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O ridículo mata

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.05.16

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Não tenho nada contra manifestações, desde que sejam pacíficas e tudo se processe dentro da legalidade. Com mais ou menos exaltação, mais ou menos indignação, todos têm o direito de se manifestar e agitar as suas bandeiras, tendo o Estado de direito o dever de proteger essa conquista da democracia. Se existe ou não razão para a manifestação, isso é outra história. Por isso mesmo, seria curioso se amanhã os defensores da escola pública se lembrassem de promover manifestações por todo o país em defesa da sua dama. Para exigirem, por exemplo, o fim dos contratos de associação e mais dinheiro para a escola pública. Quem sabe se então o título da notícia não seria qualquer coisa como "Milhares em defesa da escola pública e contra os contratos de associação"?  Não é que eu esteja a sugerir alguma coisa que não devesse já ter sido feita, mas seria o bom e o bonito.

De qualquer modo, tenha uma manifestação o peso que tiver, convenhamos que a defesa dos contratos de associação não é propriamente a mesma coisa que defender a Rádio Renascença do perigo comunista. Para ser coerente e manter a razão, a Igreja portuguesa devia agir com inteligência. E arranjar uma causa, como hei-de dizer, menos fracturante. 

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Mais um não argumento

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.05.16

"Havendo duas escolas que estão a prestar o mesmo serviço, e tendo necessariamente que fechar uma para racionalizar os custos, qual delas deveria fechar? Aí, a resposta parece-me óbvia: deveria fechar a pior escola e ficar aberta a melhor. Se a pior fosse a pública, fechava a pública. Se a pior fosse a que tem um contrato de associação, deixava-se de pagar o contrato de associação." - João Miguel Tavares, Público, 12/05/2016

 

Não, João Miguel, não pode ser assim. O argumento estaria correcto desde que não tivesse sido falseado logo à partida. Para se poder comparar é preciso que estejam ambas a funcionar, que tenham um número idêntico de alunos e fossem as mesmas as condições de partida, tendo à chegada o mesmo nível de financiamento, ou mantendo-se este estável ao longo do percurso para as duas. Isto é, é preciso comparar as condições de partida e as existentes em cada escola mais o custo por aluno. Só depois se podem comparar os resultados.

Se numa corrida de 100 metros há um concorrente que sai 10 metros à frente do outro e apanha a meio boleia de um Ferrari é natural que chegue primeiro. Só se podem comparar à chegada realidades que tivessem saído do mesmo bloco de partida e que ao longo do percurso não tivessem sido torpedeadas por quem manda em benefício dos outros concorrentes. Antes disso a resposta não pode ser óbvia, a não ser que seja orientada por fins ideológicos.

Lamento dizê-lo, João Miguel, mas Donald Trump não encontraria melhor argumento para defender uma escola privada que fosse subsidiada pelos contribuintes estado-unidenses.   

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Obrigado, João Almeida

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.02.16

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"Estudei sempre em escolas públicas, em relação aos meus filhos, se isso for viável, também estudarão sempre em escolas públicas." – João Almeida, deputado, vice-presidente do CDS-PP

 

Vamos todos fazer para que seja sempre viável, mesmo que alguns dos companheiros dele não sejam da mesma opinião e prefiram todo o dinheiro público e mais algum a subsidiar escolas privadas.

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Tiranias: as grelhas excel e os powerpoint

por Isabel Mouzinho, em 20.10.15

Quem, como eu, lida de perto com a escola de hoje sabe como ela é um universo cada vez mais complexo, e como podem ser verdadeiramente aberrantes as modas que se vão impondo, regra geral disfarçadas de "inovação pedagógica".

Vejamos o caso das grelhas Excel: instalou-se há uns anos e aos poucos foi ganhando contornos de quase ditadura, a ponto de se considerar que não há outra forma de avaliar alunos. Argumenta-se com a objectividade e a fiabilidade do método, que parte do pressuposto de que tudo é quantificável.

