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Tina Turner faz 74 anos hoje

por Patrícia Reis, em 26.11.13

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Puttin’on the Ritz

por Patrícia Reis, em 24.06.13


Dedicatória: para a minha mãe

 

Epígrafe: Puttin’on the Ritz

Have you seen the well-to-do

Up and down Park Avenue

On that famous thoroughfare

With their noses in the air

 

High hats and narrow collars

White spats and lots of dollars

Spending every dime

For a wonderful time

 

Now, if you're blue

And you don't know where to go to

Why don't you go where fashion sits

Puttin' on the Ritz

Different types who wear a daycoat

Pants with stripes and cutaway coat

Perfect fits

Puttin' on the Ritz

 

Dressed up like a million dollar trooper

Trying hard to look like Gary Cooper

Super-duper

 

Come, let's mix where Rockefellers

Walk with sticks or "umberellas"

In their mitts

Puttin' on the Ritz

 

 

Sempre pintei ao som do fado. Não por causa da música, mas pelos poemas, palavras que se casam com um sabedoria até aí desconhecida. Prefiro os homens no fado; gosto de tentar igualar a fraqueza da minha voz com a voz deles. Os homens que cantam o fado em Portugal encenam-se menos que as mulheres, preservam uma certa ingenuidade. As mulheres seguem as pisadas de Amália Rodrigues e, afinal, é por ela que aqui estou. Quarto 113 do Ritz de Lisboa.

Subi do deserto melancólico e quase vazio do interior alentejano para imitar a grande diva. Pareceu-me a coisa acertada. Vi aquele documentário sobre ela, uma coisa bem feita, ela já de cabelo aloirado, com rugas, as mãos dançando acompanhadas pelas unhas pintadas de vermelho... é impossível de pintar a dança. A dança, seja ela qual for, é secreta e íntima, não se reproduz. Vi, ao longo da vida, muitas fotografias de bailarinos. Não mostram a dança. Ficamos presos na ideia do corpo, dos músculos, daquele corpo igual ao nosso que pode ir mais. Da delicadeza de movimentos. Ir mais longe. Fazer o impossível. Nunca pintei a dança. Pinto mulheres e homens, pinto a terra e a desolação. Os críticos chamam-me original. Suponho que seja um elogio, ou que deva ser encarado como um elogio. Original num século XXI tão estafado de imagens e ideias é qualquer coisa, todavia não me comove. Não consigo encher-me de mim. Amália, agitando as mãos, diz, no tal documentário, que nunca foi feliz, apesar de tudo o que Deus lhe deu. A mim, Deus deu-me a minha mãe, ela que trabalhou e trabalha para nos obrigar a fazer o nosso caminho.

Trabalha, Maria, trabalha que vais lá chegar. Cada um tem o seu caminho, terás de construir o teu.

Quando lhe disse que queria seguir Artes, a minha mãe nem pestanejou, arrastou todas as suas posses até Lisboa. Eu tinha quinze anos. Fiquei num quarto para os lados de Campo de Ourique, casa de uma senhora viúva, americana,  uma designer de jóias chamada Nora. Aprendi a amar o fado com Nora e descobri Lisboa pelas mãos de uma estrangeira. Talvez por isso ela quisesse ir aos sítios onde os lisboetas não vão. Eu seguia-a aos fins de semana. Conheço todos os miradouros da cidade. Sei histórias de santos e de mártires que ninguém ensina na escola. Uma tarde, seguimos até junto à Pascoal de Melo para espreitar a fachada mais estreita da Europa na rua Aquiles Monteverde, número 16. Ficámos ali apenas a ver por uns momentos. Sentámo-nos depois no jardim e Nora reparou nos miúdos e nas brincadeiras. Foi um bom dia.

Durante a semana estava na escola. Desenhava, moldava, experimentava.  Não estava numa fase de rebelião, como tantos colegas meus. Não pintei o cabelo de roxo, não me interessava a moda dos góticos ou dos outros. As minhas mãos eram o reflexo exacto do que fazia. Todas as noites as limpava – e continuo com esse ritual diário -  com cuidado; todos os vestígios de tinta que se imprimem no meu corpo desaparecem por umas horas e depois voltam a instalar-se. A pinta sempre foi a minha moda.

