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In memoriam

por Ana Vidal, em 23.09.13

 

In memoriam

(ao Eduardo Nery)

Habitava um mundo estranho
povoado de divindades africanas
que ensaiavam as suas danças tribais
regidas pela batuta de Wagner
Era uma galáxia longínqua
num pátio de Lisboa
o reino do artista

Recebiam-me à porta
festivas buganvílias e Valquírias
tomadas da mesma vertiginosa exuberância
animadas pela mesma estética intemporal
natureza pura e fantasia humana
vegetação e som pulsando em uníssono
E tudo fazia sentido
um inexplicável sentido
um misterioso sentido
no reino do artista

Depois era preciso abrir caminho
sem medo de armadilhas
por entre graves sobas ancestrais
e feiticeiros de olhos penetrantes
a guarda real
do reino do artista

Passada a prova iniciática
esperava-me lá ao fundo um sorriso tímido
envolto em espirais de fumo
nascidas da volúpia de um cachimbo
Feliz entre tintas e pincéis
quadriculava a vida em cores vivas
e banhava-a de ouro no final
para que tudo fosse luz
no reino do artista

Eu levava-lhe palavras e silêncios
medidos sempre com mil cuidados
para não perturbar trompas e clarinetes de nibelungos
para não desafiar os deuses vodun na sua eterna vigília
para não profanar em vão
o reino do artista

Palavras e silêncios
eram tudo o que eu tinha para dar-lhe
Por lá ficaram
suspensos entre o Báltico e a costa do Benim
marítima deriva num pátio de Lisboa
o reino do artista.

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Até sempre, Eduardo

por Ana Vidal, em 02.03.13

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acabo de ser apanhada de surpresa pela notícia da morte do pintor Eduardo Nery, estou chocada e triste. Era um amigo. Ainda na passada semana passei uma tarde com ele no seu atelier de Campo de Ourique, e estava tão entusiasmado a preparar a exposição da sua maravilhosa colecção de arte africana que nem parecia estar doente. Mostrou-me os belíssimos protótipos de um novo serviço que desenhou para a Vista Alegre, já em fase de ajustamentos finais. Conversámos sobre um prefácio que ele ia fazer para um livro meu sobre Magritte, um pintor que ambos admirávamos. Não haverá prefácio, não haverá mais conversas sobre arte, viagens estéticas, poesia. Felizmente que ainda viu oficialmente reconhecida a sua vasta obra com uma medalha presidencial. Até sempre, Eduardo.

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