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Os blogues e a vida real

por José António Abreu, em 28.11.15

Começa-se sem saber bem no que vai dar. Mantêm-se imensas ilusões mas temem-se a indiferença e o desprezo, bem como a incapacidade de estar à altura da tarefa. Responde-se de forma desajeitada às primeiras - e memoráveis - pessoas que estabelecem relação. Quem chega mais tarde obtém uma realidade parcial. Tentar descobrir o que ficou para trás pode reforçar -  ou fazer desvanecer - a atracção mas dá trabalho e poucos o fazem. Quase sem dados concretos elaboram-se imagens e verdades, que permanecem apesar de serem  desmentidas uma e outra vez. Há quem fique pouco tempo e, desinteressado quando não desiludido, logo desapareça. Há quem se empenhe - aconselhe, critique, procure moldar - e resista durante períodos surpreendentemente longos. Há o cansaço que, de um lado e do outro, se instala e as pausas que urge introduzir. Há os erros, as hesitações, as desilusões, os entusiasmos repentinos, as discussões estimulantes e as discussões cansativas - pelo momento, pelo tom mas, acima de tudo, por já terem ocorrido inúmeras vezes. Há afinidades que se referem com frequência e ódios de estimação que também se referem com frequência mas em tom completamente diferente. Há a passagem do tempo e a ideia de que se tem afinal menos controlo, menos originalidade e menos relevância do que era suposto.

Os blogues não são a vida real mas arranjamos sempre forma de tudo parecer a vida real. Talvez por a consciência - esse factor que nos diferencia dos restantes animais - nos permitir intuir que, em grande medida, a vida real é uma ficção.

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Contraste

por José António Abreu, em 08.07.15

No centro comercial: homem e mulher com aspecto gótico levam pela mão uma miúda (quatro, cinco anos no máximo) vestida como uma princesinha de conto de fadas.

Fico a vê-los afastarem-se. Por instantes, sinto estar a observar uma cena de um filme dos bons velhos tempos de Tim Burton. Há ternura no contraste. Como se a miúda lhes tivesse caído no colo de surpresa, vinda de um universo paralelo ao deles, e procurassem ainda a forma adequada de reagir. Ou, melhor, como se tanto ela como eles viessem de universos paralelos a este e se tivessem juntado para tentar navegá-lo.

Depois de abandonarem o meu campo de visão ponho-me a pensar mais a sério. Será possível que uma miúda daquela idade já tenha capacidade para recusar o exemplo dos progenitores e impor um aspecto tão distinto do deles? Neste caso, quão desconcertante (todos os pais se imaginam modelos para os filhos) será para eles? Ou será desejo dos pais mantê-la num mundo de encanto e inocência, em que claramente não acreditam, até tão tarde quanto possível? E constituirá o exagero uma tentativa de compensar essa falta de crença?

Ou então - a minha faceta racional e mais do que um nadinha cínica estraga-me sempre as divagações - são apenas tios e sobrinha.

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Catalisador de desencanto

por José António Abreu, em 12.08.14

A rapariga, provavelmente ainda adolescente, caminha pelo passeio na minha direcção. É bonita mas pesa no mínimo vinte quilos mais do que as normas estéticas em vigor recomendariam. Veste uma blusa roxa com duas palavras escritas na zona do peito, em letras formadas por pontos brilhantes: Love Sucks. Sei que a adolescência é um período complicado para toda a gente mas, enquanto passamos um pelo outro, não consigo evitar perguntar-me se, pesando menos os tais vinte quilos, ela a teria comprado. Tão cedo.

 

(Por outro lado, a juventude é o tempo das proclamações rápidas e definitivas. Apenas mais tarde se percebe que, sim, love sucks, de muitas e diferentes maneiras - mas nem sempre. Love sucks tantas vezes quantas parece maravilhoso. Ou, com sorte e talvez saber, menos uma.)

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Por estes dias quase toda a gente anda com auriculares enfiados nos ouvidos. Até eu, de vez em quando. É bom ter música na cabeça. Mas, como naquelas brincadeiras antigas em que se imaginava ser cowboy ou índio, um pedaço de terreno baldio era uma pradaria e se disparava contra colegas de rua ou de escola com espingardas de plástico (entretanto banidas porque estamos todos muito mais pacíficos) ou pedaços de madeira fazendo as vezes de espingardas de plástico, em vez de escolher ser cowboy ou índio no menu da consola de jogos, ver a pradaria no ecrã e disparar contra inimigos sentados noutros sofás olhando para outros televisores (se bem que, em vez de cowboy ou índio, é mais soldado ou alien, que cowboys e especialmente índios são aparições raras nos jogos de vídeo, por estarem pouco de acordo com os mesmos critérios que levaram à abolição da espingarda de plástico), muitas vezes é mais interessante cantarolar o que não se ouve. Ou – tentemos ser exactos – o que se ouve mas não de fora para dentro. Enquanto estudante universitário em Coimbra, descendo sob chuva da alta da cidade para a estação de autocarros, saco de roupa ao ombro, guarda-chuva tão frequentemente fechado como aberto, por défice de chuva digna do termo, excesso de vento ou consciente insensatez, cantarolei muitas vezes Singin’ in the Rain, esboçando mesmo uns passos de dança em raras ocasiões. (Claro que isto foi antes de Kubrick estragar tudo: apanhei uma reposição de A Laranja Mecânica no Gil Vicente ou no São Teotónio, já não sei ao certo, e em vez da imagem de Gene Kelly, feliz da vida, chapinhando nas poças da rua passou a surgir na minha cabeça a de Malcolm McDowell, feliz da vida, pontapeando o cônjuge da senhora que violaria logo a seguir.) Felizmente tal sucedia nas noites de sexta-feira, com as ruas quase desertas, porque, como é fácil de perceber, cantar o que quer que seja sem auriculares nos ouvidos poderia à época e pode ainda hoje ser classificado como loucura. Caso em que o avanço da idade me tornou inegavelmente mais são porque hoje já quase não canto ao calcorrear passeios. Muito menos sem auriculares nos ouvidos. Ou(,) só de longe a longe, As Time Goes By.

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Épocas ou 66,7% de pessimismo

por José António Abreu, em 08.02.14

Se a infância é a época em que a vida ainda não se conceptualiza e a hipótese de independência assusta, se a adolescência é a época em que se reivindica uma vida própria e se vai descobrindo quão insatisfatória ela afinal é, a idade adulta não passa da época em que debalde se tenta não pensar no assunto e se encaixa a insatisfação numa normalidade que pode chegar a parecer conforto. Presumo que a velhice seja a época em que a dependência volta a ser um factor inelutável, em que se aceita já não haver tempo para eliminar a insatisfação e em que o mistério se transfere definitivamente da vida para a morte. Com frequência, e talvez isso devesse alarmar-me mas acaba pacificando-me, sinto que, ao cumprir dois dos três critérios, já a atingi.

 

(É então que, numa espécie de recarga de baterias, revejo um filme do Lubitsch ou dos irmãos Marx.)

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Uma hora e três quartos

por José António Abreu, em 04.08.13

Numa hora e três quartos é possível ver um filme de duração média. Numa hora e três quartos é possível ler O Sobrinho de Wittgenstein, de Thomas Bernhard (pode dizer-se que ele foi possuído pela sua loucura enquanto eu sempre explorei a minha), ou meia dúzia de contos de Alice Munro. Numa hora e três quartos é possível voltar a ouvir The Downward Spiral, dos Nine Inch Nails (I am denial guilt and fear and I control you, I am the prayers of the naive and I control you, I am the lie that you believe and I control you), e ainda dispor de quarenta minutos de silêncio para recuperar. Tendo com quem, numa hora e três quartos é possível que já se consiga fazer sexo tântrico (qual a duração mínima exigida?). Numa hora e três quartos talvez seja possível eu acabar este post. Mas numa hora e três quartos também se podem fazer coisas menos previsíveis. Há dias, numa hora e três quartos foi-me possível assistir a quase toda a primeira parte da audição da ministra das Finanças na comissão de inquérito parlamentar sobre os contratos swap. «Quase» porque falhei os primeiros minutos e «à primeira parte» porque no intervalo consegui libertar um dedo do torpor em que o meu corpo caíra e mudei de canal. Mas a primeira parte foi suficiente para ficar com várias ideias sobre o assunto que partilharei agora com todos aqueles que não tiveram o bom senso de evitar começar a ler este post nem têm – e isso deve reflectir uma qualquer patologia – o bom senso suficiente para, no final deste parágrafo, irem ler O Sobrinho de Wittgenstein, ouvir The Downward Spiral ou fazer sexo, ainda que não tântrico.

 

Agora que já devo estar a falar sozinho, vamos lá às conclusões, que – adoro frustrar expectativas – não incluirão uma posição clara sobre a magna questão de saber se a ministra mentiu na visita anterior à comissão de inquérito.

 

1. Os deputados da oposição marimbam-se para os contratos swap, querem é lixar a ministra. Isto até entendo; o que me custa a entender é o género de tácticas e poses que adoptaram durante a audiência. Vejamo-las caso a caso.

