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Na morte de B.B.

por Inês Pedrosa, em 11.05.17

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Baptista-Bastos foi um escritor bem bom. Escrita sensorial, a dele - com cheiro, cor, corpo, ritmo. Fulminante na ironia, felino na narração das contradições do tempo e das pessoas, dono um vocabulário preciso, imaginativo e riquíssimo. Quem quiser saber como era o Portugal urbano e pseudo-intelectual amansado pela ditadura tem de passar pelos seus romances. Pareceu-me sempre muito subestimado enquanto romancista, creio que por ser jornalista. Havia (e há ainda, mas não posso dizê-lo porque lá virão umas doutas almas dizer que sou parte interessada) na intelligentzia local um entendimento geral segundo o qual médicos ou professores dão bons romancistas: jornalistas, nunca: sapateiros a quererem ir além da chinela. Esse entendimento era (e é) acirrado pelos próprios camaradas jornalistas, que odeiam os camaradas que escrevem livros, pelo menos enquanto eles próprios não os escreverem também. Reli há meses O Secreto Adeus e Elegia para Um Caixão Vazio e confirmei: resistem ao tempo, à releitura. Lêem-se de um trago, fazem-nos sorrir, pensar. E amar melhor Lisboa, apesar de todas as suas mazelas, ou precisamente por causa delas. B.B. pintava a cidade com engenho e arte.   

"O adjectivo é a prosa a tomar partido", disse-me o BB, era eu uma miúda recém-chegada aos jornais. BB era gentil com a miudagem, e sem paternalismos. A união destas duas características, na época, era rara nos jornais. O Fernando Assis Pacheco e o Fernando Dacosta faziam questão de ser assim: poucos mais. À distância percebe-se como o ser e o escrever afinal se entrelaçam: os atentos, os sensíveis, os disponíveis, os ternos, os cáusticos, os autênticos, eram também os de melhor texto. "Não tenhas medo do adjectivo: o adjectivo é a prosa a tomar partido", repetia, então, o B.B. Respirei fundo, cheia de alegria: passava a vida a ouvir discursos contra os adjectivos proferidos por poderosos jornalistas que tinham chegado aos cabeçalhos da imprensa com um mini-vocabulário de Cartilha Maternal de João de Deus, em versão pornográfica.

B.B. tomava partido: essa era uma das coisas que eu apreciava nele, concordasse ou não (muitas vezes não) com os partidos que ele tomava. Nunca sofreu da famosa má-língua nacional, indústria caseira produzida em barracas clandestinas, mais rápida a estragar fígados do que a produção vinícola. Não praticava aquela cortesia tão portuguesa de esperar que uma pessoa vire costas para começar a falar mal dela. Pegava-se de caras. Amava e odiava sem hipocrisias. Sabia que nada estraga tanto a escrita como a hipocrisia e a videirice. 

B.B. continuará vivo enquanto for lido. Da minha vida não desaparecerá. 

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A geração esquecida

por Inês Pedrosa, em 08.05.17

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Acabo de ler O Pianista de Hotel, novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, que andava desaparecido do mundo da ficção há dez anos. Fico contente com este regresso, e ainda mais contente porque se trata de um bom romance. Procuro acompanhar o que se vai publicando em língua portuguesa; creio que ninguém pode ser um honesto artífice de uma determinada literatura (pelo menos isso) sem a conhecer bem, no seu passado e no seu presente. Espanta-me a quantidade de escritores contemporâneos que nunca leram Raul Brandão nem Machado de Assis, e choca-me que se possa despachar o génio de Agustina Bessa-Luís com o disparate "é uma chata", sem que um raio caia em cima de quem profere tal aleivosia ( mais uma prova de que não existem milagres, e que a justiça divina é tão ronceira como a terrena).

Entre os meus contemporâneos, confesso que corro a ler com particular interesse e carinho os livros dos meus companheiros de geração, isto é: os escritores do meu país que começaram a publicar na segunda metade da década de oitenta ou no início da década de noventa do século passado. O Rodrigo publicou o primeiro romance exactamente há 25 anos, como eu. Nesse ano de 1992, estrearam-se também José Riço Direitinho ( com A Casa do Fim) e Pedro Paixão ( com A Noiva Judia). Esta geração literária que surgiu imediatamente a seguir - e na contramão - da geração do pós-25 de Abril (a chamada geração da guerra-colonial: António Lobo Antunes, Lídia Jorge, João de Melo, Mário de Carvalho, etc), teve em Adeus, Princesa ( Clara Pinto Correia, 1985) e Hotel Lusitano (Rui Zink, 1987) os seus dois pilares inaugurais - dois magníficos romances sobre uma nova era, a era da globalização, feita de novos desafios, esperanças e desesperos e, acima de tudo, novas linguagens. Os leitores perceberam e amaram estes dois romances muito mais depressa e melhor do que a crítica - e isso mesmo foi acontecendo a todos os outros escritores portugueses desta geração, que inclui, além dos já mencionados, Ana Teresa Pereira, Francisco José Viegas e Rita Ferro, por exemplo.  

O novo milénio veio revelar uma novíssima geração de múltiplas e variadas vozes, que teve a sorte de aparecer num tempo em que a juventude é, por si só, considerada uma forma de talento ( é ver a quantidade de prémios destinados a escritores jovens). No tempo em que éramos jovens, nós, os tais da geração-sanduíche entre os heróis da guerra colonial e as estrelas da pós-globalização, o melhor que podia acontecer-nos era ninguém nos ligar. Quando nos ligavam, raramente era por bem - nunca esquecerei, por exemplo, a violência personalizada e agigantada com que, no Expresso, foi espancado o segundo romance de Clara Pinto Correia, Ponto Pé-de-Flor. Suponho que pretenderam castigá-la pelo sucesso que Adeus, Princesa alcançara junto dos leitores -prémios, teve zero; esta geração tem sido aliás pouquíssimo premiada, por comparação com as imediatamente anteriores e posteriores.Certo é que a editora francesa Gallimard desistiu do contrato de publicação que tinha proposto a Clara Pinto Correia por causa da extrema brutalidade dessa crítica, alegando que não podia apostar num autor estrangeiro cujo segundo livro desmentia a promessa do primeiro. A Gallimard acreditou na "ciência" da crítica; não sabe que este pequeno país é uma lâmina de microscópio onde todos se conhecem e interferem directamente na vida alheia, todos se amam ou se odeiam.

A geração literária dos que eram demasiado crianças para poderem ter sido heróis de Abril e parecem agora demasiado velhos para serem adorados como oráculos do futuro tem vivido à margem do reconhecimento oficial. O que, na minha opinião, só a favorece. Sim, há grandes e belas vozes nesta minha geração. 

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O trágico destino dos escritores

por Pedro Correia, em 13.04.17

Foi só há pouco tempo, ao ler um notável ensaio de William Styron intitulado Visível Escuridão (Darkness Visible, 1990) que me apercebi das estreitas relações entre a depressão e o ofício da escrita. É quase inacreditável o número de grandes autores que cometeram suicídio, no auge de uma grave depressão.
Styron fez uma lista, que está longe de ser exaustiva: Hart Crane, Virginia Woolf, Cesare Pavese, Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath, Henri de Montherlant, John Berryman, Wiliam Inge, Paul Celan, Tadeusz Borowski, Anne Sexton, Serguei Essenin, Vladimir Maiakovski. E Stefan Zweig, Primo Levi, Emilio Salgari, Yasunari Kawabata, Arthur Koestler, Paul Nizan, Yukio Mishima, Sándor Márai, Reinaldo Arenas, David Foster Wallace – acrescento eu.
No caso português, poderíamos mencionar, por exemplo, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, Luís de Montalvor, Manuel Laranjeira, Trindade Coelho, Florbela Espanca, Miguel Rovisco.
Outros houve, outros há.
 
