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Inovação e Diversidade

por Rui Rocha, em 22.02.16

Masterclass promovida há dias por uma das mais prestigiadas Business Schools de Portugal. O tema era inovação e diversidade. Na plateia cerca de 80% eram homens. Destes, 90% usavam fato cinzento e gravata. Estamos preparados.

 

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Colaboradores estagiários - à borla

por João André, em 23.10.14

A Teresa escreveu este post e lembrei-me deste texto sobre as ideias de alguns "empreendedores" "amaricanos" de ter gente a trabalhar de borla. É ideia praticada há muito em Portugal, onde o conceito de trabalhar para aquecer, apesar do nosso ameníssimo clima, pegou há já uns bons tempos. Normalmente o corolário acaba por ser a felicidade de novos trabalhadores em receber «pelo menos o salário mínimo».

 

Obviamente que visionários como Mark Cuban defendem a sua visão sob o conceito de "liberdade", onde cada pessoa deveria poder trabalhar de borla se o quisesse. Naturalmente que podemos encontrar gente de todos os tipos, mas desafio qualquer um a encontrar uma meia dúzia de pessoas entre o seu círculo de pessoas que estivessem dispostas a trabalhar sem nada receber. Não falo de voluntariado ou de causas, falo de trabalho a sério, com prazos, objectivos, horários e chefes.

 

Para ser claro sobre a minha posição: o trabalho não deve ser pago. O trabalho tem de ser pago. É uma obrigatoriedade no mundo moderno civilizado. Conceitos como o trabalho não pago deveriam desaparecer e ser classificados como aquilo que são: exploração. Os estágios não remunerados já são, a meu ver, um abuso, mas desde que haja vantagens reais para educação de um estudante (os quais têm que ser verificados pela instituição de ensino) e a instituição de acolhimento incorra com despesas extra (deslocamento, alojamento, eventuais custos extra com alimentação), até nem os rejeito de imediato.

 

O mundo está já excessivamente cheio de "colaboradores", "estagiários" e outros títulos que servem para esconder abusos da parte do sector empresarial. As melhores empresas para trabalhar são também frequentemente aquelas que obtêm maiores índices de produtividade. Infelizmente, enquanto existirem "tubarões" como Cuban por aí, a mentalidade feudal não desaparecerá.

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Virar o bico ao prego

por João André, em 17.10.14

Era uma questão de tempo até as empresas virarem o bico ao prego. Agora, desincentivar as mulheres a terem filhos é visto, pelo menos por certas empresas, como um apoio às mesmas. Não importa que a medida seja cosmética e que a esmagadora maioria das mulheres que decidam aderir não venham a retirar quaisquer benefícios. As empresas terão apoiado a promoção das mulheres nas suas estruturas.

 

É por isso que não aceito que o Estado se isente das vidas empresariais. Os mecanismos de auto-regulação nas empresas não funcionam nunca em favor dos mais fracos - os trabalhadores - e é aqui que o Estado tem de agir. Não pode estar a querer dirigir a economia - fá-lo-à sempre de forma menos eficiente - mas tem que corrigir as assimetrias de poder.

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Como ainda não perdi completamente as esperanças de um dia voltar a Portugal, continuo a receber semanalmente as actualizações sobre empregos nas minhas áreas de interesse e, de tempos a tempos, dou uma espreitadela ao que vai sendo publicado em jornais. Uma coisa que vou notando com frequencia é a aversão que os anúncios (ou anunciantes) parecem ter a identificar a empresa ou frequentemente sequer a área de actividade. Nas descrições de anúncios, as funções são igualmente de tal forma vagas que quase qualquer pessoa com as habilitações literárias indicadas se poderia candidatar. Há, por último, um curioso hábito de pedir para posições de chefia experiência em funções semelhantes.