 

1a. O deputado do PS, Filipe Neto Brandão, optou por fazer perguntas que exigiam resposta «sim» ou «não» («objectivas», chamava-lhes ele) e pela pose do acusador duro, inflexível – e impassível. Esbarrou num ligeiríssimo e altamente subjectivo detalhe: a necessidade de, para aceitarmos a tese que defendia, ser necessário escolher acreditar no ex-secretário de Estado Costa Pina em vez de na actual ministra. Ora a ministra até pode estar a mentir com os dentes todos mas enquanto não existirem provas tão irrefutáveis que até a levem a admitir: «É verdade, menti» (sem acrescentar, com um sorriso maroto: «e continuo a mentir agora») eu preferiria acreditar no Dr. Vale e Azevedo dos bons velhos tempos ou nos latidos de um rafeiro de rua, tal como traduzidos pelo sem-abrigo que momentos antes anunciava o fim do mundo, do que no ex-secretário de Estado Costa Pina. Há sujeitos a quem só voltarei a dar o benefício da dúvida a título póstumo e apenas por estarmos num país em que não se pode dizer mal dos mortos.

 

1b. A deputada do Bloco de Esquerda, Ana Drago, que vai abandonar o Parlamento (é impressão minha ou a bancada do Bloco, que há anos não é adornada pelos olhos, pelo cabelo, pelas maçãs do rosto e pela pose altiva de Joana Amaral Dias, está a ficar mais cinzenta?), usou uma táctica engraçada: disparava uma pergunta e depois olhava e falava para o lado enquanto a ministra procurava decidir se devia continuar a olhar para ela durante a resposta. Desconheço que efeito Ana Drago tentava obter. Pode dar-se o caso de ter sido apenas má educação. Mas ficou-me na memória um instante em que repetiu uma pergunta (nada estranho, atendendo a que não parecera ter prestado atenção à resposta anterior) e a ministra suspirou: «Vamos lá então outra vez, mais devagar». Ana Drago não acusou o remoque porque estava a olhar e falar para o lado.

 

1c. O deputado do PCP, Paulo Sá, foi o ponto alto daquela hora e três quartos. Paulo Sá poderia fazer carreira no mundo dos dirigentes de clubes de futebol – e fazê-los a todos parecer meninos de coro na arte da parcialidade. As respostas da ministra irritavam-no à brava porque – quelle surprise – não continham o que ele queria que contivessem. Enquanto ela respondia, ele esbugalhava os olhos e gesticulava. O problema é que não tinha como provar que a ministra mentia – apenas achava tanto que ela mentia que o facto se transformara numa evidência no interior da sua cabeça. A certa altura a ministra atirou-lhe: «Eu sou responsável pelo que digo, não pelo que o senhor entende». Também podia ter-lhe dito «Olhe, para não perdermos tempo e reduzirmos o nível de stress, releia as minhas declarações e sinta-se à vontade para entender o contrário do que ler.» Eu fiquei a pensar que o estilo de interrogatório do deputado Paulo Sá teria sido considerado promissor pelos camaradas Yezhov ou Beria, tivesse o deputado Paulo Sá vivido no paraíso terrestre que foi a URSS.

 

2. Da intervenção dos deputados do PSD e do CDS não vale a pena falar. Estavam lá para agradecerem à ministra o esforço da deslocação, afirmarem que, evidentemente, como ficava agora ainda mais claro do que antes já estava, ela não mentira da última vez que lá estivera, e acusarem os governos Sócrates (e, mais especificamente, o ex-secretário de Estado Costa Pina) de incompetência. Cumpriram o papel de modo adequado, o que significa que foram apenas ligeiramente enjoativos.

 

3. Mas se não vale a pena abordar a acção dos deputados do PSD e do CDS na audiência da passada terça-feira, para memória futura convém abordar o papel dos governos Sócrates em toda a questão. Em Janeiro de 2009, pela mão do então secretário de Estado Costa Pina, o governo Sócrates emitiu um despacho que, face à crise financeira instalada, recomendava cuidado às empresas públicas – e também que substituíssem dívida de curto prazo por dívida de mais longo prazo. Para além de haver aqui um modus operandi típico dos governos liderados pelo supracitado indivíduo – ah, a renegociação das PPP, de que resultou o adiamento dos pagamentos para o período pós-2013, com (evidentemente) subida dos montantes a pagar – há também, segundo algumas opiniões, um incentivo à contratação de instrumentos derivados. Ainda que não se avance até tão maldosa leitura, existem montanhas de incompetência a registar, uma vez que a maioria dos swaps foi contratada durante os governos Sócrates e, nos anos em que já devia ser óbvio que eles constituiriam um problema, nada de substancial foi feito. Apenas em Junho de 2011, dias antes de Passos Coelho entrar em S. Bento cheio de ilusões, decidiu o governo socialista aprovar legislação (ainda em vigor, como a ministra repetiu ad nauseum) proibindo as empresas públicas de contratarem swaps sem autorização da tutela. Quanto aos que estavam feitos, o governo seguinte e a Troika que encontrassem uma solução. Os socialistas cá estariam para a criticar.

 

4. E estão. Oh, se estão. Ajudados por uma comunicação social tendencialmente de esquerda (nenhum governo teve alguma vez um período de graça tão longo quanto o primeiro de Sócrates), que vê tão longe quanto o típico participante de fórum radiofónico (a curto prazo – i.e., enquanto há dinheiro –, as medidas da esquerda tendem a parecer mais agradáveis) e que adora o fait divers, conseguiram fazer com que os pontos essenciais (na comunicação social mas também nos trabalhos da comissão parlamentar) não sejam hoje quem autorizou a contratação de swaps, quem fechou os olhos aos riscos e quem talvez até os tenha incentivado, não seja sequer determinar se a solução encontrada foi ou não a melhor, mas se a ministra mentiu ao dizer que nenhum membro do governo anterior lhe falou no assunto durante a transição de pastas. Sendo que aceitar que ela mentiu passa por acreditar no ex-secretário de Estado Costa Pina (cruzes canhoto) ou por Vítor Gaspar vir dizer preto no branco (ou branco no preto, solução com o mesmo grau de legibilidade favorecida por muita gente) que, tendo-lhe Teixeira dos Santos falado do assunto (o que Gaspar admitiu), ele informou Maria Luís Albuquerque (o que ele parece – eu não acompanhei a audição de Vítor Gaspar – não ter admitido).

 

5. Chegamos agora à pergunta que, durante aquela hora e três quartos, mais frequentemente me coloquei: como agir numa comissão de inquérito para minimizar os riscos de ser acusado de mentir? A melhor via parece-me ser responder uma vez a cada pergunta e depois, sempre que ela for repetida (uma e outra e ainda outra vez), pedir que a resposta original seja lida. Ou então escrevinhar a primeira resposta (convém que seja curta) e depois repeti-la uma e outra e ainda outra vez. Creio que apenas assim será possível eliminar o risco de, quanto mais não seja por motivos de cansaço, vir a afirmar algo que, numa interpretação cristalinamente óbvia ou estonteantemente rebuscada, possa parecer diferente do que se afirmou uma hora e três quartos mais cedo, e evitar, nessa ou em futuras presenças na comissão, discutir a relevância da falta ocasional de complementos em algumas frases («ah, mas quando cá esteve há um mês, senhora ministra, conforme página 123 da transcrição, não especificou que não existia informação ‘na pasta de transição’, referiu apenas que não lhe foi transmitida informação»; «Mas umas horas antes, senhor deputado, conforme página 57, eu disse que nada foi transmitido ‘na reunião entre secretários de Estado’.»). Porque, convenhamos, é provável que a ministra tenha mentido mas toda a gente que já esteve envolvido num debate aceso – numa discussão conjugal, por exemplo – sabe que nem sempre uma ideia que se quer repetir sai da mesma maneira, com duras consequências na forma como é percebida, em especial quando o cansaço de quem diz e a má vontade de quem ouve são significativos.


6. Claro está que o cansaço também pode fazer baixar as guardas e permitir que a verdade se escape. Mas, caramba (quase me saiu um termo começado por ‘f’ e acabado em ‘se’ mas contive-me para não incomodar os leitores mais sensíveis de entre os leitores mais insensatos – sendo estes últimos, como é óbvio, os que os que não levaram o meu aviso a sério e ainda estão a ler), depois de assistir àquela hora e três quartos (relembre-se, apenas a primeira parte da segunda audição) até eu tenderia a recusar um cargo de ministro, apesar do aumento salarial que representaria, das portas que abriria e do facto de as boas relações que os governantes mantêm com a banca me permitirem certamente acesso a um crédito habitação em condições bonificadas (sim, estou a precisar de mudar de casa). É que... aturar interrogatórios do deputado Filipe Brandão, ou do deputado João Galamba (que, sendo suplente, estava ao lado do deputado Filipe Brandão mas – aleluia – não falou durante a hora e três quartos), ou do deputado Paulo Sá? Antes assistir no meu acanhado apartamento a onze horas e três quartos de programas apresentados pela Júlia Pinheiro.