“Apesar do raio de alcance da depressão ser ecléctico, demonstrou-se de forma bastante convincente que os temperamentos artísticos (particularmente os poetas) são especialmente vulneráveis a este mal – que, nas suas manifestações clínicas mais graves, colhe mais de 20 por cento das suas vítimas através do suicídio”, escreve Styron nesta notável obra sobre uma das maiores doenças da nossa civilização (Visível Escuridão, com tradução portuguesa de Teresa Caria, foi editada pela Bertrand em 1991). O próprio Styron – galardoado com o Prémio Pulitzer e o American Book Award, universalmente aplaudido por romances como A Escolha de Sofia – sofreu de depressão. “Receamos a perda de tudo, de todos os próximos e dos amados. Há um medo agudo do abandono. Ficar sozinho em casa, mesmo só por um momento, provocava-me um pânico e uma trepidação estranhos”, recorda o escritor neste impressionante e dilacerante depoimento.
“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?
 
Texto reeditado e ampliado

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Paulo Varela Gomes

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.02.17

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"A culpa não se expia, nem sequer pelo crime. Só Deus perdoa."

 

Partiste cedo, mas chegas sempre a horas. Obrigado.

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O que dizem de Dylan

por Pedro Correia, em 14.10.16

"Para mim, foi como terem dado a medalha ao Evereste: ele é o mais alto do mundo."

Leonard Cohen, El País

 

"De Orfeu a Faiz, canção e poesia sempre estiveram estreitamente ligadas. Dylan é um brilhante herdeiro da tradição trovadoresca. Grande escolha."

Salman Rushdie, Twitter

 

"Uma inspirada escolha do Comité Nobel. Muitos de nós fomos (quase literalmente!) assombrados pelas canções de Dylan na década de 60 - poderosos monólogos dramáticos e versos surrealistas (It’s All Over Now, Baby Blue,” “With God on Our Side,” “Blowin in the Wind,” “Like a Rolling Stone”)."

Joyce Carol Oates, Wall Street Journal

 

"Dylan e Leonard Cohen são grandes poetas."

Francisco José Viegas, Correio da Manhã

 

"Dylan é um dos grandes poetas do nosso tempo."

João Pereira Coutinho, Correio da Manhã

 

"Dylan é inegavelmente um grande escritor. A Academia sueca está a usar o Prémio Nobel para restaurar a literatura. Tomara que regresse à literatura oral. As histórias que não são escritas também podem ser grandes e imortais."

Miguel Esteves Cardoso, Público

 

"Já ouvi reacções indignadas de escritores portugueses, e até de um músico, o que é extremamente ridículo. Este é um prémio justíssimo."

Sérgio Godinho, Diário de Notícias

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À espera do Nobel da Literatura

por Pedro Correia, em 07.10.16

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 Amos Oz

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 John Le Carré

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  Rubem Fonseca

 

Aberta a época da distribuição dos prémios Nobel (apelido que a maioria dos jornalistas televisivos em Portugal continua a pronunciar erradamente com acento no o, quase emudecendo o e da sílaba tónica em sueco), faço desde já um desafio aos leitores do DELITO DE OPINIÃO: deixem aqui os vossos vaticínios sobre quem será o escritor que vai receber o galardão destinado a distinguir a literatura. Só o conheceremos no próximo dia 13, mas a gente arrisca. Ao contrário do outro, que só fazia prognósticos no fim.

Tomo a liberdade de antecipar desde já três escritores que a meu ver há muito mereciam receber o Nobel: Amos Oz, John Le Carré e Rubem Fonseca. Ainda vão a tempo, embora eu duvide do critério da academia de Estocolmo, que em 1978 - só para dar um exemplo - excluiu Graham Greene e Jorge Luis Borges.

Quem vos parece que vai ganhar?

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Frases de 2016 (30)

por Pedro Correia, em 30.09.16

«Trocava os meus sete romances por um filho.»

Valter Hugo Mãe, hoje, em entrevista ao DN

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Aventuras de Uma Livreira Acidental

por Francisca Prieto, em 15.09.16

Hoje, a propósito do Festival Internacional de Cultura, a Déjà Lu andou em polvorosa. A RTP tinha-nos pedido para filmar um par de entrevistas numa das nossas salas e nós não nos fizemos rogados. Estendemos a passadeira vermelha e vergámo-nos em vénia, mortinhos por assistir a tudo.

O primeiro entrevistado foi Andrew Morton, famoso biógrafo de várias personalidades, incluindo membros da família real inglesa. A conversa foi muitíssimo interessante, mas confesso que tinha o coração em pulgas. Sabia que o segundo convidado seria David Lodge. Ora, eu adoro o David Lodge, a tal ponto que já li três vezes o “Terapia” e sei várias passagens de cor.

De maneira que quando a equipa técnica, entre uma entrevista e outra, comentou que “o outro” ainda não tinha chegado, tive de me insurgir e de perguntar se se estavam a referir naqueles termos miseráveis a Sir David Lodge.

Lá chegou então o senhor, muitíssimo discreto, que se deixou entrevistar com toda a candura.

No final, convidei-o a visitar a livraria. Expliquei-lhe que se tratava de uma livraria solidária, cujos lucros eram destinados a 100% para projectos de profissionalização de jovens com Síndrome de Down. Neste momento fui interrompida: “Down Syndrome, you said? Do you know that I have a son with Down Syndrome?’”.

E foi assim que tive direito a uma prolongada cavaqueira com um dos meus escritores predilectos, que autografou com toda a boa vontade e simpatia uma data de exemplares que lhe fui pondo à frente com toda a lata do mundo.

Depois, convidei-o a voltar à livraria para passar pelas brasas num dos nossos cadeirões, prometendo que não o ia maçar nada, nada, nada. Mesmo nada.

A vida às vezes dá-nos cada presentão.

 

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Eu, em estado de comoção apocalíptica. 

 

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Arturo Pérez-Reverte

por Patrícia Reis, em 13.09.16

Amanhã, no âmbito do FIC (Festival Internacional de Cultura), entrevistarei Arturo Pérez-Reverte, ele que é o escritor espanhol mais traduzido (40 países), com cerca de 17 milhões de livros vendidos. Passei o verão a ler e a reler a sua obra, terminando com o novo livro Homens Bons (edições Teorema), uma aventura no século XVIII e, a propósito, várias considerações filosóficas da época sobre a luz e as trevas, a razão e a ciência, a fé e a religião, e até as mulheres e as suas coisas. Pérez-Reverte é um dos nomes grandes da Literatura e é, sobretudo, um homem livre, para muitos politicamente incorrecto, para outros corajoso e lúcido na forma como vê o mundo. Repórter de guerra durante 21 anos, este autor dedicou-se aos livros e à navegação, as duas artes que o salvaram. Será uma conversa e tanto e tenho quase a certeza de que falaremos de História, de memória (ou da falta dela), de xadrez, barcos e livros, muitos livros. Por isto e mais, tragam o corpo. É às 22h00 na Casa das Histórias Paula Rêgo em Cascais.

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Sobre Crónica do Tempo, de Maria Isabel Barreno

por Inês Pedrosa, em 04.09.16

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Um escritor continua vivo enquanto tiver leitores. Maria Isabel Barreno não foi apenas uma das magníficas Três Marias; seria injusto que a excepcionalidade de Novas Cartas Portuguesas apagasse a obra desta escritora, menos conhecida do que a das suas duas companheiras de aventura e risco - Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa -, mas forte, singular, composta por uma série de romances fundamentais para compreender o Portugal contemporâneo. Destacaria A Morte da Mãe (1979), Inventário de Ana (1982), Célia e Celina (1985) ou Crónica do Tempo ( 1990 - Prémio Fernando Namora). Ao longo dos anos, fui escrevendo nos jornais sobre vários dos seus livros - deixo aqui um excerto do texto que escrevi em 1990 para o Expresso sobre Crónica do Tempo, esperando estimular potenciais leitores para a descoberta desta voz woodyalleneana da nossa literatura.    

