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Navegar é preciso

por Pedro Correia, em 16.06.16

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Filho e neto de emigrantes, com familiares espalhados por quatro continentes, aos 25 anos eu próprio emigrei. Tinha emprego em Portugal, tinha aquilo a que hoje se chama uma "carreira" por cá. Mesmo assim, emigrei. Passei dez anos longe do País. Regressei com horizontes mais largos, novos conhecimentos, uma enriquecedora experiência profissional adquirida junto de gente com crenças, culturas e línguas diferentes. Foi uma etapa insubstituível da minha vida que jamais esquecerei. Depois, quando colegas mais jovens confrontados com desafios profissionais além-fronteiras me pediam opinião sobre a opção a tomar, sempre os incentivei a partir também. Alguns confiaram no que lhes disse, nenhum deles lamentou ter feito a mala e demandado outras paragens. A vocação universalista dos portugueses confirma-se nesta constante procura de novos horizontes: somos capazes de edificar o nosso lar em qualquer recanto do mundo.

Por tudo isto, venho acompanhando com perplexidade o debate em curso sobre o novo ciclo de emigração eventualmente aberto aos portugueses. Descendentes não dos que partiram mas dos que ficaram, muitos dos que agora se insurgem contra esta perspectiva eram os mesmos que há meia dúzia de anos recomendavam que Portugal devia receber de braços abertos imigrantes oriundos das mais diversas origens, sugerindo até que esse fluxo migratório permitiria salvaguardar a segurança social pública nacional. Alguns deles foram assistindo nos últimos anos sem um esgar de espanto à contínua partida de compatriotas para Angola, onde passaram a residir mais de 150 mil portugueses. São os mesmos que só agora lamentam o facto de haver jovens prontos a trabalhar a milhares de quilómetros do habitual local de residência de pais e avós. Não entendo a contradição: por que motivo havemos de saudar a imigração e chorar a emigração?

Faz-me impressão esta visão paroquialista do mundo contemporâneo que pretende ver cada povo arrumado no seu reduto. António Costa, por exemplo, anda a ser muito criticado por ter apontado França como possível destino de professores portugueses. Como sucedeu a Passos Coelho antes dele. Esquecem tais críticos que vários países são o que são também porque noutras épocas, já recuadas, houve outros portugueses que lá chegaram - quando ainda nem países eram. Basta pensar no Brasil.

Nada mais óbvio: os países lusófonos e os nossos parceiros comunitários, tal como nós inseridos no Espaço Schengen, são um destino natural para qualquer cidadão deste vasto espaço cultural e afectivo alicerçado no idioma que nos é comum ou na cidadania europeia que nos irmana a 27 Estados. Porque haveria isso de ser motivo de controvérsia pública?

Situar as questões no seu contexto é um dos requisitos básicos para um debate político civilizado e construtivo. O resto é ruído.

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Migration Remix (DJ Costa)

por João André, em 15.06.16

Quando o governo anterior aconselhou os portugueses a emgrar, insurgi-me. Não é por este governo ser de esquerda ou ter apoio da esquerda que mudo de agulha. Um governo tem como primeira prioridade ajudar os portugueses a viver em Portugal, idealmente criando condições para ter emprego digno no país (que não é o mesmo que "dar" emprego). Quando um governo apela aos cidadãos (mesmo que uma pequena parte deles) que mudem de país está a dar uma imagem de desistência, que não vale a pena tentarem manter-se no país, que nada ali haverá para eles.

 

Escrevi algo nestas linhas no passado. Repito-o agora. Os apelos devem sempre ser à imigração e nunca â emigração. Gostaria de pensar que Costa queria apenas indicar que este governo apoia o contacto com a população emigrante, mas não sou assim tão ingénuo. Este tipo de declarações é sempre inaceitável num governante, seja lá qual for a sua cor política.

 

Os meus pais diriam: muda o disco e toca o mesmo. Hoje em dia falamos de remixes.

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Não confundir germano com género humano

por Rui Rocha, em 15.06.16

Pessoas mal intencionadas continuam a tentar confundir os portugueses. Vejamos. Quando Passos Coelho aconselhou os professores a trabalharem no estrangeiro estava em Portugal. Quando Costa aconselhou os professores de português a trabalharem em França estava em Paris. No primeiro caso temos, portanto, um apelo à emigração. E, no segundo, um apelo à imigração. Só por má-fé se pode defender que é igual aquilo que, em substância, é completamente diferente.