 

Este é o tipo de anúncios que via quando andava a estudar (já lá vão 15-20 anos) e que parecem não ter mudado em Portugal. Estranhamente, as empresas parecem não ter ainda entendido que é do seu interesse anunciar que estão a contratar (sinal de saúde). No caso das descrições de funções ou qualificações, têm uma rede de captação tão grande que irão apenas aumentar o trabalho de triagem de cartas e anúncios (perdendo assim tempo e dinheiro). Por fim, parece ainda não se ter percebido que, alguém que suba dentro de uma empresa a cargos de chefia, dificilmente mudará de empresa (com todas as dificuldades subjacentes) para o mesmo cargo (ou, pelo menos, para um salário semelhante).

 

Estas são lições que vejo aprendidas por toda a Europa. O tecido empresarial português ainda não o parece ter percebido. Também nisto há muito que mudar a nível de mentalidades.

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Eficácia sueca

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.07.14

Apesar de muitos amigos meus fazerem compras a estes cavalheiros, eu nunca o fiz. E se já tinha má impressão destes tipos, agora reforcei a ideia. Saber que o seu dinheiro e os seus lucros serviram para sustentar uma corja de torcionários e corruptos, predispondo-se a esquemas de pagamentos manhosos e ao uso de prisioneiros políticos da ex-RDA como mão-de-obra, não abona muito a favor da tão propalada seriedade sueca. Afinal qual é a diferença entre esses métodos usados na Roménia e alguns mais típicos de certas regiões da Europa do Sul? Fico à espera de conhecer a forma como se irão redimir do seu passado (não muito distante).

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Engenheiros ao almoço num dia de sol e calor

por João André, em 04.07.14

Pequena conversa durante o almoço sobre futebol e sistematização do trabalho (isto a propósito do patrocínio da empresa onde trabalho a um clube alemão).

 

- Temos que melhorar o desempenho do clube. Encontrar os pontos fracos do sistema de trabalho e apresentar sugestões.

 

- Torna-se lógico que os recursos não estão optimizados. Há 10 trabalhadores a executarem diversas funções e um que apenas está parado.

- 10 não, um! Os outros movem-se muito mas não fazem grande coisa.

- E quem são aqueles outros 11 indivíduos na zona de trabalho? Têm autorização para ali estar? Receberam o treino sobre regras de segurança?

- Falando em segurança, a bola parece ser perigosa, uma vez que um dos trabalhadores usa luvas. Mas os outros raramente o fazem.

- E capacete? Há um objecto constantemente a cair do ar e os trabalhadores estão constantemente a ser atingidos com ele na cabeça.

- O número de horas de trabalho perdidas por ano é assustador.

 

- OK, OK, propostas?

 

- Dar uma bola a cada trabalhador, para poder aproveitar melhor o trabalho.

- Remover pessoas não autorizadas da zona.

- Capacetes e luvas a cada trabalhador.

- Implementar um projecto de Six Sigma.

 

- Muito bem, levamos estas sugestões ao conselho administrativo. Confio que dentro de um ano já veremos uma forte melhoria nos resultados. Obrigado a todos.

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É o mercado a funcionar

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.01.14

Pensava que esta coisas só aconteciam com as obras do Estado/Administração Central, com as PPP's e com as autarquias. Pelos vistos, a empresa-modelo do senhor Bava, a sacrossanta sociedade de mercado e seus acólitos também produzem estas "disfunções". Espero que desta vez não tenhamos que ser nós a pagar.

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Empresas e promoção da natalidade

por João André, em 03.12.13

No Arrastão, Daniel Oliveira escreveu sobre o envelhecimento da população portuguesa. Refere no post um inquérito pelo INE onde as razões para a baixa fecundidade são expostas. O principal culpado é o esperado: a situação financeira dos casais. Não discuto este ponto. Se eu tiver dificuldades em pagar a minha casa e a minha comida também hesitarei antes de decidir ter filhos.