"Maria Isabel Barreno dá-nos a fala das cidades, geração após geração. E um dos principais méritos desta Crónica do Tempo é o de não enquistar na perspectiva e na voz da uma geração, escapando assim  à vulgata dos lugares comuns e dos juízos cataclísmicos sobre a decadência do mundo. A narradora ( ou narrador, pouco importa) olha todos os seus personagens, sejam eles o avô Jorge, colonialista, ou o neto Miguel, surfista, com um mesmo e intenso amor relativo. O amor relativo é o que mora na única assoalhada imutável do coração. Trata-se de um amor desapaixonado, meigo, atento, que permanece para além da fúria dos mitos e que procura compreender em vez de devorar. Um olhar lúcido e cáustico, como só o olhar da ternura pode ser, pousado sobre os pais da ditadura, os filhos do  «vício da sua geração, a palavra. Que aliás já deixara perplexa a geração anterior. A nova geração trazia o ouro do silêncio, talvez fosse isso.» (p.115) Um amor estranho, sobretudo num país de resignações e raivas absolutas. Um país ajoelhado em frente a Nossa Senhora Lá de Fora: « Lá fora é o país onde todos os escritores são ricos e reconhecidos como geniais, onde os pintores pintam entre honrarias diversas, onde não há burocracia(...)» Assim fala Maria Isabel Barreno, através das palavras de Rosa. Jorge: «São os preconceitos contra o dinheiro que nos fazem pobres.O preconceito é inveja» (p. 46) « As casas diminuíram, as mulheres devem ter sentido reduzido seu espaço. As meninas de boas famílias começaram a falar com voz de quem ocupa um espaço pequenino no mundo e se esforça por mostrar isso aos outros. Eu sou doce e frágil, não ameaço ninguém, tratem-me bem.» (p. 66)  «Construímos os nossos ideais políticos tão por fora das realidades como as donzelas românticas constroem seus príncipes encantados no silêncio dos quartos. O confronto com a ditadura em nada nos ajudava, só agudizava a nossa febre, a nossa urgência. Um pai tirano não prepara a donzela para o amor, para o casamento.» (p. 127) «Salazar, tirano triste. Há tiranos benévolos, tiranos loucos. O nosso foi um tirano triste e solitário, este era o seu carisma. De tristeza e solidão convenceu os portugueses, como de um destino natural.» (p. 127).Jorge: «Se os nossos intelectuais não vivessem tão embasbacados defronte da França e da Inglaterra, não teriam dado o monopólio da identidade nacional a Salazar.» (p. 141) Rosa: « O que nos acontece de pior é essa vivência miserabilista de todas as coisas, a grandeza vive-se, não se inventa»."

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Coisas que nenhum Acordo Ortográfico resolve

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.05.16

"Tem toda a obra traduzida em Portugal o escritor que ontem foi anunciado como vencedor do Prémio Camões, o mais importante da língua portuguesa."

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Acredito que os portugueses ainda se pronunciarão em referendo sobre o chamado "acordo ortográfico" de 1990, vigente desde 2011 no país oficial mas votado ao desprezo pelo país real. A esmagadora maioria dos portugueses não sabe escrever em acordês nem está interessada nisso.

Enquanto o referendo não se realiza, a opinião sobre o AO90 é emitida pelos nossos escritores - os mais qualificados utentes do idioma de Camões, Vieira, Camilo, Aquilino e Nemésio. Na sua esmagadora maioria, recusam exterminar as supostas consoantes mudas, recusando a ortografia acordística.

Interrogo-me: como é possível impor regras ortográficas que os escritores rejeitam em número tão expressivo?

São autores de várias gerações, diferentes tendências políticas e diversos estilos literários. Mas com este ponto em comum.

Aqui deixo os nomes deles, por ordem alfabética, prometendo alargar a lista à medida que alguém me for assinalando omissões - o que agradeço desde já:

 

