Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Cristofobia, essa palavra de raro uso

por João Pedro Pimenta, em 07.05.17

Hoje em dia encontramos fobias por toda a parte. Não me refiro a doenças clinicamente determinadas, mas às fobias sociais, sobretudo no que à sexualidade e religião dizem respeito. Entre outras, encontramos a homofobia (que se tende a exagerar nuns casos e a ignorar noutros), a islamofobia, e, já sem o sufixo mas usado pelas mesmas razões, o anti-semitismo, normalmente reduzido à sub-espécie anti-judaísmo ou mesmo anti-sionismo.

É precisamente no caso das religiões que fico mais perplexo quando vejo palavras usadas por tudo e por nada. Quando se fala da islamofobia na Europa por exemplo. Não que não a haja (e por vezes passa despercebida, como o atentado recente num centro islâmico de Zurique), mas tende não raramente a ser sobrevalorizada. Ou o anti-semitismo, outro fenómeno inegável. Mas é raro, raríssimo, encontrarmos referências à cristofobia.

Vimos, recentemente, um atentado na principal igreja copta do Egipto que vitimou inúmeros fiéis, cancelou as celebrações da Páscoa e motivou uma atenção especial do Papa na sua visita recente ao país. Vemos o número de cristãos no Médio-Oriente, ali presentes desde os tempos bíblicos, a diminuir constantemente, seja porque fogem para outras paragens, seja porque são simplesmente liquidados pelas maiorias. Boa parte dos seus mosteiros e igrejas são agora ruínas ou meras recordações. No Iraque, na Síria, no Egipto (há pouco mais de meio século, os cristãos de Alexandria, contando também com as comunidades italianas, gregas e britânicas, seriam mais de metade da população da cidade), noutras paragens do norte de África e do Sahel, mesmo no Líbano, a percentagem tem diminuido drasticamente.

Resultado de imagem para christians middle east

 

Apesar disso, é raríssimo encontrarmos a palavra cristofobia para dar nome a essa trágica mudança demográfica e cultural. Quando qualquer gesto menos simpático para com os muçulmanos na Europa, por exemplo, dá logo azo a acusações de islamofobia, não se compreende porque é que em situações bem mais graves não se fala de actos cristófobos. A palavra deve soar desconhecida a muitos, mas não é nenhuma invenção de última hora. Na realidade, ocasiões houve em que se a usou, mas para garantir que era "uma invenção" e um pretexto para a vitimização.

 

Não deixa de ser estranho que a religião que, juntando todas as suas igrejas, reúne mais fiéis no Mundo, não tenha grandes referências vocabulares para as perseguições de que é alvo. A explicação pode estar, para além da secularização da sociedade ocidental, nos medos e mentalidades pós-coloniais, ligadas a uma certa ideia de politicamente correcto, em que o cristianismo seria a religião do "ocupante" ocidental, pelo que a perseguição dos cristãos tratar-se-ia de uma justiça histórica e da expulsão dos antigos dominadores. Uma ideia peregrina, já que as populações que mais sofrem são minorias há muito estabelecidas no terreno, ou pelo menos evangelizadas sem ser à força (no  extremo-oriente, por exemplo). O que é certo é que as perseguições cristãs não só provocam menos eco como raramente se ouve a palavra que lhes devia estar associada.

 

Não há nenhuma razão para que o termo cristofobia não seja usado como merece. Quando há perseguições a cristãos e tentativas de eliminar a sua cultura é disso mesmo que se trata. A cristofobia existe, é constante e reiterada e infelizmente não tende a desaparecer. O pior mesmo é ser ignorada e escondida. Se não ajudamos os que são perseguidos, ao menos não escondamos que o são nem neguemos as palavras certas para o denunciar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Contra a devassa da vida alheia

por Pedro Correia, em 26.09.16

43127541-Buco-della-serratura-con-piastra-di-metal

Um dos factos mais notórios do nosso tempo é a crescente desvalorização da reserva da vida privada. A todo o momento milhões de pessoas expõem na Rede imagens e palavras oriundas do seu reduto mais íntimo, colectivizando aquilo que devia ser privado.

Conceitos como recato e pudor parecem ter deixado de fazer sentido na era digital, em nome da “transparência”, conceito controverso quando estão em causa questões sem o menor interesse público e propícias a infames manipulações por parte das multinacionais que operam as chamadas “redes sociais” e de indivíduos sem escrúpulos, prontos a fazer comércio devassando a intimidade alheia.

Um Estado totalitário, munido destas ferramentas, iria hoje muito mais longe do que foram a Alemanha hitleriana ou a Rússia estalinista no aniquilamento cívico de um número incalculável de pessoas.

 

A palavra de ordem, nos dias que correm, é pôr tudo em linha com a rapidez de um relâmpago. Escancarando encontros e desencontros, paixões e ódios, amores e desamores. Contribuindo assim para o drástico recuo do direito à preservação da esfera íntima de cada um.

Como escrevia ontem Yoani Sánchez num artigo de opinião no El País, as gerações mais jovens, sobretudo, “sentem que o tempo da privacidade chegou ao fim”. Dizer não à devassa ficou fora de moda.

“Nas redes sociais, vimo-los superar o acne, livrar-se dos aparelhos dentários, estrear barba e extensões capilares. Estão dispostos a entregar informação pessoal em troca de uma socialização mais intensa. Os filhos fazem parte desta experiência: exibem-nos na Rede, sorridentes, ingénuos, desprovidos de filtros. Dão à luz, amam, protestam e morrem frente a uma webcam. Criam relações baseadas na horizontalidade, em parte porque as redes lhes inculcaram a convicção de que interagem com os seus pares, sem hierarquias”, observa a jornalista cubana.

 

Um perfeito retrato do nosso tempo em que se esbatem fronteiras entre informação rigorosa e mexericos destinados a estimular o voyeurismo mais primário. E no entanto, por mais fora de moda que seja, impõe-se remar contra a maré. Urge lembrar que cada cidadão tem assegurada protecção constitucional à reserva da intimidade da sua vida privada, um direito humano fundamental.

É preciso sublinhar isto todas as vezes que for necessário. Sem desistir.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma pequena lembrança

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.05.16

HM 1005 2016 page_1_thumb_large.jpg

O tempo não é muito, mas em matéria de direitos humanos é sempre necessário que se encontre tempo para se dizer o que se entende que deve ser dito no tempo e momento adequados. Para que, em Portugal e no mundo, Macau e as suas gentes não caiam no esquecimento.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Visto de Macau

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.01.16

1452484510-protest-against-disappearance-lee-bo-an

Livros, editores, combate político, democracia e direitos humanos nunca foram coisas que dessem dinheiro. A não ser para alguns.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O segundo fôlego da revolução

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.05.15

Llegada-al-Vaticano-del-Presidente-cubano-Foto-580

 (foto: Vaticano)

O modo como Cuba está a fazer a transição do socialismo puro e duro, herdado de Fidel, para um modelo, que ainda não se sabe qual é, mais consentâneo com os valores globalizadores da liberdade e da democracia, tem vindo a afirmar-se de forma discreta e, ao mesmo tempo, a meu ver, inteligente.

Não sei até onde poderá ir a abertura cubana, nem se o restabelecimento de relações diplomáticas normais entre Cuba e os Estados Unidos da América conduzirá à implantação da democracia. De qualquer modo, penso que não será difícil imaginar, pelos sinais que nos chegam, que o que vier terá todas as condições para ser melhor, do ponto de vista dos direitos humanos, da liberdade, da democracia, do apoio da comunidade internacional e da qualidade de vida dos cubanos, do que o testemunho que foi recebido.

Sem grande alarido, nem declarações excessivas, Cuba parece reencontrar o seu espaço, que no caso implica também uma mudança no seu relacionamento com o Vaticano, o que é capaz de deixar apreensivos os mais fiéis guevaristas. E, às vezes, são pequenos (grandes) pormenores que, passando despercebidos na comunicação social, vão marcando a diferença. É certo que persistem algumas contradições quando tudo isto acontece ao mesmo tempo que é publicado um artigo de Fidel com o sugestivo título de "Nuestro derecho a ser Marxistas-Leninistas", mas essas serão arestas que o tempo se encarregará de limar.

Embora tenha sido assinalado o carácter privado da visita de Raúl Castro ao Vaticano, não deixa de ser irónico que o Presidente cubano se tenha feito acompanhar, para além de um vice-presidente do Conselho de Ministros e do chanceler Bruno Rodriguez Parilla, do ministro das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, Leopoldo Cintra Frías. Notar-se-á que Castro também chegou ao Vaticano num belíssimo Maserati, com a bandeira de Cuba, para visitar um Papa que se tem afirmado, entre outras coisas, pelo seu desapego ao luxo e aos sinais exteriores de opulência, aliás em coerência com aquilo que tem publicamente defendido, é a sua prática e constitui o seu pensamento.