 

A este aspecto gostaria no entanto de acrescentar outro, talvez pouco presente em Portugal no momento, mas cada vez mais notório noutros países europeus: a carreira dos casais (não só das mulheres). As empresas modernas exigem aos seus quadros qualificados cada vez mais disponibilidade. Isto significa que uma vida familiar é um obstáculo frequente à progressão profissional. Há filhos que adoecem, há que levá-los às creche ou escola, há que os ir buscar, levá-los às suas actividades, brincar com eles, ajudá-los com as suas tarefas, educá-los, vesti-los (literalmente - uma birra de uma criança quando está a ser vestida pode levar a atrasos complicados na chegada ao trabalho), etc. Isto para lá da questão óbvia da licença de maternidade e do tratamento pela mesma medida de homens e mulheres por parte das empresas.

 

A realidade é que, mesmo um casal que tem uma boa situação financeira e profissional, poderá ter tendência a adiar os filhos à espera de um momento em que a sua carreira tenha atingido um patamar mais estável onde uma criança não complique as suas obrigações. Infelizmente, num mundo empresarial onde há cada vez maior mudança de funções (para motivar empregados), essa estabilidade não é facilmente atingida.

 

Antes que me perguntem, não tenho uma solução mágica para mudar a situação. Muitas empresas promovem o trabalho flexível, a partir de casa, por exemplo. Esta solução tem demonstrado que os empregados são mais eficientes e produtivos e, muito importante, mais felizes. Também acaba por aumentar o número de horas que um empregado trabalha, mas poderá ser uma troca aceitável. Outras soluções passam por ter creches e jardins de infância da/na empresa (só possível para grandes empresas ou em associação com outras pequenas e médias empresas) e ter horários flexíveis.

 

Este não será um problema da generalidade da população portuguesa, mas serve para ilustrar como não podemos esperar que o governo venha, por artes mágicas, resolver tudo. Há uma responsabilidade da sociedade civil e das empresas privadas para com o tecido socio-económico em que estão inseridas. Cumpri-la pode ser não só um imperativo moral, pode também trazer benefícios próprios.

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Comparações

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.11.13

Um empresário de "sucesso" da hotelaria deu uma conferência promovida pela Microsoft Portugal para uma plateia de cem directores de escolas. Não estive lá, e duvido que se estivesse em Portugal lá pudesse ir. Mas os jornais para alguma coisa servem e, graças a eles, e à Internet, já agora, fiquei a saber que o referido empresário considera que gerir uma escola ou uma universidade é praticamente o mesmo que gerir um hotel. E exemplifica: "Vocês também têm clientes, os alunos são os vossos hóspedes, e têm de tratar deles. São donos de casa como eu, servem refeições na cantina como eu sirvo no restaurante, têm de assegurar a limpeza, a segurança". E continuou referindo que "vocês são empresários como eu. Gerem uma empresa sem fins lucrativos". (DE, 18/11/2013)

Não sei se alguém saiu da conferência antes do final. Ou se todos manifestaram concordância com o sentido do que foi dito.

Descontando o "vocês", típico de alguns meios e fruto de modismos recorrentes, foi este tipo de discurso que conduziu Portugal ao patamar miserabilista em que se encontra. Esta mentalidade simplificadora de cariz económico, que equipara escolas a hotéis, é a mesma que, certamente, tem equiparado hospitais e urgências hospitalares a casas de massagens, onde o valor/hora e o custo por cama devem ser avaliados em minutos e facturados em consonância. Ou que transformou escritórios de advogados numa espécie de sociedades anónimas onde se "enchem chouriços" com taxímetro à vontade do freguês, ou que fez de agências funerárias uma espécie de sociedades de exploração de estabelecimentos nocturnos, com serviço a la carte, cafés e bolinhos, enquanto se recebem as individualidades que se vêm despedir do falecido.