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Uma de nacionalidades

por Rui Rocha, em 24.08.15

Num bar de Londres estão um engenheiro português, um engenheiro alemão, um engenheiro inglês e um engenheiro francês. Vai o português e pergunta: e os senhores, o que vão querer tomar?

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Longe demais

por Teresa Ribeiro, em 07.07.15

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As pessoas deixam rasto. Os animais sabem-no bem. Os animais e as mães. As boxers que ficaram esquecidas na roupa suja, a caneca ainda com um resto de leite, a cama desfeita, o rasto morno da ausência sente-se no ar.

O som dos passos e da voz, que é a brisa do corpo, o doce marulhar que assinala a presença de gente que se ama, quando desaparecem alteram o sentido das coisas. O quarto desarrumado, antes cheio e vibrante passa a ter apenas destroços, farrapos de objectos sem utilidade, ao passo que as não-coisas ganham importância: o lugar onde esteve a mala, o lugar onde se sentou, o sítio que...

As memórias, essas horrorosas que servem para tapar os buracos da existência, vão saindo do armário ordenadas, à medida que o tempo avança depois de uma despedida. Aos poucos ocupam os seus lugares, substituindo o real pelo imaginário e um filho passa a ser o que é durante quase todos os dias do ano: o retrato de um filho, ou a imagem via skype de um filho. Algo assim. Inodoro, intangível, pixelizado. De palpável fica aquela dor enquistada e a inveja das famílias que crescem juntas, que podem dar-se ao luxo de crescerem juntas.

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A senhora da foto é filha de Salgueiro Maia. Além desse facto não se lhe conhece, publicamente claro, nenhuma outra "virtude". Não só não há nenhuma relevância jornalística em eu ser filho de, pai de, marido de ou amigo de, como as qualidades e/ou defeitos de alguém não se transmitem por osmose em nenhuma dessas ligações. Mas o que quero relevar aqui é o embuste, transmitido pelos meios de comunicação sem qualquer verificação crítica dos factos que, como a seguir demonstro, estão facilmente à disposição de qualquer um. Diz Catarina Salgueiro Maia que emigrou para o Luxemburgo em 2011, «ano em que a 'troika' chegou a Portugal e "em que o primeiro-ministro aconselhou as pessoas a ganhar experiência no estrangeiro", ironizou, recordando os apelos do Governo à emigração». Não há dúvida de que a troika chegou a Portugal em 2011 (o pedido de ajuda foi feito a 6 de Abril); já o governo apenas tomou posse em 21 de Junho, e as tais declarações polémicas sobre emigração ocorreram a partir de Outubro. Ora neste vídeo, aos 30 segundos, Catarina afirma com absoluta certeza que chegou ao Luxemburgo no dia 15 de Março. Portanto, quando diz que diz que «foi "convidada" a sair de Portugal pelo primeiro-ministro Passos Coelho» está a mentir descaradamente. Se por ressabiamento ou ao serviço da sua ideologia política, isso não sei; mas sei que se queremos melhores políticos temos que ser melhores cidadãos. Não vale tudo para levar a água ao nosso moinho. E não, as qualidades (a imagem de tenho de Salgueiro Maia é a de um homem recto) não se transmitem por osmose jornalística. Nem sequer pelos genes.

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Os suíços decidiram que querem ser os primeiros a colonizar Marte.

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A emigração francesa

por Helena Sacadura Cabral, em 06.02.14
O último LE POINT aborda de forma bastante extensa o problema da saída de cérebros franceses em busca do sucesso. É um número precioso na explicação de um fenómeno que se terá agravado com a globalização, que a crise tornou mais crucial e que está longe de ser apenas nacional ou consequência exclusiva de medidas governamentais.

O retrato robot do francês expatriado, traçado com base no "Inquérito sobre a expatriação dos franceses", não deixa de ser curioso. Assim:


1. É, sobretudo, homem e jovem (54%), com idades compreendidas entre os 26 e os 40 anos.

2. É muito mais "diplomado" do que o francês comum e o seu nível salarial líquido declarado, quando trabalha, é em 52% dos casos, superior a 30.000 euros.

3. 33% são quadros de empresas, 15% quadros da função pública, 6% chefes de empresa com mais de 10 assalariados, 3% técnicos e 1% artesãos.

4. 49% vive na Europa,13% na América do Norte, 9% no Próximo e Médio Oriente, 8% na Ásia, 7% na África francófona e 6% na África do Norte.

5. Os franceses são a primeira comunidade na Bélgica, a segunda no Luxemburgo, a terceira na Suíça, a quarta em Israel, a sexta no Reino Unido.


