Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Isto é só um "supônhamos", claro

por Rui Rocha, em 19.10.15

Cavaco indigita Passos Coelho. Passos Coelho não consegue acordo com o PS. O Governo minoritário de Passos Coelho apresenta ao Parlamento um Programa de Governo declacado sobre o Programa Eleitoral do PS. Avulta, entre outros, o propósito de promover a educação de adultos.  António Costa é acometido por uma febre súbita e tem de ausentar-se no momento em que o PS acaba, depois de muitos avanços e recuos, por abster-se, viabilizando a continuidade em funções do Governo. Costa fica melhorzinho. O Governo de Passos Coelho apresenta no Parlamento um Orçamento decalcado sobre o Cenário Macroeconómico do Centeno e que segue muito de perto o Programa Eleitoral do PS e as medidas que Costa foi prometendo de forma avulsa. Avultam, entre outras, uma verba generosa para a educação de adultos, as descidas do IVA da restauração e da TSU, esta compensada pelo aumento das portagens em todo o país, com excepção das da zona da Covilhã (onde baixam significativamente).  Costa desmaia e é retirado do hemiciclo em braços.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O suicídio político de António Costa

por Rui Rocha, em 16.10.15

O que é incrível na estratégia de Costa  é o facto de este ter colocado a decisão sobre o seu futuro político e o do PS integralmente nas mãos do PCP. Acontecerá a Costa o que Jerónimo quiser. Basta uma insistência mais ou menos subtil dos comunistas em algum dos pontos programáticos do PCP inconciliáveis com a moderação socialista e Costa esbarrará irremdiavelmente contra a parede (ou contra o Muro), com o consequente descrédito sobre a sua liderança e sobre o rumo errático do PS. Ora, neste cenário, a pergunta que fica é saber qual o desfecho que melhor serve os interesses do PCP: assumir uma linha de suporte a um governo do PS, prescindindo de alguns (muitos, na verdade) aspectos mais vincados do seu programa com o consequente esbatimento da percepção pelos eleitores do seu espaço político natural das diferenças face ao PS, ou aproveitar o momento para puxar o tapete a Costa, lançando os socialistas numa grave crise interna e reforçando a capitalização do descontentamento do eleitorado de esquerda?  A resposta não parece díficil de encontrar. Muito mais difícil é entender que Costa não tenha confiado aos militantes do PS a discussão interna do seu futuro político e do partido, preferindo entregar a chave da decisão ao PCP e a Jerónimo de Sousa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Centralismo democrático no PS?

por Rui Rocha, em 12.10.15

Ora então vamos lá ver. De acordo com milhões de tuits, posts e comentários produzidos nos últimos dias, a esquerda tem uma legitimidade inquestionável para assumir uma solução governativa. Pois bem. Se foi essa a vontade do povo expressa de forma inequívoca e esmagadora (62% dos portugueses terão querido pouco menos do que escorraçar a direita), qual o sentido de referendar agora dentro do PS, como sugerem alguns,aquilo que foi a mensagem clara expressa em sufrágio? Se toda esta narrativa estava certa, este referendo a realizar-se só pode ter uma interpretação: o PS prepara-se para aderir ao centralismo democrático que pensávamos ser uma marca distintiva dos partidos comunistas leninistas. Se for assim, deve reconhecer-se que estamos perante um sinal evidente de que, na verdade, PS e PCP não estão assim tão distantes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ortopedix tinha razão

por João Campos, em 10.10.15

asterix e o presente de cesar excerto.jpg

As épocas de eleições fazem-me sempre regressar às páginas de Astérix e o Presente de César, quando o vetusto Abraracourcix (continuo a usar os nomes que conheci nas traduções da Meribérica) e o recém-chegado Ortopedix se enfrentam em campanha eleitoral pela liderança dos irredutíveis gauleses. E esse regresso chega sempre a estas três vinhetas, e ao cinismo tão certeiro de Ortopedix: os números dizem o que quisermos. Como, aliás, a esquerda cá da paróquia tanto se tem esforçado por demonstrar desde Domingo último, quando se confirmaram os resultados eleitorais que as sondagens vinham anunciando.

