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Da Escrita

por Francisca Prieto, em 10.05.16

“Escreve, rapariga, escreve” dizem-me com a mesma ternura com que mandavam a outra pequena comer chocolates.

É verdade que a escrita consola, tal como os chocolates. 

Uma vez li que o chocolate contém uma substância semelhante à que o nosso organismo segrega quando estamos enamorados. Talvez a escrita espolete a mesma convulsão orgânica de prazer.

Comer chocolates é mais fácil do que escrever. É uma acção passiva que se conjuga no infinitivo, no conforto de um sofá. Escrever implica uma cirurgia invasiva a todas as nossas artérias sem qualquer tipo de anestesia. É a arte de escavacar bocados de nós para os organizar em narrativas coerentes.

Dizem-me que os grandes autores só escreveram grandes obras depois dos quarenta. Eu estou para fazer quarenta e cinco e não quero escrever nenhuma obra-prima. Mas gostava de estar pronta para escrever a minha história sem ser assim, aos bocados. Quadrado a quadrado, como numa tablete de chocolate.

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Trecho Para Um Livro Que Nunca Vou Escrever

por Francisca Prieto, em 02.02.16

Nos dias em que me faltas, ponho-me a parlapatar contigo na beirada da cozinha, como se estivesses aqui. Não te deixo descansar de tanto te querer dizer coisas. E tu a dizeres-me estou no Panamá, mulher, deixa-me estar sossegado. E eu na cegarrega, que gosto de ti, que queria era que estivesses aqui comigo, não era no Panamá, que é um país lá do outro lado do mundo, onde eu não chego, onde não te consigo tapar com um cobertor e dizer-te segredos ao ouvido.

Para o Panamá tenho de te berrar segredos que toda a gente fica a saber, que deixam de ser segredos de tanto serem gritados.

O Panamá é um país com nome de chapéu pindérico. Preferia que tivesses ido para o Peru, que sempre é um país com nome de almoço de Natal.

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Das agruras da escrita

por Francisca Prieto, em 01.02.15

"At the end of a miserable day, instead of grieving my virtual nothing, I can always look at my loaded wastepaper basket and tell myself that if I failed, at least I took a few trees down with me." 

David Sedaris em "Me Talk Pretty One Day"

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Epifanias

por João André, em 05.08.14

Sobre a lista que o Pedro referiu não tenho nada de especial a acrescentar. São escolhas pessoais e as razões para algo mudar a vida de uma pessoa podem ser fundamentais ou banais, o que acaba por explicar porque razão JK Rowling ali aparece (talvez por introduzir livros na vida de uma criança) mas Virginia Woolf não.

 

Aquilo que me intriga sempre nestes casos é a questão "Qual o X que mudou a sua vida?" Seja X um livro, um filme, uma viagem, uma aula ou algo do género, não consigo de forma nenhuma encontrar um X que tenha tido tal influência em mim. Consigo invocar pessoas, possivelmente viagens, reflexões. Um livro ou um filme, algo que é lido ou visto em duas horas ou dois dias não é capaz de despertar em mim tal epifania.

 

Claro, isto sou eu. Consigo imaginá-lo no caso de escritores ou cineastas, pessoas que se decidiram por um determinado caminho devido a um livro. Suponho que todos os escritores consigam encontrar num livro a razão por se terem decidido pela escrita. O meu caso é diferente. Sou engenheiro. Os livros são mundos de maravilhas onde me adoro perder, mas não me mudam a vida. Já cada vez que passo uma ponte...

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Uma longa apologia da apolitização pessoal

por João André, em 02.04.14

Ultimamente tenho tido trabalho em excesso e pouco tempo para escrever. Confesso: costumo escrever em pausas do trabalho, quando preciso de me desligar das minhas tarefas por uns minutos mas manter o cérebro a funcionar. Chegando a noite tento desligar-me completamente do trabalho. Leio, vejo um filme ou outro, faço desporto, leio umas notícias, ouço música, brinco no computador, passo tempo com amigos... Tenho também os meus momentos em que prefiro desligar o cérebro. Escolho livros muito simples, vejo (ou leio sobre) desporto, escolho filmes ou séries intelectualmente pouco estimulantes. E, peça essencial, evito ler jornais - especialmente a opinião - e blogues portugueses sobre política.