Abel Barros Baptista

Abel Neves

Adília Lopes

Afonso Cruz

Afonso Reis Cabral

Agustina Bessa-Luís

Alexandre Borges

Alice Brito

A. M. Pires Cabral

Ana Casaca

Ana Cássia Rebelo

Ana Cristina Silva

Ana Isabel Buescu

Ana Luísa Amaral

Ana Margarida Carvalho

Ana Marques Gastão

Ana Paula Inácio

Ana Teresa Pereira

Ana Vidal

Ana Zanatti

André Gago

António Carlos Cortez

António Barahona da Fonseca

António Barreto

António Borges Coelho

António Cabrita

António Costa Santos

António de Macedo

António Emiliano

António Feijó

António Guerreiro

António Lobo Antunes

António Louçã

António Manuel Venda

António Modesto Navarro

António Salvado

António Tavares

António Victorino d' Almeida

Armando Silva Carvalho

Arnaldo Saraiva

Artur Portela

Baptista-Bastos

Beatriz Hierro Lopes

Bernardo Pires de Lima

Bruno Vieira Amaral

Carla Hilário Quevedo

Carlos Campaniço

Carlos Fiolhais

Carlos Querido

Casimiro de Brito

Célia Correia Loureiro

César Alexandre Afonso

Clara Pinto Correia

Cláudia R. Sampaio

Cristina Carvalho

Daniel Jonas

David Machado

David Soares

Deana Barroqueiro

Desidério Murcho

Diogo Freitas do Amaral

Diogo Ramada Curto

Dulce Maria Cardoso

Eduardo Cintra Torres

Eduardo Lourenço

Eduardo Pitta

Ernesto Rodrigues

Eugénia de Vasconcellos

Eugénio Lisboa

Fausta Cardoso Pereira

Fernando Alvim

Fernando Dacosta

Fernando Echevarria

Fernando Paulo Baptista

Fernando Pinto do Amaral

Fernando Venâncio

Filipa Leal

Filipe Nunes Vicente

Filipe Verde

Francisco Moita Flores

Francisco Salgueiro

Frederico Lourenço

Frederico Pedreira

Gabriela Ruivo Trindade

Gastão Cruz

Gonçalo Cadilhe

Gonçalo M. Tavares

Helena Malheiro

Helena Sacadura Cabral

Henrique Manuel Bento Fialho

Hélia Correia

Inês Botelho

Inês Dias

Inês Fonseca Santos

Inês Lourenço

Inês Pedrosa

Irene Flunser Pimentel

Isabel da Nóbrega

Isabel Pires de Lima

Ivone Mendes da Silva

Jaime Nogueira Pinto

Jaime Rocha

João Barrento

João Céu e Silva

João David Pinto Correia

João de Melo

João Lobo Antunes

João Luís Barreto Guimarães

João Miguel Fernandes Jorge

João Morgado

João Paulo Sousa

João Pedro George

João Pedro Mésseder

João Pedro Marques

João Pereira Coutinho

João Ricardo Pedro

João Tordo

Joaquim Letria

Joaquim Magalhães de Castro

Joaquim Pessoa

Joel Neto 

Jorge Araújo

Jorge Buescu

Jorge Morais Barbosa

Jorge Sousa Braga

José António Barreiros

José Augusto França

José Barata Moura

José do Carmo Francisco

José Fanha

José Gil

José Jorge Letria

José Manuel Saraiva

José Mário Silva

José Miguel Silva

José Navarro de Andrade

José Pacheco Pereira

José Rentes de Carvalho

José Riço Direitinho

José Viale Moutinho

Júlio Machado Vaz

Lídia Jorge

Lourenço Pereira Coutinho

Luís Carmelo

Luís Filipe Castro Mendes

Luís Manuel Mateus

Luís Naves

Luís Quintais

Luísa Costa Gomes

Luísa Ferreira Nunes

Luiz Fagundes Duarte

Manuel Alegre

Manuel Arouca

Manuel da Silva Ramos

Manuel de Freitas

Manuel Gusmão

Manuel Jorge Marmelo

Manuel Tomás

Manuel Villaverde Cabral

Marcello Duarte Mathias

Margarida Acciaiuoli

Margarida Fonseca Santos

Margarida Palma

Margarida Rebelo Pinto

Maria Alzira Seixo

Maria de Fátima Bonifácio

Maria do Carmo Vieira

Maria do Rosário Pedreira

Maria Filomena Molder

Maria Filomena Mónica

Maria Helena Serôdio

Maria João Lopo de Carvalho

Maria Manuel Viana

Maria Saraiva de Menezes

Maria Teresa Horta

Maria Velho da Costa

Maria Vitalina Leal de Matos

Mariana Inverno

Mário Cláudio

Mário de Carvalho

Mário Zambujal

Marlene Ferraz

Miguel Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Gullander

Miguel Real

Miguel Sousa Tavares

Miguel Tamen

Nuno Amado

Nuno Camarneiro

Nuno Costa Santos

Nuno Júdice

Nuno Lobo Antunes

Nuno Markl

Nuno Rogeiro

Octávio dos Santos

Orlando Leite

Patrícia Baltazar

Patrícia Reis

Paula Morão

Paulo Castilho

Paulo da Costa Domingos

Paulo Guinote

Paulo Moreiras

Paulo Tunhas

Pedro Almeida Vieira

Pedro Barroso

Pedro Chagas Freitas

Pedro Eiras

Pedro Guilherme-Moreira

Pedro Marta Santos

Pedro Medina Ribeiro

Pedro Mexia

Pedro Paixão

Pedro Sena-Lino

Pedro Tamen

Porfírio Silva

Possidónio Cachapa

Rafael Augusto

Raquel Nobre Guerra

Raquel Ochoa

Renata Portas

Ricardo Adolfo

Ricardo António Alves

Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Paes Mamede

Rita Ferro

Rodrigo Guedes de Carvalho

Rosa Maria Martelo

Rosa Oliveira

Rui Ângelo Araújo

Rui Cardoso Martins

Rui Cóias

Rui Herbon

Rui Manuel Amaral

Rui Pires Cabral

Rui Ramos

Rui Vieira Nery

Rute Silva Correia

Ruy Ventura

Sarah Adamopoulos

Sérgio Godinho

Soledade Martinho Costa

Susana Gaião Mota

Sylvia Beirute

Tatiana Faia

Teolinda Gersão

Teresa Salema Cadete

Teresa Veiga

Tiago Cavaco

Tiago Patrício

Tiago Rebelo

Tiago Salazar

Valério Romão

Valter Hugo Mãe

Vasco Luís Curado

Vasco Pulido Valente

Vítor Aguiar e Silva

Vítor Oliveira Jorge

Yvette Centeno

 

Texto originalmente publicado a 7 de Maio.

A lista foi muito ampliada, mencionando agora 260 nomes

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Por outro lado

por Ana Vidal, em 14.05.16

Do tempo em que não havia esta proximidade física actual entre os escritores e os seus leitores. Era bem mais saudável essa distância higiénica, que evitava muitos equívocos e julgamentos inquinados.

Em alguns casos, por outro lado, que desperdício...

 

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(Foto do passaporte de Ernest Hemingway, 1923)

 

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Clarice Lispector

por Patrícia Reis, em 08.02.16

“O que não sei dizer é mais importante do que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também (…) Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranquilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever.”

 

Clarice Lispector in 'A Descoberta do Mundo'

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O profe de português do 1ºCC, turma G

por José Navarro de Andrade, em 28.01.16

À beira da reforma, o professor de português passava as aulas a olhar pela janela com supino enfado, enquanto tentávamos desbravar o texto que nos dera a ler – em silêncio! - durante a aula. Dúvidas? No fim. E no fim a campaínha apanhava-o já à porta da sala, prestes a desaparecer por entre os plátanos do pátio sul do Camões. Nesse ano de 75 as classes passaram a ser mistas e, entre outras novidades igualmente truculentas, o ar andava denso de hormonas. De tal modo a paciência de Vergílio Ferreira se havia esgotado que nem para se mostrar descontente tinha disposição. Era uma sombra de meio-dia que só desejava não ser importunada pelos estados de alma da época. Valia-nos que não se armava em pedagogo, nem concedia que o admirassem, pelo que também lhe fazíamos o favor de não lhe ligar. Anos depois, ao ler a “Conta Corrente” pareceu-me detectar uma referência à nossa azougada turma, numa frase suspirada como um encolher de ombros, mas sem pez pejorativo. Na verdade, a distância que Vergílio Ferreira nos impunha seria igual àquela que manteríamos em face de uma figura que sentíamos como imponente. Alguns de nós até havíamos lido os seus romances.

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Vergílio: a luz da escrita

por Pedro Correia, em 28.01.16

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«Não deixes que te abandone o milagre de escrever. Não deixes que a miséria do teu corpo escureça com a sua sombra a pequena luz da tua escrita.»

Vergílio Ferreira, Escrever

 

É confrangedor verificar a facilidade com que hoje se desfazem as bibliotecas familiares. Encontro vestígios dispersos destas colecções organizadas nos alfarrabistas que frequento e procuro recolher tudo quanto posso: não é raro encontrar pequenas pérolas desbaratadas por gente que não fazia a menor ideia do que deitava fora.

Anoto isto para realçar a importância das bibliotecas familiares na formação de quem teve o privilégio de beneficiar com elas. Recordo o respeito quase solene com que pela primeira vez entrei na biblioteca do meu avô, já era criança crescida, e como demorei os olhos a decifrar as letras das lombadas. Recordo o convívio familiar com os volumes acumulados na biblioteca do meu pai ("o escritório", assim chamávamos àquela divisão) e as longas horas que lá passei. Cada um daqueles livros era uma janela aberta sobre o mundo.

De início, era eu miúdo, o Pai incentivava-me a permanecer ali encarregando-me de uma tarefa que desempenhei com zelo: abrir as páginas dos livros que vinham por guilhotinar da tipografia, como naquele tempo tantas vezes sucedia. Exerci com gosto essa função durante alguns anos, sempre que um novo título ali entrava - e eram muitos, de vários géneros.

 

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Foi assim, munido de um corta-papéis com cabo de ébano, que tive pela primeira vez nas mãos uma obra de Vergílio Ferreira. O nome, Cântico Final, nada me dizia.

Mas senti uma curiosidade adolescente de espreitar as linhas iniciais. E logo essa prosa me arrebatou como se nenhuma outra eu tivesse lido até então.

«Por uma manhã breve de Dezembro, um homem subia de automóvel uma estrada de montanha. Ma­nhã fina, linear. O homem parou um pouco, enquanto o motor arrefecia, e olhou em volta, fatigado. Aqui estou. Regressado de tudo. Pelo vale extenso até a um limite de neblina, viam-se aqui e além indícios brancos de aldeias, brilhando ao sol. Que dia é hoje?

Pelos campos perpassava uma alegria estranha, tal­vez do sol e daquele fundo silêncio a toda a volta, sem uma voz repentina das que sobem e vibram nas manhãs de trabalho. E de súbito lembrou-se: para o fundo do vale, ouviu o dobre dos sinos do Freixo. Manhã de domingo, manhã de infância, sinos de ou­trora.»

