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O mundo ao contrário

por João André, em 19.09.16

Só uma perspectiva rápida ao conceito de «ir buscar dinheiro a quem o está a acumular» e fazendo a ressalva inicial (que vai ser ignorada) que estou contra isso: um dos países que os liberais da nossa praça mais admiram, a Holanda já o faz.

 

Na Holanda, o Estado taxa as poupanças dos seus contribuintes privados. Na declaração de impostos, feita online através do sistema de DigiD. Quando a declaração é preenchida online, os montantes existentes em todas as contas na Holanda já estão previamente preenchidos e apenas é necessário confirmá-los.

 

Em relação a taxar as poupanças, o valor a taxar é o montante total que existe nas diversas contas acima de um determinado patamar (que anda por volta dos 21.000 €). Abaixo desse valor o valor não é taxável. Acima dele, o montante extra é passível de ser taxado (por exemplo, quem tenha 25.000 € pagaria imposto sobre 4.000 €). O imposto parte do princípio que o valor tem um retorno anual de 4% e esse retorno fictício é taxável a 30%. Ou seja, se o retorno for inferior (e habitualmente é-o em contas poupança simples), o contribuinte pode pagar mais do que recebe de juros. Aliás, sei por experiência própria que é possível receber de juros apenas uns 30-40% do valor a pagar.

 

Este caso é apenas aplicável aos montantes em investimentos financeiros e, no caso do imobiliário, apenas a segundas habitações. Também se aplica a valores a partir dos 21.000 € (ou o dobro no caso de casais), valor que parece elevado. No entanto, se um indivíduo (ou casal) da classe média não quiser (ou tiver oportunidade) de comprar casa, é relativamente simples atingir tais níveis de poupanças na Holanda.

 

O caso português é diferente, claro está, mas quando alguma direita aponta o dedo a alguma esquerda em questões de sigilo bancário ou de taxar as contas bancárias, talvez fosse bom colocar os olhos num país que, em certos aspectos, foi mais longe no seu socialismo que se poderia esperar. E depois é elogiado pelo seu liberalismo.

 

Conclusão: não gosto de taxas às poupanças (outra coisa é taxar os juros ou retornos de investimento) e considero-o um ataque ao direito de cada um em fazer o que quiser com o dinheiro que ganhou e sobre o qual já pagou impostos. Por outro lado, é irónico ver que alguma esquerda portuguesa parece estar com vontade de seguir as melhores práticas de países ditos "liberais". É o mundo ao contrário.

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A direita burra

por Pedro Correia, em 28.07.16

A direita burra critica Marcelo Rebelo de Sousa.

Não o critica só agora. Já o criticava antes de ele anunciar a candidatura à Presidência, criticou-o durante a campanha, criticou-o mal foi eleito.

Sem perceber que Marcelo é um dos mais experientes políticos portugueses: sabe mais a dormir do que toda a direita burra acordada.

Sem perceber que Marcelo segue uma espécie de manual. Por ele próprio elaborado mas obedecendo a um padrão clássico. Onde cada peça encaixa muito bem na outra.

Como, de resto, o futuro demonstrará.

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As tácticas da política portuguesa

por Diogo Noivo, em 13.06.16

PassosEmigracao.png

CostaEmigracao.png

 

Usei aqui um tweet de Catarina Martins para expor a descarada dualidade de critérios do Bloco de Esquerda e do PCP. Houve quem visse nesse post uma táctica difamatória. E eu expliquei-me. Hoje roubo ao 31 da Armada estas duas declarações, a primeira feita por Pedro Passos Coelho e a outra por António Costa. Separam-nas 5 anos. O que disseram BE e PCP sobre as declarações proferidas por Passos Coelho e como avaliam agora as declarações do actual Primeiro-Ministro? Há, sem dúvida, muita táctica nisto. Mas duvido que seja de direita.

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Tácticas à esquerda

por Diogo Noivo, em 11.06.16

O João André, meu colega de blogue, publicou aqui no DELITO um texto no qual se insurge contra um post por mim publicado. Diz o João que o post em causa não passa de uma mera “boca”. Tem toda a razão. É, de facto, uma “boca”. No que a isto diz respeito, pela minha parte, não há polémica.

