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No centenário de John F. Kennedy

por Pedro Correia, em 23.05.17

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«Ele adorava ser Presidente.»

Arthur Schlesinger

 

A autoconfiança é um atributo fundamental num político. John Kenneth Galbraith notou certa vez que nunca tinha conhecido um homem tão confiante em si próprio como John Fitzgerald Kennedy – o que serve para explicar grande parte do sucesso do 35.º Presidente dos EUA, nascido a 29 de Maio de 1917, faz dentro de poucos dias um século.

Na fascinante obra The Best and the Brightest, dedicada aos bastidores da presidência Kennedy, David Halberstam mostra-nos outra característica do inquilino da Casa Branca que viria a ser assassinado em Dallas: ele era exactamente como parecia. Ao contrário de outros políticos, que fazem tudo para parecer o que não são, Kennedy tinha uma autenticidade que empolgava os adeptos e desarmava os adversários. Isto ajuda a explicar a sua inédita popularidade: atingiu uma extraordinária taxa de aprovação -- 83% -- e à data da sua morte, segundo a Gallup, era aplaudido por 70% dos americanos.

Galbraith e Halberstam falam com conhecimento directo: ambos conheceram pessoalmente Kennedy e privaram com ele.

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Há um episódio da disputadíssima campanha eleitoral de 1960 que ilustra bem tudo isto: a certa altura alguém pergunta a Kennedy se não se sente exausto. A resposta, negativa, veio num sorriso. Mas o então senador do Massachusetts que se candidatava à Casa Branca pelo Partido Democrata acrescentou ter a certeza de que o seu antagonista republicano, Richard Nixon, se encontrava à beira da exaustão (o que mais tarde se provaria ser verdade). E como é que Kennedy sabia isto? O futuro presidente esclareceu o seu interlocutor: «Sei bem quem sou e não tenho de me preocupar em adaptar-me ou transformar-me. Tudo quanto tenho que fazer, em cada etapa da campanha, é mostrar-me tal como sou. Mas Nixon não sabe bem quem é. Portanto, cada vez que faz um discurso tem de decidir que face dele próprio irá mostrar, o que deve ser extenuante.»

Assim foi. Enquanto na campanha de 1960 Nixon se esforçava sempre por aparentar o que não era, Kennedy jamais fazia um esforço nesse sentido: a imagem que projectava dizia muito do que ele era de facto, o que lhe dava uma vantagem sobre o principal rival. Isto é um traço de carácter que deve ser valorizado num político.

 

Oriundo de uma família milionária de Boston, herói da II Guerra Mundial, congressista e depois senador pelo Massachusetts, galardoado em 1957 com o Prémio Pulitzer pelo seu livro Retratos de Coragem e o mais jovem Presidente eleito desde sempre pelo Partido Democrata, em Novembro de 1960, Kennedy tinha uma sólida cultura e um dos mais fascinantes percursos biográficos de que há memória entre os inquilinos da Casa Branca.

Filho do embaixador americano em Londres, Joseph Patrick Kennedy, tinha 22 anos quando assistiu à declaração de guerra britânica à Alemanha, na manhã de 3 de Setembro de 1939, na galeria dos visitantes da Câmara dos Comuns. Um episódio que nunca mais esqueceu.

 

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 Com Willy Brandt e Adenauer em Berlim (Junho de 1963)

 

A frase que mais contribuiu para imortalizar John Fitzgerald Kennedy no decurso dos 1037 dias do seu mandato na Casa Branca não foi pronunciada em inglês, mas em alemão. Ao declarar-se cidadão de Berlim no local mais emblemático da Guerra Fria, por onde passava a última fronteira do mundo livre. Ninguém imaginava, nesse dia 26 de Junho de 1963, que o seu mandato terminaria menos de cinco meses depois, ao fim de uma manhã de sol outonal no Texas.

Muita gente ignora que essa frase não constava da versão original do seu discurso. Foi o próprio Kennedy que decidiu pronunciá-la enquanto a viatura que o conduzia nas avenidas de Berlim era saudada por multidões entusiásticas vitoriando o seu nome. Fora-lhe sugerida pelo principal conselheiro do presidente -- o seu irmão Robert Kennedy, na altura procurador-geral dos EUA.

«Há dois mil anos a afirmação mais orgulhosa era Civis romanus sum. Hoje, no mundo da liberdade, a afirmação mais orgulhosa é Ich bin ein Berliner», declarou o líder norte-americano nas imediações do Muro da Vergonha erigido apenas dois anos antes pelos soviéticos na cidade dividida.

 

A génese desta frase ilustra bem a forma de trabalhar de Kennedy, um homem que gostava de funcionar em equipa e absorvia com rara intuição as melhores sugestões da sua competentíssima equipa de conselheiros. Três deles, curiosamente, oriundos das fileiras do Partido Republicano -- o secretário da Defesa, Robert McNamara, o secretário do Tesouro, C. Douglas Dillon, e o conselheiro da Segurança Nacional, McGeorge Bundy. O facto de serem simpatizantes do partido rival -- e um deles, Dillon, ter chegado a integrar a anterior administração Eisenhower e a contribuir com 26 mil dólares para a campanha presidencial de Nixon -- não os impediu de atingir o primeiro plano no Executivo democrata, prova evidente do rasgo político de Kennedy.

Ao ser convidado para liderar o Pentágono, McNamara reagiu com surpresa, dizendo que não tinha experiência governativa. «Também não há escola para presidentes. Aprenderemos juntos», respondeu-lhe o inquilino da Casa Branca.

 

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Precursor em vários domínios, estava vinte anos à frente da maioria dos políticos seus contemporâneos.

Foi ele que pela primeira vez compreendeu a importância da televisão -- ao ponto de se ter inscrito em 1959 num curso da CBS destinado a dominar as técnicas televisivas.

