos de comunicação social, Gabriel pertencia à “trama asturiana”, um pequeno grupo de delinquentes de Avilês que se dedicavam ao tráfico de estupefacientes e a delitos comuns. Rufias de bairro que por ganância, por laxismo e por força de um habitual encolher de ombros acabaram por fornecer a jihadistas os explosivos que mataram 191 pessoas e feriram cerca de 1000 na capital espanhola. “Baby” foi quem transportou os explosivos das Astúrias até Madrid e os entregou à célula terrorista que cometeu o atentado.
Em Nos vemos en esta vida o en la otra, Manuel Jabois, jornalista e colunista no diário El País, usa a história de “Baby” como estribo para descrever os factos, os personagens e as ligações que culminaram no acto terrorista mais devastador ocorrido na Europa Ocidental. A partir de várias conversas com o jovem asturiano, as primeiras que “Baby” teve com um jornalista, Jabois mapeia o contexto difuso de uma rede composta por redes, destrinçando com clareza as fronteiras entre a pequena criminalidade e o terrorismo; ao mesmo tempo, expõe o papel crucial que a oportunidade, o acaso e a indiferença de gente que nada tem que ver com o terrorismo desempenharam neste atentado. Aqui como noutros casos, o fanatismo religioso é manifestamente curto para explicar a confluência de acontecimentos e de diferentes percursos de vida que acabam por desaguar em massacre.
O livro é um trabalho notável de reportagem, muitíssimo bem documentado e escrito, que faz as perguntas certas, mas que não se angustia quando as respostas são demasiado triviais ou mesmo estúpidas. Todos os ângulos da história, todos os intervenientes (o livro refere mais de 50), todos os momentos que antecederam o atentado são trabalhados com minúcia e talento para tentar explicar o que parece destituído de razão.
Hoje assinalam-se os 13 anos do atentado em Madrid. No ano passado, escrevi aqui no DELITO que "[h]abituada à chaga terrorista, Espanha combateu a barbárie sendo irredutível na defesa da normalidade democrática." Nos vemos en esta vida o en la otra é mais uma expressão dessa normalidade. Manuel Jabois investiga e escreve sem assumir as dores de ninguém, sem tomar partidos, mas sem esquecer que existem vítimas. O livro é um esforço intenso, mas sereno de compreensão de um marco nefasto na história contemporânea de Espanha. Foi uma das leituras mais interessantes e impressivas que fiz em 2016. Se há dia para o recomendar, e merece sê-lo, hoje é sem dúvida esse dia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tristes tempos!

por Luís Menezes Leitão, em 29.11.16

Ainda sou do tempo em que na escola primária se ensinava a verdadeira tragédia nacional que foi o desastre de Alcácer-Quibir, que implicou que a Coroa de Portugal viesse a ser herdada dois anos mais tarde por Filipe II de Espanha. Seguiram-se 60 anos de decadência nacional, com Filipe III e Filipe IV, em que o país quase se converteu numa província espanhola. Só escapámos a esse destino graças ao heroísmo dos conjurados do 1º de Dezembro de 1640, que voltaram a colocar no trono um Rei português, D. João IV. Na altura ensinavam-nos na escola que por esse motivo é que celebrávamos o 1º de Dezembro, data da restauração da nossa independência.

 

Passados mais de 370 anos sobre essa data, tive ocasião de assistir à vergonha de ver um primeiro-ministro português decretar a abolição desse feriado. Este ano voltou a ser reinstituído mas, na véspera do mesmo, assiste-se à visita de outro Filipe, desta vez o VI, que pelos vistos a população do Porto entende que deve ser recebido com gritos de "Viva o Rei!", enchendo-se a cidade com bandeiras espanholas, como se estivéssemos em Madrid. Estou convencido de que nem em Barcelona ou em Vigo o Rei de Espanha seria recebido assim. Pelos vistos, há muita gente em Portugal que perdeu de vez, não só o orgulho nacional, como também a própria noção do ridículo. Tristes tempos, na verdade!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Acabou a novela, mas não acabou o drama

por Diogo Noivo, em 30.10.16

RajoyCD_20minutos.jpg

 