 

No entanto, a dita “boca” não foi movida por qualquer ânimo de difamação, ao contrário do que é sugerido pelo João André. O meu único propósito foi o de obter concordância linguística. Passo a explicar. Desde a sua fundação, uma parte substancial da actuação política do Bloco de Esquerda incide precisamente em provocações “simples e destituídas de reflexão”, cujo único intuito é o de achincalhar os seus adversários. Recordemo-nos, por exemplo, do célebre debate televisivo onde Francisco Louçã disse que Paulo Portas não podia falar de aborto porque não era pai. E, para não desfiar um rosário de boutades inenarráveis do mesmo teor, fiquemo-nos pelo caso recente do cartaz “Jesus também tinha dois pais”. Isto para não me alongar sobre aquilo que é a despesa política quotidiana do Bloco, onde as palavras “fascista” e “ladrão” são usadas de forma acrítica – aqui sim, João, “acrítica” – para expressar indignação. Mas enfim, pelo que posso perceber, para o João André nada disto tem um móbil difamatório ou é insultuoso. Só a minha “boca” é que foge ao tom.

 

O meu post é, como referi, uma “boca”. Como essa é a linguagem do Bloco, pareceu-me adequado. Contudo, ao contrário da praxis bloquista, não fui ofensivo. Quis tão simplesmente pôr em evidência a gritante e descarada dualidade de critérios do BE. Quando há um partido de esquerda no Governo (sobretudo com o Bloco a apoiar esse Executivo), os princípios são uns. Quando há um Governo de direita, já são outros. Faz lembrar um pequeno conto do Rubem Fonseca, autor descrito – e bem – pelo nosso Pedro Correia como um “dos maiores prosadores da língua portuguesa”. Nesse micro conto, escreve o magnífico autor brasileiro que “o que é nosso é sempre bom, pode ser um peido ou uma xícara de café; o que é dos outros é sempre ruim, pode ser um peido ou uma xícara de café”. E assim anda o Bloco. Há anos. E é tudo uma questão de propriedade privada.

 

Vamos então ao radicalismo que, segundo o João André, é um termo desadequado para caracterizar o BE e o PCP. Portanto, quem tem as suas origens e matriz política fundadas no marxismo-leninismo ou numa amálgama de trotskistas e maoistas é moderado. Fico mais descansado, João. A conversa podia ficar por aqui, mas não resisto a um momento chave no argumento do meu colega de blogue: PCP e BE não são radicais porque têm “representação parlamentar e [porque] seguem as regras da democracia.” Ou seja, porque elegeram deputados, porque respeitam os resultados eleitorais e porque respeitam os procedimentos institucionais do Estado não são radicais. Certo. Depreendo, portanto, que a Frente Nacional francesa, a AfD alemã e a Aurora Dourada grega não são formações políticas radicais. Lamento, João, mas temo que as nossas concepções de “radicalismo” e de “democracia” sejam irreconciliáveis. Creio que isto responde à insinuação pedestre a respeito da minha opinião sobre Donald Trump. Se não responder, João, lê este texto – tem “bocas”, desculpa – e vê as ligações que nele constam.

 

Por último, entendo que, segundo o João André, um blogue é um espaço onde apenas podem existir opiniões “altamente justificadas e fundamentadas”. Discordo, pois considero que há espaço para tudo. Porém, se só existe espaço para teses “altamente justificadas e fundamentadas”, há aqui no DELITO inúmeros posts dignos do teu repúdio, caro João. Mas escolheste o meu. Fico grato e tomo boa nota.

 

Termino manifestando uma certa ternura pelo intróito do João André. Escreve o meu colega de blogue que é de esquerda, mas que tem “sempre respeito por quem tem opiniões diferentes” das suas. Mutatis mutandis, é igual à advertência encalacrada atenção-que-eu-tenho-um-amigo-gay!, dita por quem se prepara para soltar uma qualquer alarvidade homofóbica.

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Tácticas à direita

por João André, em 10.06.16

Quem me lê sabe perfeitamente que eu sou de esquerda. Devido às minhas posições e ao contraste com os da maioria dos autores do blogue, muitos confundem o meu posicionamento político. Tento esclarecer o máximo possível as minhas posições, mas na realidade não me incomoda muito quando alguém confunde as minhas coordenadas.

 

Esta introdução, apesar de eu a considerar vã, é feita para poder esclarecer que, qualquer que seja a minha posição política, tenho sempre respeito por quem tem opiniões diferentes das minhas. Estou há muito afastado da política e não tenho interesse em a ela regressar, pelo que as minhas opiniões são minhas e, se coincidem ou não com as de outros, isso é sempre bem-vindo, desde que isso suceda por reflexões reais.