 

A interpretação é lógica - retorcida, mas lógica. Como a coligação PSD-CDS perdeu a maioria absoluta e o Parlamento tem agora uma maioria de esquerda (de várias esquerdas, mas tais diferenças foram reduzidas à condição de pormenores, pelos vistos), deve ser essa maioria de esquerda a formar Governo - apesar de nenhum desses partidos, por si (já que não se apresentaram a eleições coligados - outro pormenor), ter ganho as eleições. Ainda que a Constituição possa dar legitimidade ao caldo, dificilmente os portugueses o dariam (mais um pormenor). Já o argumento, esse, é hilariante: 61,4% dos eleitores rejeitou um Governo da coligação, pelo que deve ser a Esquerda unida - derrotada em separado - que deve governar.

 

É uma lógica interessante, e que permite algumas interpretações não menos interessantes. Como, por exemplo:

 

  • 67,6% dos eleitores portugueses não quis que o PS fosse Governo;
  • 89,8% dos eleitores portugueses não quis o Bloco de Esquerda no Governo;
  • 91.7% dos eleitores portugueses não quis a CDU no Governo
  • 81.5% dos eleitores portugueses não quis o Bloco de Esquerda e a CDU no Governo.

 

Dito de outra forma: a mesma lógica que os partidos da esquerda utilizam para dar a coligação de direita como derrotada nas eleições pode muito bem servir para rejeitar a solução por eles proposta. É caso para regressarmos a Ortopedix: os números dizem mesmo o que quisermos. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Admirável mundo novo (II)

por Rui Rocha, em 08.10.15

Com o PCP num Governo de Costa e Rebelo de Sousa na Presidência, os símbolos da pátria passarão a ser a Foice e o Marcelo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ponto de situação

por Rui Rocha, em 06.10.15

- Dr. António Costa, peço-lhe que seja claro nas suas respostas. Está disponível para, em determinadas condições, viabilizar um orçamento da Coligação? Responda, por favor, com sim ou não.
- Sim ou não.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vamos a factos

por Rui Rocha, em 06.10.15

Desde que o Dr. António Costa perdeu as eleições ainda não tivemos um dia de sol aberto. A partir daqui, cada um tirará as suas conclusões.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Como parece estar na moda...

por José António Abreu, em 05.10.15

Blogue_eleicoe2015_mapa.jpg

 SECESSÃO, JÁ!

 

(Infografia: Legislativas2015.pt)

Autoria e outros dados (tags, etc)

E afinal

por José António Abreu, em 05.10.15

as sondagens estavam certas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As moscas não mudaram muito e a Merkel é a mesma.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os gregos têm razão, pá

por José António Abreu, em 04.10.15

Aquela regra dos cinquenta deputados extra para o partido mais votado - que em Janeiro permitiu tantas alegrias a PS, PC e Bloco - hoje tinha dado jeito.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Das viabilizações

por José António Abreu, em 04.10.15

Do discurso de António Costa parecia retirar-se que os vencedores apenas teriam condições para governar se o fizessem com as políticas do derrotado. No fundo, a rábula habitual do PC e do Bloco que, no PS, dificilmente poderia ser levada a sério. Quando, em meados de 2016, fosse possível efectuar novas eleições, os socialistas pagariam um preço altíssimo por terem mergulhado o país no caos. Passos e Portas sabem-no. Na fase de perguntas e respostas, Costa mostrou também o saber.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Imagino a cara do Cavaco

por Rui Rocha, em 04.10.15

Quando amanhã, ao acordar, vir os resultados e perceber a encrenca em que está metido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Hipótese estapafúrdia?

por José António Abreu, em 04.10.15

E se ainda esta noite Passos e Portas convidassem o PS para o governo?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O grande risco

por José António Abreu, em 04.10.15

Que, prevendo a realização de novas eleições dentro de um ou dois anos, PSD e CDS optem por uma governação populista.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estado de negação

por José António Abreu, em 04.10.15

Em grande medida, o PS perdeu por abandonar o centro e virar à esquerda. E agora, em vez de extrair lições do resultado e perceber que, na votação do programa de governo e do próximo orçamento, lhe resta a abstenção - ainda que "violenta" -, dá sinais de pretender governar, o que o forçaria a virar ainda mais à esquerda e a tornar-se refém do PC e do Bloco.