Ouvi há dias uma frase que resume na perfeição o último ano da política espanhola: Mariano Rajoy é o único animal no planeta que avança sem se mover. O líder dos Populares não tem carisma, não tem o dom da palavra, lidera um partido com vários militantes e antigos militantes envolvidos em casos de corrupção e de branqueamento de capitais, não fez grandes cedências à oposição apesar de carecer de uma maioria absoluta, mas avança. Aliás, olhando para o percurso de Rajoy na política nacional vemos uma história quase inexplicável de sobrevivência. Uns dirão que se trata do triunfo da mediocridade, outros que é um bom exemplo da importância do sangue-frio e da estratégia em política. Seja como for, o homem resiste.
Isso deve-se, em parte, à hecatombe socialista, que analisei aqui. O desastre estratégico e eleitoral do PSOE levou o partido a um Comité Federal, realizado no passado domingo. Ao órgão máximo do PSOE competia-lhe tirar os socialistas de uma encruzilhada asfixiante: abster-se na investidura de Rajoy, permitindo que Populares formassem governo, ou votar “não” e levar o país a terceiras eleições. Esta era a escolha visível e imediata, aquela que se assume perante as câmaras. Mas, como na música, havia outra, mais importante: ganhar tempo para reconstruir o partido ou ser ultrapassado nas urnas pelo Podemos e, consequentemente, tornar-se irrelevante. Sem surpresa, o PSOE optou pela abstenção, ou seja, por manter o lugar de principal força política de esquerda.

 

O Podemos não gostou. Ainda com Pedro Sánchez no lugar de Secretário-Geral, Pablo Iglesias y sus muchach@s (assim, com arroba, à Podemos) pressionavam diária e intensamente o PSOE. Segundo o Podemos, os socialistas não podiam ceder aos apelos à responsabilidade, tinham que ser intransigentes no “não” ao PP. Para o Podemos, este era o caminho para o sucesso: as terceiras eleições fariam dele o primeiro partido de esquerda em Espanha, seguido por um PSOE de rastos e sem condições para se reafirmar no panorama político nacional. Era uma oportunidade de ouro. Decidida a abstenção socialista no passado domingo, o radicalismo e a ferocidade do Podemos atingem novos patamares. Pablo Iglesias e os seus dizem do PSOE o que Sócrates não disse de Cavaco (pelo menos em público), evidenciando um discurso típico de mau perdedor. “Traidores”, “marca branca do PP” e “casta” figuram entre os apodos mais simpáticos, ditos nos intervalos da exploração das fracturas internas que um profundamente inábil Pedro Sánchez deixou no PSOE.
Mas Iglesias também extrema posições num espaço político mais vasto. Após defender que o Podemos devia menorizar o papel das instituições e fazer política na rua, Pablo Iglesias mostrou-se favorável à ideia de um protesto que cercasse o Congreso de los Diputados, uma manifestação cujo intuito é de tal forma contrário ao espírito e aos procedimentos do Estado de Direito Democrático que dispensa comentários adicionais. Pelo meio, manifestantes de cara tapada impediram Felipe González, antigo Presidente de Governo e histórico líder socialista, de dar uma conferência na Universidade Autónoma de Madrid. É verdade que não houve um apoio formal do Podemos a estes manifestantes, mas é igualmente verdade que as palavras de ordem foram copiadas de diferentes intervenções públicas de Pablo Iglesias. É caso para evocar as brujas que não existem, mas que vão aparecendo.
No passado domingo, o PSOE optou por sobreviver, como aliás demonstra a reacção visceral do Podemos. Os socialistas têm tempo e o Governo de Mariano Rajoy nas mãos, o que é um bom ponto de partida. Mas a pressão à sua esquerda deve continuar num trajecto ascendente.


Acabou a novela da investidura em Espanha porque há desde ontem um Presidente de Governo. Tal como Mariano Rajoy, o PSOE sobrevive. É o melhor cenário para ambos. Mas os problemas de um e do outro estão longe de estar resolvidos. Rajoy estará nas mãos do PSOE e o PSOE talvez esteja nas mãos do Podemos. Há drama no horizonte.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O aparatoso declínio do PSOE

por Pedro Correia, em 25.10.16

1082696[1].jpg

 Um partido em sério risco de desmembramento

 

«Quando Marx pode mais que as hormonas, não há nada a fazer»

Julián Marías

 

1

O Partido Socialista Operário Espanhol, reunindo de emergência o seu órgão máximo entre congressos, decidiu no sábado viabilizar um novo Executivo do Partido Popular, liderado por Mariano Rajoy, com um “mandato imperativo” aos seus deputados, que deverão abster-se na votação de investidura.

