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Embora seja uma boa metáfora da vida, o futebol é desprezado por alguns intelectuais. No fundo, este jogo mostra que não somos todos idênticos e que a luta pelo triunfo individual tem aspectos mais complexos do que parece. Os escritores e os filósofos deviam prestar mais atenção e os jornalistas especializados deviam perder o ar de sumo-sacerdotes discutindo as inescrutáveis altitudes celestes. Na rua, toda a gente comenta e sabe muito sobre futebol, pois toda a gente tem uma perspectiva sobre a existência humana.

Há um treinador que costuma ser ridicularizado pelos intelectuais, mas que recentemente disse mais sobre a vida do que alguns compêndios. Questionado pela milésima vez sobre uma minúcia táctica que ninguém recorda, Jorge Jesus perdeu a paciência e explicou que isso não interessava para nada, o importante era a forma como os jogadores reagiam “aos momentos do jogo”. A declaração motivou outros treinadores a dizerem mais ou menos o mesmo: o sistema táctico não é o mais importante, o que interessa é a “dinâmica” da equipa e a força de vontade dos jogadores.

Tomei isto como uma boa lição em geral. É também uma boa lição para a literatura. O que interessa não é o sistema ou a forma prevista na teoria, mas a dinâmica da prosa; o que interessa é a maneira como as pessoas reagem aos “momentos da vida” e como superam as crises, que são sempre mais ou menos idênticas. Recordamos segmentos limitados de um jogo, como esquecemos quase tudo o que vivemos e não podemos lembrar tudo o que lemos num livro. A maior fatia do tempo que passamos na vida serve para nos levar de um momento memorável para outro momento assim. Isso funciona da mesma forma no jogo de futebol e no romance de ficção: nem tudo será lembrado e o que verdadeiramente conta são os momentos (aquilo a que alguns chamam a dinâmica) contendo drama e emoção, algo de diferente, mas sobretudo intenso, que nos fique gravado na memória, não exactamente como aconteceu, mas ligeiramente transformado em mito.

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As histórias que lemos sobre este nosso mundo complexo raramente têm sentido ou conteúdo moral que possa ser extraído com facilidade e esta notícia, sem dúvida, obedece à regra. Um tribunal americano recusou a Tommy, o chimpanzé, a concessão de direitos humanos que o poderiam libertar da prisão. Embora esteja privado de liberdade, confinado a uma cela desconfortável e de pequenas dimensões, o juiz considerou que Tommy não pode ser responsabilizado pelos eventuais actos que venha a cometer, como partir coisa, sujar, fazer macaquices. Daí a rejeição do pedido feito por uma organização de defesa dos direitos dos animais.

Tommy não tem qualquer noção do seu caso, embora certamente tenha a percepção física de se encontrar confinado a uma cela, que é todo o seu mundo e onde decorre o essencial da sua experiência de vida. Ele gostaria certamente de ser livre, se pudesse escolher ou se soubesse escolher ou se tivesse qualquer recordação do seu habitat natural, que provavelmente já não existe. Alimentado todos os dias, sem consciência da escravatura, este simpático chimpanzé é talvez mais livre (num certo sentido de não sofrimento) do que muitos humanos e tem mais direitos humanos do que muitos humanos, mas assim vai o mundo em que vivemos, onde os direitos de Tommy se tornam notícia de interesse geral, pois a humanidade aprecia estas ambiguidades contemporâneas, discute com paixão o que lhe parece ser humano naqueles 99% de material genético (milhões de diferenças) idêntico ao nosso, naquele olhar perdido que parece conter alguma inteligência, nem que seja uma fímbria dela, onde nos revemos por um instante; e se fosse eu, ali, dentro daquela mente, de que forma veria as barras da minha cela e os limites da minha existência cativa? Enfim, parece que não estava apenas o chimpanzé ali a julgamento, mas uma parte de nós. Sem esta presunção de inocência, que teria para nos dizer este pedacinho de humanidade? E quanto é suficiente para ser um homem inteiro?

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Casos judiciais em curso merecem o mínimo possível de comentários apressados, mas a investigação ao ex-primeiro-ministro José Sócrates é o quinto grande acontecimento político em apenas seis meses, o que faz de 2014 um ano invulgar. Nas eleições europeias, os maiores partidos sofreram uma valente punição e esboçou-se uma rebelião populista. Logo a seguir, houve a saída limpa do programa de ajustamento, numa altura em que já eram evidentes sinais de recuperação económica, com criação de emprego, contas externas positivas e saldo primário razoável, além do regresso do investimento externo. Passados seis meses, Portugal financia-se ainda a taxas de juro reduzidas e parece capaz de pagar a sua monstruosa dívida. Acima de tudo, o País sobreviveu à queda do Banco Espírito Santo, terramoto com contornos ainda difíceis de prever e que tem potencial para mexer com todo o regime. No meio, mudou a liderança do maior partido da oposição, dividido em relação à herança política de Sócrates, assunto que agora não pode ser evitado.

Não me lembro de seis meses tão avassaladores e tudo isto acontece no início de um período pré-eleitoral que vai durar mais de um ano, com duas eleições no caminho. Os grandes partidos nunca estiveram todos ao mesmo tempo em situação tão frágil. PSD e CDS cumpriram um ajustamento que implicou grandes sacrifícios para a população, mas o Governo também cometeu erros e comunicou de forma deficiente os motivos que justificavam a austeridade. O PS parecia em posição favorável para regressar ao poder, mas não pode a partir de agora cavalgar uma estratégia sem promessas ou explicações, baseada nas teses de que nunca houve falência em 2011 e que será possível fazer muito diferente. Sobretudo, esta parece ser a grande oportunidade para surgirem formações populistas a defender que ‘eles são todos iguais’ e é preciso limpar a política. A crispação e o aumento da temperatura serão perigosos para os três partidos tradicionais do poder.

Grande parte da opinião pública acredita que houve colapso financeiro em 2011 e que pagaram sobretudo os mais fracos. Muitos portugueses estão convencidos de que a austeridade foi injusta, desproporcionada e inútil. Ao longo dos últimos três anos, a comunicação social criou um clima neo-realista de pessimismo e descrença, com previsões de insurreição iminente e espirais recessivas. Na realidade, o País está a sair da crise e os cinco exemplos de mudança na política portuguesa mostram que os anos difíceis não comprometeram o essencial: as instituições democráticas e o Estado de Direito estão a funcionar. Isto é uma mudança, não é um lamaçal.

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Certos comentários sobre os vistos dourados não escondem significativa dose de xenofobia. Só se fala dos chineses, associados na frase seguinte à ideia de corrupção. A China tem uma das economias emergentes mais dinâmicas do mundo, não sendo surpreendente que esteja ali o maior mercado destes vistos dourados. Sim, é um mercado, embora alguns considerem que estamos perante uma questão moral e, de forma sempre subtil, até racial.

As notícias sobre o caso de polícia sugerem que as pessoas detidas são suspeitas de terem criado uma rede que enganava eventuais beneficiários dos vistos, acelerando o processo burocrático em troca da venda de casas com valor real abaixo do solicitado. E, no entanto, esta história criou uma onda de críticas ao próprio conceito, achando-se que o mal está nos chineses ricos que querem facilitar a sua entrada no espaço europeu.

Uma das críticas mais bizarras é de que os vistos deviam ser iguais para todos, o trabalhador braçal e o milionário. A ideia é ingénua e até um bocadinho infantil: imagine-se o milionário que quer construir uma fábrica em Portugal e tem de pedir o visto como se fosse camponês. Em todos os países, a política de vistos é construída em torno da ideia da diferença (estudante, turista, intelectual, empresário, familiar, trabalhador pouco qualificado). Outras críticas afirmam que os detentores de visto dourado só compram casas ou que nos estamos a vender por pouco. São afirmações estranhíssimas, como se a compra de uma casa fosse algo de ilícito, como se o dinheiro investido não servisse, como se o custo de um visto tivesse alguma coisa a ver com a venda da pátria ou da alma nacional.

Em conclusão, por causa de um esquema em que os pagantes eram esfolados, os críticos exigem o fim do privilégio. Em questões europeias, os portugueses são uns anjinhos. Na Europa, há países com questões de emigração politicamente complicadas, nos quais a tese dos vistos dourados será sempre vista de forma negativa, o que explica notícias devastadoras e o alarme com a segurança europeia, que nunca esteve aqui em causa. Há também países sem problemas de emigração e esses não hesitarão em usar sistemas de via verde para obtenção de vistos privilegiados, se as pessoas os puderem pagar.

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As pessoas pagam produtos indigentes e respeitam muito o que compraram, se necessário até valorizam com unhas e dentes, colocam nos píncaros, para não terem de admitir que pagaram por um produto indigente. Se gastaram dinheiro, aceitam coisas más e até dizem que são extraordinárias. Dizem com convicção, são fáceis de convencer. Por outro lado, quando estão a ler textos gratuitos, a desvalorização mental que fazem bloqueia de imediato os seus sentidos e o espírito crítico torna-se feroz. Se é grátis, deve estar cheio de erros ou deficiências. Alguns, mais preocupados com ninharias, gastam todo o tempo da leitura em busca desses erros.

Por isso, escrever literatura na blogosfera nunca terá valorização, será sempre algo de inferior, pois o leitor não aceitará ler um texto gratuito e concluir que a qualidade era elevada. Esta regra aplica-se a textos de opinião, a qualquer tipo de artigo: sendo oferecido, não pode ser bom. As pessoas preferem aquilo que pagam, ou seja, é falso o velho provérbio de que a cavalo dado não se olha o dente. Neste caso, aplica-se outro provérbio, segundo o qual quando a esmola é grande o pobre desconfia. Se não for pago, um produto artístico é necessariamente nulo, por isso não tem valor a pintura na qual não se reconhece o pintor que assina, mesmo que seja um belo quadro. E isto leva a um paradoxo que ameaça a existência da própria arte: o público, que não a quer gratuita, também não aceita pagar por ela. Os membros do público contemporâneo não se conseguem libertar do preconceito com que olham, do preconceito com que lêem ou do preconceito com que escutam. As pessoas decidem à partida se vão gostar de alguma coisa. Geralmente, estão dispostas a criticar ou demolir. O objecto tem de possuir um valor monetário ou nada valerá, no sentido literal e no sentido profundo: não fará pensar um destinatário que, à partida, estava indisponível para o aceitar. O artista tem de ser pago a peso de ouro para ser levado a sério.

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Se sobreviver politicamente ao escândalo dos acordos fiscais do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker será um presidente da comissão fragilizado, incapaz de enfrentar a crescente tendência intergovernamental da União Europeia. Isto implica que os grandes países têm a ganhar com o escândalo, enquanto os pequenos tendem a perder. O presidente da CE “eleito” pelo parlamento será provavelmente derrubado pelo mesmo parlamento que sonhou sobrepor-se ao conselho.

O pequeno Luxemburgo, liderado por Juncker, fazia acordos fiscais muito vantajosos para multinacionais, atraindo investimento, mas sobretudo permitindo que empresas poderosas pagassem menos impostos em outros países da UE. Isto prejudicava o cidadão comum, criando concorrência desleal dessas multinacionais, face às empresas dos países afectados. Para além da dimensão moral, existe uma conclusão prática: o mercado único só funcionará verdadeiramente com mais harmonização fiscal. Este será o argumento dos grandes países da UE, que têm mais a ganhar com essa harmonização. Nos próximos tempos, podemos esperar uma discussão alargada sobre o tema, com pressão sobre os países que têm regras fiscais mais generosas. Acordos como aqueles que o Luxemburgo fazia serão no futuro politicamente insustentáveis. A concorrência fiscal envolve distorções ao mercado comum, mas sobretudo tem um aspecto moralmente inaceitável. O seu fim será conveniente para as grandes economias e vai acelerar a integração.

