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Já foram há mais de um mês, mas talvez pelo facto da segunda volta ter coincidido com o grande incêndio de Pedrógão, passaram algo despercebidas entre nós. As eleições legislativas francesas quebraram o habitual panorama partidário, afundaram algumas das forças polí­ticas mais tradicionais e deram uma maioria legislativa ao novo presidente Emmanuel Macron e ao seu En Marche, que, recordemos, é um movimento centrista com pouco mais de um ano e de que até há pouco tempo se duvidava que fosse sequer apresentar-se às legislativas, dadas as dificuldades organizativas e em arranjar candidatos. Mas na senda da robusta vitória presidencial de Macron, o agora denominado Republique en Marche posicionou-se ao centro, baralhando os equilíbrios ideológicos, e pescou ao centro-esquerda e ao centro-direita, para além de ter recebido o apoio do MoDem de François Bayou, um experiente nestas lides que transporta consigo parte do legado da antiga UDF. Sem eleger a enormidade de deputados que se chegou a prever (algumas sondagens davam-lhe mais de 400), conseguiu ainda assim uma maioria absoluta de 350 lugares em 577. Depois do Eliseu, Macron ganhou o Palais Bourbon e pode seguir com o seu projecto para a França.
 
Quanto aos outros partidos, os Republicanos, depois da desilusão Fillon, aguentaram-se a custo com algumas pannes como segunda força parlamentar, com a tarefa de aguentarem o legado do mais forte -ismo francês do último meio século. A Frente Nacional confirmou a estagnação e não pode fazer muito mais que esperar o "quanto pior, melhor". Ainda assim, conseguiu oito lugares, quando antes tinha dois. Em idêntica posição está o movimento de Jean-Luc Mélenchon, que ainda conseguiu dezassete lugares concorrendo separadamente com os comunistas, seus tradicionais aliados. O velho PCF, que ganhou as primeiras eleições no pós-guerra, aguenta-se com dez deputados.
 
O grande derrotado na contenda é, tal como nas presindenciais, o PSF, que passou de primeira para quinta força parlamentar e que nem conseguiu eleger os seus principais dirigentes. Uma derrota estrondosa de um partido histórico que, tal como o PASOK grego, parece ir a caminho da irrelevância. O próprio Benôit Hamon, o candidato ofcial do partido às presidenciais, anunciou a sua saída para formar um novo movimento. Os desejos de Manuel Valls em enterrar o velho PS parecem estar a cumprir-se.
 
Para demonstrar como a velha ordem partidária se desmoronou, note-se que nos anos oitenta, o PS e o PCF,então coligados, tinham mais de 50% dos votos. Agora, em conjunto, não chegam aos 10%.
 
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Só que nem tudo são rosas para o governo literalmente presidido por Macron: logo depois destas eleições, e quando o governo tinha apenas um mês, quatro ministros foram demitidos por causa da velha questão de aproveitamento fraudulento de dinheiros europeus. Entre eles contava-se François Bayrou, então com a pasta da justiça, líder do MoDem e aliado preferencial do En Marche.
 
Uma nota curiosa para os cinéfilos: de fora da sangria ministerial ficou Nicolas Hulot, o carismático ministro do Ambiente e antigo apresentador do programa de televisão Ushuaia. Se o apelido parece familiar, não é por acaso: é que o avô de Nicolas, um arquitecto distraí­do que provavelmente fumava cachimbo e envergava sobretudo e chapéu, era vizinho do realizador Jacques Tati, que nele se inspirou para compôr e interpretar a famosa personagem Monsieur Hulot, o inesquecí­vel protagonista de Playtime, O Meu Tio e As Férias do sr. Hulot. Assim, o governo francês traz a memória de um dos monstros do cinema do Hexágono, e logo no campo da comédia. Sempre ajuda a aliviar futuras tensões governamentais, embora seja duvidoso que Macron se tenha lembrado desta.
 

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Penso rápido (83)

por Pedro Correia, em 10.05.17

Jean-Luc Mélenchon, o representante da esquerda radical na recente campanha presidencial francesa, patinou em toda a linha. Num momento em que se exigem mais que nunca posições claras dos políticos, sem ambiguidade de qualquer espécie, o ex-socialista preferiu chutar para canto, evitando recomendar o voto na segunda volta desta corrida ao Palácio do Eliseu. Equiparando assim de algum modo Emmanuel Macron a Marine Le Pen. Uma ambivalência que lhe valeu muitas críticas e contrastou com o ocorrido em 2002, quando  assumiu a preferência pelo conservador Jacques Chirac na segunda volta das presidenciais, contra Jean-Marie Le Pen, pai de Marine.
Desta vez o ódio a Macron - um centrista moderado, bastante mais próximo da esquerda do que alguma vez Chirac foi - falou mais alto, levando o vacilante Mélenchon a imitar a atitude de Pilatos.
Lavou as mãos.
E os Pilatos, como é sabido, nunca ficam bem na história.

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Nem Joana D´Arc valeu a Le Pen

por João Pedro Pimenta, em 09.05.17

As sondagens em França lá falharam de novo, como tem acontecido no último ano. Afinal de contas, Emmanuel Macron teve uma percentagem mais alta do que as previsões mais optimistas faziam prever, levando até alguns apaniguados de Marine Le Pen a pensar que era possível chegar ao Eliseu.

Olhando para alguns resultados locais das eleições em França, encontram-se números curiosos. Na Vendeia, por exemplo, esse bastião contra-revolucionário e da "reacção", Emmanuel Macron venceu com quase 70%, acima da média nacional, ainda que, pelos resultados da primeira volta, a histórica região continue preferencialmente à direita. Já em Colombey-les-Deux-Églises, terra que se confunde com Charles De Gaulle - que aqui está, aliás, sepultado - a Frente Nacional sai vencedora, talvez pelo trocadilho atribuído ao próprio general, onde numa hipotética islamização, a terra se passaria a chamar "Colombey-les-Deux-Mosquées". Também aqui, na primeira volta, a direita ficou claramente em maioria.