 

7. E pronto, termino com esta referência à verdadeira excelência televisiva, que o texto ameaça ficar comprido. Ou ainda uma última nota. Aquela hora e três quartos também me fez perceber que a ministra tem o tique de empurrar algumas madeixas revoltas de cabelo para a testa, deixando as restantes ainda mais revoltas, e – estranho não o ter notado antes – que é bastante sardenta. Como eu tenho um fraquinho por mulheres sardentas, a hora e três quartos acabou por não ser totalmente desperdiçada.


(Este texto demorou muito mais do que uma hora e três quartos a escrever, o que significa que já perdi várias horas com aquela sessão da comissão de inquérito. Por favor internem-me.)

 

(Foto – roubada no Dinheiro Vivo – com as madeixas razoavelmente no sítio e as sardas disfarçadas pela maquilhagem.)

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Um tipo (que escreve em blogues)

por José António Abreu, em 24.07.13

Um tipo coloca no blogue um post que, directamente ou por derivações inesperadas, gera debate aceso na caixa de comentários. Um tipo afadiga-se a tentar responder aos comentários: recolhe e compila dados para suportar as afirmações que fez, alinhava respostas longas que, ainda assim, parecem ficar sempre aquém do objectivo. Um tipo fica cansado e, para piorar as coisas, a azáfama impede-o de congeminar novos posts, quanto mais de os elaborar. Afinal, o dia é composto por um número limitado de horas, algumas têm que ser dedicadas à actividade denominada emprego, menos entusiasmante do que espicaçar concidadãos num blogue mas mais importante para a prosaica questão da sobrevivência diária, um par de outras a deslocações e refeições (e um tipo gosta de comer) e ainda há que responder à necessidade fisiológica de dormir (e um tipo também gosta de dormir sendo que, ao contrário do professor Marcelo, precisa de sete ou – de preferência – oito horas diárias para carburar razoavelmente). Para mais, um tipo gostaria igualmente de reservar algum tempo para ler, ouvir música e ver coisas na televisão (filmes, episódios de séries, óperas, o Federer a tentar vencer os efeitos da idade e a Julia Goerges a tentar dominar a inércia das mamas). Um tipo pergunta-se: e agora? Será melhor fazer uma pausa? É que um tipo até podia entrar nos sites dos jornais, onde sem dificuldade encontraria assunto para mais um post curto, no estilo alfinetada ou desabafo. Podia analisar a entrada no governo do homem da Super Bock, que deixou dry o homem do Canadá, renegado desde o início por empresários do regime e respectivas associações, habituados uns e outras a possuírem controlo quase total sobre o ministério da Economia. Podia ir ver que privilégio absurdo reivindicam hoje os funcionários das empresas públicas de transportes. Podia gozar com a dupla Semedo & Martins, Olhares e Sorrisos Tristes, SA. Podia tentar perceber (e certamente falhar, como Pedro Lino fez anteontem no Económico) o sentido de algumas propostas de António José Seguro. Podia questionar se a expressão mais usada actualmente pelo Partido Comunista, «pacto de agressão», não deveria ser ‘acordificada’ à força (como anda a acontecer aos ‘contatos’ e aos ‘fatos’) e tornar-se «pato de agressão» (caso em que seria conveniente alterá-la para «patos agredidos», com os portugueses – ou, de forma a excluir banqueiros e administradores de várias empresas ex-públicas, o «povo português» – no lugar dos patos). Mas e se, publicado o texto, volta a gerar-se uma polémica na caixa de comentários, obrigando um tipo a afadigar-se novamente em pesquisas e alinhavamento de respostas, do que resultaria, para além de nova subida do nível de stress, pouco tempo para pensar e alinhavar posts sobre assuntos mais interessantes, tais como a Nova Vaga do cinema checo na década de sessenta do século passado, as três mil e quinhentas páginas que o escritor norueguês Karl Ove Knausgaard publicou em pouco mais de dois anos versando os acontecimentos dos seus (dele, Knausgaard) quarenta anos de vida, ou as diferenças (expressas através de fotografias) entre parapeitos de janelas de vários países europeus? Dilemas, dilemas. Um tipo acaba por decidir tirar pelo menos umas horas de pausa e decidir mais tarde. O blogue passará bem sem ele. Um tipo só é importante na própria cabeça.

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Um ódio dos últimos meses

por José António Abreu, em 19.06.13

Girl on fire, de Alicia Keys. Ainda que voluntariamente não ouça as estações de rádio onde o tema passa mil oitocentas e quarenta e nove vezes por dia, apanho o irritante refrão em todo o lado. Cheguei a pensar que vários bombeiros depressa procurariam apagar o fogo que consome a pobre rapariga [introduzir aqui piada sobre mangueiras compridas] mas depois percebi que, para um bombeiro, o refrão se confunde com o ruído da sirene, estando provavelmente a tentar descobrir-se em todas as corporações do país que filho da mãe está a fazer soar o alarme e a deixar o pessoal exausto de tanto correr para o quartel (felizmente para as nossas florestas, Junho tem sido fresco e chuvoso). Perdida essa esperança, limito-me agora a aguardar que o incêndio se extinga por falta de combustível. Mas nem Joana d'Arc aguentou tanto tempo.

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Lillo e Derrida à Selecção

por João André, em 06.06.13

Estou farto de política, da crise e algo cansado. Como tal, farei o que qualquer português que se preza faz nestas circunstâncias: vou falar (ou escrever, se quisermos ser precisos) sobre futebol. Mais especificamente, sobre a selecção nacional.

 

Ora, não vou recapitular os resultados porque isso não me interessa minimamente. Quem os quiser saber, bem como a posição da selecção, que vá aos jornais que é para isso que eles servem e bem agradecem qualquer comprador, nem que seja para ler a coluna da Maya. Não, a mim, mais que os resultados, interessam-me os processos, como diria Juanma Lillo (um filósofo de primeira água à espera de quem lhe dê uma cátedra). No caso, os processos da selecção nacional, dos seus jogadores e do talismã.

 

Ora, quando terminou o último Europeu, todos ficámos felizes. Portugal esteve a um par de penalties de eliminar a Espanha (a Itália na final seriam favas contadas), o Crisnaldo® deu espectáculo, o Moutinho mandou no meio campo, etc e tal. Não fosse o continuarmos a não ter um ponta de lança que seja e ninguém se chatearia.

 

O chato é que havia umas nuvens naquele horizonte. O onze inicial era de facto bom mas sem alternativas de nível semelhante. O tal ponta de lança continuou a não aparecer. O Nani decidiu que este ano era boa altura para fazer férias mentais em Marte. O Meireles finalmente comçou a ficar lento (peso a mais por causa das tatuagens). O Crisnaldo® ficou sem mais ninguém na equipa que o apoie e as equipas adversárias chegaram à conclusão que basta meterem 5 gajos nele para o problema estar resolvido. O resultado (Lillo suspira) é uma fase qualificação aos soluços e um bilhete para o Brasil tão garantido como as promoções da TAP.

 

Claro que isto não está para melhorar. Não culpo minimamente Paulo Bento, note-se. Já quando esteve no Sporting achei que era asneira terem-se visto livres de um treinador que lhes tinha dado um par de taças e de segundos lugares com jogadores júniores e refugo estrangeiro. Não é nenhum Mourinho, mas sabe o que faz e fá-lo bem. O chato é que na selecção tem que usar o que há, e o que há não é de grande qualidade. Sim, temos alguns jogadores de nível mundial (Pepe, Coentrão, Moutinho, Crisnaldo®, Nani) e um elenco de apoio de bom nível. O problema é que não há banco e não há uma geração para os substituir (aqui noto que espero que os problemas financeiros do Sporting continuem para que possam continuar a ter de recorrer àquela maravilhosa academia). Portugal pode ter sido segundo classificado no mundial de sub-20, mas foi assim à gregos2004 e os bons jogadores dessa equipa continuam à procura de oportunidades pelo Coruña, Varzim ou semelhantes.

 

Habituámo-nos a bons resultados à custa de uma geração de ouro (Couto, Figo, Rui Costa, João Pinto) e da sua sequência (Deco, Maniche, Carvalho, Miguel, Pauleta, Tiago) que não tendo tantos jogadores brilhantes, era mais consistente que a anterior. Neste momento vivemos um período de transição para vacas magras, muito à custa do desinvestimento de Benfica e FC Porto na formação. A sua preferência pela descoberta de pérolas (especialmente pela América do Sul) e a sua revenda com lucro (sistema que dá muito dinheiro aos empresários) acaba por ir fazendo a selecção sofrer.

 

Voltando aos resultados (não chores Lillo), creio que Portugal lá acabará por se qualificar pelos play-offs, mas é bem possível que seja a última por algum tempo. Não é culpa de Bento nem de Crisnaldo®. Mas pelo menos, se ignorarmos os resultados (louvado seja Lillo), poderemos apreciar a loucura anárquica e este processo semi-derridaniano de desconstrução da selecção. Não chega aos tempos pós-Saltillo com a grande Dupla Plácido-Coelho, mas não se pode ter tudo.