Valerá a pena, neste contexto, perder algum tempo a observar com atenção os critérios de avaliação das diferentes disciplinas, em diferentes escolas. Não são todos iguais, têm pequenas variações que vão das mais complexas fórmulas matemáticas às coisas mais hilariantes como, por exemplo, atribuir cinco ou dez por cento, ou outra percentagem qualquer, a coisas como "interesse" e "empenho", incluídas num item mais vasto que, quase sempre, se intitula "Atitudes". Gostava de saber como se pode quantificar o interesse e que instrumentos são utilizados para o "medir". Depois de obtidas as percentagens, introduzem-se todos os valores numa grelha Excel e, como diria Guterres, "é fazer as contas". E assim chega-se ao despropósito de a avaliação de um aluno, numa determinada disciplina, poder ser isto: P3=0,85.14,6+17,0+2x17,8+2x12,4+2x14,9+2x19,0/10 +0,1.0+16+14,5+14,5/4+0,05x10=15,208 - 15 valores. 

Quem o contesta é imediatamente olhado de lado. A máxima inerente é "toda a gente faz assim". De resto, hoje a ideia é cada vez mais fazermos todos tudo igual, para "não termos problemas" e perdendo-se aquilo que a vida toda fez de cada professor uma individualidade com nome e características próprias, que se esquece ou recorda para sempre, por boas ou más razões.Uns e outros não avaliavam os alunos desta maneira, nem sequer em nome de uma objectividade comprovadamente duvidosa. Como é possível reduzir a uma fórmula matemática o percurso de aprendizagem de um aluno? Onde fica, na frieza dos números, aquela margem de esforço e de sonho que os fez crescer como pessoas e não se pode quantificar? Porque há na escola um lado humano que tem que se ter em conta. Em tudo; e na avaliação também.

O rigor e a exigência não são, acho eu, nada disto. E qualquer professor minimamente sério e consciente do que faz é capaz de explicar detalhadamente a razão pela qual atribui determinada nota a un aluno, sem precisar de uma grelha Excel, ou de uma fórmula matemática. E depois, convenhamos, há na avaliação uma margem de subjectividade, que é incontornável e que deve ser assumida, sem qualquer peso na consciência ou sentimento de culpa.

Há também, além desta, a mania do "powerpoint", que se utiliza a torto e a direito, a propósito de tudo e mais alguma coisa, ou até sem propósito nenhum.

Hoje, não há aluno que, tendo que apresentar um trabalho oral, não venha acompanhado do inevitável "powerpoint", convencido que isso enriquece muito a sua apresentação e limitando-se até, em casos limite, a ler o que lá está escrito, ou a repeti-lo de cor. Muitos professores utilizam-nos também nas aulas - são em geral os mesmos que, em teoria, são contra as "aulas expositivas". E até as editoras, atingidas pela febre do "powerpoint" (ou as principais responsáveis pela sua generalização) oferecem-nos aos professores a propósito de mais diversas matérias de cada disciplina, chamando-lhes, pomposamente, "recursos."

É como se as palavras já não fossem suficientes. Ainda há menos de um mês vi, durante cinco quintas-feiras seguidas,uma sala do CCB encher-se para ouvir silenciosa e atentamente Maria Alzira Seixo falar de literatura. Sem PowerPoint. Apenas com sabedoria e com paixão.

Tenho a certeza que enquanto foi professora também não precisava das grelhas Excel para fazer a avaliação. E foi a melhor professora que tive na vida...

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Regresso às aulas: ponto de situação

por Rui Rocha, em 12.09.15

Estivemos a dar uma vista de olhos à lista de material escolar dos miúdos e, com excepção do pó de corno de rinoceronte e das unhas de dragão, parece-me que temos finalmente quase tudo. Se alguém tiver a sobrar algum destes materiais, troco por pé de morango da Patagónia que, por lapso, comprámos a mais.

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Se eu defendesse o mesmo acerca do Estado Social (por exemplo, também poderia ser acerca do SNS ou da Escola Pública) lá teria 432 comentários do camarada luckylucky a acusar-me (por uma vez sem exemplo com toda a razão) de estar a querer endoutrinar as criancinhas com ideias socialistas.

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Os rankings

por João André, em 01.12.14

A análise aos rankings das escolas deu o resultado habitual. As escolas privadas estão melhor classificadas. As razões apontadas parecem ser a matéria prima com alunos que à partida poderão ser melhores (mais procura que oferta ajuda à pré-selecção); maior estabilidade do corpo docente; melhores condições nas escolas (com mais dinheiro à partida para investir); uma certa unificação do programa curricular (que vai sendo refinado com o tempo); e a frequente inserção em melhores meios socio-económicos (se bem que não aplicável a todas as privadas). A estes factores acrescentaria outro: tendo mais dinheiro à disposição, as escolas privadas podem atrair os melhores profissionais da área (sejam professores, auxiliares, ou simples técnicos).

