Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Retratos da minha viagem ao Egipto

por João André, em 28.01.17

Depois de todos estes apontamentos da viagem do Luís, decidi ir ao meu baú e ir procurar as minhas fotografias preferidas das que tirei quando estive no Egipto, em 2011. Nessa viagem comecei em Luxor, desci até Ashwan e depois fui de comboio para o Cairo. Não deixo notas sobre os locais, que o Luís já deixou bastantes e melhores que as minhas (aproveito e deixo links apenas para os posts dele). Apenas as ditas fotografias e os locais onde foram tiradas (esperando não fazer asneiras). Quem tenha curiosidade, pode sempre perguntar alguma coisa mais sobre elas.

 

Egypt_01_retouch.jpg

Vista a partir da entrada do templo de Edfu (creio).

Egypt_42_retouch.jpg

Voltando do templo de Hatchepsut (estaria nas costas).

Egypt_06_retouch.jpg

Nilo.

Egypt_09_retouch.jpg

Nilo.

Egypt_27_retouch.jpg

Nilo.

Egypt_29_retouch.jpg

Nilo.

Egypt_50_retouch.jpg

Crianças a brincar num ramo do Nilo.

Egypt_46.jpg

A caminho da ilha de Philae.

Egypt_48_retouch.jpg

No templo de Ísis, ilha de Philae.

Egypt_12.jpg

Templo de Karnak.

Egypt_15_retouch.jpg

Cairo, visto da mesquita de Mohammed Ali.

Egypt_18_retouch.jpg

 Pirâmides de Gizé, Cairo.

Egypt_31_retouch.jpg

Templo de Kom Ombo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Há alguém muito baralhado no Reino de Lisboa

por Diogo Noivo, em 21.11.16

FMedinaAlSissi.jpg

 

Durante a Web Summit, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu criticar Donald Trump. Fê-lo usando fundos e recursos públicos, de forma presunçosa e com erros ortográficos, mas enfim, a crítica é legítima e a Trump não lhe faltam características merecedoras de censura.
O que já é difícil compreender é que se critique Trump e, acto contínuo, se atribuam as chaves da cidade a Abdel Fattah al-Sissi, o presidente do Egipto. Critica-se o presidente eleito de um Estado de Direito Democrático, um Chefe de Estado e de Governo cujo poder está limitado por um sistema de freios e contrapesos. Mas dão-se as chaves da cidade a um ditador que chegou ao poder por via da força, interrompendo um processo de transição democrática que, apesar das vicissitudes normais, avançava.
Temo que no município de Lisboa alguém ande a limpar os pés às cortinas e a tapar as janelas com os tapetes de entrada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leituras ao domingo

por Diogo Noivo, em 20.03.16

dreams&shadows.jpg

 

«The Judges Club in Alexandria ended up calling for broad new legislation to ensure judicial independence – and for a gathering of all 8,000 Egyptian judges to take a joint national stand. Their summit convened in Cairo on May 13, 2005 […]. The session was stormy. But Egypt’s judges agreed to issue a direct challenge to Mubarak’s regime. They called to major reforms to foster the rule of law. They demanded full independence from the executive branch. And they voted to put the government on notice that they would no longer provide cover for its behavior […]. To avoid scandals or constitutional crisis in the past, judges had usually taken their concerns to the Ministry of Justice. “But now the majority of judges have changed their basic philosophy”, he said. “They have come to the conclusion that they are part of this society – and that they must act rather than defer to other authorities.”» (Os sublinhados são meus).

 

Robin Wright (2008), Dreams and Shadows: The Future of the Middle East, Londres: Penguin Books, p. 92.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tempo de incertezas

por Pedro Correia, em 05.07.13

 

Alguns nostálgicos do Egipto de Mubarak garantem em blogues que os problemas actuais naquele país se devem à deposição do ditador, em Fevereiro de 2011. É tão absurdo afirmar isto como sustentar que o PREC foi consequência da cadeira mal armada onde Salazar se sentou numa manhã de Agosto de 1968, no forte de Santo António. Não explica nada, não justifica nada, não projecta a menor luz sobre o problema, mas alivia algumas consciências que sentem a irresistível tentação de prever sempre o pior para depois poderem proclamar que tinham razão. Seria mais fácil seguirem a velha fórmula de Vasco Pulido Valente: "O mundo está perigoso." De alguma forma acertavam sempre.

Estas Cassandras sentem a nostalgia de um mundo arrumadinho e cheio de etiquetas, onde era fácil traçar diagnósticos e fazer previsões. Um mundo sem redes sociais, sem internet, sem globalização, sem a "voz da rua" a propagar-se de continente em continente. Um mundo de fronteiras esbatidas, onde o indignado de Teerão pode ser cúmplice do indignado de São Paulo, a multidão tronitruante em Alexandria provoca ecos em Barcelona e os protestos em Istambul se escutam em tempo real em todas as latitudes.

A única certeza que temos é a de vivermos num tempo de incertezas. Gostaria de vaticinar que destes anos tumultuosos que vamos testemunhando sairá um mundo mais livre. A isso me induz a comparação entre 2013 e 1913: o ser humano aumentou em décadas a esperança de vida, foram debeladas doenças epidémicas, a maioria dos habitantes do planeta vive hoje em países democráticos, as generalizadas sombras da guerra deram lugar a inúmeras peregrinações pela paz.

Mas sei bem que a história é feita de linhas sinuosas, não de rectas. Os amanhãs não cantam - talvez até chorem. Devemos estar sempre preparados para o pior.

Depois não digam que não avisei.

 

Imagem: multidão em protesto na praça Tahrir, no Cairo (Foto Reuters, 29 de Junho)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Eppur si muove

por Pedro Correia, em 02.07.12

 

Pela primeira vez o Egipto tem um presidente eleito, escolhido pelo povo e não por uma oligarquia reunida nas casernas. Goste-se ou não deste engenheiro de 60 anos, doutorado nos Estados Unidos, as urnas falaram. Não existe outra forma lícita de escolher dirigentes políticos. Pela primeira vez em quase 60 anos de regime republicano há no Egipto um Chefe do Estado civil, Mohammed Mursi, que no discurso de investidura prometeu "servir o povo" e respeitar os compromissos internacionais estabelecidos pelo seu país, nomeadamente com Israel. Pela primeira vez o Egipto tem um sistema que salvaguarda algumas das normas elementares da democracia, a começar pelo sufrágio universal.
A actual situação é de longe preferível ao longo sistema ditatorial anterior (que começou com Naguibe e Nasser, prolongou-se com Sadat e culminou no consulado de Mubarak), pensem alguns altos funcionários da administração norte-americana o que pensarem. E por que motivo haveriam de preferir a ditadura à democracia se Barack Obama e Hillary Clinton estiveram na primeira linha do reconhecimento das 'Primaveras árabes', incentivando e aplaudindo as revoltas populares contra as tiranias de Mubarak, Ben Ali, Kadhafi e Assad?
Supor o contrário, como pretendem os cínicos de serviço, lá e cá, seria sonhar com o regresso a um mundo onde Salazar e Franco apascentavam a Península Ibérica e Moscovo lançava uma cortina de ferro sobre toda a Europa de Leste, com os opositores apodrecendo no Gulag. O mundo "tranquilo" da Guerra Fria, do equilíbrio do terror e do Inverno nuclear à mercê de um dedo capaz de premir um qualquer botão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um ano depois

por Pedro Correia, em 12.02.12

 

Não tenho, naturalmente, uma palavra a retirar ao que escrevi faz agora um ano sobre a revolução egípcia.

Ficam alguns excertos, para avivar memórias:

 

Contra as Cassandras. «No Irão, a clique teocrática não tem motivos para se congratular com as manifestações no Egipto, um país onde 20 milhões de pessoas – cerca de um quarto da população – utilizam regularmente a Internet. No Cairo, por estes dias, foi possível ver muçulmanos e cristãos orar em conjunto. Ali não se queimou uma só bandeira americana nem se gritaram palavras de ódio contra Israel.
O fracasso da “revolução islâmica”, há 32 anos, serve aliás de aviso e de vacina a novos movimentos destinados a destituir ditaduras: podem não saber ao certo por onde vão nem para onde vão, mas todos sabem que não irão por aí.»

 

Contra as bempensâncias. «Uma revolta popular pacífica, ordeira, participadíssima, onde as únicas bandeiras são as nacionais, deita abaixo uma tirania. Sem necessidade de intervenção dos marines norte-americanos, sem líderes "carismáticos", sem partidos ou igrejas a "organizar" as multidões.

Devia ser motivo de congratulação em todo o mundo democrático. Mas não é. Em redutos de opinião, bem entrincheirados nas suas certezas graníticas, analistas derramam por jornais e blogues o seu imenso desdém pela página histórica que acaba de se virar no Cairo.»