Creio que, retirando algumas especificidades, o nosso robot poderá, na essência, não ser muito diverso deste. A grande diferença é que a maioria destes expatriados poderia arranjar trabalho em França. Se saem é porque têm ambições, desejam voar mais alto e mais depressa ou não estão disponíveis para pagar o alto nível de impostos no seu país. Trata-se, portanto, de uma opção pessoal. Não de uma imposição.

"...Partir não é em si uma infâmia, uma renúncia ou um descréditoPode-se amar um país e deixa-lo...desde que seja para se retornar melhor." 

O drama é quando nem sequer se volta.

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O falso problema da fuga de cérebros

por Teresa Ribeiro, em 06.01.14

"O actual surto de saída de portugueses alivia a taxa de desemprego, promove a situação dos que partem e beneficia os países de destino com excelentes colaboradores" (...) "A sua saída manifesta que, devido à crise, agora não são cá necessários" - é assim, sem papas na língua que o inimitável João César das Neves despacha a questão da fuga de cérebros do país.

Extrapolando para os problemas demográficos que se levantam com a saída de tanta gente que irá constituir família para outro lado e inspirada no extraordinário pragmatismo deste homem que se não fosse economista daria um excelente guru da psicologia positiva, penso que uma solução plausível seria aumentar a idade da reforma para os 80 anos. Dessa forma pouparíamos em pensões e subsídios de maternidade cobrindo ao mesmo tempo o défice da população activa.  

Que tal? O que precisamos é de ser pró-activos e aprender com os bons a ver o copo sempre meio cheio.

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Os novos emigrantes

por Teresa Ribeiro, em 04.01.14

O que distingue os novos dos velhos emigrantes é o corte afectivo. A renúncia dos jovens, que agora partem, ao país que os viu nascer mas não lhes permitiu fazer planos, atingir objectivos, progredir na vida é uma novidade na nossa história de emigração. Esta nova geração não se vai rever nas canções de emigrantes que gemem de saudades pelo país solar que ficou para trás, nem vai fazer poupanças com o intuito de um dia voltar. Os seus filhos serão filhos de países bem sucedidos e aprenderão a falar as línguas que contam.

A globalização ajudá-los-á a descartar os sentimentos de pertença que sempre atrapalham na hora da despedida, mas será o sentimento de rejeição o principal responsável por todo este desprendimento. Ao contrário dos mais velhos não é com humildade que saem, mas com despeito. Na verdade não partem, dão as costas. Dão as costas ao país que lhas virou.

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O Público tem aqui um interessante trabalho sobre os fluxos migratórios de e para Portugal. Vale a pena ler para colocar num contexto histórico alguma desta emigração. Tem no entanto alguns pontos mais fracos, especialmente relativamente à conjuntura total dos países de destino no passado e ao problema com a contabilização das emigrações actuais.

 

Em relação à conjuntura passada, convém lembrar que muita da emigração até à década de 60 para França, Alemanha ou Bélgica existiu no contexto de iniciativas desses países para atrair trabalhadores que compensassem o declínio populacional do pós-guerra e que apoiassem os esforços de reconstrução suportados pelo plano Marshall. Foi nesse contexto que esses países se encheram também de imigrantes italianos, gregos, jugoslavos ou espanhóis (estes algo menos).

 

Os números actuais da emigração portuguesa têm, na minha opinião (baseada em puro "achismo" e reflexão), uma falha: com a presente possibilidade de se estabelecerem e trabalharem noutros países sem processos complicados, os portugueses acabam por muitas vezes não actualizarem os seus registos locais. Em 10 anos que levo fora do país só me registei no consulado na Holanda porque precisei de um documento em cima da hora. O meu passaporte e cartão do cidadão ainda são portugueses. Como eu está a maioria dos portugueses que conheço, que se registam nos países de acolhimento mas não informam o país de origem. Isto provavelmente poderá subestimar os números da emigração.

 

Duas notas para a notícia: a primeira para o infográfico que a acompanha. Não faço ideia da origem dos preços que apresentam, mas tenho sérias dúvidas que a gasolina em 1973 e 1993 custasse o equivalente a 200 e 260 escudos, respectivamente. Ou que uma noite num hotel em quarto duplo andasse pelos 130 e 260 contos em 1973 e 1993, respectivamente. Ou até que custe em média 200 euros actualmente (ainda no ano passado paguei 80 por uma noite dessas no Marquês de Pombal). Estes números têm óbvias asneiras.