Uma das tensões mais relevantes da actual Europa é entre pequenos e grandes. A Comissão Europeia, o órgão que mais garante os direitos dos pequenos países, tem perdido poderes. Com um presidente politicamente inexistente, a CE perderá ainda mais influência. Se Juncker se demitir, acaba à nascença a fantasia do Parlamento Europeu “eleger” o presidente da comissão.

Só as grandes empresas podiam fazer acordos de evasão fiscal no Luxemburgo. No fundo, a hipocrisia da ordem liberal, que neste caso beneficiava as multinacionais de forma tão flagrante, contribui para o descontentamento geral e para o descrédito das instituições.

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Na terça-feira, nos Estados Unidos, os candidatos republicanos deverão conquistar o Senado e alargar a sua maioria na Câmara dos Representantes, o que radicalizará a política americana nos próximos dois anos. A crescente impopularidade do presidente Obama é um dos motivos desta provável vitória, mas os analistas mencionam o profundo descontentamento do eleitorado, sem conseguirem explicar exactamente do que se trata. As pessoas estão fartas da política do costume e em todos os pequenos assuntos há trincheiras cada vez mais violentas.

A América está frustrada com os seus fracassos no Médio Oriente, com o estado periclitante da economia e com a esterilidade do debate político das elites. As campanhas eleitorais têm crescente ferocidade e os republicanos usaram este ano uma agressividade retórica nunca vista contra um presidente adversário. O país parece fragmentar-se em questiúnculas onde é impossível negociar, por exemplo, sobre imigração, direito de porte de armas, vigilância interna, impostos para os ricos ou saúde pública.

Na Europa, este mal-estar impreciso também alastra como uma mancha de óleo, dando origem ao mesmo fenómeno da impossibilidade de negociar qualquer reforma. Em Espanha, onde estalou um escândalo político, o PP afunda-se nas sondagens e o Podemos (um partido populista de esquerda) surgiu pela primeira vez à frente das intenções de voto, com uma percentagem superior à dos socialistas. Mesmo que estes valores não se mantenham, o novo partido terá provavelmente uma boa votação e pode ser crucial para formar governo, apesar da sua plataforma incluir propostas que levariam a Espanha para um rumo incompatível com o cumprimento do Tratado Orçamental.

O fracasso do liberalismo implica o avanço dos populistas em todos os países, da Frente Nacional ao UKIP, da Alternativa para a Alemanha ao Syriza grego. Em Portugal, teremos provavelmente o partido republicano de Marinho e Pinto. Todos eles concentram o discurso em pequenas causas e franjas do eleitorado. Todos eles constituem uma ameaça ao Tratado Orçamental e à zona euro. Se não querem acabar com a Europa, todos querem, no mínimo, acabar com a Europa que existe. A crise financeira deu origem a uma crise política global e esta alimenta-se de formas de descontentamento que, não sendo iguais em todo o lado, parecem anunciar um longo Inverno.

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Segundo a crítica mais comum ao actual Governo, sobretudo entre os conservadores, não foi feita a reforma do Estado e, nesse sentido, o ajustamento pode ser definido como um fracasso. Os críticos têm razão, não foi feita a reforma do Estado, mas não é comum ouvir-se a continuação da frase, sobre o que devia ter sido feito.

Sem uma mudança na forma como o Estado gasta o dinheiro dos contribuintes, nunca será resolvido o problema recorrente do desequilíbrio das contas públicas. Os credores já começaram a avisar sobre futuros aumentos de impostos, pois os cortes na despesa atingiram o limite constitucional e o limite do contexto político. Um governo enfraquecido, a um ano de eleições, não tem consistência para cortes impopulares. As reformas ficaram em suspenso no Verão do ano passado, na sequência da crise da coligação e muito antes da saída limpa do resgate. Nos próximos anos, a reforma do Estado não será mais do que uma frase estafada, repetida ritualmente por políticos sem intenção de a realizar, pois a verdadeira mudança seria impopular e exigiria um acordo político. Ela teria de envolver a segurança social e uma escolha sobre como é que as pensões seriam cortadas nos anos de vacas magras; teria de definir o número adequado de funcionários públicos, que este governo já reduziu em 10% sem resolver o excesso de trabalhadores, sobretudo no poder local.

A reforma do Estado não se poderá fazer sem reduzir ainda mais o número de professores, de polícias ou de profissionais de saúde (que constituem o grosso do efectivo de funcionários). Como se concretiza essa redução? É preciso definir o que se fará com empresas como RTP, CGD ou TAP, antes que um segundo resgate decida pelo País. A informatização mudou a forma de trabalhar e tornou desnecessárias inúmeras funções, mas a burocracia estatal tem sido lenta a adaptar-se e basta entrar numa repartição pública para o compreender. Neste tema, só é preciso lembrar a tempestade provocada pela fusão de mil freguesias, que foi uma medida minúscula em comparação à necessária redução de municípios e, no entanto, quase causou uma insurreição, motivando na altura muitas críticas dos mesmos comentadores que agora exigem a reforma do Estado instantânea, concretizada por varinha mágica. Os críticos não podem continuar indefinidamente a dizer que não houve mudança e terão de ser mais específicos: quais são as reformas ausentes que deviam ter sido feitas?

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No momento em que Durão Barroso saía da Comissão Europeia foi duramente criticado nas colunas de opinião em Portugal, acusado de ter comprometido o projecto europeu e privilegiado os interesses dos grandes países. O novo presidente da comissão, Jean-Claude Juncker, conservador luxemburguês e profissional do aparelho comunitário, tem tido excelente imprensa e dizem que estará muito atento aos interesses nacionais e até, de alguma forma, preocupado connosco.

Alguns parecem acreditar que Barroso era mais nocivo para Portugal do que Juncker. Li textos de pessoas satisfeitas por Durão se ir embora e com esperança no bom trabalho do novo presidente. Nenhum desses autores explica como é que Portugal pode ter ganho influência. Os analistas parecem ter esquecido as negociações dos pacotes de subsídios europeus ou a forma como, nos tempos da troika, a comissão fazia sempre de polícia bom. Durante os dois mandatos de Barroso, os pequenos países viram diminuir a sua influência relativa, é um facto, mas isso não nos diz nada sobre o ex-presidente da comissão, embora seja sinal das mudanças que esta crise provocou na UE e, sobretudo, na zona euro.

A força económica da Alemanha, o desenvolvimento da união bancária e o rigor do Tratado Orçamental alteraram profundamente o equilíbrio de poder, retirando influência ao árbitro do sistema e privilegiando as equipas mais fortes. Embora de forma relutante, a Alemanha é agora a grande potência europeia e, quando se trata de dinheiro e cheques, como aconteceu durante toda a crise, os governos resolvem directamente o assunto, sem intermediários e sem ouvirem os países que não pagam as contas. No jargão comunitário, isto implica a supremacia do método intergovernamental sobre o método comunitário.

A desvalorização da comissão não é culpa da própria e, no entanto, há entre nós quem aposte na conversa de paróquia. Imaginam comentadores espanhóis todos contentes porque um luxemburguês substituiu um espanhol numa instituição europeia? Eu não consigo imaginar, sabendo que os espanhóis, neste campeonato, nunca foram anjinhos.

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O mundo em que vivemos será talvez lembrado daqui a meio século como uma época particularmente feliz: o tempo da terceira globalização, da segunda revolução industrial, uma espécie de renascimento que abriu os horizontes do saber e da cultura, a perspectiva da paz e do progresso. E, no entanto, o que acabei de escrever produzirá na maior parte dos leitores uma rejeição imediata.

A terceira globalização significa que as distâncias voltaram a encurtar e que sabemos agora o que se passa no outro lado do planeta. A troca de produtos, de dinheiro, de ideias ou de pessoas entre as diferentes sociedades nunca atingiu as actuais proporções. Também assistimos à criação de uma nova economia, com uma tremenda redução nos custos da comunicação e a mudança na forma de trabalhar. Vivemos numa espécie de paz prolongada. Somos bombardeados por notícias de conflitos, mas uma observação atenta permite perceber que se trata de guerras limitadas, com número de vítimas relativamente baixo. Tendo em conta as tecnologias disponíveis para os beligerantes, essas baixas deviam ser aos milhões. Na origem da maioria dos conflitos contemporâneos há geralmente interesses económicos mais ou menos disfarçados de questões nacionais e religiosas. O facto é que as maiores potências não se enfrentam directamente desde 1945 e não se vislumbra um confronto desses.

O enriquecimento dos países ricos tem tido soluços ocasionais, mas foi constante nas últimas duas gerações. A humanidade nunca foi tão numerosa, tão saudável e tão próspera como agora. Apesar disso, vivemos na ansiedade. Só vemos desigualdades, violência, ameaças, injustiças e ignorância. Identificamos um declínio na civilização que não é de todo evidente. Segundo a ideia comum, os seres humanos têm cada vez mais talento para a destruição, mas acontece o oposto: a humanidade tornou-se menos violenta e as forças da evolução parecem favorecer a generosidade e o diálogo. Sobre a política dizemos que tudo é cinismo e hipocrisia, mas a opinião pública nunca foi tão influente e tão esclarecida. Nos países industrializados, os cidadãos são prósperos e livres, as democracias são indiscutíveis e os direitos humanos universais.

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A sociedade portuguesa mudou, mas o sistema político, como um pesado dinossauro, parece incapaz de se adaptar. A direita está meio perplexa com as sondagens que dão o PS perto da maioria absoluta. Se as eleições fossem agora, tudo indica que António Costa, que tenta reconstruir o PS de 2010, atrairia suficientes votos na esquerda e no centro para vencer com margem folgada. Existem duas explicações possíveis para o fenómeno: o profundo descontentamento da população e a ilusão de que é possível regressar ao tempo anterior ao resgate. O governo está de tal forma desacreditado, que os próximos meses serão de agonia lenta, por isso seria lógico realizar eleições em Abril ou Maio, como pedem muitos comentadores, pois esperar até Outubro só prejudica o País.

Se chegarem ao poder, os socialistas tentarão adiar qualquer reforma impopular, mas com escassa margem de manobra e ainda menos tolerância europeia. O maior risco que correm é o de perderem a credibilidade externa e o acesso aos mercados financeiros, o que podia resultar no segundo resgate ou até no abandono da zona euro. A extrema-esquerda alternativa fracassou: o Bloco não se distingue do PCP e ninguém vota em imitações. O Livre será devorado ainda no ovo. Os populistas continuam a ser uma incógnita, pois as recentes sondagens não indicam qual o impacto eleitoral de Marinho e Pinto, embora sublinhem a sua popularidade.

A direita, agora limitada a um em cada três votos, prepara-se para uma penosa travessia do deserto. Os sociais-democratas que passaram o tempo a arrasar o governo não poderão reclamar qualquer herança e, por isso, nada têm para oferecer. A sua oposição será fragmentada e difícil. Durante três anos, o actual poder dedicou-se a erros de comunicação infantis e consentiu que a praça pública fosse ocupada pelos interesses especiais que a troika excluiu da divisão orçamental. A coligação fracassou, pois PSD e CDS nunca se entenderam e muitas reformas que ficam por fazer (RTP, autarquias, arrendamento, pensões) falharam devido a contradições internas. O PSD tem feridas insuperáveis, ódios que, mais tarde ou mais cedo, darão origem a uma purga ou à divisão permanente deste partido. Durante a grande crise houve uma cronologia de pré-falência, resgate, protectorado, austeridade, desistência, pântano e inicia-se provavelmente um novo ciclo de delírio, que pode ser longo ou curto, dependendo da dimensão das miragens que nos forem apresentadas.