 

Isto demonstra que as escolas privadas continuarão a ter melhores resultados independentemente do que se faça às públicas (os vouchers são na minha opinião um disparate ridículo). As famílias com melhores meios socio-económicos dão frequentemente mais aopio aos filhos nos seus estudos, o que se sabe que melhora os resultados globais. A qualidade base dos professores poderá melhorar, mas é quase impossível alterar significativamente o estrato superior de qualidade (uma melhoria geral de qualidade apenas empurra os valores absolutos para cima, mas a distribuição mantém-se relativamente constante). O facto de terem mais dinheiro à disposição permitirá então às escolas privadas manterem esse pessoal de qualidade e ir renovando frequentemente as condições físicas.

 

Os dois únicos aspectos em que a escola pública pode ainda reduzir a diferença é numa unificação e estabilidade dos currículos (dava jeito que não se mudassem programas e livros todos os anos) e fim da dança dos professores (que este ministério veio transformar de farsa em tragédia). No resto teremos aquilo que será sempre de esperar: num mundo onde há ensino público e privado, este último terá tendência para ficar melhor classificado nos rankings. Quaisquer conclusões extra que sejam extraídas destas classificações devem ser feitas no sentido de identificar casos problemáticos e casos exemplares. O resto só alimenta ruído.

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Há um problema muito sério na sociedade portuguesa. Vivemos muitos anos, demasiados anos, provavelmente séculos, num contexto em que o sucesso, o desenvolvimento e a evolução profissionais foram ditados por tudo, menos pelo mérito. O negócio do Luís, a contratação do João, a promoção da Maria, o cargo de direcção do Manel estiveram quase sempre relacionados com o facto de serem primos do patrão, correligionários do Presidente da Junta, sobrinhos do autarca jurássico ou, na melhor das hipóteses, com o decurso do tempo (parece que a isto se chama carreira). Isto foi assim no sector privado, foi ainda mais assim no sector público. E, na falta de um sistema de avaliação sério e credível, ainda é. Tal como sucede nos países socialistas, ainda que Portugal tivesse o melhor sistema de educação do mundo, os resultados profissionais continuariam a ser medíocres. Falta-nos a cultura de valorização, reconhecimento e promoção do mérito. Veja-se o caso dos professores. Todos nós tivemos professores sofríveis. Uns eram cientificamente impreparados. Outros faltavam. Muitos não tinham qualquer competência pedagógica. A tantos faltava interesse e motivação. Por cada professor digno desse nome, tive dois que não mereciam estar numa sala de aula. E, todavia, estavam. E continuaram a estar. E se hoje as coisas estiverem melhores, não são, decerto, perfeitas. A questão é que chegámos aqui sem um mecanismo sério que nos permita distinguir. No sistema público de ensino, tanto vale ser competente como baldas, vale tanto ser inspirador como dizer umas lérias. Em momentos de vacas gordas, em que há lugar para todos, a iniquidade sente-se menos. Lourenço é professor do quadro sem ensinar a ponta de um dos cornos usados pelos viquingues nos seus capacetes. Palmira é cientificamente preparada, sabe motivar a turma, é tão interessada. É professora contratada, precária, salta de terra em terra. Mas, pelo menos tem um emprego. O problema surge quando se dá o recuo das águas. O Lourenço continua lá na escola, a queixar-se. A Palmira está em casa, a torrar a depressão. Não embarco na conversa de que esta "é a geração mais bem preparada". Há em todas as gerações os que são e os que não são. Devíamos ter maneira de os identificar. No ensino fala-se há anos e anos de uma prova de ingresso. Não é preciso inventar muito. É pôr os professores a responderem aos exames a que são submetidos os seus alunos. E, a partir dos resultados, extrair as devidas consequências. Defendo a escola pública. Só quem vive fora da realidade pode desconhecer a importância estruturante que tem na sociedade portuguesa. Mas defendê-la é também exigir que o Lourenço saia e que entre a Palmira. Certo. Tratar-se-ia de uma dança de cadeiras. Não resolveria o problema do desemprego, nem da economia. Mas contribuiria para preparar o futuro. E daria algum sossego ao nosso sentido de justiça.

