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Diário semifictício de insignificâncias (25)

por José António Abreu, em 26.04.17

Há momentos de inebriante clareza em que percebo que a minha vida dava um livro em vários volumes. Todos chatos.

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Diário semifictício de insignificâncias (24)

por José António Abreu, em 24.04.17

Continuo um leitor compulsivo de t-shirts. Devia parar. Um dia destes arranjo problemas. É quase impossível ler as frases mais compridas das t-shirts femininas (chegam a parecer volumes do Guerra e Paz) sem dar ideia de estar a obervar as mamas das utilizadoras.

Voltei a pensar nisto por causa de uma rapariga com quem me cruzei no passeio. Vestia uma t-shirt preta com as palavras Can't touch this. Em mais um sinal de que nasci há demasiado tempo, primeiro lembrei-me de MC Hammer. Quase me pus a cantarolar o tema. Só depois ponderei se a rapariga usaria a t-shirt em modo de desafio ligeiramente parvo, confiante na capacidade de atracção dos seus atributos, se em jeito de pedido quase desesperado de atenção. A verdade é que, sem aquela t-shirt, eu jamais pensaria em tocar-lhe (desculpa, OK?). Ainda assim, espero que o motivo fosse excesso de confiança. Fora dos campos da ciência, da economia e da política, há ilusões benignas.

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Diário semifictício de insignificâncias (23)

por José António Abreu, em 23.03.17

Assisto na televisão às reportagens sobre mais um atentado. Há corpos no chão, um herói improvável e inglório, a estupefacção do costume, não obstante a falta de novidade. Por entre cuidados de linguagem (a jornalista da CNN esforça-se por tentar saber se o que permite às autoridades falarem em terrorismo é a origem ou a religião do atacante sem usar termos como «árabe» ou «muçulmano»), reporta-se que o número de mortos e feridos é provisório. A informação permite manter aquela expectativa doentia em que se deseja simultaneamente o menor e o maior número possível. Pergunto-me o que diferenciará tragédias grandes de tragédias pequenas. O número de mortos? As circunstâncias? O nível de incongruência ou de crueldade? Mas talvez essa seja a forma errada de classificar as tragédias. Talvez seja mais exacto - e mais fácil - dividi-las em tragédias públicas e tragédias íntimas. As primeiras estão cheias das segundas, mas raramente lhes fazem jus: o espectáculo e a cacofonia (ainda que baseada nas melhores intenções) nunca o permitem.

Mudo para o Eurosport.

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Diário semifictício de insignificâncias (22)

por José António Abreu, em 08.12.16

Por um lado parece-me lógico, por outro paradoxal: não me lembro onde pus um cartão de memória.

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Diário semifictício de insignificâncias (21)

por José António Abreu, em 08.11.16

Os canais de séries estão a repetir episódios pela centésima vigésima oitava vez. Nos canais de notícias debate-se a polémica do momento - política ou futebolística, nem quero saber. Eu devia ir para a cama, mas não tenho vontade. Também não tenho vontade de ler, nem de ouvir música, nem de arrumar os livros e os filmes que se amontoam na mesa existente entre mim e o televisor, nem de fazer qualquer outra coisa de que me consiga agora lembrar - mas decididamente não tenho vontade de ir para a cama.

Em nenhum outro instante fica a inutilidade do ciclo da vida tão exposto como nos momentos de deitar e levantar. É, aliás, irónico: a maioria das pessoas detesta ir para a cama e depois detesta sair dela. É como se a vida fosse um trajecto no vazio, a velocidade constante, e cada momento de deitar e levantar exigisse vencer a inércia.

Um dia destes hei-de procurar confirmar na internet uma ideia antiga: a de que os portugueses se deitam mais tarde do que a maioria dos outros povos. Fazem-no tardíssimo, chateando os vizinhos não apenas com o ruído das vozes e da televisão, mas com pancadas repentinas e arrastares estranhos, parecendo ter decidido mudar os móveis de sítio às duas da manhã - noite após noite após noite. Desconfio que, para os portugueses, ir cedo para a cama (ou ir para a cama, tout court) equivale a desistir de esperar pelo instante em que a vida se alteraria indelevelmente para muito melhor e a reconhecer o falhanço de ter decorrido mais um dia em que ela permaneceu igual. Depois, claro, andam irritadiços e à base de café.

É tarde. Eu devia mesmo ir para a cama.

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Diário semifictício de insignificâncias (20)

por José António Abreu, em 24.10.16

  

Time's fun when you're having flies.

Velho adágio batraquiano.

 

Na escola secundária recusei dissecar uma rã. Quando a professora de Biologia fez o anúncio, protestei com tamanha veemência que ela admitiu que eu não necessitaria de participar - e depois acabou por desistir da ideia. Os meus colegas com tendências mais sanguinárias ficaram desiludidos mas eu encarei o desagrado deles com a impassividade dos batráquios - depois de pular para longe.