 

Contra os saudosistas. «Extraordinário: assume-se a defesa póstuma da ditadura para lançar um vigoroso anátema sobre a democracia que ainda nem começou a ser construída. Como se o mundo árabe sofresse de um atavismo genético que o torna incapaz de conviver ad seculum seculorum com estados de direito e o respeito escrupuloso dos direitos humanos.»

 

Contra as ditaduras. «Todas as ditaduras são más. A de Cuba, a da Coreia do Norte, a do Zimbábue, a do Irão - e a que acaba de ser derrubada no Egipto. Se amanhã a ditadura iraniana caísse, seria um motivo de alegria e de congratulação para todos os democratas. Como o é hoje a queda da ditadura egípcia. Não podemos ser democratas até metade da bacia do Mediterrâneo e 'compreender' a ditadura na outra metade.

 

Contra a demagogia. «Extraordinário Mubarak, tão amigo do Ocidente em geral e tão digno da admiração de Alberto Gonçalves em particular. E extraordinários "estudos de opinião" - não especificados pelo crédulo sociólogo - que "parecem" conjugar liberdade e lapidação no Egipto.

Não conheço nenhum outro pensador mundial capaz de associar um movimento pró-democracia à excisão feminina.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Coitado do Egipto

por João Carvalho, em 02.02.12

Acabo de ouvir na televisão uma explicação da tragédia em Port Said que só por ser dita em egípcio sem sotaque é que percebi que não tinha saído da perspicácia de um português. À frente da câmara de reportagem, dizia o homem que «as forças de segurança foram impedidas de actuar».

Fiquei a pensar naquilo. Não seria mesmo o Rui Santos a falar egípcio? Então as forças de segurança foram impedidas de actuar?!? Será que as forças de segurança foram cercadas por algum desordeiro?

Coitado do Egipto. Primeiro, tiram-lhe o P. Depois, barram-lhe as forças de segurança. Agora, impingem-lhe o Rui Santos. O que mais poderá seguir-se? A extinção das percas do Nilo?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os valores acima dos interesses

por Pedro Correia, em 07.05.11

 

A Líbia constitui "o pior pesadelo" dos dias que correm. A opinião, sem rodeios de qualquer espécie, foi ontem expressa por Mohamed ElBaradei nas Conferências do Estoril, que encerraram esta segunda edição com chave de ouro ao darem o palco ao ex-director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, Prémio Nobel da Paz de 2005. Durante cerca de hora e meia, que pareceu pouco a quem assistia no Centro de Congressos do Estoril, o candidato à próxima eleição presidencial no Egipto defendeu uma intervenção mais activa da comunidade internacional para impedir a continuação dos massacres da população civil às ordens dos esbirros de Muammar Kadhafi, o ditador que permanece no poder desde Setembro de 1969, cego e surdo às aspirações de liberdade dos líbios.

Voz autorizada na defesa dos direitos humanos, participante activo na revolução de Fevereiro que levou à queda do regime despótico de Hosni Mubarak no Cairo, ElBaradei foi claro: "Não podemos aceitar que os ditadores massacrem os seus povos. Gostaria de ver uma intervenção internacional mais robusta, mais activa na Líbia." Na sua perspectiva, as relações internacionais contemporâneas são indissociáveis do respeito permanente da dignidade humana. "Temos de agir como mebros da mesma família global. A Líbia é um grande teste. Temos de espalhar esta mensagem: não continuaremos quedos e mudos, não assistiremos impávidos ao massacre de civis."

'A natureza das revoluções no Magrebe e no Médio Oriente' foi o tema abordado nesta excelente conferência, acompanhada com atenção por uma vasta plateia, em que se integravam muitos jovens. Baradei afirmou que o mundo "pode e deve ajudar" as populações do mundo islâmico que lutam pela liberdade - contribuindo para o "desenvolvimento económico, a coesão social e a promoção dos direitos humanos" em países como o Egipto, onde os militares estão com "demasiada pressa" em devolver o poder aos civis. Na sua perspectiva, a elaboração de uma nova Constituição devia ser o primeiro passo para fundar um regime democrático no Cairo - de preferência com um artigo basilar inspirado na primeira norma da lei fundamental da Alemanha: "A dignidade humana é inviolável."

Esta foi a grande mensagem que deixou no Estoril: "Não podemos pôr os interesses antes dos valores." Uma mensagem que contraria os cultores da realpolitik, sempre prontos a estabelecer relações cordiais com os piores tiranos contemporâneos. "Os EUA e a Europa apoiavam as ditaduras [na Tunísia e no Egipto] recorrendo ao argumento da estabilidade. No segundo dia das revoltas populares, Hillary Clinton chegou a dizer que o governo de Mubarak era estável. Como pode um regime que governa durante 30 anos com lei marcial ser um modelo de estabilidade? Nunca há estabilidade quando os governos não são livremente eleitos pelo povo."

Estive entre a assistência que o aplaudiu com entusiasmo ao fim da tarde de ontem. Gosto de ouvir um Nobel da Paz falar assim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Todas as previsões estão a falhar

por Pedro Correia, em 02.05.11

 

A velocidade vertiginosa a que os acontecimentos se processam, nestes tempos caracterizados por uma contínua aceleração da história, tornou todas as previsões falíveis na política internacional. E nem as publicações mais prestigiadas do planeta escapam a tal risco. Regresso, por estes dias, à edição de fim de ano da Economist, dedicada ao mundo em 2011. Como antevia esta revista o ano em curso no Egipto? Da seguinte forma que, volvidos poucos meses, já nos parece estranhamente desajustada: “A eleição presidencial programada para finais de 2011 é uma competição entre a continuidade (o Presidente Hosni Mubarak, no poder há muito tempo, já envelhecido), a dinastia (o seu filho, Gamal, que pode candidatar-se no seu lugar) e a improbabilidade (vitória de um candidato da oposição, nomeadamente o ex-director da Agência da Energia Atómica, Mohamed El-Baradei).”
Estas linhas foram escritas em Dezembro. Já em Fevereiro, não podiam estar mais desactualizadas: Mubarak foi derrubado, do seu filho e presuntivo herdeiro nunca mais ninguém ouviu falar e El-Baradei é precisamente um dos candidatos com mais hipóteses de vencer a próxima eleição presidencial.
E repare-se no que escreveu a Economist sobre a Líbia: “Muammar Kadhafi detém o poder há 40 anos e completará certamente os 41. Suprimindo opositores e minando rivais, removeu todas as ameaças significativas ao seu poder; o único sucessor digno de crédito é o seu filho, Saif al-Islam, mas a sucessão não se dará em 2011."
Tantas certezas prontamente desmentidas pelos factos: a “sucessão” de Kadhafi está já a ser uma das grandes histórias deste ano, como hoje bem sabemos, embora o ditador líbio tenha “certamente” completado 41 anos no poder – em Setembro de 2010, ao contrário do que garante a Economist, trocando as datas. Não são só os portugueses que erram ao fazer contas nem a imprensa portuguesa tem o exclusivo da desatenção a certos pormenores.
No capítulo das previsões erradas, esta edição da Economist arrisca-se a sair vencedora. Vale a pena guardá-la também por isto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Jean Daniel e os Velhos do Restelo

por Pedro Correia, em 17.03.11

 

Fascina-me esta tendência de tantos colunistas da imprensa portuguesa de lançarem anátemas sobre as mudanças em curso no mundo. Ainda agora se viu, nestes dias, a propósito das revoltas populares que derrubaram as decrépitas ditaduras da Tunísia e do Egipto: de súbito, descobrimos que em Portugal era imensa a legião de fãs de Mubarak e Ben Ali - a tal ponto foram derramadas lágrimas de pesar pelo fim dessas tiranias nas colunas dos nossos jornais. Profissionais do pessimismo, daqueles que se gabam de em mil novecentos-e-troca-o-passo terem vaticinado que tudo daria para o torto, desataram a garantir que o fim das ditaduras árabes marcará o início de um ciclo de terríveis cavalgadas do islamismo mais fanático, capaz de perturbar o nosso doce modo de vida e de impor à bomba as suas crenças. A democracia é incompatível com o mundo islâmico, asseguram. Esquecendo, muitos deles, que aplaudiram a invasão norte-americana do Iraque em 2002 precisamente em nome dos valores democráticos. Curiosa concepção de democracia, que só vale se for imposta à bala...