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De uma coisa este Governo não pode ser acusado: de não pagar os favores e os fretes que a Sociedade Civil, aquela supostamente isenta e independente, lhe fez no final do mandato do Governo anterior.

Perante um cenário de necessidade de cortes na Educação, os quais são de si questionáveis, pois são dos investimentos que dão mais retorno, o Governo corta a direito na Escola Pública e mantém intacto o financiamento da Privada. Aliás, o financiamento da Escola Privada será das poucas áreas do Estado que não sofre qualquer corte.

É amor.

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A angústia do professor antes do exame

por Ivone Mendes da Silva, em 17.06.12

Existe e é muita, acreditem. Quem anda nisto de alunos há muitos anos sabe que eles são como os vinhos. Há anos de colheita difícil e é o cabo dos trabalhos conseguir-lhes a atenção e persuadi-los ao esforço. Os alunos que levo amanhã a exame vêm dos cursos de Humanidades. De tanto ouvirem dizer que a escolha feita não lhes augura nada de bom, começaram a acreditar. Tornaram-se indiferentes, deixam andar. Chamo-os para umas aulas fora do tempo regulamentar e eles aparecem como quem me faz um favor. Não têm dúvidas e eu obrigo-os a duvidar, a encontrar nas matérias o ponto onde sentem o chão fugir-lhe debaixo dos pés.

- Se for Lusíadas, nem começo a responder.

- Oh, valha-me Deus! Mas tu sabes …

- Sei, setôra, mas vou atrofiar.

Outros anseiam pelo Felizmente há luar!:

- Acho que sei tudo.

- Boa!

Perguntam pela milionésima vez:

- O que é que acha que sai?

- O que sai, não sei. O que pode sair, sei : é tudo.

- Veja lá isto que escrevi aqui sobre o Memorial: o sonho, o trabalho … diga lá outra vez aquilo do feminino … e como é que é? A esperança no fim …

Sobressaltam-se:

- Eu não percebo isso da vontade do outro ficar na terra. Como é que é?

Dou com eles a volta ao redondel dos símbolos e das metáforas. Suspiram. Irritam-se, passaram o ano irritados. Às vezes comigo, outras vezes com o mundo. O sistema de ensino pediu-lhes que tomassem uma decisão de vida aos 15 anos. Um decidiu que seria arqueólogo, outro geógrafo. Os restantes oscilam entre Direito e Comunicação, com paragens prolongadas no não-sei-muito-bem-ainda. Vão entrar na universidade num dos piores anos de sempre. Sabem disso e, mesmo quando tentam esquecê-lo, vem sempre alguém recordar-lhes a incerteza que os espera. Por isso, foram ficando assim, desencantados, distantes.

Hoje, um ou outro mail ainda me há-de trazer um sobressalto de última hora e, como é tradição, mantenho o MSN ligado até tarde. Lá pelo meio da noite, vão aparecer os pânicos de última hora:

- Acho que me esqueci de tudo.

Amanhã à tarde, vou esperá-los no átrio. Como sempre.

- Nada, nada, nada. Não me diga nada.

- Yes! Eu sabia isto tão bem.

- Setôra! Setorinha, veja aqui se esta relativa é restritiva. É? Oh, yeh! Tá-se bem!

Como sempre, começo a esquecê-los umas horas depois.

Para o ano, em Setembro, de novo uns pares de olhos imberbes hão-de levantar-se da “Autopsicografia” e suspirar:

- Setôra, não percebo nada …

E eu, como sempre, vou conduzi-los  até ao coração do texto. No fundo, isso é que importa. Exames, leva-os o vento.  