No domingo, em mais uma volta no Jardim Botânico do Porto, constatei que os sapos e as rãs já estão quase todos fora de vista, à espera do tempo frio. O Outono conferia ao jardim uma melancolia que me agrada mas, ainda assim, tenho de reconhecer: pelo menos até encontrar o espírito de Sophia de Mello Breyner (é muito mais provável que deambule por aquelas veredas, que conheceu em jovem, do que entre as paredes frias do Panteão), os batráquios são o que mais aprecio no local. (Também me é fácil identificar o que menos aprecio: o ruído do trânsito na VCI, mesmo ao lado). Gosto mais dos batráquios do que dos cactos, das tílias e do liquidâmbar centenário, o que não deixa de ser um bocadinho irónico porque, como o nome deixa entender, ali a ideia é destacar as plantas. Azar. Eu prefiro os sapos e as rãs que, com a tranquilidade de alentejanos particularmente zen, habitam os laguinhos cobertos por nenúfares.

A expressão dos sapos e das rãs é uma ode à calma e à paz de espírito. Observo a expressão facial (terão face?) de um sapo e, não obstante a existência de piadas como «o que irrita um sapo? Não encontrar uma mosca na sopa», sou incapaz de o imaginar caindo em histrionismos. Isto faz do Cocas dos Marretas uma incongruência pelo menos tão grande como ele ser do mesmo tamanho da porca com a qual mantém uma relação amorosa, mas encaixa perfeitamente nas rãs cépticas e irónicas de Aristófanes. Paul McCartney também lhes entendeu a maneira de ser em We All Stand Together (bóme, bóme), o velho êxito para crianças que dominou o Top Mais durante semanas a fio há um quarto de século. (Quantos anos viverão sapos e rãs? Tenho que pesquisar, depois de acabar este texto.) Ainda por cima, os sapos e as rãs comem moscas e eu detesto moscas. Até acredito que sejam gostosas (todas aquelas estruturas - cartilagens ou lá o que são - devem fazê-las saber a carapauzinhos fritos engolidos inteiros) mas, ainda assim, não as suporto. A avaliar pela beatífica fisionomia dos sapos, porém, devem ter propriedades extremamente calmantes. Um dia destes, quando me encontrar irritado, hei-de experimentar mastigar uma, em vez de beber um chá de camomila, comer um maracujá ou fechar os olhos, respirar fundo e pensar na Romy Schneider em La Piscine (sim, entrei na idade em que esse tipo de visões já é relaxante). Claro que também há pessoas que comem batráquios - les cons - mas prefiro não pensar nisso. E felizmente há muitas outras que, como eu, os apreciam por razões estéticas e filosóficas. Um exemplo: que outro motivo levaria alguém a chamar «Sapo» a um portal de internet? (A rapidez na captura? Bah, isso terá sido uma desculpa arranjada à pressa para disfarçar o que poderia parecer uma tara.) Um segundo exemplo: alguém abriria uma Frog Store apenas por ânsia de lucro?

(Raios partam. Quando comecei a escrever isto, tinha - ou, pelo menos, acho que tinha - uma forma inteligente para lhe colocar um ponto final. Entretanto pus-me a divagar e agora já não me lembro de qual era o plano. Vou tirar a tal dúvida. Pode ser que entretanto me regresse a inspiração ou seja lá o que for que me dá quando me ponho a escrever estas coisas.)

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Ora bem. No site All about frogs ponto org (há um ponto org sobre sapos!) diz-se que varia bastante mas o normal é viverem entre quatro e quinze anos. Mesmo considerando variações entre espécies, estranho uma amplitude tão grande. Parece-me improvável que um sapo que tenha vivido apenas quatro anos possa ter esticado o pernil - e neles a expressão faz todo o sentido - de morte natural. Se os estudos foram realizados em laboratório (o ponto org admite que os dados são de batráquios em cativeiro), é provável que muitos sapos e rãs tenham cometido suicídio, alarmados com os relatos de dissecações em salas de aula. O máximo, informa também o ponto org, anda pelos quarenta anos. Será a versão Manoel de Oliveira. E, a propósito - os pensamentos seriam como as cerejas se eu apreciasse cerejas -, Oliveira até tinha uma aparência calma, inteligente, ponderada, batraquiana. Sendo que batraquiana não é o mesmo que balzaquiana, obviamente. Isto, Manoel de Oliveira não era, e os batráquios também não são. Assim de repente, classificá-los-ia antes como woolfianos (de Virginia - a pessoa, não o estado): reflexivos, contemplativos, atraindo apenas aqueles que são capazes de ultrapassar as primeiras impressões e perseverar até atingirem um prazer subtil mas intenso. Digamos que as rãs são como mulheres excessivamente magras, com óculos de massa e postura desajeitada (bibliotecárias típicas, portanto), cuja beleza e fogo interior passam despercebidos num simples relance. Digamos que os sapos são como homens com nariz ligeiramente torto, cabelo desgrenhado e óculos (os óculos dão sempre jeito para estas imagens), que depois mostram elevados níveis de sensibilidade (para homens) e abdominais surpreendentemente bem definidos. No fim de contas, é a história do príncipe dentro do sapo. O beijo terá nascido com a Disney, os irmãos Grimm passaram ao papel a versão em que o sapo se transforma em príncipe ao ser atirado contra uma parede pela princesa (o temperamento feminino...) mas o conto é bastante mais antigo do que a empresa do tio Walt ou os manos alemães e, especialmente quando adicionado ao Aristófanes, revela bem que desde há séculos vários povos têm conseguido detectar o encanto dos batráquios (os franceses, por seu turno... oumpff!).