 

Mas não resisti a ver quais tinham sido os resultados em Domrémy-la-Pucelle. Macron ganhou, com um resultado próximo da média. Mas porquê esta curiosidade em saber a votação desta pequena localidade perdida nos confins dos Vosges? É que Domrémy-la-Pucelle é precisamente a terra de Joana D´Arc, a heroína e padroeira de França ("pucelle", ou donzela, é um sufixo em honra da própria), que Marine LePen e a Frente Nacional tanto evocam, ao ponto de se tentar colar a ex-candidata presidencial à donzela martirizada em Rouen. De pouco serviu a inspiração. E na hora de votar, os descendentes de Joana D´Arc acabaram por preferir a original a escolher a cópia falsificada.

 

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Os derrotados

por Pedro Correia, em 08.05.17

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 Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon, dois dos derrotados em França

 

Galeria de derrotados nas eleições presidenciais francesas:

 

1. Marine Le Pen. Chegou a vaticinar que atingiria os 40%. Ficou muito longe disso, tendo recolhido apenas um terço dos votos. Sai com uma derrota expressiva desta corrida ao Eliseu, que aliás culmina com a dissolução anunciada da Frente Nacional.

 

2. François Hollande. O Presidente cessante confirmou-se como o mais impopular Chefe do Estado da V República Francesa. Termina o mandato como uma figura irrelevante, quase patética. Quem diria que há cinco anos foi saudado como uma lufada de esperança da esquerda europeia...

 

3. Socialistas. Os últimos três anos têm sido catastróficos para a família socialista a nível europeu: derrotas copiosas em Espanha, Grécia, Hungria, Polónia, Bélgica, Holanda e Reino Unido. Seguiu-se o humilhante quinto lugar alcançado pelo representante do PS francês, Benoit Hamon, nesta corrida ao Eliseu, em que só recolheu 6,3% dos votos.

 

4. Comunistas. Desde a queda do Muro de Berlim tornaram-se num “tigre de papel”, para usar uma velha expressão maoísta. O seu representante indirecto neste escrutínio, Jean-Luc Mélenchon, prometia muito mas nem à segunda volta chegou. Terminaram numa espécie de terra de ninguém, recomendando a abstenção.

 

5. Conservadores. O caos estratégico na direita conservadora francesa, de inspiração bonapartista e gaullista, levou-a a ser contaminada pela sua adversária histórica, de inspiração orleanista e colaboracionista (duas fontes históricas da Frente Nacional). Ignorar a probidade do general De Gaulle foi meio caminho andado para chegar aqui.

 

6. Corrupção. Os franceses, como os europeus em geral, decretaram tolerância zero à corrupção em todas as suas formas. Político apanhado a delapidar o erário público é político condenado à derrota por antecipação. François Fillon, que chegou a ser apontado como favorito ao Eliseu, experimentou isto na pele.

 

7. Primárias. Este processo de escolha dos concorrentes a cargos políticos do máximo relevo foi seriamente posto em causa ao longo dos últimos meses. Tanto Fillon, que à direita derrotou Sarkozy e Alain Juppé, como Hamon, que ultrapassou Manuel Valls, venceram as primárias à direita e à esquerda. De nada lhes valeu na eleição a sério.

 

8. Eurofóbicos. Politólogos de vários matizes andaram meses a repetir a mesma tese: a eurofilia estava em acentuada regressão na União Europeia, apressando-lhe o fim. Mas as presidenciais francesas, ganhas pelo eurófilo Emmanuel Macron, desmentem esta tese em toda a linha. A eurofobia, essa sim, sai derrotada deste escrutínio.

 

9. Catastrofistas. A propósito das presidenciais francesas, legiões de comentadores e “analistas políticos” desfilaram nos jornais e nas pantalhas advertindo para os riscos de implosão da União Europeia, do sistema monetário europeu e até da democracia política neste espaço geográfico em que nos inserimos. Não tinham qualquer razão, mas também não darão o braço a torcer. Vão continuar a repetir-nos essas balelas nos tempos mais próximos, serão após serão.

 

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Viver habitualmente

por Pedro Correia, em 07.05.17

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Dia triste para os apreciadores de emoções fortes: o moderado e "cinzento" Emmanuel Macron, o ex-ministro que diz não ser de esquerda nem de direita,  venceu por esmagadora margem a eleição presidencial francesa. Batendo Marine Le Pen, por dois terços dos votos expressos nas urnas.

Notícia desanimadora para os tudólogos que passam o tempo a gritar que vem aí o lobo. Afinal o novo inquilino do Palácio do Eliseu não quer retirar a França da União Europeia, não quer voltar ao franco, não quer encerrar as fronteiras, não quer cortar os vínculos militares com a NATO, não quer estabelecer "parceria privilegiada" com Moscovo, não quer revoluções na quinta economia mundial. Só quer viver habitualmente.

Ainda não foi desta que o lobo chegou - tal como sucedera na  Áustria e na Holanda. O povo francês revelou mais maturidade e sensatez do que os putativos intérpretes das massas populares anteviam em trepidantes tribunas televisivas, onde qualquer teoria da conspiração ajuda sempre a cativar audiências.

Coisa chata, admito. Uma imensa maçada.

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O programa de Macron

por Pedro Correia, em 05.05.17

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Destaques do  programa eleitoral do candidato presidencial francês Emmanuel Macron, fundador do movimento Em Marcha:

 

1. Redução de um terço do número actual de deputados e senadores.

2.  Supressão do regime especial de aposentação dos deputados.

3. Generalização do voto electrónico até 2022.

4. Paridade absoluta de género nas listas eleitorais.

5. Cumprimento intransigente do direito à igualdade de género no espaço público francês.

6. Alteração do mapa administrativo, com a supressão de um quarto das entidades territoriais hoje existentes.

7. Criação de um estado-maior permanente de operações de segurança interna como peça fundamental na luta contra o terrorismo.