Com esta decisão do seu Comité Federal – assumida por 139 votos favoráveis e 96 contra – o PSOE demonstrou uma responsabilidade institucional que há muito tardava, rompendo enfim um bloqueio de 300 dias sem formação de governo após duas eleições legislativas em que o PP conseguiu triunfar, embora sem maioria absoluta - a 20 de Dezembro de 2015 e a 26 de Junho deste ano.

Um bloqueio que se devia à intransigência do ex-líder socialista, Pedro Sánchez, apesar de o seu partido contar com apenas 85 deputados no Parlamento espanhol – menos 52 do que os 137 do Partido Popular. Uma diferença inultrapassável, fosse qual fosse a aritmética política. E que transformou em utopia o cenário de umas terceiras legislativas, que deviam ocorrer em vésperas do Natal.

 

2

Desde que perdeu a eleição parlamentar de 2011, após a fracassada governação de Rodríguez Zapatero que quase conduziu Espanha a um resgate financeiro de emergência idêntico ao ocorrido em Portugal, o PSOE foi resvalando até ao limiar da luta pela sobrevivência política em que se encontra agora.

A viabilização de um novo Governo de centro-direita, mais do que um tardio gesto de responsabilidade, aliás avalizado pela maioria dos eleitores socialistas, constitui portanto uma reacção instintiva à hecatombe que se avizinhava: uma sondagem muito recente divulgada pelo jornal El País, historicamente afim aos socialistas, atribuía uma votação quase irrisória ao PSOE, ultrapassado largamente à direita pelo PP e à esquerda pelo Podemos – amálgama de organizações da esquerda radical, que em diversas zonas do país mantém estreitos vínculos às forças nacionalistas e separatistas.

 

image[1].jpg

 Pedro Sánchez: pura incompetência política

 

3

Fundado pelo sindicalista Pablo Iglesias em 1879, o PSOE é um dos mais antigos partidos europeus. E o único que resta dos que firmaram os pactos de transição em 1977 e 1978 que permitiram a refundação da democracia espanhola após quatro décadas de ditadura. A UCD de Adolfo Suárez dissolveu-se há 30 anos, a Aliança Popular de Fraga Iribarne transfigurou-se no final da década de 80 no actual PP e o Partido Comunista de Santiago Carrillo tornou-se uma curiosidade microscópica, sem qualquer relevância na Espanha contemporânea.

Os socialistas assumiram-se nestes 40 anos como uma força pendular na sociedade espanhola, tendo exercido funções governativas durante mais tempo do que os restantes partidos somados (UCD e PP). O seu líder mais carismático, Felipe González, rompeu com a orientação marxista num congresso extraordinário em 1979 e já enquanto primeiro-ministro, em 1986, desafiou a ala esquerdista do partido ao fazer ingressar o país na NATO.

A moderação de González fez alargar a base sociológica do PSOE, tornando-o um partido com verdadeira implantação nacional, que chegou a ocupar a presidência da maioria dos executivos autonómicos - incluindo a Catalunha, com José Montilla, entre 2006 e 2010, e o País Basco, com Patxi López, de 2009 a 2012.

Tudo isso mudou. Hoje está reduzido a dois feudos regionais: Andaluzia e Extremadura.

Em Madrid tornou-se a quarta força política. Em Barcelona, a quinta.

 

4

Sánchez é um caso clamoroso de incompetência política que apenas pôde manter-se ao leme da Calle Ferraz devido à manifesta cobardia da maior parte dos quadros socialistas – incluindo o que resta do seu baronato regional – que só despertaram ao ver o partido quase reduzido a escombros. Incapazes de fazer frente ao líder, preferiram desgastá-lo ao longo destes meses com relatos de "fontes anónimas" impressos nos jornais.

Em apenas dois anos, o medíocre Sánchez perdeu todas as eleições, por esta ordem cronológica: municipais, regionais, autonómicas na Catalunha, legislativas de 2015 e 2016.

As duas derrotas mais recentes ocorreram a 25 de Setembro nas autonómicas da Galiza e do País Basco. No primeiro caso, o PSOE perdeu quase 45 mil votos, baixando de 18 para 14 deputados no parlamento regional, dominado por uma inequívoca maioria absoluta do PP; no segundo, viu fugir-lhe cerca de 86 mil votos, e desceu de 16 para nove deputados, com o Partido Nacionalista Basco saindo triunfador das urnas.

Nem assim renunciou ao cargo. De desastre em desastre, preparava-se para levar o partido ao naufrágio maior: a terceira eleição legislativa em doze meses, que tornaria ainda mais irrelevante o PSOE na sua estonteada fuga para a frente.