 

A razão é simples: Portugal vive neste momento um debate excessivamente carregado e ideologicamente marcado, mas pouco inteligente. Os debates são marcados por exercícios retóricos mas pouca reflexão. Há lugar para os mortais à rectaguarda e piruetas argumentativas. O spin de tudo o que se diz está na ordem do dia. Nesse aspecto Sócrates seria refrescante se não fosse o facto de eu ter pouca paciência para ele.

 

Os debates vivem um momento em que tudo o que for arma de arremesso é imediatamente utilizado. No passado a pessoa defendeu outra coisa, não importa se noutras circunstâncias ou se mudou de ideia?, usemos de imediato estas contradições ou flip-flop. A pessoa poderá ter um interesse pessoal, mesmo que apenas de passagem, na posição que defende? Sai um ataque ad hominem para a mesa dois. A pessoa defende uma posição de centro-(escrever aqui direita ou esquerda)? Ai Jesus que é um extremista.

 

Basicamente, a retórica portuguesa vive da lógica do espantalho: usa-se uma posição da pessoa a atacar para extremar o ponto de vista e agitar os medos de quem leia. Pessoalmente vejo isto como mais marcante na direita - liderada por um governo que aponta qualquer opção por abrandar a austeridade como convite ao despesismo - mas não faltam arautos na esquerda. Num lado ou noutro falta quem pense a política num contexto moderno e dê opções ideológicas aos (e)leitores.

 

Isto não é fenómeno português. Nos EUA terá começado com iniciativas concertadas por parte da direita conservadora, que apontou baterias à esquerda americana (que eu vejo como ideologicamente semelhante ao centro-direita europeu) numa acção concertada para extremar debates e atiçar paixões. A esquerda americana tentou seguir-lhe o caminho mas, coo sempre, de forma desastrada, extremando o discurso mas sem lhe emprestar valores ideológicos que o sustentem. Este caminho terá ajudado fortemente ao crescimento do fenómeno do Tea Party, o qual acabou a prejudicar mais a direita do que a ajudar. Na Europa a Economist comparou recentemente o PVV holandês, a FN francesa e o UKIP britânico ao Tea Party,  mostrando como um discurso simples, populista (embora extremista) e com bases ideológicas simples (mesmo que pouco convictas) pode ir destruindo a base de apoio dos partidos tradicionais.

 

Em Portugal, à falta de partidos semelhantes (o mais próximo seria o BE, mas que tem tentado ser sério, mesmo que pouco interessado no governo), o PSD e o PS têm acabado por assumir esses papéis. No PSD a facção coelhista (à falta de melhor termo) tomou o partido contra os poderes tradicionais. Baseou-se num apoio online que foi produzindo campanhas difamatórias constantes contra opositores internos e externos. Os seus apoiantes (ou funcionários, nos casos em que são pagos - a dinheiro ou em favores) foram abrindo fogo contra tudo o que se foi mexendo, argumentando que as posições atacadas são de extremistas ou de partes interessadas, ao mesmo tempo que defendiam posições elas próprias extremas.

 

O PS, por seu lado, reservou para si o papel do copiador desastrado, de quem não percebe toda a organização por trás dos ataques e copia-lhes apenas a forma, sem perceber os objectivos. Escolheu uma cabeça oca para líder, colocou uns quantos personagens a escrever em blogues e assim avança, sem qualquer estratégia. Com um CDS/PP cuja única estratégia é a da lapa sem ideologia agarrada ao poder, e uma esquerda que por um lado quer ser poder mas não mobiliza e por outro só quer o poder por via revolucionária, o resultado é um país de eleitores sem escolha e sem força. Apolitizado e anti-política que vai votando pouco e por inércia naqueles que soam mais barulhentos e sólidos.