 

Comentários como o do Diogo Noivo aqui abaixo não mais é que uma "boca" gratuita, sem reflexão e com a intenção de difamar um partido. Nesses intuitos falha por várias razões. O primeiro é simples: sem definir o que é ser-se "esquerda radical", Diogo Noivo apenas pretende que se associe o Bloco de Esquerda ao epíteto de "radical" para desacreditar o partido. Se fizesse um exercício de reflexão honesto sobre o assunto, chegaria à conclusão que por muito que as posições sejam diferentes, "radical" não é algo que possa atribuir-se ao BE, a não ser que se tenha uma visão muito restrita do termo.

 

Por outro lado, tenta difamar ao associar o BE ao PCP. Dado que se trata de dois partidos com representação parlamentar e que seguem as regras da democracia portuguesa, a associação pode querer confundir os dois partidos mas para qualquer pessoa objectiva acaba por falhar o alvo - por muito que se copiassem, PCP e BE não seriam "radicais".

 

Por último, falha quando associa os dois partidos por causa de um comentário. Suponho que pela mesma lógica também associasse Donald Trump ao PCP, já que tem andado a atacar os grandes interesses económicos nos seus comentários populistas e, esses sim, violentamente radicais (sim, violentamente, é intencional e literal).

 

É um comportamento típico de todos os partidos, à esquerda e à direita, de se tornarem curiosamente míopes em relação às falhas dos próprios partidos (ou partidos próximos) quando no governo e de atacarem os outros partidos de forma cada vez mais forte e gratuita quando na oposição. No entanto, se a esquerda tem a tendência de ignorar os dados e se cingir cegamente à sua ideologia quando ataca um governo à direita, a direita opta por usar ataques cujo único propósito é conotar os governos de esquerda com algo de negativo.

 

Neste caso, o Diogo Noivo tenta meter dois partidos num único saco e dizer que são radicais, tentando assim, de uma única penada despachar os dois sem ter uma argumentação que se veja. O mesmo quando se fala na "geringonça", um termo que pegou e que é um disparate pegado, como qualquer democrata o perceberá (mas que escapará para sempre à cabecinha de Passos Coelho).

 

Mais abaixo o Luís, noutro tom, parece escolher os meios que lê ao escrever este post. Eu, que leio menos jornais que ele, já tinha percebido que a palavra "crise" andava a desaparecer dos jornais há um ano. Discordo em muito com o Luís sobre as razões e os supostos méritos do govrno de Passos Coelho, mas é um facto que o governo PS herdou um situação mais desafogada que a de há quatro anos. É por isso natural que o tom mude. E mesmo que não mudasse, que a crise estivesse apenas como antes, a simples fatiga leva os jornais a dar menos atenção. É algo que ele, como jornalista, saberá perfeitamente, mas terá esquecido no post. Por outro lado, não deixo de ler criticas constantes ao governo do PS, inclusivamente vindas da esquerda. Talvez eu tenha apenas sorte.

 

Seja como for, e seja lá quem for que esteja envolvido, irrita-me imenso quando a direita tenta lençar nuvens de poeira sobre o desempenho de um governo, olimpicamente ignorando factos quando lhe convém (hábito à esquerda e à direita) e, pior, tentando difamação por associação. Melhor seria ler posts como este da Ana, altamente justificado e fundamentado e o qual subscrevo.

 

Há muito por onde se pegar para qualquer ataque aos governos, é escusado andar a inventar nuvens negras.

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Situação política

por Tiago Mota Saraiva, em 06.12.15

Foi particularmente interessante assistir aos debates parlamentares que decorreram durante a semana.
A maioria que sustentou o actual governo demonstra estar tranquila com a sua diversidade. Um governo do PS, uma maioria de esquerda à qual só faltará juntar um presidente de esquerda - mas esta questão fica para outros escritos.
A posição conjunta entre PS e BE, PCP e PEV é um bom ponto de partida que parece ser simpático para todos. Ainda assim, muitos desafios terão pela frente. Ao contrário do que a trupe de comentadores que se repete nas TV's, demasiado ocupados a papaguear questões financeiras, o grande engulho para a maioria parlamentar não será o orçamento ou o défice mas, muito provavelmente, as eleições autárquicas - caso não sejam preparadas em conjunto (que não quer dizer em coligação) e com tempo.
Ao invés, PSD e CDS, estão em processo de auto-flagelação. A tese da ilegitimidade e o ataque de carácter a Costa tem eco na população. O problema é que não se consegue resistir quatro anos a dizê-lo. O pico máximo de popularidade dessa tese ocorreu no dia em que foi declarada pela primeira vez. A partir daí só perde simpatizantes. Mais dia menos dia o PSD deverá ir para Congresso. Fora do poder, com um Passos Coelho radicalmente contra o governo de Costa e, muito provavelmente, com algumas das suas medidas sob investigação (política e judicial) surgirá, certamente, um candidato que procure retomar as pontes ao centro porque isso significa mais votos e muitos lugares na administração pública, mesmo com um governo do PS. Para já o CDS parece-me imprevisível. Veremos se os próximos tempos ajudarão a clarificar-se.

