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Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 10.10.13

Encontro? Sorriu. Já cá faltava. Levantou-se, voltou a sentar-se e releu a mensagem. Pronto, o período higiénico terminava ali. Poderia entretê-lo, inventando as desculpas do costume, mas sabia por experiência que o prazo expirara.

Segue-se uma carga de trabalhos. O que vestir, o cabelo, o peso, a conversa, a despesa, uma trabalheira cujo resultado não compensa o esforço. Hesitou, com a mão suspensa no teclado, mas o indicador adiantou-se e clicou com o rato em "responder": "No sábado para mim está bem", escreveram os outros dedos enquanto se recriminava.

Antes de enviar a mensagem  acrescentou-lhe um smile para ficar mais cool.

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Mérito relativo - 25

por Teresa Ribeiro, em 01.10.13

O empreendedorismo não é uma qualidade, é um slogan.

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Mérito relativo - 24

por Teresa Ribeiro, em 30.09.13

Ganhar eleições é, seguramente, um dos méritos mais relativos.

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Mérito relativo - 23

por Teresa Ribeiro, em 27.09.13

A honestidade em política não é uma qualidade, é uma disfunção.

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Mérito relativo - 22

por Teresa Ribeiro, em 26.09.13

A frontalidade não é uma qualidade, é um estilo.

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Mérito relativo - 21

por Teresa Ribeiro, em 25.09.13

A inteligência não é uma qualidade, é uma responsabilidade.

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Mérito relativo - 20

por Teresa Ribeiro, em 24.09.13

A sensibilidade não é uma qualidade, é uma textura.

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Mérito relativo - 19

por Teresa Ribeiro, em 23.09.13

A cortesia não é uma qualidade, é um anacronismo.

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Mérito relativo - 18

por Teresa Ribeiro, em 20.09.13

A ambição não é uma qualidade, é uma ambiguidade.

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Mérito relativo - 17

por Teresa Ribeiro, em 19.09.13

A riqueza não é uma qualidade, é uma fonte de stress.

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Mérito relativo - 16

por Teresa Ribeiro, em 18.09.13

A elegância não é uma qualidade, é uma despesa.

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Mérito relativo - 15

por Teresa Ribeiro, em 17.09.13

A disponibilidade não é uma qualidade, é um luxo.

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Mérito relativo - 14

por Teresa Ribeiro, em 16.09.13

A proactividade não é uma qualidade, é uma moda.

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Mérito relativo - 13

por Teresa Ribeiro, em 15.09.13

A experiência não é uma qualidade, é um activo (por vezes tóxico).

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Mérito relativo - 12

por Teresa Ribeiro, em 14.09.13

O optimismo não é uma qualidade, é uma fé.

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Mérito relativo - 11

por Teresa Ribeiro, em 13.09.13

O cinismo não é uma qualidade, é um defeito de culto.

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Mérito relativo - 10

por Teresa Ribeiro, em 12.09.13

A juventude não é uma qualidade, é uma oportunidade.

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Mérito relativo - 9

por Teresa Ribeiro, em 11.09.13

A beleza não é uma qualidade, é uma ferramenta.

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Mérito relativo - 8

por Teresa Ribeiro, em 10.09.13

Escolher os amigos entre os mais influentes não é uma qualidade, é uma habilidade.

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Mérito relativo - 7

por Teresa Ribeiro, em 08.09.13

Ser-se competente quando se tem vocação natural para o que se faz não é uma qualidade, resulta de uma feliz coincidência.

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Mérito relativo - 6

por Teresa Ribeiro, em 07.09.13

Ser naturalmente bem-humorado quando se tem elevados níveis de dopamina no cérebro não é uma qualidade, é um sintoma.

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Mérito relativo - 5

por Teresa Ribeiro, em 05.09.13

Envelhecer bem quando se tem bons genes não é uma qualidade, é uma tendência.

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Mérito relativo - 4

por Teresa Ribeiro, em 04.09.13

Saber conciliar trabalho e família quando se tem marido colaborante, empregada, família alargada disponível e vizinhança prestável não é notável, é - quando se passa essa mensagem - marketing pessoal.

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Mérito relativo - 3

por Teresa Ribeiro, em 03.09.13

A honestidade que deriva da falta de habilidade para mentir não é uma qualidade, é uma limitação.

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Mérito relativo - 2

por Teresa Ribeiro, em 02.09.13

Ser-se fiel por falta de capacidade de sedução não é uma qualidade, é uma condição.

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Mérito relativo - 1

por Teresa Ribeiro, em 01.09.13

Ter sucesso quando se nasce desejado, se cresce amado, numa família próspera, feliz e bem relacionada não é uma qualidade, é uma obrigação.

