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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 01.06.14

 

«O número de eurocépticos, na Alemanha, cresce de dia para dia. Fora do euro! Fora da União Europeia! são os seus "gritos de guerra" e encontram muitos simpatizantes. O pior é que a Alternativa Pela Alemanha está muito conotada com a extrema-direita, embora se desmarque do NPD, o partido neo-nazi.

A CDU, ainda assim, venceu por causa da Merkel, ela é que foi figura de cartaz para as eleições europeias, abafando por completo o cabeça de lista do seu partido, David McAllister (sim, é alemão, mas com raízes escocesas).

É uma catástrofe que a extrema-direita tenha tido tantos votos, em certos países. Sempre me defini como sendo "de direita", mas sou franca: preferia que fossem os partidos da esquerda a face do protesto (quando digo de esquerda, não me refiro a socialistas à la Hollande -- essa anedota feita gente -- ou à la Seguro, mas aos ligados à ideologia comunista). Mal por mal, talvez fosse melhor uma modalidade moderna dos velhos comunistas, esses sim, fariam algo de diferente (penso eu).

A Alemanha, porém, nunca virará à esquerda, dando força à Die Linke (uma espécie de BE), pois está traumatizada com a experiência da RDA. Mas também não acredito que virem à direita como os franceses, porque, nesse aspeto, também estão ainda traumatizados. Muito europeus esquecem que os próprios alemães foram dos mais traumatizados com a era Hitler. Nos últimos tempos, tem-se assistido a uma verdadeira expiação de pecados passados. Descendentes de nazis (alguns ligados ao extermínio dos judeus), filhos, mas principalmente netos, usam a sua profissão de jornalista ou realizador de cinema para expor as vergonhas nazis, mesmo que isso implique aceitar o passado horrendo dos seus pais/avós, passado esse mantido em silêncio pela família. É das tais coisas de que não se fala, que se atiram para debaixo do tapete. Mas há quem não pactue com essa política do silêncio. Desenterram a imúndicie, arejam os armários e sacodem os tapetes. À custa de muito sacrifício, não é fácil aceitar e expor tal passado. Quem consegue admitir: sim o meu pai/avô foi um assassino, dos piores que se pode imaginar?

E há muito quem seja contra essa maneira de denegrir a família. Mas os próprios dizem que não conseguem continuar a viver com tais segredos na alma. Pela verdade! E para que o horror não se repita!

Eu estou com eles e admiro a sua coragem!
Para quando algo do género, no nosso país, envolvendo descendentes dos pides? Quando se resolverão essas pessoas a contar o que passaram à altura da revolução, algumas ainda crianças? Não terá sido fácil. E o segredo mantém-se.»

 

Da nossa leitora Cristina Torrão. A propósito deste meu post.

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Pós-eleitoral (8)

por Pedro Correia, em 31.05.14

Na semana em que o centro-direita sofre a maior derrota eleitoral de sempre, o PS celebra tal facto entrando em processo acelerado de desagregação interna.  Apesar de ter alcançado a segunda vitória nas urnas em oito meses.

Nas eleições locais, em 30 de Setembro, conquistou 150 câmaras municipais - a maior vitória autárquica de que há registo.

Nas europeias de domingo, mesmo em contraciclo com a dura penalização de que foram alvo os dois blocos políticos tradicionais à escala europeia, sobe cinco pontos percentuais em relação ao anterior escrutínio, realizado em 2009. Obtendo o terceiro melhor resultado para a família do socialismo democrático em países da zona euro.

O PS foi mesmo a única força política do centro-esquerda a registar progresso eleitoral nos países sujeitos a resgate financeiro. Contrariando o colapso dos trabalhistas irlandeses (5,3%), o quase desaparecimento do PASOK na Grécia (8% em coligação) e a derrota histórica do PSOE em Espanha (23%).

 

 

Logo, porém, se levantou um exaltado coro de notáveis. Porque entenderam que a vitória era "curta". Entre esses notáveis, estão João Cravinho, que encabeçou a lista do PS derrotada (com apenas 28,5%) nas europeias de 1989. E Vital Moreira, o cabeça-de-lista derrotado de 2009, agora amargurado com a "frustrante vitória eleitoral" socialista. E José Sócrates, que liderava o PS humilhado há cinco anos nas europeias contra o PSD de Manuela Ferreira Leite (sem coligação com o CDS). Sem então ter sentido necessidade de "clarificação" da situação interna através de um congresso extraordinário, como hoje sustenta.

O mais notável de todos é Mário Soares. Que recusou fazer campanha pelo PS, apareceu num cartaz de propaganda do Syriza (o Bloco de Esquerda grego) e surge agora a incentivar o BE, que "não deve desanimar". Depois de no Verão passado - a dois meses das autárquicas - ter ameaçado o líder socialista de enfrentar um processo de "cisão" no partido. Algo inimaginável no tempo em que ele próprio era secretário-geral e conduziu o partido a três derrotas consecutivas, nas legislativas de 1979, nas autárquicas de 1979 e nas legislativas de 1980.

Temos portanto o maior partido da oposição novamente virado para si próprio, e não para o País. Mergulhado num conflito fratricida que seguramente deixará profundas marcas internas.

Depois de duas vitórias, repito. Não de duas derrotas.

 

Entretanto, o que se passa no país real? O Tribunal Constitucional chumbou três medidas fundamentais do Orçamento do Estado já em vigor - o sétimo chumbo em pouco mais de dois anos.

Algo que, noutro contexto, faria tremer o Governo. Mas com a guerra pelo poder no PS em primeiro plano da actualidade noticiosa, o Executivo continua a passar pelos pingos da chuva.

Disse António José Seguro que a moção de censura do PCP foi um "frete ao Governo". O que não dirá ele do processo de convulsão interna em que mergulharam os socialistas?

Espero que ao menos Passos Coelho tenha a delicadeza de lhes enviar um cartãozinho a agradecer...

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E agora, Europa?

por Rui Herbon, em 29.05.14

Em muitos países do mundo os seus cidadãos estariam muito contentes por poder participar em eleições livres, mas os europeus preferiram combater os diversos défices da União cedendo ao populismo que impulsiona a eurofobia e a abstenção; défices que incluem entre outras a falta de verdadeira democracia, a complexidade do sistema, a vergonhosa ausência de uma voz perante as crises internacionais ou a submissão ao cronómetro do mercado. A pobreza das campanhas também não ajudou: a construção europeia vende-se mal, sobretudo porque ninguém a encarna com a força de um ideal. E as sociedades atingidas pelo empobrecimento receiam a Europa: julgam-na responsável pela crise e consequentemente pelo desemprego, consideram-na fraca ou demasiado obediente ao sistema financeiro e pouco interessada nos destinos dos povos que a compõem.

 

Os resultados mostram que os movimentos radicais, xenófobos e/ou eurocépticos, assediam o projecto comum. Mas, por mais que durante os próximos cinco anos se dediquem a debilitar a UE ou a acabar com o euro, enfrentam uma tarefa de Sísifo, sem qualquer perspectiva de sucesso. É certo que o Parlamento ficará mais fragmentado, com os extremistas/populistas de esquerda e de direita a ganharem força. Mas pouco mais poderão fazer além de pronunciar os seus discursos inflamados, cuja retórica se dirigirá para contentar os eleitores dos seus países de origem, já que não terão capacidade para bloquear as funções da câmara nem desfazer a maranha tecnocrática da Europa e, em reposta, os partidos pró-europeus mover-se-ão de forma mais coesa.

 

O desafio mais iminente para evitar uma erosão da construção europeia é a maioria silenciosa: aqueles que por desconfiança e desencanto não quiseram votar. É a perigosa apatia de uma imensa maioria que parece dar por certo os muitos avanços económicos e sociais de que hoje gozam por existir uma união na Europa. Mas a paz, as viagens sem trâmites fronteiriços, trabalhar e estudar noutros estados, a moeda comum, o mercado único... a qualquer momento poderão perder-se. É preciso trabalhar por eles e defendê-los de forma permanente, sobretudo os líderes nacionais e europeus, que devem reagir reajustando as suas políticas: simplificando, democratizando e aproximando as instituições europeias dos cidadãos.

 

Apesar da crise e dos seus problemas e ineficiências, a UE é uma aposta na paz e um exemplo de construção política harmónica sem precedentes: 28 países, mais de 500 milhões de habitantes, 24 idiomas e um passado marcado por guerras terríveis. Continuamos a ter enormes privilégios à escala global graças a uma das aventuras políticas e humanas mais admiráveis do último meio século. Por isso para muitos europeus o grande ideal de um conjunto geográfico unido e em paz permanece de pé. Espero que destas eleições e da moldura institucional resultante saia uma Europa mais democrática e disposta a incluir os seus cidadãos, pois sem isso, como se viu, o projecto europeu comum poderá dar lugar a nacionalismos exacerbados e ao regresso a um passado que julgávamos definitivamente enterrado.

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Pós-eleitoral (6)

por Pedro Correia, em 29.05.14

 

Olhar para os 31,5% do PS contra a direita unida (PSD+CDS) no escrutínio para o Parlamento Europeu e ver neles um sinal imperioso para fazer rolar cabeças no partido vencedor é passar ao lado do essencial. Além de injusto para António José Seguro: ele foi um dos dirigentes socialistas que mais se aguentaram em toda a Europa, obtendo o terceiro melhor resultado para a sua família política nos Estados da eurozona.

Encaremos os factos: a esquerda socialista venceu eleições em apenas sete dos 28 países que integram a União Europeia: Eslováquia, Itália, Lituânia, Malta, Portugal, Roménia e Suécia.

Só em Malta, Itália e Roménia a votação nos socialistas foi superior à do PS.

 

Vejamos os resultados:

Alemanha - Partido Social Democrata: 27,3%

Áustria - Partido Socialista Austríaco: 24%

Bélgica - Dois partidos socialistas (francófono e flamengo): 19%

Bulgária - Partido socialista KB: 18,5%

Chipre - Partido Democrático: 10,8%

Croácia - Partido Social Democrata: 30%

Dinamarca - Partido Social Democrata: 19,1%

Eslováquia - Partido social-democrata SMER: 24%

Eslovénia - Partido Social Democrata: 8%

Espanha - Partido Socialista Operário Espanhol: 23%

Estónia - Partido Social-Democrata: 13,6%

Finlândia - Partido Social Democrata: 12,5%

França - Partido Socialista: 14%

Grécia - Oliveira (coligação de PASOK e aliados): 8%

Holanda - Partido Trabalhista: 9,4%

Hungria - Partido Socialista Húngaro (MSZP): 10,9%

Irlanda - Partido Trabalhista: 5,3%

Itália - Partido Democrático: 40,8%

Letónia - Partido Social Democrata: 13%

Lituânia - Partido Social Democrático da Lituânia: 17,3%

Luxemburgo - Partido Operário Socialista Luxemburguês: 21,6%

Malta - Partido Trabalhista: 53%

Polónia - Aliança Democrática de Esquerda: 9,4%

Portugal - Partido Socialista: 31,5%

Reino Unido - Partido Trabalhista: 25,4%

República Checa - Partido Social Democrata Checo: 14,2%

Roménia - Partido Social Democrata: 37,6%

Suécia - Partido Social Democrata: 24,5%

 

 

Em pano de fundo, bem expresso nestes números, está um modelo político em profunda crise: a social-democracia europeia. O PS de François Hollande fica reduzido a quase metade da percentagem da Frente Nacional. Milleband, o wonder boy do trabalhismo pós-Blair, queda-se pelos 25% no Reino Unido. O outrora poderoso PSOE afunda-se no pior resultado de sempre em Espanha, sem nada capitalizar de dois anos de feroz oposição ao Governo conservador de Rajoy. Até o SPD alemão não ultrapassa uns exíguos 27%.