Sem colocar em causa o caminho que está a ser seguido, que vejo com satisfação pelos benefícios que poderá trazer a todos os cubanos e pelo clima de paz e segurança que transporta para as Caraíbas, espero igualmente que em nome da verdade, e por respeito para com todos aqueles que sofreram os horrores da ditadura, o facto da Revolução Cubana e das suas Forças Armadas Revolucionárias passarem a estar abençoadas não faça Francisco esquecer-se dos excessos que em nome delas foram cometidos. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A cruzada

por Rui Rocha, em 03.05.15

Escrevia Savater, a propósito da tragédia do Charlie Hebdo, que as crenças religiosas são como feras: muitas vezes esteticamente atraentes, mas terríveis devoradoras de homens. Em consequência, como feras que são, só podemos permitir que se passeiem nas ruas da civilização depois de domesticadas. E, continuava, se quase conseguimos domesticar o cristianismo, o islamismo continua em estado perigosamente selvagem. Desde que li o artigo, um poderoso elogio do laicismo como pedra basilar da democracia, há uma questão que me acompanha: a nossa civilização, chamemos-lhe ocidental à falta de melhor, é o resultado da domesticação do cristianismo ou foi o cristianismo que contribuiu de forma decisiva para sermos o que somos? Percebo que existe um argumentário viável para cada uma das opções. E que, à boa maneira das ciências sociais, existe sempre espaço especulativo para a tese, para a antítese e para a síntese. Mas há coisas que me fazem pender para um dos lados. Quando uma criança de 12 anos é violentada pelo seu padrasto e engravida, devíamos ser capazes de tomar tempo, de pensar, de reconhecer que há questões sem solução evidente, de admitir que ficamos divididos no nosso íntimo, que há encruzilhadas tão fodidas na vida que é impossível não hesitar, não duvidar, não andar em círculos, em que não há texto a publicar, ou que não se pode publicar texto sem esgotar os pontos de interrogação. E devíamos saber que qualquer decisão será sempre uma má decisão, porque nestes casos não há decisões boas. É por isso extraordinário que um padreca se aproveite do drama de uma criança, dessa criança, para fazer demagogia, comparando o incomparável, instrumentalizando a informação à luz dos seus interesses, chafurdando na desgraça, para dar cumprimento à sua cruzada político-religiosa. Sou assim levado de regresso às conclusões de Savater. Os ratos de sacristia são feras quase domesticadas. Por isso, é na sacristia que devem continuar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Emily Lau

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.01.15

20140611201746358.jpgNão há nada que justifique o impedimento da entrada de Emily Lau em Macau. Os deuses devem estar a enlouquecer.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dignidade

por Pedro Correia, em 10.10.14

Documentário,Malala%20Yousafzai,Campanha%20pela%2

 

Raras vezes o Prémio Nobel da Paz foi tão bem atribuído. Ao contemplar Malala Yousafzai, a adolescente paquistanesa que escapou por um triz a uma tentativa de assassínio talibã por defender o elementar direito à educação a todos os seres humanos, incluindo os do sexo feminino. "Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo", disse Malala em 2013, num comovente discurso pronunciado na sede da ONU, em Nova Iorque.

Impossibilitada de viver no seu país, onde o mais repugnante fanatismo islâmico a condenou à morte física e à morte cívica, Malala vive hoje no Reino Unido, onde tenciona completar os restantes graus de instrução sem pedir licença a nenhum homem, mesmo que use barba e turbante.

Com apenas 17 anos, é a mais jovem laureada até hoje com um Prémio Nobel, repartindo este galardão com Kailash Satyarthi, activista indiano dos direitos das crianças. E será a partir de agora um exemplo ainda mais marcante para milhões de raparigas a quem continua a ser negado o acesso a esse patamar básico de dignidade humana que só a educação proporciona.

Autoria e outros dados (tags, etc)

E Portugal não diz nada?

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.08.14

A RAE de Macau atravessa um período de instabilidade política e social, a qual tem tido eco quer na imprensa local e regional, quer na internacional. Em Portugal também não têm faltado algumas notícias, ainda que esporádicas, ao que por aqui se passa. 

Depois das manifestações de Maio e Junho, que trouxeram para as ruas largos milhares de pessoas, até então silenciosas e submissas, por causa da preparação de um diploma que visava atribuir aos actuais governantes, à beira de cessarem funções, e aos que já há muito terminaram, um conjunto de escandalosas benesses de natureza pecuniária e jurídica visando o seu injustificado enriquecimento e protecção, e do despedimento de académicos, pelo menos num dos casos com expressa invocação de razões políticas, a Região volta a ser confrontada com momentos de tensão.

Decorrendo neste momento a "campanha eleitoral" do candidato único à chefia do Executivo da RAEM, traduzida em contactos informais com associações profissionais, culturais, sociais, empresariais, comerciais e industriais, incluindo algumas de matriz portuguesa e genuinamente macaense, onde normalmente sem perguntas o candidato discursa, distribui cumprimentos e faz brindes, pede desculpa pelo que correu mal, promete um mundo maravilhoso e faz pungentes declarações de amor à Pátria e a Macau, o que certamente ninguém esperaria era que, a uma semana do acto eleitoral que entronizará Fernando Chui Sai On para um segundo mandato, as ruas fossem de novo invadidas por manifestantes - trabalhadores dos casinos agrupados na denominada Forefront of Macau Gaming - que reclamam melhores salários e condições de vida dignas, e que Macau voltasse às páginas dos jornais pela repressão ao exercício de direitos de manifestação e de liberdade de expressão política, a ponto de suscitar a apreensão da Amnistia Internacional.

O problema reside agora no facto de três organizações da sociedade civil (Macau Consciência, Juventude Dinâmica e Sociedade Aberta de Macau), politicamente bastante activas e organizadas, terem desencadeado um processo de auscultação da opinião pública para saber se as pessoas têm confiança no Chefe do Executivo e se querem que a próxima escolha seja por sufrágio universal. Deram-lhe, erradamente, o nome de "referendo civil", com o que quiseram imitar um processo idêntico verificado em Hong Kong, no qual participaram quase oitocentas mil pessoas.

Depois de terem visto negada a autorização para o uso de espaços públicos e do Tribunal de Última Instância, prudentemente, se ter colocado à margem da controvérsia, dessa forma evitando comprometer-se e dando uma no cravo e outra na ferradura, iniciaram o processo de recolha de opiniões em diversos locais da via pública, usando "Ipad's", e através de um site na Internet. Os organizadores contam recolher opiniões até às 12h de 31 de Agosto, dia em que ocorrerá a escolha do novo Chefe do Executivo, mas tiveram o cuidado de, desde logo, avisar que o resultado da sua consulta só seria divulgado depois de conhecidos os resultados oficiais.  

A posição das autoridades da RAEM, aliás fazendo eco da opinião que desde a primeira hora foi veiculada pelo porta-voz do Governo, foi no sentido de considerar ilegal o "referendo", dizendo que o mesmo não estava previsto na lei. A partir daí, e a despeito da pouca sensatez política e jurídica dos argumentos, que quanto à sua substância jurídica foram inteligentemente desmontados, entre outros, por António Katchi, nas páginas do Ponto Final, o Governo persistiu na sua posição e no Domingo, 24 de Agosto, primeiro dia do "referendo", procedeu à detenção dos organizadores invocando a recolha "ilegal" de dados pessoais e a prática de crimes de desobediência qualificada, argumentos a que também já foi dada resposta.

Se neste processo os organizadores da consulta não estiveram bem na estratégia utilizada - politicamente criticável pela sua ingenuidade, discurso utilizado e persistência num discurso que servia os interesses das autoridades locais -, cuja primeira atitude deveria ter sido a alteração do nome da consulta de referendo para sondagem logo que as críticas dos sectores pró-governamentais e do próprio Governo surgiram, certo é que o Governo da RAEM tem reagido mal e de forma desproporcionada ao que está acontecer. Ao dar ao assunto a importância que aquele não tem, o Governo da RAEM conferiu-lhe escusada projecção e dimensão internacional, transmitindo uma imagem de grande insegurança na sua actuação, de falta de estratégia política e de confiança na acção do sistema judicial, deixando escapar de forma expressa - porque implícita sempre esteve presente - a ideia de manipulação da Administração Pública e das forças policiais, bem como de incapacidade para lidar com a crítica e a liberdade de expressão.

É evidente que a recolha de dados pessoais para um fim específico e autorizada pelos próprios, cidadãos maiores, politicamente responsáveis e conscientes, como seja a identificação ou o número do respectivo documento de identificação, como é normal em qualquer país democrático para subscrição de petições públicas ou até para participação em sorteios ou recebimento de ofertas promocionais de empresas comerciais, não se confunde com a recolha não autorizada, escondida e à revelia dos visados dos seus dados pessoais para criação de bases de dados para utilização duvidosa, que aqueles desconhecem e ninguém controla. E a prova de que as pessoas não se sentiram lesadas nem desconfiaram do procedimento foi que logo a seguir à detenção dos organizadores aumentou o afluxo de participantes via Internet para participarem na sondagem. A desproporção de meios entre as autoridades e os organizadores da consulta é óbvia, tornando-se ridículo que a detenção de Jason Chao, conhecido activista que lidera o movimento, tenha ocorrido num momento em que este se dirigia para uma casa de banho e as autoridades de Macau tenham passado pelo vexame dele se recusar a falar, garantindo o seu direito ao silêncio, recusando-se a fornecer quaisquer dados inerentes à consulta aos elementos das forças policiais, incluindo, e bem, a rejeição de lhes facultar a identidade dos participantes com o argumento simples e eficaz de que só o faria com uma ordem judicial.  

Escusadamente, Macau volta a estar nas páginas da imprensa internacional. Pelas piores razões e justificando a atenção dos media, da opinião pública mundial e das organizações de protecção dos direitos humanos. Em causa, de novo, questões que se prendem com a participação política e o direito ao sufrágio universal. Mas tal como noutras questões que não foram suficientemente acauteladas pelos negociadores portugueses, também nesta matéria Portugal esteve mal ao não ter conseguido que na Declaração Conjunta Luso-Chinesa tivesse ficado, ao contrário do que aconteceu com a Basic Law de Hong Kong, através do artigo 45.º, o direito ao sufrágio universal, pelo menos como meta a atingir num futuro próximo: "The method for selecting the Chief Executive shall be specified in the light of the actual situation in the Hong Kong Special Administrative Region and in accordance with the principle of gradual and orderly progress. The ultimate aim is the selection of the Chief Executive by universal suffrage upon nomination by a broadly representative nominating committee in accordance with democratic procedures". Esta última é uma frase que faz toda a diferença entre um lado e o outro do estuário do rio das Pérolas, e que diz bem da diferente postura de portugueses e ingleses.

