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Questão de acento

por Pedro Correia, em 15.11.17

Porque persistirão os nossos canais televisivos em escrever Zimbabué se todos os jornalistas pronunciam Zimbábue?

Custará assim tanto transferir o acento para a sílaba tónica?

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Pela não vulgarização das reticências

por Marta Spínola, em 26.05.16

Li ali, não interessa onde (foi no Facebook, pronto), uma pessoa defender o seu discurso pontuado exclusivamente por reticências com o argumento "é.. Para fazer... Pausas... Na conversa..."

Vamos lá a ver uma coisa: a gramática prevê pausas, chamam-se vírgulas e pontos finais. As reticências, para quem sabe ler, deixam uma ideia no ar, ou arrastam o discurso. Que ideia é esta de que são pausas? Se... Eu... Escrever um post... Assim... Isto não irrita ler?

De repente, há esta convicção de que pontuar tudo e um par de botas com três pontinhos está certo. Conta os três pontos de exclamação já, e bem, indignação. E este abuso das reticências? Ridículo, no mínimo.

Eu assumo que nem sempre ponho uma vírgula no lugar certo, se calhar faço parágrafos que podiam estar num só, mas... Esta... Coisa... Aborrecida... Das reticências... A... Fazer... Uma frase... Não, tenham paciência, mas as reticências eu sei bem quando usar.

As reticências são maravilhosas para a ironia e o sarcasmo, por exemplo. São óptimas para um flirtzinho ou uma picardia. Não as banalizem, se faz favor.

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Tudo o que o Lev levou

por Patrícia Reis, em 15.05.16

Fui ontem, sábado, às dez da manhã, de comboio em direcção ao Porto. Ao meu lado, Rui Tavares lia jornais e depois Claudio Margis, em jeito de preparação para uma mesa com o escritor. Vi a paisagem, li o Expresso de fio a pavio, o Público, a Sábado. Estava frio quando chegámos e a Teolinda Gersão congratulou-se com o casaco quente, eu feita parva limitei-me a imaginar o meu sobretudo, lá longe, no armário de casa. Almoçámos salmão grelhado e conversámos sobre coisas díspares. O Ricardo Araújo Pereira na Flip - incompreensível para alguém como eu -, a capa da visão com a Fernanda Cância e, agora é quase obrigatório, esta coisa de sermos habituais nos festivais literários. Não sou uma festivaleira convicta e nesta última década não estive em muitos festivais, facto que pelos vistos passa despercebido a algumas mentes iluminadas. É-me indiferente o que se diz, o que se publica na imprensa à laia de reportagem entristece-me, porém não é por isto escrevo. Ao fim de dez edições, o Lev, em Matosinhos, dá gosto. Porquê? Casa cheia, homens, mulheres, crianças, de idades diversas, pessoas que tiram um dia para ouvir autores a falar e, para mais, ainda têm perguntas. Regressei no comboio das 18h47 e vi a paisagem, li o resto do novo livro de Pepetela - se o passado não tivesse asas - e cheguei a Lisboa às 21h22. Sozinha, sem filhos ou marido nas imediações, apeteceu-me comer pipocas e fiz algo que não fazia há muito: fui ao cinema. Deram-me um bilhete que dizia fila J, lugar 17. Concluí que tal não existe, mas tudo bem, fiquei numa coxia vazia a ver o Money Monster, a perceber como tudo na televisão pode ser corrompido, virado do avesso, como a banalidade é triste e pouco edificante (Julia Roberts começa logo por dizer que ali não se faz jornalismo, o que seria). Saí antes da meia noite e não tinha ninguém com quem falar. Caminhei até casa e afaguei os cães, tomei banho, meti-me na cama com o computador e eis o ponto alto do meu dia: recebo uma mensagem que reza assim:

Vou ao Lev há já uns anos. Gostei de a ouvir. Gostei de perceber que há escritores sem merdas.

Fiquei a pensar nisso, na parvoíce da pergunta sobre a escrita feminina, na forma repentista como respondo e, por fim, na falta que me faz a grande Agustina, ela que disse tantas vezes que nada disto é para levar a sério.

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Milan, quem dera!

por Inês Pedrosa, em 12.05.16

Milan Kundera tem levado a vida a protestar porque críticos e académicos insistem em definir os seus romances como "políticos". Sobre A insustentável leveza do ser repetiu incessantemente - e com bons resultados - que se trata de "um romance de amor". O meu problema é exactamente o contrário: quando publiquei o meu penúltimo romance, que falava do 11 de Setembro, de uma iraniana fugida de Inglaterra para escapar de um casamento forçado, que em Portugal se vê obrigada a fugir dos que querem fazer dela uma Vítima Exemplar e do drama identitário dos filhos post-modernos de pais anónimos, entre outros assuntos políticos contemporâneos, a maioria da crítica descreveu-o como um romance de amor. A propósito desse romance, um jornalista perguntou-me, ultrajado: "Por que razão as mulheres preferem sistematicamente os homens casados?". O romance tinha, de facto, uma mulher que se apaixonava por um homem casado, mas creio que, de Tolstoi a Kundera, inúmeros escritores lhe poderiam explicar que o contrário também acontece, e que não há nenhuma estatística divina que faça desses casos um destino. Pedro Mexia declarou, na revista Ler, que eu me tenho ocupado a recuperar a "tradição" do "romance sentimental". A minha mãe gostaria que assim fosse, e creio que o fantasma de Bernardim Ribeiro também. Se ao menos eu pudesse sentar-me com Milan Kundera no café de Flore a trocar cromos: eu ficava com o rótulo do "romance político", ele com o do "romance de amor". E talvez assim lhe dessem finalmente o prémio Nobel que ele tanto merece e que, certamente por amor, lhe têm negado.