Resta-me uma dúvida e, não tendo arranjado melhor alternativa, penso que vou fechar com ela: nascido há 61 anos, como é que o Cocas ainda está vivo?

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Mais uma coisa, afinal: a Miss Piggy, essa sim, é um pouco balzaquiana.

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Diário semifictício de insignificâncias (19)

por José António Abreu, em 22.10.16

O homem foi no carro dele, eu segui-o no meu. Ainda dentro da povoação, um semáforo accionado pela velocidade passou a vermelho. Ele ignorou-o. Eu parei. Quando surgiu a luz verde, arranquei devagar. O homem esperava mais à frente. Era dos que aceleram nas rectas e travam demasiado nas curvas. Antes de chegarmos ao destino, ignorou mais dois semáforos. Despoletava a mudança mas não fazia caso. Eu parava. Ele encostava na recta seguinte.

Primeiro, fiquei irritado. Depois comecei a divertir-me. Perguntei-me se ele não teria consciência da acumulação de situações, perdendo a memória do sucedido num semáforo antes de atingir o seguinte (o que faria dele uma espécie de Dory, em À Procura de Nemo), ou se, depois do primeiro semáforo, achava agora que parar ou conduzir mais devagar representaria perder a face.  Podes armar-te em cumpridor das regras, pensaria, mas eu não vou mudar por tua causa.

Estacionámos lado a lado. Saímos dos carros e fingimos que nada acontecera.

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Diário semifictício de insignificâncias (18)

por José António Abreu, em 18.10.16

«Há que tempos...»

«Um quarto de século.»

«O que tens feito, desde a universidade?»

Digo-lhe. Não me alargo em explicações. Tenho sempre relutância em analisar o meu percurso de vida. Na verdade, e ainda que não consiga evitar fazê-lo, recordar o passado perturba-me. Com raríssimas excepções, circunstanciais e temporárias, recordar o próprio passado é analisar uma traição.

«Temos que manter o contacto.»

«Sim, claro.»

Mas sei que é improvável. E sinto alívio quando nos separamos.

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Diário semifictício de insignificâncias (17)

por José António Abreu, em 12.10.16

Olho para a banana. Comprei-a ontem e já está demasiado madura - mole, a pele de um amarelo denso, pintalgado de castanho.

É um fruto exasperante, a banana. Incomestível quando verde, abominável quando demasiado maduro, praticamente sem intervalo entre as duas condições. Um fruto com um período de comestibilidade absurdamente curto. Pode dar energia, ser fácil de digerir e ter carradas de potássio mas algo com um período de comestibilidade (fui confirmar; é uma palavra verdadeira) tão absurdamente curto nem deveria obter a classificação de comestível. A banana é pior do que um humano de há um par de séculos, obrigado a trabalhar e a casar aos doze, a procriar aos catorze, com os pés para a cova aos quarenta. Mas os humanos evoluíram - a um ritmo, aliás, que deixaria Darwin muito mais zonzo do que os balanços do Beagle alguma vez terão conseguido. Os cinquenta são os novos trinta (fico - iúpi! - com vinte e oito) e dentro em breve os setenta serão os novos cinquenta. Já as bananas permaneceram na mesma. (Recuso acreditar que há duzentos anos ainda fossem piores.)

Acho que defendo a manipulação genética no caso das bananas.

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Diário semifictício de insignificâncias (16)

por José António Abreu, em 29.09.16

Entro para executar a única operação que alguma vez levei a cabo num consultório de dentista: uma limpeza. (Sim, é verdade, nunca tive uma cárie e mal me recordo de ter dores de dentes, o que às vezes me deixa a ponderar se estarei a perder experiências fundamentais numa vida normal.) Saio do consultório com uma cárie que é uma sombra mal visível na radiografia, uma sugestão para encher as arestas de três dentes, outra para encher as zonas junto às gengivas de dois, mais um aviso quanto à necessidade de corrigir uma deformação causada pelo modo como cerro os dentes durante a noite. Para ser franco, saio porque fujo, depois de dizer ao médico que hei-de tratar do assunto no mesmo tom em que ele me disse boa tarde. Saio a pensar que ele até pode ter razão em tudo o resto mas que, quanto ao cerrar dos dentes, acontece mais durante o dia.