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A contestação da ordem internacional que resultou da queda do Muro de Berlim explica a agitação que vemos no mundo. Após duas décadas em que o sistema parecia estável, surgiu uma crise financeira global que catalisou vários movimentos de perturbação. Alguns autores muito citados (por exemplo, a historiadora canadiana Margaret MacMillan) encontram semelhanças entre a situação actual e a que precedeu a guerra de 14-18, nomeadamente o facto de haver potências emergentes a contestar a ordem imperial que beneficiava a Grã-Bretanha, com outras semelhanças na globalização acelerada e na ruptura tecnológica.

Há também diferenças. O imperialismo de hoje não ocupa território e, ao contrário da Alemanha do início do século XX, a China actual não pretende imitar a potência hegemónica. Por outro lado, o desafio contemporâneo à ordem internacional estabelecida após a Guerra Fria não é executado apenas por potências emergentes, mas sobretudo por forças em declínio. Estado Islâmico ou Rússia são dois exemplos de aparente força que esconde, na realidade, crescente fraqueza. O Estado Islâmico parece até o estertor de uma civilização que não consegue de forma alguma resistir à modernidade.

A Europa resultante do fim da Cortina de Ferro também mostra sinais de esgotamento e mudança. O que aí vem é ainda pouco claro, mas o Estado social continuará a ser reformado e o liberalismo pode recuar, perante o avanço da retórica nacionalista e da crítica ao multiculturalismo. Os populistas anti-capital estarão provavelmente na linha da frente. A Europa será menos tolerante, menos adepta da liberdade dos mercados, menos paciente em relação à política do mínimo denominador comum que lhe tem permitido avanços na integração. Foi pouco noticiado em Portugal, mas o grupo de eurocépticos no Parlamento Europeu dissolveu-se após a saída de uma deputada. Só ficaram seis dos sete países necessários e em jogo estão subsídios de milhões de euros. Neste conflito decide-se quem vai liderar a contestação ao quase monopólio parlamentar dos socialistas e conservadores, o meio termo que permite manter a estrutura mais ou menos coesa. A queda dos eurocépticos abre caminho à possível formação de um grupo parlamentar de extrema-direita, que será muito mais hostil ao statu quo.

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O mais certo é que Portugal não tenha emenda. Lemos blogues e jornais, vemos a TV, o clima é de pré-catástrofe. A elite decidiu a mudança de ciclo e nem tenciona esperar pela decisão popular. O governo confessa em público que não consegue transpor aqueles últimos metros de cortes na despesa, por isso não haverá diminuição de impostos. O País não consegue resolver os seus problemas crónicos de desequilíbrio das contas públicas, medíocre funcionamento das instituições e paralisia política seguida de homem-providencial. A oposição não se compromete, mas cada notícia é uma corporação a fazer uma exigência com despesa associada. Se os socialistas vencerem as próximas eleições, será difícil travar esta maré de bodo aos pobres.

A Grécia já está a patinar, provavelmente atira-se do penhasco lá para Fevereiro, a Irlanda saiu da crise, teve juízo suficiente para não embarcar em ilusões constitucionais e fez o que tinha de fazer, com pragmatismo e coragem. A Alemanha não paga nem um tostão das dívidas alheias e vai exigir aos seus parceiros (França, Itália) que façam as reformas que estabilizam a zona euro e sem as quais a moeda única não faz sentido.

Há pessoas que ainda não perceberam que Portugal não conta para este campeonato. Se for preciso deixar cair, deixa-se cair. Em texto anterior (tem um ano), usei a imagem da corda de alpinistas: quando o desequilíbrio de um homem, por acidental que seja, ameaça lançar toda a gente na queda, os de cima cortam a corda. Caminhamos alegremente para o segundo resgate, talvez em 2017 ou 18, mas pode dar-se o caso de, na próxima vez, não haver quem nos segure. Os cortes na despesa esgotaram-se (com a reposição de salários e pensões) e os limites constitucionais impedem a criação de um Estado sustentável, com nível de impostos adequado. Se atingiu o limite neste contexto político, não conseguindo equilibrar os seus orçamentos, o País perderá de novo o financiamento dos mercados. Este corolário, que já vivemos uma vez, continua a ser iludido da opinião pública, com a agravante de, a continuarmos na beata ignorância, todos os sacrifícios terem sido em vão.

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Num livro notável que gosto de explorar, The Faber Book of Reportage (colecção de pequenos textos com testemunhos sobre episódios mais ou menos famosos) encontrei o relato do naufrágio de um navio português, em 1585, ao largo de Moçambique. Este texto, baseado em testemunhos de terceiros, foi escrito por Jan Huyghen van Linschoten (1563-1611), figura fascinante do Renascimento, um holandês que viajou pela Ásia com ajuda portuguesa e que, depois de regressar à Europa, publicou livros sobre essa experiência. Linschoten foi muito influente na ambição da Holanda de criar o seu próprio império. O texto incluído nesta colecção tem o ritmo e a simplicidade que associo a uma boa reportagem (apesar de não ser um relato presencial), mas o que mais me surpreendeu foi uma passagem crítica, em que o autor holandês comenta a teimosia do piloto do navio naufragado, claramente o culpado da tragédia, ao ignorar os avisos dos outros marinheiros. Por “orgulho”, escreveu Linschoten, os portugueses “não seguirão o conselho de nenhum homem, e não estarão sob a sujeição de alguém, especialmente quando têm autoridade. Como aconteceu com este piloto, que não ouviu os conselhos, excepto os que deu a si mesmo”. A tragédia causou centenas de mortos e teve outro pormenor requintado, que muito surpreendeu o autor holandês: os oficiais salvaram-se primeiro e quem não conseguiu improvisar uma jangada, morreu afogado. Ao todo, houve sessenta sobreviventes. Na História Trágico-Marítima, existe um relato muito semelhante de comando incompetente, seguido de naufrágio e abandono dos passageiros pelas elites do navio. Também já li sobre um caso holandês, mas aí a justiça foi implacável. Claro, por orgulho não gostamos de ler coisas assim ou de pensar na actualidade destas críticas.

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A crise de 2008 iniciou uma vaga de mudança comparável às transformações desencadeadas pela queda do Muro de Berlim. O mundo que sair destes anos não será o mesmo. Vivemos um dos raros períodos em que os acontecimentos se sucedem em turbilhão e, quando tudo acelera, torna-se impossível olhar para a realidade com a visão convencional.

No Ocidente, triunfa um sistema financeiro que aumenta as diferenças sociais, ameaçando o poder dos Estados e a liberdade dos cidadãos. Nos EUA, onde emerge uma nova sociedade, afirma-se a oligarquia. As tremendas desigualdades e o politicamente correcto são sintomas que talvez antecipem a democracia nas mãos de apenas um punhado de interesses especiais, cujo controlo da comunicação permitirá domar os descontentamentos. Na Europa, todos pedem à Alemanha para liderar, mas a Alemanha continua relutante. Aliás, quando Berlim tenta conduzir os acontecimentos, logo se depara com forte ressentimento. A União Europeia não consegue resolver as suas contradições, sobretudo a clivagem entre pequenos e grandes Estados. A desconfiança do eleitoral e o ressurgimento do nacionalismo, em oposição à ordem liberal, podem rebentar com o projecto.

África é uma zona de calamidade. A pobreza extrema e a explosão demográfica são o campo fértil para epidemias, falhanço institucional e uma crise ambiental sem precedentes. Do Mali à Somália, da Nigéria à Líbia, da Argélia ao Sudão do Sul alastra uma mancha de doença e de intolerância. No Islão, o radicalismo espalha-se e pretende alterar a vida quotidiana de mais de mil milhões de pessoas. Pressionado pela modernidade, o mundo muçulmano vira-se para as suas origens e para um fanatismo saído de outros tempos. O conflito está a provocar a implosão dos regimes, cujos estilhaços implicam guerras prolongadas.

Entretanto, continua o declínio do império russo: Moscovo ameaça os vizinhos e está a destruir a Ucrânia. Numa zona onde não havia problemas étnicos, decorre uma guerra civil onde mandam grupos de facínoras. As populações serão as primeiras vítimas e as feridas do conflito levarão anos a sarar. A Rússia intimida a periferia, mas não tem força económica ou demográfica para o fazer. A China seria a potência emergente na Ásia Central mas é provável que estas ambições sejam adiadas devido ao inesperado aparecimento de um conflito em Hong Kong, onde se luta por eleições livres. Convencer pessoas ricas a suportar um regime autoritário é complicado. Pequim terá uma escolha difícil para fazer: ou perde uma das maiores praças financeiras do mundo ou perde o seu monopólio político.

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No memorando de entendimento com a troika, que já nos parece do tempo da peste negra, eram exigidas reformas estruturais que os credores consideravam inadiáveis: justiça, leis laborais e redução das rendas excessivas nas PPP’s, medicamentos e energia. Ao contrário do mito, o governo da coligação nunca teve de proceder à reforma do Estado, pois nesse ponto o objectivo era mesmo cortar despesa e lançar as bases de uma reforma futura, o que aliás foi feito, com a redução de 10% no número de funcionários públicos.

O País embarca agora numa nova fase: a inversão do que foi realizado. As corporações venceram todos os ministros que tentaram mexer a sério nos seus sectores, porventura à excepção da saúde. No ano eleitoral, Portugal corre sério risco de embarcar numa ilusão. A coligação não quererá ser trucidada e o PS, que pode vencer as eleições, não tenciona enfrentar os erros do seu passado. Os novos partidos devem obter boas votações, mas isso implica que não haverá maiorias estáveis, excepto o bloco central, o grande derrotado.

O contexto europeu aconselhava prudência. Os alemães não estão dispostos a permitir uma união monetária com indisciplina orçamental. Os críticos do euro já assumem a oposição ao governo da chanceler Merkel, por isso qualquer suavização das metas orçamentais estará ligada a reformas estruturais compulsivas e duras. Italianos e franceses tentam sair do pântano em que se atolaram, terão de aprovar medidas impopulares, mas os governos reformistas têm apoio político frágil, sobretudo em França, onde o Presidente Hollande atingiu a mais baixa taxa de popularidade jamais registada para um chefe de Estado da V República.

Os responsáveis nacionais deviam concluir que os cortes na despesa terão de prosseguir após 2015. Caso haja renegociação das metas orçamentais do Tratado Orçamental, porventura a pequena folga com que todos sonham, a Comissão Europeia vai impor novas reformas, também impopulares. Por outro lado, se as corporações triunfarem, todos os sacrifícios terão sido em vão e Portugal começará a ser empurrado para fora do euro, o que aliás pode acontecer sem mais alterações, caso a Grécia vote no início do próximo ano e o Syriza vença. Nesse caso, Atenas tentará sair da zona euro, dando argumentos aos que defendem por cá o novo escudo e aos que na Alemanha querem o novo marco.

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O centro-direita está basicamente tramado. Em 2011, pegou num país à beira da falência e sujeito a um programa de resgate mal negociado, num contexto de crise da zona euro que dificultou a flexibilização das metas orçamentais, que foram mínimas e arrancadas a ferro. Apesar do espartilho, este governo pagou dívidas, conteve a despesa e evitou a saída do euro, mas esteve sempre dividido e atraiu a hostilidade de sectores importantes da própria direita, que serão aliás os primeiros a entrar agora em pânico e a tentar abandonar o barco a tempo. Com péssima comunicação e insistindo no absurdo de querer ir além da troika (o que nunca fez), o lado governamental terá escassos argumentos a seu favor: as pessoas ainda não sentem a economia a dar a volta e a estratégia de credibilização funcionou apenas nos mercados. Foi a opção correcta, mas não foi a escolha popular. Ninguém come taxas de juro.