 

Nunca me tinha acontecido com nenhum escritor, raras vezes voltou a acontecer: Vergílio Ferreira conquistou-me com aquelas primeiras linhas. Peguei no livro editado pela Portugália e percorri-o com a mesma sensação de enamoramento pelo nosso idioma que voltaria a sentir com todos os outros que dele fui lendo ao longo dos anos: Aparição, Manhã Submersa, Vagão J, Alegria Breve, Mudança, Estrela Polar, Nítido Nulo, Rápida, a Sombra, Para Sempre, Até ao Fim, Na Tua Face, Em Nome da Terra.

 

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Nem todos me conquistaram: Rápida, a Sombra e Nítido Nulo, por exemplo, sempre me pareceram romances falhados. Mas a sedução da prosa do autor de Escrever - que viria a prolongar-se na sua escrita ensaística e diarística, sem esquecer os contos - jamais deixou de me tocar.

Prosa poética, no mais profundo e visceral sentido da expressão, tantas vezes abastardada. Prosa limpa, límpida, luminosa. Prosa de um escritor maior, que nunca solucionou um conflito íntimo entre a razão e a emoção capaz de o sobressaltar a cada passo e que transparecia da sua escrita.

Prosa que não deixei de ler como um rito iniciático a esta língua que nos serve de traço identitário e nos elevou através dos séculos desde os humildes confins da tribo à nobre condição de povo.

Prosa incapaz de nos deixar indiferentes. E à qual sempre regresso em eventuais crises de inspiração. Vergílio Ferreira - cujo centenário hoje evocamos, como a Isabel Mouzinho já assinalou aqui - merece ser lido e relido. Felizmente tem uma editora apostada em tratar o seu espólio literário com o carinho e o respeito que merece: a Quetzal acaba de lançar as 1000 Frases de Vergílio Ferreira (obra organizada pelo nosso Luís Naves) e lançará em 2016 novos títulos da sua obra completa. Incluindo o segundo romance, Onde Tudo Foi Morrendo, com as alterações introduzidas pelo autor à versão inicial, da década de 40, e o "meu" Cântico Final, também há longos anos ausente dos escaparates.

 

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Falta fazer regressar Vergílio Ferreira aos programas escolares, como a Isabel justamente também reclama. Essa seria a melhor homenagem que o País oficial poderia prestar-lhe em ano de centenário (e do 20º aniversário da sua morte, ocorrida a 1 de Março de 1996).

Para que adolescentes sem acesso a uma biblioteca familiar, neste tempo em que a memória é encarada como um estorvo e nos iludimos a todo o instante com a fugaz eternidade do "presente", se deixem também hoje seduzir por esta prosa ímpar. Tal como aconteceu comigo quando tinha essa idade propícia a todos os encantamentos.

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Miguel Torga morreu há 21 anos (17-1-1995)

por Patrícia Reis, em 17.01.16
Aos Poetas
 
Somos nós 
As humanas cigarras. 
Nós, 
Desde o tempo de Esopo conhecidos... 
Nós, 
Preguiçosos insectos perseguidos. 

Somos nós os ridículos comparsas 
Da fábula burguesa da formiga. 
Nós, a tribo faminta de ciganos 
Que se abriga 
Ao luar. 
Nós, que nunca passamos, 
A passar... 

Somos nós, e só nós podemos ter 
Asas sonoras. 
Asas que em certas horas 
Palpitam. 
Asas que morrem, mas que ressuscitam 
Da sepultura. 
E que da planura 
Da seara 
Erguem a um campo de maior altura 
A mão que só altura semeara. 

Por isso a vós, Poetas, eu levanto 
A taça fraternal deste meu canto, 
E bebo em vossa honra o doce vinho 
Da amizade e da paz. 
Vinho que não é meu, 
Mas sim do mosto que a beleza traz. 

E vos digo e conjuro que canteis. 
Que sejais menestréis 
Duma gesta de amor universal. 
 
Duma epopeia que não tenha reis, 
Mas homens de tamanho natural. 
 
 
 
Homens de toda a terra sem fronteiras. 
De todos os feitios e maneiras, 
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele. 
Crias de Adão e Eva verdadeiras. 
Homens da torre de Babel. 
 
 
 
Homens do dia-a-dia 
Que levantem paredes de ilusão. 
Homens de pés no chão, 
Que se calcem de sonho e de poesia 
Pela graça infantil da vossa mão. 
 
 
 
Miguel Torga, in 'Odes'

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Penso rápido (38)

por Pedro Correia, em 06.08.14
Tornei-me ainda mais adepto do género epistolar desde que entrámos na era dos sms. Uma era que nos tem levado a uma rápida compressão vocabular. Fala-se cada vez mais rápido e cada vez de forma mais "económica": bastam algumas dezenas de vocábulos para assegurar a comunicação instantânea. Tudo muito básico, muito linear. Ano após ano, centenas de palavras entram definitivamente em desuso entre nós. Para combater esta tendência, nada melhor do que regressar a páginas já antigas, algumas até de livros com páginas amarelecidas pela erosão do tempo. Regressar aos romances de Eça de Queiroz, regressar ao Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Regressar aos diários de Miguel Torga, regressar à prosa diarística de Vergílio Ferreira, aos contos de José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires, aos versos de Sophia de Mello Breyner Andresen, aos inflamados panfletos de Jorge de Sena. Às cartas de todos eles.

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Só conta se for em inglês

por Pedro Correia, em 03.08.14

Devemos acautelar-nos contra estas listas. Provêm quase sempre do universo literário ou jornalístico anglo-saxónico, indiferente a tudo quanto não se publica em língua inglesa, e insistem em fazer-nos crer que nada existe fora desse idioma. A ausência de Marguerite Yourcenar (e das suas Memórias de Adriano) basta para retirar credibilidade a quem organizou este rol das vinte obras literárias mais influentes escritas por mulheres, a que cheguei via João Oliveira e o seu Sentido dos Livros.

Já nem falo de outras omissões incompreensíveis -- de Simone de Beauvoir a Isabel Allende, de Karen Blixen a Clarice Lispector. Mas o próprio universo anglófono está mal representado. Como é possível esquecer Carson McCullers, Virginia Woolf, Pearl S. Buck, Jean Rhys ou Patricia Highsmith? E se J. K. Rowling comparece não se entende de todo a ausência de Agatha Christie...

Enfim, digo destas listas o que os políticos dizem das sondagens: valem o que valem. Por vezes valem quase nada.

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Gabo a caminho de Macondo

por Pedro Correia, em 17.04.14

 

"Muchos años despues, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo."

Início de Cem Anos de Solidão (1967)

"El día en que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó a las 5.30 de la mañana para esperar el buque en que llegaba el obispo."

Início de Crónica de uma Morte Anunciada (1981)

 

Era um dos mais extraordinários prosadores de sempre em língua castelhana. Era uma das vozes literárias mais eloquentes e originais da América Latina. Era o expoente máximo daquilo que se convencionou chamar "realismo mágico".  Era um dos mais justos galardoados de que há memória com o Nobel da Literatura. Era a prova viva -- uma entre tantas -- de que o jornalismo constitui o melhor ofício para um candidato a escritor.

Edificador de sonhos, cultor do sortilégio da palavra escrita, criador de personagens inconfundíveis, Gabriel García Márquez partiu hoje numa viagem sem regresso a Macondo. Ao encontro de Malquíades e dos Buendía, de Ursúla Uguarán e de Santiago Nasar.  

Viveu para contar. Deixando-nos sem anos de solidão.

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Leituras para o resto do ano

por Pedro Correia, em 12.04.14

 

Numa das últimas passagens de ano, decidi que nos meses seguintes leria apenas clássicos da literatura. Foi uma boa resolução de Ano Novo, que de algum modo me disciplinou o habitual fluxo anárquico de leituras, canalizando-o numa direcção muito precisa.