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Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 01.06.13

Desembaraçou-se daquele braço que lhe travava os movimentos, saiu da cama de mansinho e passou-se para a sala, pé ante pé, com o smartphone na mão. Não sabia o que lhe tinha inspirado aquele sonho, mas a ocorrência estava a incendiá-lo de tal forma, que precisava de partilhar. "Ela vai gostar", pensou, enquanto teclava a verdade do momento: "Amo-te".

"Ao fim de meses de silêncio será o bastante para a incendiar também, mesmo que à revelia". Sorriu ao imaginá-la a esgrimir contra o desejo. Conhecia-lhe os hábitos: "A esta hora ainda não foi dormir de certeza". Remexeu-se no sofá, ansioso: "Deve estar a pensar o que há-de responder". Ah, como ele gostaria de voltar a sentir aquelas unhas nas costas. Estava tão absorto que se sobressaltou quando o telemóvel começou a vibrar. "É ela! As mulheres não resistem a este género de surpresas". A confirmação das suas expectativas fê-lo evoluir da excitação para a ternura: "Que saudades de ver aparecer aquele nome no ecrã!" Abriu a mensagem sem pressa, para saborear o momento. Em maiúsculas  lia-se: V A I  MORRER LONGE.

Levantou-se do sofá num ápice. "Estúpida!" E lembrou-se dos motivos que o levaram a deixá-la: "Tinha muito mau feitio".

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Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 02.09.12

Falar de quê? Dos amigos que não tinham em comum? Da vida profissional que é o tema dos chatos? Falar de quê? Do que fizera na véspera? Era o que faltava. Ainda estava para nascer o tipo a quem iria dar satisfações sobre a sua agenda pessoal. Olhou-o e apercebeu-se, como tantas vezes já lhe tinha acontecido, que já não havia palavras.

- Queres ir ao cinema?

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O meu gato e eu

por Teresa Ribeiro, em 31.03.12

Dorme como se não houvesse amanhã. Deviam inventar pílulas de gato para as insónias.

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O meu gato e eu

por Teresa Ribeiro, em 21.03.12

Dizem que os gatos são falsos. Mero preconceito. Eles são bons a mostrar os seus limites de tolerância, só isso. Quem os ultrapassa, habilita-se. É justo.

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O meu gato e eu

por Teresa Ribeiro, em 19.03.12

Tem uma auto-estima inabalável, mas uma péssima relação com o espelho. Vá-se lá entender os gatos.

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O meu gato e eu

por Teresa Ribeiro, em 17.03.12

As moscas enlouquecem-nos. A ele porque lhe invadem o território e a mim porque se tornaram uma séria ameaça à integridade das  minhas cortinas e objectos de decoração.

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O meu gato e eu

por Teresa Ribeiro, em 15.03.12

Às vezes ele faz de inspector Clouseau e eu de Cato Fong. Ele adora os meus ataques surpresa e eu também. Especialmente nos dias em que me esqueço de tomar os comprimidos.

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O meu gato e eu

por Teresa Ribeiro, em 13.03.12

Se pudesse fazer-te uma árvore genealógica descobriria um estendal de horrores. Os gatos sempre foram objecto preferencial do sadismo humano. Vens de uma linhagem de bichanos estripados, meu lindo. De bichanos a quem não se perdoou a natureza indomável. A fragilidade e beleza natural própria dos da tua espécie pioraram ainda mais as coisas, evidentemente. Deviam também consagrar-te um dia para aliviar a má consciência da Humanidade. O que me dizes?

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O meu gato e eu

por Teresa Ribeiro, em 11.03.12

Tem nojo de mim, o insolente. Quando o abraço e beijo a seguir lava-se repetidamente para eliminar o meu cheiro. "Estúpido!", grito-lhe às vezes divertida.

Seria impossível achar-lhe graça se fosse gente. Quem disse que as diferenças tendem a aumentar os nossos níveis de intolerância?

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O meu gato e eu

por Teresa Ribeiro, em 09.03.12

Manipular um cão é abusar da sua pureza, mas com um gato é diferente. Um gato está mesmo a pedi-las.

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O meu gato e eu

por Teresa Ribeiro, em 07.03.12

O teu mutismo poupa-nos imensas discussões. Desentendemo-nos às mil maravilhas.

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Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 06.03.12

Tinha coragem física, intelectual e uma auto-confiança inabalável. Além disso era uma pessoa íntegra, de uma só palavra. Sabia-se por todos estes motivos respeitado e quando tomava consciência destas suas qualidades sentia-se enamorado de si mesmo. Era um homem. Primeiro entre iguais, mas também, não por acaso, muito apreciado pelo belo sexo. Ah, as mulheres. Com essas era um fraco. Num piscar de olhos minavam-lhe a integridade, a moral, a decência. Ele que tanto desprezava quem tinha duas caras, com as mulheres, se fosse preciso, arranjava mil. Mas com elas, já se sabe, com elas é diferente.