8. Encerramento de templos e associações religiosas onde se faz a apologia da violência e do terrorismo.

9. Anulação de novas missões militares francesas no estrangeiro, salvo em casos de legítima defesa.

10. Prioridade absoluta à cibersegurança e à ciberdefesa.

11. Reforço do orçamento da defesa até atingir 2% do orçamento anual francês.

12. Fixação de um tecto máximo de 0,5% do défice estrutural das finanças públicas até 2022.

13. Grande plano de investimentos públicos, orçado em 50 mil milhões de euros, destinados à qualificação dos recursos humanos, à modernização dos serviços públicos, à transição ecológica e à reabilitação urbana.

14. Introdução de mecanismos de controlo do investimento estrangeiro para preservar os sectores estratégicos.

15. Redução do imposto sobre as sociedades, de 33,3% para 25%.

16. Primado aos acordos de empresa no estabelecimento de novos contratos laborais.

17. Redução para 7% do desemprego nos próximos cinco anos.

18. Supressão de 120 mil postos de trabalho na administração pública.

19. Flexibilizar os horários de funcionamento dos serviços públicos.

20. Acelerar a convergência dos sistemas de pensões e reformas.

21. Criação de 30 mil apartamentos sociais para os jovens.

22. Redução do número de canais públicos audiovisuais.

23. Oposição ao alargamento das actuais fronteiras da NATO.

24. Manutenção das sanções à Rússia.

25. Alargamento a mais cinco países do número actual de membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (com inclusão da Alemanha, do Brasil, da Índia, do Japão e de um país africano a designar).

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O programa de Le Pen

por Pedro Correia, em 05.05.17

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Destaques do programa eleitoral da candidata presidencial francesa Marine Le Pen, líder da Frente Nacional:

 

1. Renegociação dos tratados europeus.

2.  Recusa intransigente dos tratados de comércio livre.

3. Convocação de um referendo sobre a integração da França na União Europeia.

4. Restabelecimento de uma moeda nacional francesa, restaurando a soberania monetária do país.

5. Expulsão de todos os estrangeiros comprovadamente associados a movimentos fundamentalistas islâmicos.

6. Criação de uma agência unificada de combate ao terrorismo, sob a dependência directa do primeiro-ministro.

7. Repor a pena de prisão perpétua para os crimes mais graves.

8. Recrutamento de 15 mil novos elementos para as corporações policiais.

9. Aumento para 2% da percentagem mínima do orçamento do Estado destinado à defesa, com esta cláusula garantida na Constituição, e progressivo aumento até 3%.

10. Retirada da França do comando integrado da NATO.

11. Pôr fim à venda de palácios e outros edifícios públicos, mantendo-os integrados no património do Estado.

12. Alicerçar a diplomacia francesa nos princípios do realismo, reforçando os laços com os países francófonos.

13. Elaboração de um plano nacional de promoção da igualdade de género e de luta contra a precariedade laboral e social.

14. Inscrever o princípio da laicidade no código laboral.

15. Interdição de todo o apoio orçamental do Estado a locais de culto.

16. Fixação nos 60 anos da idade legal para a reforma, com 40 anos de contribuições para o sistema público.

17. Pôr fim à aquisição automática da nacionalidade francesa através do casamento.

18. Simplificar os mecanismos de expulsão de imigrantes em situação ilegal.

19. Restabelecimento das fronteiras nacionais, com a denúncia unilateral do Espaço Schengen.

20. Retirada da bandeira europeia dos edifícios públicos franceses.

21. Inscrever na Constituição o princípio da prioridade nacional, estabelecendo o primado da cidadania francesa.

22. Introdução de um sistema eleitoral proporcional nas eleições para os órgãos do Estado.

23. Criação de referendos de iniciativa popular, a partir da recolha de 500 mil assinaturas.

24. Redução do número de deputados (de 577 para 300) e de senadores (de 348 para 200).

25. Restabelecimento do mandato presidencial de sete anos, não renovável.

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Comentar primeiro e ouvir depois

por Pedro Correia, em 04.05.17

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Duas horas e meia de debate vivo e fracturante entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen: quem o acompanhou do princípio ao fim, ontem à noite, não deu o tempo por mal empregue. Infelizmente, os três canais portugueses de notícias foram incapazes de proporcionar a transmissão integral aos seus telespectadores.

A TVI 24 – seguindo obsessivamente os critérios editoriais da generalista CMTV – ignorou o assunto, optando pela muleta de sempre: o futebol.

A RTP3 – ignorando as suas obrigações de serviço público – transmitiu a primeira hora mas também ela preferiu dar prioridade ao enésimo bate-boca sobre bola, monotema da “informação” televisiva portuguesa que nos aproxima muito mais do Terceiro Mundo do que da União Europeia em que estamos integrados.

A SIC Notícias, de resto imitada pelo canal público, foi ainda mais original: interrompeu a transmissão, substituindo-a pelos inevitáveis painéis de comentadores, que assim fizeram o “balanço” do debate quando ainda nem metade tinha decorrido.

Há-de chegar o tempo em que o “balanço” é feito não a meio mas logo no início, para poupar tempo: os tudólogos de turno avançam para estúdio no minuto zero, prontos a comentar o que não viram nem ouviram sem jamais lhes falhar a verve. Eles podem não fazer a menor ideia sobre o que estão a falar, mas nós não duvidamos que eles são a forma mais barata de preencher tempo de antena com coisa nenhuma.

E siga para bingo. Quero dizer: para futebol.

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Factoscópio

por Pedro Correia, em 03.05.17

Marine Le Pen mente mais do que Emmanuel Macron, conclui o factoscópio do Le Monde.

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 03.05.17

 

Pourquoi Marine Le Pen peut gagner (e pourquoi il faut le dire). De François Durpaire, no Libération.

 

Quien es Marine Le Pen? De Christine Ockrent, no El País.