 

Quando leio posts como o do Rui, tenho que discordar. Penso que ele não entendeu realmente as críticas a Hollande. A subida da FN deve-se de facto ao PSF ter deixado de ser de esquerda. Mais, deve-se ao total esvaziamento ideológico do PSF. Quando um partido de centro-esquerda abandona as suas bandeiras, o vácuo que se gera será ocupado por outros. No passado era-o por outros partidos socialistas ou comunistas. Hoje, com o trabalho de fundo que tem feito, a insistência numa mensagem simples e sólida mesmo que falsa, o FN é o partido que preenche o espaço deixado vazio.

 

Compreendo no entanto a argumentação do Rui. A confusão que este novo mundo do combate político sem ideologia tem provocado ao PS (e ao centro-esquerda pela Europa em geral) faz-nos pensar que é por causa do extremismo do discurso que a esquerda tem perdido o rumo. Não o é. O extremismo é apenas forma, não é conteúdo e, os eleitores quando informados devidamente, optam sempre pelo conteúdo. Num mundo que tem sido sistematicamente esvaziado de ideologia por uma direita tecnocrática (foi pelo lado da direita, mas pdoeria perfeitamente ter sido pelo lado da esquerda), a falta de conteúdo da esquerda perde perante o baixo conteúdo da direita.

 

Tal esvaziamento tira entusiasmo ao discurso e combate políticos. Deixa de ser um frente a frente entre opositores ideológicos mas simplesmente um combate de histrionismos onde o mínimo de bases sólidas vence. A população em geral, exausta pelas dificuldades financeiras - vindas de trás ou causadas por este governo - e pelo barulho de fundo desliga. Vai depois à urna - se não chover ou não estiver sol - e vota na mensagem que soar mais lógica. Depois volta ao sofá e liga a sua telenovela ou jogo de futebol, espera pelo beijo de Mauro a Márcia ou pelo golo de Ronaldo aos boches e reza para que o dinheiro chegue ao fim do mês.

 

E agora, após esta longa reflexão (que vale o que vale) tento fechar o círculo. Este cansaço extravaza fronteiras e atinge até aqueles que, não expostos ao ruído de fundo nem à (mesma) austeridade, tentam seguir o que se passa no país. É o meu caso. O cansaço começa a sobrecarregar-me e a impedir-me de seguir os desenvolvimentos. Com umas eleições aproximar-se, o barulho só terá tendência a aumentar. Por isso aviso que escreverei, sempre que o puder evitar, sobre outros assuntos que não política nacional. É uma demissão consciente das responsabilidades que sobre mim pesam enquanto cidadão (ou bloguer, se quisermos assim argumentar). Escreverei talvez sobre vida, viagens, desporto, televisão, cinema ou outros. Sobre política não. Os ataques que sofro nas caixas de comentários são também a mais. Não tenho a válvula de escape da discussão entre amigos com uma cerveja à frente. Não mata, mas mói.

 

Fica então a minha declaração de intenções: tentarei sempre que possível não escrever sobre política nacional. Se ceder à tentação, peço que me desculpem. Se a argumentação falhar será sempre porque a frustração se me terá sobreposto à lógica e à reflexão cuidada. Pelo meio tentarei compensar isso com mais posts sobre futebol. Afinal de contas aproxima-se um mundial e o ópio, se não resolve os problemas do povo, pelo menos ajuda a esquecê-los por um pouco.

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por aí

por Patrícia Reis, em 26.07.13

Leio que há trinta anos que não se consumia tão pouco.

Leio que a crise política não terminou e que a ministra das Finanças não devia aquecer o lugar.

Leio as regras da universidade para onde vai o meu filho mais velho, mil euros mais tarde.

Leio Amos Oz, por ter a graça de ter uma editora generosa.

Leio o livro de Vanda Anástacio, Antologia improvável, sobre a escrita das mulheres desde o século XVI até ao XVIII (edições Relógio de Água). Não mudou nada. Por muito que façamos um esforço, as mudanças são poucas e tudo é risco enorme.