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Horror: o PSD "perdeu o centro"

por Pedro Correia, em 23.11.15

Andavam alguns por aí a clamar contra a suposta "direitização" do PSD, que abandonara o centro e se entregara nos braços pérfidos do CDS. O mentor desta tese, Pacheco Pereira, logo a viu repetida, serão após serão, por uma infindável legião de pequenos e médios comentadores nas pantalhas.

É uma excelente tese. Que só tem um problema: a falta de adesão à realidade.

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Alarmismos e revanchismos

por João André, em 10.11.15

Quando faço os meus ataques a posições adversárias tento apresentar tanto quanto possível a minha argumentação. Quando não tenho factos concretos, apenas uma sucessão de "impressões" também o direi. Não sou perfeito (longe disso) nem infalível (honra apenas do excelentíssimo presidente). São apenas regras gerais que tento seguir.

 

Gosto por isso de ler quem faz o mesmo. Quem apresenta factos e argumentos e os defende como tal. Gosto por isso de ler determinados autores à esquerda e à direita, os quais apresentam a sua visão dos factos. Posições ideológicas opostas não invalidam esta postura. pelo contrário, clarificam-na.

 

Nas discussões sobre a formação do próximo governo temos visto pouco disso. À esquerda infelizmente sobra o triunfalismo e revanchismo, especialmente do lado da esquerda "mais à esquerda" (a direita chama isso de "extrema esquerda", eu prefiro guardar o epíteto de "extrema" para quem não aceita o jogo democrático). À direita tem-se vincado o alarmismo, uma forma de tentar assustar as massas numa acção de "avec la gauche, le déluge".

 

O Delito de Opinião é um espaço de debate político essencialmente virado para a direita. Nada contra isso. Serei dos poucos que assumem um posicionamento de esquerda ou centro-esquerda dentro do blogue. Ajudo à diversidade e, honra seja feita aos autores que já cá estavam e me acolheram, ao debate de pontos de vista diferentes. Não sou o melhor representante da esquerda, longe disso (nem sequer no blogue), mas vou fazendo o meu melhor seguindo as linhas directrizes que apontei acima.

 

Por isso mesmo não posso deixar de apontar uma falha aqui dentro desta casa neste debate. Por parte de alguns, o debate tem sido extremado com poucas considerações para com os argumentos de outros. Em alguns casos a argumentação pode ser dura, mas existe. Não me reverei nem um grama nas posições, mas consigo compreender os pontos de vista. Noutros casos tenho lido opiniões extremistas e alarmistas, quase a apontar que com um governo PS-PCP-BE Portugal será uma nova Cuba, travestidas de humor (na realidade inexistente, porque forçado).

 

Não é uma tendência necessariamente antiga, mas é algo que espero que volte a desaparecer. O debate esquerda-direita é político e é na política que deve ficar. Tem a ver com objectivos e formas de lá chegar. Tem a ver com valores. Alarmismos pertencem a manifestações e folhas de Excel a (pobres) economistas. Os argumentos devem prevalecer sempre com a perspectiva dos objectivos. A esquerda e a direita poderão não concordar em mais nada, mas se concordarem em tentar compreender os argumentos de ambos os lados a democracia será fortalecida.

 

Não posso com este (ou outros posts) fazer nada pelo debate nacional, mas internamente no blogue e com os comentadores posso fazer esse pedido. Não esqueçamos que os argumentos dos outros lados merecem ser ouvidos. No fundo, a democracia é só isto. O respeito entre maioria e minoria.

 

PS - um mau exemplo de jornalismo de opinião é dado sempre que leio os artigos de João Miguel Tavares no Público. Há dias publicou uma verborreia sobre como a esquerda só quer fazer política e a direita compreende que números são números. Alguém lhe explique para que serve a política, por favor. Hoje leio-lhe a comparação entre António Costa e Salazar. Esta é tão nojenta que não mereceria ser publicada sem levar uma grande ensaboadela de um editor. Melhor serviço tem feito José Vítor Malheiros que, apesar de resvalar ocasionalmente para o triunfalismo, apresenta argumentações. Quem me dera ler no Público de alguém à direita algo de semelhante.