Quer o referido empresário queira, quer não, ainda há algumas diferenças substanciais entre escolas e hotéis. Não consta que nos hotéis os hóspedes, ou "clientes", como ele diz, sejam ensinados a ler, a escrever, a pensar ou até a comer. Desconfio que os seus "clientes" já cheguem ensinados. E também desconfio que as empresas que o dito empresário gere não sejam "sem fins lucrativos". Caso esteja enganado, então seria aconselhável que ele as transformasse em escolas, de excelência, de preferência, e sem fins lucrativos. E, já agora, que desse depois a receita a uns quantos estabelecimentos de ensino privado cujos proprietários passaram a deslocar-se em viaturas de alta gama, exploram os escolas como se fossem hotéis e ainda se permitem queixarem-se da insuficiência dos subsídios que recebem à custa dos impostos que milhões pagam e que todos os anos são desviados das escolas públicas para os sustentar.

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Havemos de lá chegar!

por Helena Sacadura Cabral, em 12.11.13

 

A AEM, que reúne a maioria das empresas cotadas, defende a existência de mais mulheres nos conselhos de administração. Estranha-se a posição, dado que está nas mãos das empresas que esta associação representa resolver o problema, juntamente com os seus accionistas.     
A iniciativa da AEM - que pediu ao Instituto de Corporate Governance para inserir no seu código esta recomendação - nasce sobretudo da insistência pessoal do seu presidente, Luís Palha da Silva, que se esforçou por encontrar um consenso alargado que permitisse tornar este desígnio num desejo colectivo de todas as associadas.
A questão não é exclusiva de Portugal. Na Europa, só a Noruega e a Islândia têm mais de 40% de mulheres nos seus conselhos de administração. Pior que Portugal (com 7,1%), só Malta.
Ou seja, será muito difícil negar que persiste um claro problema de sub-representação das mulheres nos conselhos de administração.

Descendo um nível, nos cargos mais técnicos de direcção, o fenómeno é já diferente, porque as portuguesas estão a alcançar, com relativa facilidade, a antecâmara do Conselho de Administração. O problema é dar o passo seguinte.
E aqui poderemos encontrar uma questão cultural. Porque, numa sociedade em que as mulheres continuam a ter, no quotidiano, a maior responsabilidade da educação e do acompanhamento dos filhos, a questão do tempo e da disponibilidade para a empresa não pode ser descartada.
Mas também é verdade que, em termos de tempo consumido, pouca diferença existirá entre pertencer à Direcção ou ao Conselho de Administração. A questão não é, pois, só de tempo. É uma questão política. De quem manda e das pessoas em quem se confia para mandar. 
As mulheres não conseguem chegar ao topo do comando -, em que o gestor tem de possuir, também, um carácter "político", de influência junto das autoridades e de contacto permanente com os accionistas - porque se considera que este "papel" será sempre melhor desempenhado pelos homens.
O mesmo fenómeno se verifica, aliás, na política, com muitas mulheres em lugares decisivos e de destaque, mas com sistemáticas dificuldades em chegar a número Um.

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Chefias

por José António Abreu, em 04.10.13

Sem ilusões de que o atraso seja de algum modo fashionable, ando a ver The Wire (vou na quinta e última série de episódios e, sim, trata-se provavavelmente da melhor série televisiva de todos os tempos*). No início da terceira temporada, a polícia não consegue obter resultados das escutas porque, para além de trocarem de telemóvel com regularidade, os traficantes de droga, em especial nos níveis médios e elevados da organização, são extremamente cuidadosos acerca do que dizem ao telefone. Numa tentativa de contornar o problema, a polícia arranja forma de prender uma chefia intermédia, na esperança de ver promovido ao seu posto um familiar de um tipo importante, com tendência para falar demais. Quando o plano é apresentado, um dos polícias pergunta: «Mas porque hão-de eles promover um incompetente?» A resposta é: «Porque não? Nós fazemo-lo todos os dias.»

O plano acaba por não dar certo porque os traficantes são afinal mais espertos do que a hierarquia da policia (ou das muitas outras organizações onde a cunha vence o mérito) e não promovem o idiota. Mas, para mim, este nem é o ponto mais curioso. O ponto mais curioso é eu contar isto à frente de chefias e elas esboçarem trejeitos de compreensão e rirem-se com um prazer que parece genuíno.