Para 2014 voltei a impor uma regra a mim próprio: este ano praticamente só lerei autores galardoados com o Prémio Nobel. É uma forma eficaz de colmatar várias das minhas lacunas neste domínio. E de que tive consciência há cerca de meio ano, a partir de um diálogo a três vozes travado com uma leitora e um colega de blogue numa caixa de comentários do DELITO DE OPINIÃO.

Falava-se precisamente de escritores premiados com o Nobel quando me lembrei de contabilizar quantos destes autores já eu conhecia como leitor (valendo, nesta contabilidade, não simples trechos mas obras lidas do princípio ao fim). Apenas 27: tinha a noção de que seriam mais. No diálogo que então se estabeleceu fiquei a saber que ele já tinha lido 34 e ela 42.

Esta informação funcionou para mim como um incentivo suplementar. Daí à resolução de Ano Novo, foi um curto passo. Aliás iniciado ainda em 2013.

 

De então para cá li nove obras de autores que receberam o Nobel: Genitrix e Teresa Desqueyroux (ambas de François Mauriac), O Meu Século (Günter Grass), O Anão (Pär Lagerkvist), Platero e Eu (Juan Ramón Jiménez), A Oitava Mulher do Barba-Azul (Anatole France), A Noite (José Saramago), O Falecido Mattia Pascal (Luigi Pirandello) e Uma Questão Pessoal (Kenzaburo Oe).

Vários outros estão já em lista de espera: o ano promete ser de muitas e variadas leituras. Entretanto, os 27 nomes que constavam daquela minha lista aumentaram para 34.

E tudo começou com uma descontraída troca de impressões aqui no blogue. Às vezes é quanto basta para concretizarmos uma intenção que só aguarda afinal um bom pretexto para se tornar realidade.

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Não é o país dela, nem o meu, mas duvido que ele tenha percebido

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.04.14

"Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.” - Alexandra Lucas Coelho

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os amantes por Rubem Braga

por Patrícia Reis, em 22.12.13

 

Os Amantes por Rubem Braga

Nos dois primeiros dias, sempre que o telefone tocava, um de nós esboçava um movimento, um gesto de quem vai atender. Mas o movimento era cortado no ar. Ficávamos imóveis, ouvindo a campainha bater, silenciar, bater outra vez. Havia um certo susto, como se aquele trinado repetido fosse uma acusação, um gesto agudo nos apontando. Era preciso que ficássemos imóveis, talvez respirando com mais cuidado, até que o aparelho silenciasse.

Então tínhamos um suspiro de alívio. Havíamos vencido mais uma vez os nossos inimigos. Nossos inimigos eram toda a população da cidade imensa, que transitava lá fora nos veículos dos quais nos chegava apenas um ruído distanmte de motores, a sinfonia abafada das buzinas, às vezes o ruído do elevador. Sabíamos quando alguém parava o elevador em nosso andar; tínhamos o ouvido apurado, pressentíamos os passos na escada antes que eles se aproximassem. A sala da frente estava sempre de luz apagada. Sentíamos, lá fora, o emissário do inimigo. Esperávamos quietos. Um segundo, dois – e a campainha da porta batia, alto, rascante. Ali, a dois metros, atrás da porta escura, estava respirando e esperando um inimigo. Se abríssemos, ele – fosse quem fosse – nos lançaria um olhar, diria alguma coisa – e então o nosso mundo seria invadido.

No segundo dia ainda hesitamos; mas resolvemos deixar que o pão e o leite ficassem lá fora; o jornal era remetido por baixo da porta, mas nenhum de nós o recolhia. Nossas provisões eram pequenas; no terceiro dia já tomávamos café sem açúcar, no quarto a despensa estava praticamente vazia. No apartamento mal iluminado íamos emagrecendo de felicidade. Devíamos estar ficando pálidos,e às vezes, unidos, olhos nos olhos, nos perguntávamos se tudo não era um sonho. O relógio parara, havia apenas aquela tênue claridade que vinha das janelas sempre fechadas. Mais tarde essa luz do dia distante, do dia dos outros, ia se perdendo, e então era apenas uma pequena lâmpada no chão que projetava nossas sombras nas paredes do quarto e vagamente escoava pelo corredor, lançava ainda uma penumbra confusa na sala, onde não íamos mais.

Pouco falávamos: se o inimigo estivesse escutando às nossas portas, mal ouviria vagos murmúrios; e a nossa felicidade imensa era ponteada de alegrias menores e inocentes, a água forte e grossa do chuveiro, a fartura festiva de toalhas limpas, de lençóis de linho.

O mundo ia pouco a pouco desistindo de nós; o telefone batia menos e a campainha da porta quase nunca. Ah, nós tínhamos vindo de muito e muito amargor, muita hesitação, longa tortura e remorso; agora a vida era nós dois apenas.

Sabíamos estar condenados; os inimigos, os outros, o resto da população do mundo nos esperava para lançar olhares, dizer coisas, ferir com maldade ou tristeza o nosso mundo, nosso pequeno mundo que ainda podíamos defender um dia ou dois, nosso mundo trêmulo de felicidade, sonâmbulo, irreal, fechado, e tão louco e tão bobo e tão bom como nunca mais haverá.

No sexto dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares edifícios – que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho?

Entretanto, a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar: e assim três, quatro vezes sucessivas.

Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.

Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se os meus cabelos já tivesse o cheiro de seus cabelos, como se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nosso corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez que, sentado de frente para a janela, por onde filtrava um eco pálido de luz, eu a contemlava tão pura e nua, ela disse: “Meu Deus, seus olhos estão esverdeando”.

Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamsse outro; inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível como um lento bailado.

Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me, lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?

Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.

Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos, o homem fez um grande embrulho; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.

E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre se acabara; alguém viera e batera à porta e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo recibo de uma carta registrada e, quando o telefone bateu, foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre – senti que ela me disse isto num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo que não os via assim, em plena luz) um olhar de apelo e de tristeza, onde, entretanto, ainda havia uma inútil, resignada esperança

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Afinal porque se escreve?

por Pedro Correia, em 17.12.13

 

Porque se escreve? O que leva alguém a tornar-se escritor? Qual a atracção desta actividade tão intensa mas também tão desgastante e tão solitária? Uma das melhores definições que conheço sobre este tema foi expressa por um profundo conhecedor da matéria: o escritor espanhol Eduardo Mendoza, autor do celebrado romance A Cidade dos Prodígios. Ao receber há três anos em Barcelona o prestigiado Prémio Planeta, pelo seu livro Riña de Gatos: Madrid 1936 (há dias distinguido com o Prémio do Livro Europeu), Mendoza declarou o que o leva a sentir a irresistível pulsão da escrita: “Não escrevo livros com um objectivo definido: escrevo-os para ver como acabam.”

Excelente definição. Ainda mais saborosa por ser irónica. Ou por ser um misto de fingimento e confissão. Como nos ensinou Fernando Pessoa, num escritor não há distâncias entre fingimento e realidade.

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Nas brumas da memória

por Helena Sacadura Cabral, em 19.11.13


Doris Lessing, cujos livros acompanharam a minha juventude morreu há dois dias, com 94 anos. Em 2007, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura e então escreveu um belíssimo discurso que intitulou «Como não ganhar o prémio Nobel».

Falou de livros, do sonho de saber nos países pobres, da falta de interesse da juventude no mundo dos ricos. Falou sobretudo de África, do Zimbabwe que ela tão bem conheceu, recordou uma «aldeia onde a população não comia há três dias, mas onde se falava de livros e dos meios para conseguir obtê-los»; um autor negro, seu amigo, que «aprendeu a ler sozinho, nas etiquetas dos frascos de compota e das latas de conservas de frutos»; uma localidade perdida no mapa, onde dois jovens resolveram escrever romances na língua nativa (tonga); um jovem de dezoito anos que, ao receber uma caixa com livros oferecidos por um americano, os embrulhou cuidadosamente num plástico, com receio de que se estragassem, sabendo que dificilmente poderia voltar a receber outros.