As bases, representadas no Comité Federal, acabam de dizer-lhe: basta. Aconteceu aquilo que previ aqui, há quase três meses: “Sánchez sairá da pior maneira, empurrado pelos barões regionais do partido, com Susana Díaz à cabeça. Já recebeu um solene aviso dos seus pares, mais sintonizados do que ele com a vox populi: não haverá terceiras legislativas. Tal cenário seria catastrófico para os socialistas espanhóis, que vão recuando a cada novo teste eleitoral.”

 

juan-negrin[1].jpg

Juan Negrín e Indalecio Prieto nos anos 30: as lições da história 

 

5

É triste verificar que alguns líderes políticos só abandonam a cena ao serem empurrados, quando a ética da responsabilidade lhes impunha a demissão ao fim de duas ou três derrotas. No caso de Sánchez foi preciso esperar por sete para o empurrão surgir.

Empurrado, mas não convencido. Alguns dos seus apaniguados garantem que violará a disciplina de voto no Congresso dos Deputados, onde mantém assento: incapaz de aceitar a regra da maioria, ameaça votar não. E não tardou a tuitar esta mensagem: “Rapidamente chegará o momento em que a militância recuperará e reconstruirá o seu PSOE.”

Já afastado, continua a comportar-se como se ainda aspirasse disputar o poder a Rajoy num escrutínio do qual sairia inevitavelmente um PSOE ainda mais enfraquecido, transformado em parceiro menor da extrema-esquerda. No fundo, o sonho da direita espanhola.

 

6

Instala-se agora o fantasma do fraccionismo no partido, com a facção moderada a enfrentar aqueles que defendem uma aproximação dos socialistas ao Podemos. Nada de novo na história do partido, que durante a guerra civil (1936-39) assistiu ao choque das tendências internas – nomeadamente entre os reformistas como Indalecio Prieto e os ultra-radicais como Largo Caballero, auto-intitulado “Lenine espanhol”, contando estes com aliados como o titubeante Juan Negrín, apanhado entre dois fogos.

Hoje novamente fragmentado em inúmeros feudos internos, sem uma liderança firme, dividido entre o constitucionalismo que lhe serviu de bandeira nos anos em que foi mais forte e a pulsão populista proporcionada pelo ar dos tempos, com ocasionais flirts separatistas na Catalunha, o PSOE luta por sobreviver enquanto grande partido nacional. Com González, chegou aos 202 parlamentares. No período pós-Zapatero foi baixando sucessivamente: 110 deputados em 2011, 90 em 2015, 85 este ano.

A nível europeu, só o quase desaparecido PASOK grego se afundou tanto em tão pouco tempo.

A incapacidade de aprender as lições da história origina erros trágicos na política, algo que o aparatoso declínio dos socialistas espanhóis bem demonstra. Como se estivesse escrito nas estrelas: os prenúncios eram evidentes e nenhuma advertência foi escutada em tempo útil.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pátria de violência e ódio

por Diogo Noivo, em 20.10.16

patriaLibro.jpg

 

A ETA, a esquerda abertzale e o regime fascista que ambas instituíram no País Basco sempre mereceram pouca atenção em Portugal, nuns casos por laxismo, noutros por conivência. Durante 40 anos, ser democrata e exercer o direito à liberdade de expressão foram, no País Basco, crimes de delito de opinião. O criminoso era penalizado com ameaças, quando não com a morte. Professores, escritores, cineastas, jornalistas, polícias, políticos e até humildes portageiros eram confrontados com uma escolha: aceitar uma liberdade timorata, mutilada e tutelada pela violência terrorista, ou fazer valer os seus direitos e ideias. Os que optaram pela segunda via assumiram um custo. Para os próprios e para as suas famílias.

O País Basco foi ao longo de quatro décadas uma região bizarra, em absoluta divergência da construção de liberdades no espaço europeu. Os verdadeiros criminosos saiam à rua, faziam as suas vidas com relativa impunidade, enquanto as vítimas viviam num regime de detenção, sob permanente escolta armada, impedidos de actos normais e quotidianos como ir ao cinema ou visitar um familiar quando bem lhes aprouvesse.