Mas neste momento a desilusão é tanta que se perdoam alguns desvarios.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sejamos sérios

por Rui Rocha, em 04.10.15

Com ou sem maioria absoluta da Coligação, António Costa foi derrotado em toda a linha. Depois do desastre da campanha eleitoral que protagonizou, só faltaria agora que tentasse aproveitar-se, de forma oportunística, dos resultados daqueles que, à esquerda, não quiseram votar nele. Só há um caminho sério: a demissão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Marco António Costa é da PàF?

por Rui Rocha, em 04.10.15

Sinto-me enganado!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Brigada da moral e bons costumes

por João André, em 04.10.15

Os portugueses gostam de S&M. Especialmente M.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O fim da romaria

por João Campos, em 04.10.15

Durante anos, Domingo de eleições foi sinónimo de fim-de-semana de viagem até à terra-natal. Para visitar a família, para rever os amigos, para voltar a caminhar pelas ruas da aldeia que sempre conhecerei tão bem. E, claro, para votar. Não por me sentir na obrigação de o fazer (o discurso moralista que trata quem se abstém - seja por que motivo for - como se fossem idiotas irresponsáveis irrita-me como poucos), mas por querer simplesmente fazê-lo. Por considerar importante fazê-lo. E por tudo isso, ao longo de doze anos fiz os quatrocentos quilómetros (mais coisa, menos coisa) para ir à terra, botar a cruz no boletim, e voltar (carregado de batatas e de vitualhas diversas, claro). Julgo que falhei umas Europeias, por qualquer motivo. Mas não perdi Legislativas, não faltei a Presidenciais, e, claro, nunca me passou pela cabeça não contribuir para a escolhas da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal nas Autárquicas (mesmo que no Alentejo o meu voto pouco pudesse fazer). 

 

Este ano foi diferente. Os trinta anos pareceram-me uma boa idade para finalmente mudar a minha área de residência oficial (leia-se: no cartão do cidadão) para Lisboa, onde tenho vivido nos últimos doze. E por isso já não apanhei o último Intercidades de Sexta-feira; neste Domingo chuvoso já não subi a avenida da aldeia, já não entrei no recinto da minha velha escola primária, e já não entrei naquela sala colorida de papel de lustro e aguarelas (os miúdos da primária ainda fazem trabalhos manuais?) para escolher aquele que julgo ser o mal menor para o país nos quatro anos que se seguem. Já não volto ao fim do dia de hoje carregado de vitualhas. Este ano o voto foi numa escola em Benfica, maior do que todas as escolas do meu concelho juntas. O ambiente, esse, era de feira - carrinho de castanhas de um lado do portão, banca de bolos sortidos do outro, barraca de churros e farturas do outro lado da rua parcialmente bloqueada por carros estacionados em segunda fila (ah, o lisboeta, sempre artista na hora de encostar o carro). Muita gente a entrar, a sair, a ficar por ali - gente mais do que suficiente para encher a minha aldeia duas ou três vezes.

 

É mais simples, mais prático, muitíssimo mais conveniente - cinco minutos de autocarro para lá, e para cá até se pode voltar a pé se não chover demasiado. Mas não consegui evitar a sensação de que me faltou qualquer coisa hoje. Como se antes o dia de eleições fosse pretexto para uma romaria, doravante reduzida a um passeio pelo bairro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Está aberto o precedente

por Rui Rocha, em 04.10.15

Se perder, Costa poderá vir a solicitar a repetição do acto eleitoral devido ao nevoeiro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Empreendedorismo

por Rui Rocha, em 04.10.15

Está a por-se uma tarde muito jeitosa para montar um negócio de amolar instrumentos de corte junto de determinada sede partidária.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Há uns tempos que não a via assim