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Diário semifictício de insignificâncias (15)

por José António Abreu, em 27.09.16

Tenho de escrever sobre o início de um livro e o final de outro. Ando dois dias a pensar no assunto, depois encolho os ombros e tomo uma decisão. O livro com o início, comprado e lido durante a universidade, está a duzentos quilómetros, em casa dos meus pais (tem lógica: os pais são sempre o início). O outro encontra-se aqui, a cerca de dois metros. Quase ouço uma voz dizendo: O final está muito mais próximo do que o início.

Desde há uns tempos, não consigo evitar sentir que há uma força irónica e malévola que aproveita toda e qualquer oportunidade para reforçar o meu pessimismo.

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Diário semifictício de insignificâncias (14)

por José António Abreu, em 22.09.16

Parece que cá trabalha há anos mas só agora reparei nela. Como é possível?

Nem alta nem particularmente escultural, exsuda sexo. Tem uma pele que parece resultar do cruzamento entre um manequim de plástico (daqueles das montras) e uma mulher verdadeira. Uma pele que, à distância, parece tão lisa como uma bola de bilhar e reflectir a luz da mesma forma (vou resistir a introduzir aqui trocadilhos envolvendo tacadas). Usa calças justas e blusas finas que tombam a direito penduradas nas mamas (coisa estranha: o contorno do soutien surge de forma discreta através do tecido mas os mamilos parecem querer furá-lo). O cabelo é preto, a boca larga, as maçãs do rosto bem definidas. E depois há os olhos. De um castanho perfeitamente normal, são enormes e muito redondos.

Q. disse-me que ela emagreceu bastante nos últimos tempos. Estará aqui a explicação para não ter registado antes a sua existência. Ainda assim, a distracção envergonha-me. Interrogo-me como terá conseguido emagrecer e, mais importante, sair do processo de emagrecimento com uma pele tão lisa e com uma pose tão sexual. Não creio que uma banda gástrica tenha este efeito. Talvez um pacto com o diabo. Fausto com curvas. Um Dorian Gray feminino.

Mas os olhos, caramba. É como se estivesse constantemente a ver algo arrebatador. (Quão perturbante deve ser para os homens com quem trabalha; poucas coisas atraem mais um homem do que uma mulher bela, olhando-o fascinada). Ou então (imagino-lhe as ânsias, ao passar junto a montras de pastelarias) como se a fome lhos tivesse vindo paulatinamente a esbugalhar.

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Diário semifictício de insignificâncias (13)

por José António Abreu, em 19.09.16

Num episódio da segunda temporada da série Friends, uma mulher atraente (papel interpretado por - ele há coincidências - uma igualmente atraente Brooke Shields) interessa-se por Joey, tomando-o pela personagem do médico que ele desempenha numa série televisiva. (É obviamente pela possibilidade de exegeses tão profundas como esta - ele é um actor numa série televisiva dentro de uma série televisiva - que eu gosto de Friends, não pelo estilo de humor, relativamente standard.) Como a mulher é atraente (repito: igualzinha à Brooke Shields), Joey mantém a ilusão durante uns tempos e depois, perante a acumulação de problemas, despacha-a, confessando não ser o médico da TV mas o irmão gémeo deste, numa fascinante transliteração - ou qualquer coisa assim - do idioma típico de um determinado estilo de série televisiva para o interior de outro estilo de série televisiva.

Pensei em tudo isto (sim, até nas partes da exegese e da transliteração) na Feira do Livro, em frente ao stand da Tinta-da-China (fraquinho, sem os lançamentos mais recentes), quando um rapaz magro, de vinte e tal anos, usando óculos de lentes grossas e movendo-se de modo furtivo, respondeu em sobressalto a uma questão banal do funcionário: «Quer mesmo esse exemplar ou posso tirar outro daqui da prateleira?» E pensei nisto porque o rapaz me pareceu outra personagem de outra série televisiva: Silicon Valley, da HBO. Numa atitude similar à da mulher de Friends, estive quase a abordá-lo para lhe perguntar o que anda a fazer no Porto - e para lhe pedir o número de telefone de Monica, a adorável semi-nerd da série.

Um pouco mais a série sério, os nerds enternecem-me. Em parte, isto acontece porque terei sido um, numa versão que conjugava a década de 1980, a inexistência de computadores e uma cidade pequena do interior de Portugal (até me arrepiei). Aliás, provavelmente ainda sou, agora numa versão de meia idade, relação de amor-ódio com o smartphone e carradas de cepticismo. Porém, a ligação umbilical não explica tudo. Os nerds (os genuínos, não os imitadores de pacotillha que, por fenómeno de moda, adoptam o estilo de forma irónica - ide à merda mais a vossa presunção oca) são emanações puras de tudo o que faz dos humanos, humanos: predomínio da actividade cerebral sobre a actividade física, hiper-consciência de si mesmos, capacidade de sobreviver, de prosperar (não por acaso, a maioria dos multimilionários recentes são nerds), e, na maioria dos casos, de acasalar (admito que deve ser mais fácil depois de prosperar), não obstante as tremendas desvantagens físicas e comportamentais. Os nerds são o exacto oposto dos elementos das claques de futebol. Haverá algo digno de mais respeito?