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De ordine mundi

por Ivone Mendes da Silva, em 09.05.12

Para a nossa Leonor que mora lá perto

 

Hoje enquanto os meus alunos avançavam pela análise de um texto adentro e a infanta D. Maria Bárbara passava o seu pensamento de princesa em trânsito sobre um convento a que dera origem e nunca veria e eu esperava que os preguiçosos sobreditos vissem a linha da ficção entremear-se na trama da História quando o oficial de escolta respondia às questões da princesa e o narrador lhe desvendava a alma, lembrei-me de uma entrevista com Isabel da Nóbrega, referida já não sei por quem, que isto a tal memória que eu tive foi chão que deu as últimas uvas, na qual se contava que na partilha subsequente ao divórcio ela terá perguntado a Saramago, Olha lá, não queres ficar com a casaca que era do meu pai. Para quê? deduzo eu que terá resmungado Saramago. Podes precisar dela para Estocolmo, replicou Isabel. Saramago desdenhou a casaca do sogro e por aqui se vê que não era homem previdente pois teve de comprar uma para ir a Estocolmo, que eu bem o vi na televisão de bom corte e vénia irrepreensível, que isto a vida dá cada volta, a um rei em carne e osso, décimo sexto de seu nome na tabela real lá da Suécia, em virtude de ter andado a falar dos empreendimentos do senhor D. João, quinto do seu nome na tabela real de cá, que quis construir um convento e ajudar um padre voador a subir por esses ares, coisa a que a Inquisição cortou as asas que pelos vistos nem que a vontade do rei tivesse sido também recolhida teria servido de grande préstimo, se quer fazer alguma coisa que construa conventos que esses não voam.

Ora estava eu em Estocolmo e os meus a alunos a contabilizarem as figuras de estilo do último parágrafo quando me lembrei do vestido vermelho que Pilar del Rio usava na noite do Nobel, assinado por Jesus del Pozo, em cuja fímbria fora bordado ton-sur-ton, Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti. Quero estar onde estiver a minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos. Que isto é do Evangelho segundo Jesus Cristo e foi um achado, pois, e como no simbólico como em todas as coisas nada se perde e tudo se transforma era também esse o vestido que envergava a violoncelista que tocou na Câmara de Lisboa durante as exéquias de Saramago. 

Pensei então que entre a blimúnica antevisão de Isabel da Nóbrega e a segurança da cumplicidade de Pilar del Rio se estendeu o mundo de Saramago. Um escritor não escreve contra o Mundo, o Mundo ordena-se para ele e ele devolve-no-lo, ordenando as palavras na ordem que mais lhe aprouver. Assim a charneca do Yorkshire retorceu as árvores que Emily Brontë nos leu, assim as intrigas se dobraram nos lençóis do Douro onde Agustina nos deitou. O Mundo dá-se ao escritor e o escritor devolve-o ao mundo que é como quem diz a nós que somos comuns.

Mas o Mundo não é generoso. Por isso são tão poucos os realmente bons, pensava eu enquanto metade da turma já tinha conseguido copiar pela outra metade que a névoa impalpável na mente de Maria Bárbara, a princesa em trânsito, era uma metáfora.

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A improbabilidade de uma escola feliz

por Leonor Barros, em 02.02.12

No meu tempo de escola, a vida era muito tranquila. Os professores faltavam e alguns faltavam muito, outros bastante e outros nunca. Como agora. Esperávamos todas as santas aulas pelo abençoado segundo toque que nos aliviaria de aulas de modorra e tédio, sem visualização, powerpoint, projectores ou quadro interactivos. O professor falava, os alunos ouviam. Esqueçam motivação e interesse. Ir à escola era aprender e ninguém disse que aprender era divertido e engraçado ou fácil. Naquele tempo não era. Quando os professores faltavam era-nos dada toda a liberdade. Lembro-me de ficar no pátio a apanhar sol, na conversa com os colegas, maldizendo a adolescência, os chatos dos professores, provavelmente a incompreensão dos pais, a soltar gargalhadas sonoras e estridentes salpicadas com a inconsequência da condição púbere ou ainda a catrapiscar os rapazes, meu deus quantas paixões secretas e contidas, ou ir ali ao café do lado fazer isso mesmo, ir ao café do lado: esticar as pernas, dizer disparates, respirar o ar húmido que se nos agarrava ao corpo e soltar os cabelos à sombra do convento. Tudo sem culpas ou recriminações. Livres, portanto.