 

 

 

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Uma campanha desastrosa.

por Luís Menezes Leitão, em 01.05.17

Em 2002 quando Jean-Marie Le Pen passou à segunda volta, foi visível o alívio de Jacques Chirac, que temia enfrentar outra vez Lionel Jospin, o qual poderia derrotá-lo. Chirac percebeu que com Le Pen não corria esse risco, mas apesar disso fez uma campanha permanente e consistente, avisando que era preciso votar nele para barrar o caminho a Le Pen. A esquerda alinhou totalmente na sua campanha e embora odiasse Chirac, a quem chamava "o escroque", lá foi dizendo que mais valia votar num escroque do que num fascista. Chirac foi assim facilmente reeleito com 84% dos votos, sendo que um dos que na altura lhe manifestou apoio foi Mélenchon.

 

Quinze anos depois, Macron deve ter julgado que lhe bastaria também ir à segunda volta com Marine le Pen para ter a eleição no papo. Foi assim que fez um discurso de vitória logo após a primeira volta (!) e foi festejar com duzentos convidados (!!) numa brasserie chique de Montparnasse intitulada "La Rotonde", onde distribuiu champanhe francês à descrição (!!!). Foi um disparate rotundo. Macron não percebeu que nem ele é Chirac, nem Marine le Pen é o seu pai, sendo uma adversária muito mais perigosa. Foi assim que enquanto Macron ficou em pousio até quarta-feira, se calhar por causa da ressaca da festa, Marine já andava correr os mercados e os pescadores desde as primeiras horas da manhã de segunda-feira. Um erro crasso de Macron que o próprio Hollande não hesitou em denunciar.

 

O segundo erro de Macron foi a visita à fábrica da Whirlpool que vai ser transferida para a Polónia. Não se percebe porque é um candidato presidencial vai visitar uma fábrica com trabalhadores desesperados se não tem nada de concreto para lhes prometer, a não ser um discurso abstracto sobre as regras europeias, saindo por isso de lá vaiado. Marine le Pen limitou-se a prometer que com ela a fábrica não fecharia — promessa obviamente impossível de cumprir — e saiu de lá em ombros.

 

Macron percebeu que o discurso anti-europeísta de Marine le Pen lhe estava a render frutos, enquanto que o seu discurso pró-europeu lhe causava engulhos, tanto assim que nem sequer conseguia agora recolher o apoio de Mélenchon, que por muito que odiasse Marine le Pen, também não conseguia declarar apoio a Macron. Pelos vistos os seus eleitores da França Insubmissa podiam ser facilmente convencidos a votar num escroque contra um fascista, mas já lhes custa muito mais votar num banqueiro contra uma fascista, até porque Marine fez logo questão de demonstrar os muitos pontos comuns que existem entre o seu programa e o de Mélenchon.

 

Talvez por isso Macron resolveu fazer agora um verdadeiro pino eleitoral, ameaçando a Europa com um Frexit se não se reformar, naturalmente às conveniências da França. Ora a principal oposição do eleitorado francês a Marine le Pen era precisamente pelo seu discurso anti-europeu, pelo que se Macron alinha no mesmo discurso, não só credibiliza as propostas de Marine le Pen, como destrói a principal razão para os franceses votarem nele.

 

Apesar de todos estes disparates, Macron pode continuar a ganhar no domingo. Não deixa, porém, de ter feito a pior campanha presidencial de sempre numa segunda volta.

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A União Europeia em questão.

por Luís Menezes Leitão, em 23.04.17

Se há coisa que demonstra que a União Europeia não passa de um gigante com pés de barro é precisamente o facto de tremer como varas verdes de cada vez que há uma eleição num dos seus estados mais fortes. A verdade é que a União Europeia é composta presentemente por 28 países (até à saída do Reino Unido), pelo que poderia perfeitamente perder um ou dois países sem consequências de maior. Só não sucede assim porque a construção europeia é artificial, sendo apenas uma estrutura de domínio dos Estados pequenos pelos grandes. Para inglês ver, lá puseram um parlamento europeu sem iniciativa legislativa onde os deputados falam sozinhos e uma comissão, que deveria ser independente, mas faz tudo o que os Estados grandes mandam. A Europa foi preparada para ser gerida por quatro grandes Estados: Alemanha, França, Reino Unido e Espanha. Por isso, se algum deles sair, como aconteceu com o Reino Unido, e poderia acontecer com a França, a estrutura cai como um castelo de cartas.

 

Vale por isso a pena perguntar se se justifica manter este castelo de cartas. Da minha parte, sempre preferi viver num país livre do que aprisionado numa mentira. Actualmente vivemos com uma moeda que não podemos pagar, beneficiando de compras de dívida feitas pelo Banco Central Europeu, já que, sem isso, os nossos juros disparariam. Corremos permanentemente o risco de que em qualquer eleição ou referendo num dos grandes Estados alguém diga que já basta de financiar os povos do Sul. E perante este risco, dizem apenas que a União Europeia garante a paz na Europa. Bem, Portugal não tem uma guerra no seu território europeu há quase duzentos anos, sendo que só tivemos que participar numa guerra na Europa em 1917 porque a República assim o decidiu e a mesma consistiu apenas numa expedição à Flandres. Mas que hoje a Europa está em guerra, isso ninguém tem dúvidas, como o atentado de Paris demonstra. E que tem feito a União Europeia para resolver esse assunto? Absolutamente nada.

 

Por muito que continue o discurso de fé na construção europeia, a verdade é que a mesma está a ser questionada em todo o lado. Ou a União Europeia sofre uma reforma profunda ou acaba. Só não vê quem não quer.

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Mal menor

por Diogo Noivo, em 22.04.17

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Emmanuel Macron 

 

São quatro os candidatos que se destacam para a primeira volta das presidenciais francesas. Dois deles, Marine Le Pen e Jen-Luc Mélenchon, não deviam estar num boletim de voto, mas sim no boletim clínico de um hospício. Como sempre acontece com os extremos opostos em política, são mais as coisas que os unem do que as que os separam: anti-europeistas; anti-globalização, anti-establishment; anti-NATO; proteccionistas; contrários aos princípios basilares da democracia liberal; defensores de um Estado cuja principal função parece ser a de contratar tudo e todos. Extrema direita e extrema esquerda distinguem-se apenas no tom do cretinismo: Le Pen considera que todos os muçulmanos são potenciais terroristas; Mélechon defende uma união bolivariana entre França, Venezuela e Cuba. Em suma, nenhum dos componentes deste duo insano é solução para nada de coisa nenhuma. Sobram, portanto, Emmanuel Macron e François Fillon. 