 

* O início do primeiro episódio, para quem nunca tiver visto (ou, tendo visto, quiser relembrar):

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Ok, então vamos lá

por Patrícia Reis, em 19.11.12

Quando se começa no mundo empresarial há ilusões que enchem várias caixas. Uma década e meia mais tarde, em plena crise, as caixas estão vazias ou cheias de outras coisas. Podemos falhar melhor? Não sei. O que sei é que o atelier 004, onde se faz a Egoísta, por exemplo, é uma estrutura quase familiar que começa a ser uma casca de noz num mar que se agita. Oiço as notícias, faço as minhas contas. Observo a vida das pessoas e, no fim, percebo que a única solução é continuar a fazer o melhor possível. Dá o mesmo trabalho que fazer mal feito.

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Emerge uma concepção da empresa e do trabalho como lugares e espaços de cooperação. Trata-se, se quisermos, da visão simétrica da que resulta da  luta de classes marxista. Marx estava, é claro, enganado. Falta, na sua análise redutora e para dar só alguns exemplos, e se nos quisermos manter apenas na dinâmica do conflito, a perspectiva da luta entre o norte e o sul, entre insiders e outsiders do mercado de trabalho e o sentido da ironia histórica que viria a deslocar o epicentro da luta de classes como ele a entendia para a China. E, se quisermos ir mais longe, a percepção dos múltiplos sentimentos e formas de ser humanas que não se explicam na estreiteza da ideologia, seja ela marxista ou outra. Entre as quais se incluem o altruísmo, a solidariedade, a compaixão, o egoísmo e outras virtudes e vícios, adquiridos ou de fabrico, que dão origem a lutas sem classe. Muitas vezes, a lutas sem classe mesmo nenhuma que são capazes de minar as relações entre pessoas estejam elas ligadas por uma qualquer hierarquia ou sejam pares de uma mesma função. Mas, se isto é assim, deve admitir-se que a dita concepção da empresa como local de cooperação é igualmente falaciosa pelas exactas e mesmas razões. Aliás, para perceber que assim é, basta levar as consequências do argumento até ao fim. No tempo das empresas colaborativas, dizem, não faz sentido ver consagrado o direito à greve que, pela sua natureza conflitual, está completamente ultrapassado. Pois muito bem. Demos então todos os passos em frente ao mesmo tempo. E expurguemos da legislação do trabalho, também, a possibilidade de despedimento individual com justa causa. Pois se a empresa é local de cooperação... No fundo, o que temos de concluir, para marxistas e teóricos da cooperação, é que podes saber tudo sobre os vários pilares da sociologia. Mas, se não te conheces a ti mesmo, com todas os teus méritos, defeitos e limitações, isso é sinal de que ainda não sabes nada do mundo.

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Peculiaridades

por José Maria Gui Pimentel, em 16.11.12

O debate em torno da extensão óptima do papel do Estado na economia é antigo e complexo, e é difícil avaliar em cada caso específico qual a melhor solução a adoptar. Há, porém, um sinal em particular que me faz sempre suspeitar de que algo não está como devia: quando os trabalhadores de uma empresa pública se manifestam contra a sua privatização. Os empregados têm, naturalmente, todo o direito a ter uma opinião sobre essa medida, mas quando vejo uma larga maioria a opor-se ruidosamente não consigo evitar ficar desconfiado. Afinal, a decisão de privatizar uma empresa do Estado pode ser boa ou não para a economia e para os contribuintes, mas para os trabalhadores dessa mesma empresa – sobretudo sem saberem quem a comprará – custa-me compreender tanta aversão a priori a mudar de patrão. A não ser, claro, que o patrão actual seja muito bondoso. Porventura demasiadamente bondoso. 

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Com a ZON, na saúde e na doença

por Rui Rocha, em 09.10.12

Acto I (algures num balcão da ZON)

 

- Bom dia.

- Bom dia. Em que posso ajudar?

- A minha mãe é vossa cliente. Por motivo de doença teve de mudar de residência e agora pretendemos cancelar o vosso serviço.

