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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 03.06.15

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 Em Diálogo com Eduardo Lourenço, de Ana Nascimento Piedade

Entrevista

(edição Gradiva, 2015)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 23.05.14

 

 

Eduardo Lourenço: a História é a Suprema Ficção, de José Jorge Letria

Entrevista

(edição Guerra & Paz, 2014)

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o fim do mundo

por Patrícia Reis, em 21.02.14

Eu sei o que é estar à beira do abismo. Estou a olhar para ele, para o meu fim.

 

Esta frase é de Eduardo Lourenço, assim a disse, ontem, nas Correntes d'Escrita, edição 2014.

O meu coração encolhe-se.

O que quer dizer é que já não vê o futuro, que partilhou mais de 50 anos de vida com alguém que não está, que talvez possa deixar de pensar, de escrever, de querer saber. Não o diz assim. Nunca o dirá. Mas sente-o.

No Congresso Internacional Fernando Pessoa em Novembro de 2012, andando para cá e para lá, a ver a morte rondar, não parou um segundo.

Dei-lhe boleia. A minha mão nas mudanças, a dele na minha. Um gesto de conforto. De ternura. Os meus olhos ficaram nublados com a história que me contou. Não a repetirei, não é para isso que servem estes espaços. E, ao mesmo tempo, há no silêncio de algo que nos foi digo uma certa ideia de sagrado. Disse-lhe

 

Gosto de o ouvir pensar.

 

Parece-me holocáustica a forma como algumas das minhas pessoas estão tão perto do abismo. A justiça disso será o quê? A minha verdade é fruto da experiência, logo distinta da dos outros. O meu abismo é só meu. Gostaria de dar, a quem amo, planíces para caminhar, para gozar o sol, o silêncio. Um mundo plano, sem quedas. Depois repito o que sei ser verdade e, porventura, inevitável para todos

 

Eu sei o que é estar à beira do abismo. Estou a olhar para ele, para o meu fim.

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Ser ou não ser Europa

por Laura Ramos, em 09.12.11

 

Ontem, por mera coincidência na véspera da Cimeira de Bruxelas e do ajuste sobre o futuro financeiro da UE, fui ouvir Eduardo Lourenço numa conferência ao pé da porta. Não sei se me irei lembrar muito deste dia (será um mau sinal). Ou se irei esquecê-lo, porque o filósofo tinha razão.
Seja como for, que bom é distanciar-nos das tecnicalities do euro e dos mercados e, sem deixar de lhes reconhecer a diabólica responsabilidade, voltar a pensar na Europa como Victor Hugo, Dellors ou Otto de Habsburgo: um compromisso possível de unidade. Recentrando a questão nos seus alicerces, que sempre foram, apenas, a nossa vontade colectiva.
Era uma sala pequena e calorosa, que reunia um máximo de 80 pessoas, literalmente levadas num voo de águia sobre esta Europa, o projecto comum europeu, o nosso destino solidário - ou não - e, sempre latente, o fatal -Que faremos ?

Nunca deixei de acreditar no sonho europeu, mas não tenho dotes de Cassandra para adivinhar o que lhe vai acontecer – dizia. A Europa comunitária que faz sentido é a da unidade cultural, mas está parada desde Maastricht. Não soube reagir ao desaparecimento de velhos fantasmas e dar sinais indispensáveis aos novos espaços europeus, como a Rússia (e no entanto é a pátria de Tolstoi e de Dostoyevsky…)  - E a Turquia? A Europa é filha da Ásia e sobretudo da Ásia-menor. E eu estou tão desesperado com a Europa que acho muito bem que esta entre!

Tudo isto dizia sem que, apesar das dúvidas e do fio da navalha, eu lhe tenha encontrado qualquer sinal de desencanto mórbido, como tantos lhe atribuem.
Para ele, a Europa continua indubitavelmente a ser o continente mais rico do mundo, a pátria da filosofia, da ciência, a quem ninguém desafiava até passar uma boa parte do séc. XX, quando a Europa não era a Europa, era o Mundo. A América e a Ásia? Poderão vir a igualar-nos, mas nunca antes do final deste século. O natural não é dividirmo-nos, é impormo-nos como um todo, apesar das  nações que nos têm impedido de construir como uma entidade. Apesar da pulsão messiânica da Alemanha, que lhe vem do seu conflito histórico com a latinidade. Apesar da França - a mais vencida de todas e também a única a achar que todos os povos poderão ser franceses... Apesar da Inglaterra, verdadeiramente a mais avançada de todos os países (como até o afrancesado Eça percebeu) e a única a achar que só os ingleses podem ser ingleses... Apesar de Portugal e dos portugueses, nesta nossa ambígua condição de sermos os primeiros europeus e também os primeiros não europeus, num Oriente ao oriente do Oriente, como dizia Pessoa... Sim, houve momentos de humor destes, ciciado e tecido a bilros, com quentes risadas de fundo.

Eduardo Lourenço nunca sentencia, nunca moraliza. A simplicidade com que se expõe, ao discorrer, bastaria para o tornar único. – Quantas vezes podemos, hoje em dia, ser poupados à exibição gratuita de vaidades, de poses fabricadas, de mitos palradores içados à categoria de fazedores de opinião, tão cheias do seu próprio eu e de nada? A qualidade humana e o génio, ou a superioridade intelectual, como queiram, podem coexistir, sim. E ele ali estava, cristalino e objectivo, ainda que relativize o poder da objectividade. Propenso a esta ou àquela corrente, sem pertencer a nenhuma. Contundente e ágil, sem levantar a voz. De tal forma que me apeteceu dizer, no fim: Meus senhores, falou-vos Eduardo Lourenço, um 'não-lourenciano'…

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