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Há uns meses, uma tal Wendy Jones deixava comentários como este nas páginas da Amazon britânica: «This is just not literature! It's a good attempt, undoubtedly, and on the right track, and had the author have lived longer he may well have written something of lasting value.» Apesar de todos sabermos que na internet se encontram as opiniões mais absurdas que é possível imaginar expressas da forma mais convicta em que é possível exprimi-las, quando se levava em conta que o objecto da crítica era o livro Crime e Castigo, de Fiódor Dostoievski, generosamente agraciado por Wendy com uma estrelinha, era inevitável pensar: não pode ser a sério. Não era. Pesquisavam-se outros comentários de Wendy (por incrível que pareça, eu até  tenho uma vida – não é é muito boa) e concluía-se que ela sabotava o sistema de recomendações da Amazon conscientemente e com indisfarçado gozo. Por exemplo:

- Justificava a atribuição de uma estrela a Where's Wally com a circunstância de não ter conseguido encontrar Wally;

- Escrevia sobre Calmer, Easier, Happier Parenting: The Revolutionary Programme That Transforms Family Life: «Great book, but doesn't recommend Valium. I would have thought Valium was the obvious answer» (para ser sincero, eu também) e sobre Short-Term Couples Therapy: The Imago Model in Action (seja lá isso o que for): «not particularly helpful for one night stands»;

- Admitia ter comprado um determinado livro por a capa combinar com a decoração da sala;

- Afirmava ter adorado Emma, de Jane Austen, porque a personagem principal lhe lembrara a apresentadora de um reality show britânico;

- Propunha-se fazer uma viagem ao Egipto com o filho, parando em todas as tabernas mencionadas no livro Asterix e Cleópatra, esperançada de vir a encontrar o nariz da Esfinge (partido por Obélix, como é do conhecimento geral);

- Confessava que o juízo negativo que faz de Beloved, de Toni Morrison, está afectado pela inveja: Morrison ganhou o Nobel, Wendy ainda não;

- Escrevia sobre Tess of the d'Ubervilles, de Thomas Hardy: «I was disappointed. I was very disappointed. Lo, I lay down on the carpet and cried, yeah, I wailed. I took a pillow unto myself and let out a moan that fair shook the walls. There was a torment of disappointment that came over me, and I was lost.»

Entretanto, nos meses decorridos desde que coligi estes excertos (há posts meus com períodos de gestação tão longos como o da salamandra alpina*), a maioria dos comentários de Wendy desapareceu. A Amazon, de moto-próprio ou na sequência de queixas, que afinal vagueiam pela internet várias dúzias de criaturas sem pinga de sentido de humor, terá decidido apagar os mais abertamente irónicos, deixando apenas aqueles que talvez sejam a sério (caso em que a sobrevivência do referente a Asterix e Cleópatra diz muito sobre o discernimento dos funcionários da Amazon) ou então Wendy, quiçá na sequência de críticas de amigos e familiares, arrependeu-se e apagou-os ela mesma, uma hipótese que prefiro não encarar porque significaria que desistira, que o seu espírito fora quebrado, e a mim, sendo-me difícil explicar porquê, atraem-me à brava pessoas que dedicam orgulhosamente horas e horas do seu tempo a efectuar bem actos um bocadinho tontos. De resto, é a esperança de um dia atingir esse patamar que me faz escrever posts como este.

 


* Pesquisem, pesquisem, que afinal eu também o fiz.**

** Não, apesar do elefante africano (ou, para acomodar espíritos progressistas, da elefanta africana) ser o mamífero terrestre com período de gestação mais longo, este apenas ronda os 22 meses;***

*** Não, as princesas e as actrizes de Hollywood têm gravidezes que a intensidade da cobertura mediática faz parecer longas mas, na verdade, são de duração normal;****

**** OK, pronto, são trinta e oito meses.

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Comunhão com a Natureza

por José António Abreu, em 16.03.13

Atendendo à quantidade de posts sobre a relação entre os humanos e os animais colocados no Delito nas últimas semanas, não resisti a recuperar esta extravagância.


 

«Toma alguma coisa?»