por Rui Rocha, em 04.10.15

Tive uma certa dificuldade em reconhecer a Joana Amaral Dias.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fizeram-lhe bem as punhaladas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vara mais magro, Sócrates um sucesso entre as velhotas do bairro e sempre com a mesma vozinha irritante, Salgado o único com tomates para aparecer de colarinho branco.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Costa, o democrata

por Rui Rocha, em 04.10.15

Notável a contenção que revelou nas declarações aos órgãos de comunicação social depois de exercer o direito de voto numa secção instalada numa sociedade recreativa. Registo que não ameaçou pessoalmente os eleitores que votarem noutros partidos políticos e nem sequer recorreu ao imperativo ou a palavrões para apelar ao voto no partido que lidera.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Já está!

por Rui Rocha, em 04.10.15

Gostaria de referir, em todo o caso, que esta coisa do depósito do voto em urna é um método algo arcaico. Nas presidenciais, sou capaz de experimentar a cremação do boletim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Serviço público DELITO DE OPINIÃO

por Rui Rocha, em 04.10.15
Como posso saber o meu número de eleitor?

Pode obter essa informação, mesmo no dia da eleição:Na junta de freguesia do seu local de residência; Através de SMS (gratuito) para 3838, com a mensagem “RE (espaço) número de CC/BI (espaço) data de nascimento=aaaammdd”. Ex: "RE 7424071 19820803"; Na Internet em www.recenseamento.mai.gov.pt.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Se as previsões metereológicas estiverem certas e nem com a chuva e o vento fustigando essencialmente a região Norte no dia das eleições o PS conseguir vencer - e não por «poucochinho» -, então algo terá mesmo corrido terrivelmente mal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os passos de Passos não foram perdidos

por José António Abreu, em 02.10.15

1. Governo

Em Janeiro de 2013, estavam os sinais de retoma económica ainda escondidos pelas peculiaridades da quarta dimensão (o extra-Euclidiano «tempo» e a sua patusca componente «futuro), escrevi que, não obstante muitos defeitos – tinha imensos, já na altura –, achava este governo um dos melhores, se não o melhor, da Terceira República. Muitas coisas ocorreram desde então: os chumbos mais mediáticos do Tribunal Constitucional, as revisões para cima dos objectivos do défice, a crise da «irreversibilidade» de Paulo Portas, o início da descida da taxa de desemprego, o desvanecimento da tão-certa-quanto-maligna «espiral recessiva», o aumento sustentado das exportações, o saldo das contas externas positivo pela primeira vez em décadas, o fim do programa de assistência financeira sem necessidade de segundo resgate ou de programa cautelar, o escândalo dos Vistos Gold, a reforma do mapa judiciário, a confusão na abertura do ano lectivo de 2014, o colapso do Grupo Espírito Santo, o processo de privatização da TAP. Embora acomodando mais algumas discordâncias e desilusões, a minha opinião manteve-se. E gostaria hoje, a dois dias das eleições, de regressar a dois destes temas, que me parecem definir um traço fundamental no governo e, muito particularmente, em Pedro Passos Coelho: a crise provocada pela demissão de Paulo Portas e a falência do Grupo Espírito Santo.

 

2. Desilusão 

Como os políticos gostam de dizer, permitam-me começar por um enquadramento. Na sexta-feira imediatamente anterior às eleições de 2011, escrevi:

9. Gostei da clareza do programa do PSD, apesar de existirem pontos em que não me revejo e outros em que receio se vá demasiado longe no futuro. [...] Desconfio de muitas pessoas que rodeiam Passos Coelho e detesto os aparelhistas e os caciques do partido. Não gosto da falta de clareza que o CDS manteve durante a campanha em relação a vários assuntos delicados, incluindo possíveis cenários de coligação. Considero que nos últimos anos fez uma oposição mais coerente do que do que a do PSD e prefiro, apesar de tudo, a equipa que rodeia Portas, por inexperiente que seja – ou talvez por causa disso.