 

Outra nota para as declarações de Pedro Lomba sobre as "vantagens" que Portugal tem para oferecer a «imigrantes de elevado potencial». A saber: «Clima, segurança, protecção social, serviços de saúde [e] infra-estrutura». Quanto ao clima, tudo certo. Quanto à protecção social, mesmo ignorando que está a ser destruída pelo governo de Pedro Lomba, é sempre inferior à de muitos outros países. Os serviços de saúde, se estão bem, não deveriam ser mudados por este governo. Mesmo ignorando isso, mais uma vez são inferiores aos dos países de onde viriam esses imigrantes. Já quanto à infra-estrutura, só por piada alguém escolheria Portugal quando tem outros países europeus. A única solução seria atrair os imigrantes de países abaixo de pobres ou de ditaduras, mas com o CDS no Governo, que horror! nem pensar!!

 

A verdade é que Portugal é de facto um país de emigração e vai continuar a sê-lo. Vejo Portugal a sofrer uma verdadeira catástrofe demográfica a médio prazo e sem sequer ter a visão de criar laços com aqueles que partem. Isto terá consequências verdadeiramente desastrosas dentro de uns 20 anos. Claro que por essa altura, os bandalhos que estão no governo, nunca nada fizeram na vida (começando pelo PM) e exortam os portugueses a «sair da sua zona de conforto» já terão tratado do seu. Tenho ainda esperanças: nos filmes, os jagunços costumam pagar pelos crimes. Seria bom que 2014 fosse um ano nesse sentido.

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Là-bas, je ne sais où

por Pedro Correia, em 04.11.13

Sócrates rumo ao Parlamento Europeu? Poiares Maduro a caminho da Comissão Europeia? Confirma-se a tendência geral para o aumento da emigração portuguesa. Resta-nos sempre Álvaro de Campos: "Nunca voltarei porque nunca se volta. / O lugar a que se volta é sempre outro, / A gare a que se volta é outra / Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia."

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Este post, especialmente a parte em baixo, que se refere à experiência de sair do país e da adaptação a outras realidades, deveria ser lido por qualquer pessoa que pensa em emigrar. Estando há já quase 10 anos continuamente fora do país (aos quais adiciono um ano e picos que já tinha feito no passado), sei o que custa sair do nosso rectângulo. Há vantagens na emigração (não houvesse e ninguém emigraria), mas há coisas que se perdem irremediavelmente.

 

Interlúdio para a frase fundamental do post citado e que vale todo o meu texto (o meu título é também adaptado de uma frase do post):

«Julgava que, sendo de um país da União Europeia, ir viver para outro país da Europa seria como ir para uma cidade que fica só um bocadinho mais longe e onde se fala uma língua diferente. Não é.»

 

A pergunta sobre aquilo de que mais sinto falta tem evoluído com os anos. Começou por ser a família e os amigos (nunca desaparece), passou pela língua (a cabeça virava automaticamente sempre que ouvia português na rua) e pelo sol (ainda e sempre), a certa altura é mesmo a comida (mesmo que má) e passa sempre pelo estilo de vida (sinto por vezes falta do caos). Actualmente aquilo que me falta é o sentimento de pertença. Não me sinto como pertencendo a lado nenhum. Mal conheço a cidade onde nasci e cresci, a cidade das minhas felizes recordações universitárias parece ter desaparecido e a seguir não cheguei a ficar em lado nenhum tempo suficiente para criar raízes. Acrescentando a isso não ter uma companheira portuguesa e acabo por ser um estranho em todo o lado.

 

Quando me contavam o corajoso que eu era por sair - há dez anos - pensava que isso dizia mais sobre a falta de coragem dos amigos e conhecidos que da coragem que eu tinha. Hoje percebo que era eu que me equivocava, que não tinha consciência daquilo que ia fazer, das dificuldades emocionais por que ia passar. Penso mesmo que, quando se opta por mudar de país, é bom que não se tenha a certeza daquilo a que se vai. Saber demasiado poderá aumentar a indecisão e complicar a vida mais que uma simples recusa em partir. A partida deve ser em busca de uma vida de facto melhor ou de uma aventura.

 

Não vou aqui elencar as dificuldades nem as soluções. Cada pessoa é diferente e aquilo que custa a uns pode ser mais fácil para outros. Apenas aponto um conselho a quem queira sair: percebam que não sabem ao que vão. Informem-se sobre o destino, se possível através de amigos e conhecidos, mas tenham consciência que vão sair surpreendidos e que tudo será mais difícil, com o tempo, do que aquilo que se esperaria.