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Penso rápido (75)

por Pedro Correia, em 19.10.15

Há quem persista em debater ideias com a subtileza de um sargento na parada, recorrendo a todo o tempo ao estribilho "esquerda, direita".

Estas etiquetas explicam muito pouco ou quase nada da política contemporânea.

 

Vejamos: o Syriza é da "esquerda" assumida e consequente? E o partido Gregos Independentes é da "direita" sem disfarces? Então o que faz uma força da "verdadeira esquerda" coligada com a "verdadeira direita" no executivo de Atenas? Isso mesmo: ambas são forças radicais nas respectivas expressões políticas. E porque será Marine Le Pen, líder da Frente Nacional francesa, uma fervorosa apoiante do Syriza? Pelo mesmo motivo.

Esta é a clivagem política do século XXI - entre forças radicais e forças moderadas. Dizer "direita", sem mais nada, é juntar no mesmo saco Passos Coelho e o Pinto Coelho do PNR. Dizer "esquerda", sem mais nada, é juntar no mesmo saco António Costa e o Garcia Pereira do MRPP. Isto explica e descreve e justifica alguma coisa? Evidentemente que não.

 

Há hoje fracturas de matriz diferente no xadrez europeu a respeito dos mais diversos temas: gestão das finanças públicas, reestruturação da dívida, crise dos refugiados, política de alianças geoestratégicas, soberania identitária versus federalismo. Temas que distinguem moderados, por um lado, e radicais pelo outro. Daí o PNR e o MRPP, em sintonia evidente, reivindicarem a saída de Portugal da NATO e exigirem o regresso imediato ao escudo.

Existem muito mais semelhanças do que diferenças entre os extremos do que entre o centro e os extremos.

 

Quem não perceber isto e continuar a usar as muletas retóricas e os ultrapassados conceitos do século XIX não percebe nada de essencial do mundo onde vivemos.

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Um post à direita

por Rui Rocha, em 02.03.15

Quando Passos estiver preso, sempre quero ver o que dirão os da esquerda quando políticos da área do PSD forem visitá-lo a Évora.

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 16.06.14

Os intelectuais de direita estão a sair do armário, de Paulo Moura.

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Reféns de Marcelo

por Pedro Correia, em 22.05.14

 

Marcelo Rebelo de Sousa é uma personalidade sem paralelo na política portuguesa. A única neste momento capaz de alargar as margens do centro-direita, dispensando intermediários para comunicar com outras áreas políticas sem nunca perder de vista o ponto de partida.

Os teóricos da actual maioria que sonham com Durão Barroso, Rui Rio e até Assunção Esteves (pasme-se!) como possíveis candidatos presidenciais em 2016 por recearem o carácter sempre imprevisível e irreverente do mais conhecido professor de Direito do País estão a ver o filme todo ao contrário.

Qualquer projecto presidencial que exclua Marcelo é um troféu antecipado de vitória para a esquerda na próxima corrida a Belém.

Pode Paulo Rangel ter ficado de "sorriso amarelo" ao ouvir Marcelo dizer num jantar de apoio à Aliança Popular que "tenciona" (atenção ao verbo) votar nesta coligação pela consideração que lhe merece Jean-Claude Juncker, candidato do Partido Popular Europeu à presidência da Comissão Europeia, omitindo os nomes dos portugueses.

Pode Nuno Melo ter ficado "branco e inerte" ao tê-lo ouvido elogiar Freitas do Amaral, como relata a Ana Catarina Santos neste saborosíssimo texto publicado no seu blogue.

Podem as sumidades dos aparelhos inventar as alternativas que quiserem na desesperada recusa de enxergarem o óbvio. É inútil: PSD e CDS estão reféns de Marcelo.

E quem não perceber isto não percebe nada.

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Elementar matemática política

por Pedro Correia, em 14.04.14

coligações que subtraem em vez de somar.

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Dois deputados que deixaram saudades

por Pedro Correia, em 25.04.13

                                     

 

É curioso: o 25 de Abril fez-se para fundar uma democracia representativa em Portugal, sufragada pelo voto universal e livre dos cidadãos. Mas raras vezes, ano após ano, vejo homenagear esse órgão concreto da democracia - com o qual tantos sonharam durante gerações - que é a Assembleia da República, símbolo supremo do nosso regime constitucional.