Foi também o primeiro presidente a conceder conferências de imprensa regulares na Casa Branca e a responder em directo aos repórteres da TV.

Deu um toque majestático à presidência com os banquetes de Estado aos visitantes, inspirado na recepção de que foi alvo no Palácio de Buckingham em Junho de 1961.

Baptizou o avião presidencial -- um Boeing 707 -- com o nome Air Force One, «para que descesse dos céus como símbolo do próprio poder presidencial».

Transformou os assessores da Casa Branca em decisores políticos, instituindo o cargo de conselheiro da Segurança Nacional, mais importante do que muitos postos no Governo.

 

A ida de Kennedy a Berlim naqueles escaldantes dias de Guerra Fria revelou muita coragem. Coragem política e até coragem física: basta lembrar que a actual capital alemã era então um minúsculo enclave no império comunista, armado até aos dentes. Também por esse atributo ele é lembrado. E ainda pelo desassombro intelectual, de que deu inúmeras provas. É aliás muito interessante verificar como várias frases que proferiu em discursos entraram na linguagem comum, tornando-se deste modo património universal.

Eis algumas:

«Não perguntem ao vosso país o que poderá fazer por vós, perguntem a vós próprios o que podereis fazer pelo vosso país.»

«Se uma sociedade livre não consegue ajudar os seus inúmeros pobres, não conseguirá salvar os seus raros ricos.»

«Nunca negociemos por medo -- mas nunca tenhamos medo de negociar.»

«A vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã.»

«A corrida ao armamento deve ser extinta antes que nos extinga a nós.»

«Apoiamos qualquer amigo e enfrentamos qualquer inimigo para assegurar a sobrevivência e o êxito da liberdade.»

«Não procuremos a resposta republicana ou a resposta democrata, mas a resposta certa.»

«Decidimos ir à Lua nesta década não porque seja fácil mas porque é difícil.»

 

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 Na campanha presidencial de 1960

 

Outra virtude: onde outros viam problemas, ele via oportunidades.

Ao conquistar a nomeação democrata no Verão de 1960 após uma fracturante campanha interna – com 806 votos dos delegados, contra 409 recolhidos por Lyndon Johnson e 287 distribuídos por outros concorrentes - logo o seu primeiro passo, aliás incompreendido à época por vários colaboradores, foi estender a mão ao principal rival no interior do partido, convidando-o a ser o candidato à vice-presidência. Uma aposta que valeu a pena. Em Novembro desse ano, a dupla Kennedy-Johnson bateu os republicanos por margem muito escassa: cerca de 110 mil votos. Sem a junção dos dois nomes complementares, concluem hoje os historiadores, a derrota dos democratas teria sido inevitável.

 

«Ele adorava ser presidente», lembrava o historiador Arthur Schlesinger, que também integrou  a administração Kennedy, como biógrafo oficial, apontando desta forma um dos ingredientes do sucesso deste mandato: um político que não goste do que faz está condenado a fracassar.

Hoje olhamos para a presidência Kennedy e parece-nos «um período quase idílico» de paz e prosperidade, como acentua outro dos seus biógrafos. É sempre assim: só a passagem do tempo presta verdadeira justiça aos políticos, separando os estadistas dos restantes. Kennedy foi um estadista: isso é o que importa celebrar neste centenário.

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A ideologia nas séries de TV

por Pedro Correia, em 14.06.16

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 CSI original (2000)

 

Os ditames da correcção política têm levado as séries televisivas norte-americanas a distanciar-se progressivamente da realidade, criando um universo paralelo que só existe na tela e nada tem a ver com o mundo real. Serve de entretenimento, claro. Mas em nenhum momento sentimos que existe ali a amálgama de sangue, suor e lágrimas correspondente à vida de todos os dias. E em poucos domínios isso se verifica tanto como nas séries policiais.

Senti isso recentemente, ao ver há meses pela primeira vez as duas temporadas iniciais (2000-02) do tão celebrado CSI: Crime Scene Investigation – o genuíno, o de Las Vegas. Uma série inovadora por focar aspectos científicos e tecnológicos relacionados com a perícia forense, aliás depois repetidos até à náusea por um enxame de imitações muito inferiores.

CSI entrelaça habilmente as vidas de vítimas, criminosos e funcionários do laboratório policial da cidade, ressaltando dessa amálgama um curioso mosaico social. O problema é vermos esse mosaico distorcido pela ideologia: os criminosos são na esmagadora maioria homens brancos, de 30 a 45 anos, pertencentes à classe média-alta ou ricos. Matam em regra por cupidez, ganância, inveja. Em mais de 40 episódios destas duas temporadas só por duas vezes vi criminosos oriundos das chamadas minorias étnicas.

Lamento, mas o mundo não é assim – um mundo enxameado de assassinos brancos e tendencialmente milionários, não muito novos nem velhos. Este padrão de criminoso socialmente correcto, mais do que os prodígios tecnológicos destinados a esboçar a identidade de um homicida a partir de um cabelo plantado num soalho, fazem de CSI um produto distorcido, embora estimável.

 

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 Um Crime, Um Castigo: a diferença francesa

 

Nada a ver por exemplo com uma excelente série policial francesa que revi em simultâneo, na RTP 2 – canal que deste modo cumpre a sua missão de serviço público ao proporcionar-nos o acesso a produções fora do âmbito da indústria norte-americana. Refiro-me a Um Crime, Um Castigo (originalmente intitulada Engrenages), realizada entre 2005 e 2014.