Mas independentemente da opinião que se tenha deles (de nós), considerando que a ficção televisiva resulta quase sempre da destilação ao essencial - muitas vezes ao ponto da caricatura - de um amplo e até paradoxal conjunto de traços, é estranho encontrar na vida real exemplares tão aparentemente decalcados dela como aquele rapaz. Ao conseguir ser simultaneamente mais concreto e mais extravagante do que qualquer personagem ficcional, ele leva-me a pensar (por que diabos não vou antes tentar fazer flexões?) que não é verdade ser a realidade mais estranha do que a ficção. Por exemplo: na vida real, a forma como Joey resolve o seu problema dificilmente teria êxito. No limite, a realidade consegue ser tão estranha quanto a ficção, mas é muito mais tridimensional e interactiva (se eu falasse com o rapaz, provavelmente ele reagiria), para além de ter um potencial superior para gerar consequências efectivas (há poucas pessoas como a coitada da Brooke Shields). É isto que dá origem ao suplemento de estranheza.

Ou qualquer coisa assim.

O rapaz levou um exemplar (retirado da prateleira) de Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens. Fica mais uma vez demonstrado o elevado grau de inteligência dos nerds. Algo que eu já sabia - ainda que de forma instintiva - na década de 1980.

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Diário semifictício de insignificâncias (12)

por José António Abreu, em 14.09.16

Pausa para café. Invariavelmente, discute-se o tempo. As previsões, com destaque para o sempre crucial fim-de-semana, mas também as condições do momento, sujeitas a interpretações, gradações e comparações («ainda está sol mas já está mais frio», «o vento aumentou», «ontem de manhã estava nevoeiro mas hoje apanhei chuva na VCI»). No fundo, nada de novo; comentários normais, repetidos ao longo dos séculos, desde que se substitua «VCI» por «Via Ápia» ou por outra via mais apropriada. Arriscando uma nota de pomposidade (ninguém lê esta treta), diria mesmo que é natural: as condições climatéricas marcam o tempo e o tempo marca a vida.

Mas depois, claro, saca-se do aparelho responsável pelo que talvez seja a mais revolucionária evolução da mais tradicional das conversas desde que alguém olhou para o horizonte, lambeu a ponta do dedo, espetou-o no ar e disse: «Não há vento; o céu está cor-de-laranja; amanhã não chove.» O aparelho que enfiou um meteorologista no bolso (ou na mala) de cada pessoa. Que consegue fazer muitas sentirem-se meteorologistas.

Nenhuma discussão sobre o estado do tempo fica hoje completa sem se compararem as previsões de várias apps de smartphone.

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Diário semifictício de insignificâncias (11)

por José António Abreu, em 13.09.16

Por mais que leia e ouça acerca do assunto, por mais que tente variar, sinto sempre que estou a usar o método errado para escovar os dentes.

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Diário semifictício de insignificâncias (10)

por José António Abreu, em 08.09.16

Caminhava pelo passeio, esforçando-me por ouvir o que me diziam pelo telefone por sobre o ruído do trânsito. Uma rapariga estendeu-me uma prancheta com a mão esquerda e uma esferográfica com a direita. Tentei passar-lhe ao lado. Ela moveu-se no mesmo sentido que eu. Desviei-me mais um pouco e contornei-a, ignorando o seu trejeito de desagrado. Depois de desligar o telefone, reflecti que poderia ao menos ter visto qual a finalidade da petição. Mas logo a seguir mudei de ideias. Sou homem; não faço multitasking.

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Diário semifictício de insignificâncias (9)

por José António Abreu, em 30.08.16

Para Agosto, o trânsito tem andado mauzito. Bastante melhor do que noutros meses, mas mauzito. Talvez menos portuenses tenham ido para fora do que em anos anteriores. Ou quiçá o acréscimo de viaturas se deva exclusivamente aos turistas espanhóis. Ou se calhar muita gente anda a gastar combustível para ajudar as contas públicas. Ou então o fumo dos incêndios e o calor excessivo das primeiras semanas do mês deixaram o meu pessimismo numa fase particularmente aguda, que me leva a ver mais carros do que em anos anteriores.