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um bilhete de avião chamado livro

por Patrícia Reis, em 20.10.15

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O meu tio-avô, homem de múltiplos talentos, deu-me os livros. Disse-me que podia viajar e conhecer o mundo sem sair de casa, a única ferramenta necessária não seria um bilhete de avião, mas um livro. Desde então ando com livros atrás, creio mesmo que há momentos na minha vida em que existem mais livros dentro do meu carro do que em muitas livrarias. Podia aborrecer-me e querer navegar nas redes sociais, prefiro um livro. Posso ir à Rússia, ao espaço, à terra do nunca e não tenho de sair do sítio, não preciso de fazer as malas. Acresce que ler é das poucas situações que, socialmente, nos protege. As pessoas tendem a não incomodar quem está a ler, têm um certo pudor. Fica-lhes bem e eu agradeço. Há alturas em que se decide seguir a máxima do filho, da árvore, do livro e quando se tenta escrever todos os outros livros se alinham na nossa cabeça, como um exército, e dizem: estamos aqui, estás a escrever, mas estamos aqui. Há uma esquizofrenia pura na escrita, digo-vos. Nada de gavetas padronizadas, o rótulo "normal" desfaz-se. Seja como for, ninguém é escritor sem ser leitor, portanto deixo o exército à porta e vou para dentro. 

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 22.09.15

«Escreve-se mal por muitas razões. As pessoas não lêem. Vêem analfabetos a falar na televisão. E de imediato escrevem sem pensar. Tudo isso redunda num naufrágio: as redes são um bar de analfabetos.»

Arturo Pérez-Reverte, no El Mundo

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Perpétuo Movimento

por José Gomes André, em 04.12.14

Nas últimas semanas tenho estado a escrever um artigo particularmente espinhoso. Tarefa entusiasmante, mas por vezes monótona e fatigante. Várias vezes pensei como seria quando terminasse: como festejaria a última frase, a última correcção, o envio do texto. Imaginei desde um cenário de euforia contida (que envolveria um copo de Martini e o último quarteto de cordas de Beethoven) até um festejo desmedido (que podia passar por uma noite bem regada).
Terminei hoje. Escrevi a última frase, fiz a última correcção, enviei o texto. Não senti nada. Talvez um bocadinho de sono. E fome. Dois problemas que se resolveram facilmente. Onde estava o desejo de festejar o feito? Onde estava o Martini, o quarteto de cordas? Nem sequer uma sensação de alívio. Nenhuma vontade, nenhum alento especial.
Estranha, esta forma que a vida tem de nos roubar o entusiasmo, e, ao mesmo tempo, de nos impelir a prosseguirmos.