Espero que este lapso seja corrigido e que em 25 de Abril de 2014, quando a Revolução dos Cravos comemorar quatro décadas, possam ser homenageados 40 deputados, de diferentes partidos. Deputados que nunca foram ministros nem secretários de Estado nem presidentes de câmara nem presidentes de governos regionais: apenas deputados. Seria uma excelente forma de assinalar a instituição máxima da democracia portuguesa.

Fui repórter parlamentar do Diário de Notícias durante cinco anos e, nessa qualidade, tive o privilégio de conhecer competentíssimos deputados em todas as bancadas. E hoje, a pretexto do 25 de Abril, quero distinguir dois desses parlamentares que conheci pessoalmente: Maria José Nogueira Pinto e João Amaral. Ela claramente de direita, ele inequivocamente de esquerda.

Em legislaturas marcadas por fortes combates políticos, nenhum dos dois alguma vez cessou de tomar partido, envolvendo-se convictamente no confronto de ideias que é função cimeira do órgão parlamentar: sabia-se ao que vinham, por que vinham, que causas subscreviam e que bandeiras ideológicas sustentavam. Mas também sempre vi neles capacidade para analisar os argumentos contrários, com elegância e lealdade institucional, sem nunca deixarem as clivagens partidárias contaminarem as saudáveis relações de amizade que souberam travar com adversários políticos.

Porque a democracia também é isto: saber escutar os outros, saber conviver com quem não pensa como nós.

Lembro-me deles com frequência. Lembrei-me hoje deles também a propósito das sábias palavras que Giorgio Napolitano proferiu segunda-feira passada, em Roma, ao tomar posse no segundo mandato como Presidente italiano. "O facto de se estar a difundir uma espécie de horror a todas as hipóteses de compromisso, aliança, mediações e convergência de forças políticas é um sinal de regressão", declarou neste notável discurso Napolitano, de longe o político mais respeitado da turbulenta e caótica Itália, que festeja a 25 de Abril o seu dia nacional.

Palavras que certamente encontram eco entre os italianos.

Palavras que também deviam suscitar meditação entre nós. Palavras que a conservadora Maria José Nogueira Pinto e o comunista João Amaral seguramente entenderiam - desde logo porque sempre souberam pôr os interesses do País acima de tacticismos políticos.

Quis o destino, tantas vezes cruel, que já não se encontrem fisicamente entre nós. Mas o exemplo de ambos perdura, como símbolo de convicções fortes que - precisamente por isso - são capazes de servir de cimento para edificar pontes. E talvez nunca tenhamos precisado tanto dessas pontes como agora.

 

Publicado também aqui

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O que é que a forma como nos rimos diz de nós?

Vários estudos provam que o riso espelha a nossa personalidade, como uma impressão digital. Os mais extrovertidos, sociáveis e emocionais tendem a ter um riso mais desinibido, enquanto os mais introvertidos e individualistas são mais discretos. Por exemplo, piadas sobre loiras ou muitos outros estereótipos têm tipicamente uma punchline (conclusão) inesperada. Quem gosta deste tipo de piadas tem geralmente uma ideologia de direita, prefere a simplicidade e vê o mundo a preto e branco. São pessoas que detestam o caos e fazem tudo para que a ordem impere.

E quem não gosta deste tipo de humor?

Por exemplo, se for fã dos Monty Python ou de Gary Larson, estamos perante uma pessoa que prefere o nonsense. Gostar de piadas absurdas implica que se aceite que a realidade é distorcida. Os fãs deste tipo de humor são, normalmente, pessoas mais de esquerda, de mente aberta. Terminei recentemente um estudo sobre preferências musicais e humor e concluí que quem gosta dos Monty Python prefere música clássica e jazz. Os amantes de piadas sobre loiras optam normalmente por música pop mais simplista e previsível. Ou seja, as piadas acabam por ser uma resposta às exigências das pessoas. E isto estende-se à música, pintura e literatura.

Da entrevista de Ana Catarina André a Willibald Ruch, psicólogo austríaco, «um dos maiores especialistas do mundo em riso», na Sábado desta semana.