Enfim, nada que não fosse previsível vir a acontecer e que os portugueses ficaram a dever, entre muitas mais, ao povo de Macau. Mas quanto a isto, o melhor mesmo é os portugueses perguntarem ao Presidente da República, Cavaco Silva, por que razão tal não ficou consagrado. É que foi este senhor quem, em última instância, em 13 de Abril de 1987, foi a Pequim assinar em nome do Governo Português o documento que formalizou os termos para a transferência de Administração de Macau para a RPC, fixando a agenda para os 50 anos pós-1999.

Como se vê, volvidos apenas meia dúzia de anos, a História não perdoa erros de tão grande miopia política. Jason Chao tinha menos de seis meses quando a Declaração Conjunta foi assinada. Trocar princípios ou vistos de residência por patacas e euros nunca poderia dar bom resultado. A não ser para os bolsos dos que à custa disso se tornaram empresários, fizeram fundações, promoveram o BPP ou puderam mudar-se para a Quinta Patiño.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A propósito de Powell

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.08.14

"The rhetoric of US foreign policy proclaimed the universal values of liberal democracy as the foundation for world peace, but the practice was often quite different. The odd mixture of inclusive civic ideals with exclusive racist and nationalist prejudices, which Wilson’s friendship with Dixon and his contributions to The Birth of a Nation had epitomized, continued to influence American democracy and international relations. Deciding which cultural values to give higher priority after 9/11 during President George W. Bush’s global war on terrorism was still a critical question for Americans in the twenty-first century. Once more, in this new historical context, they needed to decide which aspects of the Wilsonian legacy—its best universal ideals of freedom and democracy or its worst prejudices of racism and religious intolerance—to embrace at home and abroad."

 

A violência inaudita do crime de Powell, cujas imagens podem ser vistas em múltiplos vídeos colocados no You Tube e que aqui me recuso a reproduzir ou encaminhar, fez-me regressar a Lloyd Ambrosius e ao seu texto de 2007, na Diplomacy and Statecraft (vol. 18, 2007, 689-718), sobre o legado do Presidente Wilson e tudo o que nos conduz até ao filme de Griffith (The Birth of a Nation) e à novela de Dickson (The Clansman).

Quando olho para o sistema de justiça norte-americano, quando vejo a forma estúpida como se continua a morrer nos EUA, seja pela acção de loucos ou a simples inacção do Congresso, ou quando leio as macabras descrições da agonia de condenados à pena capital, que devido à incompetência dos carrascos nem sequer têm direito a uma morte digna e sem sofrimento, não posso deixar de reler e reflectir no que Ambrosius escreveu.

O facto de Obama ter chegado à Casa Branca não mudou nada. A mentalidade continua a ser a mesma. E a quantidade de casos em que a violência se repete sem qualquer justificação continuará a fazer dos EUA um país semimedieval, onde a conquista do espaço se confunde com o barbarismo dos seus polícias, onde o último grito em novas tecnologias se confunde com o radicalismo da NRA, a ignorância de uma Palin ou o primarismo de alguns congressistas. Contrastes pelos quais depois pagam os James Fowley que um dia tiveram o azar de nascer norte-americanos.

O que aconteceu em Powell, independentemente do desgraçado ser um malandro, ou continua a passar-se em Gaza, acaba por ser o resultado de uma pesada herança de violência, ignorância, preconceito e atavismo religioso. E se um legado desses é inaceitável na Síria, na Líbia, no Irão ou em Israel, nada havendo que justifique as carnificinas que diariamente nos entram em casa, menos ainda se pode tolerar que num país como os EUA ainda não tenha sido possível ultrapassar os traumas da sua fundação. Como John A. Thompson também já sublinhou, continua a haver uma grande dificuldade em conciliar a realidade externa de um mundo recheado de conflitos e o papel que o país quer assumir em termos mundiais com a pressão da realidade interna e da sua própria opinião pública (International Affairs, 86, I, 2010, 27-48), mas isso não pode servir de desculpa para o que continua a acontecer sem que haja uma tomada de posição por parte dos países europeus.

De qualquer modo, em matéria de direitos humanos, em Powell ou no Iraque, só pode existir um caminho: o do inaceitabilidade da violência quaisquer que sejam as circunstâncias e a roupagem com que se apresente. Venha ela de onde vier. O único compromisso das nações civilizadas só pode ser o da luta contra a barbárie e pela elevação dos padrões de justiça e de vida. A começar pelo respeito por esta.

A triste herança de Wilson, que muitos ainda continuam a adular por desconhecimento histórico e preconceito ideológico, não devia continuar a envergonhar a humanidade e a motivar as acções de loucos. Não pode haver tolerância com as bestas. Menos ainda com que as que juram com uma mão sobre a Bíblia, a Torá ou o Corão, enquanto com a outra primem o gatilho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A mais eficaz e menos destruidora das armas

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.08.14

Graças à Amnistia Internacional e ao Luís Sá.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Holocaustos

por Fernando Sousa, em 29.07.14

 

Houve mil holocaustos, não houve só um. Negacionismo é passar sobre todos eles. Acabei de ler um: Holocausto brasileiro, da jornalista Daniela Arbex. Este foi também no século XX mas no Brasil, no centro “hospitalar” de Colónia, Barbacena, Minas Gerais. Milhares de pessoas, homens e mulheres, de todas as idades foram ali internadas por supostos transtornos mentais entre 1903 e o fim dos anos 80. Morreram 60 mil. A maior parte, 70 por cento, não tinha nenhum diagnóstico de doença mental. Eram epilépticos, alcoólicos, homossexuais, prostitutas, meninas engravidadas por patrões, mulheres despachadas para que os maridos pudessem viver com as amantes, brigões, pessoas só entristecidas. Sobreviviam comprimidos, metidos às centenas em armazéns, dormiam sobre palha, entre piolhos e carraças, andavam nus, eles e elas, bebiam água de esgotos, comiam mal e quase nada. Os bebés sobrevindos eram vendidos. Morriam todos os dias, às vezes da cura – era o tempo dos electrochoques. Depois eram vendidos ao quilo às faculdades. E tudo isto durante décadas, com a conivência de médicos, enfermeiros, funcionários e do Governo brasileiro. Basaglia, o psiquiatra italiano que levantou a voz contra os manicómios, foi lá em 1979:  “Estive hoje num campo de concentração nazi. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como essa”. Uma das melhores reportagens da mais-do-que-premiada Daniela Arbex, que salvou milhares de pessoas do esquecimento e devolveu o nome a muitos sobreviventes. Faz-me bem saber que vive no mesmo mundo que eu. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ainda há heróis

por Pedro Correia, em 04.06.14

 

Chai Ling, com 23 anos, falando aos outros estudantes concentrados em Tiananmen (Primavera de 1989)

 

No coração da remota China muçulmana, a população turcófona continua a ser remetida para guetos nos subúrbios: os melhores empregos e as melhores habitações cabem à etnia han, dominante no conjunto do país. Só existe igualdade na lei, não existe na prática: os uígures são tratados como cidadãos de segunda na sua própria terra. Que crime cometeram? Procurarem manter a identidade cultural, falando a sua língua e professando a sua religião no Estado mais populoso do mundo, onde a norma é esmagar toda a diferença.

Acontece hoje no Xinjiang, acontece há meio século no Tibete, aconteceu em 1989 na própria sede suprema do Império do Meio.

 

Sei bem do que falo. Há um quarto de século, vivi em Macau um dos períodos mais tristes de que me lembro, quando vi esmagar a Primavera com que milhões de chineses haviam sonhado – a Primavera política, após quatro décadas de regime ditatorial, afogada em sangue naquela trágica madrugada em Tiananmen, a Praça da Paz Celestial, que nunca fez tão pouco jus ao seu nome poético. Após mês e meio de protestos pacíficos, iniciados em Abril, com a morte súbita do ex-secretário-geral do Partido Comunista Chinês, o reformista Hu Yaobang, destituído dessas funções em 1987.

Recordo as expressões festivas nos rostos de muitos chineses semanas antes, dias antes, quando toda a esperança parecia possível.

Recordo as figuras dos principais dirigentes estudantis, imagens que galvanizaram toda uma geração – jovens como Wang Dan, Chai Ling e Wuer Kaixi, que viriam a ser perseguidos e forçados ao exílio.

Recordo a euforia popular que rodeou a chegada à capital chinesa em meados de Maio, para uma visita oficial, de Mikhail Gorbatchov, o homem que se preparava para derrubar a cortina de ferro e servia de inspiração ao ansiado derrube da cortina de bambu.

Recordo também a mobilização de uma vasta força repressiva, composta por 300 mil soldados mandatados para estancar a revolta. Recordo a proclamação da lei marcial por Deng Xiaoping (que só viria a ser levantada em Janeiro de 1990) e o afastamento do líder do partido, Zhao Ziyang, acusado de ser excessivamente brando pelos falcões da ditadura e condenado a partir daí à morte civil e à reclusão doméstica com carácter vitalício.

Recordo o silêncio de chumbo nos dias subsequentes ao massacre.

 

 

Recordo sobretudo o impressionante instantâneo daquele homem sem rosto nem nome, de braços nus, enfrentando uma sinistra fileira de tanques, imortalizado pelo clique da máquina fotográfica de Stuart Franklin. Símbolo máximo da dignidade humana perante a força bruta - há 25 anos em Pequim, hoje no Xinjiang que teima em ser diferente.

Quando ouço dizer à minha volta que já não existem heróis, lembro-me sempre daquele homem sem medo. Que outro nome haveremos de dar-lhe senão esse – o de herói?