10. Os próximos anos vão ser muito, muito difíceis.

11. Até domingo decidirei em que partido voto.

Votei CDS. Arrependi-me, acima de tudo por causa das tentativas que Paulo Portas foi fazendo para se dissociar – e dissociar o CDS – das medidas mais impopulares que o governo aplicava. Mesmo gostando pouco de organizações pejadas de gente com mais interesses do que convicções (como são todos os grandes partidos), se PSD e CDS concorressem separados às eleições do próximo domingo, o CDS perderia o meu voto e PSD ganhá-lo-ia.

 

3. Surpresa

Portas pode ter frustrado as minhas expectativas (reconheço-lhe, não obstante, uma capacidade de trabalho notável, que ajudou aos bons resultados das exportações) mas Passos ultrapassou-as – largamente. Contra uma esquerda radical ululante, contra um PS populista que sempre recusou assumir responsabilidades na situação a que o país chegara e colaborar nas medidas para o tirar dela, contra os «barões» do PSD, muitos dos quais afirmando o contrário do que antes haviam defendido, contra uma miríade de comentadores e «especialistas», contra sectores do Estado gordos, ineficientes e pouco habituados a constrangimentos, contra grupos económicos muito habituados aos negócios provenientes do Estado, contra quase toda a comunicação social, de maneira serena e sem autoritarismos (nunca ninguém teve razões para lhe chamar «animal feroz»), Passos aguentou o barco durante quatro anos e meio. Cometeu erros mas soube ultrapassá-los, aguentando firme ou recuando quando se tornou evidente que a alternativa seria pior – para ele, claro, mas também para o país.

 

4. «Não» a Portas

Quiçá por, em 2011, ter derrotado um Sócrates tão combativo, manipulador e histriónico como sempre mas bastante debilitado pelo falhanço clamoroso do rumo que insistira em seguir, muita gente continuou a subestimar as capacidades políticas de Passos Coelho até aos dias que se seguiram à demissão de Paulo Portas, no Verão de 2013. Nesses dias, ele mostrou que – não obstante o virulento cepticismo dos «pais» da República – era afinal um político de primeira. Nesses dias, fez algo que – admito – não julguei possível: manter o governo em funções, forçar Portas a reconsiderar, usando para isso o próprio CDS, e, na sequência dos esforços de Cavaco Silva para arranjar uma solução que envolvesse os socialistas, manter inteligentemente disponibilidade para negociar, ciente de que António José Seguro estava manietado por radicais que não aceitariam – como ainda não aceitam – compromissos. (Os quais – oh, ironias – lhes teriam dado em 2014 o que talvez não venham a conseguir em 2015.) Mais: partiu desse momento crítico para deixar de lado animosidades pessoais e criar uma melhor relação com Portas, bem visível durante a presente campanha. (Passos aproveitou a fraqueza de Portas, que ficara sem margem para novos erros, mas obviamente – até porque estas coisas são mais instintivas do que racionais – este terá parte do mérito na evolução que se constata.)

No Verão de 2013, nasceu outro Passos: o político que ninguém pode subestimar. Algo que os resultados das sondagens vêm confirmando, para surpresa e irritação de quase todos os socialistas, dos «barões» do PSD e de muito comentadores.

 

5. «Não» a Salgado

Se a crise provocada pela demissão de Portas revelou o político, o colapso do GES confirmou que Passos tem uma visão para a Economia. Ao longo destes quatro anos, teve de implementar muitas medidas que certamente lhe desagradam, começando pelos vários aumentos de impostos. Mas nunca tergiversou num ponto: a Economia desenvolve-se à base da iniciativa privada; esta deve funcionar em concorrência e assumir os riscos decorrentes da má gestão.

É ponto assente que o Banco de Portugal foi demasiado suave para com Ricardo Salgado durante demasiado tempo. O governo não. No período democrático (i.e., Terceira República excluindo PREC), nenhum antecessor de Passos teria recusado salvar Ricardo Salgado. Como – estou absolutamente convencido disto – não o teria recusado António Costa, se fosse primeiro-ministro. Há dias, no programa Conversas Cruzadas, da Rádio Renascença, Daniel Bessa (ex-ministro socialista) e Álvaro Santos Almeida (professor de Economia na Universidade do Porto) foram tão claros sobre o assunto que apenas me resta citá-los:

Daniel Bessa (1): Não tenho nenhuma dúvida de que o acto fundador – para o melhor e para o pior com todas as consequências que aí estão – partiu de Passos Coelho e Maria Luís que disseram ‘não’ ao Dr. Ricardo Salgado.