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O meu gato e eu

por Teresa Ribeiro, em 05.03.12

Tal como o meu primeiro gato, também é filho de sem-abrigo. Mas ao contrário do outro, que foi alimentado a seringa, este teve a sorte de ser amamentado por uma gata até ao momento em que o adoptei, quase com três meses. Pode falar-se de personalidade quando se fala de bichos? Tecnicamente não, mas vou falar. O primeiro era muito tímido, inseguro, dócil, assustadiço. Este é uma pestinha cheia de si. Será que o Freud também explica isto?

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O meu gato e eu

por Teresa Ribeiro, em 03.03.12

Gosta de ir comigo para o duche. Não para me espiar, mas para sentir o ar encher-se de vapor de água tépido. Quando me olha, apenas me vê. Algo que jamais serei capaz de fazer.

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O meu gato e eu

por Teresa Ribeiro, em 01.03.12

Escolhi-o por ser o mais bonito da ninhada. Saiu-me um peluche caprichoso, interesseiro, vingativo, teimoso, arisco e desastrado (já me partiu duas televisões). A beleza é equívoca e tem sempre custos associados.

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Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 04.02.12

Gostava de chegar e sentir a casa só para si. O bafo quente da presença delas, os cheiros da cozinha, a respiração forte e ritmada da criança que se ouvia do corredor envolviam-no como uma benção. As marcas delas, que mudavam todos os dias de sítio, eram as provas de vida da casa. Jornais espalhados no sofá, alguma loiça por lavar, pingos de gordura no fogão. A desarrumação que as mulheres consentem. Saudável e harmoniosa. Precisava disso. De chegar ao fim de um dia cheio e voltar para o seu ninho disfuncional. Infrequentável aos fins-de-semana, mas adorável quando de madrugada o tinha só para si.

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Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 25.01.12

Não sabia determinar o momento exacto em que começou a desinteressar-se. Teria sido no dia em que ele confundiu Montaigne com Montesquieu, ou quando se descalçou e lhe viu as meias rotas? A verdade é que eram sempre esses excessos de humanidade que acabavam por condenar ao fracasso todas as suas relações.

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Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 19.01.12

Hum... aquele amor em letra de forma enchia-lhe o coração. Era um amor portátil, podia levá-lo consigo para todo o lado. E discreto, podia namorá-lo em qualquer circunstância. Não era carnal mas era táctil. E sobre todos os outros tinha a enorme vantagem de se poder ligar e desligar e até deixar em silêncio a qualquer momento. Na sua vida precisava de um amor assim: infinito, pelo menos enquanto durasse a promoção que oferecia mensagens gratuitas para outras redes. 

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Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 15.02.11

Quando o rasto de perfume riscou a sala atrás dela, levantou os olhos do jornal. Ainda era uma bonita mulher - surpreendeu-se a pensar enquanto de través lhe escrutinava as curvas do busto, e das pernas, caminhos tantas vezes percorridos. Voltou ao Egipto: Irmandade muçulmana quer criar partido político. Gostava do som acetinado das coxas quando ela, antes de se pôr nos saltos, acelerava pela casa em collants de lycra.

A única coisa que impedia a Irmandade Muçulmana de o fazer era a lei sobre os partidos, que proibe a formaçao de partidos de base religiosa. Estaria aquele povo preparado para uma democracia? Era um conservador, por isso desconfiava, por instinto, das mudanças.

O encarnado ficava-lhe bem. Teria emagrecido? Estava bonita. Parecia diferente. Estaria feliz? Como uma seta focou o topo da página que lia. Quinze. Hoje são quinze. Pigarreou nervoso. Se calhar vai à prima. As mulheres também se produzem para sair umas com as outras - reflectiu, desdenhoso.

O barulho irritante dos saltinhos não o deixava concentrar-se na leitura: Há receios no ocidente de que a Irmandade Muçulmana pretenda a instauração de um regime islâmico. Olhou-a com atenção: as marcas da idade estavam lá. Se as procurasse encontrava-as sem a menor dificuldade no contorno do rosto, nas mãos, no pescoço. Remexeu-se no sofá, incomodado com uma dor que se fixara de súbito nas costas. Ontem, ontem é que foi dia de S.Valentim.

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Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 03.02.11

Se quisesse, o ambiente entre os dois mudava - pensou entre o apático e o divertido. Bastaria puxar outro tema de conversa para passarem do clima mais agreste à harmonia. Com a ponta do seu gume de três sílabas seria até possível restaurar a paixão e fazer o carrocel girar de novo, por entre abraços e suspiros. Mas no momento seguinte um arrepio de silêncio poderia instalar o desconforto outra vez e o elan desabaria à medida que fosse esfriando a sua voz, desfocando o olhar, para depois, in extremis, se desejasse, recuperá-lo com um beijo inesperado, uma promessa ou uma piada. Ah, o amor. Tão poderoso e tão plástico. Bastaria uma palavra sua, um instante de dúvida e o clima entre os dois mudaria.