A minha mãe telefonava pelas sete da tarde. Fazíamos o relato completo das actividades. Ouvia-lhe o riso miudinho, a dizer que sim, que era engraçado, que tinha razão sobre qualquer questão banal, a contar a última asneira do Zé da Chica e outras familiaridades. Todos os meses, eu mandava para casa uma carta com desenhos de Lisboa, de Nora, do Jardim da Parada, da vista do Tejo perto da escola. Até hoje, a minha mãe guarda esses envelopes.

Depois entrei no Conservatório. Ganhei uma bolsa de estudo. Mantive-me com Nora que, por essa altura, já começava a dar sinais de instabilidade. Os papéis inverteram-se. Comecei a colocar post it amarelos pela casa a identificar as coisas:

fogão, desligar

limpar a ferida

tirar a roupa do estendal

Fazer a cama

Abrir o correio

 

Coisas assim. Nora seguia-me. Baralhava as coisas, datas e acontecimentos. Guardava, contudo, memórias extraordinárias da América e eu fui tomando notas à minha maneira: desenhava para ela.

­Era assim?

Não, não, a rua tinha mais pessoas e ali havia uma loja de antiguidades. Preciosa. Era quase um segredo. Era preciso tocar num botão para entrarmos. Nunca comprei nada, claro, não havia dinheiro para isso, mas adorava ir ver.

 Que idade tinha, Nora?

 Uns dezassete? Sim, talvez.

 E desenhava jóias com essa idade?

 Sim, mas isso foi tudo antes do Bill e do casamento.

Era muito nova.

 Nunca somos demasiado novos, Maria. Não estamos é atentos como deveríamos estar. Demoramos a cá chegar.

Depois encostava-se ao cadeirão de orelhas e ficava a ouvir Carlos do Carmo, Pedro Moutinho, Marco Rodrigues, Camané, António Zambujo. Por vezes, na cozinha cantarolava o “Fado do Estudante”, imitando o Vasco Santana, e dizia que era em minha honra. Ríamos do sotaque dela, da pose, da almofada que enfiava debaixo da camisola para se fazer barriguda como o Vasquinho amaldiçoado pela “da franja”.

 

 

Quando é cantado e a rigor

Bem afinado e com fulgor

É belo o Fado, ninguém há quem lhe resista

É a canção mais popular, toda a emoção faz-nos vibrar

Eis a razão de ser Doutor e ser Fadista

 

Ríamos com tanta facilidade que não chegámos a entender que estávamos a viver os melhores momentos de todos. Aprendi tanto com ela, mas isso já disse, não é? Repetir as coisas é uma forma de viver, também isso aprendi com a Nora e, decerto, com a minha mãe, sempre a dizer as mesmas coisas.

Tem cuidado contigo. Não te canses. Faz o teu melhor, não precisas de ser a melhor e nunca faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

A minha mãe. Nora. A minha orientadora de tese, Inês, uma mulher que dobrava a pedra e o ferro com astúcia e violência, contra o mundo conformado, contra os preconceitos. Só existem mulheres fortes na minha vida, mulheres que tanto admiro, e que agora, quem sabe?, vou desiludir. Mas ainda cedo. O quarto tem a luz de fim de dia de Lisboa. Ando descalça e os pés pisam a alcatifa mole quase amorosamente. Cheguei ontem. Fui à minha mãe, como se diz, fiquei por lá uns dias e regressei. A casa de Nora já não existe, claro; ela está nos Estados Unidos há uns anos.

Deve ter sido uma coisa assim: a filha telefonou uma vez e achou que Nora estava confusa; telefonou mais vezes e meteu-se num avião. Num americano anasalado, repetidamente invocando o Senhor num “Ó my God”, a filha rica levou a mãe para casa. Nora estava com princípio de Alzeihmer. Eu sabia e não sabia. Fiquei órfã de Nora e das suas histórias. Nesse ano, desenhei tudo o que consegui lembrar-me da vida daquele mulher pequena que me acolheu. Aluguei um quarto e enfiei o que tinha debaixo da cama alta de ferro preto. Não era uma cama como esta, nada disso. Era uma cama que rangia com vida própria.