Como escreveu Ana Sá Lopes no jornal i, numa excelente análise às europeias, "a social-democracia não serviu para nada durante a grande recessão, não se constituiu como alternativa a nada e o falhanço de Hollande é só o mais espectacular de todos".

 

Poderia a lista encabeçada por Francisco Assis ter feito melhor num cenário de dispersão de votos, potenciador das candidaturas que se esgotam no protesto?

Dificilmente.
É certo que Ferro Rodrigues alcançou 44% nas europeias de 2004. Mas os tempos eram outros, à esquerda e à direita. Alguém imagina um Marinho Pinto emergir então com a força que agora obteve? Alguém supunha que um grupo inorgânico como o Podemos, fenómeno emanado das redes sociais, surgisse como quarta força mais votada em Espanha e terceira em Madrid, como agora aconteceu? E em qualquer outro contexto Beppe Grillo chegaria a obter um quarto dos votos em Itália?


Somos sebastianistas: pensamos sempre que um indivíduo faz a diferença. Mas neste caso não faz. O problema é mais grave e mais fundo: as duas principais famílias políticas europeias estão gravemente feridas, talvez de forma irremediável, enquanto os egoísmos nacionais regressam em força com a sua oratória guerreira.

As forças extremistas e eurófobas ganham passo à medida que as áreas políticas centrais vêem o seu espaço diminuir drasticamente. Em Espanha, pela primeira vez, os dois principais partidos somados já totalizam menos de 50% dos votos expressos.

A cura, se existir, não virá de nenhum homem providencial e "carismático", de toga messiânica, dançando um De Profundis em valsa lenta.

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Pós-eleitoral (5)

por Pedro Correia, em 28.05.14

1. Domingo, falaram as urnas: Passos derrotado. Segunda, falaram os "analistas": houve empate. Terça, falaram as pulsões autofágicas no PS: Passos venceu. Razão tinha o outro: o mundo muda muito em 48 horas.

 

2. 32% será resultado "frouxo". Mas o que diremos dos escassos 14% obtidos pelo Partido Socialista francês, de François Hollande, outrora proclamado por Soares e tutti quanti como um dos faróis da esquerda europeia?

 

3. A um ano das legislativas, e após ter andado a carregar o piano desde 2011, ninguém imagina Seguro a ceder um milímetro a solistas de violino. Mesmo que venham ungidos do Vau e aspergidos de Nafarros. Óbvio ululante, como dizia Nelson Rodrigues.

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A noite em que todos perderam

por José Gomes André, em 27.05.14

Com excepção da CDU e de Marinho Pinto, todos perderam. O PS obtém uma vitória curta, face às expectativas de congregar o voto de protesto contra a coligação PSD/CDS. A Direita sofre uma derrota histórica, que poderá abalar os alicerces do Governo (vem a caminho uma remodelação ministerial?). O Bloco continua a via da implosão. Perdeu as causas fracturantes para o PS e ao rejeitar ser hipotético parceiro dos socialistas tornou-se politicamente irrelevante. A abstenção atingiu valores elevadíssimos, resultado de um crescente (e preocupante) desânimo popular com a política (e com a Europa!) e do desgaste dos partidos tradicionais. O Governo sai fragilizado, mas a oposição não recolheu combustível suficiente para apelar de forma convincente a eleições antecipadas. A “força da rua” mostra-se nos “media” e nas redes sociais, mas o país real parece sobretudo amorfo e indiferente.

A CDU obtém um resultado notável, mas o seu discurso ideológico continua demasiado radicalizado para poder figurar como eventual parceiro de governação para o PS (e o facto de os comunistas terem feito campanha agressivamente contra os socialistas só adensou o abismo entre ambos). Marinho Pinto consegue a proeza de ser eleito para o Parlamento Europeu sem que se lhe conheça uma ideia sobre a Europa. Os eurocépticos ainda são irrelevantes em Portugal, mas o poder mediático do populismo já se faz sentir. 

[publicado ontem no Diário Económico].

 

P.S. A euforia de Seguro e Assis não passou de uma encenação para tentar vender a imagem de uma Direcção ganhadora. Correspondeu na verdade a um autêntico "canto do cisne". A vitória foi curta (como qualquer pessoa notou desde logo). Segue-se pois uma guerra civil no PS...

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Pós-eleitoral (3)

por Pedro Correia, em 27.05.14

1. Primeira decisão pós-eleitoral do PCP: o anúncio da sexta moção de censura a este governo. Uma decisão que Passos Coelho agradece: fragilizado nas urnas domingo à noite, robustecido no Parlamento daqui a uns dias, graças à boleia comunista. Destinada sobretudo a obscurecer ainda mais o frágil triunfo do PS. Há coisas que nunca mudam na esquerda portuguesa.

 

2. Espantam-se alguns com a débil expressão eleitoral do Partido Socialista. Falta acrescentar que seria ainda mais estreita sem o oportuno empurrãozinho que lhe deu António Capucho. Nem quero imaginar o que seria de António José Seguro sem este apoio.

 

3. Ou muito me engano ou virão aí alterações à anacrónica lei eleitoral que concede todo o poder de composição e ordenamento das listas aos directórios partidários e nenhum aos cidadãos. Acossado, o chamado "arco da governação" vai tentar enfim aproximar eleitos de eleitores - embora o tiro, já tardio, possa sair-lhe pela culatra.

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Ler os outros

por Pedro Correia, em 27.05.14

Pedro Magalhães: «PSD e CDS têm, em conjunto, menos 12,4% que nas anteriores europeias (quando estavam na oposição).»

 

Paulo Gorjão: «O PS ganhou mas é um partido cada vez mais intranquilo e que pressente um desaire em 2015.»

 

Rodrigo Adão da Fonseca: «A vitória de António José Seguro foi tão colossal que hoje ligamos a televisão e só dá António Costa, regressado de Alcácer-Quibir.»

 

Vital Moreira: «A decepcionante escassez  da vitória numas eleições em que tudo lhe era favorável deixa pouca margem ao PS para uma vitória robusta nas legislativas.»

 

Sofia Loureiro dos Santos: «Temos que acabar de vez com esta pseudo política pseudo humana e pseudo simpática de pseudo corações em pseudo líderes.»

 

Paulo Pedroso: «É patético que o PS pense que pode, a partir desta base e neste contexto, fazer uma campanha assente na reivindicação de uma maioria absoluta.»

 

Luís Novaes Tito: «António José Seguro teve a coragem de avançar quando todos se esconderam e preferiram calcular as suas vidinhas futuras, fugindo às responsabilidades de suceder na oposição a um desaire eleitoral.»

 

João Pedro Pimenta: «As consequências imediatas parecem estar a atingir, antes de mais, o PS. Quando é que um partido vencedor registou tal convulsão interna?»

 

Luís Naves: «Os partidos profissionais de poder tiveram resultados miseráveis.»

 

Maria João Marques: «Apetece perguntar ao PSD e ao CDS: de que vos (e nos) valem os fracos resultados do PS, se perderem o juízo?»

 

Mr. Brown: «Esta luta taco a taco entre PSD+CDS e PS só é possível por um motivo: não há quem apareça a colocar no mapa um novo partido de direita.»

 

Rui Albuquerque: «Os 7% de votos na lista de Marinho Pinto são um protesto contra o sistema político e aquilo que os eleitores entendem ser a corrupção da classe política.»

 

Porfírio Silva: «Não vale a pena querer substituir a luta política pela tentação de mudar de povo.»

 

Joana Lopes: «O Bloco bem pode arrumar as ideias e a casa, rapidamente e em força.»

 

Filipe Nunes Vicente: «Rui Tavares perdeu o lugar de eurodeputado, o Bloco perdeu dois. Mais uma ou duas uniões de esquerda e o PCP fica com bar aberto.»

 

João Rodrigues: «As acusações de populismo, a palavra preferida de certas elites, e de eurocepticismo valem bem a tarefa para uma esquerda que não anda a dormir e que sabe que não há mais tempo a comprar.»

 

João Gonçalves: «Tudo somado, entrámos no pântano que Guterres, em Dezembro de 2001, pretendeu evitar com a sua lúcida demissão.»

 

José Gabriel: «A abstenção como total demissão de intervir – e não ignoro que muitos dos que se abstêm têm plena consciência disto e não procuram desculpas, pois que a sua decisão é pensada – é uma ilusão.»

 

António Pais: «Quem não avançar agora, exigindo uma clarificação e submetendo aos militantes dos respectivos partidos (e por arrasto aos restantes cidadãos) o seu projecto, é tão cobarde como os actuais chefes.»

 

(actualizado)

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Profetas da nossa terra (27)

por Pedro Correia, em 26.05.14

«Prevejo uma vitória esmagadora do Partido Socialista. Prevejo uma hecatombe da coligação, que ficará abaixo dos 30%. O PS vai ficar acima dos 40%, com certeza... 42%. Prevejo uma diferença entre 10% e 14%.»

José António Saraiva, RTP, 21 de Maio de 2014

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Pós-eleitoral (2)

por Pedro Correia, em 26.05.14

1. O PCP rejuvenesceu, o Bloco envelheceu. Trocaram de papéis. Isso reflectiu-se nos votos.

 

2. Aumentaram os nulos, baixaram os brancos. Culpa das redes sociais, que já intereferem nas câmaras de voto. A malta adora fotografar o boletim de voto riscado e divulgá-lo nas redes sociais. Nítido nulo.

 

3. Os partidos que defendem a saída de Portugal no euro, todos somados, recolheram ontem apenas 15% dos votos expressos. As coisas são o que são.