 

Leitura complementar: Stuart Franklin: how I photographed Tiananmen Square and 'tank man'

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ventos da Ucrânia

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.02.14

"The Ukrainians are free, how long will we Chinese have to wait?"

Autoria e outros dados (tags, etc)

Aviso amarelo

por Fernando Sousa, em 24.10.13

Aviso amarelo para todo o território. Volto a pensar nos que mantiveram o pensamento à tona da banalização do mal, nos que assumiram qual era a risca mais curta dos cartõezinhos de S. Asche ou que abandonaram, quase nos 450 v., os testes de Milgram. Vem-me à cabeça um montão de nomes de justos. Pressinto na mera indignação uma colossal perda de tempo. Bom. A chuva abrandou. Vou aos correios. Afinal estamos sob aviso amarelo, e não é só hoje. Ou não? Pode ser que a carta chegue, e se chegar que tenha resposta... Quem sabe? 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Parabéns, Mandela!

por Fernando Sousa, em 18.07.13

Parabéns, Mandela, pelo teu exemplo de vida, da dor ao amor, da resistência à liberdade.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um relatório negro

por Fernando Sousa, em 23.05.13

 

Tortura e outras formas de maus-tratos. Uso excessivo da força por parte das polícias. Violência de género e um balanço do Comité dos Direitos Humanos das Nações Unidas de pôr os cabelos em pé. Eis em poucas linhas o que diz o Relatório da Amnistia Internacional de 2013 sobre a situação dos direitos humanos em Portugal, com as medidas de austeridade a ajudar à degradação de direitos, liberdades e garantias que o Estado, esse ente estranho, cada vez mais estranho, deveria proteger, para mais quando acaba de ratificar o Protocolo Facultativo do Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, que assim aparece como um embuste - como mais um embuste. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Irena Sendler

por Fernando Sousa, em 12.05.13

 

Irena Sendler morreu há cinco anos. Estas linhas são para que não morra mais. Assistente social quando alemães invadiram a Polónia, introduziu à socapa, no gueto de Varsóvia, comida e medicamentos para os sitiados. Valendo-se ainda da sua condição de enfermeira, resgatou, durante um ano e meio, usando de todos os truques, 2500 crianças desse símbolo maior da iniquidade, registando os seus nomes para que pudessem recuperar a identidade e as histórias pessoais. Descoberta em Outubro de 1943, foi presa e torturada. Teria sido fuzilada se um soldado alemão, subornado pela Zegota, organização clandestina de apoio aos judeus, não a tivesse levado para um interrogatório “adicional” e a certa altura ordenado: “Corra!” Irena Sendler morreu no dia 12 de Maio de 2008. Estas linhas são para que não morra mais. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Homem lobo do homem

por José Navarro de Andrade, em 11.01.13

Yang Zhengzhong, "Família feliz", 1995

 

Uma das novidades que poderemos considerar filosóficas do novo século é a nascente ordem natural que se começou formar nalgum senso comum.

Durante milénios havia uma linha na natureza que separava o animal racional (ou espiritual) do animal irracional ou instintivo. O ponto desta separação seria a Consciência – de si, do seu estatuto, da sua diferença e distinção face à Natureza. Nem valerá a pena dilucidar aqui esta coisa da “consciência” dada a abundância de tratados que versam sobre o tema só nos últimos 4.000 anos.

Esta fronteira está ser criticada e tem vindo a ser removida para outra região. Segundo os adeptos das teorias de Peter Singer (não resisto ao mau gosto de chamar a atenção para as suas dissertações sobre o infanticídio), satélites e discípulos, o “especismo” é um erro, ou seja, a discriminação entre animais segundo uma hierarquia de espécies não deve ocorrer porque, na sua particular interpretação darwiniana, se todos os organismos físicos estão num continuum natural, então também deve haver um continuum ético entre eles.

Deste modo a fronteira deve ser traçada entre, por uma parte, os animais “sencientes”, aqueles que estão biologicamente aptos a experimentar prazer e dor e os restantes, noutra parte. Na prática isto significa que entre ti, leitor, e o teu gato há uma identidade que não existe entre o teu gato e o carapau que ambos comeram ao almoço. A nivelação entre animais sencientes, tomados como um todo, procede de uma clara opção filosófica em que se dá primazia à esfera da ética sobre todos os outros campos do saber.

E é aqui que a porca (com o devido respeito) torce o rabo, porque se confunde a dor, que é um sistema de alarme fisiológico proporcionado pelo sistema nervoso, com “crueldade” que é o acto de provocar dor intencionalmente. “Intencionalmente” é de facto a palavra-chave: quando o leão ferra as suas mandíbulas no esófago e na carótida do búfalo, matando-o muito devagar por asfixia e exaustão, estará a ser cruel? Presumo que não, por uma simples razão: ele não é racional, logo não delibera em termos éticos, logo sabe o que é a dor mas ignora o que é a crueldade.

Usando outro caso concreto:

O Zico não teve culpa do seu acto, pelo que não deve ser abatido, reclamam os defensores de uma amnistia para o cão que atacou uma criança. Este argumento é fatal precisamente para quem o profere. Se o conceito de culpa não é imputável a um cão, quer dizer que a ética humana não cobre essa situação que entre os humanos seria clara. Ou seja, não há um continuum ético. Mais: se querem dar uma “segunda oportunidade” ao cão, que não a reivindicou (julgo) e não a reconhecerá (presumo que a um cão será estranho o conceito de mortalidade), o que estão a fazer é do mais radical etnocentrismo, pois pretendem impor os ditames éticos intrínsecos a uma espécie sobre outra.

Seria mais sensato exigirem que o cão fosse julgado por um coletivo de juízes constituído por um homem, uma vaca e um panda; pelo menos assim combater-se-ia coerentemente o especismo entre animais sencientes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não há em mim um pingo de revolucionário, mas...

por José Gomes André, em 08.09.12

... ultimamente tenho lido com renovado interesse um texto antigo: "A prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros; e, assim sendo, toda experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objecto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assistem-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos Guardiães para sua futura segurança." (Thomas Jefferson, Declaração de Independência dos EUA, 1776).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Lal Bibi

por Rui Rocha, em 26.07.12

Uma história de dignidade e valentia contra a barbárie.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Como se a culpa fosse das vítimas

por Pedro Correia, em 05.06.12

 

Mesmo numa região como o Médio Oriente, habituada às maiores atrocidades, este foi um massacre particularmente chocante: 108 pessoas mortas a sangue-frio, degoladas ou assassinadas com tiros na cabeça à queima-roupa, incluindo dezenas de crianças. Aconteceu em Houla, no centro da Síria: as chocantes imagens desta barbárie correram mundo, não tardando a ser disseminadas pelas redes sociais e fazendo abrir os olhos a alguns que ainda condescendiam com a feroz ditadura de Bachar al-Assad. Por unanimidade, o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou estas atrocidades, atribuídas à milícia pró-governamental Shabiha. Ao contrário do que sucedeu em ocasiões anteriores, desta vez China e Rússia juntaram-se à condenação, que deixa o ditador de Damasco ainda mais isolado.

"Os responsáveis por estes crimes brutais serão responsabilizados", garantiu o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, enviado desta organização e da Liga Árabe à Síria. Enquanto Barack Obama se confessava "horrorizado" por estas atrocidades e diversas capitais - incluindo Washington, Paris e Londres - expulsavam diplomatas sírios em sinal de vigoroso protesto. Assad pode vir a ser julgado por crimes contra a humanidade, admite Navi Pillay, alta-comissária das Nações Unidas para os direitos humanos.

O mundo comoveu-se com a história do menino de 11 anos que se fingiu de morto, esfregando-se com sangue do seu próprio irmão assassinado, para poder escapar com vida e contar aqueles momentos aterrorizantes que o assombrarão para sempre. "Eu estava apavorado. Todo o meu corpo tremia", relatou o pequeno Ali, que viu a sua família mais próxima ser massacrada.

Não admira, por tudo isto, que o tirano sírio conte cada vez com menos adeptos. Mas, embora poucos, são indubitavelmente fiéis. Com destaque para o Avante! "O massacre está a ser atribuído ao regime, mas o governo liderado por Bashar Al Assad nega a responsabilidade pelo crime e acusa os grupos terroristas", tranquiliza-nos o jornal comunista numa notícia com onze parágrafos em sintonia com as teses do ditador. Como se a culpa fosse das vítimas e não dos verdugos.