A História será provavelmente mais branda do que o eleitorado está disposto a ser na campanha para Outubro de 2015, mas isso é fraca consolação. O descontentamento geral só não é percebido por quem não quer compreender. Nas próximas eleições, as pessoas vão votar de forma emocional e isso será visível de imediato nas sondagens, com forte subida do PS. António Costa não terá pressa e dispõe de muito tempo para esmifrar os ministros mais fracos e para encostar o Governo às cordas.

Acima de tudo, Costa não quererá interromper os erros do adversário, sobretudo se a estratégia governamental for a de tentar diabolizar os ex-socráticos que esvoaçam à volta do novo líder socialista. Falhou em 2009 com o próprio Sócrates, mas esta direita é burra, aprende mal e vai querer repetir o número.

Para não perder por muito nas próximas legislativas, a coligação deverá trazer a discussão política para os temas que verdadeiramente contam: como é que o PS de António Costa tenciona cumprir o Tratado Orçamental e o que prefere na questão da dívida pública? A reestruturação? Não sendo o crescimento económico suficiente para o milagre das contas públicas positivas, que cortes e reformas estão os socialistas dispostos a fazer? O líder do PS só precisa de fintar estes temas, de não se comprometer, de insistir na mudança e na esperança, de mostrar preocupações sociais, de falar aos desempregados e aos que vivem no medo de perder os seus empregos. Nestes assuntos, o governo estará em forte desvantagem. Costa evitou com êxito mencionar o Tratado Orçamental nas primárias do PS, tentará fazer o mesmo nas legislativas.

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O caso Tecnoforma visa destruir o principal capital político de Passos Coelho, a sua imagem de honestidade. Embora o primeiro-ministro tenha esclarecido as questões ligadas à denúncia anónima e as dúvidas sobre a exclusividade parlamentar, há quem ainda não esteja satisfeito. A denúncia era falsa e o processo foi arquivado. Sem novas informações, esta história está morta. O primeiro-ministro demonstrou de forma convincente que cumpriu as regras da exclusividade parlamentar a que se obrigou quando recebeu um subsídio. Passos Coelho é aliás um político pouco habitual, sem sinais exteriores de riqueza e que tem resistido aos interesses que dominam o regime democrático.

Ontem, enquanto ouvia o debate parlamentar, lembrei-me de uma história pessoal: estive na Guiné-Bissau em 1998, como repórter, e gastei muito dinheiro numa guerra onde não se passavam facturas. Na altura, não podia provar despesas de centenas de contos. Sou uma pessoa remediada, não tenho sinais exteriores de riqueza e o meu pai ensinou-me a não ficar sequer com um tostão que não seja meu. O jornal devolveu-me o dinheiro e não posso esquecer o chefe de redacção e o director que nem hesitaram em aceitar a minha palavra.

As pessoas honestas não podem ser confrontadas com situações onde tenham de provar a sua honestidade. O princípio aplica-se no caso Tecnoforma, onde foram esclarecidas as suspeitas que até agora surgiram. É por isso grave que o primeiro-ministro não tenha direito à presunção de inocência. É dramática a exigência de que prove a sua honestidade através da devassa pública e da abdicação de um direito individual. Se triunfar a demagogia, não haverá pessoas de qualidade na política. E sem pessoas de qualidade na política, o que teremos é a promiscuidade com os negócios, exactamente aquilo que toda esta retórica afirma combater.

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Três meses depois de ter saído do programa da troika, Portugal afunda-se numa crise política. O fim do ajustamento devia ter dado lugar a um clima mais optimista, mas verifica-se o oposto: aumenta a crispação, banalizam-se as greves, luta-se pelo poder. Vinda do nada, surge a suspeita sobre o próprio primeiro-ministro, que ameaça o único capital político que Passos Coelho ainda possuía, a sua reputação de honestidade. Caso não seja esclarecido depressa, este caso porá o Governo a fritar em azeite lento e a coligação no poder enfrentará um final triste. 

O PS está em plena guerra civil. A perspectiva do poder deve unir as facções, mas o centro-esquerda não esclarece como vai solucionar o problema das contas públicas. Os socialistas dizem confiar no crescimento da economia, mas na melhor das hipóteses este não chegará nem para metade do esforço de consolidação orçamental que falta fazer.

No último debate da corrida à liderança do PS houve uma frase curiosa de António Costa, que passou despercebida: “Agora, começa a parte difícil”, disse o dirigente socialista. A parte fácil da oposição tinha sido com a troika. De forma implícita, Costa admitiu por um momento que não houve grande margem de manobra durante os três anos de ajustamento. Portugal esteve sob protectorado e foi sob tutela externa que realizou algumas reformas. Esta fase do campeonato acabou. Entretanto, houve uma crise no Governo que colocou ponto final no reformismo e, logo a seguir, estoirou o banco do regime, mostrando a fragilidade das confortáveis ligações entre as corporações partidárias e os negócios amparados pelo Estado.

Três meses depois da troika, o clima de fim de festa facilita o aparecimento dos populistas e do sebastianismo, ou seja, da ilusão dos caminhos fáceis. Os partidos radicais (que não pensam em ocupar o poder) repetirão a sua narrativa romanceada sobre o país de fantasia em que vivem. Os analistas do costume vão esconder do povo a parte mais crua da realidade, sobretudo as consequências dos compromissos europeus. A verdadeira crise nacional é a impotência da política, a conversa da treta e o abismo cada vez mais evidente entre as fracas elites e uma sociedade em mudança.

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No caso do Iraque, é bastante evidente que a América não tem intenção de enviar tropas para o terreno, o que aliás seria um brinde oferecido aos radicais do Estado Islâmico (eles não querem outra coisa). O EI está a tentar perturbar o fluxo de petróleo, cuja produção se encontra sobretudo no Curdistão e no sul do Iraque, mas o radicalismo tentará também ser uma ameaça aos regimes autoritários da região. Até que ponto a monarquia saudita é estável? Os curdos continuam a controlar a parte mais apetecível do petróleo iraquiano e os pontos de saída parecem por enquanto seguros, mas os ocidentais estão claramente à defesa.

Os imperialistas ingleses da Era vitoriana diziam que não tinham aliados, mas apenas interesses. Os americanos deviam um dia deixar-se de grandes discursos sobre a defesa de alianças e dos valores da democracia e da moral, assumindo com simplicidade aquilo que sempre fizeram, que foi defender os seus interesses. Tentando perceber o que é conveniente para a América (e para o Ocidente), podemos analisar um pouco melhor os vários conflitos que se agravam no Médio Oriente. Tudo o que afecte o fluxo de petróleo terá de ser travado. Tudo o que enfraqueça o governo iraquiano de maioria xiita terá de ser evitado, pelo que Washington precisa de estabelecer uma comunicação com Teerão, que será cada vez mais um importante parceiro conjuntural. A Arábia Saudita é uma perigosa incógnita, como veremos porventura nas próximas peregrinações a Meca. Os regimes tradicionais da região devem encarar a radicalização com especial medo, o que implica não ser esta a melhor altura para falar em revolução árabe. E, no entanto, sem uma abertura nestes regimes, sem um pouco mais de justiça, o descontentamento das populações só alimentará os radicais. 

 

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Em Portugal, o referendo pela independência na Escócia produziu análises diferentes das que encontramos na Imprensa internacional, que pareceu mais preocupada com as consequências da votação na vida dos escoceses e no futuro do Reino Unido. Por aqui choveram as críticas sobre a União Europeia, que estará à beira do colapso. Veja-se este texto de João Miranda, que coloca a questão ao contrário: os eleitores escoceses não votaram pela Escócia ou pelo Reino Unido, mas foram vulneráveis a um suposto interesse exterior. “A União Europeia tem interesse em enfraquecer os grandes Estados”, escreve o autor de Blasfémias, como se os Estados europeus que formam a UE tivessem algum interesse em enfraquecer-se a si próprios.

Neste texto no DN, Viriato Soromenho Marques compara a situação europeia ao império romano e à ex-Jugoslávia. As analogias históricas são sempre interessantes, mas não vejo como será possível usar estas duas. Roma era um império e a ex-Jugoslávia uma federação, a União Europeia não é uma coisa nem outra.

A Escócia pondera ou ponderou sair do Reino Unido, mas não se propõe sair da UE, pelo contrário, deseja permanecer (escrevo quando a votação terminou e o resultado ainda é desconhecido, mas o argumento funciona para os dois lados). A Catalunha quer sair de Espanha, mas não tem qualquer intenção de abandonar a União. O mesmo se pode dizer da Flandres e das outras regiões nacionalistas que em breve serão micro-Estados.

A fragmentação política na Europa está provavelmente no futuro, mas ligada à elevada sensação de segurança dos europeus. Os escoceses não sentem qualquer ameaça externa e acreditam que se podem tornar numa espécie de país escandinavo. Se houvesse uma ameaça, ninguém votaria a favor da separação. Dizer que o problema está na Europa parece ser uma conclusão contrária aos factos. É precisamente o oposto, ninguém quer perder o acesso a um mercado gigantesco e à livre circulação de bens e capitais. Isto também não é uma conspiração de Bruxelas contra o Estado-nação, pelo contrário, as nações europeias podem existir de muitas formas e existem também sob a forma União Europeia, que pertence aos Estados que a compõem.

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A votação sobre a independência da Escócia mostra os perigos do referendo. É fácil que um debate seja captado por populistas, por interesses limitados e por ideias delirantes. Muitos eleitores votarão por não gostarem do governo conservador britânico. Julgando escolher a independência, tentam assim castigar um partido, afectando profundamente a vida de pessoas sem direito a voto.

Num referendo, as duas opções nunca são iguais nas suas consequências: neste caso, o sim à independência será irreversível (nem que seja por um voto), enquanto o “não” pode ser desafiado dentro de cinco a dez anos, sobretudo se houver diferença mínima. As sondagens indicam votação equilibrada, com tendência para o “não” à independência, logo estamos perante um exemplo do poder crescente do populismo e da fragmentação política na Europa.

Há outro aspecto relevante: como é que uma região da UE se transforma num país da UE?  A Escócia terá um óbvio problema de moeda, pois precisa de negociar a permanência na libra ou a adesão ao euro. Quanto tempo levará a transição? Que parte da dívida britânica ficará na Escócia? Os maiores obstáculos estarão na integração europeia, pois a Escócia precisará de negociar a partilha de poder (comissário, eurodeputados, assento no conselho, funcionários, legislação) e isso terá de ser ratificado por cada Estado-membro da UE. Por exemplo, o Reino Unido perde eurodeputados ou haverá aumento no número global e todos perdem? É irónico: os escoceses votam pela independência e terão de iniciar de imediato uma partilha de soberania.

Em caso de acabar o Reino Unido, o referendo será estudado de perto por catalães e flamengos. Caso o futuro corra mal, a votação funcionará como vacina para outros soberanistas. A democracia europeia tem esta evidente vantagem, permitindo que decorram várias experiências em simultâneo, umas servindo de modelo, outras de aviso.

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A comunicação social foi unânime: o representante português na Comissão Europeia, Carlos Moedas, obteve um posto irrelevante numa área onde o Governo tem desinvestido. Segundo esta visão, Moedas terá uma função de segunda linha e houve até notícias a ridicularizar o resultado. O PS chegou a referir que tinha “evitado” a entrega de uma pasta social e surgiu a história delirante de que o presidente da comissão tinha pedido o envio de outra pessoa (como se isso fosse possível). Era crucial demonstrar que a pasta de ciência representa pouco, nomeadamente investigadores que se dedicam a assuntos bizarros e teóricos.