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Coincidências

por João André, em 02.07.13

Há duas semanas, a Economist publicou um trabalho especial sobre a Alemanha. Num dos artigos falava da falta de mão de obra, especialmente qualificada, que grassa no país. Também referido foi o facto de as empresas alemãs, com mais do que uma mãozinha do(s) governo(s), estarem a importar cada vez mais essa mão de obra dos países do sul da Europa. Que coincidência isto suceder em pleno período de crise (especialmente) do sul da Europa.

 

Como não tenho jeito para a subtileza, adiciono aquilo que me foi confidenciado por uma pessoa amiga que trabalha no Parlamento Europeu há já bastante tempo: um dos objectivos para a austeridade brutal era mesmo o de levar os jovens qualificados a abandonar o seu país e a seguirem para os países que estão na mesma situação da Alemanha. É que os imigrantes da Turquia, Marrocos, África, Ásia ou semelhantes são excessivamente diferentes culturalmente, têm religiões diferentes e não vêm sempre muito qualificados. É mais simples importar os outros que já são europeus.

 

Teoria da conspiração? Talvez. Vindo de quem veio, dou mais credibilidade à ideia do que noutras situações. Tem buracos, como é óbvio, mas quanto mais penso nisso, mais me parece ter lógica. Aliás, pensando bem, estou para ver se o próximo quadro qualificado a aterrar na Alemanha não será um antigo ministro das finanças para inaugurar o seu novo gabinete na  Willy-Brandt-Platz em Frankfurt am Main.

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A última vez que compareci às comemorações oficiais do 10 de Junho em Maputo foi há 10 anos, e sei bem quando foi pois ainda vivia na F. Engels, ali vizinho da residência do embaixador. Cheguei bem tarde, vindo um trabalho entre Boane e Moamba, mas ainda lá fui como sempre o fazia nesta data. Quando cumprimentei o funcionário público que então ocupava as funções de representante, ele ficou a olhar insistentemente para a minha ausente gravata. Eu não lhe disse o impropério que ali mereceu - na época era cooperante, tive que aguentar - mas nunca mais lá voltei. Já agora, os últimos três embaixadores portugueses foram muito fraquinhos, e um tipo, ainda para mais tendo conhecido as verdadeiras excelências que os antecederam, perde a paciência para o mero aparelhismo, mesmo que doirado com o brilho do simbólico. E muito prejudicado com os tiques sociológicos de uma corporação profissional que a torna tendencialmente (muito) renitente à aprendizagem, auto-encerrada, numa "endogamia" intelectual medíocre e incompreendedora. É certo que ao longo dos anos conheci uma mão cheia de bons, até excelentes, diplomatas. Serão esses os que estão socialmente descansados e sociologicamente informados, nisso entendendo que uma república é uma mole de cidadãos e não uma hierarquia de estatutos ontológicos. Mas esses não são, infelizmente, a regra, e isso apouca as competências gerais. Enfim, diz-se que o homem que agora chegou a Maputo é de outro calibre, e ainda bem pois o momento histórico merece e exige. A ver vamos. Se suplanta o que se vem passando e a equipa que tem. 

 

Este ano fui à recepção comemorativa. O novo embaixador fez um bom discurso, para além do protocolar. Sublinhou que os portugueses residentes, 23 000 (?, sempre julguei que um pouco mais), constituem um contingente relativamente diminuto se comparado com os emigrantes portugueses em tantos outros países. Certo que o impacto migratório não é apenas estatístico, mas  é avisado recordar isso para obstar à ideia da "vaga" de portugueses num país com 23 milhões de habitantes. E deixou dois pontos importantes a reter, quais recados para nós outros, portugueses: a) estamos cá a trabalhar, a ganhar a vida, com o apoio local. No respeito das leis - necessário sublinhar, num contexto em que muito patrício julga que vem gingar diante dos regulamentos. É uma trabalheira, e conspurca a imagem de quantos por cá não o fazem; b) a comunidade portuguesa deixa a política moçambicana para os moçambicanos. Conveniente de lembrar num momento antecessor de um ciclo eleitoral, para acalmar alguns hipotéticos excitados.

 

A festividade em si própria foi interessante. Para mim, a permitir-me rever conhecidos, já raro convívio dado o meu ensimesmamento e o nosso envelhecimento. E continuo a espantar-me com isto de ver os patrícios, quando em algo oficial, a vestirem-se todos com fatos azuis. Qua aquele velho "azul Carris", o dos uniformes dos motoristas e revisores de autocarros. Acham que vão finos, assim. Não vão. Mas enfim, é o que conseguem. E se se esforçam é de louvar. Mas não deixa de ser um uniforme. E isso não é lá muito bom, que a cidadania não se uniformiza. Tornando o cada um como cada qual num cada todo como cada quais. E isso não é bom, principalmente hoje, a precisar de mais cores.