«Um café.»
«Prefere ir lá para dentro?»
«De maneira nenhuma. Gosto mais de estar ao ar livre. Aqui vê-se o mar, sente-se o vento. Adoro estar em comunhão com a Natureza»
«É que não está muito calor e o vento está forte.»
«Nada disso me incomoda.»
«Muito bem, então. Comecemos: desde quando é que a ecologia o interessa?»
«Desde que me lembro de ter consciência. E um dos primeiros momentos em que tive consciência foi quando era miúdo e tentei fazer uma festa a um gato.»
«Sim?»
«Foi aí que percebi que gostava de animais.»
«Ah. Estou a ver. Era o gato lá de casa?»
«Não. Era de um vizinho. Tinha um temperamento super-independente. Arranhou-me todo.»
«A sério?»
«Fiquei com três sulcos na mão direita e um na face. Ainda há poucos anos se via. Comecei a perceber nesse momento que a Natureza (os animais fazem parte dela, como é óbvio, mesmo os domesticados) deve ser respeitada.»
«Que idade tinha?»
«Uns três anos. Talvez quatro.»
«E pensou nisso assim, conscientemente?»
«Sempre fui precoce, sabe? Mas, para dizer a verdade, é uma ideia que se foi instalando progressivamente.»
«Não me diga: o gato arranhou-o mais vezes?»
«Com alguma gravidade, mais cinco.»
«Cinco vezes?»
«Sim. Percebi então que a Natureza, para além de ter que ser respeitada, quer ser deixada em paz.»
«É uma conclusão de grande perspicácia para uma criança.»
«Obrigado.»
«Foi o único problema que teve com animais, enquanto criança?»
«Não gosto do termo 'problemas'. Mas não. Também fui mordido sete vezes por três cães diferentes, apanhei uma doença por causa de uma picada de mosquito, fui ferrado por duas abelhas, levei duas marradas do carneiro do rebanho dos meus avôs, parti a perna direita quando um cavalo da polícia se espantou e me pisou, e a primeira vez que fui ao jardim zoológico um macaco mordeu-me. Creio que estava com pena de que ele estivesse preso e tentei chegar-lhe. Também tentei chegar aos tigres e aos ursos mas os meus pais e a rede de protecção (detesto redes à volta dos animais) impediram-me. Ah, e tive um surto de piolhos mas isso não conta, não é?»
«Com essa consciência ecológica tão precoce, deve ter sido desagradável ter de os matar…»
«Pode ter a certeza. Fartei-me de chorar e de tentar fugir da minha mãe quando ela me queria pôr o produto na cabeça.»
«Não acha estranho, tantos acidentes?»
«Acho que foram um sinal.»
«Um sinal? Um sinal de quê?»
«Uma forma dos animais me alertarem para os seus problemas. Da Natureza me fazer prestar atenção.»
«Ahn, estou a ver. Avancemos um pouco. Foi já essa consciência que o fez tirar o curso de biologia?»
«Com certeza. Na adolescência eu já não tinha qualquer dúvida quanto à minha vocação. Mas tenho de confessar que o curso foi uma desilusão. Muito teórico. Eu queria era andar ao ar livre, em comunhão com a Natureza… Olhe para aquele cão. Que fantástico animal, não é? É um crime que provavelmente passe quase todo o dia preso num apartamento.»
«Vem para cá.»
«Os animais têm uma extraordinária capacidade de perceber em quem podem confiar.»
«Mas parece-me que…»
«…»
«…ele lhe vai urinar nas calças.»
«Bolas. Mas é natural, sabe? É a demonstração de que não me vê como uma ameaça. Se pensarmos bem no assunto, até é lisonjeiro. Repare que ele não urinou nas suas pernas…»
«Pois…»
«A sério que não me importo. A si o cheiro não o incomoda, pois não? É um odor perfeitamente natural.»
«Não, quase nem noto. Acho que o vento está a soprar deste lado.»
«Isto está-me sempre a acontecer.»
«Ah, sim?»
«É verdade. Como lhe disse, é um elogio.»
«Claro.»
«Está um vento fantástico, não está?»
«Um bocado forte demais para o meu gosto. Nestas últimas semanas tem sido terrível…»
«Ora, não diga isso. O vento é uma das mais maravilhosas formas de expressão da Natureza.»
«É uma boa maneira de ver a questão. Bom, voltemos ao ponto onde ficámos. O que fez quando acabou o curso?»
«Fiz um estágio nas Berlengas. Foi um período fantástico. Andava sempre coberto de excrementos de gaivota e fui bicado mais de uma dúzia de vezes. De uma delas quase fiquei sem o olho direito. Eram para ser três meses de estágio mas ao fim de um e meio, num dia de vento forte (olhe, um bocado como o de hoje), uma gaivota errou a trajectória, raspou-me na cabeça e eu caí num buraco e parti duas costelas e o braço esquerdo.»
«Tem a certeza de que a natureza gosta de si? Estão-lhe sempre a acontecer coisas desagradáveis…»
«Não brinque. Já lhe expliquei a lógica por trás de tudo o que acontece.»
«Claro, desculpe. Continue, por favor»
«Bom, depois de recuperar entrei para a Associação. Como sabe, temos duas vertentes: a de investigação e a de denúncia e activismo político.»
«Participou nas duas, segundo sei.»
«Todos os membros o fazem.»
«É capaz de nos contar alguns dos projectos em que esteve envolvido, em cada uma das áreas?»
«Com prazer. Nunca me esquecerei do tempo que passei em África a seguir um grupo de elefantes. Acabei por ser mandado de volta porque um deles, assustado (devíamos ter mantido uma distância maior, na verdade), carregou sobre mim e me partiu a perna esquerda. Em dois locais. Outra expedição de que me lembro bem foi uma viagem de barco às Selvagens que, infelizmente, acabou antes de lá chegarmos porque uma tempestade afundou o barco. Morreram dois colegas meus. Nunca recuperámos o corpo de um e do outro só recuperámos parte; o resto tinha sido comido por tubarões. Eu gostava de morrer assim, sabe? Em contacto com a natureza e assegurando que a cadeia alimentar se mantém activa... Enfim, estive também ligado a um projecto que estudou as plantas capazes de subsistir na Serra da Estrela durante o Inverno. Foi suspenso quando uma avalanche nos apanhou. Deve lembrar-se disso: vocês noticiaram-na como a única avalanche na Serra da Estrela em não sei quantas dezenas de anos. Fiquei preso e cheguei a entrar em hipotermia mas sobrevivi. Só me amputaram a ponta do nariz e andei umas semanas quase sem conseguir respirar porque um pedregulho que vinha no meio da neve me partiu seis costelas, as duas que já se tinham partido no acidente das Berlengas e mais quatro. Na Austrália acompanhámos um projecto cuja finalidade era tentar descobrir se não existirão ainda exemplares vivos do tigre-da-tasmânia. Um escorpião picou-me mas resisti bem ao veneno e só abandonei o projecto, que acabou por apenas descobrir uma nova espécie de canguru, quando um diabo-da-tasmânia (vêm sofrendo um terrível surto de tumores na boca, não sei se sabe) me mordeu. Foi ele que me levou estes dois dedos. Quer dizer, os dois dedos que antes aqui estavam.»
«Estou a ver… E no campo do activismo?»
«Participei em muitas acções de que toda a gente ainda se lembra. Protestei várias vezes contra o uso de peles. Numa delas utilizámos tinta vermelha para manchar casacos à saída dos Globos de Ouro da SIC. Levei uma bofetada da filha da mãe da Clara de Sousa e o curioso é que ela nem sequer estava com casaco de peles. Invadimos um matadouro de suínos para chamar a atenção para o modo como os humanos tratam os animais, criando-os em condições degradantes e assassinando-os de forma grotesca. Nem deve ser preciso dizer que sou vegetariano embora preferisse nem plantas ter de comer; infelizmente, somos forçados a comer alguma coisa, não é? Mas, voltando à invasão do matadouro: prendemos os trabalhadores numa câmara frigorífica e libertámos os porcos todos. Na confusão (eles estavam tão excitados, vendo-se em liberdade), fui atirado ao chão e alguns passaram-me por cima, partindo-me o braço direito e uma das costelas que já se tinha partido nas Berlengas e na Serra da Estrela. E, claro, manifestei-me na Dinamarca contra o aquecimento global, no pino do Inverno. Cheguei a destruir duas montras mas depois escorreguei num pedaço de gelo e cortei-me todo nos fragmentos de vidro. Houve ainda aquela vez em que...»
«Cuidado com a gaivo…»
«Ah!»
«Caramba, acertou-lhe em cheio. Deviam ter aqui um guarda-sol.»
«Não tem importância. Já lhe expliquei: estou habituado aos dejectos de gaivota. É verdade que se entranham no cabelo e o deixam empastelado. Mas acabo por nem ligar. Às vezes uso um capuz mas sinto-me a fazer batota com a Natureza.»
«E isso é que não pode ser...»
«Obviamente. Não está a ser irónico, pois não?»
«Claro que não. Desculpe. Quais são os seus planos para o futuro?»
«Continuar a lutar pelos direitos dos animais, por ecossistemas equilibrados e por políticas que assegurem a sobrevivência do planeta, claro. Sabe que, se mantivermos as políticas actuais, dentro de...»
«Sim, sim. Fizemos uma reportagem sobre isso na semana passada. Mas agora é capaz de ser mais difícil para si, não lhe parece?»
«Farei o que estiver ao meu alcance. E posso servir como símbolo da luta pelos direitos dos animais e da preservação da natureza. Como o Tom Cruise se tornou num símbolo contra a guerra do Vietname no filme Nascido a 4 de Julho. É por isso que aceitei dar a entrevista.»
«Claro. E eu agradeço-lhe que o tenha feito. Acabámos. Quer ajuda com a cadeira de rodas?»
«Não, obrigado. Já me vou habituando a ela. Está a ver como consigo manobrá-la? Não gosto dela (é um objecto artificial, de metal e plástico; horrível) mas tento integrá-la o melhor que posso na minha visão do mundo. Foi por isso que a pintei de verde.»
«Não falámos sobre o acidente que o obriga a usá-la porque já toda a gente o conhece. Foi muito noticiado.»
«Eu entendo. Vai para que lado? Para ali? Eu também.»
«Mas se quiser dizer alguma coisa sobre o assunto, esteja à vontade.»
«Digo-lhe o que digo sempre: as touradas são uma aberração que tem de acabar. Não me arrependo nada de termos invadido aquela herdade em protesto contra o destino dos touros. Que um me tenha acertado e partido a coluna é uma prova da raiva que eles próprios sentem.»
«Hum-hum. Claro. Olhe, obrigado mais uma vez. Bolas, o vento está cada vez mais forte. É melhor ter cuidado com esses degraus.»
«Estou a vê-los.»
«E olhe o cão.»
«O quê?»

«CUIDA... Merda.»

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Vida e arte

por José António Abreu, em 04.03.13

Procurar resposta à velha questão de saber se a arte reflecte a vida ou a vida imita a arte é pouco menos que inútil. No fundo, talvez seja apenas necessário aceitar dois pontos de contacto entre vida e arte:

- Ambas têm o significado que se quiser atribuir-lhes.

- Em ambas é frequentemente preferível não o procurar.

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Para acompanhar os cocktails, elementos da companhia de teatro do absurdo apareceram na manifestação com pudins molotov.

A princípio, tal pareceu estranho a muitos observadores mas no instante em que, ao carregarem sobre os manifestantes, vários elementos da força de intervenção escorregaram aparatosamente nas claras e no doce de ovos que cobriam as pedras da calçada, a ideia tornou-se um êxito. Nos dias seguintes, as autoridades foram motivo de troça na televisão, na rádio, nos jornais, nos blogues, no Facebook e no Twitter, tendo o gozo atingido o zénite depois do ministro da Administração Interna anunciar que a polícia iria ser equipada com calçado antiderrapante. Na imprensa estrangeira surgiram múltiplas referências à originalidade de que os portugueses davam mostra, ao protestarem com canções e sobremesas. Exceptuando meia dúzia de defensores do governo, insistentes na opinião de que estragar alimentos não era forma adequada de marcar posição em tempo de crise, todos concordavam que fora uma das mais eficazes manifestações de sempre. Havia, no entanto, um ponto sobre o qual parecia impossível atingir consenso: na televisão, na rádio e em jornais, mas especialmente em blogues, no Facebook e no Twitter, continuava a debater-se com afinco se o nome correcto do pudim era «molotov» ou «molotof».

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«Embora não simpatize muito com o género da apresentadora Moura Pinheiro», diz a Gui Abreu Lima nos comentários ao post da Ana Lima sobre o fim do Câmara Clara. Pois, eu também não.

(O texto é de 2010 e republico-o – com alterações – porque, para além de servir como uma espécie – realço «espécie» – de homenagem ao Câmara Clara, alguém tem de manter o Delito com um número suficiente de posts por dia; menos de sete ou oito e nem parece o Delito.)


 

 

«As mulheres interessantes são mais interessantes que os homens interessantes. São é menos.»

Pedro Mexia

 

Quando um homem diz que uma mulher é «interessante» não costuma estar a pensar na aptidão que ela demonstra para discutir apaixonada e pormenorizadamente se os melhores filmes de Alfred Hitchcock são os do período inglês ou os do período norte-americano. Uma mulher é interessante, antes de qualquer outra consideração, pelas mesmas razões que um Aston Martin é interessante: questão de linhas (ou curvas) e capacidade para gerar excitação, nervoso miudinho e vontade de – acho que não há forma de escrever isto sem parecer machista, pelo que nem vou tentar – dar uma voltinha.