Realisticamente (se um optimista é um pessimista mal informado, um realista é um pessimista capaz de fazer escolhas), inclino-me para uma conjugação das hipóteses 1, 2 e 4 - as reportagens televisivas mostram praias algarvias cheias, circulam nas ruas muitas matrículas espanholas, e eu não posso estar bem quando também me parece andarem por aí menos mulheres atraentes em trajes de Verão de que noutros anos. Mas, seja a verdade qual for, sinto falta de uma cidade calma, em modo de pausa. Turistas nos passeios e nas esplanadas não me incomodam; fazem-me sentir num destino de férias e até conferem cosmopolitismo à minha decisão de aqui permanecer. Mas, por algum motivo, o trânsito arruína a sensação de que a cidade é uma espécie de cenário megalómano, feito exclusivamente para mim e para meia dúzia de outros residentes tão esclarecidos como eu - pessoas disponíveis para a cidade nesta altura do ano por saberem que é agora que ela atinge o grau máximo de disponibilidade.

Por outro lado (diabos levem esta necessidade de manter os pés no chão, dispensada com estonteante leveza pelos optimistas), «esclarecido» pode não ser o termo mais correcto para designar quem fica a trabalhar em Agosto.

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Diário semifictício de insignificâncias (8)

por José António Abreu, em 27.08.16

Passo três quartos de hora a aspirar o chão. É inevitável: fico a transpirar como o Nadal após cinco sets em Melbourne Park. Não percebo. Cozinho sem transpirar (fico só a cheirar mal); passo a ferro sem transpirar (mas irrito-me à brava com as peças finas, que não consigo manter estendidas sobre a tábua); faço a cama sem transpirar (apenas me ficam a doer as costas, quando é preciso mudar os lençóis). Porém, aspiro dez minutos e começo a pingar água - mesmo no Inverno. Deve ser da posição. Ou dos movimentos repetidos, para a frente e para trás, para a frente e para trás. Sim, agora que penso no assunto, também noutras situações este tipo de movimentos deixa-me muitas vezes a transpirar. (Enfim, será mais exacto escrever «quase 100% das vezes»; muitas é exagero - ou talvez aspiração.)

E a coisa não fica pelo desconforto nem pelo facto de ter de ir tomar banho de cada vez que aspiro migalhas de pão na cozinha (ainda hei-de estimar os custos em água, sabonete e champô). Também atrapalha o processo. As gotas de suor caem no chão junto ao bocal do aspirador e são espalhadas e aspiradas por este. Não sei porquê mas acho isto um bocadinho nojento, pelo que tento evitá-lo. Ando com um pano e baixo-me para as limpar - o que só gera mais suor. Mas não as posso deixar no chão, especialmente nas partes em madeira. Considerando os efeitos que tem na minha pele, o meu suor é certamente corrosivo. Já bastam as marcas causadas pelas areias trazidas na sola dos sapatos. E pela minha crescente tendência para deixar cair objectos. Um dia destes escrevo sobre isso. Ou não. É coisa para me fazer sentir senil.

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Diário semifictício de insignificâncias (7)

por José António Abreu, em 25.08.16

Início da manhã, em Aveiro. O nevoeiro ia-se dissipando. O Sol estava quente mas ainda suave, intensificando de tal forma as cores que era como se quase tudo tivesse acabado de receber uma demão de tinta. Algumas pessoas passeavam os cães, os primeiros barcos com turistas ronronavam pela ria. Senti vontade de ficar sentado, a apreciar um daqueles momentos em que as cidades – algumas cidades – conseguem mostrar-se belas, pacíficas, acolhedoras.

Mas não podia - e o homem com quem me encontrei não estava satisfeito. Explicou-me que já por duas vezes tivera que adiar as férias. «Se não conseguir tirar a semana que vem, ainda dou em doido.»

«Vai para o Algarve?».

Disse que sim. Se conseguisse. «Nem é pela praia. Preciso é de variar.»

«Mas tem sorte», disse eu, apontando para o canal onde passava mais um barco. «Vive numa zona fantástica. Uma zona turística por excelência.»

Esboçou um sorriso. Disse: «Sim, é verdade.» Depois encolheu ligeiramente os ombros.

No regresso, pus-me a pensar que a habituação é uma coisa traiçoeira. Faz perder a capacidade de ver a beleza (e não apenas do local de residência; frequentemente, também das pessoas com quem se reside). Como tantos outros, ele precisa de mudar de sítio não para conhecer algo diferente (já terá estado no Algarve), nem para fazer algo de substancialmente diferente (deitar-se-á na praia e sentar-se-á em esplanadas, comerá gelados e beberá cervejas, lerá livros e consultará a internet no telemóvel), mas para fazer quase o mesmo, longe de casa.

Acredito que necessitamos de mudança. Mas dá-me ideia que normalmente apenas procuramos – e, por conseguinte, apenas obtemos - a ilusão de mudança. Ainda que, em vez de conduzir até ao Algarve, voemos para Cabo Verde, Cuba ou Istambul. (Há dias contavam-me a história de alguém que, temendo os assaltos, não saiu do carro alugado durante a visita a Nápoles.) Sem o sabermos, somos turistas acidentais, constantemente em busca do que nos é familiar (note to self: ler outro livro de Anne Tyler). Mas sabemos que alguma coisa está errada. Por isso tantas vezes apenas dizemos das férias que «já acabaram», e passamos o ano a renovar as ilusões.