Ao contrário da equipa chefiada pelo biólogo Gil Grissom na noite de Las Vegas, a brigada que tem como líder a capitã Laure Berthaud lida com todo o género de criminosos: residentes e imigrantes, velhos e novos, homens e mulheres, vagabundos, prostitutas, chulos e drogados, pessoas de todas as cores, de todas as classes e todas as crenças ou descrenças. É gente que anda por aí, nas esquinas de avenidas, ruas e vielas. Gente comum, surgindo no ecrã sem o absurdo espartilho imposto por sucessivas exclusões étnicas, religiosas ou de género que abre um abismo entre a televisão e a vida real nos Estados Unidos.

Antes o panorama era diferente - algo bem demonstrado por séries como Hill Street Blues (1981-87)ainda realizadas longe das ameaças de boicotes e processos judiciais exercidas pelos influentes grupos de pressão que hoje condicionam os estúdios cinematográficos e televisivos norte-americanos, onde funcionam como comissões de censura prévia, impondo um monolítico padrão de mau – invariavelmente WASP [White, Anglo-Saxon, Protestant].

Os Sopranos (1999-2007) foi talvez a  última grande série norte-americana capaz de enfrentar com êxito estes poderosos lóbis que patrulham a escrita, realização e actuação televisiva nos Estados Unidos. Ali havia assassinos que “vinham de baixo”, falavam inglês com sotaque e matavam porque o mal é intrínseco à natureza humana, ao contrário do que apregoam os novos teólogos da ideologia socialmente correcta.

Que o digam Laure e os tenentes Gilou e Tintin: eles enfrentam marginais de carne e osso, não apenas as caricaturas de conveniência que a cartilha impõe.

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Grandes romances (14)

por Pedro Correia, em 26.07.14

 

O SONO EM VEZ DO SONHO

O Leopardo, de Giuseppe Tomaso di Lampedusa

 

«Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi.»

 

Na década de 50, quando o mundo ocidental acreditava sem fissuras no dogma do progresso, um obscuro crítico literário italiano, figura taciturna e solitária, escreveu uma fascinante apologia da imobilidade que chocou os meios editoriais da época. De tal maneira que as duas principais editoras, a Einaudi e a Mondadori, devolveram o manuscrito à procedência, recusando imprimi-lo. Uma decisão de que mais tarde se arrependeriam: editado enfim por Giorgio Bassani na Feltrinelli, em 1958, O Leopardo viria a transformar-se num dos mais influentes romances do século XX apesar de remar contra a corrente. Ou precisamente por causa disso.

Fama inteiramente merecida, a que a adaptação cinematográfica, sob a direcção de Luchino Visconti, conferiu ainda maior reputação em 1963 com um elenco multinacional e a conquista da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Visconti, um comunista que não ocultava o fascínio pela velha aristocracia ligada ao mundo rural, captou exemplarmente o espírito do romance, transpondo-o para o celulóide com inigualável brilho. Não falta quem o considere o melhor filme de todos os tempos.

Por uma daquelas dramáticas ironias do destino em que a realidade persiste em superar a melhor ficção, Giuseppe Tomaso di Lampedusa não viveu o tempo suficiente para testemunhar o êxito da sua obra. Morreu com apenas 60 anos em Julho de 1957, de cancro pulmonar, ainda antes de fixar o texto definitivo nas provas tipográficas e portanto sem jamais ter visto impresso aquele que seria o seu primeiro e único romance, escrito vertiginosamente em poucos meses, entre 1955 e 1956, à mesa de um café de província, como se uma voz interior lhe ditasse o manuscrito por imperativo de urgência.

 

O Leopardo equivale a uma notável pintura em painéis: é composto por oito blocos – «oito murais de sumptuosidade renascentista», como os classificou Mario Vargas Llosa –, cada  cada qual com um tema central representando um marco cronológico da família de D. Fabrizio Corbera, Príncipe de Salina, Duque de Querceta e Marquês de Donnafuga, figura tutelar da aristocracia implantada no velho Reino das Duas Sicílias derrubado pelos condottieri de Garibaldi ao serviço da monarquia “plebeia” dos Sabóias que unificou a Itália em 1861. 

Viviam-se tempos novos, sob a bandeira tricolor do Risorgimento, que prometia varrer todos os vestígios ancestrais. Tempos personificados em Tancredi Falconeri, sobrinho do Príncipe e militar integrado nas fileiras de Garibaldi. Com três filhas (Carolina, Concetta e Caterina) e um filho que sempre menosprezou por considerar fraco, Paolo, D. Fabrizio via em Tancredi o seu legítimo herdeiro. E deste sobrinho que chegará a deputado e a embaixador em Lisboa aprendeu uma inesperada lição: ceder alguma coisa é o preço que se paga para evitar cedências máximas. Em suma: a Casa de Sabóia era preferível a uma república. Ou, como diria um seu émulo nove décadas mais tarde – no tempo em que Lampedusa escreveu esta obra, quando o Partido Comunista Italiano era um dos mais poderosos da Europa – a implantação da república seria sempre preferível ao comunismo.

Mudar aparentemente tudo para que tudo permaneça na mesma, dirá o Príncipe, adaptando à sua maneira o que lhe dissera Tancredi. Conclusão: as mudanças à superfície, por mais efervescentes que sejam, não iludem a natureza imutável da essência de todas as coisas. Um princípio que contraria o determinismo histórico e as bases dialécticas do progresso humano, axiomas do marxismo. Não surpreenderam, portanto, as ferozes críticas que o romance recebeu dos intelectuais próximos do PCI e a rejeição do manuscrito pela Einaudi, onde pontificava Elio Vittorini, um dos arautos do neo-realismo italiano.