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Hoje!

por Helena Sacadura Cabral, em 26.05.14
Pronto, já estamos no dia seguinte. Eu, a preparar-me para a Feira do Livro, os políticos a prepararem-se, desde ontem, para a Feira das Vaidades e as suas danças, que não serão poucas…
O povo escolheu. Sabiamente, como já nos habituou. O país está a tornar-se cada vez mais ingovernável, nos velhos moldes políticos que conhecemos e a mostrar, desde as autárquicas, que ou os partidos mudam ou o seu poder vai progressivamente desaparecer. 
A abstenção, os votos brancos e os votos nulos só atestam o que digo. Pesadíssima derrota para o governo e BE - os extremos acabam por se tocar - e vitória amarga para o PS, que não vai saber o que fazer com ela, sobretudo, se insistir em manter Seguro que, assim, se tornará o "passaporte" ideal para a coligação  que nos governa.
Na Europa a direita e a esquerda mais radicais fortaleceram as suas posições, os eurocepticos afirmaram-se e na Alemanha a senhora Merkel não deve estar propriamente a esfregar as mãos.
Conclusão, a Europa ou muda ou a UE desintegra-se. A caminhada já começou. E Portugal ou muda ou torna-se ingovernável, seja com 80 ou 120 medidas, com manifestos assinados pela esquerda e direita ou com outros que "não querem mais isto".
Hoje a política não pode fazer-se nos mesmos moldes de há quatro décadas e os líderes estão demasiado velhos para escolherem o futuro daqueles que agora têm vinte e poucos anos. Não perceber isto é caminhar para os nacionalismos exacerbados e reverter a democracia!

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Pós-eleitoral (1)

por Pedro Correia, em 26.05.14

1. A perda de autonomia do CDS face ao PSD em sucessivos escrutínios eleitorais ameaça torná-lo uma espécie de Verdes do PCP. Começou nas autárquicas, prosseguiu nas europeias. Se esta tendência se prolongar nas legislativas, o parceiro menor da actual coligação governamental mergulha na irrelevância.

 

2. Um pouco por toda a Europa, face à pressão dos extremismos, os resultados eleitorais potenciam soluções de bloco central. Neste sentido, o escrutínio de ontem é o primeiro capítulo da "grande coligação" destinada a concretizar-se em 2015. Dispensando os pequenos partidos, naturalmente.

 

3. Atenção aos especialistas em marketing político: os slogans eleitorais devem ser sempre avaliados em função não só da véspera mas também do dia seguinte. Aquela que parecia a melhor mensagem, a do Bloco de Esquerda, transforma-se numa das piores à luz dos resultados concretos. "De pé" anteontem, de rastos agora.

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Brevíssimas

por Pedro Correia, em 26.05.14

O Bloco, com liderança bicéfala, perde duplamente.

Seguro teve um triunfo esmagador. Na projecção do socialista Oliveira e Costa.

Marinho Pinto começou a ganhar o lugar na Europa no dia em que venceu Moura Guedes na TVI.

O PCP, coerente como sempre, vai manter a letra J. Jerónimo dará lugar a João, não tarda muito.

Passos e Portas não irão coligados em 2015. A Aliança Portugal (parte 2) é pequena de mais para nela caberem ambos.

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O dia seguinte.

por Luís Menezes Leitão, em 26.05.14

 

O que se passou ontem foi uma hecatombe para os partidos do arco da governação. E se não arrepiarem caminho, poderemos assistir a uma "pasokização" geral dos partidos tradicionais, que revolucionará o nosso sistema político, levando partidos extremistas à vitória eleitoral, como se passou ontem na Grécia. PSD e CDS demonstraram que neste momento em coligação não valem sequer 30% dos votos. E o CDS irá provavelmente ter menos deputados europeus do que o MPT. Por muito menos que isto, já se desfizeram coligações à direita. Freitas do Amaral rompeu com a AD quando em 1982 esta teve 42% dos votos numas autárquicas. Mas agora, depois da sua birra de Julho passado, Portas tornou-se tão irrevogável que vai manter a coligação até ao fim, que será provavelmente também o do seu partido. Quanto ao PSD, entrou de tal forma num delírio pró-troika que Marques Mendes até já propôs Maria Luís Albuquerque como sucessora de Passos Coelho. Na verdade, os actuais dirigentes do PSD estão de tal forma deslumbrados com o reconhecimento que obtêm por parte dos nossos credores, que estão a encaminhar o PSD para o suicídio político. Não é com ratings e mercados que se ganham eleições, mas com os votos daqueles portugueses que todos os dias estão a sacrificar. E como eles não são masoquistas, não é provável que voltem a votar nesses partidos.

 

Quanto ao PS, está longe de poder cantar vitória. O discurso de vitória ensaiado por Seguro soou completamente a falso. Se o PS fosse inteligente, substituía-o imediatamente. Neste momento, também está demasiado comprometido com um discurso pró-troika para ser alternativa.

 

O grande vencedor de ontem foi Marinho e Pinto, que só não teve um resultado melhor, porque foi ignorado pela comunicação social e poucos conheciam o partido pelo qual concorria. Mas a partir de agora é preciso contar com ele. Acredito que vai marcar presença nas presidenciais. E se os candidatos forem tão insossos como Guterres e Marcelo, o seu discurso pode fazer muitos estragos. Aguardemos para ver.

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Visto à distância

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.05.14

1. Tirando a surpresa, aparente, que constituiu o resultado de Marinho e Pinto e do MPT, tudo o mais que se viu relativamente à quota-parte nacional nas eleições para o Parlamento Europeu está dentro do que seria de esperar.

2. Começando pela abstenção, o nível atingido continua a ser ainda demasiado lisonjeiro para a classe política e os partidos. A preocupação que alguns ainda demonstram pelos valores da abstenção continua sem qualquer correspondência numa vontade efectiva de mudança. A Europa continua distante, muito distante. Os incentivos para as pessoas se informarem, participarem no quase inexistente debate político e irem às urnas não são suficientemente mobilizadores. Enquanto for possível constituir as mesas eleitorais, as urnas abrirem para a votação e houver um cidadão que seja a votar, tudo continuará como até aqui. Os partidos vivem noutro mundo.

3. Tão lisonjeiros quanto a abstenção são os resultados da travestida Aliança Portugal (PSD/CDS-PP) e do PS. Era tão natural que o PS vencesse as eleições europeias como previsível a derrota dos partidos do governo. Mesmo sem contar com o elevado nível da abstenção, o PS vence com uma percentagem sofrível (31,5%) e um número total de votos - pouco superior a um milhão - que não dá segurança e conforto a ninguém para umas legislativas. Nem aos eleitores, nem ao PS. Francisco Assis fez o seu trabalho e fê-lo bem feito. A diferença entre aquele que poderia ter sido o resultado do PS perante o estado actual da coligação e a campanha de Paulo Rangel e o resultado obtido não lhe pode ser imputado. E ficaremos sempre sem saber se este resultado é só uma consequência dos desencontros e reencontros com Mário Soares e José Sócrates, da inabilidade política, da forma como o processo foi (mal) gerido e a lista formada, ou se de tudo isso ao mesmo tempo.  Para a Aliança Portugal o resultado, sendo mau, não é tão catastrófico quanto se poderia à partida admitir. É certo que Paulo Rangel voltou a mostrar ser um mau candidato, cuja retórica não acrescenta nada à vida política, ficando abaixo dos 30%, não conseguindo tirar qualquer partido do efeito coligação na conversão dos votos em mandatos, mas ainda assim ficou acima dos 25% na linha da maré baixa. Isto permitirá ao Presidente da República manter tudo como está. No limbo, que é onde os indecisos se sentem bem.

4. A CDU consegue um bom resultado apesar de só ganhar cerca de quarenta mil votos em relação a 2009. Quarenta mil votos não chegam para fazer passar uma moção de censura, ganhar eleições, derrubar governos. A CDU corre em pista própria, continua a falar para si e para o seu eleitorado, por isso o seu crescimento é irrelevante. Se mantiver os dois deputados saberá sempre a pouco.

5. O resultado do MPT mostra que Marinho e Pinto sozinho vale 200.000 votos. Ficando no PE não poderá ter grande influência nas legislativas, mas esses votos poderão fazer a diferença no próximo acto eleitoral, não só porque são de eleitores que vão às urnas, mas também porque representam gente descontente e com voto flutuante. De qualquer modo, um homem sozinho com 200.00 votos na mão e o seu discurso é um perigo para os partidos. Seria interessante saber onde foi ele buscar esses votos, mas duvido que sem um cabeça-de-lista como ele o MPT mantenha os votos em legislativas. Além de que nestas as preocupações dos eleitores são outras. 

6. O Bloco de Esquerda e o Livre perderam em toda a linha. O primeiro porque sem a inteligência e o carisma de um Louçã, e sem ninguém que consiga preencher o enorme vazio deixado por Miguel Portas, tornou-se em mais um corpo eleitoralmente anódino, sem força, sem ideias e sem liderança, num borrão daquilo que foi. O Livre perdeu porque a simpatia, a competência e o arrojo de Rui Tavares não são suficientes para federar uma legião de descontentes que, como se viu, nem o seu próprio eleitorado percebeu o que propõe e para onde quer ir. O eleitorado já não vai em aventuras e na hora de pagar as contas vale pouco o discurso solidário sem alternativas consistentes e credíveis.

7. Os outros continuam a não existir, apesar de lhes admirar a persistência e o idealismo.

8. Os votos nulos aumentaram, mas os brancos também diminuíram. No cômputo geral ficou tudo na mesma.

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Lá fora

por Pedro Correia, em 26.05.14

Alemanha: CDU de Merkel vence com pior resultado de sempre. Alternativa Pela Alemanha, eurocéptica, elege sete eurodeputados.

 

Espanha: PP e PSOE perdem 17 deputados. Novo partido, Podemos, assume-se como quarta força eleitoral e terceira em Madrid.

 

França: Vitória da Frente Nacional, com 26%. Partido Socialista, do Presidente Hollande, afunda-se - com o pior resultado da sua história.

 

Itália: Esquerda esmaga nas urnas, partido de Berlusconi em queda. Movimento de Grillo é segundo, com 21%.

 

Grécia: Syriza ultrapassa conservadores, vencendo escrutínio. Aurora Dourada, partido neonazi, ascende ao terceiro lugar.

 

Reino Unido: Grande triunfo da direita eurocéptica. Partido Independente quebra histórico rotativismo entre conservadores e trabalhistas.

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Melhor do que qualquer sondagem

por Pedro Correia, em 26.05.14

Mário Soares: «PS vai ganhar mas não por muito.» (10 de Maio)

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Na República dos argumentos reversíveis

por Rui Rocha, em 26.05.14

"O país fez uma moção de censura ao governo Sócrates. O CDS dará voz, apresentando uma moção de censura na Assembleia da República como é justo e é merecido"

Paulo Portas na sequência dos resultados das Europeias de 2009.

 

"A iniciativa da direita é um abuso que raia a arrogância ao tentar transformar as eleições europeias em legislativas. Uma coisa é compreender os sinais dos eleitores, e eu estou bem atento a esses sinais, outra coisa, bem diferente, é instrumentalizar os resultados, pretendendo confundir eleições europeias e legislativas”

José Sócrates, em 2009, durante a discussão dessa moção de censura.

 

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Noite eleitoral (4)

por Pedro Correia, em 25.05.14

1. Seguro salientou várias vezes, no discurso desta noite, que as europeias foram ganhas pelo PS. Cada vez que dizia isto conseguia diminuir um pouco mais a dimensão do seu exíguo triunfo eleitoral. Qual será a necessidade de sublinhar aquilo que parece óbvio?