 

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Diário semifictício de insignificâncias (6)

por José António Abreu, em 16.08.16

Cinco e quarenta e cinco da manhã e as gaivotas outra vez em alvoroço. Pareciam feirantes enraivecidos. Isto numa rua que nem fica perto do mar.

Não as percebo. Parecem manter-se permanentemente entre o desdém e a ira - o que, vejo-o agora, até as torna semelhantes a alguns humanos (que também não percebo). Vocalizam um e outra em voos circulares ou pousadas no topo dos prédios, pescoço esticado, goelas bem abertas, como que se imaginando dinossauros (T-Rexes minúsculos mas vitoriosos no final de um Jurassic Park). Frequentemente, sinto que estão prestes a atacar-me. Volteiam sobre mim, guinchando como se as tivesse ofendido. Há meses, uma rasou-me a cabeça (traiçoeira, viera em silêncio). Nas últimas semanas, escapei duas vezes, por curtíssima distância, a um banho de dejectos. E o seu olhar não admite dúvidas: fosses mais pequeno e dava cabo de ti; mesmo assim, talvez ainda dê. Não custa perceber onde Du Maurier foi buscar a ideia para o conto em que Hitchcock baseou o filme.

Chego a ponderar se serão os animais mais irritantes que existem. Depois lembro-me dos mosquitos e das melgas. E dos humanos, claro. Afinal, às seis e cinco alguém começou a martelar na rua.

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Diário semifictício de insignificâncias (5)

por José António Abreu, em 13.08.16
C. disse-me que a minha posição sobre a nadadora Yulia Efimova demonstra quão volúveis são os homens, por muitas declarações que façam - que eu faça - em contrário. No caso de mulheres desportistas, disse ela, nunca escolhem quem apoiar em função da qualidade atlética. Fazem-no sempre com base na aparência física.
Um: não acho que faça assim tantas declarações em contrário. Dois: achei típico que a minha ironia lhe tivesse passado ao lado. Três: acho irónico que a acusação venha de alguém que é fã confessa de Hugh Jackman, Michael Fassbender e Tom Hiddleston, e que, detestando futebol, não perde uma oportunidade de observar o Cristiano Ronaldo, em especial quando ele despe a camisola.

Mas ela tem alguma razão, claro. Quando nada mais se sabe da pessoa, a beleza é fundamental. Atrai ou (por mecanismos de competição e despeito) repele. E a verdade é que na natação (como, até certo ponto, no atletismo, mas não noutras modalidades) se torna difícil escolher por factores de índole técnica. Eu torcia pela Kim Clijsters devido à forma cheia de garra como ela jogava ténis, não por me atrair fisicamente. Ao ver as provas de ginástica artística, e ainda que nada perceba do grau de dificuldade dos movimentos, há exercícios que me suscitam mais admiração do que outros. Em tempos fui fã da equipa de voleibol da Polónia não porque as suas jogadoras fossem mais atraentes do que as de outras selecções (à época, as holandesas eram deslumbrantes), mas porque vi um jogo em que, estando quase sempre atrás no marcador, elas nunca desistiram de lutar (ainda assim, perderam).

Na natação, contudo, é-me impossível distinguir entre o estilo de Efimova e o de Lilly King, a norte-americana que a derrotou nos 100 metros bruços. Ou entre os de Sarah Sjöström, Katie Ledecky e Federica Pellegrini. E, por conseguinte, a decisão sobre quem apoiar (e ver desporto sem estar a torcer por alguém não é a mesma coisa) depende exclusivamente de factores extra-competição. Do país de origem. Da postura. De um trejeito. Da observação de um comentador. Da beleza. Por isso o meu coração balançava entre Sjöström e Pellegrini, durante a final dos 200 metros em estilo livre. De nada serviu. Ganhou o fenómeno Ledecky, uma espécie de Phelps no feminino. E anteontem Efimova foi novamente batida, desta feita nos 200 metros bruços, pela japonesa Rie Kaneto. Ou eu dou azar (chamemos-lhes a sina do sportinguista) ou a beleza é pouco útil dentro de uma piscina. No caso de Efimova, pode até especular-se se os Jogos Olímpicos estarão sujeitos aos critérios de Hollywood, segundo os quais um vilão nunca pode ganhar. Mas penso que não: duas medalhas de prata para a vilã dos Jogos dificilmente seria considerado um desenlace adequado por qualquer argumentista lá dos States. A mim, pareceu-me um final razoavelmente feliz.

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Diário semifictício de insignificâncias (4)

por José António Abreu, em 11.08.16

O pastor alemão estava outra vez na Praça da Galiza à hora de almoço. Acho estranho, a dona fazê-lo correr com este calor. Mas lá andavam, ela parada à sombra, ele em sprints desenfreados atrás de um pau, a língua balançando fora da boca. Parei um instante a observá-lo. A certa altura, a dona deve ter achado que já bastava e parou de lançar o pau. Ele sentou-se, arfando, a língua ainda e sempre pendurada, o olhar oscilando entre a face da dona e o galho caído na relva.