 

Para o ano há mais. E até lá há muito para percorrer. Muito mesmo.

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(Um postal propositado para um outro blog onde escrevo, e com tema algo excêntrico ao Delito de Opinião. Mas, como se diz em inglês, aqui fica "para quem possa ter interesse".)

 

Há um ano escrevi num blog (e no Canal de Moçambique) sobre a actual imigração portuguesa para Moçambique, e no meio deixei: "Muitos portugueses a chegarem, a fugir à crise nacional e europeia. Três pontos: a) como qualquer vaga migratória isso vai levantar questões no mercado de trabalho (que aqui assumiram, assumem e vão assumir uma linguagem que remete para as realidades históricas do racismo e do colonialismo). É assim, será assim; b) muita gente chega mal preparada ou seja, com a atitude errada. Altaneira, entenda-se (é também o maldito “complexo do Equador”, que torna “doutor” quem o atravessa – coisa que não é de agora). Muita gente não a tem, vem trabalhar e viver. Esta última leva por tabela, catalogada como “tuga” (ou xi-colono) devida à tonta arrogância de uma parcela de patrícios que não percebem onde estão (“senhor(a), você está no estrangeiro” é coisa que muitas vezes me (nos) apetece dizer); c) e há gente patrícia mais antiga aqui a resmungar contra os que chegam agora, “que raio de gente, etc e tal", como se fossem laurentinos enjoados com os colonos rurais, transmontanos ou madeirenses, vindos para o Chockwé nos tempos idos. Esquecem-se, obviamente, que também chegaram um dia (há dois anos, cinco, quinze – como eu – ou, poucos, há mais anos ainda)."

 

Nos últimos dias recebo várias mensagens com uma "carta aberta aos portugueses", a qual vejo também reproduzida no facebook e na comunicação social. Ecoa o mal-estar com esta imigração e termina com um conselho explícito: que mantenhamos a bola baixa. Sucede-se a algumas outras discussões de facebook (vi algumas, contam-me outras) que realçam o desagrado com a situação actual. Umas explicitando o porquê desse desagrado (mais ligadas às questões da imigração ilegal), outras aludindo a uma generalizada má-vontade dos recém-chegados. E outras pura e simplesmente, considerando os portugueses aqui prejudiciais ("os portugueses são todos mal-educados" li recentemente, e engoli).

 

Esta carta chega-me, e em tons de concordância, por parte de amigos moçambicanos (alguns do grupo socio-etário da sua autora, até dela amigos pessoais), e por parte de amigos portugueses aqui há longo tempo residentes ou ex-residentes de longo prazo. E também por outros patrícios, entre o incomodados e o até receosos, sobre o que isto significa, o que pode induzir. Não se exagere, é um fenómeno normal, também no nosso país, e em tantos outros, a chegada de imigrantes provoca reacções de incómodo. E, em particular, quando estão inseridas num tipo de relacionamento histórico como este, ex-colonial.

 

A questão desta "carta aberta" ultrapassa o seu conteúdo ou mesmo o contexto sociológico muito particular da sua realização. E até mesmo o facto de eclodir na sequência da questão recentemente levantada dos vistos de entrada, cujo incremento de controlo advém da mais normal, e salutar, actividade administrativa. A questão central será até mais a da sua recepção e reprodução (partilha electrónica e conversacional).

 

Alguns pontos gostava de deixar, em corrida, pois por demais atarefado para textos sistematizados:

 

a. Em finais de XX também houve afluxo de portugueses, normalmente quadros ligados a grandes ou médias empresas, ou pequenos e médios investidores. Uma menor dimensão quantitativa e com outras características sociológicas (para facilitar chamo-lhes "expatriados", no sentido de melhor situação socioprofissional e com lugares de recuo). A reacção foi, e as pessoas esquecem-se, bastante mais adversa. Não só porque isto significava a chegada de capital (financeiro, fundamentalmente) português, e nisso parecendo assumir contornos do "neo-colonialismo". Mas também porque as memórias do período colonial, da guerra de independência (e da civil) eram mais vivas. E ainda porque a "classe média" urbana tinha menores disponibilidades e sentia mais o peso competitivo dos quadros estrangeiros. E a questão de Cahora-Bassa não estava ainda terminada, pois continuo a pensar que o final desse processo significou um "degelo" nas relações entre países e, por arrasto, entre sociedades.