 

Mas, claro, não era (apenas) a isto que Pedro Mexia se referia. Provavelmente ele estava também a pensar no conhecimento da obra do Hitchcock. E a fazê-lo de um ponto de vista masculino, classificando como interessante aquilo que nem sempre o será. Reconheçamo-lo: os homens têm um cérebro ligeiramente autista, que muitas vezes se dedica a inventar problemas e a estabelecer prioridades discutíveis. Afinal, não será mais importante fruir os filmes do Hitchcock do que escalpelizá-los e ordená-los por ordem de qualidade? Interessa assim tanto definir se North by Northwest é melhor ou pior do que Os 39 Degraus? Talvez o sentido prático (e mais instintivo) das mulheres as leve a não se deixarem enredar em questões razoavelmente etéreas ou em problemas sem solução: note-se como ainda parecem existir mais grandes escritores ou filósofos do sexo masculino mas, nas áreas técnicas, onde se abordam problemas resolúveis, as mulheres já são a maioria. Ou talvez o facto decorra apenas da falta de tempo: diga-se o que se disser acerca da igualdade dos sexos (perdão, agora diz-se géneros, não é?), a maioria das mulheres tem o tempo muito mais ocupado do que a maioria dos homens – até para ver os filmes do Hitchcock, quanto mais para elaborar análises comparativas entre eles. Enfim, seja a explicação qual for, concordo com Pedro Mexia: as mulheres interessantes são mais interessantes que os homens interessantes (desde logo, tudo o resto sendo igual, são mulheres) mas são menos. E de qualquer modo, independentemente do número que por aí ande, a pergunta fundamental é: como reconhecer uma mulher interessante ao vivo? (As meninas que ainda estão a ler – prova mais do que suficiente de que são interessantes mas também de que isto nada tem a ver com bom-senso – podem inverter os papéis e pensar em homens interessantes.) Serão as que frequentam museus, vernissages e festivais de cinema? Hmmmm, dificilmente: não parecem muitas dessas mulheres apenas pomposas? E que tal aquelas que lêem nos transportes públicos? Sejamos honestos: em primeiro lugar, são poucas; em segundo, são com frequência e na outra acepção do termo, pouco interessantes; por último, estão quase invariavelmente a ler José Rodrigues dos Santos ou Dan Brown, facto que diminui bastante o interesse que suscitam, mesmo na acepção do termo de que estamos a falar. As que escrevem em blogues? Algumas, são-no certamente. Outras... nem tanto. E, de resto, eu estava a tentar descobrir como reconhecê-las ao vivo. Por enquanto, a net ainda não equivale à vida real, pelo menos para pessoas interessantes. (Na televisão, muito embora continuem a ver-se poucas, é mais fácil reconhecer uma mulher interessante: tem o cabelo que a Paula Moura Pinheiro tinha antes de o cortar, os olhos que a Paula Moura Pinheiro ainda tem e apresenta programas com títulos roubados a livros sobre fotografia escritos por Roland Barthes.)

 

A verdade é que uma mulher – como um homem, de resto – é quase sempre mais interessante enquanto possibilidade do que como realidade. Há uma dúzia de anos, havia uma rapariga ruiva (já confessei a minha atracção por ruivas, não já?) na Fnac do NorteShopping. Estava habitualmente em pé junto a um balcãozinho contíguo à secção de música clássica, vestindo calças de ganga azuis e o coletezinho verde e ocre da Fnac. Foi uma época em que comprei bastante música clássica, pelo que a via com frequência. (A ordem é mesmo esta ou alguém acredita que eu perderia a cabeça ao ponto de comprar Salomé apenas por causa de uma rapariga ruiva?) Tinha uma face larga e cabelo comprido encaracolado. (Que homem heterossexual não gosta de cabelo comprido e encaracolado nas mulheres, por muito fora de moda que em certas épocas possa estar?) Falei com ela um par de vezes, se tanto, apenas para encomendar óperas (sei que lhe encomendei uma de Donizetti mas já não tenho a certeza se foi O Elixir do Amor, se a Filha do Regimento; o meu cérebro inclina-se para A Filha do Regimento mas o meu instinto teima que foi O Elixir do Amor). Lembro-me de que era excelente a efectuar pesquisas no computador (encontrava-me as óperas sem qualquer dificuldade) e que tinha um sorriso bonito (mas não creio que alguma vez tenha sorrido para mim, mesmo na sequência daquelas coisas que se dizem quando se pretende ter piada, como «a Tosca da Callas» ou «isto ainda há-se ser cantado a sério por quatro rapazes esbeltos vestidos com fatos escuros e ar pomposo»). Depois, um dia, deixei de a ver por lá. Provavelmente arranjou um emprego mais bem remunerado, casou, teve filhos, engordou, entristeceu e nunca mais pensou em óperas. E é esta a verdadeira dúvida: aquela rapariga ruiva era interessante ou tinha potencial para ser? E deve um homem procurar logo uma mulher interessante ou uma que tenha potencial? Quase todos os homens têm uma costela de Pigmalião. Mas, especialmente nos dias que correm, as mulheres não são fáceis de moldar, pelo que apostar numa que apenas pareça ter potencial para ser interessante comporta graves riscos de desilusão. Por outro lado, as que parecem interessantes logo à partida são quase sempre inacessíveis, quanto mais não seja por estarem noutras cidades ou, ainda que na mesma, casadas com idiotas (ok, se eles fossem mesmo idiotas elas não seriam inacessíveis). É talvez por isso que, numa visão romântico-pessimista, as mulheres mais interessantes são aquelas que não se chegam verdadeiramente a conhecer – e aposto que elas podem dizer o mesmo acerca dos homens. Afinal, mesmo que a rapariga ruiva da Fnac nem sequer gostasse de música clássica, eu achá-la-ei eternamente interessante.

 

(Pelo que, nunca fiando, dispenso conhecer pessoalmente a Paula Moura Pinheiro.)

 

(Ou não.)

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Bananas e um programa de televisão quase clandestino

por José António Abreu, em 25.11.12

 

Há vários álbuns míticos com bananas na capa. O meu preferido (e, sendo a minha originalidade inatacável, de milhões de outras pessoas) é indubitavelmente The Velvet Underground and Nico. Mas Between 10th and 11th, dos Charlatans, merece menção honrosa e audições regulares. Os Charlatans ainda existem, claro, e até continuam a produzir canções bastante razoáveis mas, na minha opinião e na de qualquer outra pessoa com aquilo que se pode chamar de patamar mínimo de bom gosto (sente-se abrangido? Excelente), este é o grande álbum deles: se as bananas estão demasiado maduras, a música, apesar dos vinte anos de idade, permanece bastante comestível, num estilo Madchester-quase-a-terminar. Vi pela primeira vez o vídeo de Weirdo (oitavo tema, primeiro single) no mítico programa televisivo Pop-Off que, ainda universitário, acompanhava num televisor com um ecrã pouco maior do que o que hoje se pode encontrar num iPhone – e a preto e branco. (É verdade, crianças, embora a cor já existisse na televisão portuguesa há cerca de uma dezena de anos, ninguém avisara aquele televisor.) Numa época em que, Twin Peaks e um ou outro Império dos Sentidos exceptuados,  os conteúdos televisivos primavam pelo cinzentismo (ou talvez eu tenha ficado com essa ideia por causa do televisor), Pop-Off era um programa estranho mas também estranhamente entusiasmante, pela música que passava, pelos vídeos que produzia (tão low-budget mas tão esforçados que eram verdadeiras obras-primas de arte kitsch), pela Sofia Morais (então – a vários anos de catastróficas participações como jurada em programas de descoberta de talentos – inteiramente adorável), pelas entrevistas, pela vontade de provocar e de quebrar regras. (Quem desejar mais informações pode ir aqui; o artigo é óptimo e inclui coisas tão deliciosamente estapafúrdias como uma jornalista do Diário de Notícias ter pensado, ao assistir por acaso à emissão número 100, que aquilo era uma estação de televisão pirata.) Escrevia eu então (as divagações, garanto-vos, são uma coisa divertida para quem escreve, apesar de serem com frequência – estou consciente disso – uma chatice para quem lê) que vi este vídeo pela primeira vez no Pop-Off. Terá pois sido numa noite de Terça para Quarta, à uma e tal da manhã, fase do ciclo diário em que as minhas capacidades cognitivas tendiam a encontrar-se longe da melhor forma (*)(**), o que, refira-se, só parecia potenciar o efeito do conteúdo do programa. E por que é que ele me ficou na memória quando esqueci tantas outras coisas, entre as quais o conteúdo de todas as aulas teóricas a que assisti às oito da manhã? Em primeiro lugar porque, graças a uma razão misteriosa qualquer, passava estranhamente bem no pequeno ecrã a preto e branco que, alimentado de sinal por uma antena telescópica já bastante torcida, tremeluzia como se sofresse de uma variante electrónica da doença de Parkinson. Depois porque a primeira frase da canção me vem à ideia sempre que encontro pessoas incompreensivelmente felizes (felizmente cada vez mais raras). Deixo aqui o vídeo (que só consegui encontrar numa resolução fraquinha mas afinal tão adequada), com uma dedicatória à Sofia Morais dos tempos em que era gira e divertida, e outra ao pequeno televisor que um amigo a quem o emprestei depois de acabar o curso fez o favor de emprestar a uma namorada de quem se separou em termos tão pouco cordiais que nunca mais quis falar-lhe, nem sequer para lhe pedir o aparelho de volta.
 

Ah, a frase? Most of the time you are happy – you’re a weirdo.

 

 

(*) Nascido no campo, estou habituado a deitar-me cedo.
(**) Como – e deve ser tão óbvio – se encontram neste preciso momento.
 