Daniel Bessa (2): Um ‘não' proferido quando o Dr. Ricardo Salgado lá foi e não foi sozinho. Até conheço quem o acompanhou nessa diligência, mas não vou dizer. Até não foram só dois, mas saíram de lá com uma ‘nega’ redonda. O regime caiu aí.

Álvaro Santos Almeida: Se não fosse por mais nada este governo teria valido a pena só por esta decisão.

É cedo para aferir os custos decorrentes do colapso do Grupo Espírito Santo e, ainda que se perceba a intenção subjacente (não permitir impactos no défice), terá sido um erro tentar vender o Novo Banco à pressa. Seja como for, até prova em contrário, a resolução foi a escolha com menos inconvenientes. Mas nem é tanto isso que aqui me interessa. Interessa-me a posição de Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque diante do dono disto tudo, absolutamente extraordinária num país onde o cruzamento de interesses entre o Estado e os principais grupos económicos tem imperado, com custos enormes para o bem-estar geral.

 

6. Do passado ao futuro

Critiquei-o várias vezes. Em Março de 2010, num texto intitulado Os passos de Passos não serão perdidos (no qual - de vez em quando sou ainda melhor do que julgo ser - previ que se realizariam eleições em Junho de 2011), cheguei a admitir preferir Paulo Rangel para líder do PSD. Desconfio que, numa perspectiva de imagem para o futuro, seria melhor para Passos perder tangencialmente no próximo domingo. Dentro de vinte ou trinta anos, o seu nome estaria associado ao salvamento (provavelmente temporário) do país; à criação de uma (provavelmente desperdiçada) oportunidade. Vencendo sem maioria absoluta, enfrentará (mais) um período turbulento, o qual, dependendo da versão do Partido Socialista que sair das eleições, pode acabar mal. Mesmo com uma improvável maioria absoluta, está por demonstrar que é possível fazer crescer este país de forma saudável sem a presença de uma forte tutela externa, tão numerosos e poderosos são os interesses instalados (veja-se como o governo, que até se comportou razoavelmente para ano eleitoral, acaba de ceder aos enfermeiros). E ainda há os riscos externos: tirando Centeno e Galamba, alguém acredita que a Economia mundial escapará a um novo solavanco - passe o eufemismo – durante os próximos quatro anos? Seja como for, levando em conta as alternativas, ainda bem que Passos Coelho está na corrida. Se em grande medida o meu voto no próximo domingo configura a recusa de males maiores (a democracia é o jogo do possível; as utopias acabam mal), em parte serve também como reconhecimento do trabalho desenvolvido e (por vezes convém suspender o cinismo e, ainda que sem entusiasmos excessivos, apostar em alguma coisa) sinal de esperança no trabalho a desenvolver pelo homem mais contestado de Portugal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Surpreende que a coligação possa vencer as eleições. Talvez – como sucedeu no Reino Unido – muitos eleitores tenham finalmente percebido que nem há almoços grátis nem as ilusões pagam contas. Mas é possível que – ao invés do que sucedeu no Reino Unido – desta vez ainda sejam insuficientes. Nesse caso, ficará para uma próxima.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Talvez a maior façanha de António Costa nesta campanha

por José António Abreu, em 30.09.15

Ter cingido as opções de voto útil de qualquer pessoa sensata à que poderá evitar a chegada ao poder do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Procura externa vale 85% do crescimento económico português.

Então não tinha sido o consumo interno, estimulado pelas decisões do Tribunal Constitucional, o único responsável pela subida do PIB?

Enfim, para ser honesto, até estou surpreendido com um valor tão elevado. Mas resta-me um consolo: se chegarem ao poder, Costa, Centeno e Galamba depressa tratarão de o «corrigir».

Autoria e outros dados (tags, etc)

Blogue_CapaPúblico.jpg

 

Apoiar é sinónimo de exigir.