 

Fillon tem a experiência e o estofo necessários para implementar as reformas políticas que França precisa e sempre recusou. Mas Fillon é hoje a cara dos abusos do poder. Sucessivos escândalos mostram que, no passado, François Fillon serviu o Estado, mas também se serviu dele, nomeadamente usando dinheiro público e empregos fictícios para pagar salários a familiares. Pedir sacrifícios aos franceses quando se tem este cadastro não é propriamente edificante e não augura grandes resultados eleitorais num país onde a população nutre um profundo desagrado, se não desprezo, pela classe política. Será porventura injusto que um caso de abuso ofusque anos de trabalho político sério, mas as coisas são como são. 

 

Resta-nos então Emmanuel Macron. Enquanto foi Ministro da Economia bateu-se pela liberalização de alguns feudos profissionais em sectores altamente protegidos, como o notariado ou os transportes públicos. Propõe as muito adiadas reformas, embora seja menos ambicioso do que Fillon. Macron é europeísta, defende uma economia aberta de mercado e tem a coragem de propor algumas reformas impopulares. Mas falta-lhe tarimba. Nunca foi eleito para qualquer cargo público e a sua experiência política resume-se em grande medida à titularidade da pasta da Economia entre 2014 e 2016. Pior, toda a sua campanha tem um aroma de voluntarismo "inspiracional" (é como se diz agora), de tipo Obama. Muita vontade, muito ânimo, muito allez!, mas tudo com um cheiro a inconsequência, típica da política-espectáculo. Tal como Obama, Macron é levado ao colo pela imprensa internacional, o que recomenda prudência na avaliação do candidato.

 

Se, como indicam as sondagens, Macron e Le Pen passarem à segunda volta, o sistema de partidos francês sofrerá uma alteração profunda pois será a primeira vez desde 1958 que os dois principais partidos ficam apeados. E se tal acontecer, mais incógnitas se perfilam no horizonte: a eleição Macron pode obrigar a coligações, algo invulgar no arranjo político-partidário de França; a eleição de Le Pen traduzir-se-á numa viagem para uma dimensão alternativa tão incerta como perigosa.

De resto, face ao atentado terrorista que marcou o final de campanha, Le Pen insistiu num discurso radical e isolacionista, contraproducente, que mais não faz do que agravar o problema e deteriorar os já maltratados pilares do Estado de Direito Democrático. As credenciais de Macron nesta matéria não são brilhantes, mas com ele há pelo menos a esperança de que possa vir a entender o que está em causa.

Assumindo que a política é a arte do possível, Emmanuel Macron é o mal menor. Ainda assim, de longe o mais desejável para França e, pela parte que me toca, para uma Europa salubre. 

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França: votar contra a eurofobia

por Pedro Correia, em 22.04.17

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 Le Pen e Mélenchon, irmãos siameses anti-UE

 

Nas presidenciais de amanhã em França decide-se, acima de tudo, o destino da Europa. Um destino em sério risco, na medida em que dois dos quatro candidatos mais bem situados para rumarem à segunda volta, segundo as mais recentes sondagens, somam 41% das intenções de voto.

Ninguém tenha dúvidas: esta corrida ao Eliseu é também um referendo à construção europeia. Se prevalecer a mensagem de ódio e anátema à União Europeia propalada nas margens extremas do sistema político por Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon, irmãos siameses na eurofobia, todo o continente ficará mais perigoso. Porque esta lógica de exclusão para que apontam os extremismos, à esquerda e à direita, é herdeira directa de mil guerras num espaço continental assolado pelos fantasmas do soberanismo, do nacionalismo e da xenofobia - o horror ao "internacionalismo", ao "globalismo", ao que vem de fora.

O verdadeiro confronto ocorre aqui entre eurófilos e eurófobos. Emmanuel Macron destaca-se entre os primeiros e merece por isso o triunfo eleitoral que a maioria das pesquisas lhe augura, embora por números incertos e precários. Ninguém se iluda com a oratória dos demagogos de turno, sempre prontos a apontar ao inimigo externo, como ocorreu com o Brexit, vai fazer um ano: a União Europeia é uma conquista civilizacional que merece ser defendida todos os dias. Eleição após eleição, voto a voto.

Como a história nos ensina, nunca nada está definitivamente garantido.

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O drama repete-se na direita tradicional francesa

por João Pedro Pimenta, em 04.04.17

 

Ou François Fillon é perfeitamente inábil, ou a fortuna abandonou-o definitivamente depois das surpreendentes primárias em que se içou a candidato da direita republicana francesa. Há dias realizou uma manifestação no Trocadéro, com a Torre Eiffell em fundo, e que reuniu algumas dezenas de milhares de apoiantes, para afirmar que prosseguia como candidato e atirando-se à justiça e aos correligionários partidários que o haviam abandonado. Uma prova de força lhe deu algum oxigénio e que obrigou o partido a reafirmar o seu apoio, ao mesmo tempo que Alain Juppé se mostrava indisponível para ser um "plano b". Até algumas formações que o haviam abandonado voltaram de repente atrás. Mas novo caso bizarro, o dos fatos comprados a preço de ouro a alfaiates parisienses de renome, alguns deles pagos em numerário por "amigos" (o que é que isto nos lembra), veio manchar de novo o suposto currículo impecável de Fillon. E depois disso, vieram à superfície novos rumores que não abonam nada a favor da auto-propalada integridade do candidato gaullista.

 
 
No debate a cinco que se seguiu, Fillon tentou dar um ar da sua graça, mas passou despercebido e a sua prestação só ficou acima da de Benôit Hamon, o candidato oficial e nada consensual do PS francês. Único ponto a favor: era o que tinha a gravata mais elegante.
 