 

A ver se percebi: como o pessoal de direita gosta de ordem e de simplicidade, aprecia anedotas de louras, enquanto o de esquerda, mais dado à mudança, prefere os Monty Python (és de esquerda, Rui Rocha, e eu também); por outro lado, quem gosta de Monty Python também gosta de jazz e de clássica enquanto quem gosta de anedotas de louras prefere música pop/rock. Ou seja: direita = organização e simplicidade = pop/rock; esquerda = rebeldia = jazz e clássica. É capaz de ter lógica. Afinal, a velha expressão Sex, Drugs and Wagner's Meistersingers sempre foi conotada com a esquerda. Resta-me apenas uma dúvida: de que quadrante político será uma pessoa que (e isto mesmo aceitando que a Sábado lhe possa ter simplificado as respostas), pesquisa temas tão subtis, fluidos, passíveis de mudanças e de evoluções, como gostos e sentido de humor e depois encaixa as respostas em categorias simplistas e organizadinhas?

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Afinal havia outra - a terceira

por José António Abreu, em 24.05.12

Discutir se foi a direita ou a esquerda que nos meteu na crise é ignorar a hipótese que até na designação tem a resposta: a famosa «terceira via». Com nuances, quase todos os países europeus a aplicaram e até antes do termo existir. A ideia era apostar na iniciativa privada, na globalização e na desregulamentação do sector financeiro (a parte que faz a esquerda acusar a direita e acrescentar o agora infame adjectivo «liberal»), de modo a gerar crescimento passível de ser aproveitado para aumentar o papel do Estado (a parte que faz a direita acusar a esquerda e negar que qualquer liberalismo tenha existido). No fundo, era usar o capitalismo (num reconhecimento de que a liberdade que lhe está subjacente permite crescimentos superiores) para fazer socialismo (no sentido de garantir igualdade de rendimentos entre sectores da sociedade). Em tese, a ideia tinha – e tem – méritos. Então por que não resultou?

1. Desde logo, por alguns factores difíceis de controlar (mas não de prever), como as pressões sobre o emprego (e respectivo «valor») causadas pela globalização e a evolução demográfica que desequilibrou os sistemas de segurança social.

2. Depois porque os governos não resistiram a privilegiar facções nem – e uma coisa está ligada à outra – a investir (ou estimular o investimento) nas áreas de retorno rápido mas efémero (obras públicas, construção civil em geral) e nas de grande retorno mediático mas benefícios concretos muito duvidosos dentro de prazos razoáveis (gestão de resíduos, energias renováveis, formação profissional, Magalhães e afins). Isto terá a ver com o prazer que os governantes sentem em surgir associados a «grandes» projectos (de que o «povo» também gosta), mas também com questões de corrupção, um fenómeno inevitável quando o Estado atribui um papel forte à iniciativa privada mas se mantém indispensável para quase tudo (foi certamente na construção civil, na gestão de resíduos, nas renováveis e no fornecimento de serviços e equipamentos ao próprio Estado que partidos e governantes, a nível central, regional ou local, obtiveram as maiores fatias de rendimentos «paralelos» – e se disserem que eu escrevi isto, eu nego).

3. Também porque, na área financeira, os governos, deslumbrados com aquilo que o crédito barato lhes permitia fazer, com a simpatia dos banqueiros e com o modo como os cidadãos andavam felizes com os juros baixos, fizeram exactamente o contrário e demitiram-se das suas responsabilidades na regulação do sistema financeiro (mas, no fundo, isto não foi um desvio ao plano: constituía parte dele, uma vez que, desde o início, era o sistema financeiro que suportava o «crescimento»).

4. Ainda porque os governos não perceberam que o sistema, cada vez menos assente nos rendimentos ligados à produção de bens e serviços com capacidade para fazer entrar o dinheiro que as vantagens da globalização – produtos baratos, facilidade de circulação de capitais – fazia sair, estava rapidamente a tornar-se insustentável e continuaram, através de impostos, taxas e quejandos, a desviar recursos da parte da economia verdadeiramente produtiva para a menos produtiva. (Com atraso, alguns até perceberam: o problema é que, por essa altura, o sector público e as prestações sociais pesavam demasiado no jogo político-eleitoral para permitir a imposição de restrições significativas).

5. Finalmente porque, quando se tornou claro que a situação era explosiva, os governos escolheram fugir para a frente.

Terceira via. O melhor e o pior da direita e da esquerda num só pacote. Como é óbvio, sendo o maniqueísmo a mais confortável das posições, iremos continuar a culpar apenas a direita ou apenas a esquerda, consoante as preferências individuais.

 

Adenda: Mas, por favor, não lhe chamem liberalismo. Liberalismo é outra coisa.

 

(Imagem roubada aqui.

No fundo, é mais ao contrário:

cada qual tenta empurrar a responsabilidade.)