Eu continuo a tentar. Seja lá isso o que for. Acho que aprendo às vezes. Outras tenho vontade de berrar com tanta estupidez junta.

Ao jantar, o meu filho mais novo não abre a boca, o mais velho age como os crescidos e eu tenho uma coisa no cabelo que não condiz com a minha idade, mas who cares?

Podia estar a escrever, a escrever um livro, a fazer tournees e a dizer coisas inteligentes, mas estou aqui por opção, por saber que sou um bicho do mato. Um bicho é uma criatura com algumas fragilidades e ataca antes de ser atacado.

Acho que é muito simples de entender. Para alguns, é impossível.

Eu sou impossível. E pior ainda por dizer que, tal como o Lobo Antunes, pois não escrevo como ninguém. Ninguém escreve ou se escreve é um copista, prefiro o original.

A falta de frontalidade e verdade perturbam-me.

A minha cabeça já só aguenta algumas coisas e ainda bem. Não tenho a menor paciência para a minha imagem no espelho e tão-pouco para os ditos amigos que me cobram as horas - sim, as horas - que não lhes posso dar.

O meu marido, muito calmo, sabendo que vive com alguém que é perigoso, que é desbocado, que precisa de dizer palavrões, não se incomoda. Creio que nada o incomoda. A morte, talvez. Temos tido muitas mortes. E muitas traições. Tentamos todos os dias falhar melhor, como escreveu o poeta, e até esta ideia está gasta.

O mundo é muito maior do que qualquer coisa que se possa deixar no rasto das redes sociais.

Nada disto tem qualquer importância. Está na minha cabeça e é para mim, nem sequer é para vocês. É um exercício de egoísmo. A escrita.

Como aquelas pessoas que abrem as janelas dos automóveis e colocam a mão para sentir o vento. O ritmo muda, a vida muda, o vento muda, o automóvel até pode parar. O pior é o pensamento.

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How to cry with words

por Ivone Mendes da Silva, em 29.04.12

No Público de hoje, Miguel Esteves Cardoso escreve uma crónica lancinante. Escolhi este adjectivo criteriosamente, porquanto todos nós desenvolvemos ao longo da vida aquilo a que gostaria de poder chamar a reacção semântica. Reagimos às palavras com preconceito. Eu tenho essa atitude, muitas vezes. Lembro-me de já ter escrito por aí o quanto detesto a palavra comiseração. Li, algures, alguém que dizia ter sentido comiseração pelas manifestações de um amor a que não podia corresponder. É horrível. A comiseração sente-se de cima para baixo, é um ai-coitadinho-tenho-tanta-pena-de-de-ti-mas-não-posso-fazer-nada-estou-aqui-muito-bem.

A comiseração implica uma enorme e detestável sobranceria. É preferível não sentir nada. Digo eu, claro.

Voltando ao lancinante da primeira linha. A palavra pressupõe um cortejo lexical de peso, de lágrima, alguma complexidade sintáctica ao nível da hipotaxe, uma escolha de palavras-setas que entrem em cheio nos olhos do leitor. Pois. Mas, quem muito bem escreve, não precisa da parafrenália gongórica habitual. Depura as palavras que jorram e elas caem sobre a folha reduzidas ao essencial que tudo contém.

Maria João piorou. Diz o MEC:

A minha pessoa é a Maria João e a Maria João passa mal. Nem o amor nem a sabedoria médica a podem salvar. Só a conjugação das duas coisas, mais um acrescento de milagre. O cabrão do cancro alastra-se. (...) Hoje, domingo, é o último dia em que estaremos juntos (...) amanhã logo às nove estaremos na consulta (...) onde nos avisarão das complicações possíveis. (...) Vai morrer o meu amor. Não vai. Como o meu amor por ela, nunca há-de morrer. As coisas acontecem sem acontecer o pensamento nelas. A alma, o coração e a cabeça são coisas diferentes. Que se dão bem. E são amigas. E deixam de ser quando morrem.


É assim que se chora com palavras. Fazer milagres com elas, não sei como é.

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