Além dos detractores políticos, não faltaram também os detractores estéticos de Lampedusa, que baseou esta singular narrativa na personalidade do seu bisavô Giulio Fabrizio Tomasi. Censuraram-lhe o estilo deliberadamente anacrónico (inspirado na tradição oitocentista, de Stendhal e Flaubert). Depreciaram-lhe as frases longas, cheias de orações subordinadas, e a peculiar pontuação, que Bassani burilou mas edições posteriores recuperaram em nome da fidelidade ao texto original.

 

Estas críticas, que Lampedusa já não pôde escutar, estiveram longe de travar o avassalador sucesso deste romance póstumo: galardoado em 1959 com o Prémio Strega, o mais prestigiado de Itália, O Leopardo não tardaria a ser um êxito editorial, cedo ultrapassando a barreira dos cem mil exemplares. Um êxito que o filme amplificou.

Nenhuma crítica, porém, ilude a força intemporal deste romance com os seus inesquecíveis episódios que cobrem meio século de vida familiar, siciliana, italiana – entre 1860, o ano do desembarque dos camisas vermelhas de Garibaldi em Marsala, enquanto em Donnafuga se reza o terço («Nunc et in hora mortis nostrae. Amen»), até 1910, quando o cardeal de Palermo põe fim à exposição das decrépitas relíquias veneradas pelas idosas filhas do Príncipe.

Pelo meio, subsistem quadros inesquecíveis naquela Sicília «embrutecida pelo sol»: a longa cena do baile, do melhor que nos forneceu a literatura; a deslocação de D. Fabrizio ao prostíbulo em Palermo; a apaixonada corrida de Tancredi e a noiva, Angelica, pelos aposentos vazios do vasto Palácio de Donnafuga; os momentos em que o senhor de Salina contempla as estrelas no seu telescópio, como se pretendesse abraçar a eternidade; a morte do Príncipe, numa idade em que se tornara «inutilmente sábio» mas inabalável nas suas convicções.

«Nunca estivemos tão desunidos como desde que estamos unidos. Turim não quis deixar de ser a capital, Milão acha que a nossa administração é inferior à dos austríacos, Florença receia que lhe roubem as obras de arte, Nápoles chora pelas indústrias que perde e aqui, na Sicília, está a preparar-se uma catástrofe. (…) Por agora já não se fala em camisas vermelhas, mas voltar-se-á a falar. Quando elas desaparecerem aparecerão outras, de cor diferente; e depois outra vez vermelhas.» (Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Presença, 1995. Há uma tradução mais recente, de José Colaço Barreiros, numa edição da D. Quixote que não posso recomendar por mutilar consoantes supostamente "mudas".)

 

 Fotograma do filme (1963)

 

Em 2011, o Guardian incluiu-o entre os dez melhores «romances históricos» de sempre. Distinção justa, embora sob um rótulo redutor. Saga familiar sem se esgotar no tema da família, romance “histórico” que descrê da História, esta é uma obra única, que foge a todas as etiquetas e não reclama filiação em nenhuma corrente estética.

O rasto memorável do romance encontra ecos até no léxico comum. Gattopardismo (de Il Gattopardo, título original do romance) é uma palava que entrou no discurso jornalístico italiano – e já está consagrada no dicionário – para significar a adaptação a um novo contexto político, social e económico por parte daqueles que ambicionam conservar os privilégios do poder.

Poucos escritores podem gabar-se de semelhante proeza.

«A obra-prima de Tomasi di Lampedusa recorda-nos que o génio é complicado e arbitrário e que, no seu caso, opor-se à própria noção de progresso, descrer da hipótese de justiça e assumir de forma inequívoca uma visão retrógrada e arcaica da História não o impediu de escrever uma imperecível obra artística», observou Vargas Llosa sobre este romance na sua colectânea de ensaios literários La Verdad de las Mentiras.

 

Enquanto milhares de livros nos falam euforicamente do mundo em mudança, este fala-nos com indisfarçável melancolia do que permanece imune a todas as mudanças: é um retrato modelar da esterilidade do esforço humano, bem inscrita nesta frase do Príncipe de Salina: «Il peccato che noi Siciliani non perdoniamo mai è semplicemente quello di “fare”. (…) il sonno è ciò che i Siciliani voliono.»

O sono em vez do sonho.

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Grandes romances (12)

por Pedro Correia, em 12.07.14

 

QUEIMO, LOGO INSISTO

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

 

Um mundo sofisticado, onde a alta tecnologia proporciona aos cidadãos inegável conforto e múltiplas possibilidades de evasão nos momentos de lazer, pode afinal ser um inferno totalitário, onde o Estado utiliza a mesma tecnologia para suprimir qualquer voz discordante.

Inferno é a palavra exacta. Porque este livro decorre sob o signo do fogo. Não o fogo que arde sem se ver, não o fogo que aquece e revigora, mas o que destrói e mata.

Eis-nos mergulhados num universo concentracionário, algures num futuro de data incerta mas próxima, à semelhança da distopia descrita com brilhantismo por George Orwell no seu 1984. No romance de Orwell o regime do Grande Irmão invertia os valores através da perversão do significado das palavras: a verdade era a mentira, a paz era a guerra. Aqui, numa lógica similar, há um poder estatal sem rosto que chega ao macabro requinte de inverter a missão benemérita dos bombeiros: em vez de apagarem incêndios, apagam todos os vestígios de dissidência. As forças do bem ao serviço do mal.

Guy Montag é um desses bombeiros que não salvam mas destroem enquanto braço armado de um sistema totalitário. Ganha assim a vida há cerca de uma década, o que lhe permite acesso a todos os bens de consumo burguês. Mas não é feliz no casamento: a mulher vive alienada nas quatro paredes domésticas, três das quais monopolizadas por gigantescos ecrãs de TV interactiva onde ela dialoga a todo o momento com uma “família” virtual. Num perfeito exemplo de telenovela invadindo a realidade.