 

2. José Sócrates apareceu pouco na campanha socialista, mas foi quanto bastou para ser de mais. O PS só ganha em afastar-se da herança socrática se tiver sérias ambições de assumir o governo em 2015.

 

3. Já antes desta derrota o Governo dava claros sinais de desgaste. O escrutínio de hoje torna imperiosa uma remodelação governamental. Quanto mais depressa o primeiro-ministro a fizer mais poderá beneficiar com isso.

 

4. Quem tem razões para sorrir é o Presidente da República, assumido adepto de uma "grande coligação" à moda alemã ou austríaca. O Bloco Central vai fazendo a sua marcha, com uma cadência lenta mas irreversível. Não está ainda inscrito nas urnas, mas já parece escrito nos astros.

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Noite eleitoral (3)

por Pedro Correia, em 25.05.14

1. A enorme taxa de abstenção não permite fazer extrapolações dos resultados desta noite para uma eventual eleição legislativa. A participação eleitoral e a motivação dos votantes é muito superior em legislativas. Só por um monumental erro de gestão política da actual maioria esta legislatura chegará ao fim antes da data prevista.

 

2. João Ferreira, com boa imagem e um discurso populista de esquerda contra o euro, fez nesta campanha o tirocínio para substituir Jerónimo de Sousa como secretário-geral do PCP. Passou no teste.

 

3. A vitória de Seguro, embora menos folgada do que algumas sondagens previam, é suficiente para manter a sua liderança incontestada. Na perspectiva do PSD, esta pode até ser uma das melhores notícias da noite.

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Discurso da vitória

por Rui Rocha, em 25.05.14

Marinho e Pinto falou depois de Seguro.

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Noite eleitoral (2)

por Pedro Correia, em 25.05.14

1. Rui Tavares surgiu em defesa aberta da quadratura do círculo: fracturou ainda mais a esquerda em nome da unidade da esquerda. No entanto, a última coisa de que a esquerda necessita é de mais um partido: pelo menos nove que se reclamam desta área política concorreram à eleição de hoje. Não admira, portanto, que a Livre papoila tivesse murchado nesta sua noite de estreia eleitoral.

 

2. O Bloco apela, como mais ninguém, à ética da responsabilidade. Mas esta lógica só parece funcionar para os outros. Intramuros, os bloquistas continuam sem retirar as devidas ilações das sucessivas derrotas que vêm sofrendo nas urnas. Será que o farão agora, quando foram a única força política de esquerda a recuar nas urnas, com menos de metade da votação conseguida em 2009 e só com um terço do número de eleitos nesse ano?

 

3. É evidente que a CDU capitalizou o essencial do voto de protesto. Que só surpreende por ficar aquém do que quase todos previam após três anos de duríssimas medidas de austeridade impostas pelo memorando de entendimento. Falta aos comunistas dar o passo seguinte: como transformar o protesto em contributo para uma futura maioria governamental? Basta perguntarem aos camaradas espanhóis, que já puseram isso em prática na Andaluzia.

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E do Pedro Silva Pereira

por Rui Rocha, em 25.05.14

Sim, também nos livrámos do gémeo bivitelino.

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Noite eleitoral (1)

por Pedro Correia, em 25.05.14

1. Castigo pesado da coligação no Governo. O pior resultado de que há memória para o PSD em coligação com o CDS. Fica bem evidente que certas somas apenas servem para subtrair: repetir em legislativas a fruste coligação eleitoral das europeias será mais um erro político a somar a tantos outros. Resta ao centro-direita procurar captar parte dos seus eleitores tradicionais que desta vez optaram pela abstenção.

 

2. "Reconciliámo-nos com o País", declarou o cabeça de lista do PS, Francisco Assis. Com um sorriso nada triunfalista, o que é prova de saudável prudência. Os socialistas venceram. Mas, muito aquém dos 44% conquistados por Ferro Rodrigues nas europeias de 2004, estão longe de convencer boa parte do eleitorado. E não conseguiram criar nenhuma onda avassaladora que lhes permita reclamar legislativas antecipadas. Cada coisa a seu tempo.

 

3. A CDU combateu com êxito a tendência abstencionista, mobilizando o seu eleitorado. Obtém um dos melhores resultados de sempre em europeias, consolida-se como terceira força política e quebra a dinâmica de vitória do PS, cumprindo assim o seu principal desígnio estratégico numa eleição que potencia o voto de protesto como nenhuma outra.

 

4. O BE afunda-se. E não pode culpar os jornalistas: teve muito mais cobertura mediática do que o MPT, que ficou claramente à sua frente. Deve antes culpar-se a si próprio. Por ser Bloco só de nome (teve duas dissidências, pela esquerda e pela direita). Pela liderança bicéfala que escolheu como se padecesse de crise de identidade. E por funcionar como cópia do PCP, esgotando-se em acções de protesto. O original é sempre preferível à cópia: só Alfredo Barroso parece ter-se convencido do contrário.

 

5. Em noite de europeias, há comentadores residentes nas pantalhas que não fazem ideia quantos deputados tem o Parlamento Europeu. Alguns, estranhamente, até parecem fazer gala nisso. Espero que as televisões se lembrem deles na próxima vez em que decidirem fazer uma daquelas reportagens de rua com perguntas de algibeira destinadas a provar que o povo é ignorante...

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Um dos vencedores da noite

por Pedro Correia, em 25.05.14

 

António Marinho Pinto -- sem dinheiro, sem estrutura de apoio, sem máquina de campanha, quase sem cobertura jornalística, com uma sigla partidária ignorada até há dias por quase todos os portugueses -- ultrapassa o Bloco de Esquerda, que dispôs de amplos holofotes mediáticos. É eleito eurodeputado, como aqui previ a 26 de Janeiro, e pode até ver o MPT eleger um segundo representante para o Parlamento Europeu.

Mais que nunca, este resultado comprova que o quadro político português está pronto a ser reorganizado. Só precisa mesmo de alguém com talento oratório e comprovada capacidade de mostrar alguma diferença para mobilizar um importante fragmento da legião de descontentes, fartos de promessas traídas e das palavras já gastas pelo uso.

Dir-se-á que isso é negativo por representar o triunfo do populismo. Muito mais negativo é haver quase dois terços de eleitores que não reconhecem mérito suficiente a 16 forças eleitorais para confiarem o voto a qualquer delas.

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Depois de fechadas as urnas

por Rui Rocha, em 25.05.14

O regime continuará em câmara ardente.

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Viva a Europa

por Rui Herbon, em 24.05.14

As eleições europeias transformaram-se na melhor oportunidade para os partidos extremistas: no caso do Reino Unido e França com claras hipóteses de terminar a corrida eleitoral na primeira posição, noutras nações europeias adquirindo uma indiscutível importância interna, e em todos eles perante a indiferença de uma grande parte da sociedade, que atingida por uma dura crise económica não se sente suficientemente interessada pelos assuntos europeus. Parece esquecido o entusiasmo dos europeístas que construíram as fundações da União para desterrar da Europa a dramática experiência de duas guerras, ou o fascínio dos primeiros passos para uma verdadeira união política, ou a esperança que o projecto europeu supôs para os países ex-comunistas. 

 

Não resta dúvida de que a crise tem muito que ver com o desânimo europeu, mas não é a única causa, nem sequer a mais profunda. A meu ver são duas as causas de longo alcance para entender o aturdimento dos cidadãos da União Europeia: o desaparecimento da política do processo de construção europeu e a dificuldade que os cidadãos dos diversos países têm – carregados que estão com uma poderosa simbologia sentimental de carácter nacional – para definir um âmbito afectivo e simbólico europeu comum.

 

Os dirigentes europeus, contagiados por um pós-modernismo ideológico, quiseram basear a construção europeia exclusivamente nos interesses dos diferentes países, esquecendo que as realidades políticas precisam de sonhos, esperanças, sentimentos; enfim, que tornem aceitáveis os desafios, os esforços e os sacrifícios. A política é a síntese do discurso com a acção, e quando falha um dos componentes tende a desvalorizar-se ou a desaparecer. O desaparecimento da acção em favor do discurso deixa-nos na inanidade, e o desaparecimento do discurso deixa-nos perante uma maquinaria que desumaniza o ser humano; e foi nisso que se converteu a arquitectura funcional da União Europeia, numa burocracia sem sentido nem sentimento.

 

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Em dia de reflexão

por Pedro Correia, em 24.05.14

 

Reflexões europeístas revisitadas:

 

1. A construção europeia é o único projecto de raiz utópica que trouxe prosperidade aos povos que dele beneficiaram enquanto lhes ampliava em simultâneo as fronteiras da liberdade no século XX, o mais sangrento e devastador de que há registo.

 

2. Um dos problemas da História é este mesmo: pode repetir-se a qualquer momento. Sobretudo quando as lições que nos vai deixando persistem em não ser escutadas.

 

3. Inflamar os nacionalismos é acender um rastilho de proporções impensáveis.

 

4. Não podemos fechar as fronteiras nem travar a torrente globalizadora.

 

5. O espaço europeu é inseparável da democracia política.

 

6. A União Europeia deve ampliar-se para lá do perímetro do continente europeu? E até onde?

 

7. A União Europeia pode ser construída sem europeus?

 

8. Ou haverá estado social dentro da Europa ou não haverá estado social de todo.

 

9. Em 1980 havia no espaço europeu mais 36 milhões de crianças do que reformados, hoje existem mais seis milhões de reformados do que crianças.

 

10. Em todas as etapas da construção europeia, nas últimas três décadas, os decisores políticos colocaram sempre os portugueses perante factos consumados.

 

11. É com a Europa que sairemos da crise - jamais contra a Europa.

 

12. A Europa hoje novamente desunida necessita de uma verdadeira refundação.

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Reflexões europeístas (12)

por Pedro Correia, em 23.05.14

 

Sem líderes à altura dos reptos dos nossos dias, com uma opinião pública egoísta colocada perante desafios quase intransponíveis, à mercê de diversos demagogos que inflamam as mentes com o veneno neonacionalista (que tem vários seguidores, à direita e à esquerda), a Europa hoje novamente desunida necessita de uma verdadeira refundação.

De baixo para cima, não de cima para baixo.

 

Há um erro recorrente que deve ser evitado a todo custo: a crescente cedência da soberania popular e democrática a um poder tecnocrático não sujeito ao escrutínio público. O caminho tem de ser o inverso: em vez de tornar ainda mais volumosas as estruturas burocráticas de Bruxelas, o processo de decisão deve ser devolvido aos políticos, respaldados no voto popular.

Parafraseando a célebre frase de Malraux sobre a religião no século XXI, a integração europeia ou caberá aos cidadãos europeus -- ou não será nada.

 

Eis a quadratura do círculo: com que políticos poderá o projecto europeu ser reconfigurado?

Faltam-nos estadistas equiparados aos "pais fundadores". Mas é precisamente ao exemplo destes visionários que precisamos de regressar. Para aprofundar os mecanismos democráticos, sem os quais a União Europeia está condenada a sucumbir. Para termos uma autêntica Europa dos cidadãos -- não a Europa dos tecnocratas, capazes de transformar o sonho da integração num insustentável pesadelo.