Penso nisto enquanto releio no El País uma entrevista com Jean Daniel, ex-director do L’ Express e do Nouvel Observateur, um dos mais prestigiados jornalistas europeus – testemunha privilegiada de tantos acontecimentos históricos, desde a II Guerra Mundial. Aos 90 anos, mantém um olhar de esperança perante a vertiginosa sucessão de factos que são notícia dos telejornais de hoje e têm já garantido um lugar na História. “Maravilha-me ter vivido o suficiente para ver um negro chegar à Casa Branca, ou os tunisinos e os egípcios revoltando-se contra os respectivos ditadores. A importância destas rebeliões não está no que possa suceder, mas no simples facto de terem ocorrido”, sublinha este decano do jornalismo que há muito aprendi a admirar.

Se Jean Daniel fosse português, faria um discurso carregado de nuvens negras e maus presságios: por cá, ninguém consegue congregar tão vasto auditório como os profetas da desgraça. Mesmo quando não têm razão nenhuma, o que aliás sucede quase sempre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O feitiço do tempo

por Pedro Correia, em 26.02.11

João Pereira Coutinho, hoje no Correio da Manhã: «A revolução de 1789 acabou por degenerar no Terror jacobino. Por que motivo, então, esta evidência é tão difícil de perceber no caso árabe?»

Vasco Pulido Valente, hoje no Público: «O que havia em França em 1789-94 era uma total ausência de instituições capazes de promover e defender as liberdades. (...) Como hoje na África do Norte.»

 

Espero que os nossos "líderes de opinião" transitem rapidamente do século XVIII para o século XIX. A ver se daqui a uns alguns meses começam a compreender finalmente o que se passa no mundo árabe do século XXI.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O dilúvio chegou antes e não depois

por Pedro Correia, em 25.02.11

 

Houve um tempo em que uma certa direita, incapaz de resistir a regimes musculados, apontava o Egipto de Mubarak como exemplo de bom governo no mundo árabe. Esse tempo terminou, irrevogavelmente, a 11 de Fevereiro. Houve também um tempo em que uma certa esquerda, num apaixonado flirt com o “socialismo árabe”, mencionava Kadhafi como figura de referência. Esse tempo está prestes a terminar: com o seu patético discurso de ontem, o homem que durante 41 anos dirigiu a Líbia com mão de ferro demonstrou ter perdido definitivamente o contacto com a realidade.

Um elo uniu Mubarak e Kadhafi ao soar a hora da derrocada: perdida a tradicional pose de bravata, ambos invocaram os riscos do extremismo islâmico como chantagem suprema perante a comunidade internacional. O líbio chegou a apontar o dedo acusador à Al-Qaeda como fonte dos distúrbios no seu país. Repetindo, no fundo, o argumento de Luís XV na França pré-revolucionária: “Depois de mim, o dilúvio.” O problema, tanto no Egipto como na Líbia, é que o dilúvio chegou antes e não depois.

 

Publicado no DN

Autoria e outros dados (tags, etc)

A imparável revolta no mundo árabe

por Pedro Correia, em 25.02.11

«Radical Islamists have long been the Arab world's presumed revolutionaries, but these fights do not belong to them. In a region that had rotted under repression, a young generation has suddenly found its voice. Pushing ahead of their elders, they have become intoxicated with the possibility of change. As with Europe's triumphant overthrow of communismo in 1989, or even its failed revolutions of 1848, upheaval on such a scale can transform societies.»

Editorial da Economist

Autoria e outros dados (tags, etc)

Antena islâmica *

por Pedro Correia, em 24.02.11

1. «Mubarak não era um ditador particularmente sanguinário.»

2. «Na Líbia podemos estar a assistir - e nisso o Kadhafi tem alguma razão - a um processo de guerra civil.»

3. «As multidões na rua são tão violentas como a polícia.»

Pacheco Pereira, esta noite, na Quadratura do Círculo (SIC N)

 

* com a devida vénia ao Filipe Nunes Vicente, que cunhou a expressão no seu blogue

Autoria e outros dados (tags, etc)

O terror, a excisão, o Holocausto

por Pedro Correia, em 18.02.11

  

Como dizia o outro, o mundo está perigoso. Vejam só: até o inamovível coronel Kadhafi, que permanece apenas há 42 anos como senhor absoluto da Líbia, anda a ser contestado nas ruas, respondendo aos protestos da forma expedita a que nos habituou noutras ocasiões: a tiro. Balanço provisório: 24 mortos. Só o embaixador português em Trípoli não reparou em nada.

Tanta agitação contra as ditaduras no mundo árabe deixa alguns colunistas nervosos: Maria João Avillez, na Sábado, acentua que não se deixa comover por revoluções, "francesas ou de flores", e não consegue deixar de cismar nos Irmãos Muçulmanos: "Acho-os terríveis e não encontro nenhuma boa razão, de peso e com substância, para pensar o contrário." Na mesma revista, o sociólogo Alberto Gonçalves vai mais longe: invoca o "Terror revolucionário francês" e - pasme-se - até o nazismo e o Holocausto a (des)propósito da queda de Mubarak. "É suficiente notar a forte hipótese de o Egipto livre e democrático dos sonhos se tornar, na prática, um Egipto institucionalmente islâmico", proclama o titular da página de fecho da Sábado, dando como provado este facto extraordinário: "O povo que reivindica nas ruas o direito à felicidade parece, em larga medida e a acreditar nos estudos de opinião, o mesmo povo que reivindica o direito à excisão feminina (que Mubarak baniu em 2007) ou à lapidação das adúlteras (que Mubarak proibia)."

Extraordinário ditador, que poupou o povo egípcio a tais terrores. Extraordinário Mubarak, tão amigo do Ocidente em geral e tão digno da admiração de Alberto Gonçalves em particular. E extraordinários "estudos de opinião" - não especificados pelo crédulo sociólogo - que "parecem" conjugar liberdade e lapidação no Egipto.

Não conheço nenhum outro pensador mundial capaz de associar um movimento pró-democracia à excisão feminina. Espero que o sociólogo da Sábado tenha registado a patente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A tropa, o twitter e o tigre

por Pedro Correia, em 17.02.11

«Há quem se preocupe com a ideia de que o exército do Egipto esteja a preparar-se para estrangular ainda no berço o movimento democrático. Penso antes que a liderança militar está com algum medo desta juventude armada com o twitter. O movimento que saiu da Praça da Libertação parece um tigre que viveu 30 anos numa pequena jaula. Depois de o ver libertado, tenho duas coisas a dizer sobre este tigre. Primeira: quem tentar voltar a enfiá-lo na jaula vai ficar sem cabeça. Segunda: qualquer político que se lembre de o açaimar, em benefício próprio e não do Egipto, acabará por ter o mesmo destino.»

Thomas Friedman, New York Times

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Não acertam uma

por Pedro Correia, em 17.02.11

Andaram eles todos estes dias a gritar que o Irão acabaria por influenciar o Egipto e eis que afinal é a situação no Egipto a ter reflexos no Irão. Raio de azar. Como hão-de eles agora justificar o apoio aos manifestantes anti-Ahmadinejad em Teerão depois de terem escrito o que escreveram sobre os protestos pacíficos que conduziram ao derrube da ditadura no Cairo?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Todas as ditaduras são más

por Pedro Correia, em 16.02.11

 

Todas as ditaduras são más. A de Cuba, a da Coreia do Norte, a do Zimbábue, a do Irão - e a que acaba de ser derrubada no Egipto. Se amanhã a ditadura iraniana caísse, seria um motivo de alegria e de congratulação para todos os democratas. Como o é hoje a queda da ditadura egípcia. Não podemos ser democratas até metade da bacia do Mediterrâneo e 'compreender' a ditadura na outra metade.

Certos povos e certas culturas não estão preparados para a democracia? Esse foi o argumento invocado durante quase meio século por Salazar para justificar a ditadura portuguesa. Simetricamente, invocou-se esse argumento para justificar a ditadura soviética. Afinal, mal ou bem, Portugal e a Rússia vivem hoje em democracia, que segundo Churchill é o pior dos sistemas excepto os outros todos.
E não me digam, por favor, que é impossível instituir um sistema de governo democrático nos países islâmicos, por estes dias varridos por ventos de liberdade. Que é a Indonésia senão um país islâmico - por sinal o maior país islâmico do mundo?

 

Imagem: protestos antigovernamentais em Teerão (Junho de 2009)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Egipto: o que escreve Vargas Llosa

por Pedro Correia, em 14.02.11

 

 

Uma pequena multidão de comentadores domésticos continua a dirigir farpas aos movimentos pró-democracia nos países árabes, chorando a queda dos ditadores Ben Ali e Mubarak. Neste desfile, Alberto Gonçalves não podia faltar à chamada. Lá vem ele, no DN, juntar-se ao coro: "Após a queda de Mubarak, as odes dos jornalistas à alegria do povo e as invectivas aos 'cínicos' que não a partilham resultam de óptimas intenções, mas de péssima memória. A História recente ensina que a felicidade de certos transtornados religiosos tem um preço: a nossa."