Também não se sente realizado na profissão que o manda queimar não só todos os livros que lhe apareçam pela frente mas também as casas de todos os que tiverem livros e forem sujeitos a denúncias de vizinhos e falsos amigos. Os próprios seres humanos se tornam suas vítimas directas: certa noite, uma mulher prestes a ser detida decide imolar-se pelo fogo à sua frente. A dúvida instala-se no espírito deste conformista que nunca antes havia questionado seriamente coisa alguma: ele começa enfim a tomar consciência de que constitui um parafuso num mecanismo repressivo de gigantescas proporções.

Um dia Montag regressa a casa depois de queimar livros de Dante, Swift e Marco Aurélio. «Ontem à noite pensei no querosene que tenho usado nos últimos dez anos. E pensei em livros. E, pela primeira vez, compreendi que um homem estava por detrás de cada livro. Um homem tinha de os conceber. Um homem tinha de levar muito tempo a escrevê-los. (…) Um homem tinha levado a vida inteira a registar os seus pensamentos, a observar o mundo e a vida, e eu apareci e destruí tudo em dois minutos! Acabou tudo.» (Edição portuguesa Publicações Europa-América, 2002, com tradução de Teresa Costa Pinto Pereira)

 

Fahrenheit 451, o título desta extraordinária obra que elevou a ficção científica a um patamar de excelência, abrindo uma porta que viria a ser transposta por escritores de diversas nacionalidades, «é a temperatura a que o papel do livro se incendeia e arde», como explica o autor em nota introdutória.

Este curto romance lê-se à mesma velocidade estonteante a que Ray Bradbury (1920-2012) escreveu o primeiro rascunho, em nove semanas vertiginosas, na Primavera de 1950, literalmente para ganhar a vida. Morava num modesto apartamento em Los Angeles, era já pai de duas meninas e utilizava a sala de dactilografia situada na cave da universidade local.

«Lá, em filas ordenadas, havia uma vintena ou mais de antigas máquinas de escrever Remington ou Underwood que se alugavam a dez cêntimos por meia hora. Metia-se a moeda, o relógio fazia tiquetaque como um louco e escrevíamos como loucos para acabarmos antes de se esgotar essa meia hora», lembrou o escritor norte-americano num posfácio redigido em 1982 para uma reedição deste romance de 1953 que teve uma versão em fascículos, nas edições de Março, Abril e Maio de 1954 da então recém-surgida revista Playboy.

Groff Conklin, o mais influente crítico de ficção científica daquela época, classificou-a «entre as grandes obras de imaginação escritas em inglês na última década ou mais». Ainda em 1954 (no mesmo ano de Hannah Arendt e depois de Tennessee Willliams, Nabokov, Brecht e Saul Bellow), Bradbury recebeu um prémio da Academia Americana de Artes e Letras por este livro, que na sua perspectiva era «um romance barato». Por lhe ter custado «nove dólares e 80 cêntimos».

 

Leitor voraz desde a infância, prolífico autor de contos, romances, ensaios e poemas ao longo de sete décadas, Bradbury costumava dizer de si próprio que não se tinha diplomado em nenhuma universidade mas nas bibliotecas. Um pouco à semelhança do que sucederia com um seu contemporâneo português chamado José Saramago.

Apesar do prémio de 1954, certa elite intelectual norte-americana começou por ignorar a literatura deste homem que «trouxe Marte para a Terra», na feliz definição do New York Times, em alusão a Crónicas Marcianas, outra das suas obras mais célebres. Foi preciso um conceituado cineasta francês, François Truffaut, adaptar Fahrenheit 451 ao cinema, em meados da década de 60, para lhe conferir a caução de respeitabilidade que muita crítica lhe negava nos Estados Unidos. Mas nem assim recebeu um Pulitzer.

A passagem do tempo fez-lhe justiça. E já permitiu concluir: estamos perante um dos melhores romances do seu segmento temático jamais escritos. Num estilo tenso, totalmente adequado ao desenvolvimento da trama, muito marcada pela perspectiva de um inverno nuclear com a bomba atómica posta ao serviço de um sistema ditatorial.

Antevia-se o futuro a partir do presene do passado próximo daquela época: Bradbury, ainda adolescente, ficara muito impressionado com as notícias de incineração pública de livros entre manifestações de aparente entusiasmo popular na Alemanha, outrora um dos redutos da cultura mundial. Este é o desígnio de qualquer poder totalitário: ver arder bibliotecas inteiras e, com elas, todas as sementes de subversão.

Com notável premonição, Bradbury antecipa aqui a capacidade hipnótica da TV massificada, o poder aditivo das redes sociais e até objectos ou instrumentos nessa altura inexistentes e hoje de uso quotidiano e generalizado, como os terminais de multibanco, o iPod ou a televisão de ecrã plano.

 

 

Sem acesso a livros, à mercê de slogans publicitários em sessões contínuas e de programas televisivos a puxar à lágrima fácil ou à gargalhada inconsequente, de besouros colados às orelhas emitindo sons destinados a travar o pensamento, acelerando sem limite de velocidade em veículos com propulsores a gás, os habitantes do mundo que Bradbury nos descreve são gente «saída do infantário para a faculdade e de regresso ao infantário”. Um mundo onde algo tão simples como caminhar ao ar livre se tornou um costume obsoleto, onde «as pessoas não falam de nada» e «ninguém tem tempo para ninguém».

Um sonho climatizado transformado em pesadelo. Com os “soldados da paz” travestidos de agentes da guerra suja empreendida pelo poder estatal contra os cidadãos. Utopia às avessas. Hitler e Estaline fundidos num mesmo abraço incendiário.