 

Quando falo em "reacção adversa" falo de discursos públicos, de personalidades conhecidas. E das "cartas de leitores" aos jornais (e quão célebre era a correspondência, vera e fictícia, no jornal "Notícias"). Alusões e acusações a desmandos e maus tratos (e a escândalos económicos) juntaram-se. Umas teriam fundamento (a mácula de uma grande aldrabice bancária foi terrível) outras nem tanto (a primeira vez que escrevi num jornal moçambicano foi para defender um amigo, administrador de uma empresa, que estava a ser, prolongada e injustamente, escalpado no jornal "Savana". E ainda hoje lembro a gratidão ao Augusto Carvalho por ter intercedido no "Domingo" para que ali me publicassem o justíssimo desagravo).

 

Interessante no processo actual, bem menos intenso, é que se centra no mundo do "facebook", evidenciando a força do novo espaço de discurso público em Moçambique. E fazendo notar que neste espaço, muito menos hierarquizado, as vozes descontentes que se expressam estão mais entre os cidadãos comuns do que nas personalidades da elite político-cultural. Haverá, ponho como hipótese, menos "política" neste expressar do desagrado.

 

b. A sociedade portuguesa indiscutiu o colonialismo. Ou seja, manteve a sua histórica inconsciência colonialista, muito baseada no velho mito do "modo especial de ser português", aliás, do "modo especial de ser colono". Isso implica a manutenção, fluída, de estruturas mentais sociais que condicionam categorizações e relacionamentos, as quais subsistem, como é óbvio, numa multiplicidade de conteúdos - entenda-se, "cada um como cada qual", ou seja, as perspectivas individuais não são determinadas mas são, isso  sim, influenciadas.

 

Esta "inconsciência", este impensar do passado, não num sentido automortificador mas sim com uma veia prospectiva, continua a ser sublinhada por discursos dominantes. O actual pico da literatura "leve" que evoca a "boa África colonial" ajudará, a continuidade da ideia da "lusofonia" como espaço comum (e com a sua excrescência mal-cheirosa Acordo Ortográfico) é disso motor. A ideia de que as realidades históricas eram brutais desvanece-se. E quase inexiste a ideia que essa brutalidade era sistémica, como lhe chamou Sartre. Estas coisas estão escritas, e há muito. Pegue-se no "O Fascismo Nunca Existiu" (1976) de Eduardo Lourenço e vejam-se os luminosos textos dedicados ao (im)pensamento português sobre a relação colonial com África (escritos entre 1959 e 1976!!!) e está lá quase tudo, numa poderosa análise que as décadas seguintes só vieram sublinhar.  Lourenço é muito falado, premiado, elogiado. Mas parece ser pouco (re)lido. A dimensão sistémica colonial da sociedade e economia portuguesa (e metropolitana) está explícita em textos pioneiríssimos de José Capela ainda do início de 1970s, e depois demonstrada no excelente "Fio da Meada" de Carlos Fortuna, um marco já nos anos 90s. Mas dá a sensação que não ultrapassam o meio académico que os respeita. Os extraordinários textos de Grabato Dias (António Quadros) são esquecidos, que de "leves" e "miríficos" nada têm.

 

Porquê este rodeio bibliográfico? Porque o desconhecimento das realidades históricas e a armadilha da "língua comum" produz em Portugal uma visão de África(s) e categorizações menos actuais do que se pensa, portanto menos úteis, menos utilizáveis, menos propensas a um relacionamento desmaculado (o "imaculado" não é uma palavra ... humana). E implica também muita surpresa, o deparar com ambientes menos propícios aos portugueses do que quantas vezes se pensa, se antevê. Ambientes diversos sociologicamente e diversos nacionalmente, pois não há uma una relação "portugueses-ex-colónias". Mas é tudo, como não poderia deixar de ser, bem menos fraterno do que o nosso (português) senso comum produz.

 

E talvez este tipo de discursos posssa servir, empurrar, para que se pense melhor. Não "de bola baixa". Mas de "bola alta".