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Título curto

por José António Abreu, em 12.11.14

Não sejas assim. Quantas vezes já aconteceu? Uma. Outra. Depois outra. E outra. E ainda outra. E mais outra. Não aprendes. És incapaz de aprender. Estás fora do tempo. Olha o Twitter. 140 caracteres. Nem mais um. Olha as sms. Frases curtas. Palavras abreviadas. Toda a gente lê até ao fim. E percebe. Excepto os velhos do Restelo. A esses as abreviaturas confundem-nos. Resmungam. Protestam. Dizem que o mundo está perdido. k patético. Mas pronto. São poucos. Vão morrendo. Se queres relevância, usa frases curtas. Sem vírgulas. De preferência. Fundamental é que sejam curtas. Arranja poder de síntese. Ideias também curtas, se necessário. Não te será difícil. Já o fazes com regularidade. Através de frases compridas. Aprende. Tudo curto. Que seja o teu mantra. Tens coisas curtas. As erradas. As que deviam ser compridas. Enfim. Tudo trocado. Esquece os parêntesis. E os travessões. Sê sucinto. Melhor: sê breve. Tem menos letras. Um ponto final por cada conjunto de quarenta caracteres. No máximo. Sim, quebraste a regra ao defini-la. És incorrigível. Depois ninguém te lê. As pessoas não querem frases compridas. Não querem frases com montes de orações coordenadas. Mal coordenadas. As pessoas têm dificuldades de coordenação. Têm de coordenar a vida profissional com a familiar. O horário do emprego com o dos transportes. As despesas com o rendimento. Também não querem sequências de orações subordinadas. Andam subordinadas todos os dias. Estão fartas de subordinarices. Sujeito. Tu. Ele. Cães. Gatos. Nada de hipopótamos. Ou de ornitorrincos. Letras a mais. Fala do Passos e do Costa. Esquece o Tribunal Constitucional. Demasiado comprido. Difícil de pronunciar. Cheio de velhos do Restelo. Verbo. Ser. Estar. Fazer. Ir. Vir. Tens sorte. São quase todos curtos. Complemento. Curto. Como os de ordenado. Excepto em certas empresas. E em certos cargos. Esquece. Mas curto. Evita adjectivos. Já o devias fazer nas frases longas. Evita advérbios de modo. Obviamente. Evita termos pouco comuns. Ainda que sejam curtos. Sê breve. Não conciso. Odeia. Não execres. Torna as pessoas felizes. Facilita-lhes a vida. Ler é cada vez mais difícil. O tempo aperta. A concorrência é enorme. O Facebook. O Instagram. A Casa dos Segredos. As opiniões do professor Marcelo. Frases curtas. Fundamental. Desde que não pareçam poesia. Ninguém lê poesia. Mesmo que tenha frases curtas. O que é frequente. A poesia é como o sexo oral. Não. Não posso explicar. Exigia uma frase comprida. Pronto. Está bem. Eu explico. E mostro como se pode ser sintético. Raios. Breve. Breve é que é. Mas então. Gosta-se do conceito. Aborda-se com ligeiro temor. Parece um mundo à parte. Uma lógica estranha. Uma forma errada de usar as palavras. Uma forma blasfema. Aprende-se a gostar. Mas há quem não consiga. E quem nem queira experimentar. Basta de analogias. As analogias fazem pensar. Não faças pensar. Afirma. Nega. Sê claro. Sê breve. Não te armes em intelectual. Os intelectuais são um cancro. Não te armes em político. Os políticos são outro cancro. Maior. Uma ideia tem de passar em poucas palavras. Repara no teu texto de ontem. O do cão. Ridículo. Todo ele. Mas em especial o comprimento das frases. Complicadas. Com derivações. Comentários. Repetições. Exageros. Tentativas de humor. Esquece. Frases curtas. Ou então desiste. Não se perde muito.

Ah. Mais uma coisa. Não basta que as frases sejam curtas. É fundamental que todo o texto o seja.

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carta II

por Patrícia Reis, em 10.11.14

Agora já posso escrever outra vez. Há o silêncio para isso. Queres que te conte o res . . .

http://expresso.sapo.pt/carta-ii=f893878

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Penso rápido (46)

por Pedro Correia, em 01.09.14

Tempo de liberdade condicionada: enchemos a boca com direitos proclamatórios mas vivemos rodeados de "correctores". Reparo agora mesmo: tenho um telemóvel que me "corrige" as palavras. Estou proibido de escrever face, uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa. O "corrector" emenda-a automaticamente para facebook. Algo que não tenho nem tenciono vir a ter. Volto à face, o aparelho volta a impor-me o face norte-americano. Não por acaso, o vocábulo já anda a ser pronunciado feice, entre nós, um pouco por todo o lado.

Liberdade condicionada: avança aos poucos, pé ante pé, e vai-nos cercando no dia a dia. Toma cautela com o que escreves. Há sempre um "corrector" para te emendar a prosa.

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Saber escrever, saber escutar

por Pedro Correia, em 02.08.14

 

O Joel Neto escreve aqui algo que há muito penso também sobre tradução: é infelizmente cada vez maior o número daqueles que entre nós cultivam a tradução literal de textos literários, à margem de considerações estéticas, como se estivessem a traduzir um relatório árido e burocrático. Sem entenderem, como o Joel salienta -- e muito bem -- no diálogo com um leitor na caixa de comentários do seu blogue, que "um livro inglês traduzido para português é um livro português. As únicas regras a que tem de submeter-se são as do português. Inclusive do ponto de vista melódico".

Não perceber isto é nada perceber de essencial nesta matéria.

 

Qualquer texto em português, ainda que possua matriz estrangeira, torna-se património da nossa língua. Com as suas particularidades, o seu ritmo, a sua semântica muito própria, a sua inconfundível eufonia. Porque cada idioma tem a sua própria cadência musical. Não sabe escrever quem não sabe escutar.

O sujeito elidido ou subentendido é uma dessas características que conferem subtileza ao nosso idioma. Enquanto noutras línguas, designadamente o inglês, as regras determinam a menção expressa do sujeito, a nossa regra impele-nos à omissão do nome ou até do pronome assim que ele nos tenha sido apresentado.

Um exemplo básico:

"Clara went away. She left everything behind."

Não faz sentido traduzir este trecho assim:

"Clara foi embora. Ela deixou tudo atrás de si."

Mas já fará sentido traduzi-lo desta maneira:

"Clara partiu. Deixou tudo para trás."

 

 

A propósito, não sei se já repararam. Esta é uma das maiores diferenças entre os diálogos pretensamente "naturais" ou "realistas" das telenovelas e os diálogos da vida real:

- Ó João, vamos sair esta noite?

- Não posso, Maria. Tenho que trabalhar.

- Ó João, mas tu tinhas prometido...

- Eu sei, Maria. Mas não posso mesmo.