Extraordinário: assume-se a defesa póstuma da ditadura para lançar um vigoroso anátema sobre a democracia que ainda nem começou a ser construída. Como se o mundo árabe sofresse de um atavismo genético que o torna incapaz de conviver ad seculum seculorum com estados de direito e o respeito escrupuloso dos direitos humanos. Nessa convicção, Gonçalves vergasta os repórteres que têm relatado o que testemunham no Egipto: "Se calhar, os jornalistas confundem o seu ofício com a repetição de clichés, na convicção um bocadinho infantil de que qualquer protesto público contra uma ditadura acarinha valores opostos aos ditatoriais."

Não sei se entre esses jornalistas que tanto enojam o colunista do DN se inclui John Simpson, o prestigiado editor de assuntos internacionais da BBC, que escreve do Cairo sem a menor dúvida: "A deposição do presidente Hosni Mubarak é tão significativa como o colapso do bloco soviético na Europa de Leste em 1989." Um cliché, diria certamente Alberto Gonçalves, talvez saudoso daqueles tranquilos tempos em que o Muro de Berlim se erguia como fronteira natural à expansão da democracia. E o que dirá este sociólogo do mais recente artigo de Mario Vargas Llosa publicado no El País, precisamente sobre os ventos da liberdade que percorrem o Magrebe e o Médio Oriente? "O Ocidente liberal e democrático deveria celebrar este facto como uma extraordinária confirmação da vigência universal dos valores que representa a cultura da liberdade e dirigir todo o seu apoio aos povos árabes neste momento da sua luta contra os tiranos»,  sublinha o Nobel da Literatura-2010.

Felizmente Simpson e Vargas Llosa têm vistas menos curtas do que a agremiação de admiradores portugueses de Mubarak. Como nada acontece por acaso, é precisamente do Irão que nos chegam hoje notícias de corajosos levantamentos populares contra a ditadura, na linha das impressionantes manifestações de Junho de 2009. É óbvio o efeito de contágio dos acontecimentos da Tunísia e do Egipto. Perante tanta "agitação", os cínicos de serviço por cá, tal como os aiatolas por lá, devem estremecer de horror.

 

Imagem: manifestação contra a ditadura iraniana

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Os inteligentes inúteis"

por Pedro Correia, em 14.02.11

O Henrique Burnay acerta em cheio (via 31 da Armada):

«Desde que Mubarak caiu, alguma direita exibe uma pose altiva e ilustrada para explicar que derrubar regimes ditatoriais e moderados, correndo o risco de fazer subir ao poder facínoras tresloucados e fundamentalistas, como no Irão, pode não ser uma óptima ideia e motivo de regozijo. Tem razão, esta direita. Mas é uma razão inútil. Achar que todas as revoluções são iguais, que não se passaram  mais de trinta anos, que só há ditadores amigos ou fundamentalistas islâmicos, é deixar o terreno da democracia e da liberdade nas mãos da esquerda.  Inclusive da que acha que a Irmandade Muçulmana é moderada. A democracia para ser possível precisa de aliados. Coisa mais útil do que a pose de quem acha que mais ninguém leu História.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os talibãs e os comboios

por João Carvalho, em 13.02.11

«Os talibãs afegãos acreditam que o governo no Afeganistão, apoiado por Washington, será o próximo a ser derrubado pelo povo, depois da queda do presidente egípcio Hosni Mubarak.» Se isto não for um problema de tradução, os talibãs estão para o Afeganistão como o TGV está para Portugal: às segundas, quartas e sextas avançam; às terças, quintas e sábados recuam. Mas todos sabem que o caso culminará numa terça, numa quinta ou num sábado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Que horror, o povo nas ruas

por Pedro Correia, em 13.02.11

 

 

Uma revolta popular pacífica, ordeira, participadíssima, onde as únicas bandeiras são as nacionais, deita abaixo uma tirania. Sem necessidade de intervenção dos marines norte-americanos, sem líderes "carismáticos", sem partidos ou igrejas a "organizar" as multidões.

Devia ser motivo de congratulação em todo o mundo democrático. Mas não é. Em redutos de opinião, bem entrincheirados nas suas certezas graníticas, analistas derramam por jornais e blogues o seu imenso desdém pela página histórica que acaba de se virar no Cairo. Como se os egípcios, com os seus cinco mil anos de civilização, não estivessem minimamente preparados para a democracia e precisassem para o efeito do aval das ilustres bempensâncias cá do sítio.

Fernando Martins n' O Cachimbo de Magritte, apressa-se a enumerar um inevitável cortejo de desgraças: «Certamente provocará contra-revolução, guerra contra inimigos internos e externos, terror e caos económico e social.» Verdadeiramente estarrecedor. «Quem acredita que o Egipto teve o seu '25 de Abril' deve preparar-se para um PREC islamita triunfal», exclama, na mesma linha, João Pereira Coutinho no Correio da Manhã. Como antes dele fez Vasco Graça Moura, ao escrever no DN sem dúvidas de qualquer espécie: «Está na cara que [as coisas] vão correr mal, mesmo muito mal.» E hoje Vasco Pulido Valente, bem ao seu estilo, proclama no Público: «Presumindo a mais do que provável (se não inevitável) interferência do Irão, como imaginar que se resolveria fosse o que fosse com eleições? O único resultado seria quase com certeza o alargamento e o reforço da 'Irmandade Muçulmana'». Suprema heresia, optar por eleições...

Leio estas opiniões e parece que estou a escutar Glenn Beck, na Fox News, com as suas «tiradas histéricas» (a definição é dos Los Angeles Times) contra o "avanço do extremismo islâmico" que só ele, dotado de vistas mais apuradas do que o comum dos mortais, consegue descortinar.

Ah, como tudo soa bem melhor quando a "democracia" é imposta pelos fuzis do Pentágono e os ditadores, em vez de caírem por determinação do povo, cedem o poder por pressão dos tanques.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Teerão sem motivos para sorrir

por Pedro Correia, em 12.02.11

 

 

Por estes dias, algumas Cassandras de turno têm atrasado o calendário 32 anos para apontarem um dedo cheio de suspeições ao movimento popular egípcio. Lembrando que a chamada revolução islâmica que derrubou o xá do Irão em 1979 também prometia muito mas terminou da pior maneira, com a instalação de uma ditadura ainda mais feroz. Por que motivo nenhum outro exemplo de uma revolução falhada é invocado por estes dias? Talvez porque não haja mais nenhum para mostrar. Nos últimos 40 anos, dezenas de ditaduras deram lugar a sistemas democráticos nos mais diversos pontos do planeta – de Portugal às Filipinas, da Polónia a Moçambique, da Rússia ao Brasil – sem que nenhum vaticínio catastrofista se concretizasse. Caiu o Muro de Berlim, foi desmantelado o apartheid na África do Sul, as tiranias de caserna foram substituídas por estados de direito na América Latina, Timor-Leste alcançou enfim a liberdade. Sem convulsões, sem retrocessos históricos, sem o cumprimento das habituais promessas negras dos profetas da desgraça. No Irão, de resto, a clique teocrática não tem motivos para se congratular com as manifestações no Egipto, um país onde 20 milhões de pessoas – cerca de um quarto da população – utilizam regularmente a Internet. No Cairo, por estes dias, foi possível ver muçulmanos e cristãos orar em conjunto. Ali não se queimou uma só bandeira americana nem se gritaram palavras de ódio contra Israel.
O fracasso da “revolução islâmica”, há 32 anos, serve aliás de aviso e de vacina a novos movimentos destinados a destituir ditaduras: podem não saber ao certo por onde vão nem para onde vão, mas todos sabem que não irão por aí.