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Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 29.01.11

- Já soubeste?

- Claro, já toda a gente sabe.

- Que horror!

- Estou em choque.

- Quantos anos é que ele tinha?

- Acho que ainda não tinha feito 40.

- Diz que foi morte imediata.

- Antes assim, coitado.

- Desde que soube, ontem à noite, que ele não me sai da cabeça.

- Também. Nem dormi como deve ser.

- Afinal, pelas minhas contas, convivemos diariamente durante mais de dez anos.

- Tinha família?

- Acho que sim, um ou dois filhos.

- Por acaso tinha ideia de que vivia sozinho.

- Pois, acho que sim. Acho que estava separado.

- Coitado.

- Não consigo olhar para aquela secretária vazia.

- Nem eu.

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Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 26.01.11

Olhou as paredes e embora não tivessem espelhos viu-se reflectido nelas, deitado no sofá, revistas e jornais espalhados à volta, alguns no chão, junto do prato onde pousara o copo, agora vazio. Seria a solidão a única mulher com quem ele conseguia viver? - ironizou. Às vezes cansava-o. Mas não o cansavam todas? Olhou para o telemóvel, aceso pelo último sms recebido. Escreveu "amo-te" e enviou.

No ar ainda se respirava o perfume que lhe oferecera no Natal. Reparou nesse momento que ela se esquecera das luvas, sinal evidente de que tencionava voltar, apesar de ter saído a bater com a porta. Bocejou. A diferença - pensou - é que a solidão não é reivindicativa.

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Fast Feelings

por Teresa Ribeiro, em 23.01.11

O almoço demorado amoleceu-a. Anda, diz-lhe ele, agora temos de cumprir o nosso dever cívico. À gracinha do costume respondeu com um esgar de enfado: Não preferes ir ver o último filme do Clint Eastwood? Ele riu-se, condescendente: Vá lá, temos tempo de fazer as duas coisas, a assembleia de voto fica a dois passos"

Aquele empenhamento irritou-a: Já sabes em quem vais votar?, pergunta-lhe, secamente, à saída do restaurante. Vou votar no mesmo que tu, atira-lhe, mais para frustrar a curiosidade do tipo que se cruzou com ele de olho vivo e orelhómetro no máximo, do que para não lhe responder.

Ai, sim? Então vais votar em branco, mente-lhe ela. Divertido, desvenda-a sem hesitar: Tu nunca votas em branco. O sorrisinho confiante dele aborrece-a ainda mais: Como sabes? Enquanto mete a chave no carro, ele argumenta: Sempre me disseste que é pouco estimulante votar em branco.

Já sem vontade de continuar aquela conversa, resmunga: Vá, vamos então ao passeio dos tristes. O movimento pouco habitual em torno da escola, a um domingo, lembra-lhe outras eleições em que participara com um entusiasmo que agora lhe parecia pueril. Sai do carro e caminha contra o vento gelado, já com o pensamento longe dali. Na assembleia de voto meia dúzia de gatos. Estás a ver?, comenta com uma satisfação rancorosa, quase ninguém.

Na cabine pega na caneta e olha para eles, de má vontade. Hesita. Já que se deu ao trabalho vai escolher. Mas num rasgo de inspiração decide não escolher mas eliminar, pelo velho método do "an do litá, cara de amendoá..."   

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Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 19.01.11

 

Acende a luz, descalça os sapatos, quase em agonia, e salta para o sofá, ainda de sobretudo, a massajar os joanetes. Olha para os saltos agulha abandonados na carpete com rancor, recriminando-se por ter cedido à vaidade de os levar para aquele jantar. Há anos que não via a Bibi, tantos que quando pensava nela ainda misturava as feições da rapariga de quem se fizera amiga com as da quarentona que há um par de horas lhe tinha servido, orgulhosa dos seus dotes culinários, o seu famoso coq au vin. Tão devotada àquela sua vidinha, tão despojada de tudo o que a tinha tornado interessante antes de se ter casado, há uma eternidade, com aquele homem.

Antes de deitar mão ao comando da tv faz zapping pelas paredes e móveis da sala, demorando-se nos objectos que mais aprecia. Suspira feliz por não ter a vida da Bibi e atira-se aos canais da televisão antes mesmo de se começar a despir. Quando descobre por entre anúncios de desodorizantes e noticiários requentados o rosto de Vivien Leigh, larga o comando e aninha-se, ainda descalça e de sobretudo, no sofá. Num reflexo pavloviano procura a caixa dos lenços de papel e já completamente esquecida da sua amiga Bibi prepara-se para mais uma vez se desfazer em lágrimas com a cena final de "E Tudo o Vento Levou".

 

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