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Errar melhor

por Tiago Mota Saraiva, em 05.09.16


(publicado hoje no i)

A célebre expressão atribuída a Séneca “Errar é humano” está instalada no espaço público sem que valorizemos verdadeiramente a sua dimensão.

Tantas vezes o brilho do estrelato retira da narrativa a importância do erro. Cremos que a sua assunção prejudica. Valorizamos a aproximação ao comportamento de máquinas que inventamos, com as quais se procura diminuir a margem de erro e negligenciamos o fascínio de sermos humanos. Olhamos o erro com desdém.

Quando Cristiano Ronaldo marca dizemos ser uma “máquina de fazer golos”, quando falha não lhe toleramos o comportamento humano. Dizemos que está mais velho, essa condição humana para que todos caminhamos.

Esquecemos que uma história de sucesso pode ser construída a partir de erros. Mesmo no futebol. Não esqueçamos aquele minuto 70 da temporada passada, em que o Benfica perdia em casa com o Sporting por 0-3. Tudo parecia perdido até que a multidão irrompe a cantar “Eu amo o Benfica”, construindo-se a partir de um jogo falhado a caminhada para o título.

No espaço da decisão política, território de tantos falhanços, está instituído que o erro deve ser escondido de todas as formas. “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, sintetizou Cavaco. Independentemente da ridicularização a que a declaração se prestou, ainda hoje corresponde à moral reinante. Valoriza-se o político-máquina cheio de certezas que perante os erros não hesita em mentir ou desdizer-se na esperança de que a memória colectiva seja curta. Por mais idiota que isso possa parecer, isto tem funcionado. É uma boa receita para quem quer preservar o poder mas não para quem quer governar melhor e de uma forma mais transparente. A aceitação do erro e a sua exposição pública, além de permitir perceber melhor as decisões e as suas consequências, torna muito mais difícil a sua repetição.

A assunção do erro permite que se erre menos ou, pelo menos, melhor e na política permite-nos distinguir decisões erradas – resultado da muito nobre condição humana – de políticas produzidas para falhar.

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O português que eles pelos vistos entendem

por António Manuel Venda, em 27.12.12

«Muitas famílias não tiveram na Consoada os pratos que se habituaram.» A frase é de Pedro Passos Coelho, numa mensagem deixada no «Facebook» e que já mereceu perto de dez mil comentários, que vão do «palhaço» até outros elogios que me dispenso de repetir aqui. Foi a frase, de todas as da mensagem, que vi citada mais vezes, também no «Facebook», e inclusive perguntaram-me se eu conseguia descobrir o que nela havia de errado. Eu disse que sim e depois mostrei qual era o erro. Mas, segundo me explicaram, o erro era outro. Não era a falta de reticências no final, em vez do ponto. Admiti que as explicações estavam correctas (a falta de «a» a seguir a pratos), mas a minha ideia era mesmo diferente: trata-se de uma frase enigmática, saída de uma mente estranha, uma frase que refere «pratos que se habituaram» mas não diz a quê, daí que o erro esteja na falta de reticências em vez do ponto.

Independentemente de qual seja o erro da frase, a verdade é que toda a mensagem está escrita num português que, com favor, poderíamos classificar como pouco conseguido. Embora não chegue, por exemplo, a uma célebre mensagem de Pedro Mota Soares, também no «Facebook», onde o português, sem favor, chegava a assustar; era a mensagem com explicações sobre o carro encomendado por Carlos Zorrinho e que o ministro tinha passado a usar. Nessa altura deixei uma pergunta, para saber se não havia um assessor qualquer que pusesse a mensagem em português correcto. Eu pensava que não ia ter resposta, mas a verdade é que tive. Uma resposta surpreendente, a informar-me de que o que interessava era o conteúdo, não a forma. Nem me atrevi a argumentar.

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