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A direita amiga de Sócrates

por Pedro Correia, em 25.06.11

 

Vai fazer um ano, publiquei no DELITO um texto intitulado "A direita amiga de Sócrates". Agora, talvez por voltar a estar muito calor, apeteceu-me trazer esse texto novamente aqui. O tempo passa, mas há cenários que se repetem. A tal ponto que por vezes nem é preciso alterar uma vírgula.

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Lusíadas

por Laura Ramos, em 22.01.11

Com o dedo na ferida:

 

«Porque os candidatos não prestam; porque a campanha foi pobre, caricata e falha de ideias; porque o papel do Presidente é irrelevante; porque o regime tem os dias contados – embora se possa dizer que há anos que nos anunciam que o regime tem os dias contados; porque, enfim, qualquer pretexto serve para se exibir uma hipotética superioridade intelectual (...)

Mais do que ser detestado pela esquerda, Cavaco Silva é tolerado pela direita. Uma direita que sempre o viu como um intruso, que não lhe perdoa as origens, que se envergonha do seu "provincianismo" e da sua proverbial "falta de cultura".»

 

Constança Cunha e Sá

 

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A direita amiga de Sócrates

por Pedro Correia, em 05.07.10

 

A direita amiga de José Sócrates foi aquela que centrou a sua "oposição" ao Governo em ataques à personalidade e ao carácter do primeiro-ministro. Cometendo, com isso, dois erros simultâneos: facilitou a estratégia de vitimização, em que o chefe do Governo é perito, e confundiu o primeiro-ministro com o partido que o apoia, como se não houvesse mais PS para além de Sócrates.

Os resultados não tardaram a ficar à vista: Manuela Ferreira Leite, com o aplauso vibrante desta direitinha, ofereceu de bandeja ao Partido Socialista a vitória eleitoral nas legislativas de 27 de Setembro. A direita amiga de Sócrates, aquela que diz detestá-lo e depois faz tudo para que ele se perpetue no poder, ovacionou esta penosa caminhada do PSD para a derrota. Esta direita subscreveu as inumeráveis arengas sobre a "asfixia democrática" que desviavam as atenções dos portugueses do essencial - a crise económica - enquanto a líder social-democrata se desdobrava em elogios a Alberto João Jardim. Aplaudiu a exclusão de Pedro Passos Coelho das listas eleitorais enquanto acusava Sócrates de arrogância e autoritarismo, sem perceber que o comportamento da sua líder retirava qualquer autoridade moral a essas críticas. E centrou em Passos o seu ódio, com a mesma fúria vesga que usava nas inócuas invectivas ad hominem contra Sócrates, que sempre tiveram o condão de o tornar mais forte.

 

Nesses meses entre as legislativas e as primeiras sondagens que já apontam o PSD como claro vencedor e até à beira da maioria absoluta, a direita amiga de Sócrates investiu contra Passos Coelho na blogosfera. Houve quem lhe chamasse "boneco de Madame Tussaud", quem garantisse que não era mais do que "uma espécie de Sócrates". Houve mesmo quem, em tom quase épico, confessasse sentir mais respeito pelo ditador norte-coreano do que pelo novo líder social-democrata, eleito por 61% das bases do partido.

A mesma direitinha agora em silêncio perante as sondagens que avaliam positivamente Passos Coelho e antecipam uma vitória eleitoral do PSD. Entre Sócrates e Passos, esta direita prefere Sócrates. Os socialistas contarão com ela para novas investidas contra o lider laranja, tão cheias de bom senso e de bom gosto como as que ficaram para trás.

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Europeias (49)

por Pedro Correia, em 12.06.09

 

EU NÃO DIZIA?

 

Como aqui previ, ainda antes de as urnas terem fechado, não tardaram as análises preocupadas, designadamente em blogues que muito prezo, com o crescimento do voto da 'extrema-esquerda'. Leia-se, a título de exemplo, o que escrevem João Maria Porto, Tiago Moreira Ramalho, Filipe de Arede Nunes, Maria João Marques, Rodrigo Adão da Fonseca, Nuno Pombo e André Azevedo Alves.

Como se isso não dissesse praticamente tudo sobre a oposição de 'direita', quase inexistente em Portugal.

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Europeias (46)

por Pedro Correia, em 07.06.09

  

 

PREVISÃO

 

Nos próximos dias, não faltarão comentadores a lamentar o apoio dado pelos eleitores portugueses às forças de 'extrema-esquerda'. Como se isso não dissesse quase tudo sobre a oposição de direita, praticamente inexistente em Portugal.

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