O discurso é longo, pode ser lido em inglês ou em francês. Deixo aqui em português algo que resume bem o que ela pensava de quem escreve.

Há sempre um o “fazedor de histórias” escondido no fundo de cada um de nós. Suponhamos que o nosso mundo era destruído pela guerra, pelos horrores que todos podemos facilmente imaginar. Suponhamos que inundações submergiam as nossas cidades, que o nível dos mares subia… O narrador estaria sempre lá, pois é o nosso imaginário que nos modela, que nos faz viver, que nos cria, para o bem ou para o mal. São as nossas histórias que nos recriam quando estamos despedaçados, moribundos, ou mesmo destruídos. É o narrador, o fazedor de sonhos, o construtor de mitos, que é nossa fénix, aquilo que somos no melhor de nós mesmos, da nossa criatividade.

(entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt)

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Agustina Bessa-Luís faz anos hoje

por Patrícia Reis, em 15.10.13

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Alice Munro

por Pedro Correia, em 10.10.13

A canadiana hoje galardoada com o Nobel da Literatura só escreve contos, um género literário raramente premiado pelas academias. Está bem editada e bem traduzida entre nós, em português com todas as vogais e consoantes. Com estas seis obras, que estavam provavelmente recolhidas nos famigerados "fundos de armazém" e espero ver a partir de hoje nas montras das livrarias.

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Eles andam aí

por Patrícia Reis, em 27.09.13

O país tem mais escritores por metro quadrado do que soluções para a crise. Disso todos sabemos. Há sempre um amigo, um tio, um primo, um antigo colega que tem "um livrinho". Eu sou a pessoa mais burra do mundo, incapaz de rejeitar seja lá que livrinho, vou lendo, vou dizendo da minha justiça, sempre de forma correcta (acho!) e depois levo nas trombas. Ou seja, se ler um capítulo de um livro e apontar algumas questões pertinentes, recebo um email ofensivo e de um calibre que me desarma. Porquê? Por ser burra, claro. Pois, fiquei a saber que não sei ler, que acho muita coisa sem achar nada e que não sou digna de grandes alturas (seja isso o que for). Assim, sem mais demoras, aviso a navegação que a minha casa de edição, gratuita, com horas a ler alto manuscritos alheios, muitas vezes em situações pouco simpáticas, fechou as suas portas. Os meus amigos que são escritores são escritores, irão compreender isto muito bem. Os outros, por favor, não se ofendam, limitem-se a bater a outra porta. Parece-me que o escritor é aquele que não precisa de comer ou ter famíia. Está disponível, importa que esteja sempre disponível, caramba, há o bem maior do povo, por isso, o escritor que se faça à vida, mesmo que esteja muito doente, ou muito velho, ou muito qualquer coisa, que importância tem? Não, não, o escritor escreve, revê, opina, fala gratuitamente em escolas e bibliotecas, paga do bolso portagens e outras ninharias e, no fim, leva nas trombas. Como diria a minha avó: irra!

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As vozes da Natureza

A transparência do orvalho gemia no meu esquecimento de mim, tornava-me todo eu atenção ao saltitar das rãs amanhecendo na clara alegria do tanque grande.
O meu sangue cantava na ondulação das folhas da figueira.
Agora estou nascendo a toda a volta de mim no riso verde das searas, na brisa que se quebra contra a rude atalaia, sobranceira ao rio com seu açude e seu moinho árabe, e sacode as franjas de silêncio nos altos choupos onde as cegonhas fazem ninho, nos pegos de eu nadar quando a Páscoa aquece as águas.
E ouço os meus segredos mais secretos no gemer das oliveiras e chaparros, meus tão íntimos parentes. E a ternura das sombras estende-se, para lá do rio e das suas narcejas, pelos ermos da Deveza de São Brás até ao Guadiana.
A frescura do silêncio cai um instante sobre as lavradas e as folhas onde o meu ser se recria.
Comecei muito cedo a ouvi-las, as vozes da natureza.
Conheço-as desde que tenho memória de mim. Depois houve a doença, que me impedia de sair do «monte» e, quando melhorei um pouco, conseguiram que eu fizesse a primeira comunhão, mas nunca acreditei naquele inferno que me pintavam e continuei a fugir de casa e embriagar-me de luz, a correr ao lado dos rebanhos de vacas e ovelhas nesse meu regresso à natureza, de que me sentia pertença.
Foram o azul profundo das noites estreladas e o que o vento e as nuvens diziam aos meus ouvidos que fizeram nascer em mim palavras que depois naturalmente começaram a escrever-se.
Da pobreza e do sofrimento dos trabalhadores que me rodeavam só mais tarde me apercebi e senti a necessidade de lhes dar voz por entre as vozes da natureza e pela estrada da vida fui andando com eles no pensamento e nos actos.
Nas ruas de Lisboa e de outras cidades onde não entra o sol de Inverno, tapado por altos edifícios, experimentei a saudade profunda dos descampados alentejanos, das vozes do rio e da tristeza dos homens, dos seus cantares. Levei-os comigo para França e para o mundo, para as aulas que dei e até para as prisões onde os meus ossos enregelaram.
O livro é palavra de combate, mesmo quando não parece sê-lo, se apenas nos mostra os homens nas suas fainas e penas.
Assim continuarei sempre a escutar as vozes da natureza e a dar delas notícia.

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Um apartamento em Oslo

por José António Abreu, em 14.07.13

Em Oslo, 95 coroas (cerca de 11 euros) dão direito a uma visita guiada (o único género disponível) ao apartamento onde Henrik Ibsen residiu durante os últimos quinze anos da sua vida, na companhia da mulher, Suzannah. O apartamento fica no primeiro andar de um edifício situado defronte do parque do Palácio Real, tem cerca de 300 metros quadrados (grande, até pelos padrões actuais) e apresenta uma mistura de elementos originais e de elementos construídos para parecerem originais. De forma grosseira, pode dizer-se que virando à direita na entrada se atinge a cozinha, a casa de banho, o quarto da empregada e os quartos de Ibsen e de Suzannah, que seguindo em frente se acede às várias salas, e que virando à esquerda se vai ter ao estúdio onde Ibsen escrevia. Ibsen morreu em 1906 e o apartamento foi aberto ao público no ano em que se comemorou a passagem de um século sobre a sua morte.

 

A difícil relação de Ibsen com os seus concidadãos (ou, talvez mais correctamente, a difícil relação destes com as suas peças), reflectidas em dificuldades financeiras variadas, levou-o a residir quase três décadas em Sorrento, na Itália, e em Dresden, na Alemanha. Contudo, em 1891, gozando de enorme prestígio a nível europeu, regressou quase como uma lenda viva, o que, se pensarmos no assunto, aproxima bastante a mentalidade dos noruegueses de então à dos portugueses de sempre. Escreveu as suas últimas quatro peças no apartamento de Oslo, que visitei num domingo, ao meio-dia, acompanhado pela guia, por uma chinesa com tendência para o mutismo, por uma belga pouco faladora e por uma alemã bastante silenciosa. A chuva intensa que começara a cair meia hora antes tinha provavelmente qualquer coisa a ver com o facto de a afluência ser tão reduzida.