São duas pessoas lado a lado num sofá (nunca falta um enorme sofá em qualquer telenovela). Tudo muito solto e despachado. Único problema: ninguém na vida real fala assim. Quantas vezes mencionamos o nome da pessoa que se encontra ali em casa, à nossa frente, trocando connosco umas frases banais do quotidiano?

Estamos perante um truque retórico que os autores dos guiões utilizam para ajudar os espectadores a memorizar o nome das personagens. Mesmo à custa da verosimilhança que dizem cultivar com esmero e afinal desmentem em cada frase.

 

A tradução literária, quando é competente, não se ocupa apenas do idioma: ocupa-se da qualidade da escrita. Não numa pretensa fidelidade à letra original levada ao extremo, mas na fidelidade ao espírito do autor para melhor o reproduzir no texto traduzido.

É aliás neste sentido que se diz com frequência que As Minas de Salomão, de Henry Rider Haggard, "ganharam" qualidade literária na célebre tradução de Eça de Queirós. Ou, em sentido inverso, ainda hoje nos chegam os ecos da tradução francesa do romance A Selva, de Ferreira de Castro, feita por Blaise Cendrars -- que alguns garantem ser superior ao original.

 

Como é frequente dizer-se, o tradutor trai. É um facto. E ainda bem: nunca nenhum texto, ao ser transposto para outro idioma, será traduzido de forma competente através de uma simples colagem de vocábulos.

Costumo ilustrar isto com títulos de filmes. Nunca saberemos quem se lembrou de traduzir Gone With the Wind por E Tudo o Vento Levou, algo muito mais intenso e radical. Mas devemos estar gratos a tal pessoa. Porque o título português, que se tornou uma expressão idiomática, faz sentido no contexto e adequa-se ao conteúdo. "Levado (ou levada?) pelo Vento", tradução literal na voz passiva, deixa-nos tão indiferentes como se estivéssemos a contemplar uma parede de tijolos.

E nunca poderemos agradecer bastante a quem se lembrou do título Bem-Vindo, Mr. Chance para baptizar em português a obra-prima de Hal Ashby protagonizada por Peter Sellers. Ao ponto de não faltar quem garanta que o título original deste filme de 1979 é "Welcome, Mr. Chance".

Não é: chama-se Being There.

Mas algum de nós guardaria dele tão boa memória se algum burocrata de turno, como se recebesse um relatório para traduzir, lhe tivesse chamado "Estando Ali"?

 

Em cima: fotograma do filme Bem-Vindo, Mr. Chance

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Combate ao lugar-comum

por Pedro Correia, em 08.05.14

 

Em jornalismo, muitas vezes, a melhor regra é não haver regra. Voltei a pensar nisto há dias, depois de ler na imprensa um chorrilho de confrangedores lugares-comuns a propósito da recente morte de Gabriel García Márquez. Parecia um concurso de clichês, qual deles o pior.

Até que peguei na revista Veja, que raras vezes me decepciona. E leio enfim um obituário imaginativo sobre o grande escritor colombiano. Que começa assim:

«Passados muitos anos, diante da notícia da morte do escritor, seus leitores haveriam de recordar o dia em que Gabriel García Márquez os levou a Macondo e os apresentou aos Buendía, uma estirpe trágica condenada a 100 anos de solidão, e cujos membros eram propensos aos mais estranhos fins - um ancião da família fundiu-se à vegetação do quintal, uma moça reclusa em um convento fugiu voando, alçada por borboletas, um bebê com rabinho de porco foi carregado por formigas.»

Brilhante paráfrase, afinal, do parágrafo de abertura de Cem Anos de Solidão. Uma fórmula imaginativa a que chegaram os autores da prosa, Jerônimo Teixeira e Rinaldo Gama. Numa lógica de combate ao lugar-comum.

Confirma-se: a melhor regra é não haver regra alguma.

 

Texto publicado inicialmente aqui

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Quanto vale um secador de cabelo?

por Rui Rocha, em 23.04.14

 