 

c. A polémica carta pega em excertos discursivos de portugueses sobre Moçambique (recolhidos aquando das polémicas no facebook sobre o fim da atribuição de vistos de entrada nas fronteiras). São entendidos como significativos, os discursos na internet baseando uma indução sobre os portugueses. Para mim este é também um ponto interessante, pelas novas dinâmicas do discurso público e das suas utilizações e interpretações, que demonstra. Pois ao longo dos anos acompanhei os discursos electrónicos sobre Moçambique, em particular no bloguismo. Com a fantástica colaboração do Paulo Querido, organizei o directório "ma-blog", continuado depois com o Vitor Coelho da Silva no PNetMoçambique. Conheci centenas de blogs moçambicanos e sobre Moçambique. Muitos, muitos mesmo, escritos por portugueses. E vários destes por portugueses em Moçambique, voluntários, missionários, cooperantes, turistas, imigrantes, investigadores (como exemplo muito actual este Beijo-de-mulata,  recentemente editado em livro em Portugal).

 

E o que me foi sempre notório, até como analisável, é o facto da (re)produção do encanto nesses blogs. Um encantamento, solidário com as pessoas, embrenhado na natureza, curioso com a história, preocupado com o real e o futuro. Quantas e quantas vezes ingénuo, namorando o exótico, até pa/maternalista, e eu face a isso resmungando. Mas um generalizado tom nos discursos electrónicos portugueses aquando em Moçambique. Oposto, até inverso, ao produzido em discussões de facebook que quase de certeza têm locutores sociologicamente distintos, e na sua esmagadora maioria bem longe do país, cruzando ainda as dores de um "luto colonial", de teimosia imorredoira. E nisso muito mais ligados às concepções (históricas) que acima refiro.

 

Deste modo, também por tudo isto, assentar a tese da malevolência portuguesa (ou da significativa malevolência portuguesa, mesmo que não universal) no "picanço" a la carte desses exemplos mais ultramontanos (ainda que eles sejam, porque o são, recorrentes em alguns contextos electrónicos) me parece francamente letal. Para quem escreve. Não para quem ouve e lê.

 

d. Depois, e por fim, o óbvio e mais importante. Moçambique como "terra de oportunidades"? Como penúltimo passo deste generalizado "go south" africano? Como espaço de mineração e garimpo? Como país que vive uma continuada pacificação e um anunciado desenvolvimento? Como terra de gás e petróleo? Esta é a realidade das representações que o país tem, de momento, no contexto internacional. O problema são os imigrantes portugueses (com as suas características)? Ou é a capacidade do país conviver com o fluxo tão diversificado de imigrantes e de migrantes? O qual foi, inclusivamente, saudado há pouco por um membro do governo como dimensão do desenvolvimento e globalização sentidos no país.

 

A classe média maputense choca-se com a imigração portuguesa, legal e ilegal. E tem razões sociológicas para tal, deixemo-nos de exagerados prudidos. Expressa-as publicamente (jornais, redes sociais). Mas se cruzarmos a sociedade nas suas várias dimensões encontramos outras preocupações com tantos outros núcleos estrangeiros. No norte com os "tanzanianos", nos pequenos comerciantes com os "nigerianos", generalizadamente com os "indianos", em tanta gente com os chineses (sem aspas, pois são realmente chineses contrariamente aos outros universos), nos quadros também com os "sul-africanos", há alguns anos no centro do país com os "zimbabweanos". Etc.

 

A questão é bem mais vasta. E apaixonante. É a de incrementar a capacidade administrativa para dirimir este desafio que a imagem de progresso do país provoca, o fluxo imigratório. E de fazer coexistir isso com desenvolvimento económico e com justiça social - sim, atentando que nestas mobilidades os défices de capital cultural ou económico dos cidadãos nacionais podem ser (podem ser, sublinho) prejudiciais para a justiça social. Ou seja, os desafios do país são enormes, não são os "200 portugueses por mês" (que Núria Negrão, autora da "carta aberta", afirma) - por piores que estes sejam, que nós sejamos.

 

Por tudo isto, ver os meus amigos intelectuais, académicos, empresários ou funcionários burgueses, a maioria deles auto-situando-se "à esquerda" (no espectro político moçambicano esta polaridade inexiste, mas na linguagem autodefinidora funciona), até ecoadores do "indignismo" globalizado, a aplaudirem textos sociologicamente tão débeis, generalizações a roçarem o mero preconceito, e invocações do "respeitinho", do "bater a bola baixa", que aludem ao mais medonho do autoritarismo, é-me doloroso.

 

Até porque, e ainda que não esquecendo (daí a arenga histórica acima colocada) o particular contexto histórico desta imigração portuguesa, a construção de sociedades democráticas é também a defesa de que os imigrantes, não deixando de ser estrangeiros, "batam a bola alta", sejam cidadãos. Metecos, como [me] reclamo. Desajustados, até mal-criados, se calhar. Mas não rasteirinhos.

 

Oxalá.

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