Ao fim de 14 meses, a revolta popular síria já provocou cerca de 13.400 vítimas mortais, mas nem isso perturba o inabalável Avante!: noutra notícia desta mesma edição, o órgão central do PCP relata que os "povos estão em luta do norte de África ao Médio Oriente". Mas não na Síria, claro. Com uma chocante indiferença pelas vítimas de Assad. E um solene desprezo pela sensibilidade e pela inteligência dos seus leitores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ainda Amina Filali

por Ana Vidal, em 17.03.12

Ainda sobre o revoltante caso de Amina Filali, que é o mesmo que dizer, sobre o revoltante caso das mulheres árabes: uma lei que "castiga" um violador obrigando-o a casar com a sua vítima, não o castiga: premeia-o. Castigada é a vítima, uma vez mais. Muitas vezes mais, melhor dizendo, já que passa a ser legitimada e "abençoada" a agressão. Perpetuar esta monstruosidade é a suprema humilhação. É o mesmo que dizer a uma mulher que nunca mais serviria para ninguém a não ser para o seu carrasco, e só porque ele é obrigado a isso. É o mesmo que dizer-lhe que é uma sorte que ele se disponha a oficializar a violência. Se qualquer mulher muçulmana já pouco vale, uma vítima de violação vale zero no "mercado" dos casamentos. Que alternativa restava àquela rapariga depois da vergonha pública, não só para ela como para toda a sua família? O ostracismo de qualquer outro homem, a total impossibilidade de refazer a vida com um mínimo de dignidade e de normalidade, valha o conceito o que valer. O peso da culpa de estar a mais, de ser uma chaga aberta na reinante hipocrisia das relações entre sexos. Ou a capitulação, deixando-se diluir no estranho submundo feminino que habita o fundo das casas árabes, que suspira por detrás dos altos muros brancos e se desgasta em lutas de poder tão indignas como estéreis. Aos desasseis anos, Amina Filali apenas escolheu o mal menor. A única libertação possível. Enquanto não mudar esta lógica da inquestionável superioridade dos homens perante o baixo valor das mulheres, a tão festejada "primavera árabe" não passará de um triste simulacro de mudança.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Amina Filali somos tantos

por Rui Rocha, em 17.03.12

 

Amina Filali morreu. Dizem que se matou. Não é verdade. Mataram-na. Matou-a, primeiro, o animal que a violou pela primeira vez. E que a voltou a violar e a maltratar depois de casarem. E matou-a o artigo do Código Penal marroquino que permite que os autores de violação possam escapar a uma pena de até 20 anos de prisão se casarem com as vítimas. E mataram-na o pai e a mãe, incapazes de se interporem entre a sua filha e a bestialidade de um homem, da lei, dos usos e das tradições. O acto final a que chamam suicídio tem, neste caso, apenas o valor de uma autópsia que Amina fez a si própria. Porque o seu corpo e a sua alma, agora que tinha dezasseis anos, estavam já mortos desde o dia em que, quando tinha quinze anos, o animal a violou pela primeira vez. Não há nada de novo nesta morte. Igual à de tantas mulheres que foram e vão morrendo em vida. Mas, há algo de muito novo na vida que ficou e que prossegue. A indignação já não é um sentimento que se manifesta apenas a norte do Mediterrâneo. Em Marrocos, ali onde um homem e as leis que mataram Amina cavalgam na contramão da história e do sentimento da mais elementar humanidade, há vozes que se levantam pela primeira vez. São vozes que se manifestam, são gargantas que se revoltam num grito novo por aqueles lugares. Amina Filali não somos todos, porque muitos ainda são lá dentro iguais ao homem que a matou. Mas, a cada rajada de vento de liberdade que sopra do deserto esses recuam um milímetro, calam e engolem em seco. Amina Filali não somos todos, mas somos tantos. E sabemos agora que muitos estão lá, onde sopra o vento do deserto. A sul do Mediterrâneo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

No Dia da Mulher ou noutro qualquer

por Pedro Correia, em 08.03.12

Nunca é de mais lembrar que bestas como esta andam por aí. Perto, demasiado perto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Importante

por Ana Vidal, em 24.02.12

 

Não seja indiferente. A sua assinatura é mais poderosa do que pensa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Há sempre alguém que diz não

por Pedro Correia, em 07.01.12

A iniquidade não pode vencer. Um emocionado e emocionante texto de Paulo Varela Gomes, a propósito dos 50 anos do golpe de Beja, a que cheguei via Joana Lopes. Fica a transcrição, com a devida vénia aos dois.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As fronteiras da liberdade

por Pedro Correia, em 24.11.11

 

Em dia de greve geral suscita-se a questão: como vamos em matéria de direitos laborais por esse mundo fora? O melhor é consultar o relatório anual da Confederação Internacional de Sindicatos: nenhuma organização está tão bem informada nesta matéria.

O documento fica aqui, à consideração de quem o quiser consultar. Por mim, tomo a liberdade de citar alguns exemplos:

 

Bielorrússia: «Os sindicalistas têm sido detidos e demitidos.»

 

China: «Restrições maciças à liberdade de associação e ao direito à greve.»

 

Coreia do Norte: «Na prática, os direitos sindicais não existem.»

 

Cuba: «A lei não reconhece especificamente o direito à negociação colectiva nem o direito à greve.»

 

Irão: «Os sindicatos são severamente condicionados e as greves estão proibidas.»

 

Síria: «A negociação colectiva quase não existe e é praticamente impossível convocar uma greve legal.»

 

Vietname: «O Governo continua a reprimir os sindicatos independentes.»

 

Zimbábue: «Trabalhadores da administração pública não têm o direito de formar sindicatos nem gozam do direito à greve.»

 

ADENDA: faz agora um ano, neste blogue, escrevi isto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os Buíças de Sirte

por Pedro Correia, em 24.10.11

Pensava que a esquerda radical era claramente favorável ao tiranicídio. Pensava que a esquerda radical gostava de ver ditadores executados pelas "massas populares" em vez de os ver placidamente confiados à "justiça burguesa". Afinal enganei-me: o Bruno Carvalho e a Helena Borges, que nunca choraram qualquer lágrima pelas vítimas de Kadhafi, andam a chorar a forma como o ditador foi executado. Tratou-se de um acto brutal e repugnante - de acordo. Mas será que no mesmo blogue onde escreve quem celebrou o regicídio de Fevereiro de 1908, elegendo até esse duplo crime que chocou a Europa como acto fundador da república portuguesa, sobrará um pingo de moral a alguém para se indignar agora contra os Buíças de Sirte?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quando a justiça é condenada

por Pedro Correia, em 20.10.11

 

O Estado português tem vindo a ser condenado por sucessivos entraves à liberdade de expressão, o que devia envergonhar os tribunais nacionais. Nos últimos dias foram conhecidas duas novas sentenças condenatórias: o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem contestou as decisões da magistratura portuguesa em dois processos judiciais de alegado abuso da liberdade de expressão. António José Laranjeira fora considerado culpado de crime de violação do segredo de justiça e de difamação pelo Tribunal de Leiria ao denunciar em 2000, no semanário Notícias de Leiria, um caso de abuso sexual de uma paciente por um médico ex-autarca. José Manuel Mestre também fora condenado, por suposta difamação a Jorge Nuno Pinto da Costa, pelo Tribunal Criminal do Porto. Em causa estava uma pergunta que o jornalista da SIC fez ao secretário-geral da UEFA, em 1996, questionando o facto de o presidente do FCP, na altura também presidente da Liga de Clubes, se sentar no banco de suplentes da sua equipa, à frente do árbitro, de quem era 'patrão' por inerência.

Crime - disseram os juízes portugueses, confirmando uma visão redutora da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa. O tribunal europeu pensa de maneira diferente. E actua em conformidade, invertendo a jurisprudência portuguesa neste domínio ao contrariar sistematicamente os absurdos acórdãos condenatórios produzidos em território nacional.

Nas análises periódicas dos prós e contras da nossa integração europeia este aspecto costuma ser omitido. Mas é um dos mais importantes: fazer a nossa justiça acertar enfim o passo com a melhor tradição humanista em matéria de direitos fundamentais. Único problema: são os contribuintes a pagar os erros dos juízes que conduzem à condenação do Estado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Indignação

por Pedro Correia, em 16.10.11

 

Vários noticiários televisivos e radiofónicos revelaram-nos ontem a existência de manifestações de indignados "em todo o mundo". Isso seria, sem dúvida, uma boa notícia para o mundo. Acontece, porém, que a notícia não é verdadeira. Na China - o país mais populoso do planeta - não houve manifestações de indignados. Nem na Coreia do Norte. Nem no Vietname. Nem em Cuba. Nem no Zimbábue "socialista" do tiranossauro Mugabe. Nem na Guiné Equatorial. Nem no Iémene. Nem na Síria. Nem na Argélia. Nem na Bielorrússia, onde reina a última ditadura da Europa. Nem no Irão dos aiatolás. Nem sequer em Angola.

As generalizações apressadas costumam ser fontes de equívocos. Convém não nos deixarmos iludir: em grande parte do mundo contemporâneo o direito de manifestação continua a ser uma miragem. Seria bom, aliás, que os indignados de cá começassem por se lembrar disso. Solidarizando-se expressamente com os indignados de lá - aqueles que não podem sair à rua em protesto contra os respectivos governos porque se sujeitam a ser presos, torturados e até mortos.

Nada deve suscitar maior indignação que isto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Isto é, Ana: em 2015 as mulheres sauditas poderão votar, se os maridos deixarem, nos candidatos que os maridos escolherem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Confundir democracia com ditadura

por Pedro Correia, em 24.05.11

 

Do alto da sua senilidade, Fidel Castro pergunta se a NATO também tenciona "bombardear Espanha" para travar manifestações de rua. Confundindo, desde logo, legítimos protestos em democracia com levantamentos populares contra uma ditadura.

Que Castro, a cuja família pertence o nada invejável troféu correspondente à mais longa ditadura do hemisfério ocidental, confunda democracia com despotismo é algo que não deve admirar ninguém.

O problema, como sempre sucede nestas coisas, são os discípulos. Tantos deles mais papistas que o papa. Reparem neste texto do Renato Teixeira. Mete tudo no mesmo saco: a luta contra tiranias e festivos acampamentos de rua em capitais democráticas. Desvirtuando, de caminho, o significado de uma canção que deixou rasto como símbolo de resistência à feroz ditadura militar brasileira - e também ao regime salazarista.

É intolerável identificar a Tunísia do deposto Ben-Ali, a praça Tahrir e os opositores a Assad na Síria com protestos em cidades europeias como Atenas, Madrid e Londres. O Renato Teixeira sabe muito bem que é uma profunda desonestidade intelectual confundir aqueles que ousam erguer-se em revolta contra sistemas ditatoriais com os que reclamam contra as naturais imperfeições da democracia. Os primeiros correm o risco de ir parar anos a fio aos cárceres, sofrerem torturas ou até perderem a vida. Os segundos só correm o risco de uma constipação se cair uma chuvada mais forte.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Frases das Conferências do Estoril

por Pedro Correia, em 08.05.11

Howard Dean:

«Tenho idade suficiente para me lembrar como eram o Portugal de Salazar e a Espanha de Franco há 40 anos. Não há comparação possível com os países que são agora.»