 

Publicado no DN

Autoria e outros dados (tags, etc)

Em 11 de Fevereiro de 2011, não foi só um ditador que caiu. Várias ideias feitas foram também derrubadas. Entre estas destaco as seguintes: a) a democracia no médio oriente e nos países islâmicos impõe-se com a guerra: esta foi a linha de Bush e teve o seu tubo de ensaio no Iraque. Aqui, a ineficácia dos tanques para impor a paz. No Egipto, como na Tunísia, uma revolução pacífica a impor-se aos tanques de guerra; b) as revoluções são protagonizadas por líderes carismáticos: procurou-se em vão, nas ruas do Cairo, um sósia de Nasser. Em cada esquina, apenas um rosto anónimo, um protagonista tão improvável como o vendedor de fruta que se imolou pelo fogo em Tunis c) em países islâmicos, as revoluções são todas uma réplica da que ocorreu no Irão em 1979: até ver, nada mais falso. O único ponto real de contacto até à data é que o Irão e o Egipto eram governados por ditadores (Pahlevi e Mubarak). Tudo o mais tem decorrido de forma radicalmente distinta. O paralelo, se precisamos de algum, está em Berlim, em 1989  d) as novas tecnologias são o gatilho da revolução: não é tanto assim. Têm, é claro, muitíssima importância. Mas, não é possível esquecer o papel determinante de um meio de comunicação tradicional (a televisão) e de um canal (a Al Jazeera). Basta olhar para as imagens do Cairo para perceber que a maioria das pessoas que se manifestaram foram convocadas pela televisão e não pelo twitter e pelo facebook. O resultado final foi determinado pela confluência de ferramentas mediáticas e sociais (que potenciaram o efeito) e, sobretudo, pela justiça da mensagem. Quando os meios e a mensagem são poderosos o efeito é fortíssimo, mas não é infalível. Aí está a revolução verde no Irão a demonstrá-lo; e) as movimentações populares nos países islâmicos, e já agora, em outras paragens, devem ser analisadas a partir de uma posição de determinismo cultural: os cidadãos egípcios deram uma demonstração de civismo e de elevação. Aos ataques dos partidários de Mubarak (quem não recorda ainda a invasão da praça por jagunços montados em cavalos e camelos?) os manifestantes responderam de forma pacífica. À indiferença e hesitação do ocidente opuseram a paz (alguém viu bandeiras americanas queimadas?). Quando alguns gritaram 'Le Islam', a massa respondeu 'La Nation'. Os democratas egípcios resistiram à tentação de lavar com sangue o sangue derramado. Pessoalmente, não sinto outra coisa que não seja humildade e gratidão face à lição que nos deram; f) a narrativa dos movimentos sociais deve ser sempre feita na óptica dos poderes: chegou a ser ridícula a análise táctica da revolução do Egipto feita por muitos comentadores encartados. O detalhe das solidariedades entre americanos e os seus parceiros, o papel de Israel, o perigo islâmico e ainda um par de botas. Entretanto, na rua, pessoas de carne e osso tinham medo, fome e sofrimento para gritar. A narrativa dos que são ninguém, sobrepôs-se, por uma vez e até ver, ao argumento escrito nos corredores diplomáticos. 

Dirão alguns que falta ainda o mais difícil. Mas, creio que esta será mais uma ideia feita que vai ser derrubada. Quem conheceu o Egipto de Mubarak sabe que se tratava de um país anormal. Em qualquer lugar, uma presença militar ostensiva e maciça. Neste cenário, perante um ditador empedernido, o mais difícil foi enfrentar o medo na primeira manifestação (em 25 de Janeiro) e em todos os dias e noites que se seguiram. Nesse momento, o desfecho mais previsível apontava para o massacre, para a detenção e para a tortura de quantos ousaram levantar-se contra o tirano. O caminho espinhoso que se segue não tem comparação com o gesto de oferecer o peito à infinita  probabilidade de receber uma bala.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

À ida

por Ana Vidal, em 12.02.11

Tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa tem a sua ocasião. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de construir. Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar; tempo de chorar e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las; tempo de abraçar e tempo de afastar. Há tempo de procurar e tempo de perder; tempo de economizar e tempo de desperdiçar; tempo de rasgar e tempo de remendar; tempo de ficar calado e tempo de falar. Há tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz.

Eclesiastes 3, 1-8.

 

À ida, espero que Mubarak perceba finalmente que não é possível enganar todos durante todo o tempo, como pretendia o patético canto do cisne que foi o seu último discurso. Ou, melhor dizendo, a sua última manhosa canção do bandido. O Egipto acordou, e num despertar como este não há recuo nem operação cosmética que satisfaça um povo. Se o povo egípcio não está maduro para uma democracia ao fim de  quase cinco mil anos, quando estará? Esta hora é de celebração, de emoção, de alegria. Porque para tudo tem de haver um tempo. Os profetas da desgraça, geralmente sentados nos seus confortáveis sofás ocidentais, parecem não querer perceber esta simples  e eterna premissa: mesmo que os piores perigos se  venham a confirmar, mesmo que este povo tenha ainda de sofrer outras opressões, mesmo que esses perigos signifiquem uma ameaça para o resto do mundo, o curso da História é imparável e faz-se de momentos destes. De grandes ou pequenos avanços, de erros corrigidos, dolorosos quase sempre. Quem teimou durante três semanas ao relento, paciente e pacificamente, até conseguir o que queria, também saberá fazê-lo de novo se preciso for. O que for soará. O que foi, para já, é uma lição para todos nós. Como dizia aqui o nosso Rui, citando António Machado, o caminho faz-se ao andar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

 

There are no Mubaraks on the Forbes list of the world's richest people, but there sure ought to be.

The mounting pressure from 18 days of historic protests finally drove Egyptian President Hosni Mubarak from office, after three decades as his nation's iron-fisted ruler. But over that time, Mubarak amassed a fortune that should finance a pretty comfortable retirement. The British Guardian newspaper cites Middle Eastern sources placing the wealth of Mubarak and his family at somewhere between $40 billion and $70 billion. That's a pretty good pension for government work. The world's richest man – Mexican business magnate Carlos Slim – is worth about $54 billion, by comparison. Bill Gates is close behind, with a net worth of about $53 billion.

Mubarak, of course, was a military man, not a businessman. But running a country with a suspended constitution for 30 years generates certain perks, and Mubarak was in a position to take a slice of virtually every significant business deal in the country, from development projects throughout the Nile basin to transit projects on the Suez Canal, which is a conduit for about 4 percent of the world's oil shipments. "There was no accountability, no need for transparency," says Prof. Amaney Jamal of Princeton University. "He was able to reach into the economic sphere and benefit from monopolies, bribery fees, red-tape fees, and nepotism. It was guaranteed profit." (...)

U.S.NEWS /  / Yahoo Finance

Autoria e outros dados (tags, etc)

11 de Fevereiro de 2011

por Pedro Correia, em 12.02.11

  

«There are very few moments in our lives where we have the privilege to witness history taking place. This is one of those moments. This is one of those times. The people of Egypt have spoken, their voices have been heard, and Egypt will never be the same.

By stepping down, President Mubarak responded to the Egyptian people's hunger for change. But this is not the end of Egypt's transition. It's a beginning. I'm sure there will be difficult days ahead, and many questions remain unanswered. But I am confident that the people of Egypt can find the answers, and do so peacefully, constructively, and in the spirit of unity that has defined these last few weeks. For Egyptians have made it clear that nothing less than genuine democracy will carry the day

Barack Obama, esta noite, reagindo à queda de Mubarak

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Invencível Armada

por Laura Ramos, em 11.02.11

Em três dias, no Egipto, o facebook juntou 400 000 usuários apostados na sublevação contra Mubarak.

Chamam-lhe agora Sawrabook, o livro da revolução.

Num país onde a rede 'Al Jazeera' ainda não chegara e a televisão do estado exibia velhos filmes a preto e branco, foi obra.

Às armas, e ao alcance de um teclado.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ligou-me agora um egípcio...

por João Carvalho, em 11.02.11

... a perguntar se eu sei onde poderá ele encontrar Pacheco Pereira, Graça Moura e mais uns quantos, porque quer pedir-lhes alguns conselhos sobre a melhor maneira de fazer cair um ditador. Acham que lhe digo?

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Hosni Mubarak nasceu em 1928 em Kufr el-Musailaha, uma aldeia situada no delta do Nilo. Filho de modestos agricultores, fez carreira no exército. Formou-se como piloto militar na ex-URSS e o seu desempenho na Guerra de Yom Kippur valeu-lhe o posto de Chefe da Força Aérea. Em 1975, Anuar el Sadat nomeou-o Vice-Presidente. Seis anos mais tarde, assumiu a Presidência na sequência do assassinato de Sadat. Assinou os acordos de Camp David, optando por um claro alinhamento com os EUA e foi, aos poucos, contornando o isolamento inicial que tal posição lhe valeu no mundo árabe. A sua permanência no poder ao longo de cerca de 30 anos resultou de sucessivos plebiscitos, apesar de ter prometido por várias vezes promover a realização de eleições livres. Durante as três décadas em que exerceu o poder montou um Estado totalitário, corrupto e militarizado. Mais de 50 milhões de egípcios nunca conheceram outro Presidente. E, de acordo com os planos de Mubarak, esperariam mais alguns anos até conhecer o próximo, o seu filho Gamal. Todavia, hoje, 11 de Fevereiro de 2011, como resultado da revolução que eclodiu nas ruas do Cairo e em confluência com os ventos de liberdade que sopraram da Tunísia, foi obrigado a abandonar o poder e a entregá-lo ao exército. Começa, assim, a história do novo Egipto. Esperemos que as páginas seguintes se escrevam em liberdade. E que se encerre definitivamente o capítulo da tortura, da opressão, do sangue e do sofrimento.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