 
Recorde-se que Fillon era, até há semanas, o provável vencedor tanto da primeira como da segunda volta das presidenciais francesas. A rejeição a Marine LePen, as lutas internas do PS francês e a pouca relevância a que a esquerda radical está votada, numa eleição a que se apresentam quase 50 candidatos (incluindo trotsquistas, bonapartistas e simples apêndices zangados das forças maiores), fazia prever que Fillon fosse o próximo locatário do Eliseu. A partir do momento em que os cargos da família Fillon vieram à ribalta pública, através do impiedoso Canard Enchainé, as intenções de voto caíram e emergiu Emanuel Macron, o candidato do centro sem suporte partidário.
 
O drama de Fillon parece ser, como já muitos jornais franceses salientaram, uma repetição do que aconteceu a Edouard Balladur nas presidenciais de 1995. Em fins de 1994, Jacques Delors, a cessar o seu mandato na Comissão Europeia e largamente favorito entre os eleitores para suceder a François Mitterrand, declarou-se fora da corrida. O PS francês teve de se contentar com Lionel Jospin, abrindo caminho ao favoritismo do centro-direita. Jacques Chirac, então maire de Paris, ex Primeiro-Ministro e antigo candidato derrotado em anteriores presidenciais (o que em França dá estatuto de persistência), era a escolha óbvia da aliança gaullista-liberal entre o RPR e a UDF. Mas o então Primeiro-Ministro, Edouard Balladur, com largos apoios à direita e no governo, resolveu avançar e dividiu todo aquele espectro político. A alguns meses das eleições, era o favorito nas sondagens, tanto na primeira como na segunda volta. Mas aos poucos, o seu ar demasiado senhorial, alguns casos obscuros emergentes, as suas ideias sociais pouco populares e a pouca simpatia que a personagem despertava no "homem comum" fizeram-no cair do pedestal. Balladur tinha allure de chefe de estado, mas era pouco comunicativo e empático. O contrário de Chirac, uma velha raposa, um gaullista à antiga, afável e acessível, que aos poucos subiu nas sondagens, e em Abril de 1995 passou à segunda volta, com Jospin, deixando Balladur para trás, após o que seria, sem surpresa, eleito Presidente de França. O então chefe de governo demitiu-se, e com ele os jovens turcos que o tinham apoiado, como François Fillon e Nicolas Sarkozy. François Bayrou, que também lhe tinha dado o apoio, transitou para o novo governo, que seria chefiado por Alain Juppé, até ali Ministro dos Negócios Estrangeiros e apoiante indefectível de Chirac.
 
 
A história presidencial em França parece repetir-se 22 anos depois, no mesmo sector, com a diferença de que desta vez a segunda volta não deverá ser entre um gaullista e um socialista. As forças políticas mudaram, mas muitos dos seus intervenientes não, em especial algumas figuras que conviveram no mesmo governo: Fillon (nem de propósito, apoiado por Balladur) é um candidato em desgraça; Sarkozy antecedeu-o; Juppé caiu mas ia sendo repescado; e Bayrou, que aprendeu a apostar no cavalo certo (Sarkozy primeiro, Hollande depois), apoia Emanuel Macron e pode voltar à ribalta política, se a sua aposta se voltar a concretizar. A política francesa, com as suas reviravoltas, apoios, dissensões e "richelieunismos" vários, continua a ser um apaixonante manancial de interesse na política europeia.

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Frases do debate presidencial

por Pedro Correia, em 21.03.17

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Filllon, Macron, Mélenchon, Le Pen e Hamon ontem na TF1 (foto Le Figaro)

 

Aqui ficam as principais frases do primeiro debate televisivo entre cinco dos onze candidatos presidenciais em França, ocorrido ontem à mesma hora em que os canais "noticiosos" portugueses, totalmente alheados do assunto, preenchiam tempo de antena com intermináveis blablablás sobre futebol:

 

Benoît Hamon: «Quero pôr fim à democracia intermitente, por uma Europa que esteja libertada do dogma da austeridade.»

«Defendo um novo pilar da protecção social, com o rendimento básico universal.»

«Serei um Presidente justo, que porá fim às políticas feitas pelos mesmos de sempre.»

«Serei independente de todos os lóbis.»

 

Emmanuel Macron: «Pretendo proteger o povo francês sem o dividir.»

«Sou capaz de trazer de novo a esperança.»

«Defendo um projecto de alternância profunda, com novos rostos e novos hábitos.»

«Sou favorável à lei de 1905, pela separação da Igreja e do Estado.»

 

François Fillon: «Um francês que vá para a Síria fazer guerra contra nós deve ser privado da nacionalidade francesa.»

«A escalada do fundamentalismo ameaça a sociedade e a própria religião muçulmana.»

«Comigo a França será daqui a dez anos a primeira potência europeia.»

«A nossa saída da zona euro, como defende Marine Le Pen, mergulharia o país no caos económico.»

 

Jean-Luc Mélenchon: «Quero devolver a França aos franceses, libertando-os da monarquia presidencial.»

«Serei o último Presidente da V República. Quero alterar todas as regras.»

«É preciso castigar os corruptos, mas também os corruptores.»

«Comigo sairemos da NATO.»

 

Marine Le Pen: «Temos de declarar guerra total ao fundamentalismo islâmico.»

«Quero ser a Presidente francesa, não quero ser vice-chanceler da senhora Merkel.»

«A segurança é fundamental. Sem paz nas escolas nenhuma aprendizagem é possível.»

«Comigo todas as decisões serão tomadas de acordo com a vontade do povo francês.»

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As eleições presidenciais francesas.

por Luís Menezes Leitão, em 17.02.17

Há uma coisa que me tem surpreendido em absoluto nos últimos tempos: a total falta de profissionalismo na condução das campanhas eleitorais. Mesmo na América, onde as campanhas eleitorais são habitualmente conduzidas com enorme eficácia, Hillary Clinton fez uma campanha desastrosa, acabando por perder a eleição.