Acabei a escola e uns coleccionadores estimados no meio competitivo das artes compraram as peças que exibi no fim de curso. Fiquei, pareceu-me então, rica. Mandei dinheiro à minha mãe que, diligente, voltou a colocar a mesma quantia na minha conta bancária.

Ó mãe, mas isso era preciso?

É dinheiro do teu trabalho, Maria. Nem penses. Eu estou bem.

Aluguei uma casa e deixei a cama que rangia. Para não correr riscos, coloquei o colchão no chão e, com um certo desprezo, decidi que não precisava de móveis. Ainda que me lembro da cara da minha mãe quando me visitou a primeira vez.

 

Então, mas tu vives assim? Sem cama, sem cortinados, sem tapetes...

Não preciso nada disso, basta-me o estirador e boa luz, mãe.

Se tu dizes.

Não me lembro de uma zanga entre as duas. A minha mãe deixa as coisas fluírem, tem essa sabedoria, mesmo agora que já não é nova. Demonstra um certo orgulho no meu percurso, faz recortes de jornais desde que comecei a expor e, quando fui a Madrid pela primeira vez, decidi levá-la: ela com tanto medo de multidões, ela sem perceber o que os espanhóis diziam; parecia um papel de parede, uma mulher na meia idade a sorrir por causa da filha.  Nunca senti tanta ternura por ela como nesse momento. Portugal era um dos países tema de um certame importante. O escritor alentejano, José Luís Peixoto, um homem bonito ornamentado de tatuagens e piercings, numa noite de jantar e alguma formalidade, disse, maravilhosamente, o poema “Cinco à Mesa”. A minha mãe abandonou a sala a chorar.

Foi a única vez que a vi chorar.

Agora, a imagem dela à soleira da porta — eu a entrar no carro com sacos de bolo pobre feito com aguardente e mel, com pão fresco e queijo — está presa a tudo. Não sei o que faço aqui, mãe. Podia ter ido para casa. Mas não, está lá o Miguel e, por isso, não posso, seria como ir à guerra.  O Ritz era um sonho antigo.

Quando for rica vou dormir para o Ritz.

Disse-o muitas vezes, em tom de brincadeira, sem pensar no que dizia. Imaginava o Ritz como ele é, cheio de histórias e solene, com alcatifa mole no chão dos quartos e camas feitas de forma impecável. Imaginava o Ritz com música de fundo.

Amália dizia que tudo lhe aconteceu por acaso, que foi Deus, mas que também foi a Sorte, já que possuía a coragem para reinventar o fado, de cantar rancheras  e outras coisas, de aceder aos poetas e músicos, de representar nos filmes por mera intuição. Ela a quem nunca ensinaram nada. Eu não posso dizer o mesmo. Talvez tenha uma espécie de talento que me leva ao carvão ou ao óleo; sim, posso ter isso, todavia sou um elo de esforços, pessoas que fizeram caminho uma vida inteira para eu cá chegar. Não tenho um tumor na cabeça nem noutro sítio, tenho-o no coração. Amália fugiu para Nova Iorque para se matar. Era o medo da traição do corpo, desse diagnóstico infeliz. Enfiou-se num hotel, não sei qual, e deduzo que tenha bebido e visto televisão, até que foi salva por Fred Astaire. É ela quem o afirma. Começou a percorrer as lojas todas atrás dos filmes de Fred Astaire. Ficava o dia inteiro sentada a vê-lo dançar. Dançar com Judy Garland, com Audrey Hepburn, com Cid Charisse, com Gene Kelly, com Ginger Rogers, com Bing Crosby.