A nuvem de chumbo que pairou sobre a Euskadi é hoje uma névoa rarefeita. Mas não se dissipou. No passado fim-de-semana, dois militares da Guardia Civil, que gozavam uma noite de folga na localidade navarra de Alsasua, foram brutalmente agredidos por cerca de 50 indivíduos pertencentes à esquerda abertzale. Os militares e as suas namoradas. Ser polícia no País Basco ainda é um crime. Ser amigo ou companheiro de um polícia é um crime por associação. Julgamento e pena são servidos de uma assentada pelos auto-denominados “representantes do povo basco” que, para além de carecerem de legitimidade democrática, nunca representaram nada nem ninguém.

O mais recente romance de Fernando Aramburu é, por isso, infelizmente oportuno. “Patria” acompanha a história de duas famílias separadas pelo medo e pela violência. Em cerca de 650 páginas, Aramburu abarca décadas de agressões, de gente subjugada, e fá-lo desde uma perspectiva pouco habitual: olhando para o quotidiano. O livro é um puzzle de ficção, cujas peças saíram de uma realidade dolente. O aparelho de repressão da ETA, os funerais, as tabernas onde se aprendia a odiar em conjunto, os arruaceiros e a cobardia são elementos que perpassam “Patria” do princípio ao fim, criando uma imagem tão impressionante como fidedigna. Em entrevista ao Babélia, o suplemento de cultura do El País, Fernando Aramburu afirma que a derrota literária da ETA continua pendente. Este livro é sem dúvida um valiosíssimo contributo para conseguir essa derrota e uma oportunidade para perceber que, durante décadas, houve na Europa das liberdades uma região agrilhoada por uma ditadura violenta e alimentada pelo ódio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Anatomia de uma hecatombe

por Diogo Noivo, em 03.10.16

PedroSanchez.jpg

 

A pressão exercida pelos barões socialistas forçou Pedro Sánchez a demitir-se das funções de secretário-geral do Partido Socialista Obreiro Espanhol (PSOE). Esta não é a verdade dos factos, mas é a verdade para alguma imprensa portuguesa. Vamos por partes.

No dia 20 de Dezembro de 2015, o PSOE, capitaneado por Pedro Sánchez, obteve o seu pior resultado eleitoral de sempre em eleições legislativas, o resultado mais baixo desde 1977. Deste acto eleitoral não saiu um governo e, como tal, foi necessário repetir eleições. No dia 26 de Junho de 2016 os espanhóis voltaram às urnas e o PSOE bate o seu próprio recorde: perdeu 5 deputados e cerca de 156 mil votos. Nova derrota histórica. O seu adversário directo, o Partido Popular (PP), reforçou a vitória obtida em Dezembro, conseguindo mais votos (aproximadamente mais 600 mil) e mandatos (mais 14), isto apesar de ser a força política associada à austeridade, à subserviência a Bruxelas e, pior, a casos de corrupção e de branqueamento de capitais. Por outras palavras, mais do que uma derrota histórica, o resultado dos socialistas a 26 de Junho de 2016 foi uma humilhação sem paliativos.

No plano local o cenário não é mais ameno. Nas eleições celebradas recentemente na Galiza e no País Basco, o grande derrotado foi o PSOE. Na Galiza perdeu 5 mandatos, na Euskadi perdeu 7 mandatos e 40% dos votos, e em ambas é ultrapassado pelo Podemos. Importa recordar que, entre 2009 e 2012, o PSOE governou o País Basco.

Em suma, associando os resultados nacionais aos resultados locais, o PSOE foi de derrota histórica em derrota histórica até uma cada vez mais provável irrelevância final. Pedro Sánchez pegou num partido com vocação de governo, uma força política fundamental no processo de consolidação da democracia em Espanha, e levou-o à beira da irrelevância. No entanto, nada disto foi suficiente para que Sánchez assumisse publicamente quaisquer responsabilidades. A este rosário deprimente há ainda que somar episódios pouco edificantes como, por exemplo, o “Comando Luena”: César Luena, braço direito de Sánchez, organizou uma ‘tropa de choque’ para, nas redes sociais, denegrir e insultar todos aqueles que ousavam criticar a direcção socialista. Ou seja, derrotados nas urnas e totalitários na gestão interna do partido.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Comunicação Política da boa

por Diogo Noivo, em 21.09.16

O País Basco vai a votos este domingo. O Partido Popular divulgou um vídeo de campanha que é original, inteligente, bastante provocador, mas educado, com o intuito de apelar aos votantes do Ciudadanos.

 

Não perdeu pela demora. O Ciudadanos respondeu com um vídeo igualmente bom e contido nas formas.

Um dia, espero que mais cedo do que tarde, Portugal terá comunicação política assim.  

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D