Nesse meu tempo de escola, faltar à escola era apenas isso: faltar à escola e eu no meu tempo de escola também faltei às aulas sem que mal algum viesse ao mundo. Acontece que nessa altura quem ultrapassasse o limite de faltas chumbava. Ponto. Sem avisos nem colinhos. Sem cartas para cá e para lá, sem comunicações aos encarregados de educação porque o menino prevaricou, avisos de recepção, convocatórias, telefonemas. O povo estava avisado e sabia das consequências. Se faltasse de mais, estaria modernamente excluído por faltas e podia seguir uma vida livre de aulas e professores. Acarretávamos pois com a consequência dos nossos actos sem mais conversa. Não me parece que alguém se tenha dado mal.
Nesse meu tempo de escola os pais também não vinham à escola porque o professor deu cabo dos meninos, não está a cumprir o programa como eles, pais, entendem ou não cumpriu os critérios de avaliação. Pergunto-me como terei sido classificada então, nesse tempo de caos absoluto, tudo tão livre e solto. Que era isso de ‘critérios de classificação’ a propósito? Não me consta que tenham ficado mazelas.
Nesse meu tempo eu era incrivelmente feliz sem o saber. E livre. Livre para gozar os tempos que os professores nos deixavam livres, livre para faltar a uma aula porque algumas aulas me maçavam de morte, quem aguentou aquilo, aguenta tudo, livre sem pressão das notas e de desempenhos. Na medida inversa dos meus alunos. Não havia substituições, não havia planos individuais de trabalho, planos de recuperação, não havia as torrentes de palavreado bacoco, balofo e inútil, tão inútil como os seus significantes. E éramos felizes então.  Saltitando entre contrariedades, com os tostões contados e pontos altos tão ridículos como uma simples excursão a Sintra. Sobrevivemos aos  ABBA, aos Bee Gees e ao Stevie Wonder dando os parabéns a toda a gente e acalentado a esperança de um dia sermos proprietários de umas calças Levi's.  E sobrevivemos. A tudo. A inveja que me tenho.
Também aqui.

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Querer e poder

por Leonor Barros, em 14.01.12

Vida de professor é feita de papéis, papelinhos, destacáveis, comprovativos e tudo o que tenha a ver com papeladas, burocracia sem fim. Nos intervalos de tudo isto sou professora e faço aquilo devia fazer e que o tempo em volta dos papéis me rouba. Entro na sala com um lembrete na cabeça, uma campainha que toca para que não me esqueça, não me posso esquecer, e mesmo antes da aula começar digo-lhes, Meninos, preciso dos destacáveis para a reunião com os Encarregados de Educação. Ergue-se uma pletora de respostas. Ai stora, esqueci-me! Trago-lhe amanhã ou Não trouxe o papel mas a minha mãe vem, O meu pai pode vir mesmo sem o papel? A minha mãe não sabe se pode vir. Alguns levantam-se entretanto e entregam-me o rectângulo branco. Recolho a papelada, organizo-me na secretária, ligo o computador e de lá do fundo ergue-se uma voz  Stora, eu já disse à minha mãe e ao meu irmão. E depois a voz descaída como um ramo despencado Mas nenhum quer vir. Arrumou-se ao fundo da sala e manteve-se estranhamente silenciosa. Não que o dia ou a hora fossem inconvenientes. Um qualquer outro dia e hora seriam igualmente maçadores. Substituíra-se querer por poder e talvez o mundo fosse outro. A diferença que um verbo faz.

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Sinais

por Ana Sofia Couto, em 02.10.10

É, como diriam alguns comentadores, um sinal dos tempos. Na escola onde estou a dar aulas apareceram alunos que só agora, no 8.º ou no 9.º ano de escolaridade, conhecem o ensino público. Contaram-me que alguns pais mostraram grande preocupação quando souberam que numa turma haveria seis alunos a repetir o ano; o mesmo aconteceu quando, numa visita à escola, ninguém deu pelo “choque tecnológico” (não havia “quadro interactivo” e essas coisas). Os miúdos, pelo que tenho visto, estão a dar-se bem. No outro dia, um deles explicava a outro, mais velho, que a t-shirt que tinha era do Family Guy. E lá estava, em grande plano, o Stewie.

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Outras leituras

por Ana Margarida Craveiro, em 02.06.10

O Carlos do Carmo Carapinha escreve aqui um grande texto sobre os fechos de escolas e o centralismo que nos domina.