A declaração que Mubarak dirigiu ontem aos egípcios constitui um marco no processo revolucionário em curso. A mensagem transmitida é a de que o povo deve optar entre a democracia e a revolução. É claro que a via da democracia que foi proposta tem as suas particularidades. É a democracia Mubarak way. Lenta, controlada, de transição, protagonizada pelos escolhidos do déspota. Tudo isto em nome dos invocados superiores interesses do Egipto e com o objectivo de não permitir que o processo descambe para absolutismos (isso é que não pode ser!). Chega a ser comovente ver o coração empedernido do tirano a encher-se de entusiasmo pelo processo democrático. Mubarak afirma querer dar a democracia aos seus filhos. Acontece que, vá lá saber-se porquê, eles ainda não estão prontos para a desfrutar. A sociedade civil não está organizada, os partidos são imaturos, os cidadãos não atingiram o grau de civilidade necessário. Na verdade, neste preciso momento, os egípcios só estão preparados para a ditadura que Mubarak lhes proporcionou durante 30 anos. Felizmente, ele é um especialista no assunto da transição democrática e sabe exactamente como deve conduzir o processo de forma a atingir em 6 meses os resultados que não foram alcançados em três décadas. Perante isto, é bom de ver qual será a opção dos egípcios. A luta revolucionária vai continuar. À falta de preparação adequada para o processo democrático, o caminho terá que fazer-se ao andar. Se a revolução não pode ser feita por cidadãos integralmente formados, a revolução fará os cidadãos. Rapidamente, Mubarak vai perceber que não lhe será permitido despedir-se do poder ao  ritmo que pretendia impor. Pela simples razão de que já não o tem. O dia em que o ditador suspira pela democracia representa o canto da múmia. Resta esperar que o exército saiba usar o poder que realmente detém para evitar o banho de sangue.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

«Vai-te embora!...

por João Carvalho, em 11.02.11

... Não és dono do Egipto!»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Mirar o Cairo e ver o Apocalipse

por Pedro Correia, em 10.02.11

 

 

Depois de José Pacheco Pereira, também Vasco Graça Moura se debruça, angustiado, sobre os perigos do fundamentalismo islâmico num texto de pendor apocalíptico em que não há uma só linha de congratulação pela queda de Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egipto - ditadores que perfaziam 53 anos somados de mandato, com o requinte suplementar, no caso egípcio, de que já estava praticamente assegurada a sucessão para um dos rebentos do cleptocrata, travestindo a república em monarquia, em jeito de regresso aos tempos faraónicos do rei Faruk.

Bom estilista do idioma, Graça Moura compõe o seu texto no DN em jeito de valsa lenta que vai acelerando e crescendo de emoção à medida que os parágrafos se sucedem.

 

Primeiro parágrafo: «O mundo ocidental deveria olhar com grande apreensão as perturbações consecutivas que ali [Tunísia e Egipto] estão a acontecer e ameaçam alastrar rapidamente aos restantes países islâmicos do Médio Oriente e do Norte de África.»

Segundo parágrafo: «Está na cara que [as coisas] vão correr mal, mesmo muito mal.»

Quarto parágrafo: «O rastilho do fundamentalismo islâmico alastrará imparavelmente pelos caminhos da Al-Qaeda a todo o mundo árabe, ainda por cima com o risco de também acabar por envolver a Turquia.»

Quinto parágrafo: «O Ocidente não está já em condições de se defender, por falta de valores éticos e cívicos que foi dissipando em nome de uma permissividade politicamente correcta e desastrosa.»

 

Custa-me entender três coisas.

Primeira: que um democrata não se congratule calorosamente, em termos inequívocos, com a queda de um ditador.

Segunda: que seja sempre invocado o exemplo do Irão de 1979 como uma espécie de garantia prévia de que os movimentos pró-democracia no mundo islâmico estão condenados a ser mal sucedidos. Que eu saiba, a Indonésia também é um país islâmico - é aliás o maior país islâmico do globo - e transitou com sucesso da ditadura para a democracia no final da década de 90.

Terceira e última: que não se perceba que todos estes persistentes receios são afinal a prova mais evidente de que as ditaduras foram incapazes de travar o passo à ameaça fundamentalista. E como poderiam ter sido, designadamente no Egipto, sob o mando despótico e decrépito de Mubarak?

Lamento, sinceramente, que Graça Moura não tivesse espaço, tempo ou paciência para acrescentar um parágrafo ao seu texto. Um parágrafo em que aludisse à corrupção, à pobreza, às desigualdades, à repressão, às eleições fraudulentas, à censura aos meios de informação, à falta de liberdades fundamentais no Egipto. Por um simples motivo: este quadro confrangedor é que constitui o maior caldo de cultura do extremismo islâmico. Não perceber isto é não perceber o fundamental.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O "vazio" depois de Mubarak

por Pedro Correia, em 09.02.11

 

 

Da esquerda à direita, não faltam por aí certos opinion makers apostados em transmitir à plebe a noção de que a conquista de direitos fundamentais no Egipto é matéria de somenos, devendo moldar-se a critérios de natureza geoestratégica ou ao medo perante a possibilidade de vir aí "algo pior" do que Hosni Mubarak. Para o efeito, agita-se a todo o momento o cenário da revolução islâmica de Khomeini para demonizar as manifestações populares que estão a varrer parte do mundo islâmico. Confundindo deliberadamente o Irão de 1979 com o Cairo de 2011.

Estas considerações desembocam no puro relativismo político: procuram submeter a instauração de estados de direito a critérios culturais ou geográficos. Como se certos povos ou determinadas regiões não merecessem ascender à democracia.

Entre os comentadores a que me refiro destaca-se José Pacheco Pereira, mais bem informado que a maioria dos restantes mas tão preconceituoso como eles. Basta reparar numa prosa muito preocupada que publicou na última edição da revista Sábado. Passo a transcrevê-la com a devida vénia:

 

«No Egipto, tudo pode ainda vir a correr bem, sem Mubarak, e com mais democracia, mas o que se está a passar é ainda demasiado confuso para se começar a bater palmas. Na verdade, o Egipto foi a pátria ideológica da Al-Qaeda, e a organização que individualmente mais moldou o fundamentalismo islâmico é a Irmandade Muçulmana, que, sabe-se, não teve até agora papel fundamental nos protestos. Mas o grupo existe, tem força e uma longa história de perseguições por parte de Nasser, Sadat e Mubarak, e representa uma presença activa contra o secularismo e a modernização da sociedade egípcia.

A queda de Mubarak significa o fim de uma ditadura, mas também tira do poder um militar que sempre foi um travão à influência fundamentalista. Para haver democracia no Egipto não basta derrubar Mubarak, é preciso impedir que, no vazio do poder, ascenda a Irmandade Muçulmana.»

 

É assombrosa, esta noção de que à eternização de um ditador no poder deverá seguir-se o vazio político. Imagine-se agora o que anotaria um observador norte-americano da mesma escola de pensamento de Pacheco Pereira escrevendo sobre Portugal no dia 28 de Abril de 1974 (três dias após a Revolução dos Cravos e no auge da Guerra Fria, portanto), adaptando apenas ligeiramente as suas palavras actuais à realidade portuguesa daquela época (os sublinhados, naturalmente, são da minha responsabilidade):

 

«Em Portugal, tudo pode ainda vir a correr bem, sem Caetano, e com mais democracia, mas o que se está a passar é ainda demasiado confuso para se começar a bater palmas. Na verdade, Portugal foi a pátria de diversos movimentos revolucionários, e a organização que individualmente mais moldou esses movimentos é o Partido Comunista Português, que, sabe-se, não teve até agora papel fundamental nos protestos. Mas o grupo existe, tem força e uma longa história de perseguições por parte de Salazar e Caetano, e representa uma presença activa contra a democracia e a liberalização da sociedade portuguesa

A queda de Caetano significa o fim de uma ditadura, mas também tira do poder um político que sempre foi um travão à influência comunista. Para haver democracia em Portugal não basta derrubar Caetano, é preciso impedir que, no vazio do poder, ascenda o Partido Comunista

 

Por outras palavras: podemos supor sempre o pior para justificar o injustificável. Também houve uma época em que não faltava quem garantisse que Portugal precisava do seu Mubarak para conter a expansão do comunismo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bacoquice lamentável

por João Carvalho, em 09.02.11

Com umas promessas de revisão constitucional e eleições, a vida no Egipto começa a regressar à normalidade: os manifestantes nas ruas vão desmobilizando, as palavras de ordem vão-se calando e os protestos vão-se silenciando, enquanto Mubarak volta a ganhar algum espaço de manobra. Foi isto que me fartei de ouvir a vários opinadores todo o dia na televisão, com a agravante de terem até (concluo eu) influenciado certos blocos noticiosos.