- Pois, mas isso aqui ao balcão, só com a presença do próprio.

- Pois, mas isso é completamente impossível devido à doença.

(silêncio longo e olhar inquisitivo)

- Bem, atendendo à situação, vamos abrir uma excepção.

- Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).

- Traga, por favor, uma declaração da mãe a dizer que o autoriza a tratar da cessação do serviço. Traga os seus documentos pessoais e os da mãe.

- Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).

 

Acto II (uns dias depois, no mesmo balcão da ZON)


- Bom dia.

- Bom dia. Em que posso ajudar?

- A minha mãe é vossa cliente. Por motivo de doença teve de mudar de residência e agora pretendemos cancelar o vosso serviço. Trago aqui uma declaração assinada por ela a autorizar-me a tratar do assunto.

- Pois, mas essa declaração não serve.

- Não serve? Mas foi uma sua colega aqui da loja que me disse para proceder desta forma...

- Pois, mas cancelamento aqui ao balcão, só com a presença do próprio.

- Pois, mas isso é completamente impossível devido à doença.

(silêncio longo e olhar inquisitivo)

- De qualquer maneira, essa declaração não serve.

- Então...

- Bem, atendendo à situação, vamos abrir uma excepção.

- Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).

- Mas essa declaração não serve. Vou imprimir-lhe uma declaração para trazer assinada pela mãe.

- Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).

 

Acto III (contacto telefónico uns dias depois da entrega com sucesso da declaração)

 

- Sim?

- Boa tarde, estou a contactar da ZON na sequência do pedido de desactivação do serviço apresentada pela Senhora Y.

- Ah, muito bem. É a minha mãe.

- E poderia falar com ela?

- Não, por motivo de doença é impossível.

- Percebo. É que para concluir o processo preciso de contactar com a Senhora.

- Percebo. Mas por motivo de doença é completamente impossível.

- Percebo. Aproveito para apresentar os nossos votos de pronto restabelecimento. 

- Muito amável. Transmitir-lhe-ei o seu cuidado logo que acabarmos a chamada.

- Ahnnn... Muito obrigado. Estou a falar com o Senhor?

- Rui Rocha.

- Sugiro então que abramos uma excepção.

- Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).

- Se me permitir, coloco-lhe as questões que faltam para concluir o processo.

- É mesmo necessário? É que a minha mãe já declarou por escrito que não pretende o serviço. Não vejo a necessidade...

- Compreendo. Mas sim, não posso concluir o processo sem colocar as questões.

- Diga.

- A residência da Sra. Y é na Rua (...).

- Confirmo.

- E tinha contratado o pacote Funtastic com 142 canais e mensalidade promocional no valor de vinte e nove euros e trinta e dois cêntimos?

- Olhe... agora apanha-me em falso. Confesso que nos últimos dias andei a vasculhar nos papéis todos da minha mãe até descobrir qual o pacote de cabo que ela tinha. E estava capaz de jurar que eram vinte e quatro cêntimos... E 138 canais.

- Não, a informação que tenho é que era de  vinte e nove euros e trinta e dois cêntimos e 142 canais.

- Hmmm. E está certo de que era o pacote Funtastic?

- Sim, essa é a informação que tenho em sistema.

- Por vinte e nove euros e trinta e dois cêntimos e com 142 canais?

- Sim, é exactamente isso que está em sistema.

- Está mesmo seguro?

- Sim, exactamente.

- Então confirmo o pacote e o valor.

- Ah, muito obrigado. E pode dizer-me que tipo de canais são os preferidos da sua mãe?

- Se calhar era melhor dizer-me a lista de canais disponíveis para eu ver se me está a falhar algum.

- Sem qualquer problema. Mas... são 142 canais...

- Pois, mas para o inquérito ser rigoroso...

- Claro. Mas se tiver uma ideia aproximada. Por exemplo, se é uma pessoa com mais idade, talvez os canais de informação, os generalistas...

- Talvez... Mas acho que não. Ponha o MTV Rocks.