A Europa que esses pioneiros construíram deu certo, ao contrário desta. Porque o passo nunca foi então maior que a perna. Lamentavelmente, nenhum deles deixou verdadeiros discípulos entre os políticos actuais.

 

A melhor Europa é uma Europa mais integrada, sem qualquer abismo entre a vontade dos decisores políticos e a vontade dos povos.

Uma Europa que seja construída a partir de pequenas mas sólidas etapas e não em passadas largas, de "vanguardas" iluminadas que conduzem a inevitáveis recuos.

Uma Europa orgulhosa dos seus valores e do exemplar património imaterial edificado nas últimas seis décadas.

E também uma Europa muito consciente dos erros históricos cometidos. Para que não voltem a repetir-se com o seu cortejo de atrocidades.

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Só mais umas horas...

por Helena Sacadura Cabral, em 23.05.14

Este título é tão bom que servia para um livro, uma canção ou um filme. Mas, suprema satisfação, ele representa a realidade. Hoje, à meia noite, o nosso descanso começará. O futebol ainda não estará decidido, mas os nossos vendedores de promessas já terão entregue a alma ao diabo por mais um votozinho, por mais miserável que ele possa ser. Se o tempo estiver de sol as praias vão ficar cheias de corpos cansados desta maratona. E se o frio continuar a ameaçar, as "séries" televisivas serão a desculpa encontrada para a fuga que vai assolar as nossas urnas. De voto, claro. 

Porque depois de uma das piores campanhas a que assisti, temo bem que só se dignem votar os verdadeiros militantes ou os boys e girls aos quais as benesses partidárias garantem o presente e o eventual futuro. É a vida, como diria um empenhado socialista que muito admiro! 

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Europeias: algumas frases

por Pedro Correia, em 23.05.14

 

«Não estou nada obcecado com o PS.»

Paulo Rangel, Aliança Portugal

 

«Eu estou obcecado com o PS.»

Nuno Melo, Aliança Portugal

 

«Ouvi com uma voz esganiçada Paulo Rangel, que está agora muito magro - mas quanto mais magro mais agressivo.»

Manuel Alegre, Partido Socialista

 

«Cada voto na Aliança Portugal [coligação PSD/CDS-PP] é uma vacina contra o despesismo, contra a irresponsabilidade financeira, contra o vírus socialista.»

Paulo Rangel

 

«Há umas dezenas de anos, na Europa, houve um partido [Nacional Socialista] que disse que os judeus eram um vírus que era preciso exterminar. O PS não é um vírus mas um grande partido da democracia e da tolerância.»

Manuel Alegre

 

«Vou esperar ao longo deste dia uma retractação por parte de Seguro e Assis porque quero saber se eles subscrevem a ideia de que eu tenho alguma associação ao partido nazi ou prática do regime nazi.»

Paulo Rangel

 

«A direita é o vírus do despesismo e do empobrecimento.»

Marisa Matias, Bloco de Esquerda

 

«Não vamos transformar isto numa discussão entre vírus e bactérias.»

Francisco Assis, Partido Socialista

 

«É tempo de sair da NATO, é tempo de criar uma aliança militar de pátrias soberanas e livres europeias.»

Humberto Nuno de Oliveira, Partido Nacional Renovador

 

«Demos novos mundos ao mundo e agora queremos dar uma nova política à Europa.»

Gonçalo Câmara Pereira, Partido Popular Monárquico

 

«Nós temos um programa com 67 medidas para mudar a UE. Somos provavelmente o unico partido que tem um programa para estas eleições.»

Rui Tavares, Livre

 

«O País deve preparar-se para a saída do euro.»

João Ferreira, Coligação Democrática Unitária

 

«Eu vou ser o Mestre de Aviz na União Europeia.»

José Manuel Coelho, Partido Trabalhista Português

 

«Vamos derrubar o Governo dos Miguéis de Vasconcelos do PSD e do CDS.»

Garcia Pereira, Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses

 

«Não é apenas a foice e o martelo... E digo isto porque há aí uns símbolos a meio do boletim de voto que tentam meter a foice em seara alheia. O voto na CDU é na foice e no martelo e no girassol.»

Jerónimo de Sousa, Coligação Democrática Unitária

 

«É muito negativo que o BE e a CDU se tenham apresentado divididos a estas eleições porque continuam a entregar os resultados ao António José Seguro.»

Gil Garcia, Movimento Alternativa Socialista

 

«Em política deve-se escolher os melhores e não os mais fiéis.»

António Marinho Pinto, Partido da Terra

 

«O Livre tem uma lista de cidadãos, escolhida por cidadãos.»

Ricardo Araújo Pereira, Livre

 

«Sou independente.»

Paulo Casaca, Partido Democrático do Atlântico, ex-PS

 

«O surf não tem sido usado como deveria ser em favor do desenvolvimento local e até mesmo da protecção ambiental.»

Marisa Matias

 

«Está na hora de os animais terem uma voz que os defenda no Parlamento Europeu.»

Daniela Velho, Partido pelos Animais e pela Natureza

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Uma abstenção de violenta indignação

por Rui Rocha, em 23.05.14

O direito de escolher livremente entre as alternativas políticas que se apresentam em eleições é essencial em democracia. Mas a democracia não é, não pode ser, só isto. Se fosse, terminada a eleição, os escolhidos teriam o direito de fazer o que bem entendessem com o nosso voto, tomando inclusivamente decisões radicalmente contrárias ao sentido que lhes pretendemos dar. E é bom que fique claro que, se o fazem, e é certo que fazem, não é por direito mas por abusadora quebra de compromisso e generalizada falta de vergonha. Entretanto, os últimos anos são o exemplo de que a nossa democracia está tomada pela mediocridade da classe política que nos representa. Entalados entre um sistema de dois partidos únicos no arco da governação que se sucedem sem que representem uma real alternativa e uma alternativa real representada por partidos do arco da velha, os eleitores contemplam embasbacados um panorama desolador. Entretanto, a casta política instalada faz a pedagogia da importância do voto com a estridência de quem sabe que este, qualquer que seja o seu sentido, acaba sempre por legitimar a situação e por criar a percepção de que o sistema, apesar de tudo, ainda funciona de forma aceitável. Pois bem. Creio que chegou a hora de dizer basta. Um cidadão responsável não pode fechar os olhos a um sistema que vive e promove um certo tipo de instalados, que admite a utilização dos recursos comuns por uma casta de clientelas, que adia sucessivamente reformas do status quo político e da organização do território, que descura a urgente transparência do financiamento dos partidos e das condições remuneratórias dos eleitos  e que permite e dinamiza a proliferação de rendas e interesses que abundam na cupidez de empresários de corredor e alcatifa e nos negócios de pouco escrúpulo. A um democrata nada custa mais do que prescindir do direito de votar. Pela minha parte, desta vez, ofereço-me ao sacrifício. Pela primeira vez, rasgarei as minhas convicções de cidadão comprometido com a sociedade em que vivo no espinho doloroso da abstenção. Faço-o porque tem de ser. Porque calar o voto é, por uma vez, a forma mais eficiente de dizer não. Perante a pompa e circunstância dos discursos vazios e das acções cativas é preciso fazê-los perceber do ridículo que é falarem e fazerem sozinhos. Disse.

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Cerejas e carapaus

por Rui Herbon, em 23.05.14

 

Numa campanha eleitoral que, como era de esperar, foi tudo menos o que me parecia desejável, ficam todavia algumas ideias fortes dos candidatos e outras tantas opiniões minhas e avulsas:

 

— o PS, em vez de aproveitar o momento para elucidar os eleitores sobre a sua visão e propostas para a Europa, preferiu lançar uma espécie de programa de governo que aumenta, segundo eles, a despesa pública em mais de oitocentos milhões de euros (o que significa para cima de mil milhões), valor a ser compensado fundamentalmente pelo crescimento económico, esse que justificaria e pagaria o TGV, o aeroporto de Beja e a auto-estrada entre Vale da Mula e Preciosas do Vouga, o tal mito socialista-sebastiânico que teimam em esperar mas que nunca chega;

 

— do lado da Aliança Portugal, que por vezes se sugere não ser tão unida assim, ficámos a saber que não têm nojo em beber da mesma garrafa (querem maior confiança e intimidade?): um espumante Murganheira que a Renascença, provavelmente tomada por austeros franciscanos, apelidou de champanhe do melhor;

 

— Marisa Matias, do Bloco de Esquerda, defendeu a inclusão do surf no currículo escolar, medida que me parece relevante sobretudo no interior, onde, acopladas a essa grande inovação, regressariam as saudosas obras públicas de interesse vital sob a forma de piscina de ondas (uma em cada vila ou aldeia), e quando a troika regressasse pouco depois, não de prancha mas em potentes veículos alemães, lá teríamos a Marisa a surfar a onda do "não pagamos";

 

— o PS que, embora num late act, introduziu Sócrates na campanha por considerá-lo uma mais-valia — suponho eu —, admira-se que os cabeças de cartaz da AP o refiram e critiquem;

 

— Marcelo Rebelo de Sousa disse que vale a pena votar na AP por causa de Jean-Claude Junker, isto nas barbas de Paulo Rangel (que emagreceu pelo menos mais 2Kg) e de Nuno Melo (embora este não tenha barba, facto que compensa com um abundante cabelinho à fosga-se);

 

— a eleição de Marinho Pinto parece-me ser uma boa aposta: são capazes de perdoar-nos parte da dívida se o fizermos regressar;

 

— o futuro eurodeputado Fernando Ruas sabe distinguir um carvalho de uma cerejeira;

 

— o futuro eurodeputado Francisco Assis sabe distinguir uma sardinha de um carapau. 

 

Portanto, entre espumante e cerejas do lado de terra, e surf e carapaus do lado do mar, estamos muitíssimo bem servidos.

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Reflexões europeístas (11)

por Pedro Correia, em 22.05.14

 Ulisses Cegando Polifemo, de William Turner (1829)

 

Em Portugal, indiferentes à realidade circundante, os mais diversos protagonistas ocupam a todo o momento os púlpitos mediáticos em pose e tom de salvadores da pátria: propõem medidas populistas destinadas por um lado a colher aplausos fáceis enquanto por outro agravam os riscos da execução orçamental e condicionam as nossas precárias finanças públicas prometendo cortar receitas e aumentar despesas. Exactamente ao contrário do que recomendaria a mais elementar prudência num país que foi sujeito a três intervenções externas de emergência em 38 anos de democracia constitucional.

Como se permanecêssemos mergulhados nos anos de ilusória prosperidade que conduziram à situação actual e a Europa, enquanto projecto de unidade económica e política, não estivesse hoje sob premente ameaça.

Não é preciso sequer ser um espectador diário de telejornais para se divisarem as nuvens negras a crescer no horizonte: antevê-se a prazo uma explosão de nacionalismos exacerbados, violência extremista, tensões xenófobas, pulsões autoritárias. Alguns indícios dessa tendência podem resultar já do escrutínio do próximo domingo.