O que a comunicação social não explicou é que Portugal conseguiu um dos bifes do lombo na nova Comissão Europeia. Carlos Moedas vai gerir o Programa Horizonte 2020, o mais ambicioso de sempre na área da ciência e da inovação. Entre 2014 e 2020, terá um orçamento de 80 mil milhões de euros (é o orçamento português durante um ano), sem contar com a parte do investimento privado. Este programa terá implicações nas áreas da saúde, espaço, transportes, energia, visando a criação de emprego e a participação activa de empresas. Na realidade, trata-se de uma pasta vital da área económica, que visa criar a “União da Inovação” e uma política mais integrada, para impedir a duplicação de trabalhos e aumentar a cooperação.

Quando falam de estratégia, os dirigentes europeus mencionam a consolidação orçamental, as reformas estruturais e costumam referir um terceiro elemento: o investimento em investigação e desenvolvimento. O objectivo é conseguir que até 2020 todos os países gastem no sector 3% do PIB. Carlos Moedas estará no centro de uma das políticas mais importantes da UE, mas estão a vender-nos o filme ao contrário e quase se pode prever o circo mediático à volta da confirmação parlamentar do comissário. É a política do quanto pior, melhor, agora ao vivo e a cores também na Europa, onde costumava existir consenso.

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A parte mais difícil de uma crise é sair dela. É esse o conflito a que assistimos: no pós-troika, os grupos de interesses e as corporações tentam não perder doses excessivas do poder que detinham. Para isso, criam um clima de horror, desvalorizando o presente: quem disser que a economia começou a crescer e a criar emprego é acusado de propagandista. O passado é negado ou revisto.

Na primeira década do século, o regime democrático avançou para o desastre em atitude sonâmbula, adiando as reformas que podiam ter evitado a queda. Todos os partidos foram responsáveis, mas os socialistas cometeram erros calamitosos. Em 2011, o País entrou em pré-falência e foi salvo pelos seus parceiros europeus, que impuseram reformas estruturais associadas à redução da despesa pública. Esse programa foi cumprido pelo actual governo, com três anos de duros sacrifícios para a população, empobrecimento, aumento do desemprego, cortes nos salários e pensões, mais impostos e menos consumo, falências, emigração.

Entretanto, finda a tutela, os políticos e os comentadores falam como se isto nunca tivesse acontecido. O País não criou a sua própria dívida, o resgate não tinha condições definidas num memorando difícil (e mal negociado). Até se repete que as exigências externas não foram cumpridas. Assim, o ajustamento foi um absurdo, mero zelo ideológico, teimosia de um governo incompetente ou ao serviço de interesses alheios. A austeridade e o empobrecimento não são sintomas do fracasso, mas as causas do mal.

Talvez o País decida regressar aos desequilíbrios crónicos das contas públicas e à cultura dominante da irresponsabilidade das clientelas partidárias. No último século e meio, foi essa a tendência, as reformas foram sempre demasiado curtas para mudar o essencial. E, no entanto, desta vez parece diferente: os europeus tentarão evitar o regresso da tendência e as nossas paupérrimas elites instaladas, uma das causas do atraso nacional, terão menos poder. Se escolhermos o passado, voltaremos à situação de pedintes ou teremos de sair da Europa desenvolvida. A UE também mudou com esta crise, como demonstram o Tratado Orçamental, a união bancária e a política francesa. Isto é algo que muitos não querem compreender: seremos europeus ou caóticos.

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O pessimismo não é um exclusivo nacional, mas assenta numa consciência ancorada na cultura contemporânea. Imaginem um romance onde o autor decide casar toda a gente e são todos felizes para o resto da vida. Um livro deste tipo dificilmente veria a luz do dia, pois o editor acharia tanto optimismo um perfeito disparate. Se, passando entre as gotas da chuva, chegasse às livrarias, a história seria ridicularizada. Enfim, isto não se aplica a paródias, havendo ainda outras excepções, mas o ponto é o seguinte: já não há finais felizes.

Imaginem o espanto do público na exposição de pinturas com flores e pessoas contentes e casamentos e alegria e vida e ainda sol e felicidade. Toda a gente diria que o pintor era maluco, sem ter incluído uma referência ao medo de existir, ao destino fatal da condição humana, sem sequer uma crítica tímida à opressão, às injustiças sociais, ao peso do declínio da civilização ou à ameaça existencial. Tendo em conta a crise eterna, o optimismo seria deslocado também numa simples comédia em filme ou no teatro.

Cores bonitas, pessoas lindas? Nem na moda ou na publicidade isso funciona: tem de haver uma pequena crítica, algo de bizarro ou grotesco, uma beleza fria ou indiferente. Numa sociedade obcecada com a visão pessimista de si própria, o final feliz tornou-se numa anomalia antiquada e tola. Pode até surgir como comentário trocista, mas nunca como imagem da realidade. O final feliz precisa de alguma forma de ambiguidade ou será visto como estúpido e infantil.

O mundo é aquilo que vemos dele. As reportagens e os documentários são sobre gente no limite, sobre injustiças e derrotas. Os romances centram-se no fracasso ou na observação do homem trucidado pela História. Os filmes são violentos, a pintura é sombria, a música inquietante.

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A formação do Estado Islâmico (EI) no Iraque a Síria resulta do erro americano de invadir o Iraque em 2003 e destruir o regime de Saddam Hussein, decisão da administração de George W. Bush agravada pelos sucessivos erros da ocupação, sobretudo a desmobilização do exército iraquiano e o afastamento dos membros do Baath, o partido da ditadura. Bush acreditava ser possível criar uma democracia no Iraque e prosseguiu uma estratégia míope, desdenhando as dúvidas dos seus aliados. Em suma, os políticos perderam uma guerra iniciada sem motivo válido.

O Estado Islâmico, ou Califado, resulta de uma década de luta constante, que deu origem a uma organização de guerrilha de eficácia nunca vista, capaz de enfrentar exércitos modernos. O Iraque ficou partido em três entidades: curdos, xiitas e jihadistas sunitas. O EI será capaz de resistir a uma coligação de vizinhos (que aliás não parece possível, pois teria de incluir Bachar al-Assad e o Irão) e os aliados ocidentais não tencionam enviar tropas para o terreno. Seria um suicídio político. Combater o EI com objectivos limitados ameaça criar uma década de conflito sangrento e pode incendiar o Médio Oriente.

O fanatismo religioso é uma ideia velha, tão antiga como a civilização. Neste caso, o que parece ser novo é o facto de haver pessoas educadas em sociedades seculares e modernas que aderem às novas brigadas internacionais da jihad islâmica. Os fanáticos da guerra santa querem criar uma teocracia semelhante à que existiu no início do Islão, no século VIII. Esta ideia messiânica representa um recuo de 1200 anos na História da humanidade, a recusa dos direitos humanos, do estado de direito, da república, do espírito científico e da liberdade individual. O que mais surpreende é haver centenas, talvez milhares de jovens educados em sociedades ocidentais que aceitam esta brutalidade. Como explicar os milhares de combatentes islâmicos que foram fanatizados em ruas semelhantes àquelas onde vivemos? Como explicar os jihadistas que saem de famílias quase iguais às nossas? Desta vez é diferente: a teoria do choque de civilizações parece insatisfatória.

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Também ouvi com espanto a frase que João Gonçalves reproduz. Segundo Marques Mendes, em política “não existem lealdades passadas, só há lealdades para o futuro”. Com extrema candura, este oráculo define toda uma elite, toda uma época.

Torna-se penoso assistir a este espectáculo trágico do “segundo apurei”, a política de comunicação governamental mais desastrosa de sempre, na verdade única no mundo. Como refere Sérgio de Almeida Correia, em post anterior, em vez de serem anunciadas pelas autoridades ou aparecerem nos jornais, onde têm a devida credibilidade, as notícias importantes são reveladas por um comentador que é também político activo com ambições próprias e que finge ser jornalista de investigação.

A ligeireza tomou conta da paisagem mediática. Estamos rodeados de falsas narrativas e de omissões, vemos a hipocrisia geral dos que governam e dos que querem governar, assistimos impávidos às distorções da comunicação social transformada em espectáculo e ao radicalismo marciano dos partidos da oposição. A responsabilidade está em declínio, triunfa o oportunismo e a táctica. As elites portuguesas afundaram o país e vivem uma crise sem precedentes, mas para essas elites, sobretudo as políticas, é difícil compreender que o povo deixou de confiar nelas.

 

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O cessar-fogo no leste da Ucrânia tem a virtude de travar o banho de sangue, mas não resolve o conflito, apenas garante que a soberania ucraniana continuará a ser uma ficção. Os Ocidentais evitam o confronto directo com a Rússia, que está perto de conseguir o seu objectivo: a Ucrânia continuará a ser um país domesticado. Para isso, bastará formar uma nova entidade política, habitada por “russos” que serão prontamente auxiliados por Moscovo, antes e depois das negociações. Se Kiev tentar a democracia, terá ali um espinho cravado.

A criação de enclaves hostis é uma ideia testada: a Rússia mantém sob seu controlo territórios em países que se separaram da URSS, por exemplo Transdniéstria (Moldávia) ou Abcásia e Ossétia do Sul (na Geórgia), governados por delinquentes armados que procederam a limpezas étnicas e que se dedicam a diversos tráficos. Qualquer tentativa de recuperar os enclaves suscita a resposta militar imediata da Rússia. Assim, a Ucrânia será um país instável, sem possibilidade de se aproximar demasiado da UE e sem eleições livres na totalidade do seu território, com uma província anexada e outra separatista. A Europa terá escasso incentivo para decretar novas sanções contra a Rússia. A mini-Guerra Fria deverá ficar por aqui, limitada a relações pouco amistosas e retórica inconsequente.

Enfim, na História de 2014, regista-se que Moscovo utiliza tácticas coloniais do século XIX e esse comportamento é aceite pelas democracias ocidentais, sempre ligeiramente hipócritas, sobretudo quando falam de liberdade. Apesar de tudo, a Ucrânia escapa com sorte: não perdeu muito território e receberá  ajudas militares não letais, para a coisa não parecer um Acordo de Munique.

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Certos intelectuais olham para o País com indisfarçável desprezo. Isso é visível neste texto, do qual destaco a seguinte frase: “A fina película do nosso progresso, cada vez mais fina com a crise das classes ascendentes, revela à transparência todo o nosso ancestral atraso, ignorância, brutalidade, boçalidade, mistura de manha e inveja social”. O ‘nosso’ está ali para disfarçar, pois duvido que o autor, Pacheco Pereira, se reveja nestas linhas, que pretendem ser o retrato fiel do povo português, tal como é visto pelas elites. 

E, no entanto, a frase é falsa, não há outra maneira de a caracterizar. O autor descreve um Portugal inexistente, puramente imaginário, povoado por criaturas grotescas e meio debilóides, incapazes de um pensamento estruturado, portanto necessitando da condução esclarecida de uma vanguarda intelectual com ideias e leituras cosmopolitas.

Para o autor, o povo português não vive em cidades e subúrbios, não se concentra no terço litoral do território, não está a envelhecer depressa nem enriqueceu, não é europeu nas suas preferências nem evoluiu um milímetro em matéria de instrução. A frase parece tirada de um romance neo-realista dos anos 40, descrevendo um país de cavadores depauperados, com gosto folclórico e nenhum conhecimento do que se faz lá fora.

Os jovens são drogados e vazios, os velhos não existem, como não existem mulheres independentes. Os portugueses são invejosos e manhosos, brutais (esta ideia nem percebo de onde vem) e as classes em ascensão estão em crise (suponho que o autor fala da classe média, que nunca foi tão alargada e tão influente).