Começa-se pelo estúdio, onde não se pode entrar porque o piso (uma espécie de linóleo) é o original. Ibsen tinha a secretária junto à janela; escrevia de frente para as árvores do parque e quase directamente de costas para um gigantesco quadro retratando August Strindberg, o seu rival sueco. Ibsen comprara a pintura não por apreciar Strindberg (que passara de seu admirador a crítico feroz) mas por desejar sentir-se permanentemente desafiado. Começava a escrever às nove da manhã e parava às onze e meia, ainda que deixando uma frase inacabada. Gostava, aliás, de se interromper num período de inspiração porque isso lhe permitia recomeçar igualmente inspirado. Saía de casa e percorria umas centenas de metros até um café onde tinha mesa reservada. Lia o jornal, observava as pessoas. Embora constituísse motivo de curiosidade para muita gente, ninguém o abordava. Em 1900, depois do primeiro de três derrames cerebrais, tornou-se-lhe difícil percorrer o trajecto até ao café. O rei ofereceu-lhe então uma chave para o parque do palácio (hoje público), que podia visitar sempre que desejava.

 

Ibsen autorizara a colocação de um piano no apartamento mas detestava música, considerando-a uma distracção. Apenas a nora tinha autorização para usar o piano de forma regular. Até mesmo o compositor Edvard Grieg, que criou a música para Peer Gynt, tê-lo-á utilizado somente uma vez. Também há uma pequena biblioteca no apartamento mas, pelo menos nesta fase da vida, Ibsen não gostava de ler. Defendia que o realismo que buscava era encontrado observando as pessoas, não através da leitura. Era Suzannah quem lia. À noite, lia em voz alta para ele ouvir.

 

Em quase todas as peças a partir de Casa de Boneca se percebe como Ibsen detestava a hipocrisia da vida familiar e social: aquelas mentiras, aqueles ajustes, aquelas ideias feitas que, no fundo, então como agora, são a base da convivência humana. As suas últimas palavras (assumindo que, ao estilo de O Homem que Matou Liberty Valance – e como é estranho meter um western neste texto – a lenda não ultrapassou a realidade) são por isso mesmo perfeitas. Agonizando na cama após mais um ataque, aparentemente sem noção do que se passava à sua volta, reagiu às informações da enfermeira para um visitante, segundo as quais ele estava a melhorar, abrindo os olhos e resmungando: «Pelo contrário.» Voltou a tombar inconsciente e morreu no dia seguinte, 23 de Maio de 1906.

 

Qualquer pessoa pode poupar as 95 coroas (mais umas quantas para chegar a e sobreviver em Oslo) e encontrar esta informação na Internet (por exemplo, aqui, a partir de agora). E, contudo, é diferente ouvi-la no local, olhando para o retrato de Strindberg, ou para os livros, ou para a banheira, que a guia jura ser a original, recuperada depois de ter andado a servir de bebedouro para animais numa quinta algures, onde Ibsen tomava dois banhos diários (era um dos seus grandes prazeres), ou para os quartos, incrivelmente espartanos quando comparados com as restantes divisões da casa. Subitamente, que apenas sejam autorizadas visitas guiadas faz todo o sentido. E que nesta apenas se encontrassem uma chinesa com tendência para o mutismo, uma belga pouco faladora, uma alemã bastante silenciosa e um português que também pouco disse pareceu tornar tudo ainda mais perfeito. Vozes e risos e passos destruiriam o ambiente. Bom, que a guia não debitasse a informação de forma demasiado ensaiada e fosse uma norueguesa loura, com pouco menos de trinta anos de idade, pouco mais de um metro e setenta de altura (Ibsen, norueguês de outros tempos, media um e sessenta e um), corpo esbelto e sorriso pertencente àquela traiçoeira categoria de sorrisos que deixam um homem sentindo-se imundo quando se atreve a questionar-lhes a genuinidade, também terá ajudado. Olhando para ela falando com entusiasmo, não pude deixar de pensar que Ibsen estava certo: observar as pessoas ao vivo é extremamente agradável. Pelo menos certas pessoas.

 

Mas não era na guia que eu pensava ao passar de novo perto do piano e abandonar o apartamento. Bailava-me no cérebro a ideia pouco original (para quê entrar por caminhos desconhecidos?) de que todos os génios são simultaneamente indivíduos normais, com vidas chatas e apartamentos banais (ainda que com vistas bonitas), e pessoas contraditórias, frequentemente auto-destrutivas. No fundo, que todos os génios têm uma apreciável dose de loucura. (A de Strindberg, acrescente-se en passant, era ainda maior do que a de Ibsen.) Infelizmente para mim, nem o sol que entretanto surgira em Oslo me abriu esperanças de o inverso também ser verdade. Mas outra coisa talvez seja. No apartamento encontra-se a cadeira onde Suzannah morreu em 1914. Suzannah detestava a ideia de morrer deitada. Quando sentiu o fim aproximar-se (na velhice e na doença, é sempre a morte que se aproxima, não os humanos que se aproximam dela), passava as noites sentada na cadeira. Uma manhã não acordou. Se os génios têm invariavelmente uma dose considerável de loucura, os seus parceiros necessitam pelo menos de uma boa pitada.

 

Fotos pescadas no Bing (é proibido fotografar no interior do apartamento).

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Resistência activa ao aborto ortográfico (91)

por Pedro Correia, em 02.07.13

 

Escritores moçambicanos na diáspora

 

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Homenagear o que não se lê

por Pedro Correia, em 15.05.13

«Com as celebrações dedicadas a Aquilino Ribeiro no cinquentenário da sua morte, vai voltar a verificar-se uma situação deveras paradoxal. Estaremos a homenagear um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos, mas trata-se de um autor que ninguém ou quase ninguém das novas gerações é capaz de ler pela razão singela de que não percebe o sentido de muitas das palavras que ele utiliza.»

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«Eu vivi tanto / que me parece tão pouco. E hei-de morrer / desesperado

por não ter vivido.»

Jorge de Sena (1919-1978)

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«Supondo-se que a mentira tem uma história, seria ainda necessário poder contá-la sem mentir.»

Jacques Derrida (1930-2004)

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«A ternura é o dom que me comove, que me sustém, nesta manhã, em todas

as outras manhãs.»

Raymond Carver (1938-1988)

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«que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas / aves que são os segredos da vida / o que quer que cantem é melhor do que conhecer / e se os homens não as ouvem estão velhos»

e. e. cummings (1894-1962)

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«O estado nunca é tão eficiente como quando nos quer extorquir dinheiro.»

Anthony Burgess (1917-1993)

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«Os lugares onde não amámos nem sofremos nunca nos deixam recordações.»

Pierre Loti (1850-1923)

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«Uma página de boa prosa é algo invencível.»

John Cheever (1912-1982)

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«A alma está nos antípodas do corpo. Quando para ela amanhece, para ele

cai a noite.»

Juan Rulfo (1917-1986)

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«Um bom livro deve deixar-nos à beira da exaustão. Nós vivemos várias vidas enquanto lemos.»

William Styron (1925-2006)

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«A existência é esforço, desejo e dor.»

Giovanni Papini (1881-1956)

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«A vida é como uma peça teatral, mas com diálogos muito piores.»

Jean Anouilh (1910-1987)

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«Não há dinheiro na poesia nem poesia no dinheiro.»

Robert Graves (1895-1985)

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«Para nós, a terra é nua e plana. / Não há sombras. A poesia / Mais do que a música há de ocupar / O vazio de um céu sem hinos.»

Wallace Stevens (1879-1955)

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«A paciência é um misto de coragem moral e timidez física.»

Thomas Hardy (1840-1926)

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«O medo é sempre um péssimo conselheiro.»

Giorgio Bassani (1916-2000)

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«Toda a ordem é um acto de equilíbrio extremamente precário.»

Walter Benjamin (1892-1940)

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«O meu medo é que, num mundo completamente são, a loucura seja

a única liberdade.»

J. G. Ballard (1930-2009)

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