«Nos EUA os jovens, quando não encontram emprego, criam o seu próprio emprego. Mas temos uma rede de segurança social menos forte do que a europeia. Na Europa, pelo contrário, existe uma rede de segurança tão forte que por vezes estrangula a inovação.»

«O capitalismo é o sistema mais extraordinário inventado pelos seres humanos para maximizar a produtividade. Até os chineses estão de acordo, pois têm um capitalismo de Estado. O maior perigo do capitalismo são os capitalistas.»

Nouriel Roubini:

«O programa de austeridade em Portugal será doloroso mas é necessário.»

«Um dos maiores problemas dos países periféricos [da União Europeia] é a falta de reformas estruturais, que estão a decorrer de forma muito lenta.»

«A zona euro é uma experiência importante, a nível mundial. Mas não podemos enfiar a cabeça na areia: é fundamental haver crescimento económico. O essencial é saber se conseguiremos restaurar o crescimento em Portugal, na Grécia e na Irlanda. Caso contrário a situação na Europa tornar-se-á insustentável.»

Larry King:

«Nunca senti que aquilo que fazia [jornalismo] era trabalho. Para mim sempre foi algo muito melhor do que trabalho.»

«Não consegui encontrar a plena paz interior. Não conheço ninguém que a tenha conseguido.»

«O mundo é surpreendente. Eu não consigo fazer previsões. Por isso é que quero viver para sempre: quero saber o que vai acontecer.»

Francis Fukuyama:

«Uma das grandes armadilhas dos novos processos democráticos [no mundo árabe] é a corrupção. Não há nada que mine mais a sua legitimidade.»

«Portugal, em 1974, recebeu muito apoio dos sociais-democratas e dos democratas-cristãos europeus, o que se revelou decisivo para o sucesso da transição democrática.»

«Grande parte dos jovens licenciados que saem de Harvard vão para Wall Street. Não vão para a medicina, para a advocacia, para a indústria transformadora... Há má distribuição dos recursos humanos nos EUA.»

 

Dominique de Villepin:

«A austeridade, em si mesma, não é a única resposta. Não podemos ter austeridade sem crescimento económico.»

«Temos de lembrar à Alemanha que não há uma solução boa para a Europa que seja apenas boa para um só país.»

«Alguém se sente europeu olhando para as instituições europeias?»

Mohamed ElBaradei:

«O Egipto é hoje uma panela de pressão. Como resultado da repressão, a sociedade está muito fragmentada. Há muitas tendências a apontar para muitos caminhos. A coesão social é inexistente.»

«As pessoas na Tunísia apressaram-se a adoptar o lema de Obama: 'Yes, we can'. Depois os egípcios pensaram: se os tunisinos conseguem, nós também vão conseguir.»

«Personalidades como Henry Kissinger e George Shultz, que estiveram no olho do furacão durante a Guerra Fria, defendem hoje um mundo sem armas nucleares. Porque corremos o risco da autodestruição.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os valores acima dos interesses

por Pedro Correia, em 07.05.11

 

A Líbia constitui "o pior pesadelo" dos dias que correm. A opinião, sem rodeios de qualquer espécie, foi ontem expressa por Mohamed ElBaradei nas Conferências do Estoril, que encerraram esta segunda edição com chave de ouro ao darem o palco ao ex-director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, Prémio Nobel da Paz de 2005. Durante cerca de hora e meia, que pareceu pouco a quem assistia no Centro de Congressos do Estoril, o candidato à próxima eleição presidencial no Egipto defendeu uma intervenção mais activa da comunidade internacional para impedir a continuação dos massacres da população civil às ordens dos esbirros de Muammar Kadhafi, o ditador que permanece no poder desde Setembro de 1969, cego e surdo às aspirações de liberdade dos líbios.

Voz autorizada na defesa dos direitos humanos, participante activo na revolução de Fevereiro que levou à queda do regime despótico de Hosni Mubarak no Cairo, ElBaradei foi claro: "Não podemos aceitar que os ditadores massacrem os seus povos. Gostaria de ver uma intervenção internacional mais robusta, mais activa na Líbia." Na sua perspectiva, as relações internacionais contemporâneas são indissociáveis do respeito permanente da dignidade humana. "Temos de agir como mebros da mesma família global. A Líbia é um grande teste. Temos de espalhar esta mensagem: não continuaremos quedos e mudos, não assistiremos impávidos ao massacre de civis."

'A natureza das revoluções no Magrebe e no Médio Oriente' foi o tema abordado nesta excelente conferência, acompanhada com atenção por uma vasta plateia, em que se integravam muitos jovens. Baradei afirmou que o mundo "pode e deve ajudar" as populações do mundo islâmico que lutam pela liberdade - contribuindo para o "desenvolvimento económico, a coesão social e a promoção dos direitos humanos" em países como o Egipto, onde os militares estão com "demasiada pressa" em devolver o poder aos civis. Na sua perspectiva, a elaboração de uma nova Constituição devia ser o primeiro passo para fundar um regime democrático no Cairo - de preferência com um artigo basilar inspirado na primeira norma da lei fundamental da Alemanha: "A dignidade humana é inviolável."

Esta foi a grande mensagem que deixou no Estoril: "Não podemos pôr os interesses antes dos valores." Uma mensagem que contraria os cultores da realpolitik, sempre prontos a estabelecer relações cordiais com os piores tiranos contemporâneos. "Os EUA e a Europa apoiavam as ditaduras [na Tunísia e no Egipto] recorrendo ao argumento da estabilidade. No segundo dia das revoltas populares, Hillary Clinton chegou a dizer que o governo de Mubarak era estável. Como pode um regime que governa durante 30 anos com lei marcial ser um modelo de estabilidade? Nunca há estabilidade quando os governos não são livremente eleitos pelo povo."

Estive entre a assistência que o aplaudiu com entusiasmo ao fim da tarde de ontem. Gosto de ouvir um Nobel da Paz falar assim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os inimigos da liberdade

por Pedro Correia, em 05.05.11

         

 

O que há de comum entre Robert Mugabe, Hu Jintao, Mahmoud Ahmadinejad, Raúl Castro e Kim Jong-il? São todos inimigos da liberdade de imprensa. A lista completa, agora divulgada pelos Repórteres Sem Fronteiras, inclui também organizações criminosas, como a Mafia e a ETA. Vale a pena consultá-la aqui. Uma lista com 38 nomes - menos dois do que em 2010 devido à queda dos ditadores do Egipto e da Tunísia, duas das melhores notícias do ano.

Com lugar cativo na lista figura um ditador que ainda não caiu - o sírio Bachar al-Assad, responsável por 632 mortes e pelo menos três mil detenções desde que começaram os protestos populares contra o regime de Damasco, a 15 de Março. E também o ditador líbio, Muammar Kadhafi, que persiste em bombardear Misrata, cidade-mártir, surdo aos apelos à demissão feitos até por antigos aliados como o primeiro-ministro turco Recep Erdogan, agora estupefacto por ver que o tirano líbio condena o seu próprio povo a "sangue, lágrimas e opressão".

Autoria e outros dados (tags, etc)

O dóberman do Ocidente no Magrebe

por Pedro Correia, em 02.03.11

 

Enquanto escrevo, ouço o ainda ditador da Líbia discursar em directo a propósito do 34º aniversário do seu proclamado regime de "poder popular". Menciona dezenas de vezes a palavra "povo" - o mais pervertido termo vindo da boca de qualquer tirano logo a seguir a "liberdade". Escuto-o na BBC falando para umas dezenas de pessoas arrebanhadas para o efeito, algumas das quais o interrompem de quando em quando, em gestos devidamente coreografados, com gritos de "líder eterno" e demais palavras de ordem que já ouvimos serem proclamadas por todas as multidões, grandes ou pequenas, em louvor de todos os ditadores em todos os quadrantes. Muammar Kadhafi, aparentando ser magnânimo, afirma que desde 1977 não tem nenhum cargo institucional da Líbia, onde todo o poder reside no "povo" e não pode, portanto, renunciar a posto algum.

Escuto isto enquanto vou reflectindo sobre a estranha alquimia do poder político que enebria e cega tantos dos seus detentores, incapazes de renunciarem a ele quando todas as evidências deveriam levá-los a proceder na direcção contrária. Penso no admirável exemplo de Winston Churchill, derrotado nas urnas pelo eleitorado britânico em Julho de 1945, dois meses após ter levado o Reino Unido à vitória na mais inclemente de todas as guerras. Conhecido o desaire eleitoral, limitou-se a comentar: "Fui sumariamente despedido pelo eleitorado britânico da futura condução da coisa pública." E abandonou Downing Street para escrever os seus livros e pintar as suas aguarelas.

Penso no que Ignacio Camacho, talvez o melhor dos colunistas da imprensa espanhola, escreveu há dias no ABC sobre o mesmo indivíduo que há largos minutos vai perorando no ecrã que mantenho ligado: «El tipo que puso la bomba que mató a 260 personas en un avión que volaba sobre Lockerbie cumplió tan solo diez años mal contados de cárcel: Gran Bretaña lo devolvió el ano pasado a su país, Libia, por compasivas "razones hamanitarias". El hombre que ordenó el atentado, el coronel Muammar El Gadafi, no sólo no cumplió pena alguna sino que recibió durante anos atenciones preferentes de de los grandes líderes europeos, que lo agasaharon con reiteración, le pasaron la mano por la espalda y se rieron mucho con él agradecidos porque les vendía petróleo, les compraba armamento y contenia a los integristas islámicos plantado com su jaima como un dóberman en el patio de atrás del Magreb.»