O pior é que este tipo de comentário conquistou as discussões públicas; Portugal acabou, está morto e enterrado. E, no entanto, a visão de hecatombe não é apenas míope em relação ao povo que descreve, mas exibe desconhecimento profundo da realidade sobre esse povo. As elites intelectuais assistem à mudança da sociedade portuguesa sem perceberem patavina do que está a suceder, aplicando uma grelha de análise que talvez fizesse sentido na década de 40, mas que agora é apenas absurda.

 

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No fundo, há duas grandes correntes de pensamento: a crítica aos excessos do materialismo e a crítica às insuficiências da ideologia.

Para muitos autores, o mundo contemporâneo está em declínio, por ter perdido os seus valores e por se basear no insaciável apetite das classes dominantes. O culto do eu leva ao caos social e condena a sociedade à decadência. Há quem defenda a necessidade do regresso à tradição e, quanto maior o choque com a realidade exterior, mais estes movimentos se encolhem na concha dos respectivos fundamentos ideológicos. As críticas à modernidade podem vir de religiões ou de movimentos anti-capitalistas, mas convergem na ideia de que o mundo está à beira de uma transformação inevitável e que essa transformação nos conduz a algo de fundamental. Existe sempre ali a ideia do regresso a um passado idealizado.

Do outro lado do espelho estão os que se afirmam do mundo pragmático. Para eles, as utopias não passam de ilusões, modas ou resistência ao progresso. Segundo afirmam, o mundo material permite fornecer à maioria dos consumidores as bases essenciais do bem-estar, sendo pouco compreensível o descontentamento que alastra nas sociedades contemporâneas. E perguntam esses materialistas: não será a proposta utópica equivalente a trocar uma vida segura por um estado permanente de incerteza?

Os dois lados estão cada vez mais entrincheirados e o debate alastra à generalidade dos temas, conduzindo ao seguinte problema: nunca fomos tão ricos, tão livres e tão cultos como agora, mas também nunca terá havido vidas tão conscientes do seu vazio; por outro lado, se fôssemos mais felizes, viveríamos com o mesmo acesso à riqueza, liberdade e cultura?

 

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Quando li pela primeira vez este texto, nem quis acreditar. Li de novo e, de facto, trata-se de uma crítica ao “jornalismo concreto” que, segundo a autora, tem excesso de agressividade, sendo uma “nova forma de jornalismo”, em oposição a métodos mais honestos, como será o caso de um jornalismo de fantasia. O texto é uma crítica e o “jornalismo concreto” não deve ser praticado.

O pior é que este texto não foi escrito pelo tontinho da aldeia. A autora de Vai e Vem, Estrela Serrano, é uma especialista em comunicação social, ensina ou ensinou essa matéria e devia saber que só existe “jornalismo concreto”, tudo o resto sendo conversa da treta, limonada pseudo-informativa, com perguntas para embalar bebés. Os políticos têm obrigação de responder a questões autênticas e os jornalistas têm a obrigação de saber se eles disseram alguma coisa, se as suas propostas são viáveis ou se estão a omitir posições relevantes.

No entanto, na sua crítica, a especialista Estrela Serrano escreve que este mau exemplo “é um jornalismo que só se interessa pelo concreto e pelo imediato”, embora a frase seja uma excelente definição de bom jornalismo, que deve questionar exactamente esses dois elementos, o concreto e o imediato, expondo a retórica balofa e o empurrar com a barriga. 

Agora percebo muito melhor a crise da imprensa, a razão da fuga dos leitores. O jornalismo que questiona o concreto e o imediato tornou-se uma raridade que merece a crítica severa dos mandarins da comunicação social. Assim, os jornalistas que exercem a sua profissão devem acalmar-se e fazer apenas as perguntas mais dóceis.

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No mundo em que vivemos (não aquele em que imaginamos viver), a discriminação é um dado presente, como se vê neste texto de Paulo Pinto ou neste outro de Filipe Nunes Vicente.

Nos países industrializados existe uma prática de discriminação silenciosa, que ajuda a explicar os fanáticos, os radicais e o descontentamento larvar.

Estas sociedades criaram uma extensa classe média que tem o terror do empobrecimento súbito, seja ele real ou imaginário, terreno fértil para os populistas que tentam explorar a ideia da insegurança. As pessoas vivem no medo profundo de cair ao longo da escada social.

A ordem liberal que triunfou nos últimos 30 anos criou uma sensação de crescente desigualdade e alienou os fracassados do ensino de massas que, sem lugar na economia, sem trabalho e sem qualificações, parecem só possuir o recurso à proletarização extrema.

As minorias não têm lugar nesta situação de desemprego elevado e de redução do Estado social. O sentido de injustiça alastra um pouco por todo o lado, entre os ciganos da Europa Central, nos subúrbios das grandes cidades europeias, nos negros americanos sem voz política, em todos os grupos cujo acesso aos meios de comunicação é feito em doses cuidadosas e filtradas.

Dominadas pela correcção política, pelos partidos burgueses tradicionais e pela defesa da ordem liberal que provocou a crise financeira, as democracias não parecem ter uma resposta viável para os problemas colocados por minorias presas no fundo da pirâmide.

 

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Tal como Pedro Correia escreveu mais abaixo, o mundo contemporâneo parece autocentrado, repleto de frivolidade e niilismo. E, no entanto, nunca houve tanta abundância, nem tal sensação de infelicidade. Nas sociedades industrializadas, toda a gente vive na angústia de cair para a base da pirâmide social, onde existe a minoria do gueto e a discriminação silenciosa.

Os ciclos políticos são cada vez mais efémeros, os casamentos mais curtos, há também a ideia de que a vida passa depressa, comprimida de forma frenética em dias que deixam poucas recordações.

Depois, há tantos objectos nas lojas, que nenhum deles se torna especial. As interrupções sistemáticas de aparelhos de comunicação não deixam tempo para pensar. De certa forma, estes aparelhos dificultam a comunicação humana: vivemos em rede, como as abelhas; e, paradoxalmente, o espaço em que nos movemos é cada vez menos público. Nas cidades, cada pessoa habita a sua solidão, o seu carro, a sua música, a sua minúscula casa. Não há tempo e não se conversa (aliás, ninguém o deseja).

Temos uma ideia mítica sobre o passado, que parece ter sido mais glorioso do que foi na verdade, e já não existe o povo de antigamente, pois também temos uma ideia falsa sobre o que somos. Agora, a vida é superficial e veloz, pessimista e obcecada com a beleza do corpo (que devia ser mera questão estatística).

O mundo tornou-se ruidoso, impaciente, e acima de tudo insatisfatório: obsceno nos seus desperdícios, decadente na sua arte, capaz de oferecer a abundância mais sufocante e o inverso, o sufoco da escassez para todos os que tombarem da horrível mediania.

 

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Há autores para quem o mundo é a preto e branco e que defendem essa ideia simples chamando idiotas aos que discordam. Deviam olhar para o caso do Estado Islâmico (ou Estado Islâmico do Iraque e do Levante ou Califado). Vejo comentadores que defenderam a invasão do Iraque a defenderem agora que esta é uma ameaça existencial de um grupo terrorista. E, no entanto, a organização tem ideologia e capacidade de conquista, ocupa território e recruta simpatizantes, funcionários e soldados. O conflito subiu de patamar e estamos perante um Estado que mantém fronteiras, exército e financiamento.

A estratégia do EI passa por atrair o máximo de americanos ao combate no terreno, onde haveria inúmeras baixas. Na realidade, o EI é muito mais perigoso para o Ocidente do que os talibãs do Afeganistão, que tinham formado um pequeno Estado radical, mas muito pobre, e que, após uma interrupção armada de 13 anos, estão de novo prontos para tomar o poder naquele país.

Os americanos perderam o Iraque e a intervenção de 2003 foi um erro crasso, como preveniram autores então acusados de idiotas. Ironicamente, os melhores amigos da América na região, os sauditas, ajudaram a financiar este grupo, pelo menos no seu início. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante era potencialmente útil para os interesses da monarquia saudita, pois punha em causa o poder de Bachar al-Assad na Síria. Claro que o génio saiu da lâmpada e, como na história de Aladino, é preciso ter cuidado com o que se deseja. Bombardeando o EI na Síria, a América vai agora ajudar Bachar, aliando-se a Teerão, outro inimigo, para ser possível salvar ainda alguma coisa no Iraque, que se prepara para um conflito de anos. O mundo islâmico que conhecemos está a mudar de forma imprevisível e no meio de um banho de sangue.

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Este comentário de Helena Matos mostra como se discute nas trincheiras. A notícia está errada, é verdade, mas não é esse o ponto. Acima de tudo, o facto de haver notícias erradas sobre um problema não nos diz que o problema seja inexistente. As informações incorrectas podem ser corrigidas. No domingo, Morel Malka, judia, convertida ao Islão, casou-se com o árabe israelita Mahmoud Mansour, na localidade de Rishon Letzion, em Israel. Este casamento tornou-se notícia por ter surgido uma organização de extrema-direita, Lehava, a protestar contra a realização do inofensivo matrimónio.

Este Lehava organizou uma manifestação e tentou perturbar o casamento, insultando os convidados, acusando a noiva de “traição”. Para os extremistas, que diziam falar em “nome de Deus”, o casamento destas duas pessoas era uma “abominação”. A tentativa de perturbar a cerimónia provocou forte polémica, levando parte da opinião pública israelita a classificar de "vergonhosa" a actuação dos racistas.

Os casamentos entre pessoas de religiões diferentes representam em Israel um pesadelo para os noivos e isto aplica-se a todas as comunidades, incluindo a casamentos entre judeus e cristãos. A situação é mais grave se envolver um muçulmano, sobretudo do sexo masculino, mas os jornais israelitas dizem que o clima de intolerância piorou. Helena Matos tem o direito de não escrever sobre isso e preferir a notícia defeituosa, mas o problema não vai desaparecer apenas pelo facto de haver um texto mal escrito: o radicalismo não existe só num dos lados do conflito, existe em ambos. E o mundo muda e mudará de muitas maneiras, não necessariamente como os radicais desejam.    

 

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Não, não é nada disto. Há autores que gostam de criticar a União Europeia sem dizer como é que faziam. Se a Europa não se mexe, é uma menoridade política; no caso de se mexer, é um monstro burocrático.

Aqui, não estão em causa os “joguinhos de poder da baronesa Ashton”: nem são joguinhos, nem são da baronesa. O que está em causa é a liberdade dos europeus de não serem vítimas de intimidação. Devido à crise na Ucrânia, houve sanções contra a Rússia e esta respondeu, proibindo a importação de certos produtos agrícolas. A UE tem 28 países e a resposta russa não atinge todos por igual, tem um impacto na Polónia, na Hungria ou na Lituânia muito superior ao impacto que terá no Reino Unido ou em Portugal. Este é o problema da política externa dos europeus: quando querem falar a uma só voz, têm interesses diferentes.

Neste contexto, a UE tem a obrigação de actuar e de compensar os produtores agrícolas dos Estados membros mais afectados, sobretudo tendo em conta que existe uma política agrícola comum a absorver 40% do orçamento comunitário. Aqui não se pode aplicar a cartilha liberal, pois os mercados agrícolas não são livres, por decisão soberana dos 28 e por razões históricas cuja explicação é complexa. Se Bruxelas nada fizesse, as sanções de Moscovo tinham mais efeito e, na próxima ronda de eventual agravamento desta crise, os países mais expostos à resposta russa seriam obviamente contra novas sanções. Neste caso, com a inacção dos europeus, a Ucrânia seria retalhada às postas. E o autor não tem de se preocupar com a sua parte nos impostos que estão a ser gastos, pois Portugal recebe muito mais dinheiro do que paga para os cofres comunitários. Sim, é verdade, recebemos uma pipa de massa.