Gabo já tinha publicado algumas obras. Apesar disso, a vida corria-lhe com aperto, restrições e penúria. Naquele ano de 1967, consumia-se no esforço de encontrar editor para o novo livro. As portas, todavia, mantinham-se fechadas. Que era demasiado longo. Que não era aquilo que as pessoas procuravam. Por essa altura, na Argentina, Luis Herss concluíra um ensaio sobre os dez escritores mais representativos da, assim se dizia, Nova Literatura. É possível que no mesmo momento em que Herss abriu a porta do gabinete de Paco Porrúa para lhe apresentar o seu trabalho, a milhares de quilómetros dali mais uma porta de um editor se estivesse a fechar na cara de Gabo. Servir-lhe-ia certamente de consolo saber que alguma coisa, chamemos-lhe providência, se tinha já posto em marcha para alinhar os cordelinhos que vão tecendo o futuro em proveito do seu enorme talento. Todavia, esse ainda não era o tempo de Gabo. Para já, a única certeza que tinha era que aquele livro tão grande era um grande livro. Tudo o resto, era angústia. Paco Porrúa, esse conhecia já nove dos dez escritores referidos por Herss. Quis conhecer o décimo. As rodas dentadas da engrenagem que levariam Gabo ao sucesso continuavam a mover-se lentamente. O contacto com Porrúa foi estabelecido, apesar das dificuldades. Os trâmites burocráticos foram vencidos. A certa altura, a luta de Gabo pela publicação do novo livro estava à distância do envio do manuscrito pelo correio. Uma e outra vez tomamos o sucesso pela sua manifestação no momento em que se concretiza. Como se não houvesse caminho, pedras para desviar, dúvidas, escolhas dolorosas, fracassos e redenções. Para um escritor a quem a roda da fortuna ainda não tinha favorecido, o envio de um manuscrito com centenas de páginas pode constituir um escolho quase insuperável. O custo do correio, do México para a Argentina, pode ser bem mais do que aquilo que alguém pode pagar quando no bolso tem apenas a fórmula mágica que permite dar sentido às palavras e desorganizar o mundo. Foi preciso escolher. Para reduzir o custo, o manuscrito seria dividido em duas partes. Seguiriam os primeiros dez capítulos num primeiro envio. Depois, logo se veria. Mesmo assim, era maior o peso da encomenda do que os pesos mexicanos que Gabo tinha na carteira. Mercedes ficaria sem secador, vendido em estado de necessidade a alguma vizinha para completar a importância necessária. À saída dos correios, Mercedes não pode evitar um comentário: olha, Gabo, agora só faltava que a novela não prestasse... Ao que parece, com a atrapalhação própria de quem pressente um encontro com a história, no momento do envio Gabo trocou os volumes e acabou por seguir, por engano, a segunda metade do livro. Tal não impediu que Porrúa assumisse definitivamente as rédeas do futuro e que acelerasse os passos necessários à publicação. O que lera bastara para se convencer de que estava perante uma obra prima. Agora que Gabo perdeu a memória,  podemos até duvidar que as coisas se tenham passado exactamente assim. Mas, se apreciamos o realismo mágico da escrita, não há motivo para não acreditar que a magia da realidade tenha sincronizado o espaço, o tempo e estas circunstâncias nos dias que precederam a publicação de Cem Anos de Solidão. E que o facto de o livro não se ter perdido com a memória do seu autor se deve, em boa parte, ao valor em pesos mexicanos do secador de Mercedes. 

 

* republicado.

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realidade versus ficção

por Patrícia Reis, em 30.01.14

De uma forma perigosa, a relidade confunde-se e supera a ficção.

Recolho histórias que são bizarras, absurdas, medonhas, de partir e congelar o coração.

Tudo isto para um livro que talvez venha a ser, ou nem por isso. Nunca se sabe.

A maioria das histórias não as posso escrever, a realidade tem um peso suplementar que não co-existirá bem no preto e branco. Há ideias que deveriam ser deixadas de lado, já sei. Mas sou tão teimosa que insisto.

Já nem digo:

 

Irra!

 

ou

 

Cruzes!

 

ou

 

Meu Deus!

 

Neste mundo onde agora me movo, como jornalista de investigação que, afinal, acho que não deixarei de ser, qualquer expressão de pasmo é inútil. Absolutamente inútil. Perguntam-me:

 

Mas andas a fazer o quê?

 

Posso garantir que ando pelos degraus do inferno. Se, um dia, o livro sair, contarei tudo, contarei mais. Agora não posso, não consigo. Estou de tal forma espantada e zangada que me sinto incapaz de discutir o Governo, as praxes, o Hollande, a bola, o fisco, os cortes, a troika, a imprensa, seja o que for. Há momentos na vida em que o prioritário é mesmo prioritário e resume-se a isto: sobreviver.

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Afinal porque se escreve?

por Pedro Correia, em 17.12.13

 

Porque se escreve? O que leva alguém a tornar-se escritor? Qual a atracção desta actividade tão intensa mas também tão desgastante e tão solitária? Uma das melhores definições que conheço sobre este tema foi expressa por um profundo conhecedor da matéria: o escritor espanhol Eduardo Mendoza, autor do celebrado romance A Cidade dos Prodígios. Ao receber há três anos em Barcelona o prestigiado Prémio Planeta, pelo seu livro Riña de Gatos: Madrid 1936 (há dias distinguido com o Prémio do Livro Europeu), Mendoza declarou o que o leva a sentir a irresistível pulsão da escrita: “Não escrevo livros com um objectivo definido: escrevo-os para ver como acabam.”

Excelente definição. Ainda mais saborosa por ser irónica. Ou por ser um misto de fingimento e confissão. Como nos ensinou Fernando Pessoa, num escritor não há distâncias entre fingimento e realidade.