 

Notas.

1. Ironicamente, revelando um Passos prudente e sensato e mantendo vivos os esforços de desculpabilização de Sócrates (não excluir a hipótese de ter sido ele a cedê-la ao Público), a carta beneficia um e outro. Para Costa, fica o habitual papel de número dois do amigo de Carlos Santos Silva.

2. Ah, dirão alguns, Passos pode não ter exigido a vinda da Troika mas desejava-a. Creio que, dispondo da escolha, ele teria preferido governar sem tutelas mas, na verdade, não faço ideia. Sei é que, em 2011, eu desejava a vinda da Troika. Como desejarei uma intervenção tão rápida quanto possível da polícia se assistir a um crime ou do INEM perante um acidente grave.

3. Devia haver assuntos mais merecedores do principal título da primeira página de um jornal dito «de referência». Notícias, talvez.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Das saudades da «asfixia democrática»

por José António Abreu, em 15.09.15

Ao caso Sócrates pode responder-se com a teoria que o próprio tem avançado: perseguição política. (Na situação dele, é compreensível; que tantos outros socialistas «ilustres» usem o argumento mostra bem como estão habituados a que o sistema de Justiça seja controlável.) O caso GES pode tentar justificar-se com desejo de vingança, tão alinhado com o governo socialista Ricardo Salgado se revelou. Fica mais difícil atribuir o caso dos Vistos Gold e a constituição como arguido do ex-ministro Miguel Macedo a manobras governamentais. Na verdade, por muitos defeitos que possam apontar-se a este governo, tudo indica que, no que respeita à corrupção, o sistema de Justiça funciona hoje bastante melhor do que nos tempos dos governos PS. O mérito do actual governo pode até não passar da nomeação de uma Procuradora Geral da República à altura das responsabilidades do cargo (outras medidas, como a reorganização do mapa judiciário, são aqui pouco relevantes) mas hoje investiga-se e preparam-se acusações sem que os magistrados envolvidos sejam penalizados ou forçados a destruir meios de prova. Os socialistas, claro, não gostam disto nem que se fale disto. Por isso fazem estardalhaço quando um programa televisivo pretende debater o sistema de Justiça e a actuação do Ministério Público. Por isso se mostram escandalizados - uma especialidade da esquerda - quando Paulo Rangel diz o que, no fundo, toda a gente pensa.

E grande parte da comunicação social dá-lhes cobertura. Uma agremiação curiosa, a comunicação social e os seus comentadores mais ou menos profissionais. Tanto quanto se percebe, não houve por parte do actual governo qualquer tentativa séria para a controlar. Miguel Relvas, ainda ministro, telefonou para o Público ameaçando com represálias no caso da publicação de uma notícia e o marido da ministra das Finanças ameaçou por sms «ir aos cornos» a um seu ex-colega do Diário Económico, numa reacção tão destrambelhada que se tornou anedota (e que lhe valeu até agora um termo de identidade e residência), mas não foram instaurados processos por delito de opinião nem parecem ter sido montados esquemas para, em conluio com grupos económicos privados, comprar canais de televisão ou jornais, de modo a controlar-lhes a linha editorial. Na RTP (um problema mais adiado do que resolvido, que os cidadãos pagam todos os meses), o governo instituiu um modelo de gestão independente, similar ao da BBC, que resultou na nomeação para o conselho de administração de gente tão alinhada com Passos e Portas como Nuno Artur Silva. E, no entanto, a maioria da comunicação social (começando pelos órgãos de dois grupos pretensamente capitalistas - Sonae e Impresa) e dos comentadores apoia claramente o PS, ainda que António Costa, embalado pelo facto de uma postura agressiva lhe ter valido - de acordo com esses mesmos comentadores - a vitória no debate com Passos, mostre no vídeo acima como existe em cada socialista um «animal feroz» prestes a saltar sempre que alguém faz as perguntas certas. (OK, talvez não em Guterres.) Pelo que das duas, uma: ou imensos jornalistas e comentadores sofrem de síndrome de Estocolmo e têm saudades dos anos em que eram maltratados (o que, configurando uma condição médica, tem que se desculpar - mas, por favor, procurem tratamento) ou estão de tal modo comprometidos ideologicamente (e talvez socialmente, que Passos sempre foi um outsider nesta coisa tão importante dos círculos bem-pensantes - e quiçá apenas por isso o GES não tenha sido salvo) que merecem não apenas a pressão que um eventual governo socialista venha a aplicar sobre eles no futuro como o crescente desinteresse que a generalidade do público, fora da histeria das redes sociais ou das acções de campanha, parece revelar pelas «informações» e opiniões que transmitem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As quatro diferenças