 

Numa campanha onde ninguém discute a Europa -- quando há um ano não havia ninguém que não antevisse o "fim do euro" ou clamasse palavras de alerta sobre o "fim" da própria Europa -- apetece-me remar contra a corrente. Em defesa desta Europa -- mesmo descaracterizada, mesmo intranquila, mesmo vacilante. Porque a Europa, queiramos ou não, é cada vez mais importante nas vidas de todos nós.

É para a Europa que emigram muitos jovens portugueses.

É da Europa que chega a maior parte do investimento que nos é tão indispensável.

É com a Europa que asseguramos a esmagadora maioria das nossas trocas comerciais.

E é com a Europa que sairemos da crise - jamais contra a Europa.

 

As fronteiras europeias foram durante séculos as mais perigosas do globo. Jean Monnet, Robert Schuman, Alcide di Gasperi, Winston Churchill, Ernest Bevin, Paul-Henri Spaak e Konrad Adenauer -- além do presidente norte-americano Harry Truman, através do Plano Marshall -- contribuíram para diluir conflitos e limar arestas que pareciam insuperáveis, reiventando a Europa que emergiu das cinzas da guerra como um baluarte de cidadania, concórdia, progresso e esperança.

Vivemos numa expectativa tensa, num fugaz tempo de interlúdio. Um tempo em que os deuses morreram e Cristo ainda está por nascer, para usar uma magnífica metáfora de Marguerite Yourcenar -- património franco-belga, património da Europa, património do mundo sem fronteiras.

 

Contra o que apregoam os profetas da desgraça, que tentam dividir para reinar, tenhamos noção daquilo que nos une. A filosofia grega é património comum de cada europeu. Como o direito romano. E a Odisseia, de Homero, que inaugura a história da literatura. Da Vinci é património europeu. Como Mozart.

Não há rasto nem memória de tão rico e diverso património cultural em qualquer outro continente. É algo que nos honra. E deve suscitar-nos orgulho -- de Gdansk a Trieste, de Helsínquia a Lisboa.

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Reféns de Marcelo

por Pedro Correia, em 22.05.14

 

Marcelo Rebelo de Sousa é uma personalidade sem paralelo na política portuguesa. A única neste momento capaz de alargar as margens do centro-direita, dispensando intermediários para comunicar com outras áreas políticas sem nunca perder de vista o ponto de partida.

Os teóricos da actual maioria que sonham com Durão Barroso, Rui Rio e até Assunção Esteves (pasme-se!) como possíveis candidatos presidenciais em 2016 por recearem o carácter sempre imprevisível e irreverente do mais conhecido professor de Direito do País estão a ver o filme todo ao contrário.

Qualquer projecto presidencial que exclua Marcelo é um troféu antecipado de vitória para a esquerda na próxima corrida a Belém.

Pode Paulo Rangel ter ficado de "sorriso amarelo" ao ouvir Marcelo dizer num jantar de apoio à Aliança Popular que "tenciona" (atenção ao verbo) votar nesta coligação pela consideração que lhe merece Jean-Claude Juncker, candidato do Partido Popular Europeu à presidência da Comissão Europeia, omitindo os nomes dos portugueses.

Pode Nuno Melo ter ficado "branco e inerte" ao tê-lo ouvido elogiar Freitas do Amaral, como relata a Ana Catarina Santos neste saborosíssimo texto publicado no seu blogue.

Podem as sumidades dos aparelhos inventar as alternativas que quiserem na desesperada recusa de enxergarem o óbvio. É inútil: PSD e CDS estão reféns de Marcelo.

E quem não perceber isto não percebe nada.

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Reflexões europeístas (10)

por Pedro Correia, em 21.05.14

 

Na campanha em curso para a eleição de domingo, várias forças políticas defendem a saída, unilateral ou negociada, de Portugal do euro. Há mesmo um partido que apela ao regresso imediato ao escudo. As consequências? Depois logo se vê, confessa o cabeça-de-lista sem pruridos nem temores. Chegou a esta indigência o debate político entre nós.

E no entanto devo reconhecer a alguns economistas -- com destaque para João Ferreira do Amaral -- o mérito da coerência, do desassombro e da persistência ao pronunciarem-se contra a permanência portuguesa no euro.

É útil que este debate seja travado. Em todas as etapas da construção europeia, nas últimas três décadas, os decisores políticos colocaram sempre os portugueses perante factos consumados. Refiro-me, em especial, a Mário Soares, Cavaco Silva e António Guterres: nenhum pensou seriamente convocar um referendo sobre esta matéria, todos fizeram questão de colocar o País nos sucessivos "pelotões da frente". Ao contrário, por exemplo, do que fizeram os britânicos, que recusaram dissolver a libra no sistema monetário europeu e obedecer aos ditames do Banco Central Europeu.

 

Dito isto, e reiterando o mérito da discussão, considero absurda a tese que nos pretende reconduzir ao vetusto recanto "orgulhosamente só". Como se Portugal fosse a aldeia do Astérix. Mas sem a poção mágica.

Sem o euro, o impacto da crise dos últimos cinco anos tinha sido ainda mais duro - um facto que não é ignorado nas capitais do Velho Continente. O poder de atracção da UE ficou aliás bem patente no Verão passado: enquanto alguns profetizavam o pior para o destino europeu, a Croácia tornava-se o 28º estado membro da união, com adesão ao euro já prevista para 2017.

Vale a pena parar para pensar: quanto teríamos de pagar em escudos pelas dívidas que contraímos em euros?

Um hipotético regresso ao escudo, com a consequente desvalorização da moeda nacional, conduziria a falências em cadeia, à descapitalização das empresas, à fuga de capitais, ao aumento drástico da dívida pública, a uma inflação galopante, à quebra da coesão social, à radicalização abrupta da nossa vida política e a um empobrecimento dos portugueses em larga escala.

Não admira que o tal nostálgico do escudo tenha respondido com um "logo se vê" ao ser questionado sobre as consequências daquilo que defende...


Por mim, não tenho dúvidas: devemos continuar no euro - tal como farão os espanhóis, nossos principais parceiros comerciais. Mas de olhos bem abertos para este fenómeno imparável que é a globalização. Um fenómeno que nos forçará a reformar o Estado e a repensar as suas funções - não à escala nacional mas à escala continental.
A economia mundial, o livre comércio e a desregulamentação de muitas actividades outrora blindadas à luz dos parâmetros dos "estados nacionais", fazendo da Europa uma fortaleza inexpugnável, colocam-nos problemas novos todos os dias. Não adianta bradar contra eles: seria tão inútil como bradarmos contra a internet e a revolução operada no domínio das telecomunicações.

Além disso devemos pensar que a globalização tem sido uma onda libertadora para quatro quintos da Humanidade.
É a velha Europa que tem de adaptar-se. Não será o resto do mundo a adaptar-se à velha Europa.

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Europeias: siglas e 'slogans'

por Pedro Correia, em 21.05.14

Aliança Portugal (AP)

«Na Europa por Portugal»

 

Bloco de Esquerda (BE)

«De Pé!»

 

Coligação Democrática Unitária (CDU)

«Defender o povo e o País»

 

Livre (L)

«Pela liberdade, pela esquerda, pela Europa e pela ecologia»

 

Movimento Alternativa Socialista (MAS)

«Por um novo 25 de Abril»

 

Nova Democracia (PND)

«Nestas eleições não vote nos mesmos»

 

Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP-MRPP)

«Sair do euro»

 

Partido da Terra (MPT)

«Mais verdade na política»

 

Partido Democrático do Atlântico (PDA)

«A nossa Europa»

 

Partido Nacional Renovador (PNR)

«Portugal aos portugueses»

 

Partido Operário de Unidade Socialista (POUS)

«Sem explorados nem exploradores»

 

Partido Pelos Animais e Pela Natureza (PAN)

«Reestruturar a Europa»

 

Partido Popular Monárquico (PPM)

«Acorda Portugal!»

 

Partido Pró Vida (PPV)

«Vote valores»

 

Partido Socialista (PS)

«Mudança»

 

Partido Trabalhista Português (PTP)

«É preciso votar no José Manuel Coelho»

 

ADENDA: alterei os slogans do MPT e do PDA. Com o meu agradecimento ao leitor daMaia.

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Diário de campanha

por José Gomes André, em 21.05.14

Selfies (ainda por cima falsas, num cartaz que apela a uma "nova confiança"). Os outros que são um vírus. Outros ainda que são nazis. Sócrates, três, quatro, cinco vezes. Os temas que deviam ser europeus e por isso fala-se das pensões e do Governo. E eu que vou acabar com a pobreza. E nós que salvámos o país do apocalipse. E o outro que nunca mais sobe impostos, nem que a vaca tussa. E o surf no Secundário. E umas arruadas sem gente. E umas piadas sem graça. E uns que são muito democráticos e patrióticos, e os outros que são ainda mais democráticos e ainda mais patrióticos. E as sementes, nos tempos de antena, ao lado do tribunal europeu dos direitos dos animais, uma urgência planetária. E uns figurões que dantes eram do Partido X e agora apoiam o Partido Z, e que no futuro serão independentes, ou dependentes, desde que a coisa dê tacho. E uns relógios em contagem decrescente. E o escudo que salvava a malta num ápice. E o protectorado que agora é soberano outra vez (numa campanha para a União Europeia!).

 

Já sabemos que as campanhas eleitorais são poços sem fundo de demagogia e fait-divers. Mas desta vez estão a abusar. Na noite de 25 de Maio, os agentes políticos irão manifestar o seu "enorme pesar pela elevada abstenção". Pena que não estejam a fazer nada para a evitar.

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Frases de 2014 (12)

por Pedro Correia, em 20.05.14

«Apoio a candidatura do Partido Socialista. Faço-o como social-democrata, em coerência

António Capucho, hoje, no tempo de antena do PS

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Reflexões europeístas (9)

por Pedro Correia, em 20.05.14
 
O apogeu do modelo social europeu alicerçou-se entre 1950 e 1980  em espectaculares taxas de crescimento económico e de produção industrial na Europa (na década de 60 o produto francês aumentou em média 5% por ano, enquanto em Portugal e Espanha crescia 6% e na Irlanda 4%, no mesmo período). E deveu-se também à contínua renovação de gerações face à elevada taxa de natalidade. E ao afluxo de matérias-primas baratas, oriundas dos mercados coloniais. E -- pormenor que convém não esquecer -- ocorreu antes do controlo do mercado internacional do petróleo pelas chamadas nações emergentes. E quando mais de dois mil milhões de pessoas -- residentes para além da cortina de ferro e da cortina de bambu ou nos países subdesenvolvidos -- permaneciam à margem do mercado globalizado do trabalho, incapazes portanto de concorrer com os trabalhadores deste lado do planeta.
Tudo isso acabou.
 