Consigo imaginá-la com facilidade e essa imaginação leva-me ao desenho. Tenho Lisboa aos meus pés, literalmente, e desenho os passos elegantes de Fred Astaire a cantar “Puttin’ On the Ritz”. Parece-me justo. Já disse que não é possível desenhar a dança? A dança tem uma teimosia, digamos, que não se captura. Trouxe comigo um dos meus filmes preferidos, “Blues Skies” ou “Romance Inacabado” em boa tradução portuguesa. Tenciono vê-lo no computador daqui a pouco. Enquanto isso, penso. Penso e desenho e oiço a Amália na minha cabeça, a “Gaivota”, o “Grito”, a “Estranha Forma de Vida”. Sei os poemas de cor. Sei-os por causa de Nora, ela que os dizia num português emprestado, sibilante e arrastado. Por esta altura, deve estar num lar e não sei se me reconheceria. Por vezes, ligo a Helen, a filha: ela começa logo a dizer coisas de forma estridente e pouco ou nada diz da mãe.

She’s fine, dear. It’s so nice of you to care, but there’s nothing one can do.

Irrita-me a falta de tristeza de Helen.  Talvez eu a tenho pelas duas. Não sei. Consigo ser injusta quando não estou bem. Quando sou assolada por estes pensamentos. Amália foi para Nova Iorque para se matar. Queria que o tumor desaparecesse sem dramatismo. Estava decidida a isso. Não contava, porém, com o poder hipnotizante de Fred Astaire. Um homem magro, com pouca voz, para quem todos os grandes compositores americanos escreveram.

Now, if you're blue

And you don't know where to go to

Why don't you go where fashion sits

Puttin' on the Ritz

Different types who wear a daycoat

Pants with stripes and cutaway coat

Perfect fits

Puttin' on the Ritz

Deixo o bloco em cima da secretária, junto à jarra com flores, corro as cortinas  e deixo-me ficar na cama a fazer de estrela do mar. O corpo tenso, os braços abertos e as pernas abertos. Tenho quase quarenta anos agora. O Miguel está à espera de explicações. É um homem que aprecia a troca de palavras, pode até ser violento, mas sobre isso não falarei. Não sei se consigo voltar para casa. A minha mãe, sempre na soleira da porta, a gritar para dentro do carro em andamento:

O teu quarto está sempre pronto, querida. Volta.

Não tenho forças, mãe. Já não sei o caminho das coisas certas. Não consigo falar do Miguel, é apenas um homem na minha vida. Não me dá paz, nem luz, não se confunde nas minhas tintas. Julga-me e condena-me. Diz coisas absurdas. Odeia o cheiro da água raz, dos pincéis, das telas. Se me soubesse aqui, bem quente no Ritz, escondida do mundo, rir-se-ia com desdém. Tem um absoluto desprezo pelo luxo. Azar o dele.

Vou ficar aqui dentro deste quarto, como num aquário, e tentar dormir. Invocarei a senhora dona Amália, pedir-lhe-ei que me assalte os sonhos e apareça a dançar com Fred Astaire aqui mesmo. Terei um vestido negro e colocarei umas pérolas para os acompanhar na dança majestosa, alcançarei uma graça que nunca possuí.  Serei uma personagem do Ritz. Vou entrar num filme dentro do meu sonho. Depois disso, talvez, possa voltar para casa. Mandarei ao Miguel um desenho a servir de fim de conversa e peço aos anjos para se colocarem na direcção do campo, do Alentejo mais calado e profundo. Pode ser que aí seja, por fim, feliz. Ou, como na canção de Amália, sem secar as minhas lágrimas, vá adormecer cantando baixinho

 

Cheia de penas me deito

E com mais penas me levanto

Já me ficou no meu peito

O jeito de te querer tanto

 

Nota: Amália Rodrigues morreu a 6 de Outubro de 1999.  A expressão "puttin’ on the Ritz," significa “vestir de forma sofisticada” e teve como inspiração o Ritz Hotel em Nova Iorque. Fred Astaire cantou e dançou esta música de Irving Berlin, escrita em 1929, no filme “Romance Inacabado” de 1946.


Este conto faz parte da colecção Divas, que sai no Diário de Notícias, todas as sextas-feiras. Além de uma ficção, o leitor ganha um texto de Rui Vieira Nery e um CD sobre a Diva em questão: já tivemos a Callas, a Amália, a Ella Fitzgerald.

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