- O MTV Rocks?

- Sim, a minha mãe gostava muito de ouvir os Nirvana e dos Red Hot Chili Peppers.

- Ah... vou então registar os canais de música.

- Muito bem. Mas sublinhe o MTV Rocks.

- Muito bem. Senhor Rui Rocha, na residência onde está instalado o serviço pode dizer-me se vivia mais alguém?

- Porquê, desconfia de alguma coisa?

- Ahnn... Não. Não. É só mesmo uma informação requerida pelo sistema.

- Certo. O sistema. Pois então pergunte por favor ao sistema qual a carga de água que faz com que seja preciso dar-lhe informações sobre o número de pessoas que vive em casa da minha mãe para proceder ao cancelamento de um serviço.

- Muito bem, Sr. Rui Rocha.

- Perguntou?

- Quer dizer, não, quer dizer o sistema não responde.

- Foi abaixo?

- Não, quer dizer, não permite fazer perguntas.

- Ah... 73.

- Agora não percebi.

- Ponha que residem ainda 73 pessoas no T2 da minha mãe.

- 73?

- 73. Ponha 73.

- Muito bem, Sr. Rui Rocha.

- Não se esqueceu do 3 depois do 7, pois não?

- Não, de todo. Coloquei 73.

- Óptimo.

- Senhor Rui Rocha, uma outra pergunta. A mãe vivia em casa própria?

- Agradeço-lhe a preocupação. Mas sim, era adequada. Confortável e acolhedora. Só lhe faltava mesmo um bocadinho mais de sol. E de espaço porque eram 74 contando com ela.

- Não, não. O que eu quero saber é se era arrendada.

- É o Senhor que quer saber ou é o sistema? A si digo-lhe de bom grado. Depois desta conversa, já é como se fosse da família. Ao sistema custa-me mais um bocadinho.

- Bem, sou eu para inserir em sistema.

- Pronto. Se é para inserir, está bem. Eu digo-lhe: é arrendada. Mas, já vê. Era barato. A dividir por 74...

- Claro. E o Senhor Rui Rocha não tem o contacto do senhorio?

- Não me diga que vai fazer queixa de que viviam 74 num T2?

- Não, de todo. É só mesmo para inserir em sistema.

- Jura que não é para fazer queixa?

- É só mesmo para o sistema.

- Pois, mas não tenho o contacto. Agora, é capaz de o conhecer. É o Joaquim Couto que tem aquela empresa de construções em Vila Verde.

- Ah, pois. Não conheço. Eu estou em Lisboa.

- Ah, pronto. Então nada feito.

- Senhor Rui Rocha, uma última pergunta. Conhece alguém que não seja cliente da ZON que possa estar interessado em beneficiar da promoção do pacote Funtastic contratado pela sua mãe e que queira indicar-nos.

- O que me está a perguntar é se me estou a lembrar de alguém que me apeteça indicar para beneficiar de uma fantástica promoção aproveitando o facto de a minha mãe estar com uma doença grave?

- Pois, aproveitar a promoção...

- O preço é mesmo vinte e nove euros e trinta e dois cêntimos?

- Confirmo.

- Nesse caso, não. Ainda se fosse pelos vinte e nove e vinte e quatro...

- Agradeço-lhe então a sua disponibilidade e vou dar o processo por concluído. Nos próximos dias será contactado para recolher o equipamento. Muito obrigado.

- Não se preocupe. Não tem de quê. Não quer aproveitar para desejar as melhoras à minha mãe?

- Peço desculpa, agora não percebi.

- Como estava tão preocupado com a saúde dela no princípio da conversa, pensei que quisesse renovar o desejo de pronto restabelecimento.

- Ah, claro que sim.

- Esteja tranquilo. Não me esquecerei de lhe transmitir.

- Então muito obrigado e boa tarde.

- Boa tarde.