Cenário hoje sem correspondência com factos comprovados? Nem por sombras. Durante a Revolução Cultural chinesa – precisamente na época em que o filme Fahrenheit 451, com Oskar Werner e Julie Christie (última foto que ilustra este texto), era exibido nas salas de cinema – voltariam a ser queimados livros. Tal como no Camboja de Pol Pot e no Afeganistão talibã. E em certas “revoluções” islâmicas, já no século XXI.

A melhor ficção não se limita a ser espelho da realidade: antecipa-a. E pode produzir queimaduras de terceiro grau na tirania mais feroz.

 

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(segunda de duas partes)

 

 

VI

A necessidade de preencher tempo de antena leva os canais de notícias a recorrer às mesmas pessoas, que com intervalos curtos saltitam de televisão em televisão a proferir as mesmíssimas declarações. Aconteceu a 2 de Julho de 2013 com António Capucho, já então candidato independente assumido à eleição para a Assembleia Municipal de Sintra, que decorreria menos de três meses depois.

«Passos Coelho deve demitir-se de presidente do PSD pois não tem condições de liderar o partido», declarou Capucho na TVI 24. «O Presidente da República deve convocar eleições para a mesma data das autárquicas», disse na SIC Notícias. «Passos Coelho não pode permanecer na liderança do PSD: deve demitir-se e convocar um congresso eleitoral», afirmou na RTPi.

Políticos por um lado, jornalistas por outro. Ao longo destes dois dias de alta tensão política e televisiva, registei as declarações integrais de 27 jornalistas enquanto comentadores em três canais: RTPi, SIC N e TVI 24. Faço questão de acentuar que não vi a CMTV por não dispor à época daquele canal no meu operador de televisão por cabo.

Um ano depois, deixo à consideração dos leitores algumas frases que fui destacando:

«Paulo Portas rompeu a corda e a consequência óbvia é a queda do Governo. Passos Coelho não tem outra saída senão demitir-se.»

«Passos Coelho é a versão portuguesa daquele ministro da informação do Iraque.»

«O Presidente da República não pode tentar manter um Governo em estado de semivida. Não é possível.»

«Prolongar esta situação é uma desgraça para Portugal, deixando que este doente comatoso continue a fazer de conta que governa o País.»

«Dentro do PSD há uma larga maioria do partido que não está de acordo com a manutenção deste Governo.»

«A rua pode fazer cair Passos Coelho.»

«António José Seguro tem razão em dizer que isto chegou ao fundo dos fundos. E chegou.»

«Este senhor [Passos] é incapaz de liderar uma turma, quanto mais um governo.»

«Para haver maioria no Parlamento, só se o PSD mudar de líder.»

«Estamos perante uma crise política de dimensões colossais -- portuguesa e europeia.»

«Neste momento não há nenhum ministro que tenha vontade de continuar.»

«Passos Coelho perdeu toda a lucidez.»

«O CDS é Paulo Portas.»

«O CDS sempre foi um partido de um homem só.»

«A escolha da ministra das Finanças não agradou a muitos sectores do PSD.»

«Já não há Governo.»

«Agora o que é preciso é ajudar a sair este Governo com dignidade.»

«Passos Coelho não tem condições para ser candidato a primeiro-ministro de novo. Paulo Portas também não.»

«Quando um ministro pede a demissão esse pedido tem de ser aceite.»

«Só um Governo que tivesse o apoio do PS funcionaria e acalmaria os mercados.»

«Este Governo está podre.»

«O Presidente da República tem que acabar com esta fantochada.»

Apenas alguns exemplos. Reitero: são declarações de jornalistas, não de politólogos ou dirigentes partidários envolvidos no calor da refrega política. Cada qual mais apaixonada e desabrida do que a outra. Muitas -- para não dizer quase todas -- dissociadas da realidade. Sucede com frequência, quando confundimos aquilo que acontece com aquilo que desejávamos que acontecesse.

 

 

VII

Não vou individualizar ou particularizar a autoria destas frases para evitar também eu cair num dos vícios do comentário à portuguesa, que tudo fulaniza na permanente tentação de interpretar os factos em função da identidade dos protagonistas, adaptando à política a lógica argumentativa do futebol. Importa muito mais inventariar os manifestos erros de análise -- na tentativa de evitar que se repitam e se propaguem -- do que apontar na direcção de quem os comete.

Vale a pena, isso sim, individualizar os poucos que, na balbúrdia do momento, souberam permanecer imunes às armadilhas do comentário em directo. Devo destacar aqui Miguel Sousa Tavares, que evitou juntar-se à vozearia dominante, separando o trigo do joio -- à revelia, porventura, das suas convicções mais íntimas sobre o desenrolar dos acontecimentos.

Destaco-o porque foi ele o primeiro a saber remar contra a maré. No Jornal da Noite da SIC, a 2 de Julho, apontou o dedo na direcção do CDS, contrariando aqueles que já davam como segura a convocação de legislativas antecipadas: «O PSD vai tentar governar mesmo sem o CDS, com os deputados que tem.»

Hoje parece óbvio que o pedido de demissão de Portas não acarretava a renúncia do chefe do Governo. Mas o primeiro a perceber isto, nesse dia, foi Sousa Tavares.

O Jornal da Noite foi, aliás, o maior reduto de lucidez analítica ao longo desses dois dias febris -- em perfeito contraste com outros espaços noticiosos. Luís Marques Mendes, também comentador do canal de Carnaxide, esteve em antena ao lado de Miguel Sousa Tavares e acertou em três vaticínios: «Não haverá eleições até Junho de 2014 mas este Governo deve-se compor»; «Entre o orgulho de manter a sua posição e o sentido de responsabilidade de fazer algum recuo, o sentido de responsabilidade [de Portas] é mais importante.»