Vivemos hoje num mundo pós-colonial, caíram os diques no velho império comunista. A época é já outra.
O "progresso" não nos trouxe só a internet, a pílula do dia seguinte, a televisão por cabo e a easy jet. Trouxe a globalização também no domínio laboral: largas dezenas de países entraram nas últimas duas décadas em competição directa e acesa com a Europa, que deixou fatalmente de estar no centro do mundo.
Um modelo em crise numa Europa em crise? Certamente. Em meio século, o índice de fecundidade caiu quase para metade, de cerca de três filhos por casal em 1960 para 1,6 em 2013. Em 1980 havia no espaço europeu mais 36 milhões de crianças do que reformados, hoje existem mais seis milhões de reformados do que crianças. Com o número de contribuintes para a segurança social a cair e as despesas de saúde a aumentar num continente onde as pessoas com mais de 65 anos deverão ser 22,5% do total de habitantes já em 2025.
Não há sistema de segurança social que resista à implacável dureza desta demografia em declínio. Por algum motivo chamamos Velho Continente à Europa.

Eis-nos portanto num espaço crepuscular, onde cada vez menos cidadãos financiam o estado social, o que conduz fatalmente a uma escolha que é de natureza política mas não pode deixar de ser condicionada por parâmetros financeiros para além dos quadrantes ideológicos: haverá aumentos consecutivos da carga fiscal ou novos cortes nas prestações sociais?
O resto é quadratura do círculo. Ou cenários de alquimia.
Enquanto não descobrirmos petróleo temos de viver com as receitas que gerarmos. A menos que regressemos ao ciclo infernal da dívida & do défice que nos coloque de novo nas mãos dos prestamistas internacionais e nos reconduza a esta apagada e vil tristeza em que começamos por perder o respeito alheio e acabamos por perder também o respeito por nós próprios. Ficando assim à mercê do primeiro candidato a "homem providencial" que se apresentar em palco munido de impecáveis credenciais populistas. Sem um cavalo branco, como o do Sidónio. Mas a galope acelerado, ao ritmo a que a História dos nossos dias se processa.

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Reflexões europeístas (8)

por Pedro Correia, em 19.05.14

 

Algumas forças políticas, em alegada defesa do estado social, consideram que o problema é a Europa. Como se a solução estivesse fora da Europa. Mas não está. Porque a verdade é esta: ou haverá estado social dentro da Europa ou não haverá estado social de todo.

Convém não abusarmos da falta de memória: o estado social português só se generalizou e consolidou após a nossa adesão à Comunidade Económica Europeia. O modelo social europeu é, de resto, uma das grandes conquistas da segunda metade do século XX -- prenunciada na legislação sobre benefícios sociais decretada pelo chanceler alemão Otto von Bismarck ainda no século XIX, e na legislação do Governo da Frente Popular (1936-37) liderado por Léon Blum em França, que concedeu pela primeira vez subsídio de férias aos trabalhadores e reduziu a semana laboral para 40 horas.

Muitos dos que hoje falam desdenhosamente na Europa "dos mercados" esquecem o contributo desta mesma Europa para as conquistas civilizacionais no domínio social. Também neste domínio -- como no da liberdade política, da fruição cultural e na defesa das liberdades essenciais -- a Europa serve de exemplo ao mundo.

 

Portugal só tem hoje estado social porque abandonou as ilusões terceiromundistas do período revolucionário e tomou como referência a Europa. O nosso estado social beneficiou do financiamento europeu, por muito que os vendedores de ilusões pretendam agora convencer-nos do contrário.

De resto, quando hoje alguns se indignam contra os "recuos" sociais em curso, prestam uma homenagem involuntária à década e meia de apogeu do estado social português, que não por acaso coincidiu com o período de maior prosperidade de que guardamos memória - um período que correspondeu aos mandatos dos primeiros-ministros Cavaco Silva e António Guterres, entre 1986 e 2001.

 

O problema é que o estado social não existe no vácuo. Se alguma lição a crise que conduziu à intervenção financeira externa em Portugal entre 2011 e 2014 nos ensinou foi esta: o ajustamento orçamental é condição indispensável para um Estado assumir livremente opções de carácter político. Há que manter uma relação equilibrada entre as receitas que somos capazes de gerar e o nosso montante de despesa pública.

Desde logo perante esta realidade inelutável: os pensionistas do sistema geral e da Caixa Geral de Aposentações representam 40% da nossa população e Portugal gasta 26,4% da riqueza que produz em despesas sociais (acima de países como a Alemanha, a Holanda, o Reino Unido, a Hungria, a Polónia, a Grécia, a Noruega e o Luxemburgo, em termos percentuais).

Num país ainda marcado por graves assimetrias sociais, como o nosso, as desigualdades agravam-se num cenário de colapso das contas públicas -- que fatalmente lesam mais os pobres do que os ricos. É inútil, portanto, separar a economia das finanças. A economia só adquire real autonomia num quadro de finanças sustentáveis, com um sistema bancário capitalizado. Não há "escolhas políticas" num país falido.

O que, podendo ser dramático, tem pelo menos o mérito de clarificar o rumo a seguir.

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As quinze medidas de Seguro

por Helena Sacadura Cabral, em 18.05.14

Das oitenta medidas saídas da Convenção Novo Rumo, ao que lemos, Seguro comprometeu-se com as quinze que se discriminam abaixo:

1.- Acabar com a "TSU dos pensionistas".

2.- Revogar os cortes no complemento solidário para idosos:

3.- Não despedir funcionários públicos: .

4.- Acabar com a sobretaxa de IRS:

5.- Alcançar um novo acordo de concertação social.

6.- Avançar com o Plano de re-industrialização 4.0:

7.- Criar a Estação Oceânica Internacional nos Açores

8.- Pacto para o emprego:

9.- Não aumentar a carga fiscal na próxima legislatura.

10.- Separar o sector público e privado na saúde. Os profissionais recém chegados terão de trabalhar em exclusividade para o Serviço Nacional de Saúde.

11.- Reduzir a taxa de abandono escolar dos actuais 20% para 10% durante a próxima legislatura.

12.- Recusar o plafonamento das contribuições para s Segurança Social.

13.- Cumprir as metas do Tratado Orçamental, alcançando uma meta de 0,5% do défice a médio prazo e renegociação das condições da dívida pública".

14.- Promover a reforma do Estado alterando os processos e sem fazer cortes.

15.- Defender uma nova agenda europeia

Curiosamente, estas medidas que se compreenderiam numa campanha para as legislativas, aparecem extemporaneamente na campanha para as europeias...

Quanto ao conteúdo, voltaremos ao assunto, depois de eu ler as oitenta acima referidas. Uma correria, depois das 120 de Paulo Portas. Eles andam numa maratona. E nós, com eles! 

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Tirada infeliz!

por Helena Sacadura Cabral, em 18.05.14
António Costa, numa intervenção na Convenção "Novo Rumo para Portugal" do PS, pôs a plateia a rir, ao procurar ilustrar a realidade do Governo com um anúncio publicitário em que entra o jogador de futebol Cristiano Ronaldo e a actriz Rita Blanco, a Dona Inércia.

"Longe do virtuosismo de Cristiano Ronaldo, este é mesmo o Governo da Dona Inércia. Por ser o Governo da Dona Inércia, é que só se preocupa com a taxa de juro, julgando como a pobre da Dona Inércia que, tendo a mesmo taxa de juro do Ronaldo, ganha o mesmo que o Ronaldo", apontou.

António Costa contrapôs que Portugal é um país "de gente que trabalha e que não está aqui para viver da riqueza das taxas de juro", esquecendo-se de que, quer Cristiano, quer Rita Blanco são, em Portugal, um exemplo do que os políticos deviam fazer e não fazem... Nomeadamente, a actriz que é aqui que ganha a sua vida. 
Com a agravante de que CR, no anúncio, representa o seu próprio papel e Rita representa muita gente trabalhadora, para quem a poupança é um esforço enorme para minorar as agruras do futuro!
E assim vai a política em Portugal, com os seus novos rumos e as tiradas infelizes que os ilustram!

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Reflexões europeístas (7)

por Pedro Correia, em 18.05.14

 

"Nós, europeus” – expressão que leio num dos principais cartazes de propaganda eleitoral na pré-campanha já em curso – significa exactamente o quê?

Que a condição europeia é uma espécie de estádio superior de cidadania? Ou que, pelo contrário, somos um sujeito sem predicado? Somos uma realidade geográfica, confinada às fronteiras históricas do Velho Continente? Nesta hipótese, significa isso que excluimos a Turquia – país maioritariamente asiático – do espaço europeu?

“Nós, europeus” significa que somos europeus antes de ser portugueses? Isso exclui-me a mim, que me sinto português antes de ser europeu? Excluimos os africanos, asiáticos e americanos que vivem em Portugal e até podem já votar nas eleições autárquicas? E não há portugueses africanos? E não há portugueses asiáticos? E não há portugueses americanos? Portugal, país de emigrantes, pode ser considerado apenas pela sua componente europeia, excluindo os portugueses que não se encaixam nesta dimensão? Portugal, país de imigrantes, pode ser considerado apenas pela sua componente europeia, excluindo os aqui radicados que não se encaixam nesta dimensão?

 

O facto de estas eleições se destinarem a eleger o novo elenco do Parlamento Europeu significa algo mais que isso? Que leitura política devemos fazer se a abstenção for gigantesca?

 

"Nós, europeus”, temos uma língua comum? “Nós, europeus”, temos um exército comum? “Nós, europeus”, temos um sistema político comum que nos torna simultaneamente concidadãos do senhor Nicolas Sarkozy, súbditos da senhora Elizabeth de Windsor e vassalos da burocracia de Bruxelas?

São “europeus” os valões que querem separar-se dos flamengos e os flamengos que querem separar-se dos valões na minúscula Bélgica?

São “europeus” os bascos nacionalistas que matam bascos que se sentem espanhóis?

Gibraltar é “europeia”? Olivença é “europeia”? As Ilhas Caimão são “Europa”? Guadalupe e Reunião são “Europa”? A Union Jack deixou de ser hasteada em Guernsey, terra do exílio de Victor Hugo, com a costa francesa ali defronte?

A União Europeia pode ser construída sem europeus?

"Nós, europeus” significa exactamente o quê?

 

A quantidade de perguntas que um simples cartaz pode suscitar.

 

Texto aqui publicado durante a campanha eleitoral de 2009 e que decidi reeditar

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Reflexões europeístas (6)

por Pedro Correia, em 17.05.14

 

Ignoro se haverá algum debate entre os candidatos dos diversos partidos à eleição do próximo dia 25. Mas se houver deixo aqui dez sugestões de temas europeus que justificam discussão.

 

1. A Turquia deve entrar na União Europeia? Antes ou depois de solucionada a questão de Chipre? Quanto custará a adesão turca a cada contribuinte português?

2. A União Monetária deve prosseguir? E em que moldes? Os efeitos da crise foram ou não agravados pela existência da moeda única? Portugal deve abandonar a zona euro?

3. O Pacto de Estabilidade e Crescimento deve ser revogado? Este pacto potenciou os efeitos da crise nos países da União Europeia?