Afinal, todos sabemos já que o dia que está a terminar registou as maiores manifestações destas duas semanas que já leva a revolta egípcia. Pelos vistos, ainda e sempre, continua a haver quem insista em olhar para o ar, para não ver o que é e tentar ver o que quer. Lamentável, esta bacoquice cansativa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sinais deste tempo

por João Carvalho, em 06.02.11

Hoje sabe-se quando uma revolução está no bom caminho.

É quando são milhões e há flores.

É quando as mulheres têm voz.

É quando os militares também são povo e a solidariedade não tem fronteiras.

É quando a liberdade não tem idade e a resistência tem pão.

É quando todas as ditaduras são denunciadas e rejeitadas.

É quando existe informação sem fronteiras.

É quando as pedras servem para gravar mensagens.

É quando os exemplos dos outros não foram em vão.

É quando pessoas de religiões diferentes rezam juntas em público.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quando a tortura permanece impune

por Pedro Correia, em 06.02.11

A tortura é um problema endémico no Egipto de Hosni Mubarak. Esta é uma das conclusões de um relatório de 95 páginas do Observatório de Direitos Humanos. Com um título significativo: 'Work on Him Until He Confesses': Impunity for Torture in Egipt.

Uma leitura que recomendo em particular àquelas almas mais sensíveis que agora se mostram tão preocupadas com a "pressão das ruas" e o destino do Egipto pró-Mubarak.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nítido nulo

por Pedro Correia, em 06.02.11

Nunca vi tantos democratas na bloga em defesa tão denodada de um ditador, sugerindo que depois só pode vir o caos. Alguns, talvez por mero acaso, são os mesmos que elogiam Israel por ser "a única democracia do Médio Oriente".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Menos um socialista a governar

por Pedro Correia, em 03.02.11

A queda de Mubarak é inevitável. E nem é preciso consultar os astros. Basta recorrer a um barómetro ainda mais infalível: a Internacional Socialista acaba de expulsar das suas fileiras o partido do ditador egípcio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Começa a ser recorrente a comparação entre a revolução egípcia e aquela que ocorreu no Irão em 1979. Esta é uma das declinações do argumento do perigo islâmico. O risco que se acena existe. Todavia, devem sublinhar-se algumas diferenças entre uma situação e outra. Até este momento, a revolução egípcia tem apresentado uma origem não ideológica. A actividade da Irmandade Islâmica tem sido discreta e não é comparável com a intervenção dos seguidores de Khomeini na revolução iraniana. Por outro lado, um dos factos que precipitaram o desenlace iraniano foi o ataque, ainda em 1978, das forças de Reza Pahlevi sobre manifestantes. A carnificina ocorrida (4000 a 5000 mortos?) eliminou qualquer possibilidade de sucesso de correntes moderadas. O banho de sangue radicalizou as posições e acabou por abrir a porta para os resultados que se conhecem. No Egipto, adivinha-se uma escalada de violência. Para evitar a concretização da ameaça de repetição da história é fundamental evitar que o ódio e a ira atinjam o ponto de não retorno. No estado actual da situação só a queda imediata de Mubarak assegura este objectivo. Às diplomacias americana e europeia não resta outro caminho senão promover esse desenlace antes que seja tarde demais. Os acontecimentos de ontem são bem a evidência de que o desastre pode acontecer nas próximas horas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Uma certa casta de comentadores continua a investir o seu esforço na tarefa de encontrar argumentos que contrariem a legitimidade das revoluções populares da Túnisa e do Egipto. Depois de invocada a ameaça islâmica, há quem tenha avançado para i) a constatação da falta de alternativas credíveis às lideranças dos ditadores desses países; ii) para a tese da inviabilidade da democracia em certas geografias, iii) para a defesa das múmias. Estamos, ainda e sempre, perante a afirmação da mais bacoca superioridade civilizacional. Para os egípcios e tunisinos, dizem, é melhor um ditador competente do que um democrata impreparado. Este é um argumento com inaceitável conteúdo totalitário. A liberdade é um valor. A competência é uma qualidade. A competência nunca poderá ser moeda de troca da liberdade. A ausência de lideranças alternativas é um desígnio da própria ditadura. Não é por isso que se deve beneficiar o infractor. Para além disso, a premissa é falsa. Seria bom que estes postadores ilustrados pudessem apresentar o seu argumento sobre a preparação e competência de Mubarak às centenas de milhares de pessoas que vivem na mais miserável indigência nos arredores do Cairo. Por outro lado, não consigo encontrar racionalidade na ideia de que um país ou uma região, não estando preparados para a democracia, possam estar preparados para uma ditadura. Francamente, a fábula do ditador útil e bonzinho não é para gente crescida. Como teste definitivo à validade destas teses proponho um caso de estudo. Em que posição ficaria nesse argumentário o Portugal que foi entregue às mãos de Vasco Gonçalves? No que diz respeito à tese da defesas das múmias, parecem-me estas muito importantes. E penso que devem ser feitos todos os esforços para preservar o património cultural que é uma marca da humanidade. Mas, não encontro ponto de partida que nos permita aceitar que uma parte de humanidade viva em privação de liberdade e dignidade com o objectivo de preservar as múmias. No fundo, o que este tipo de argumentos esconde é uma desorientação e um incómodo. O erudito geo-estratega da bloga ou da imprensa tem o seu quadro mental preparado para uma certa tipologia de acontecimentos: as revoluções não acontecem em países liderados por ditadores 'amigos'. Perante a evidência de que esta asserção estava errada, resta-lhes recolher do baú dos trastes uma ou outra sentença de condenação dos povos em causa a uma vida de injustiça. Antes isso que pôr em causa as verdades absolutas em que querem continuar a acreditar. Para além do mais, sempre asseguram a si próprios o conforto de poderem acertar nas piores previsões. Equiparam-se, neste aspecto, aos relógios parados que têm razão duas vezes ao dia. E esquecem-se que tornam evidente a diferença que existe entre os que defendem a liberdade em qualquer lugar e os que pensam que a liberdade é o lugar onde se defendem os interesses (ainda que este interesse seja a mera validação das suas teses auto-confirmatórias).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um teste decisivo a Obama

por Pedro Correia, em 03.02.11

 

 

Já não é possível o Ocidente continuar indiferente perante o que está a ocorrer no Egipto. A teimosia de um só homem em permanecer agarrado ao poder despótico que conserva desde 1981 ameaça mergulhar o país num banho de sangue. Tivemos a primeira amostra disso há poucas horas, quando bandos de arruaceiros claramente incentivados pelo agonizante regime de Hosni Mubarak carregaram contra manifestantes ordeiros e pacíficos que há vários dias aí se concentravam reivindicando direitos fundamentais: liberdade de expressão, liberdade de voto, liberdade de imprensa.

No conforto ocidental, onde há muito estes direitos estão adquiridos, continua a haver quem agite o papão do extremismo islâmico para negar aos egípcios aquilo de que nenhum de nós prescindiria a pretexto algum. São os mesmos que alertaram contra os riscos do "marxismo" numa América Latina livre dos tiranetes de caserna, os mesmos que alertaram contra o "caos" em que se transformaria a Europa submetida ao império soviético quando a democracia ali vigorasse, os mesmos que lamentaram a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã em nome da sacrossanta realpolitik, os mesmos que ainda hoje choram a queda de Ferdinand Marcos nas Filipinas e elogiaram a "firmeza" da clique chinesa que esmagou os estudantes de Tiananmen.

Este é um momento crucial no mandato de Barack Obama. Um momento em que terá de decidir se apoia sem ambiguidades o movimento pró-democracia no Egipto, sem escutar os estrategos que lhe recomendam "prudência", ou se prefere manter-se equidistante no conflito insanável entre o ditador e o seu povo. Enquanto escrevo estas linhas escuto mais uma Cassandra doméstica alertar a plebe para os riscos do "perigo islâmico". Esquecendo que o Xá e a cegueira dos seus apoiantes de longa data em Washington foram o ninho que permitiu ao extremismo de Khomeini chocar o ovo da serpente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A mesquinhez do ditador

por João Carvalho, em 02.02.11

Lembrei-me do que anotei há tempos aqui. Não tanto pela importância isolada do caso, mas porque mostra bem o que podem ter de mesquinho os excessos de um ditador. Não admira que Mubarak esteja a sentir tanta dificuldade para largar o poder que tem há 30 anos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bom bom era uma desgraça a sério!

por Rui Rocha, em 02.02.11

Porter esqueceu-se de o referir mas, existem vantagens competitivas verdadeiramente insustentáveis. Felizmente, há sempre um empresário português disponível para desenvolver o modelo teórico enquanto esfrega as mãos de contente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Um ditador é um ditador

por Pedro Correia, em 02.02.11

«Os manifestantes do Cairo e de Tunes enviam uma mensagem à escola diplomática 'realista': é preciso chamar ditador a um ditador, sempre e bem alto.»