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Em busca da produtividade

por Rui Rocha, em 07.08.12

A produtividade é o Santo Graal da economia portuguesa. Todos a procuram mas ela não se deixa encontrar. Agosto é uma boa altura para falar dela. Para uns, a causa da baixa produtividade portuguesa é a indolência (ou mesmo a malandrice) dos trabalhadores. Para outros, é o sistema de ensino que não prepara profissionais qualificados. Muitos referem os custos de contexto e a incapacidade de o Estado fazer a sua parte, nomeadamente ao nível da burocracia e da celeridade da Justiça. Outros tantos referem a falta de visão dos empresários. Vejamos todavia alguns dados interessantes. O quadro seguinte, obtido aqui, compara Portugal com a média da UE a 27 em alguns aspectos: 

 


Por outro lado, o gráfico seguinte, obtido aqui, ilustra a produtividade média em 20 países da UE tendo em conta o número de trabalhadores das empresas:

 

Ou seja, em geral, a produtividade cresce com a dimensão da empresa. Portugal, todavia, emprega 80,9% dos trabalhadores em PME (a média é de 66,9% na UE a 27). Ora, isto não é um problema de qualificação ou de produtividade individual de cada um dos trabalhadores. E dificilmente poderá ser responsabilidade do próprio Estado. Será, em boa parte, uma condicionante de contexto relacionada com a dimensão do próprio mercado. Mas, é muito provável que seja, antes de mais, uma questão cultural relacionada com os próprios empresários. Não de falta de visão, como é usual referir-se. Mas, ao contrário, de excesso de visão. De muitos empresários se considerarem capazes de financiar, gerir e fazer crescer os seus negócios sozinhos. De se verem maiores do que aquilo que na realidade são. E de serem incapazes de juntar forças com outros para ganharem dimensão, explorarem mercados mais amplos, aumentarem a produtividade, tornarem-se competitivos e assegurarem a viabilidade dos seus negócios. Esta é, apenas, uma das vias de análise. Todavia, não parece fazer menos sentido do que defender que a competitividade da economia portuguesa beneficiará muito com a diminuição do número de feriados.

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Reuniões

por José António Abreu, em 12.04.12

Reunião com cerca de vinte participantes. Quando começa já estou farto porque, com perfeita pontualidade britânica aplicada aos típicos atrasos nacionais, a hora marcada passou há vinte minutos. Seguem-se cento e cinquenta de discussões requentadas, apartes idiotas e piadas frouxas, mais ou menos sem ordem, mais ou menos sem objectivo. Assuntos importantes são despachados para canto e assuntos irrelevantes são discutidos até à exaustão. Não estou admirado: é sempre assim. Caio num torpor estupidificante. Os meus movimentos ficam mais lentos, a vista embacia-se-me, nos ouvidos ressoa-me a cacofonia que vai pela sala e no meu cérebro os neurónios suicidam-se um após outro. A sério: consigo ouvir o estalido que acompanha cada morte. Plop, plop, plop. Alguns finam-se discretamente, outros soltam gritinhos agudos em que detecto mais raiva do que desespero. Extinguem-se milhares durante aquelas duas horas e meia. E é sempre assim. Sei que estou perdido e até sei quanto tempo me resta. Projecções feitas numa época em que ainda possuía capacidade para as fazer indicam que, nada mudando, em nove anos atingirei o nível de raciocínio de um pedaço de xisto de dimensões médias.

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As excepções fazem a regra

por Helena Sacadura Cabral, em 26.03.12

Num universo de 159 empresas públicas, só sete poderão pagar ao seu presidente o mesmo vencimento que aufere o primeiro-ministro.

É caso para dizer que as excepções é que fazem a regra.

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«Então?»

«Foi muito giro.»

«Aprendeste alguma coisa?»

«Aprende-se sempre qualquer coisa.»

«Pensas que a partir de agora vais agir de forma diferente?»

«Talvez, não sei. Mas é sempre bom.»

«E achas que vai ser útil para a empresa?»

«Claro. É sempre útil.»

...

«E este tempo?»

«Pois é. Se não chove depressa, vai ser terrível.»

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