 

 

VIII

Eram 20h42 dessa terça-feira, 2 de Julho, quando Marques Mendes disse o que mais ninguém ainda havia dito ao longo das agitadas horas precedentes: «Ainda ninguém percebeu se a saída "irrevogável" é só a saída de Paulo Portas ou é a saída do CDS.» Aproveitando para sublinhar também o que ninguém dissera antes dele: nessa mesma tarde, um destacado membro do CDS, Paulo Núncio, tomara posse como secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, integrando a equipa de Maria Luís Albuquerque.

Quase à mesma hora, no Jornal das 8 da TVI, António Perez Metelo era também o primeiro a chamar a atenção para a dimensão internacional da crise (um aspecto crucial num país sob intervenção financeira externa), salientando que «do ponto de vista dos credores é muito importante que o CDS clarifique a sua plataforma política». No mesmo jornal televisivo, falando ao telefone, Marcelo Rebelo de Sousa introduziu um elemento de análise até aí inédito ao alertar para a «queda brutal das bolsas em apenas sete minutos devido à demissão de Portas».

Ninguém mais se lembrara disso.

Ao contrário da generalidade dos comentadores, que durante a tarde viraram baterias contra o primeiro-ministro, Sousa Tavares e Rebelo de Sousa concentraram os focos críticos no ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. «A reacção de Paulo Portas é totalmente incompreensível em pleno arranque da oitava avaliação, num momento crucial para o Orçamento de Estado, numa atitude que não é sequer artilhada por elementos do seu partido», observou Marcelo na TVI enquanto na SIC Sousa Tavares concluía que o líder do CDS «sai mal da fotografia».

Mas foi preciso esperar até à tarde do dia seguinte para alguém afirmar em antena aquilo que se impunha desde o primeiro instante, contrariando as interpretações generalizadas do CDS como partido «de um homem só».

Aconteceu quando a editora política da SIC, Paula Santos, disse estas palavras inequívocas: «A decisão de Paulo Portas é pessoal e não vincula o partido. Em momento algum, naquela nota, Portas fala no plural.» E admitia: «O CDS ainda poderá ficar no Governo, em coligação.»

Eram 18h13 de 3 de Julho de 2013. Aos olhos dos portugueses, a serenidade e o bom senso pareciam ter regressado ao Governo. Aos ouvidos dos portugueses, a serenidade e o bom senso pareciam ter regressado às televisões.

Um ano depois, sabemos o que aconteceu. Ficou claro quem analisou bem os factos, quem foi incapaz de ler para além da espuma e quem delirou em toda a linha.

Neste país de doces costumes, todos se mantêm nos seus postos. Há tradições que nunca mudam.

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(primeira de duas partes)

 

 

I

Em Julho de 2013, em entrevista ao canal Q, Joaquim Furtado -- um dos mais prestigiados jornalistas portugueses -- punha o dedo na ferida: ao trocarem a notícia pelo comentário, muitos profissionais da informação transmitem uma má imagem do jornalismo.

Ouvi estas palavras, que subscrevo, e logo as relacionei com duas datas: 2 e 3 de Julho de 2013, dias negros para o comentário político em Portugal, dias em que se sucederam nas antenas televisivas as mais delirantes teses pronunciadas por jornalistas a propósito do desenrolar da crise governativa então ocorrida.

De repente, a realidade dava lugar aos "cenários" -- segundo uma escola muito popularizada, desde os remotos anos 70, por Marcelo Rebelo de Sousa. Mas em cima destes "cenários" foram-se construindo outros, e mais outros, e mais outros, formando uma espécie de tela virtual sem a menor correspondência com a realidade. Na ânsia de suplantarem a capacidade efabulatória de certos "analistas políticos", com morada permanente nos canais informativos da televisão, vários jornalistas acabaram por prestar um mau serviço ao jornalismo. Tomando o incerto por certo, confundindo desejos com realidades, imaginando que bastam alguns tijolos para construir um edifício argumentativo capaz de resistir ao confronto com os factos.

 

 

 

II

O maior defeito da "cenarização" em cadeia é precisamente esse: acaba por se perder de vista toda a base factual.

Neste caso, convém recapitular, havia três factos: uma carta de demissão assinada pelo ministro de Estado e das Finanças, Vítor Gaspar, tornada pública a 1 de Julho; o anúncio da substituição do ministro pela secretária de Estado Maria Luís Albuquerque, a quem foi conferida posse na tarde do dia seguinte; e uma carta de demissão "irrevogável", assinada pelo ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, divulgada cerca de uma hora antes da cerimónia de posse e justificada precisamente pela decisão do primeiro-ministro de fazer substituir Gaspar por Maria Luís.

Estes, os factos.

A partir das 16h30 do dia 2 -- faz agora um ano -- e durante todo o dia seguinte foram desfilando nos ecrãs televisivos diversos comentadores -- muitos dos quais oriundos dos jornais ou das rádios -- com palpites sobre o desfecho da crise política. Admitindo todos, com base nos dados disponíveis, a iminente queda do Governo e a realização de eleições antecipadas.

Estávamos não já no domínio do concreto, mas do provável. O primeiro erro ocorreu logo ali -- na transformação do provável em quase certo ou indiscutivelmente categórico nesta obsessão de "cenarizar" a vida política, deixando factores emotivos de diversa ordem ocupar o lugar da racionalidade no exercício do comentário analítico, talvez também pelo efeito mimético que cada intervenção produzia nas intervenções posteriores, numa espécie de choque em cadeia do qual quase ninguém saiu ileso.

 

 

III

Breve inventário dos erros cometidos:

-- O maior de todos foi o da identificação do CDS com o seu líder, considerando-se que os dirigentes democratas-cristãos obedecem em uníssono à voz de comando de Paulo Portas. A tese do "partido unipessoal", popularizada por José Pacheco Pereira, ganhava foros de dogma indiscutível, como se a política estivesse prisioneira de mecanismos cegos, rígidos e válidos para qualquer contexto e qualquer circunstância.