Editorial do Le Monde

Autoria e outros dados (tags, etc)

As revoluções JÁ levam muito tempo

por Fernando Sousa, em 01.02.11

O grito de liberdade que alastra no Norte de África e vai no Médio Oriente é galvanizador. É impossível ficar indiferente. Multidões pedem reformas políticas, sociais e económicas ! Mas onde irá desaguar a onda é um mistério. Anos depois da conferência de Viena sobre a Declaração Universal de Direitos Humanos - a quem ninguém ligou peva, literalmente - as teses relativistas, defendidas, entre outros, pela generalidade dos países árabes, cedem perante as universalistas. Mas por muito que isto signifique um avanço promissor ao encontro de tudo o que há de mais fundo e comum no homem, há que pensar. O grito mais sagrado das democracias modernas – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – andou até nas ruas de Xangai, durante a Guerra do Ópio, mas não pegou - como se sabe e vê. Os russos saltaram do feudalismo para o comunismo, o futuro-mais-que-perfeito, e tiveram de recuar com a implosão da URSS, desaguando nessa coisa informe que agora têm que é o regime Medvedev-Putin. Pelo contrário, todos os sobressaltos dos países da América Latina, desde as independências, têm um enquadramento cultural, quase diria um alinhamento, bem claro. É bem possível que as revoluções, para produzirem alguns efeitos imediatos, mesmo contando com os passos que dão atrás, tenham de assentar numa matriz e caminhar por etapas, que é o que me escapa nestas aparentemente em curso. Todos os fenómenos políticos têm ancoradoros históricos nas culturas e nas mentalidades, não bastam as motivações. Quais são os destes? Pergunto, porque não sei.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Tiananmen nunca mais

por Pedro Correia, em 01.02.11

 

 

Ouço e leio alguns cínicos de turno, à esquerda e à direita, recomendando palavras de precaução contra as imagens impressionantes que nos vão chegando do Cairo e repetem as de há duas semanas na Tunísia. No momento em que escrevo estas linhas, mais de um milhão de pessoas afluíram já à Praça de Libertação, no coração da capital egípcia, para reclamarem aquilo a que todos os povos de todas as latitudes deviam ter direito: liberdade. Sem adereços, sem adjectivos. A simples, pura, antiga e sempre desejável liberdade - palavra tantas vezes pervertida quando vem da boca de políticos que fazem tudo para a espezinhar. Políticos como Hosni Mubarak, um dos tiranos há mais tempo em funções no continente africano.  

"As pessoas deixaram de ter medo", diz uma jovem, algures na multidão, à reportagem da BBC. Algo impensável ainda há poucos dias no mais populoso dos países árabes. Como era impensável também, para os defensores da "estabilidade" a todo o preço, que a ditadura de Ben Ali ruísse como um castelo de cartas poucas semanas após um jovem desesperado se ter imolado pelo fogo. Chamava-se Mohamed Bouazizi. Mal podia imaginar que aquelas trágicas labaredas que lhe custaram a vida iriam desencadear um incêndio sem precedentes por todo o mundo árabe.

Ontem à noite, também na BBC, um ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Jordânia advertia: "Se aconteceu na Tunísia, pode acontecer em qualquer outro país." A crise económica, particularmente dura entre os jovens, transformou drasticamente a relação entre estado e sociedade nos países árabes, submetidos durante décadas a regimes assentes na repressão e na corrupção - um cocktail só tornado possível, em muitos casos, graças à generosa ajuda ocidental: só no ano passado, Mubarak recebeu 1300 milhões de dólares em ajuda militar dos Estados Unidos. 

 

 

Chegou-se a um ponto sem retorno, o que parece apavorar alguns "pragmáticos" de serviço, receosos do extremismo islâmico e de outros vírus que poderão contaminar o Egipto - onde vive um terço de toda a população árabe - à boleia dos ventos da liberdade. Conheço bem estes argumentos: já os escutei em 1989 e 1990, quando o império soviético ruía. Muitos preferiam o mundo arrumadinho em dois blocos imóveis para poupar o planeta a "novos conflitos". Falavam do lado de cá, gozando da liberdade que não queriam conceder aos do outro lado - como se os direitos humanos não devessem ter expressão universal. Foram os mesmos que, pelo mesmíssimo motivo, mal contiveram expressões de alívio quando viram o exército chinês reprimir ferozmente manifestantes pacíficos na Praça Tiananmen. O mundo ficava mais "previsível", menos "perigoso".

Não perceberam nada então, tal como não querem perceber nada agora: é hoje impossível delimitar fronteiras geo-estratégicas à expansão dos direitos humanos. Nem travar o espírito refomista contra os regimes que esmagam as liberdades. A ditadura teocrática iraniana certamente acompanha com a máxima apreensão o que está a suceder no Cairo. Porque, nestes dias em que as manifestações são convocadas através da Internet, em Teerão pode acontecer o mesmo a qualquer altura. Como já sucedeu em Junho de 2009. E as imagens que hoje chegam do Cairo são capazes de contagiar vários outros países - Líbia, Argélia, Marrocos, Jordânia, Síria, Iémene, Omã e Arábia Saudita.

Os militares egípcios já garantiram que não virarão as armas contra o povo. A gigantesca manifestação que neste momento ocorre funciona, até por isso, como um genuíno plebiscito à liberdade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Europa e os Estados Unidos gostam de afirmar-se campeões da democracia. Trata-se, todavia, de uma proclamação com validade limitada no espaço. A mesma voz que enaltece os valores da liberdade ocidental tem apoiado velhos regimes autocráticos instalados na margem sul do Mediterrâneo. A submissão das massas populares dos países em causa facilitou, ao longo dos anos, a permanência dessa contradição, permitindo um silêncio complacente nas intervenções públicas sobre o assunto. Com a relação entre Israel e a Palestina a dominar a agenda americana e a Europa sempre incapaz de se articular em torno de uma diplomacia coerente, a democratização dos regimes do sul da bacia mediterrânica podia e devia esperar. Pelo meio, admite-se, alguma pressão diplomática inconsequente, em surdina, no aconchego dos gabinetes. A faísca tunisina veio, no entanto, alterar o estado de adormecimento dos povos vizinhos de tal forma que a questão já não será qual o próximo regime a abanar (ou a cair), mas qual dos regimes autocráticos ou militarizados da região será capaz de sobreviver. Perante a crise egípcia, que parece caminhar resolutamente para o precipício de um banho de sangue, a Europa vai sussurrando a várias vozes uma cantilena imperceptível. A administração americana, por seu lado, opta ainda por uma posição ambígua de apelo à implementação de reformas como contrapartida para estancar a violência. Obama devia saber que a vertigem revolucionária no Egipto não tem ouvidos para ecos longínquos e que as únicas vozes que têm uma remota possibilidade de ser ouvidas são as transmitidas pela Al-Jazeera. E que mesmo em relação a estas é duvidoso que se consigam sobrepor aos gritos que circulam nas redes sociais das mil e uma noites dos jovens egípcios. São estes que já não se contentam com medidas pontuais como subsídios ao preço dos cereais ou com a substituição de um governo para que tudo fique na mesma. O jogo que se iniciou nas ruas de Tunis e que agora se disputa nas do Cairo é um mata-mata. Ou morre o regime (agora ou mais logo) ou morrem milhares nas esquinas da revolução. Por uma vez, a diplomacia ocidental, acostumada aos interesses dúbios, à ambiguidade e à duplicidade, vai ter que tomar partido. Ou está do lado do esmagamento da rebelião pelos actuais detentores do poder no Egipto e nos estados que se seguirem no dominó da revolução, ou está do lado oposto. As meias tintas não são, neste caso, terra de ninguém. Pelo contrário, são o exacto local onde está o pasto que pode alimentar o incêndio do fundamentalismo islâmico. E as colunas de fumo que se levantam dos subúrbios do Cairo são o sinal evidente de que o tempo para decidir é, nem mais nem menos, o que resta até ao jovem militar Samir premir o gatilho da arma que tem apontada a Khalil, o não menos jovem universitário que, empurrado pelo twitter, acabou de chegar a uma avenida do centro do Cairo para lutar pela liberdade.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D