Fico maravilhado com a capacidade de coordenação de movimentos dos cães. Não quando correm atrás de um pau ou de uma bola, como aquele fizera momentos antes. Nessas alturas, até me parecem desengonçados. Mas quando os vejo ofegantes, com cinco centímetros de língua de fora, surpreende-me que consigam sempre fechar a boca sem a trincar. Tenho vontade de lhes fazer festas e de lhes dizer: «Bom trabalho.» De lhes dar um biscoito. A minha língua é muito mais curta, tento mantê-la dentro da boca em quase todas as circunstâncias (mesmo no Verão, em que suo as estopinhas) e, ainda assim, mordo-a com frequência.

Não devia generalizar a partir da minha experiência, mas há uma inteligência profunda em evitar os erros mais básicos que os humanos têm vindo a perder.

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Diário semifictício de insignificâncias (3)

por José António Abreu, em 10.08.16

O fumo no ar do Porto, causado por incêndios florestais nos arredores, era hoje um pouco menos intenso. Ainda assim, continua a notar-se, mesmo dentro de casa, onde parece ter já entranhado tecidos, livros e objectos de decoração. Não deixa de ser curioso: quando vim para a cidade pensei que os incêndios florestais ficariam remetidos para os ecrãs de televisão. Que a visão das chamas nas encostas da Serra da Estrela ou do Açor, e o cheiro do fumo, recordações fortes da minha infância, passariam a fazer parte do passado. Foi verdade no caso da visão das chamas, não do cheiro. Residindo no centro do Porto, e antes disso em Vila Nova de Gaia, quase todos os anos o sinto. Ontem, acompanhado pelas imagens televisivas que chegavam do Funchal (linhas e pontos cor de laranja tremendo numa encosta mergulhada na escuridão), fez-me relembrar essas noites veranis, nas quais a minha mãe mantinha um estado de ansiedade constante, ainda que as chamas estivessem a quilómetros de distância, e o meu pai fingia um grau de despreocupação raramente verdadeiro. Comportamento que provavelmente terão recuperado, um e outro, nos últimos dias.

(Devia ter-lhes ligado. Agora são onze e meia, já é tarde. Ainda que a minha mãe - pelo menos ela - deva estar acordada.)

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Diário semifictício de insignificâncias (2)

por José António Abreu, em 09.08.16

Na segunda temporada da série televisiva Happy Valley, da BBC, há uma mulher que se apaixona por um assassino cumprindo pena. Para ela, um rapaz tão atraente não pode ser um verdadeiro criminoso. Este é o género de problema que me surge quando, nos filmes ou nos livros, as vilãs atraentes são punidas (ainda me lembro da comoção que, há trinta e tal anos, me causou a morte de Milady de Winter, n'Os Três Mosqueteiros). De alguma forma (injusta, eu sei), uma criatura bela por fora não pode ser feia por dentro. Seria um desperdício.

Assisti à final dos 100 metros bruços nos Jogos Olímpicos pensando que devia estar a torcer pela lituana Rūta Meylutitė ou por uma das norte-americanas. O problema é que na pista 5 se encontrava Yulia Efimova, russa, associada a casos de doping - mas dolorosamente bela. Não sendo lituano ou norte-americano, como resistir? (Algum do público presente na piscina conseguiu fazê-lo, vaiando-a à entrada, mas havia por lá muitos nadadores, familiares de nadadores e treinadores de outros países.)

Efimova acabou em segundo lugar, entre as duas norte-americanas. Chorou. Só pode estar inocente.

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Diário semifictício de insignificâncias (1)

por José António Abreu, em 08.08.16

O calor põe o meu corpo a lutar consigo próprio. Na face interior dos cotovelos e dos joelhos desenvolvem-se áreas vermelhas que ardem como feridas tratadas com álcool. É como se a minha pele fosse tóxica para ela mesma. Ou como se fosse tóxica, tout court (não passa assim tanto tempo encostada a outras peles para que me seja possível ter certezas). O calor faz-me sentir uma rã dos trópicos, húmida e venenosa. (Agora - que estupidez - estou a pensar no filme de animação Rio 2.) E o problema não surge apenas nos cotovelos e nos joelhos: o suor queima-me os olhos; nos ombros surgem-me pequenas crostas. Todo eu pareço exsudar veneno. Entre o desespero e a auto-ironia (a distância é curta), procuro convencer-me de que existe um lado positivo. De que talvez seja terapêutico. De que talvez seja o veneno que vou acumulando ao longo do ano - a bílis fermentada - a sair. Só espero que não destrua o ozono ou faça aumentar o teor de dióxido de carbono na atmosfera.

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