(Republicado com alterações.)

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Isto, às vezes

por José António Abreu, em 24.11.12

Não me apetece.

Não te apetece o quê?

Fazer isto.

Isto o quê?

Isto.

Não faças. És obrigado?

Não me parece.

Então não o faças.

Sinto que devo fazê-lo.

Ninguém tem de o fazer.

Desisto, então?

Se te apetecer.

Também não me apetece.

Então faz.

É o que estou a tentar.

 

Já agora: falas com quem?

Contigo. Comigo. Não sei.

 

Ficou bem assim?

Não me parece.

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Pensamentos ruidosos

por José António Abreu, em 15.11.12

Comecei cedo a ser assaltado por pensamentos que o bom senso recomendava manter privados. Mas eram pensamentos tão ruidosos que os esforços para impedir que fossem ouvidos pelas outras pessoas me levavam a trejeitos, pausas, vocalizações estranhas e enrubescimentos variados. Durante anos pensei que a idade me traria a experiência necessária para suportar melhor o barulho no interior da cabeça e evitar reagir-lhe de forma visível. Não está a acontecer. Pelo contrário: à medida que o meu cérebro vai ficando mais lento (num processo tão manifesto que já nem foi capaz de corrigir a aliteração existente no início deste post), os meus pensamentos mostram-se cada vez mais ruidosos (certamente efeitos do amontoar de ferrugem, das folgas, de deficiências de lubrificação) e permaneço tão incapaz como sempre de os esconder. A evolução positiva vem-se registando afinal noutra área: estou-me cada vez mais nas tintas.

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Palmadinhas gostosas

por José António Abreu, em 28.09.12

Há meia dúzia de anos, um artigo na New Yorker começava logo por explicar em que ponto do livro O Código Da Vinci se consegue perceber que Dan Brown é fraco escritor. Resposta: na primeira frase. Trata-se de algo do género: "O conceituado curador Monsieur Não-Sei-Quantos caminhava no interior do Museu do Louvre" e, evidentemente, a explicação prende-se com o adjectivo: nenhum bom escritor enfia assim à bruta pela garganta dos leitores que uma personagem é isto ou aquilo, antes lhes fornece elementos para que possam chegar a uma conclusão própria, muitas vezes não totalmente coincidente com a que ele imaginou; em parte, é esta relação adulta (mas sem sexo, pelo menos na maioria dos casos) entre autor e leitor que permite que os bons livros tenham tantas interpretações. Lembrei-me hoje desse artigo ao folhear numa tabacaria o número de Setembro da revista Ler (sim, ando um bocadinho atrasado mas a minha médica diz que, sendo gajo, não é grave). Com prazer indisfarçado e meticulosidade estonteante (eu estou a usar os adjectivos de forma irónica, o que faz toda a diferença), Rogério Casanova disseca e destroça (embora, considerando o tema do livro, talvez palavras como «espanca» ou «açoita» viessem mais a propósito) o grande êxito «literário» do ano: As 50 Sombras de Grey, de E. L. James. Dirão os mais discernentes (outro adjectivo, mas admitam que pouco usado): ora, tratando-se de um livro inspirado na série Twilight, só que em pior (!), também não é difícil. Permito-me discordar: é; como Casanova o faz, é bastante difícil, para além de diabolicamente divertido (sim, mais um adjectivo; processem-me). Tão divertido que me deixou a um passo (isto não é um adjectivo mas é uma figura de estilo: até ao balcão eram uns cinco ou seis) de quebrar a promessa de não mais comprar a Ler. Resisti porque continuo a achar que cinco euros é quantia mais do que suficiente para pagar as consoantes mudas. Contudo, se tiverem princípios menos firmes do que os meus (nada de vergonhas; acontece com quase toda a gente) e não forem fãs do livro, comprem-na e divirtam-se. Aliás, pensando bem, comprem-na mesmo que sejam fãs: há uma boa hipótese de, estejam ou não dispostos a admiti-lo, gostarem de ser um bocadinho maltratados.

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Bisontes

por José António Abreu, em 16.09.12
Num dos canais National Geographic uns quantos bisontes macho residentes no Parque Nacional de Yellowstone esforçavam-se por conquistar o coração das fêmeas e afastar a concorrência. Segundo parece, os bisontes macho insinuam-se junto das companheiras de manada («insinuar» talvez seja um verbo demasiado subtil para descrever a atitude dos bisontes mas não resisto a deixar cinco ou seis das oito pessoas e três quartos que ainda estão a ler este post, depois de perceberem que não tem a ver com política, tentando imaginar um bisonte a insinuar-se) através de exibições de porte e dotes vocais (o júri do Ídolos seria implacável), rebolando-se na lama e trotando atrás delas para onde quer que elas se desloquem (de modo um tudo-nada demasiado insistente, if you ask me, em especial se as bisontes fêmea modernas tiveram pontos de contacto com as humanas modernas). Quanto à segunda parte da questão (afastar a concorrência), tratam dela raspando o solo com as patas anteriores, urrando ameaçadoramente (não notei grande diferença para as canções de engate) e dedicando-se a lutas de cabeça contra cabeça. Estas, deixem-me que vos escreva, constituem um espectáculo impressionante, digno de um documentário da National Geographic (que, afinal de contas, era o que aquilo era). Não obstante, segundo o narrador, os bisontes tentarem evitar o confronto físico, cerca de um terço tem ossos partidos em resultado de combates. O que não surpreende quando se vêem dois mastodontes de novecentos quilos cada chocando de cabeça um contra o outro. Repetidamente. Ah, mas o prémio compensa, não? Hummmm, exactamente qual é o prémio? O que é que eles ganham no final de todo este esforço? Preparados? Aqui vai: quinze segundos de prazer. A sério, não é uma figura de estilo: quinze segundos – um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze – é a duração do acto sexual que eles tanto ambicionam. Penso já ter lido que alguns humanos macho também não duram mais do que isso. Mas convenhamos que poucos andam às cabeçadas uns aos outros por causa de fêmeas (ok, alguns também andam mas a maioria fá-lo por amor a Jorge Nuno Pinto da Costa ou a Luís Filipe Vieira). Seja como for, estava eu a olhar para o ecrã com um sorriso entre o espanto e a comiseração, pensando que as fêmeas, quando finalmente desistem de se fazer de difíceis, só podem achar que a montanha pariu um rato (agora é uma figura de estilo) e que, diabos, quinze segundos de prazer (quinze, ok?) não valem tamanho esforço e risco (no mínimo, um bisonte faz sexo com uma dor de cabeça mais intensa do que a de uma humana tentando evitar fazer sexo, no máximo com um traumatismo craniano fatal) quando me apercebi de que, para um bisonte macho, vivendo com escassos métodos alternativos de obtenção de prazer (a paisagem é bonita mas ao fim de um certo tempo deixa de ser novidade e não há televisão, nem livros, nem cinema, nem música, nem blogues, nem Facebook, nem nenhuma daquelas substâncias a que os humanos recorrem para tentarem esquecer como a sua vida, ainda que repleta dessas coisas todas, é deprimente), aqueles quinze segundos representarão muito mais do que um exemplar mediano de homo sapiens está capacitado para entender. Repare-se num detalhe a que pouca gente presta atenção: um bisonte, como a maioria dos restantes animais, nem sequer consegue masturbar-se.

Esta imagem desaparecerá dentro de

quinze segundos. Catorze. Treze. Doze...

 

 (Republicado com alterações. Fotografias pilhadas aqui e aqui.)

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Construções biomecânicas

por José António Abreu, em 18.03.12
Nota: Na sequência do post da Helena Sacadura Cabral sobre Candice Bergen e apesar do excesso de frases longas que contém, não resisto a recuperar este texto, publicado aqui há quase um ano. O Primeiro-Ministro nele mencionado ainda era o doce aspirante a filósofo que nos liderou durante seis anos. E desculpa lá, Helena.

 

Candice Bergen. Ou será Sandra Bullock?

 

Os galardões técnicos foram mais uma vez empurrados para a véspera e para a cave ("Congratulations, nerds!", gritou suavemente James Franco, com timing perfeito). Uma excepção: o Óscar honorário para a arte da taxidermia, atribuído ao responsável pela complexa estrutura biomecânica situada entre o pescoço e o cabelo de Sandra Bullock.