«Neste país quem manda é o povo», insiste o "dóberman do pátio das traseiras do Magrebe" a quem a ONU chegou a confiar a presidência da sua Comissão de Direitos Humanos. O mesmo que em 2005 mandou matar o escritor Daif Gazal, que figurava na primeira linha dos que reclamavam liberdade. Antes de morrer, este opositor foi barbaramente torturado: cortaram-lhe os dedos para que não pudesse voltar a escrever.

Durante anos, o Ocidente perdoou todos os crimes ao carrasco de Daif Gazal. Há ainda hoje quem o defenda, alegando que o seu regime "laico" é o melhor antídoto contra o "fundamentalismo islâmico". Concluo como Ignacio Camacho: «La complacencia con Gadafi ha sido tan obscena, obsequiosa y evidente que no deja resquicio al disimulo.»

Por isso o tirano permanece impune no momento em que escrevo. Falta pouco para cair, mas cada dia em que se prolongar no poder é mais um dia de sofrimento para os líbios. E de vergonha para o mundo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vemos, ouvimos e lemos

por Pedro Correia, em 21.02.11

Retrato minucioso da ditadura de Kadhafi: «A repressão da sociedade civil, sob o controlo do Governo, continua a ser norma na Líbia, com escassos progressos feitos no capítulo dos direitos humanos em 2010.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os jagunços do ditador líbio

por Pedro Correia, em 20.02.11

 

Financiou o terrorismo internacional. Sob o seu mandato, pelo menos 250 presos políticos "desapareceram" misteriosamente. Os partidos são rigorosamente proibidos no país. A tristemente célebre Lei 71 pune a "dissidência", em casos extremos, com a pena de morte. Agora o ditador há mais tempo em funções no planeta não hesita em virar as armas contra o seu próprio povo para se perpetuar no poder: a tentativa de esmagamento do movimento pró-democracia na Líbia já ali provocou 233 mortos, segundo o Observatório de Direitos Humanos. Muammar Kadhafi, que procura censurar toda a informação, tem no entanto direito a assento oficial na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. Não é preciso mais nada para se avaliar como é urgente a reforma das instituições internacionais e para se perceber a que ponto chegou o descrédito da ONU, que alguns sonham ver como sede de um futuro governo mundial.

Portugal, que em Dezembro de 2007 o recebeu com honras de estadista na lamentável cimeira dos ditadores realizada em Lisboa, mantém um envergonhado e vergonhoso silêncio sobre o massacre de cidadãos líbios às mãos dos jagunços de Kadhafi, como já muito bem o Rui Rocha sublinhou aqui. Um silêncio que não pode prolongar-se. Ser membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas não pode servir só para os habituais rodriguinhos de propaganda interna.

 

Adenda das 00.38: actualizei o número de mortos - de 173 para 233. A fonte é a mesma.

Autoria e outros dados (tags, etc)

11 de Fevereiro de 2011

por Pedro Correia, em 12.02.11

  

«There are very few moments in our lives where we have the privilege to witness history taking place. This is one of those moments. This is one of those times. The people of Egypt have spoken, their voices have been heard, and Egypt will never be the same.

By stepping down, President Mubarak responded to the Egyptian people's hunger for change. But this is not the end of Egypt's transition. It's a beginning. I'm sure there will be difficult days ahead, and many questions remain unanswered. But I am confident that the people of Egypt can find the answers, and do so peacefully, constructively, and in the spirit of unity that has defined these last few weeks. For Egyptians have made it clear that nothing less than genuine democracy will carry the day

Barack Obama, esta noite, reagindo à queda de Mubarak

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mirar o Cairo e ver o Apocalipse

por Pedro Correia, em 10.02.11

 

 

Depois de José Pacheco Pereira, também Vasco Graça Moura se debruça, angustiado, sobre os perigos do fundamentalismo islâmico num texto de pendor apocalíptico em que não há uma só linha de congratulação pela queda de Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egipto - ditadores que perfaziam 53 anos somados de mandato, com o requinte suplementar, no caso egípcio, de que já estava praticamente assegurada a sucessão para um dos rebentos do cleptocrata, travestindo a república em monarquia, em jeito de regresso aos tempos faraónicos do rei Faruk.

Bom estilista do idioma, Graça Moura compõe o seu texto no DN em jeito de valsa lenta que vai acelerando e crescendo de emoção à medida que os parágrafos se sucedem.

 

Primeiro parágrafo: «O mundo ocidental deveria olhar com grande apreensão as perturbações consecutivas que ali [Tunísia e Egipto] estão a acontecer e ameaçam alastrar rapidamente aos restantes países islâmicos do Médio Oriente e do Norte de África.»

Segundo parágrafo: «Está na cara que [as coisas] vão correr mal, mesmo muito mal.»

Quarto parágrafo: «O rastilho do fundamentalismo islâmico alastrará imparavelmente pelos caminhos da Al-Qaeda a todo o mundo árabe, ainda por cima com o risco de também acabar por envolver a Turquia.»

Quinto parágrafo: «O Ocidente não está já em condições de se defender, por falta de valores éticos e cívicos que foi dissipando em nome de uma permissividade politicamente correcta e desastrosa.»

 

Custa-me entender três coisas.

Primeira: que um democrata não se congratule calorosamente, em termos inequívocos, com a queda de um ditador.

Segunda: que seja sempre invocado o exemplo do Irão de 1979 como uma espécie de garantia prévia de que os movimentos pró-democracia no mundo islâmico estão condenados a ser mal sucedidos. Que eu saiba, a Indonésia também é um país islâmico - é aliás o maior país islâmico do globo - e transitou com sucesso da ditadura para a democracia no final da década de 90.

Terceira e última: que não se perceba que todos estes persistentes receios são afinal a prova mais evidente de que as ditaduras foram incapazes de travar o passo à ameaça fundamentalista. E como poderiam ter sido, designadamente no Egipto, sob o mando despótico e decrépito de Mubarak?

Lamento, sinceramente, que Graça Moura não tivesse espaço, tempo ou paciência para acrescentar um parágrafo ao seu texto. Um parágrafo em que aludisse à corrupção, à pobreza, às desigualdades, à repressão, às eleições fraudulentas, à censura aos meios de informação, à falta de liberdades fundamentais no Egipto. Por um simples motivo: este quadro confrangedor é que constitui o maior caldo de cultura do extremismo islâmico. Não perceber isto é não perceber o fundamental.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O "vazio" depois de Mubarak

por Pedro Correia, em 09.02.11

 

 

Da esquerda à direita, não faltam por aí certos opinion makers apostados em transmitir à plebe a noção de que a conquista de direitos fundamentais no Egipto é matéria de somenos, devendo moldar-se a critérios de natureza geoestratégica ou ao medo perante a possibilidade de vir aí "algo pior" do que Hosni Mubarak. Para o efeito, agita-se a todo o momento o cenário da revolução islâmica de Khomeini para demonizar as manifestações populares que estão a varrer parte do mundo islâmico. Confundindo deliberadamente o Irão de 1979 com o Cairo de 2011.

Estas considerações desembocam no puro relativismo político: procuram submeter a instauração de estados de direito a critérios culturais ou geográficos. Como se certos povos ou determinadas regiões não merecessem ascender à democracia.

Entre os comentadores a que me refiro destaca-se José Pacheco Pereira, mais bem informado que a maioria dos restantes mas tão preconceituoso como eles. Basta reparar numa prosa muito preocupada que publicou na última edição da revista Sábado. Passo a transcrevê-la com a devida vénia:

 

«No Egipto, tudo pode ainda vir a correr bem, sem Mubarak, e com mais democracia, mas o que se está a passar é ainda demasiado confuso para se começar a bater palmas. Na verdade, o Egipto foi a pátria ideológica da Al-Qaeda, e a organização que individualmente mais moldou o fundamentalismo islâmico é a Irmandade Muçulmana, que, sabe-se, não teve até agora papel fundamental nos protestos. Mas o grupo existe, tem força e uma longa história de perseguições por parte de Nasser, Sadat e Mubarak, e representa uma presença activa contra o secularismo e a modernização da sociedade egípcia.

A queda de Mubarak significa o fim de uma ditadura, mas também tira do poder um militar que sempre foi um travão à influência fundamentalista. Para haver democracia no Egipto não basta derrubar Mubarak, é preciso impedir que, no vazio do poder, ascenda a Irmandade Muçulmana.»

 

É assombrosa, esta noção de que à eternização de um ditador no poder deverá seguir-se o vazio político. Imagine-se agora o que anotaria um observador norte-americano da mesma escola de pensamento de Pacheco Pereira escrevendo sobre Portugal no dia 28 de Abril de 1974 (três dias após a Revolução dos Cravos e no auge da Guerra Fria, portanto), adaptando apenas ligeiramente as suas palavras actuais à realidade portuguesa daquela época (os sublinhados, naturalmente, são da minha responsabilidade):

 

«Em Portugal, tudo pode ainda vir a correr bem, sem Caetano, e com mais democracia, mas o que se está a passar é ainda demasiado confuso para se começar a bater palmas. Na verdade, Portugal foi a pátria de diversos movimentos revolucionários, e a organização que individualmente mais moldou esses movimentos é o Partido Comunista Português, que, sabe-se, não teve até agora papel fundamental nos protestos. Mas o grupo existe, tem força e uma longa história de perseguições por parte de Salazar e Caetano, e representa uma presença activa contra a democracia e a liberalização da sociedade portuguesa

A queda de Caetano significa o fim de uma ditadura, mas também tira do poder um político que sempre foi um travão à influência comunista. Para haver democracia em Portugal não basta derrubar Caetano, é preciso impedir que, no vazio do poder, ascenda o Partido Comunista

 

Por outras palavras: podemos supor sempre o pior para justificar o injustificável. Também houve uma época em que não faltava quem garantisse que Portugal precisava do seu Mubarak para conter a expansão do comunismo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quando a tortura permanece impune

por Pedro Correia, em 06.02.11

A tortura é um problema endémico no Egipto de Hosni Mubarak. Esta é uma das conclusões de um relatório de 95 páginas do Observatório de Direitos Humanos. Com um título significativo: 'Work on Him Until He Confesses': Impunity for Torture in Egipt.