 

Em Franca, no entanto, parece que isto atingiu o absurdo total, estando todos os candidatos a dar sucessivos tiros no pé, parecendo que a única coisa que querem garantir a eleição a Marine Le Pen. O último episódio é esta entrevista de Macron. Será que ele acha mesmo que este discurso é a resposta adequada a esta campanha da sua adversária principal? Depois não estranhem o resultado.

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Que regras tem este jogo?

por José Navarro de Andrade, em 07.05.12

 

É altura de rever “La Règle du Jeu“ de Jean Renoir. Parece impossível, mas aprende-se muito com o passado. O filme foi estreado em 1939, o ano que hoje sabemos ter sido aquele em que a Europa morreu para o mundo e talvez por isso, pela desvairada ilusão em que todos viviam, literalmente todos, dos comunistas aos fascistas com tudo o que havia pelo meio, suscitou a execração geral.

Porque foi tão odiado então um filme que depois viria ser tão obviamente amado? Porque por exemplo há um estupefacto marquês que a dado passo tem a lucidez e a impotência de dizer: “O que é terrível nesta terra é que todos têm as suas razões”. Tinham, como nesse Outono de 39 se começou a perceber, ou seja, ninguém tinha razão nenhuma porque menos com menos só resulta em mais desgraça.

Rever “La Règle du Jeu” ajuda a desconfiar do poder e da virtude prometida pelo novo senhor que se sentou à mesa no château de França. Quando o marquês do filme se enfada de vez com a confusão instalada no castelo ordena ao criado: “faites cesser cette comédie”, ao que este, sonso e arguto como todos os servos, lhe contesta: “laquelle, Monsieur?”

Vejam como nos pusemos: de boné torcido nas mãos à espera de uma palavra do marquês de Hollande que nos mude o destino, que dele venha um gesto de compreensão e misericórdia com o nosso penar. E enquanto nos prostramos na soleira do portão, negligenciamos que ao fundo do quintal se vai armando uma patuleia de muito má índole. O que sucedeu na Grécia é bem mais feio e decisivo do que as prováveis hesitações do futuro Hollande, porque a barafunda, como se sabe e é patente, grassa sempre das periferias para o miolo.

Serão as ilusões de 39 outra vez? “lequelles, Monsieurs?”

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Tal como sucede com as moscas

por Rui Rocha, em 07.05.12

Os presidentes franceses mudam, mas a Merkel é a mesma.

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Dúvida

por José António Abreu, em 06.05.12

Vai Hollande fazer o contrário do que prometeu em campanha ou, contra todas as esperanças dos optimistas, estamos mesmo f*****s?

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Pauvre mec.

por Luís M. Jorge, em 06.05.12

É um triste sinal da velhice, alguém manter a verrina enquanto descuida o estilo e abandona a inteligência. Vasco Pulido Valente dedica a sua crónica de hoje à tentativa frustre e atordoada de persuadir o leitor que Hollande  "não mudará a Europa".  Como se Hollande não tivesse mudado a Europa no próprio minuto em que venceu: bastou-lhe não ser Sarkosy. Nesse minuto, a cumplicidade entre os Governos francês e alemão acabou. Merkel está só. A segunda potência europeia escolheu outro caminho. Nenhuma birra, nenhum azedume altera a realidade.

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Eleições francesas (5)

por Rui Rocha, em 06.05.12

François Hollande ocupa o lugar que Paul Krugman deixou vago na playlist de João Galamba.

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Eleições francesas (4)

por Rui Rocha, em 06.05.12

Só um político sem qualidades ganharia por margem tão curta a um adversário tão cheio de defeitos.

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Eleições francesas (3)

por Rui Rocha, em 06.05.12

François Hollande tem tudo para ser um líder de cariz asmático.

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Eleições francesas (2)

por Rui Rocha, em 06.05.12

Com Hollande, a França pode tornar-se num dos países baixos.

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Eleições francesas (1)

por Rui Rocha, em 06.05.12

É preciso ter muitos defeitos para perder com um homem sem qualidades.

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Resumo da minha parte favorita

por José António Abreu, em 02.05.12

Hollande: «A economia francesa devia estar a crescer tanto como a alemã. Temos que convencer os alemães de que estão errados.»

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Até consegue fazer com que Sarkozy pareça um tipo sensato.

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As eleições francesas.

por Luís Menezes Leitão, em 24.04.12

 

Estive há dias em Paris, cidade que muito aprecio. Ao passar junto ao Arco do Triunfo assisti a um desfile em homenagem a antigos combatentes da II Guerra Mundial, em que a assistência denotava um patriotismo profundo e um enorme respeito pelo sacrifício dos antigos combatentes. Pensei logo no contraste com a política actual de Sarkozy, que se tem assumido na esfera internacional como um autêntico fantoche de Angela Merkel, e o que isto deveria fazer lembrar os franceses o regime de Vichy. A partir daí fiquei convencido que Sarkozy tinha tantas hipóteses de ganhar as eleições como a Torre Eiffel de dançar o samba. Os resultados de domingo passado confirmaram a minha opinião. Hollande pode ser um candidato fraquíssimo e a sua política económica um disparate total, susceptível de conduzir a França ao desastre. Mas o facto de ter batido o pé à Alemanha na questão do tratado orçamental vai seguramente dar-lhe o voto dos franceses na hora final.

 

Também não foi surpresa para mim a votação de Marine Le Pen, que sempre considerei muito mais perigosa do que o pai. Na verdade, Marine Le Pen está a conseguir quebrar o bloqueio do regime à Frente Nacional, que levava a que, mesmo com votações na ordem dos 15%, ela não contasse no espectro político francês. Na única vez em que Jean-Marie Le Pen, devido a uma divisão da esquerda, conseguiu passar à segunda volta, todos os partidos se uniram em redor de Chirac, dando-lhe uma votação albanesa de 84% dos votos. Mas agora, com a votação da extrema-direita perto dos 20%, a direita tradicional vai querer pescar os votos da Frente Nacional, como se viu com o discurso de Sarkozy na primeira volta e que agora vai acentuar na segunda. O resultado disto pode ser uma catástrofe para a direita francesa, que se pode ver obrigada a integrar a Frente Nacional.