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As "nossas" histórias

por Helena Sacadura Cabral, em 24.08.13
«A ideia de que todo o escritor escreve forçosamente sobre si mesmo e se retrata nos seus livros é uma das puerilidades que nos foram legadas pelo Romantismo (...) As obras de um homem retratam muitas vezes a história das suas nostalgias ou das suas tentações, quase nunca a sua própria história, sobretudo quando se pretendem autobiográficas. Nenhum homem ousou jamais pintar-se tal como é
Albert Camus

Hoje perguntaram-me se escrevo sobre mim. Também, respondi. Mas, acrescentei, escrevo sobretudo sobre o que vejo e o que oiço, que é bem mais interessante.
Quando me sentei à secretária para trabalhar, dei com a transcrição feita acima, que foi retirada pelo Pedro Correia de um livro de Marcelo Mathias. Como gosto dos três, lembrei-me da conversa que acabara de ter e sorri por causa da coincidência (que a Margarida Rebelo Pinto diz não existir, e é capaz de ter razão).
Não sendo, como é evidente, nem escritora - costumo dizer que sou escrevinhadora - nem comparável a Camus nem a Marcelo, ou mesmo ao meu querido Pedro, aquilo sobre que "peroro" tem muito pouco a ver com a minha história pessoal. Tem, sim, a ver com o meu olhar sobre o que me rodeia, o que , parecendo ser o mesmo, é, de facto, bem diferente. O que eu vejo, o que eu oiço, o que eu penso, não é o que eu vivo. O que eu vivo vai muito para além do que escrevo e, em certas ocasiões, vai mesmo para além de mim própria.
Talvez seja por tudo isto, que nunca publiquei um romance, apesar de ter dois quase escritos e o meu saudoso Mário Castrim me ter incitado a fazê-lo...

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A terceira linha

por Pedro Correia, em 21.08.13

Preparo-me para iniciar a leitura de um romance de John Le Carré que não conheço: O Gerente da Noite. Penso, antes de abrir o livro: nas primeiras linhas, o autor vai situar-nos num local concreto - um país, uma cidade.

Começo a ler. Página inicial, terceira linha: já estamos em Zurique, no hotel Meister Palace.

Estas pequenas previsões serão tão mais bem sucedidas quanto maior for a nossa experiência enquanto leitores.

Sendo Le Carré um escritor que leio há 30 anos, tenho a obrigação de conhecer algumas das suas características fundamentais. Uma delas - na linha de outros autores que muito aprecio - é fazer da topologia um ingrediente essencial dos seus romances.

Nas obras deste escritor o cenário é sempre determinante: tem clara influência no perfil das personagens, moldando-lhes as características, e no desenrolar das situações. Seja em Berlim, em Hamburgo, em Hong Kong, no Panamá, na Cornualha ou no continente africano, sabemos de antemão onde situar as cenas. E quanto mais cedo melhor.

Diz-me onde estás, dir-te-ei que riscos corres ou farás correr, que luzes e sombras se atravessarão no teu caminho.

Há muitas maneiras de escrever romances. Esta é uma delas. No princípio era o topos: toda a abstracção geográfica sucumbe ao claro enunciado desta terceira linha.

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Da tal angústia, meu velho

por Gui Abreu de Lima, em 27.01.13

 

 

Aqui, da Lisboa onde me encontro, que em sorte me calhou este romântico Chiado e uma rua que acaba em rio azul – que meu braço atirado à janela lhe sente a aragem e os olhos míopes me enervam, que não distinguem o que vai nos azulejos que meu vizinho da frente exibe desde o tempo da senhora D. Maria II – sinto-me muda de palavras, essas mesmas que respeito não conhecem, se esgatanham todo o tempo cá por dentro e chegam quando bem lhes apetece. Tenho quilómetros delas e tantas vezes duvidei que fossem minhas. Impossíveis de tanta força. Densas como nunca fui, leves como horas bem passadas. Gozam que nem perdidas, como se fossem donas de todas as avenidas. Ohh, e rimam. Quem manda em ti, sou eu, segredam elas. Engraçadinhas. Quantos estragos já provocastes? Tendes noção? Claro que não. Desgraçadas. Sabem que tenho de escrever à sexta-feira, que a sensação é a de não ter eira nem beira. Aqui, deste Chiado onde me encontro, turvou-se o céu de uma noite que promete, acedem-se todos os candeeiros, e eis-vos, a bailar sem passo certo. Pára com a dança. Agora, nem que queiram, vos soletro. Tenho o meu orgulho e não aturo. Se me der, sou bem capaz de aprimorar uma nova Língua, outro alfabeto. E vós, nem para eco prestarão. Pois se é esta a resposta que dão. A nega, a tampa... ingratas! Logo agora. Quando preciso mais de vós. Ficai. Falai sozinhas, como loucas, presas, encurraladas nas vossas bocas. Eu já me vou. Ah! Não. Agora é tarde. Escusais de ensaiar alarde. Tende um riquíssimo fim-de-semana.

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Coluna vertebral

por Pedro Correia, em 08.01.13

 

Miguel Esteves Cardoso é um dos melhores cronistas portugueses - um dos últimos resistentes da coluna vertebral em letra impressa, dotada de um imaginário muito próprio e de uma sintaxe inconfundível. Cada um dos seus textos contrasta em absoluto com a tendência, cada vez mais generalizada nos nossos periódicos, de divulgar opiniões que funcionam como ecos de outras vozes, em reprodução mecânica das agendas mediáticas, incapazes de transcender a espuma dos dias.

