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Comecei a trabalhar na redacção do semanário O Jornal, a tempo inteiro e com salário zero - estágio, chamavam-lhe eles - a 2 de Janeiro de 1983. Ainda não havia o capitalismo neo-liberal e não sei que mais, nem a crise dos mercados financeiros, nem o modo de vida do Sócrates, enfim, nada dessas coisas tenebrosas que vieram perverter o mundo e, segundo os entendidos, atrair as pessoas para a extrema-direita, a loucura e a morte. Certo é que, sem nenhum desses horrores no horizonte, já se praticavam os estágios gratuitos, mesmo em jornais de esquerda como, segundo as boas línguas, era o caso daquele.

Tive sorte: o jornal, então maioritariamente masculino, queria jovens do sexo feminino para mandar para a Assembleia da República. Explicaram-me os chefes que, sendo a maioria dos deputados do sexo masculino, convinha que fossem entrevistados por jornalistas do sexo oposto, com decotes generosos, para os levar a responder com maior sinceridade. O Rogério Rodrigues foi incumbido de me levar ao Parlamento para me apresentar as pessoas.

Não correu muito bem: assim que me viu, Almeida Santos fez-me uma festa na cabeça e pespegou-me dois beijos nas bochechas, antes que o Rogério tivesse tido tempo de explicar quem eu era. "Homem, vocês agora vão buscar jornalistas ao infantário?" - perguntou, embaraçado, Almeida Santos. Ofendida, retorqui que já tinha 20 anos. O então Ministro de Estado e dos Assuntos Parlamentares declarou: "Pois olhe, eu não lhe dava mais de 15". Assim terminou a minha promissora carreira de repórter parlamentar. Aproveito para prestar as minhas homenagens a Anabela Neves, minha colega de turma na universidade, e a Maria Flor Pedroso, que honraram e honram a difícil e delicada especialização do jornalismo parlamentar, em décadas de trabalho isento e exemplarmente rigoroso. Entraram para a profissão nessa época em que as redacções machas queriam meninas para impressionar os deputados, e sobreviveram magistralmente a essa sinuosa forma de assédio profissional.

 

A palavra assédio, pura e simplesmente, não existia. Quando o orientador de estágio que me fora designado no jornal começou a sussurrar-me que tinha de ir jantar com ele para garantirmos que eu conseguiria o emprego, valeu-me o apoio da Clara Pinto Correia, que entrara um ou dois anos antes para o jornal e tinha uma inteligentíssima capacidade de contra-ataque. Aconselhou-me a Clara a que marcasse o jantar na agenda de serviço do jornal, que estava colada na parede, no meio da redacção. De facto, essa boa acção teve o condão de anular de imediato o apetite do meu orientador. Pouco depois, consegui que me transferissem para a secção de cultura e passei a ser orientada pelo Fernando Dacosta, a quem devo lições essenciais sobre jornalismo, teatro, literatura e, sobretudo, dignidade humana.  

Ao fim de um ano e meio de estágio gratuito, o José Carlos Vasconcelos e o António Mega Ferreira, respectivamente director e chefe de redacção do JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, contrataram-me para a redacção deste jornal cultural, que passava então de quinzenal a semanal. Um belo dia, fui encarregada de entrevistar um escritor já em processo de consagração que, enquanto ia respondendo à entrevista, tentava meter-me as mãos em todas as partes do corpo (excepto, salvo erro, os tornozelos e os pés). Lembro-me de ter pensado de mim para comigo: "Respira fundo e faz de conta que estás numa daquelas comédias italianas desesperadamente ansiosas por parecerem picantes". O literato Don Juan extraira da minha cândida pessoa a confissão de que eu queria um dia escrever romances e, enquanto me dedilhava, dissertava sobre a superior facilidade de escrita que eu experimentaria se me deitasse com ele. Respondi-lhe que, mesmo que o talento se contagiasse sexualmente, preferiria escrever à minha maneira, e não à dele, o que o fez concluir, escandalizado: " Além de pespineta, você é uma arrogante".

Infelizmente, esses dois grandes defeitos não o fizeram desistir do assédio, antes pelo contrário, e o ordálio continuou por uns tempos, sem que eu me tivesse queixado a ninguém. Nem me ocorria. Nesses tempos considerávamos tais ataques como "normais". Preço a pagar pela ousadia de querermos afirmar-nos num mundo de homens. 

 

Hoje, sabemos identificar o assédio. Continuamos todavia a deixar que nos desmereçam. A aceitar que nos diminuam. A pactuar com o desmerecimento e a diminuição de outras mulheres. Sem sequer darmos por isso. 

- Ele a mim tratou-me sempre muito bem.

A frequência com que ouço esta frase, entre mulheres e contra mulheres, em situações de relações pessoais ou laborais, e o que ela representa de falta de solidariedade, cobardia, indiferença, obediência e auto-depreciação, leva-me a pensar que o pior assédio é o do medo. Invisível, inatacável, persistente, mantendo cada ovelhinha no seu lugar.

 

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