 

As palavras acima, referentes à cerimónia de entrega dos Óscares deste ano (zzzzzzz), saíram no suplemento Ípsilon do jornal Público de 11 de Março e foram escritas por uma entidade fictícia que se auto-intitula «Rogério Casanova», a qual, para além de escrever sobre literatura e de ser fã do Sporting e de Thomas Pynchon (rumores não confirmados sugerem que, ao revelar capacidade para produzir enredos mais complexos e paranóicos, o Sporting terá ganho terreno a Pynchon nas últimas semanas), possui um conhecido blogue, facto que apenas poderia ser classificado como estranho se ainda existisse alguém neste país com mais de seis anos de idade e pelo menos um dedo nas mãos que não tivesse blogue e se, por seu turno, um blogue e o seu respectivo autor não fossem sempre, em grande medida, coisas fictícias. Adiante, de preferência em direcção a frases mais curtas. Pensei nestas palavras ao ver, no episódio do House da semana passada, um ser identificado no genérico como «Candice Bergen» e revelando, de facto, vagas semelhanças com a actriz do mesmo nome, fazendo de mãe da doutora Cuddy (em quem penso sempre, por motivos que não vêm ao caso, como «Cuddly») enquanto tentava parecer mais nova do que Lisa Edelstein, a actriz que desempenha o papel de Cuddly (perdão: Cuddy). Apesar dos louváveis esforços da criatura, perceptíveis no modo como arregalava os olhos e no subtil trejeito que de longe a longe lhe surgia na face tão lisa e brilhante que era como se tivesse acabado de aplicar uma camada de película aderente sobre uma generosa demão de verniz tapa-poros, o apenas ligeiramente humano aspecto da cabeça dela acabou por impedir a minha concentração, estraçalhando assim a sublime suspensão da descrença que esta série onde um médico coxo, cínico e mal educado é considerado genial apesar de acertar no diagnóstico apenas à décima oitava tentativa, depois de nas primeiras dezassete fazer o doente passar pelas mais excruciantes sensações de dor e humilhação, consegue gerar no espectador. Cheguei ao final do episódio desejando a morte da cabeça de Bergen (aceitemos que era mesmo ela) e cada vez mais preocupado tanto com os inevitáveis problemas de contaminação que os terrenos dos cemitérios apresentarão num futuro não muito distante como com a possibilidade de os vermes necrófagos que habitam tais terrenos sofrerem mutações que os tornem, digamos, gigantes. Infelizmente, o House, que deseja continuar a fazer festinhas à Cuddly – e não sou eu quem o vai criticar por isso –, acabou por salvá-la.

 

Está longe de ser caso único, evidentemente. Como o famoso morto-vivo sintético nacional, Lili Caneças, Bergen até pode apresentar em sua defesa o facto de preferir não aparentar os cento e catorze anos que tem. Mas e Sandra Bullock? Por que diabo faz questão de parecer Candice Bergen tentando parecer Sandra Bullock? E Nicole Kidman? Meg Ryan? Manuela Moura Guedes? E nem vale a pena falarmos de Cher, que terá ultrapassado há pelo menos vinte e duas cirurgias a linha que delimita o conceito biológico de «humano». Ou falemos só um bocadinho, porque é mais saudável exteriorizar os sentimentos: actualmente a Cher parece o resultado de uma experiência genética cinematográfica em que um cientista desvairado misturou material genético da rainha-mãe do Aliens, do monstro de Frankenstein, do Sméagol d’O Senhor dos Anéis e do Vale e Azevedo. É isso que ela parece. Quando sorri, estou sempre à espera de lhe ver sair disparada de entre os dentes uma segunda boca. Enfim, adiante outra vez e continuemos a lutar com as frases compridas. Se as actrizes e actores de Hollywood prosseguirem nesta via, não percebo porque não os substituem por conjuntos de polígonos desenvolvidos em computador como, de resto, eles temiam há uns anos. E já não se tratará de uma questão de cachet mas, pura e simplesmente, de realismo.

 

Estou a exagerar, resmungam vocês, conscientes das pequenas rugas que vos começam a surgir junto aos olhos e hesitantes sobre a melhor forma de combater a situação. Deixem-me explicar uma coisa – e acreditem que estou a ser infinitamente mais sincero do que o Primeiro-Ministro em qualquer das suas declarações públicas dos últimos anos: prefiro mulheres com rugas, assim estilo Maria Filomena Mónica ou Simone de Oliveira, à Candice Bergen actual. Ou – e dói-me tanto teclar isto – à Meg Ryan actual.

 

Mas por que se sujeitam as pessoas a tormentos destes? Poderão estar mesmo convencidas de que ficam mais atraentes? A resposta é, inevitavelmente, sim. E não. Ou não e depois sim. Peer pressure. As cirurgias de uns geram uma catadupa de mentiras (quem é que se atreve a dizer na cara – ou melhor, na coisa-que-antes-era-a-cara – da Sandra Bullock que ela está mais feia?) e acabam por forçar as cirurgias de outros. E depois tentam todos convencer-se de que estão realmente mais bonitos. E, sendo «estrelas», põem gente influenciável pelo mundo fora (conhecida pelo termo técnico de «papalvos») a pensar que assim é que se está bem.

 

Claro que a cirurgia plástica é apenas parte da questão. Em jornais, revistas e obscuros programas televisivos começa a sugerir-se a possibilidade de estarmos em crise mas ninguém se aperceberá de tal circunstância avaliando o número que por aí vai de «centros» de fitness e de depilação e de massagem e de tratamento de nails e de ioga e de meditação e de tudo o que possa convencer umas quantas pessoas a largar umas quantas dezenas ou centenas ou até milhares de euros em troca da promessa de uma aparência de eterna juventude. Já para não falar do negócio dos cremes. Existirá hoje alguma mulher com mais de, digamos, trinta e cinco anos que não esfregue no corpo meia dúzia de unguentos distintos, escorregadios e com odor quase sempre enjoativo, todas as manhãs antes de sair para trabalhar e todas as noites antes de ir para a cama? Com efeitos que ainda nem sequer começámos a contabilizar, ao nível da frequência e duração do acto sexual, do prazer dele extraído e, pior, da reprodução da espécie: claro que a natalidade vem a dimunuir – estavam à espera que aumentasse? É que é preciso ser-se um gajo com uma perversão especial para gostar de beijar ou lamber um corpo besuntado com creme hidratante, por muitas garantias que o fabricante dê de que ele acalma e revitaliza todos os tipos de pele.

 

Mas enquanto se trata de levantar pesos, arrancar pêlos, untar o corpo como se fosse um empadão prestes a ir ao forno e pintar estrelinhas azuis nas unhas não é grave. Agora a deriva para o sintético preocupa-me. Aparentemente, o objectivo das mulheres (e de muitos homens, eu sei, mas que os outros homens fiquem feios não me suscita mais do que um sorrisinho de satisfação) é parecerem-se cada vez mais com aquelas bonecas insufláveis que homens solitários e sem capacidade de tacto ou de olfacto (digo eu, que aquilo deve cheirar a borracha, não?) encomendam pela internet (enviada em pacote discreto) e depois usam para descarregar, er, anseios e frustrações. Eu acho isto estranho mas talvez estranho seja eu. Lembro-me de há muitos anos, influenciado pela exposição continuada a filmes e livros de ficção científica, recear o aparecimento de autómatos fisicamente idênticos ao ser humano porque, como parecia regra, acabariam por se revoltar e trucidar-nos a todos. Hoje, considerando a evolução da aparência feminina, em particular nas faixas etárias em que vou entrando cada vez mais contrariado, espero o seu rápido desenvolvimento. Antes um robot à la Blade Runner, com a aparência da Daryl Hannah e capaz de exprimir emoção, do que uma Daryl Hannah com aspecto de robot. Até porque, pensando bem no assunto, morrer asfixiado pelas pernas de uma replicant como ela parece-me uma perspectiva mais agradável do que bater a bota por reacção alérgica à conjugação de botox e aloe vera.

 

Sintéticas, cada uma à sua maneira.

 

Adenda: Às vezes – um homem nunca perde totalmente a criança que nostalgicamente foi nem o adolescente que embaraçosamente teve de ser – imagino-me a dizer isto à Sandra Bullock ou à Meg Ryan. Imagino-as ficando muito irritadas por trás da cara rígida e, movendo os lábios como um peixe fora de água, respondendo: «Você também não tem assim tão bom aspecto!» (Em inglês, claro.) A réplica sair-me-ia pronta: «Mas é mais natural que as saladas que você come, mais ecológico que o Prius que você conduz e não me custou um cêntimo.»
 
(Foto da Candice Bergen roubada aqui. As outras foram pescadas algures no Bing.)

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Silêncio

por Ana Vidal, em 03.03.12

 

Cada vez preciso mais de silêncio. Sem darmos por isso viciámo-nos em ruído e agora temos medo do que não tem som, porque essa ausência nos tira a ilusão de companhia.

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Olhar um cão nos olhos faz-me sentir melhor do que sou. Olhar um gato nos olhos não me faz sentir pior do que sou porque o olhar dos gatos não admite desvios em relação à realidade. O olhar dos gatos é objectivo. Mesmo nas alturas em que contemporizam (e fazem-no por vezes, com as pessoas que lhes merecem alguma consideração) não escondem que o fazem. O olhar de um gato é parecido com o de uma mulher que se sabe extraordinariamente atraente quando perante um homem sem encantos físicos ou materiais mas deixa ainda menos margem para devaneios. Atira-me para o sítio certo, faz-me sentir exactamente como sei que sou. E por muito que alguns humanos tentem depois convencer-me de que sou melhor do que isso, percebo que mentem. Se tivesse filhos pequenos, talvez eles o conseguissem. Ou uma mulher nos primeiros estádios da paixão. Assim, apenas o olhar de um cão é capaz de me enganar novamente.

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