 

Tudo isto só demonstra o desastre aonde Sarkozy conseguiu conduzir a direita francesa. Infelizmente não me consigo recordar de um presidente francês pior. Só espero que Hollande não o venha ainda a superar.

 

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A nostalgia da grandeza perdida

por Pedro Correia, em 23.04.12

 

Outros dirão provavelmente que o resultado da primeira volta das presidenciais de ontem em França foi bom para a Europa. Não é o meu caso. Quase um terço dos eleitores, que acorreram em grande número às urnas, exprimiram com clareza um voto anti-europeu.

É certo que o peculiar sistema eleitoral francês potencia o voto de protesto na primeira volta. Mas se somarmos os 6,4 milhões de eleitores de Marine Le Pen (que conduziu a Frente Nacional ao seu melhor resultado de sempre) aos quatro milhões de Jean-Luc Mélenchon, representante da Frente das Esquerdas (o equivalente gaulês do Bloco de Esquerda), verificamos que cerca de um em cada três franceses renega o essencial do projecto europeu tal como foi desenhado no último meio século. No todo ou em grande parte, estes eleitores querem que o país abandone o euro, renegue Schengen, rasgue o Tratado de Lisboa. Defendem o "patriotismo" monetário, o proteccionismo económico, o controlo estatal do aparelho produtivo. Renegam a disciplina financeira. Exigem a reforma aos 60 anos e a subida do salário mínimo para os 1700 euros como se vivessem numa ilha, separada do continente, numa irreprimível nostalgia daquelas três gloriosas décadas - entre 1945 e 1975 - em que a França, grande potência industrial e agrícola, era um dos motores da economia mundial, com índices anuais de crescimento do produto interno bruto que ultrapassavam os 5% (mantendo-se nos 5,8% entre 1959 e 1973).

Esses tempos passaram, provavelmente para sempre. Vista de outras parcelas do globo, observada por chineses ou brasileiros, a Europa é hoje um continente em irreprimível declínio. A França deixou de desempenhar o relevante papel cultural que durante séculos assumiu no mundo e não o retomará com bravatas retóricas. Nem François Hollande (28,3%), com o seu socialismo descafeinado, nem Nicolas Sarkozy (27,2%), o mais errático dos conservadores europeus, conseguirão alterar nada de essencial - suceda o que suceder na segunda volta, com os eleitores de Marine a servirem de fiéis da balança.

"A extrema-direita, com quase 20% na França do século XXI, é o resultado da crise económica, política e moral", alertou o candidato centrista François Bayrou, que obteve uns decepcionantes 9,1%. É a voz da razão. Mas cada vez menos querem ouvi-la nos dias que vão correndo, em que tudo serve de pretexto - à esquerda e à direita, com a cumplicidade activa das candidaturas do "sistema" - para enterrar o projecto europeu. Todos teremos a perder com isso. E, como é de prever, só perceberemos tarde de mais.

Publicado também aqui

ADENDA de 26/4:

Jorge Almeida Fernandes, no Público: «A “questão da Europa”, sempre latente em França, volta a ser central. Note-se que, entre extrema-direita e extrema-esquerda, mais de um terço do eleitorado pôs directamente em causa a Europa.»

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Le fond de l'air est frais

por José Navarro de Andrade, em 23.04.12

 

É só para dar uma noticiazinha de rodapé que parece ter ficado esquecida: voltem a pôr a rolha no champagne, Carla Bruna deverá morar mais 5 anos no Eliseu (e Sarkozy também). Para Portugal isto nem é bom nem é mau, ou alguém ainda se iludirá com a hipótese de Hollande defender uma política europeia para a França (esta frase é assim mesmo) diferente da actual?

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Numa eleição, a insuficiência de argumentos pode ser suprida pelo carisma dos candidatos. Mas nesta eleição defrontam-se Sarkozy e Hollande. Não têm ponta de carisma por onde um eleitor lhes possa pegar. Sarkozy tem defeitos. Hollande não tem qualidades. Sarkozy não agrada. Hollande não convence. Sarkozy não cumpriu as promessas que fez. Hollande faz promessas que não pode cumprir. Perante isto, Hollande vai vencer. As eleições ganham-se ao centro. Para sobreviver na 1ª volta, Sarkozy andou em ziguezague, mas encostado à direita. Em nome dos fins, perdeu o meio. Não o vai recuperar. Criou anticorpos onde Hollande recolhe indiferença. Os anticorpos são insuperáveis. A indiferença admite um voto de olhos fechados. A avaliação que o eleitor comum pode fazer sobre Hollande não é positiva. A que faz sobre Sarkozy é negativa. O voto do mal menor vai prevalecer. O melhor virá no dia seguinte. No momento em que Hollande for confrontado com as suas promessas. Ou tenta cumpri-las e desgraça a França, transformando-a na Lalallande, ou não as cumpre e desgraça-se, transformando-se a si próprio em Ohlalallande. De uma maneira ou de outra, o estado de graça do futuro Presidente de França dura exactamente até à noite de 6 de Maio. Sarkozy não merece tanto.

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A farsa repete-se como história

por Rui Rocha, em 26.01.12

François Hollande quer criar 150 mil empregos para futura integração dos jovens.

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Obviamente Dominique de Villepin.

por Luís Menezes Leitão, em 11.12.11

 

Fico muito satisfeito com este anúncio da candidatura de Dominique de Villepin à presidência da França. Assisti uma vez a uma comunicação de Villepin e fiquei convencido que teria sido muito melhor presidente do que Nicolas Sarkozy. Este foi um desastre total como presidente francês, tendo transformado a França num mero compaignon de route da Alemanha, quase parecendo o Marechal Pétain da Senhora Merkel. Não admira, por isso, que todas as sondagens coloquem Hollande muitos pontos acima de Sarkozy. Se a direita francesa não quer perder as presidenciais, não pode continuar a apoiar Sarkozy. Villepin é o homem certo para restituir à França o papel que ela deve continuar a desempenhar na Europa.

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