Uma leitura que recomendo em particular àquelas almas mais sensíveis que agora se mostram tão preocupadas com a "pressão das ruas" e o destino do Egipto pró-Mubarak.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nítido nulo

por Pedro Correia, em 06.02.11

Nunca vi tantos democratas na bloga em defesa tão denodada de um ditador, sugerindo que depois só pode vir o caos. Alguns, talvez por mero acaso, são os mesmos que elogiam Israel por ser "a única democracia do Médio Oriente".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um teste decisivo a Obama

por Pedro Correia, em 03.02.11

 

 

Já não é possível o Ocidente continuar indiferente perante o que está a ocorrer no Egipto. A teimosia de um só homem em permanecer agarrado ao poder despótico que conserva desde 1981 ameaça mergulhar o país num banho de sangue. Tivemos a primeira amostra disso há poucas horas, quando bandos de arruaceiros claramente incentivados pelo agonizante regime de Hosni Mubarak carregaram contra manifestantes ordeiros e pacíficos que há vários dias aí se concentravam reivindicando direitos fundamentais: liberdade de expressão, liberdade de voto, liberdade de imprensa.

No conforto ocidental, onde há muito estes direitos estão adquiridos, continua a haver quem agite o papão do extremismo islâmico para negar aos egípcios aquilo de que nenhum de nós prescindiria a pretexto algum. São os mesmos que alertaram contra os riscos do "marxismo" numa América Latina livre dos tiranetes de caserna, os mesmos que alertaram contra o "caos" em que se transformaria a Europa submetida ao império soviético quando a democracia ali vigorasse, os mesmos que lamentaram a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã em nome da sacrossanta realpolitik, os mesmos que ainda hoje choram a queda de Ferdinand Marcos nas Filipinas e elogiaram a "firmeza" da clique chinesa que esmagou os estudantes de Tiananmen.

Este é um momento crucial no mandato de Barack Obama. Um momento em que terá de decidir se apoia sem ambiguidades o movimento pró-democracia no Egipto, sem escutar os estrategos que lhe recomendam "prudência", ou se prefere manter-se equidistante no conflito insanável entre o ditador e o seu povo. Enquanto escrevo estas linhas escuto mais uma Cassandra doméstica alertar a plebe para os riscos do "perigo islâmico". Esquecendo que o Xá e a cegueira dos seus apoiantes de longa data em Washington foram o ninho que permitiu ao extremismo de Khomeini chocar o ovo da serpente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um ditador é um ditador

por Pedro Correia, em 02.02.11

«Os manifestantes do Cairo e de Tunes enviam uma mensagem à escola diplomática 'realista': é preciso chamar ditador a um ditador, sempre e bem alto.»

Editorial do Le Monde

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tiananmen nunca mais

por Pedro Correia, em 01.02.11

 

 

Ouço e leio alguns cínicos de turno, à esquerda e à direita, recomendando palavras de precaução contra as imagens impressionantes que nos vão chegando do Cairo e repetem as de há duas semanas na Tunísia. No momento em que escrevo estas linhas, mais de um milhão de pessoas afluíram já à Praça de Libertação, no coração da capital egípcia, para reclamarem aquilo a que todos os povos de todas as latitudes deviam ter direito: liberdade. Sem adereços, sem adjectivos. A simples, pura, antiga e sempre desejável liberdade - palavra tantas vezes pervertida quando vem da boca de políticos que fazem tudo para a espezinhar. Políticos como Hosni Mubarak, um dos tiranos há mais tempo em funções no continente africano.  

"As pessoas deixaram de ter medo", diz uma jovem, algures na multidão, à reportagem da BBC. Algo impensável ainda há poucos dias no mais populoso dos países árabes. Como era impensável também, para os defensores da "estabilidade" a todo o preço, que a ditadura de Ben Ali ruísse como um castelo de cartas poucas semanas após um jovem desesperado se ter imolado pelo fogo. Chamava-se Mohamed Bouazizi. Mal podia imaginar que aquelas trágicas labaredas que lhe custaram a vida iriam desencadear um incêndio sem precedentes por todo o mundo árabe.

Ontem à noite, também na BBC, um ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Jordânia advertia: "Se aconteceu na Tunísia, pode acontecer em qualquer outro país." A crise económica, particularmente dura entre os jovens, transformou drasticamente a relação entre estado e sociedade nos países árabes, submetidos durante décadas a regimes assentes na repressão e na corrupção - um cocktail só tornado possível, em muitos casos, graças à generosa ajuda ocidental: só no ano passado, Mubarak recebeu 1300 milhões de dólares em ajuda militar dos Estados Unidos. 

 

 

Chegou-se a um ponto sem retorno, o que parece apavorar alguns "pragmáticos" de serviço, receosos do extremismo islâmico e de outros vírus que poderão contaminar o Egipto - onde vive um terço de toda a população árabe - à boleia dos ventos da liberdade. Conheço bem estes argumentos: já os escutei em 1989 e 1990, quando o império soviético ruía. Muitos preferiam o mundo arrumadinho em dois blocos imóveis para poupar o planeta a "novos conflitos". Falavam do lado de cá, gozando da liberdade que não queriam conceder aos do outro lado - como se os direitos humanos não devessem ter expressão universal. Foram os mesmos que, pelo mesmíssimo motivo, mal contiveram expressões de alívio quando viram o exército chinês reprimir ferozmente manifestantes pacíficos na Praça Tiananmen. O mundo ficava mais "previsível", menos "perigoso".

Não perceberam nada então, tal como não querem perceber nada agora: é hoje impossível delimitar fronteiras geo-estratégicas à expansão dos direitos humanos. Nem travar o espírito refomista contra os regimes que esmagam as liberdades. A ditadura teocrática iraniana certamente acompanha com a máxima apreensão o que está a suceder no Cairo. Porque, nestes dias em que as manifestações são convocadas através da Internet, em Teerão pode acontecer o mesmo a qualquer altura. Como já sucedeu em Junho de 2009. E as imagens que hoje chegam do Cairo são capazes de contagiar vários outros países - Líbia, Argélia, Marrocos, Jordânia, Síria, Iémene, Omã e Arábia Saudita.

Os militares egípcios já garantiram que não virarão as armas contra o povo. A gigantesca manifestação que neste momento ocorre funciona, até por isso, como um genuíno plebiscito à liberdade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Discriminados e perseguidos

por Pedro Correia, em 02.01.11

"O Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo 2010, apresentado pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, revela que, em todo o mundo, o número de cristãos perseguidos é de 200 milhões. Outros 150 milhões são discriminados pela sua religião. A fé cristã é a mais difundida, mas também a mais perseguida. Segundo esta fonte, que analisa a situação de 194 países, aqueles onde se verificam as maiores violações à liberdade religiosa são a Arábia Saudita, Bangladesh, Egipto, Índia, China, Uzbequistão, Eritreia, Nigéria, Vietname, Iémen e Coreia do Norte."

Frei Bento Domingues, no Público de hoje

Autoria e outros dados (tags, etc)

Em Teerão: luzes, câmara... condenação

por Rui Rocha, em 23.12.10

Jafar Panhai (na foto) é um cineasta iraniano. Foi preso pelo regime de Teerão em Fevereiro deste ano. Sob a acusação de rodar um filme sem autorização (sic) e de incitar os protestos oposicionistas com a sua obra. Há um par de dias foi conhecida a decisão de condenação a 6 anos de prisão e de 20 anos de interdição de qualquer actividade cinematográfica. Na mesma altura, foi igualmente condenado Mohammad Rassoulof que com ele colaborava.

O cineasta, já premiado em Cannes e Veneza tem, para além de talento indiscutível, hábitos nada recomendáveis em certas paragens onde o iluminismo das sombras é de tal forma intenso que ofusca: o de pensar pela sua cabeça e o de exteriorizar o que pensa. Na verdade, Jafar Panhai apoiou o candidato da oposição ao regime nas últimas eleições presidenciais e manifestou publicamente a sua posição política. Estes são alguns dos argumentos da defesa que apresentou ao Tribunal:

 - "I do not comprehend the charge of obscenity directed at the classics of film history, nor do I understand the crime I am accused of,"

- "If these charges are true, you are putting not only us on trial but the socially conscious, humanistic and artistic Iranian cinema as well,"

- "My case is a perfect example of being punished before committing a crime. You are putting me on trial for making a film that, at the time of our arrest, was only 30 percent shot,".

A condenação de Panahi por Delito de Opinião confirma, se necessário fosse, a obscenidade de um regime incapaz de conviver com os princípios mínimos da decência. Para além disso, priva-nos do contacto com uma sociedade iraniana que, para lá da cortina de ferro do fundamentalismo teocrático, se apresentava em alguns filmes de Panahi com modos de vida simples que deixavam imagens de simpatia  e de gente comum. Isto porque os filmes de Panahi sempre foram retratos sociológicos e nunca questionaram de forma directa o poder político ou a religião. Trata-se, pois, de mais uma cena de barbárie rodada em Teerão. Perante factos como este, todas as tentativas de branquear o regime que os encena são filmes. Da pior qualidade.

* o texto integral da defesa de Panahi pode encontrar-se aqui (em inglês).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mesmo na noite mais triste

por Pedro Correia, em 17.12.10

 

(via Cacarecos da Marta)

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D