-- Esta tese ignorava que, pouco antes da crise governativa, o CDS assinara com o PSD uma vasta aliança eleitoral para as autárquicas de Setembro em que os democratas-cristãos -- com presença residual no terreno autárquico -- eram os maiores beneficiários. Ignorava também que a carta de Portas em nenhum momento vinculava o conjunto dos ministros e secretários de Estado do CDS. Ignorava ainda que o titular dos Negócios Estrangeiros não convocara os órgãos próprios do partido antes de divulgar a carta.

-- Outro erro evidente destas "cenarizações": quase todas ignoraram o contexto internacional, produzindo-se como se Portugal não estivesse sujeito a um quadro de intervenção financeira externa, e menosprezaram por completo o efeito da demissão de Portas nos mercados financeiros. A queda abrupta das bolsas e a subida das taxas de juro da dívida portuguesa, ocorridas horas depois, foram um autêntico banho de realidade para muitos comentadores que imaginam ainda a política indissociável da conjuntura económica e financeira.

-- A febre da "antecipação" -- sob a pressão dos directos televisivos e da permanente auscultação do que se ia dizendo nos canais concorrentes -- levou a que se perdesse com impressionante rapidez o rigor da base factual, ingrediente indispensável à qualidade do comentário. Já no dia 1 de Julho isso sucedera, embora numa escala muito menor, quando boa parte dos comentadores tomara por válida a tese de que o ministro da Saúde, Paulo Macedo, chegara a ser um sério concorrente à pasta das Finanças ou fora mesmo sondado para esse efeito. Coube a Miguel Sousa Tavares -- no Jornal da Noite, da SIC -- deitar água na fervura, nessa segunda-feira, ao dizer que, tanto quanto sabia, Macedo não chegara a ser hipótese para o lugar de Gaspar.

Quem sustentara tal tese esquecera-se aliás de responder a esta simples pergunta: faria algum sentido o primeiro-ministro remover de uma pasta ministerial quase sempre muito polémica aquele que as sondagens apontavam como o mais popular membro do elenco governativo?

 

 

IV

Nunca tantos produziram tantos "cenários" em tão pouco tempo em televisão. Num exercício especulativo quase sem contraditório. A emoção do momento sobrepunha-se por completo à análise racional.

A todo o instante se falava já em eleições legislativas antecipadas -- mas também na repercussão da crise portuguesa nas eleições da Alemanha marcadas para três meses depois, em golpes internos no PSD e até na súbita demissão de Passos Coelho. Tudo isto em poucas horas.

Havia quem garantisse que o Presidente da República iria dissolver o Parlamento. Havia quem antecipasse a data das legislativas, equacionando-a para o mesmo dia das autárquicas de Setembro -- algo inédito na democracia portuguesa.

Mais insólito ainda: já se antecipava nos canais noticiosos o vencedor dessas eleições, como se o acto de votar fosse um mero requisito formal destinado a validar um quadro político pré-existente. E não faltou até quem antevisse a «derrota da direita» durante uma década em Portugal.

A tese do líder socialista, António José Seguro, ganhava foros de verdade mineral: «O Governo caiu e desmoronou-se na praça pública.» Tese extravagante, mas partilhada por sucessivos comentadores nesse fatídico dia 2: a solução para o problema suscitado pela demissão de Portas... era a demissão de Passos Coelho!

Com tantos jornalistas em antena, praticamente nenhum se interrogou se esse comportamento corresponderia ao perfil político e psicológico do primeiro-ministro. Os factos, também aqui, acabariam por desmentir os "cenários".

Houve flagrantes contradições na lógica discursiva dos comentadores. O chefe do Governo era criticado por nomear para ministra das Finanças alguém com quem mantinha uma estreita relação pessoal ao mesmo tempo em que era criticado por não cultivar boas relações com o demissionário ministro dos Negócios Estrangeiros. Enquanto se ignorava o historial de conflitos protagonizados por Portas no conjunto da direita portuguesa e no interior do próprio CDS.

 

 

V

Passos Coelho, ainda no dia 2, rompeu toda esta torrente discursiva com duas frases curtas e claras: «Não me demito. Não abandono o meu país.» E revelava que não aceitara o pedido de demissão de Portas.

Era um elemento factual de importância suficiente para fazer estancar -- ou, pelo menos, atenuar -- as irrevogáveis certezas dos comentadores. Nada disso aconteceu: mesmo perante isto, havia já quem sustentasse que Passos Coelho perdera o apoio de «muita gente no PSD» e estava a poucos dias de abandonar a liderança do partido face às «movimentações» internas contra ele que surgiriam «nas próximas horas».

Um comentador, ainda mais categórico do que os demais, prenunciava nesse serão de terça-feira, faz hoje um ano: «Amanhã [3 de Julho de 2013] Assunção Cristas e Mota Soares vão demitir-se. É impensável que não se demitam. Isso será o passo que falta para o Presidente da República [dissolver a Assembleia da República].» Outro antevia já uma «derrocada eleitoral da direita sem precedentes na última década».

Já na manhã seguinte, outro improvisado analista emprestado pela imprensa aos ecrãs televisivos ironizava sobre a nova titular das Finanças: «É a primeira vez que uma ministra toma posse de um cargo que já não existe!»

Nesta espécie de concurso destinado a apurar quem produzia a afirmação mais delirante destacou-se o autor desta frase, na SIC Notícias: «Passos Coelho faz lembrar Salazar, depois de 1968, quando os ministros iam a despacho e ele já não era primeiro-ministro.»

 

(conclui amanhã)

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