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Esta história, que li na Economist, mostra um avanço notável na inteligência artificial e demonstra que os humanos estarão dispostos a contar os seus problemas mais íntimos a um programa de computador com elevado grau de inteligência. Esta segunda reportagem sugere que a relação entre homens e máquinas inteligentes poderá assumir formas complexas, pois teremos inibição em fazer mal a um robot que nos pareça autónomo ou capaz de raciocinar. A inteligência artificial terá de evoluir ainda muitos anos antes de atingir um nível que ultrapasse a nossa espécie, mas em breve estaremos perante grandes problemas éticos e eventualmente até perigos existenciais.

Quando li a história da psicóloga virtual lembrei-me de uma personagem de um livro de 1977, o clássico da ficção científica Gateway*, de Frederick Pohl, por sinal verdadeira obra-prima do género. Neste livro, o protagonista faz terapia com ajuda de uma máquina, Sigfrid von Shrink, psiquiatra virtual que o autor imagina com aspecto mecânico. A personagem principal é um explorador que teve sorte numa perigosa viagem espacial às cegas, espécie de lotaria baseada no uso irresponsável da tecnologia de uma espécie alienígena antiga, entretanto desaparecida, a que os humanos chamam os Heechee.

Muitos entusiastas consideram Gateway um dos melhores livros da história da ficção científica e na verdade este romance (que teve duas sequelas) coloca problemas muito interessantes sobre as consequências imprevistas do uso inconsciente da tecnologia. Trata-se de uma variação da lenda do aprendiz de feiticeiro, tendo este conto de origens antigas (talvez da Grécia clássica) inspirado um poema de Goethe, que por sua vez serviu de base para um poema sinfónico do compositor francês Paul Dukas, parte fundamental do filme de Disney, Fantasia, que talvez Frederic Pohl tenha visto, encontrando ali o tema para uma abordagem mais complexa que, por acaso, inclui um psicólogo robótico, Sigfrid von Shrink (o curioso uso do Sigfrid), antepassado literário da verdadeira máquina, que por acaso se chama Ellie, diminutivo em inglês do nome Helen, que vem do grego Helena, que segundo alguns significa luz brilhante, nome apropriado a descobertas e a grandes paixões, mas segundo outros pode estar ligado à designação grega da Lua, e assim estranhamente vamos dar aos Heechee e a Gateway, que é uma lua artificial.  

 

*Foi publicado em português na colecção Argonauta, 355 e 356, com o título A Porta das Estrelas.

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No segundo texto da sua coluna, Alberto Gonçalves considera idiota a indignação com a Faixa de Gaza enquanto houver jihadistas a degolar curdos no Iraque. Ele usa mesmo esta expressão, idiota. O segundo texto da coluna (Onde fica a Embaixada da Letónia?) usa o método retórico da ironia para defender a tese de que há graus de mal e não faz sentido a crítica aos graus menores enquanto persistem os maiores.

Hoje assisti a um assalto na minha rua, um matulão a bater numa velhinha e, quando pensei em intervir, moderei a indignação e pensei nos curdos degolados por jihadistas; a velhinha ficou maltratada, mas julgo que fiz bem em não travar o assalto, por causa dos jihadistas que degolam curdos.

Aliás, aposto que nas próximas semanas Alberto Gonçalves deixará de escrever, por falta de material, ou teremos muitas colunas sobre jihadistas. Nem compreendo que se indigne com Marinho e Pinto, no primeiro texto da sua coluna, tendo em conta que Marinho e Pinto é um mal menor. Os russófonos da Letónia são discriminados? Quem quer saber disso? É apenas um país da União Europeia e, entretanto, no Iraque, há jihadistas a degolar curdos.

Os colunistas de jornal que gostam de policiar o pensamento dos outros têm noção clara das prioridades sociais e tratam os assuntos apenas quando eles atingem a relevância conveniente, que lhes permita confirmar as conclusões pré-fabricadas dos seus textos. Quando for mais difícil manter a argumentação, então haverá sempre um jihadista a degolar curdos.

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Neste texto, Filipe Nunes Vicente cita um autor que eu desconhecia, Curt Meyer-Clason, e encontra a expressão feliz e certeira da “velha guilda da revolta mansa”. Alguns romances com 40 anos mostram essa elite inconsequente, que discute alta filosofia política nos salões da gente que conta (Sem Tecto, Entre Ruínas, de Augusto Abelaira, é um exemplo que me ocorre de imediato, pois o livro começa com a longa discussão de um grupo idêntico ao descrito por Meyer-Clason). 

A elite nacional já não é tão fina e tão pequena como era em 72 ou 82, nem o povo português é hoje tão pouco instruído como nesse tempo. Ele tornou-se mais europeu, os seus filhos estudaram, o rendimento das famílias aumentou. Apesar disso, muitos intelectuais continuam a desprezar a ignorância das classes menores, sem perceberem que imaginam uma realidade inexistente; por outro lado, os pobres que ascenderam à classe média perderam a paciência para a mansidão pedante destes visionários míopes, que parecem ignorar todas as transformações. As novas fórmulas infalíveis para o futuro falam para um País que já não existe há pelo menos uma geração e que, no essencial, se está nas tintas para utopias, agitações revolucionárias e cultura obrigatória.         

Na Europa persiste a imagem de um Portugal pobre e quase analfabeto, mas as classes sociais dominantes no País partilham dessa opinião distorcida e consideram que o seu próprio povo forma um rebanho com a qual não se consegue fazer qualquer mudança.  As altas conversas incluem grandes estratégias e nobres desígnios, gentilmente fornecidos à população sem que alguém se lembre de perguntar o que ela deseja. É por isso que, sempre que surge um problema, a discussão morre no início, para não sair dos círculos certos. Os meios de comunicação, os partidos, os escalões mais altos da administração e da economia, enfim, todos os patamares instalados exibem um desprezo permanente pela autêntica ascensão social, que tem cada vez mais a forma de diluição de classes.

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Um texto brilhante de João Gonçalves, a propósito de personagens de John Le Carré. A traição, o grande tema do escritor britânico, é um enigma difícil de compreender e reproduzo a impressionante frase de George Smiley, citada no texto: “Você é uma boa pessoa, leal e discreto, como é que não o demitiram?”

Excelente pergunta. Através de Smiley, Le Carré capta o mundo de sombras onde a lealdade foi sacrificada a cálculos distorcidos, onde trair se tornou um jogo trivial e a verdade se esconde no nevoeiro de mil enganos. Mas este mundo de espiões não é mais do que uma analogia do nosso próprio mundo. A ambiguidade e o efémero comandam as relação entre as pessoas. Valores como lealdade são hoje pouco valorizados, os nossos amigos são descartáveis, em nome das vantagens tácticas e da visão de curto prazo. Enganar tornou-se um vício, o desprezo pelo outro é a norma, até à desumanização, se isso for necessário para preservar as pequenas ilusões do poder.

Smiley é um símbolo daqueles, raros, que sendo traídos buscam mesmo assim fragmentos de uma verdade. “São homens de mundos abolidos”, escreve João Gonçalves, “ainda há alguns, poucos, por aí dispostos a tentar e a fracassar. E a tentar de novo e a fracassar melhor”.

Tal como esses poucos, julgo que as personagens desencantadas de John Le Carré acabam por ter razão. Perdem perante os hipócritas, perdem sempre, mas no fundo também vencem. A realidade é mais forte do que a mentira, a traição e o engano não passam de doenças contagiosas que, depois de enfraquecerem a sociedade, acabam por se extinguir, num fútil apodrecimento.

 

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Os críticos da União Europeia insistem na ideia da mediocridade política da Europa e os exemplos parecem confirmar a tese. Israel ignora as opiniões europeias e até as desdenha; durante a intervenção da Líbia faltaram munições; e, mais recentemente, foi difícil concordar nas sanções contra a Rússia, com os 28 divididos entre pombas e falcões, com a Alemanha no meio.

O caso da Rússia é exemplar: este império em declínio hostiliza um país vizinho com quem tem afinidades e confia na fraqueza da resposta europeia. E ocorre o seguinte paradoxo: embora a Rússia tenha uma economia 12 vezes inferior à da UE, as sanções decididas pela Rússia contra interesses europeus tiveram forte impacto mediático.

Na Ucrânia, país europeu entre a Rússia e a UE, trava-se de novo uma guerra, aliás a poucas centenas de quilómetros da região onde há cem anos, em Agosto e Setembro de 1914, combateram enormes exércitos, tendo os russos batido os austro-húngaros de forma tão completa que a Áustria nunca recuperou.

Muitos observadores aproveitam para antecipar a possibilidade de um novo conflito entre europeus e russos, mas seria mais correcto afirmar que a fraqueza da UE vem da sua percepção de não ter inimigos externos.

A Europa transformou-se num império pós-moderno, com sentimento de culpa pelo anterior imperialismo e extrema relutância em exercer o poder que devia resultar da sua força económica. O facto é que não existe ameaça evidente, comum aos 28, ou igualmente urgente para todos. A Europa não tem inimigos, mas apenas alianças cuja ruptura seria impensável (não é o mesmo que dizer impossível). A Rússia de 2014 tem pontos em comum com a de 1914, o sentimento de insegurança e a inflexibilidade dos líderes. A UE também tem semelhanças com o Império Austro-húngaro, mas são gritantes as diferenças: não há ameaça existencial, vocação ofensiva ou incapacidade de diálogo.

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O País terá dificuldade em atingir as metas impostas pelo Tratado Orçamental, que exigem redução regular da dívida pública, o que implicará saldos primários positivos. Dito de outra forma, cumprir o tratado significa défice nominal próximo do zero (e, para isso, falta um ajustamento de 6 mil milhões de euros).

Infelizmente, Portugal entrou num período de paralisia, pois as instituições parecem incapazes de compreender o problema e estão a fazer as manobras políticas a que se habituaram no passado, posicionando-se para uma longa luta pelo poder.  As últimas decisões do Tribunal Constitucional fazem parte desse jogo político, mas tornam quase impossível o cumprimento do Tratado Orçamental, forçando o Governo a uma crise, a um aumento de impostos que não deseja e que o condena a uma derrota nas urnas.

As consequências são ainda mais vastas, pois como demonstram os números do INE, o crescimento económico é demasiado frágil e será facilmente anulado por qualquer aumento de impostos. Não parece existir saída simples: cortar mais na despesa parece impossível, novos impostos anulam o crescimento incipiente, mas sem novos impostos não teremos contas equilibradas, a dívida continuará a crescer e Portugal verá o seu financiamento externo dificultado, com taxas de juro mais altas. Estas vias convergem no mesmo precipício, o abandono da zona euro.

Discutindo os próximos anos, alguns acham que não é preciso fazer reformas significativas na despesa pública. Outros imaginam que será possível alterar um tratado europeu cujos termos foram exigidos pela Alemanha. Há ainda quem pense em estratégias que excluem do debate questões de finanças públicas, onde por sinal reside o problema orçamental que criou toda esta crise. Vamos de fantasia em fantasia, elevando ao nível de arte as tácticas de ‘chutar para canto’, ‘empurrar com a barriga‘ e ‘passar entre as gotas de chuva’.

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Sobretudo nos países que viveram de forma mais intensa a crise, o colapso financeiro de 2008 teve por consequência maior o fracasso da democracia liberal e o avanço de algumas ideias, ainda em gestação, que pretendem romper com o ciclo que conhecemos nos últimos 30 anos.