4. Deve ser aprovada uma nova Agenda de Lisboa, que privilegie as políticas sociais e a criação de emprego?

5. Que política de imigração deve adoptar a União Europeia? Faz sentido reequacionar os critérios que levaram à adopção do Espaço Schengen?

6. Deve ser renovada a Aliança Transatlântica, pilar das relações entre a UE e os Estados Unidos? Faz sentido acelerar a criação de um exército europeu em prejuízo da cooperação militar com Washington?

7. A UE deve continuar a reger-se pelo princípio da intergovernabilidade ou privilegiar o reforço dos poderes efectivos do Parlamento Europeu?

8. Se parcelas dos actuais Estados membros declararem a independência -- na sequência de um referendo, como se anuncia na Escócia, ou de modo unilateral, como pode vir a suceder na Catalunha -- esses novos países receberão luz verde para se tornarem a curto prazo membros da UE? Que limites devem ser estabelecidos ao tradicional princípio da inviolabilidade das fronteiras?

9. Durão Barroso foi um bom presidente da Comissão Europeia? Em caso afirmativo, destacou-se em que domínios? Em caso negativo, qual o seu pior legado?

10. A União Europeia deve ampliar-se para lá do perímetro do continente europeu? E até onde?

 

Gostava de ver estes temas debatidos pelos cabeças-de-lista. Até para perceber se cada um deles tem um pensamento minimamente estruturado a propósito destas questões. Apostaria que não. Mas admito estar enganado.

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Reflexões europeístas (5)

por Pedro Correia, em 16.05.14

 Ruínas do Templo de Delfos, no Monte Parnaso (Grécia central)

 

A Europa, tal como foi imaginada pelos seus pais fundadores, é inseparável de um projecto de crescimento e desenvolvimento, tanto no plano económico como no plano social e cultural.

O balanço da integração europeia também deve fazer-se a este nível: que qualidade de vida têm os cidadãos da União Europeia em comparação com quem habita outros pedaços do mundo?

 

A resposta bem fundamentada a esta questão é demolidora para as teses eurocépticas. Porque o balanço é incomparavelmente positivo para o Velho Continente nestas quase seis décadas de integração europeia.

Desde logo porque o espaço europeu é inseparável da democracia política. Portugal, Espanha e Grécia apenas receberam luz verde para ingressar na Comunidade Económica Europeia após a queda dos respectivos regimes ditatoriais. A mesma lógica aplicou-se aos países da Europa de Leste, que só começaram a libertar-se das ditaduras comunistas a partir de 1989.

Ter a democracia como senha de identidade comum a todos os Estados-membros confere uma irrefutável autoridade moral à União Europeia. Este é um património inestimável, que não pode ser desperdiçado ao sabor de ventos conjunturais. E que deve ser continuamente valorizado, nas palavas e nos actos dos protagonistas políticos deste espaço civilizacional herdeiro da pedagogia filosófica da Grécia clássica e do primado da lei posto em prática na Roma antiga.

 

A democracia não se esgota no plano político: tem repercussões inevitáveis em todos os domínios da actividade humana. E também neste aspecto a Europa tem motivos de genuíno orgulho no confronto com qualquer dos restantes fragmentos do globo.

Em que outro recanto do planeta existe tanta liberdade de expressão?

Em que outro continente há tanta criatividade e fruição artística?

Em que parcela do vasto mundo habitada pela espécie humana existe tanta liberdade de imprensa e tanto pluralismo político?

Onde haverá menos desigualdade social do que na velha e tolerante Europa?

Nenhum outro continente propicia o aparecimento de tantos poetas, cientistas, pensadores, filósofos, inventores, arquitectos, engenheiros, ambientalistas, génios de todo o género, profetas de todos os matizes.

 

Este é um património único. Mas é também um património frágil. Compete a cada um de nós contribuir para a sua preservação, algo que não é tarefa sujeita a prazo ou calendário: é uma batalha de todos os dias.

Contra o discurso flagelatório proferido pelas sentinelas de turno das brigadas eurocépticas.

Contra os que semeiam ventos para colher tempestades.

Contra os arautos de novos paraísos, tão tentadores quanto inviáveis.

Contra os vendedores de utopias a granel, que prometem aos povos futuros patamares de sonho que redundam sempre em pesadelo.

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Reflexões europeístas (4)

por Pedro Correia, em 15.05.14

 

É impossível usufruirmos do melhor de dois mundos. Não há benefícios sem sacrifícios.

Do qual estamos afinal, nós, europeus, dispostos a abdicar?

Não podemos fechar as fronteiras nem travar a torrente globalizadora. Já não vivemos no tempo dos amplos mercados coloniais, nem das matérias-primas a desaguar na Europa a baixos preços, nem da natalidade elevadíssima, nem dos níveis de crescimento económico superiores a 5% que serviram de base a três décadas de contínua prosperidade, fazendo do nosso continente o que é, no período subsequente à II Guerra Mundial, e permitiram que o Estado-providência se tornasse no que se tornou.

Temos graves problemas estruturais numa zona euro sob ameaça de estagnação económica. Entretanto, outras parte do globo crescem: enfrentamos a concorrência imparável dos mercados emergentes.

O Plano Marshall, que entre 1948 e 1952 fez desaguar no Velho Continente uma quantia equivalente a 148 mil milhões de dólares (ao câmbio actual), em assistência técnica e económica, é irrepetível. E, se o não fosse, apontaria noutras direcções, hoje muito mais carenciadas. Porque a guerra na Europa terminou há 69 anos.

Imaginar que nada disto beliscaria as políticas de redistribuição e que o estado-providência permaneceria inalterado é acreditar que existe um pote de ouro no fim de cada arco-íris.

De que parcela deste Estado-providência estamos dispostos a abdicar?

Que nível fiscal estamos dispostos a suportar?

Aceitaremos a redução das pensões de reforma para adequar os pagamentos ao nível de contribuições existente quebrando um pacto intergeracional  devido às novas imposições da demografia?

Ou, em alternativa, deverão cada vez menos cidadãos suportar contribuições cada vez maiores? E estas perguntas não são retóricas. São cruciais. Iludi-las não nos conduzirá a lado nenhum. Ou antes: conduzirá ao progressivo definhamento da Europa, que vista de outras paragens se arrisca a parecer uma senhora parada no tempo, alimentando-se da difusa nostalgia de um passado que não regressa.

Uma espécie de Gloria Swanson em Sunset Boulevard.

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Reflexões europeístas (3)

por Pedro Correia, em 14.05.14

 

O que vemos por essa Europa fora?

A Ucrânia ameaça fragmentar-se sob fortíssima pressão russa depois da recente humilhação sofrida na Crimeia, anexada por tropas de Moscovo à margem do direito internacional. A Escócia avança para um referendo independentista, pronta a cortar os elos políticos com Londres. Húngaros e eslovacos esgrimem tensos argumentos dos dois lados da fronteira. A minoria húngara na Roménia reclama direitos que, segundo garante, não lhe são reconhecidos. O mesmo se passa com a minoria russa na Letónia. O exército turco desfila em parada para lembrar o dia em que esmagou os invasores de Atenas, conquistando-lhes a Trácia. Chipre é uma ilha dividida há 30 anos entre gregos e turcos, armados até aos dentes. Bascos e catalães estão em pré-ruptura com Madrid. Na Finlândia e na Lituânia, as recordações dos massacres soviéticos ainda ferem muitas sensibilidades. A Bélgica ameaça implodir a todo o momento, fragmentada por conflitos étnicos e linguísticos. Na Padânia aumentam as vozes dos que defendem um movimento secessionista destinado a amputar todo o norte da Itália. A Córsega persiste na luta contra o centralismo jacobino do Estado francês. A Transnítria, em pré-ruptura com a Moldávia, pode seguir os passos da Ossétia do Sul e da Abcásia em relação à Geórgia, privilegiando os laços políticos com Moscovo. Os Balcãs são um barril de pólvora temporariamente neutralizado. Na antiga Alemanha de Leste crescem os sentimentos xenófobos: os movimentos de extrema-direita atingem já mais de 20 por cento das simpatias dos eleitores jovens em certas cidades.

 

A Europa é uma construção política demasiado frágil para podermos adormecer confiados em sonhos de paz perpétua. Não nos iludamos: este continente em que vivemos mantém feridas mal cicatrizadas, fronteiras mal definidas, conflitos de toda a natureza que poderão reavivar-se a qualquer pretexto.

Inflamar os nacionalismos é acender um rastilho de proporções impensáveis. Que pode desde logo virar-se contra os seus autores, materiais ou espirituais. É esse, aliás, o destino de todos os aprendizes de feiticeiro.

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Frases de 2014 (11)

por Pedro Correia, em 13.05.14

«Eu não quero fazer parte do Parlamento Europeu.»

Carmelinda Pereira, candidata ao Parlamento Europeu

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Reflexões europeístas (2)

por Pedro Correia, em 13.05.14

Dresden em ruínas (1945)

 

Se o euro sucumbisse, a Europa voltaria a mergulhar na guerra no prazo máximo de uma década.

É uma profecia arrepiante. Mas nem por isso deixou de ser escutada com máxima atenção pelos dirigentes da União Europeia. Foi feita em 2011 pelo então ministro polaco das Finanças, Jacek Rostowski, um homem que experimentou na pele o drama de uma Europa dividida: nasceu no Reino Unido, quando a família ali se encontrava refugiada na sequência da agressão conjunta ao seu país cometida por nazis e comunistas. A sua biografia pessoal conferia-lhe particular autoridade moral para lançar este aviso. Não esqueçamos que as duas guerras mundiais, ocorridas no último século, começaram precisamente na Europa. Quando a primeira começou, no dia 28 de Julho de 1914, ninguém acreditava que seria para durar. No final, quatro anos mais tarde, tinha deixado um macabro cortejo: pelo menos 35 milhões de vítimas.

O hipernacionalismo foi o maior vírus que desagregou o continente nesses dias tão trágicos. E o pior é que viria a desagregá-lo novamente vinte anos mais tarde. Dir-se-ia que temos a maior dificuldade em escutar os ecos que a História nos transmite, tantas vezes com o seu inapagável cortejo de horrores.

Recomendo, a propósito, a leitura das memórias de Stefan Zweig, O Mundo de Ontem: aquele período surge lá exemplarmente descrito. «Foi uma vaga que se abateu com tanta violência, tão subitamente sobre a humanidade que, ao cobrir de espuma a superfície, trouxe ao de cima as tendências obscuras do inconsciente e os instintos do animal humano -- aquilo a que Freud, numa visão profunda, deu o nome de "sentimento de aversão pela cultura", a necessidade de se romper uma vez com o mundo das leis e dos parágrafos e de se dar rédea solta aos instintos sanguinários primitivos», recorda o grande escritor austríaco.

Um dos problemas da História é este mesmo: pode repetir-se a qualquer momento. Sobretudo quando as lições que nos vai deixando persistem em não ser escutadas.

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