por José António Abreu, em 02.09.15

O líder socialista sublinhou “quatro diferenças” do PS em relação ao PSD":

- o “virar a página da austeridade” (expressão um tudo-nada gasta mas sempre bonita, com laivos de poesia varoufakiana);

- “a prioridade ao investimento no conhecimento e na inovação” (perdoe-se-lhe a falta de inovação e reze-se para que não venham aí mais 'Magalhães');

- a “sustentabilidade da Segurança Social” (cuja reforma se recusa, cujas receitas se diminuirão);

- e o “patriotismo na Europa” (um conceito magnífico, certamente extraído das teias de aranha de um baú atulhado com aqueles nacionalismos balofos que - muitas vezes, justamente - a esquerda costumava associar à direita, abarrotando de potencial para resolver todos os problemas da nação).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bingo

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.07.15

passos-portas-oe2013-2711122117b949_400x225.jpg

(foto: LUSA)

Uma das vantagens da Coligação PSD/CDS-PP apresentar listas conjuntas é que, qualquer que seja o resultado eleitoral, a avaliação de desempenho dos últimos quatro anos será infalível. Os nomes escolhidos reflectem as alterações climáticas, a secura dos solos, a desertificação, a falta de peixe graúdo. Confirma-se a ideia inicial de que este é um bom negócio para o CDS-PP. Não ter cabeças-de-lista permitir-lhe-á sempre, e nisso Portas é único, no caso de um mau resultado, ficar na sombra da humilhação, deixando os holofotes para os outros. Se o resultado for bom reclamará a sua quota-parte. Com muita humildade.

Sem critérios conhecidos – para lá dos empresariais -, será necessário ir pelos sinais para perceber o que ficou na lista. Com a PSP de plantão, nota-se a falta de peso da banca. Há mais mulheres, o que é bom sinal, embora não se saiba – com excepção do caso de Coimbra que sobressai da pobreza geral – se por mérito, para tapar buracos ou a título de reconhecimento dos fretes da legislatura. Não podendo colocar Macedo e Relvas, companheiros da ascensão entretanto caídos antes do tempo nas diversas frentes de combate - opinião pública, vistos gold, polícias, universidades, espiões, associações discretas –, sem gente como Poiares Maduro, Mota Amaral ou a própria Assunção Esteves, que sempre têm outra estatura, era preciso trabalhar com os funcionários. E com os que ficaram depois da debandada de Couto dos Santos, de Moedas, de Fernando Nobre (já nem me lembrava desta estrela de 2011), de Manuel Meirinho e de Francisco José Viegas, entre outros, que se safaram a tempo. A “prata da casa” está lá toda. Não só a prata, é certo. A representação das diversas famílias honra a memória de Robert Michels. E tirando o “independente” das homílias, o ilusionista com pronúncia do Norte e a “especialista” em assuntos constitucionais e outros que tais, sem esquecer o infalível licor Beirão, sempre presente à hora da refeição, é um cartaz digno do Campo Pequeno. A separação nos Açores e na Madeira revela o entendimento autonómico entre as hostes dos dois partidos.

O resultado da renovação, tal como do alívio da carga fiscal e das prometidas reformas, ver-se-á lá para o Outono. Sem chernes, para já ficamos com o que se conseguiu: faneca e carapau. E os, por extenso para que ninguém se esqueça, dois milhões oitocentos e treze mil e sessenta e nove votos com que a Coligação vem de 2011 e parte agora para a lota de 4 de Outubro.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D