Em qualquer conversa encontramos a seguinte mudança: logo nas primeiras frases surgem sinais de profunda insatisfação com os partidos e com a democracia parlamentar, vistos como exemplos de corrupção e ineficácia. As pessoas estão descontentes e querem a ruptura. O socialismo falhou na geração anterior e não é resposta viável à substituição do liberalismo. Não veremos o aumento da dimensão do Estado através de nacionalizações, mas o futuro passa pelo reforço do poder do Estado, algo que a tecnologia permite inteiramente.

 

 

 

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Visto a partir da segurança do extremo ocidental da Europa, o Médio Oriente parece uma zona de desastre e colapso. A tragédia em Gaza é quase inexplicável: os habitantes daquele território vivem como autênticos prisioneiros num campo de concentração; as poucas indústrias foram destruídas, não há água ou electricidade, a reconstrução será inútil, centenas de milhares perderam a casa ou ficaram traumatizados. Em cada novo espancamento, Gaza radicaliza-se um pouco mais. Aliás, a radicalização dos perdedores ajuda talvez a explicar a insanidade do Estado Islâmico do Iraque e Síria. Esta organização fez milhões de pessoas recuar um milénio, conquistou um território assinalável e combate todas as outras forças da região. O EIIS conseguiu a coisa espantosa de unir  americanos, iranianos, sauditas, curdos e ainda o regime sírio. A América, que está a perder o Iraque, alia-se ao Irão para combater estes radicais extremos, que matam ou expulsam todos os membros das outras comunidades religiosas. O grupo quer criar um califado e conquistou com rapidez fulgurante um espaço significativo, embora ainda sem ameaçar o fluxo do petróleo. Aliás, não adianta defiinir o EIIS como "grupo terrorista", pois este é já um embrião de Estado, capaz de se expandir por meios militares convencionais.

A América, no caso do Iraque, cometeu um erro tremendo em 2003, alterando o equilíbrio que existia entre as três potências regionais inimigas (Iraque, Irão e Arábia Saudita) que controlavam dois terços das reservas petrolíferas do planeta. Os problemas do Islão político vão ainda mais fundo: há uma guerra civil na Síria que já matou 200 mil pessoas, a Líbia encontra-se à beira da fragmentação total, o Iémen mergulha no caos, todo o Sara está em rebelião, os vencedores da revolução egípcia foram aprisionados e o descontentamento e a repressão alastram na Ásia Central, da Chechénia a Xinjiang. Estaremos a assistir ao estertor da própria civilização islâmica? É bem possível.

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O que escrevi a propósito de literatura podia ser interpretado como rejeição do contemporâneo, mas visou apenas reflectir sobre o critério que determina a escolha daquilo que é considerado arte. A minha intenção era dizer que o comércio e a exposição mediática em excesso limitam as novas ideias e sobretudo pretendi sublinhar que estes processos implicam a banalização do artista, transformado em jarrão decorativo que, quando fala, diz o que se espera dele: sempre obscuro, mas sem ser incómodo.

As elites deixaram de ler romances, que eram escritos por membros das classes altas. A literatura foi extremamente popular entre as pessoas influentes dos dois séculos anteriores, tema de conversa nos salões da aristocracia e, depois, nas festas dos burgueses da revolução industrial. O desconhecimento das novidades castigava-se com sarcasmo e a ignorância dos clássicos era impensável.

Isto já não é assim e os escritores, que no passado tinham certa fama, pelo menos na sua cidade, estão agora inteiramente proletarizados. A literatura perdeu a aura intelectual que possuía, deixando de ser um farol das consciências. O mesmo é válido para pintores, violinistas ou maestros: o impacto social dos artistas é hoje tanto maior quanto mais se massificou a arte. A cultura popular dita as regras e vive aliás um período medíocre. As massas deixaram de ter disposição para coisas estranhas, a sua reduzida exigência aceita imitações e rejeita quem tente contrariar a moda instalada. A escrita de hoje, tecnicamente excelente, mantém muitas qualidades, mas os escritores e os artistas são personagens secundárias, ao serviço de um mercado que os condena à inexistência, caso não satisfaçam as expectativas dos consumidores. Sem fazerem concessões ao gosto dominante, serão desconhecidos; se as fizerem, serão maus escritores. Um dilema difícil.

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Este barómetro publicado pelo jornal El País mostra a recuperação instantânea dos socialistas espanhóis nas intenções de voto, consequência da nova liderança de Pedro Sánchez, que foi eleito há um mês. Aparentemente, o PSOE subiu quase 50%; e, mesmo que seja menos, a recuperação é impressionante, mostrando de novo a tendência para a bipolarização. À excepção do PSOE e do PP, todos os restantes partidos caem, incluindo o movimento Podemos, que mesmo assim fica em terceiro, com 10,7%, ou o UPyD, que não descola. A situação em Espanha não tem a gravidade da portuguesa, mas este é um bom indicador de tendências, pois os dois países tendem a imitar-se. A recuperação económica parece demasiado lenta e ainda incerta. Curiosamente, lá como cá, existe modesta criação de emprego com taxas de crescimento baixas, o que sugere um efeito positivo das reformas, mas esse efeito pode ser tardio. A lição mais importante da sondagem é a que resulta da ‘limpeza do passado’ que os partidos tentam fazer. Se António Costa vencer as primárias do PS, o efeito de novidade será talvez mais importante do que foi com Sánchez. Em vez de empate, teremos os socialistas perto da maioria, a poderem governar com um ou dois movimentos populistas da esquerda, por exemplo, com Marinho Pinto e o Livre. O desvio de eleitores para as franjas será provavelmente menos acentuado e, neste cenário, a Direita precisará mesmo de apertar os cintos de segurança.

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A arte deixou de ser importante na nossa vida, ela está ligada ao entretenimento, é decorativa e superficial.

A literatura morreu, pelo menos a parte exigente, pois a escrita de ficção está a tornar-se numa forma de reflexão sobre o imediato, mais próxima da crónica ou do jornalismo, que não podem mentir. Assim, ao perder universalidade, a literatura torna-se banal e servil. O escritor não pode prescindir da imagem pública, é um actor, e o romance não deve ser demasiado incómodo ou nem verá a luz do dia. Na escrita que sai das gavetas falta autenticidade e capacidade de resistir à passagem do tempo. Os leitores desistiram. Os estados de alma pós-modernos incluem anestesia geral e as pessoas já nem querem ler algo que perturbe a sua insónia, preferem traduções de livros inócuos.

O cinema é um exercício da indústria, como o fabrico de um automóvel, mas que recorre a capital de risco; complexo, sem dúvida, com exigências estéticas e técnicas, mas que sai de uma fábrica. Hollywood matou tudo o resto. A pintura é efémera e a música aproximou-se da complexidade, já suficientemente incompreensível para que possa em breve ser feita por computadores. Ninguém dará pela diferença.

A arte tem medo do risco, dispersa-se na vastidão dos pequenos eventos, na diversidade das experiências humanas e da linguagem, submete-se ao poder dos negócios, da moda e do falso exótico, reflectindo uma sociedade que declina para a irrelevância.

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Um Homem Muito Procurado é o mais recente filme baseado num romance de John Le Carré. Ainda não vi, mas espero que faça justiça à obra literária e a escolha do falecido Philip Seymour Hoffman para o papel de Gunther Bachmann parece garantia de qualidade. Na complexa geopolítica de John Le Carré, este é o romance da guerra contra o terror, com uma curiosa legião de perdedores, incluindo o banqueiro desiludido, o fugitivo com problemas de identidade, a advogada idealista e o espião à moda antiga desadaptado à nova ordem, que parece calhar a Hoffman como uma luva. Le Carré consegue casar a guerra fria e o extremismo islâmico, mas a sua teia de intriga leva-nos aos territórios pantanosos da rivalidade internacional e da alta finança. Em música de fundo, o desconhecimento ocidental sobre os movimentos radicais islâmicos, com críticas ácidas à estratégia americana na chamada luta contra o terror. Temo que o filme possa menorizar a notável figura do banqueiro, Tommy Brue, personagem repleta de subtilezas, que enfrenta conflitos interiores difíceis de explicar em cinema, mas que o romancista transforma numa complexa filigrana de motivações pessoais e procura da redenção. No fundo, o banqueiro e o “terrorista” têm dois pontos em comum: a sombra do pai e a atracção impossível pela advogada. O jovem Issa Karpov, o homem muito procurado, vem da Chechénia, território que curiosamente deixou de ser notícia, mas onde a Rússia fez uma cruel defesa do seu império, radicalizando a população islâmica. Le Carré, um mestre da narrativa, é também um profundo conhecedor deste conflito. Os filmes baseados na sua obra costumam ser bons, mas os enredos são complexos e têm muita informação, o que não se compadece com a linguagem de Hollywood e o ritmo da hora e meia.

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Escrevo “a situação não é tão má como a pintam” e logo surgem comentários que me atribuem a frase “a situação está a melhorar”. Os comentadores reagem de forma ofendida e enumeram exemplos de calamidade, como se eu negasse que a crise esteja na origem de muitos dramas na sociedade portuguesa. Nunca defendi essa ideia, nem poderia defender.

O meu País vive dentro de um fado triste, preso ao seu destino trágico. Não havia alternativa à mudança, mas tentar desfazer o mito da desgraça colectiva é um gesto condenado a esbarrar num muro de convicções. Durante três anos, foi criado um ambiente negativo que visava, de forma objectiva, limitar a extensão das reformas estruturais. No caso BES, as autoridades actuaram de forma aparentemente eficaz (foi evitado o colapso geral), mas a culpa foi de imediato atribuída ao governador do Banco de Portugal e ao Governo, os mesmos que estão a resolver o problema.

Quem tenta mudar o sistema costuma enfrentar dificuldades inesperadas, pois actuar contra os interesses que dominam a nossa sociedade tem elevados custos de reputação. Apesar de saber isso, estou surpreendido com a violência dos ataques ao governador do Banco de Portugal. 

Os acontecimentos dos últimos dias mostram que existe desta vez uma diferença: depois de conduzirem o ajustamento, os parceiros europeus estão a alterar também o nosso capitalismo da treta. Ao longo da sua História, Portugal viveu crises regulares seguidas de longos períodos de cristalização dos regimes políticos, que apodreciam na árvore. Esta estranha forma de vida acabou. Na actual crise, está a ser tentada a via reformista e pretende-se que, no final da transição, o País seja mais europeu. Os interesses instalados tentam contrariar as reformas e convencer a população a resistir à mudança. Eles sabem que a manipulação da percepção da realidade é a mais eficaz continuação da política.

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Com inteligência e simplicidade, o escritor espanhol Enrique Vila-Matas coloca neste texto um problema importante das redes sociais contemporâneas. Estas tendem a afastar o pensamento original e promovem a normalização da opinião publicada. Ali prevalece um comportamento de tribo, de ‘nós contra eles‘, onde qualquer diferença é hostilizada verbalmente. De facto, perde-se demasiado tempo a explicar o que nos parecia ser claro, a desmentir o que não se escreveu, a repetir ideias evidentes, a ser ignorado ou atacado por outros autores. O pior é que este espírito das redes sociais alastrou ao jornalismo dito de referência e dá trabalho remar contra a maré das opiniões pré-fabricadas e dos freios intelectuais. Em Portugal, tornou-se quase impossível dizer que a situação do País não é tão desesperada como a pintam. Nas redes sociais, essa afirmação implica insultos imediatos, leituras enviesadas e a reputação destruída. Muitos autores não estão para isso e desistem, pelo que se agrava a tendência para certa limitação à liberdade de expressão, que alguns parecem aceitar sem problemas.    

 

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