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Bloco, Cuba e "laços de sangue"

por Pedro Correia, em 05.12.16

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Foto: Esquerda.net 

 

Os deputados do Bloco de Esquerda  não aplaudiram nem se levantaram dos assentos, como recomendam as regras do procotocolo e a mais elementar boa educação, no final do discurso do Rei de Espanha - o primeiro Chefe do Estado estrangeiro a comparecer numa sessão solene da Assembleia da República em seis anos. Motivo? "O Bloco de Esquerda mantém a posição de sempre, republicana, e não naturaliza relações de poder com base em relações de sangue e não em actos democráticos", alega um "responsável" bloquista, não identificado, ao jornal Público.

Acho estranho que o Público não identifique o tal "responsável" do BE, como se estivesse em causa a divulgação de um segredo de Estado. E não entendo o significado da expressão "não naturaliza relações de poder": deve ser jargão destes tempos pós-verdade em que vivemos.

Mais estranho ainda é ver os bloquistas subitamente tão alérgicos ao poder com base em "relações de sangue". Vinte e quatro horas antes, o Bloco de Esquerda viabilizara no Parlamento dois votos de pesar pela morte de Fidel Castro, um dos quais apontava o falecido ditador cubano como "referência incontornável para os povos da América Latina".

Acontece que Castro dirigiu Cuba durante 49 anos sem nunca ter sido sufragado por qualquer acto democrático e transmitiu ainda em vida todos os poderes - na chefia do Estado, no comando supremo das forças armadas e na liderança do partido único - ao seu irmão Raúl, general do exército.

Acontece também que o nome mais falado em Havana para suceder a Raúl é o seu filho, Alejandro Castro Espín, o que permitirá à família Castro conservar as rédeas do poder absoluto, iniciado em Janeiro de 1959, quando 90% dos actuais deputados do Bloco ainda nem sequer tinham nascido. Deputados como José Soeiro, que confessou ao jornal El Mundo sentir "muita dificuldade" em prestar homenagem a  "chefes de Estado que nunca foram eleitos". Numa involuntária crítica póstuma ao tirano cujas cinzas por estes dias percorrem vilas e cidades de Cuba.

"Relações de sangue" como fundamento do poder - eis o que sucede em Cuba há quase 58 anos. Espero um dia destes ouvir o BE condenar a monarquia vermelha que detém trono e ceptro em Havana. Mas esperarei sentado, imitando os fatigados parlamentares do Bloco.

 

Adenda: em Março, o BE comportou-se com Marcelo Rebelo de Sousa, na sessão de investidura do Presidente da República, como fez oito meses depois com o Rei de Espanha. O que anula o argumento agora invocado.

 

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Assim, simples

por Rui Rocha, em 26.11.16

Poder sem eleições, ditador. Ditador, cabrão. Apoiantes, tolerantes e elogiadores de cabrão, filhos da puta. Para a esquerda, para a direita. Para cima e para baixo.

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O principal legado de Castro

por Pedro Correia, em 26.11.16

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«El modelo cubano ya no funciona ni siquiera para nosotros.»

Fidel Castro, Setembro de 2010

 

A morte física de Fidel Castro - o autocrata que permaneceu mais tempo em funções na era moderna - tem desencadeado expressões de idolatria lacrimosa nos circuitos mediáticos: "Pai da revolução cubana", "comandante chefe", "líder histórico", "figura carismática".

Nem uma só vez escuto a palavra ditador.

"Não se pode dizer que Fidel Castro deixou Cuba como país próspero e desenvolvido. O povo cubano tem sofrido muito - e tem sofrido não só por causa do bloqueio mas pelas políticas que foram realizadas pelos próprios dirigentes cubanos. E não nos podemos esquecer que em Cuba não há democracia." Palavras do jornalista José Milhazes na SIC Notícias - um dos raros que navegaram contra a corrente, pondo os factos acima da ladainha hagiográfica.

 

Na sua fabulosa Autobiografia de Fidel Castro, Norberto Fuentes - que foi um dos funcionários de mais elevada patente do castrismo antes de se ver forçado a rumar ao exílio, como aconteceu com centenas de milhares de cubanos - escreveu estas palavras, supostamente concebidas pelo próprio autocrata: "Hei-de morrer a ruminar a satisfação imensa de que terão de me julgar à revelia. E quando decorrerá tamanho processo? Dentro de quinhentos anos? Dentro de mil? Quando é que a história julga de maneira definitiva e sem apelo nem agravo?"

Nesse aspecto, Fidel Castro pode ser apresentado como um triunfador da História - alguém que sobreviveu à derrocada do mundo comunista e recorreu às bravatas nacionalistas para se perpetuar no poder até a fatalidade biológica impor a sua lei suprema.

Para ele, só a razão de Estado existia. E o Estado confundiu-se durante mais de meio século com a sua pessoa. Neste contexto, o povo funcionava como substantivo abstracto: compunha as manifestações de apoio ao Governo, as únicas autorizadas, e servia de vocativo permanente na retórica oficial.

 

O que vigora na Cuba dos nossos dias?

Um regime de partido único, profundamente hierarquizado, em que as hostes partidárias se confundem com as forças armadas (que embolsam 60% das receitas turísticas) e o aparelho de Estado. Um regime em que a cúpula do poder permanece nas mãos de membros da mesma família há 57 anos. Um regime que destruiu o tecido produtivo do país e hoje se vê forçado a importar 80% do que ali se come. Um regime mergulhado num irreversível e penoso crepúsculo, confundindo o seu destino com o do país.

Há meio século, a palavra de ordem era "socialismo" - a toda a velocidade. Agora a palavra que paira nas mentes de todos é "capitalismo" - o mais devagar possível. Com mais de dois milhões de cubanos forçados a viver fora da ilha e milhão e meio à beira do desemprego porque o Estado-patrão deixou de ter verba para pagar os magros salários - os segundos mais baixos do hemisfério ocidental - e as esquálidas pensões de reforma.

"Agotados de tanta trinchera y demasiadas alusiones al enemigo, nos preguntamos si no sería más coherente usar todos esos recursos para aliviar los problemas cotidianos. Revertir las crónicas dificultades del transporte urbano, la calidad del pan del mercado racionado o el abastecimiento de medicamentos en la farmacias de la Isla, serían mejores destinos para lo poco que contienen las arcas nacionales." Palavras escritas há dias pela jornalista Yoanis Sánchez no seu blogue.

 

Cuba é hoje uma nação envelhecida, sem esperança, com a segunda mais larga população de idosos da América Latina: 46% da população tem mais de 40 anos. Os jovens tudo fazem para abandonar um país onde o partido-Estado persiste em oprimir a sociedade.

Este foi, para azar dos cubanos que mal sobrevivem hoje com o equivalente médio a 15 dólares diários, o principal legado de Fidel Castro.

Em nome da "liberdade", o que torna tudo ainda mais trágico.

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A palavra mais difícil de escrever

por Pedro Correia, em 18.08.12

Pensava eu que um ditador é isso mesmo: um ditador. Nada disso: é um "líder histórico". Uma, duas, três, quatro vezes "líder histórico". A notícia é da agência Lusa, mas pelo estilo podia ser da Prensa Latina, o que não impediu a sua repercussão acrítica em diversos órgãos de informação portugueses, o que diz muito sobre a qualidade do nosso jornalismo.

Temos de ler a imprensa estrangeira para vermos uma correspondência correcta entre o nome e a coisa. Aqui, por exemplo. Nunca imaginei que por cá fosse tão difícil escrever uma simples palavra de sete letras. Estou com muita curiosidade de saber qual será a próxima vez que a Lusa a utilizará.

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