Reparem na crónica do Público que transcrevo acima: é o exemplo perfeito de um texto que só podia ter saído da pena dele. Ensina sem ser didáctico, faz-nos divagar, desperta-nos um sorriso, sabe interpelar-nos, consegue de súbito comover-nos com uma frase irrepetível. Mantém o gosto de contar uma história e, através dela, estabelece teias de discreta cumplicidade com quem o lê - sem sombra de presunção ou solenidade. Escreve com o assombro de quem se sabe tocado pelo dom da escrita e não se considerasse inteiramente digno desse dom. Escreve como se cada crónica dele fosse sempre a primeira. Ou a última.

Ao lê-lo, subimos um degrau. Ou dois. Quase sem nos apercebermos, como se fosse a coisa mais natural do mundo, damos por nós situados num patamar superior. E é também por isso que vamos ao encontro do milésimo texto dele com a certeza antecipada de que nos surpreenderá. Como se nunca o tivéssemos lido antes ou não conhecêssemos o seu nome de lugar algum.

(via Pedro Rolo Duarte)

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tudo o que a escuridão te diz

por Patrícia Reis, em 19.12.12

Podemos ficar apenas em silêncio, os corpos a virar na cama, ajeitar os lençóis, depois as almofadas, uma súbita vontade de ir à casa de banho, regressar, puxar o corpo para a cama como quem arrasta uma rede cheia de peixes, um esforço adicional para encolher as pernas, a posição fetal e o teu corpo a milhares de quilómetros, o teu corpo a mexer-se também, a respiração menos profunda, sinal de que estás tão acordado quanto eu, não dizes nada, mas encolhes o braço e voltas a esticá-lo, tocas na minha anca, um toque acidental e, de imediato, a mão desaparece no escuro e os segundos são a agonia do amor na escuridão quando não se quer dizer o que temos para dizer. Se, de repente, a luz invadir o quarto não te irás reconhecer nos meus olhos e isso - só isso - será a mão divina que tudo esclarece, como um espelho de radiografias emocionais. O amor foi-se. A escuridão apenas esconde a verdade. Não me digas que não.

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A importância do primeiro parágrafo

por Pedro Correia, em 18.04.12

É o maior desafio para qualquer jornalista: como agarrar o leitor logo nas primeiras linhas? Há técnicas clássicas que se desenvolveram para focar a atenção das pessoas num texto, seduzindo-as com o estilo e o conteúdo. Um desafio estimulante, diga-se. E tanto mais estimulante quanto é certo que a capacidade de concentração da generalidade dos leitores contemporâneos está cada vez mais diluída. A estética de videoclip, o culto do zapping, as mil e umas artimanhas da linguagem publicitária, as centenas de canais televisivos ao dispor de cada um, as mensagens de telemóvel que a todo o momento nos assaltam e a magia da Internet tornam-nos seres dispersos e errantes. A ninguém sobra hoje tempo nem paciência para ler textos de jornal que se estendem por várias páginas. A comunicação moderna tem requisitos bem específicos neste domínio.

Mas não seria assim também noutras épocas? Na sua memorável comédia A Primeira Página, escrita há oito décadas, os dramaturgos norte-americanos Ben Hetch e Charles MacArthur centraram toda a acção numa redacção de jornal – daquelas bem antigas, cheias de fumo e com garrafas de uísque em cima das secretárias. O director do Chicago Examiner, Walter Burns, pede ao mais conceituado dos seus repórteres para lhe ler o parágrafo de abertura da prosa que tem na máquina de escrever. Não gosta nada do que ouve, perguntando-lhe por determinado pormenor. “Isso vem no segundo parágrafo”, esclarece o repórter. “E quem diabo vai ler o segundo parágrafo?”, dispara o director.
Tantos anos depois, este é um dilema que permanentemente nos assalta: quem acabará por ler os segundos parágrafos de cada texto nosso?

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A escrita ao negro

por Ivone Mendes da Silva, em 27.01.12

Ontem dei uma volta por zonas da blogosfera onde raramente vou. Há uns blogues engraçados, de gente transbordantemente feliz. Têm templates clarinhos e belas frases de fabrico em série, mostram as mesas bem postas, as flores, os passeios e uma ostensiva perfeição que me faz murmurar Cesário: "Como é saudável ter o seu aconchego/ E a sua vida fácil."

Ao lado, estão os outros, os noir. Tristezas de porcelana tratadas com a ponta dos dedos, desencantos irremediáveis, impaciências várias sacudidas com gestos bruscos.

A felicidade é boa para a vida, mas não o é para a escrita. Nunca terá as potencialidades estéticas do desencanto e do seu séquito de amarguras variadas.

Há lá melhor coisa do que uma tristeza bem contada?