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Planeamento

por Ana Margarida Craveiro, em 01.06.10

 

Confesso que me sobe o sangue a cabeça quando oiço falar em fechos de cuidados médicos e de escolas no interior. Percebo inteiramente os argumentos económicos, de racionalização de recursos num tempo em que estes estão particularmente escassos, mas discordo da maioria das medidas. Há pouco, a SIC noticiava que agora serão as escolas com menos de 20 alunos a fechar. Na complicada linguagem do Ministério da Educação, trata-se de mais um passo para a requalificação, modernização e reorganização (tenho a certeza de que ainda arranjavam mais um re-quaisquer).

Do ponto de vista pedagógico, é evidente que a diversidade e pluralidade são factores a valorizar. Do ponto de vista económico, ter menos escolas a funcionar, mas mais eficientes (menos funcionários/professores por aluno), também parece desejável. Falta, no entanto, um ponto de vista fundamental: o do país que queremos ter. E este, ao contrário do que nos querem impingir, é uma escolha. Assim, nós podemos escolher fechar todas essas escolas, a bem de um ensino mais barato. No entanto, temos de assumir as consequências dessa escolha: o êxodo rural passa a ser inevitável, para grande parte do interior, e a taxa de fertilidade pura e simplesmente desaparece em algumas zonas. Porquê? Simples: por que raio haveria um pai ou mãe de querer ter filhos num sítio onde a escola mais próxima fica a hora e meia de transportes públicos, por estradas velhas e com gelo? É que estamos a falar de fechar escolas em zonas onde as moderníssimas auto-estradas não chegam, nem sequer aparece o alcatrão necessário para remendar estradas com mais de 60 anos, zonas onde o progressista TGV e o novo aeroporto não entram nas conversas. Esse país, esse Portugal ainda tão parecido com 1950, ainda existe. E o governo - qualquer governo - tem a obrigação de governar também para esses portugueses. Fechar-lhes as poucas manifestações de administração central que têm não é a melhor maneira de manter o país habitado - agora já tão escassamente. Empurrar ainda mais esta gente para os subúrbios de Lisboa é a nossa escolha? Então que seja admitida; como já escrevi uma vez, construímos uma cerca à volta do interior e das zonas rurais e preocupamo-nos só com as Belavistas. É uma escolha.

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A lei e a ética

por João Carvalho, em 14.02.10

Em Almonda, para os lados de Torres Novas, há três escolas: duas com vários anos e sinais de degradação e uma construída em 2002 que custou cerca de um milhão de euros. As duas primeiras para lá estão e hão-de estar, mas a escola mais recente vai ser demolida para dar lugar a outra mais nova ainda.

Porquê? Porque as obras de adaptação, segundo o Ministério da Educação, «tornariam a requalificação do imóvel uma opção desvantajosa, sendo preferível a construção de uma nova escola». E que obras de adaptação seriam essas que tornam preferível a demolição de uma escola com oito anos? O ministério diz que ela não obedece (e precisa de obedecer?!) às imposições legais destinadas aos edifícios públicos desde há quatro anos.

Por outras palavras: vai ser demolida uma escola construída em 2002 para obedecer às normas legais que vigoram desde 2006. Digam-me cá: é esta história que está muito, mas mesmo muito mal contada, ou é um sinal de que também têm de ser deitados abaixo os políticos em exercício que não obedecem às normas éticas exigíveis desde sempre?

 

AdendaUma notícia sobre um facto, mas  que veicula uma informação institucional dúbia e não questiona a fonte para cabal esclarecimento da dúvida óbvia que levanta, é o exemplo da notícia que não devia ser publicada por não estar acabada e, como tal, exemplo de mau jornalismo.

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Orgia suspensa

por J.M. Coutinho Ribeiro, em 18.05.09

PS, BE e PCP apresentaram projectos para a introdução da educação sexual nas escolas. Tanto quanto sei, o caso é levado tão a sério que se prevê mesmo a distribuição de preservativos à gandulagem. Hoje, não me apetece discorrer sobre o que penso de tudo isto. Ao que venho? Manifestar a minha perplexidade pelo facto de uma professora de Espinho ter sido suspensa pela DREN por ter dissertado sobre uma orgia sexual numa aula. Suspensa? Mas, então, falar sobre orgias sexuais não tem a ver com educação sexual?

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