 

(excerto final de um post na minha Ronda)

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Balanço de Natal

por Ana Vidal, em 06.01.12

De todos os Natais

aquele distante

com cheiros de musgo e doçuras fritas

de subir ao céu da boca

e espelhos no presépio que eram lagos

e um trio de reis que avançava

todos os dias mais um passo

até chegar ao rei-menino

E eu sofrendo com eles a viagem

e eu oferecendo também

o meu ouro mouro

a minha mirrada mirra

o meu incerto incenso

à espera do retorno

 

De todos os Natais

aquele outro

um brilho nos olhos como nunca antes

como nunca mais

e os mais belos cânticos a nascer todos de mim

e o poder do mundo na minha mão

porque um outro menino

só meu ainda

se agitava na sua concha

o meu íntimo mar

 

De todos os Natais

o que virá um dia

quem sabe um dia

Aquele que me falta

para dizer Natal

sem dizer Eu

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Regras para bem escrever

por José António Abreu, em 06.09.11
No Ouriquense. Fazem sentido, difícil é (raios, violação da #32! (coriscos, violação da #36)) segui-las.

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Mainstream, high tech and so on

por Pedro Correia, em 16.09.10

 

Há hoje uma forma de escrever nos jornais que abastarda a língua portuguesa e dificulta a compreensão dos textos, tornando o acto de comunicar por escrito uma tarefa apenas para iniciados. Refiro-me à invasão descontrolada de vocábulos importados da pátria do Tio Sam, a coberto de um certo jargão “económico” ou “cultural”, que transforma muita prosa numa espécie de crioulo luso-americano, cada vez mais indecifrável para uma camada vastíssima de pessoas.

Com isto afugentam-se os leitores em percentagens crescentes, como se tem visto nos últimos anos. Não perceber isto é não perceber nada de essencial do acto de comunicar – que deve ser claro, conciso e compreensível.
Para se entender melhor a que me refiro, fica um exemplo concreto de um artigo de duas páginas inserido num jornal e assinado por um conhecido jornalista “cultural”. Em certos trechos, que passo a transcrever, aposto que nem ele próprio saberia muito bem o que estava a redigir:

- “Nem é preciso recuar aos tempos de Frank Sinatra e da sua rat pack.”
- “Tão poucos anos e o cool já se gastou.”
- “A série está agora mais high tech.”
- “Parecem todos guest stars do seu próprio filme.”
- “Provavelmente se captou que era o mais disponível para exorcizar este pacto com o entertainment.”
- “O cinema que explorava novos caminhos era também o cinema mainstream.”

- “Em tempo de promoção de uma sequela não se espera que alguém declare morta a franchise.”
“Não é o 13 que é um número azarado, o cool é que já não pode ser o que era.” (Frase de abertura)

Se ler cansa e confunde, transcrever é ainda mais penoso. Desculpem lá, mas agora vou fazer uma pausa. Comigo o cool já se gastou. Seja lá o que isto queira dizer.

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"No trates de escribir bonito"

por Pedro Correia, em 24.04.10

 

Um dos melhores conselhos, em matéria de técnica de escrita, foi dado certa vez pelo escritor e pedagogo colombiano Tomás Rueda ao jovem Eduardo Caballero Calderón, que na década de 30 do século XX ensaiava os primeiros passos na literatura.

Disse-lhe o mestre: "No trates de escribir bonito.  No dejes que se te vea la gramática."

É um conselho que vale para todas as épocas, para todas as latitudes. A escrita tem muito de pessoal. Tem de irromper sem artifícios. Límpida como a de Borges, depurada como a de Pessoa, torrencial como a de Kerouac. Mas sem pomposidades, sem adstringências.

O estilo diz tudo sobre o seu autor.

Para escreveres bem, evita as frases feitas, as frases batidas, as frases de efeito fácil mas vazias de conteúdo.

Arruma as ideias, escreve como pensas, desvenda-te em cada parágrafo.

Assimila as regras gramaticais evitando sempre a prosa canhestra de mestre-escola.

Escrever é isto.

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A importância do primeiro parágrafo

por Pedro Correia, em 29.08.09

  

É o maior desafio para qualquer jornalista: como agarrar o leitor logo nas primeiras linhas? Há técnicas clássicas que se desenvolveram para focar a atenção das pessoas num texto, seduzindo-as com o estilo e o conteúdo. Um desafio estimulante, diga-se. E tanto mais estimulante quanto é certo que a capacidade de concentração da generalidade dos leitores contemporâneos está cada vez mais diluída. A estética de videoclip, o culto do zapping, as mil e umas artimanhas da linguagem publicitária, as centenas de canais televisivos ao dispor de cada um, as mensagens de telemóvel que a todo o momento nos assaltam e a magia da Internet tornam-nos seres dispersos e errantes. A ninguém sobra hoje tempo nem paciência para ler textos de jornal que se estendem por várias páginas. A comunicação moderna tem requisitos bem específicos neste domínio.

Mas não seria assim também noutras épocas? Na sua memorável comédia A Primeira Página, escrita há oito décadas, os dramaturgos norte-americanos Ben Hetch e Charles MacArthur centraram toda a acção numa redacção de jornal – daquelas bem antigas, cheias de fumo e com garrafas de uísque em cima das secretárias. O director do Chicago Examiner, Walter Burns, pede ao mais conceituado dos seus repórteres para lhe ler o parágrafo de abertura da prosa que tem na máquina de escrever. Não gosta nada do que ouve, preguntando-lhe por determinado pormenor. “Isso vem no segundo parágrafo”, esclarece o repórter. “E quem diabo vai ler o segundo parágrafo?”, dispara o director.
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