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Famílias fora de prazo

por Teresa Ribeiro, em 21.09.17

 

 

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Num país onde o desemprego atinge sobretudo os maiores de 50 e os que procuram o primeiro emprego, os casos de pais desempregados a coabitar com filhos adultos que ainda não entraram no mercado de trabalho aumentaram exponencialmente. Mesmo assim o fisco, quando os descendentes chegam aos 25 anos, não perdoa e declara-os... independentes.

Quando tanto se fala de apoio à família, esta realidade é varrida para debaixo do tapete. Maior de 25 que viva à custa dos pais é uma não-pessoa. Não conta para o agregado familiar, nem pode apresentar despesas para incluir no IRS dos pais. A regra já existia, mas ao contrário de outras que também existiam e já foram mudadas, nesta não tocaram nem com uma flor.  Era o mínimo a conceder às famílias que se tornaram disfuncionais em consequência do esbulho fiscal e destruição de emprego. 

 

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Emprego em números (curtinho e simples*)

por João André, em 22.07.14

 

Quando falamos do desemprego temos duas correntes: a corrente governativa, onde o pior já passou e agora estamos todos em direcção à paz celestial; e a corrente anti-governo, onde o apocalipse está ao virar da esquina e o desemprego real é de 450 mil por cento. Como não gosto de andar a ler notícias sobre as estatísticas em jornais carregados de analfabetos matemáticos que estão amiúde comprometidos com uma das duas correntes, decidi dar uma espreitadela aos números absolutos, i.e., quantas pessoas estavam activas, quantas pessoas empregadas e quantas pessoas desempregadas. O resultado está no gráfico acima (retirado dos dados do INE).

 

O que se vê é claríssimo: o desemprego caiu entre o 3º trimestre de 2012 e o 1º trimestre de 2014. O emprego por outro lado também desceu no mesmo período. Em termos absolutos, o número de desempregados caiu em cerca de 59 mil e o número de empregados caiu em cerca de 137 mil. O emprego recuperou um pouco no último ano registado acima mas não irei debruçar-me sobre razões nem sobre as razões do decréscimo no início de 2014.

 

A realidade é que a queda do desemprego de 15,7% para 15,1% com um pico de 17,5% no 3º trimestre de 2013 terá decorrido mais de emigração e óbitos que de qualquer outra coisa. Em termos líquidos pode-se dizer que se perderam empregos no período decorrido e a recuperação dos mesmos (em termos absolutos) ainda não parece muito notória.

 

O governo gosta de retirar para si os frutos de qualquer número positivo e atirar para o governo de Sócrates ou para a Europa qualquer má notícia. Os números acima apontam para uma real influência do governo na diminuição da taxa do desemprego através da promoção da emigração. Não quero contudo retirar-lhes outro mérito. A verdade é que há limites para aquilo que um país pode cair desde que tenha um estado funcional (mesmo que não ideal): após tanta queda havíamos de ressaltar um pouco.

 

Gostaria de ser optimista como outros colegas do blogue (admiro o optimismo e a esperança do Luís Naves, por exemplo) mas não consigo. Uns tempos de bom clima económico e uma pneumonia do BES arrisca atirar-nos para os cuidados intensivos. Apesar de todos estes esforços do nosso bando de incompetentes do governo, os bons resultados parecem-me continuar a dever-se mais ao espírito aventureiro dos portugueses e a influências externas.

 

Infelizmente a situação provavelmente não irá mudar muito nos próximos tempos: não vejo quem em Portugal faça muito melhor (até porque pior só se for o Santana).

 

* - talvez não tão curtinho quanto pensava. Perdoem-me o pouco jeito para o resumo.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 20.07.14

«O desemprego é uma enorme chaga que nos atingiu para ficar. Oxalá esteja enganado, mas o desemprego em Portugal dificilmente baixará dos dois digitos nos próximos dez ou vinte anos.
Há com certeza muita gente mais habilitada do que eu para explicar as razões desta desgraça. Mas normalmente quem explica as razões do desemprego nunca explica como é que se criam empregos. Eu só conheço duas maneiras:  no estado e nas autarquias, ou então com investimento, muito e bom investimento. O estado e as autarquias têm de reduzir e muito os seus efectivos, e para o investimento é preciso haver quem tenha dinheiro e interesse em fazê-lo, e não há entre os que têm os meios quem esteja interessado em investir em Portugal, que para criar  400 mil empregos  necessita nos próximos cinco anos de investimento equivalente a dez Autoeuropas.
Para juntar a isto, temos entre mãos a falência do maior grupo financeiro português, que vai deixar um rasto de destruição na economia indígena cuja dimensão ninguém ainda se atreve a prever. Mas há um "pormaior" que vai ter um enorme impacto directo na economia portuguesa: 90% de uma parte do calote, cerca de 4 mil milhões de euros, pertence a portugueses. Podemos imaginar o que vai ser o "choro e ranger de dentes" que por aí virá.
Por outro lado, o que os futuros governantes, sejam da direita ou da esquerda, andam por aí a dizer que vão fazer também não augura nada de bom. Por isso, temo que Portugal se esteja a aproximar a grande velocidade de uma "tempestade perfeita".»

 

Do nosso leitor Alexandre Carvalho da Silveira. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

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O desemprego.

por Luís Menezes Leitão, em 12.06.14

Este belíssimo texto de Pedro Santos Guerreiro justifica uma análise sobre um drama que tem vindo a atingir profundamente as sociedades desenvolvidas e que consiste no problema do desemprego. Não consigo compreender — e acho um erro político grave — que se cantem loas ao "sucesso" do programa de ajustamento e se prometa que um dia — seguramente daqui a muitos anos — chegarão os gloriosos amanhãs que cantam e lá acabaremos por atingir as terras de leite e mel do equilíbrio imposto pelo Tratado Orçamental. Mas nesse glorioso processo de "ajustamento", cada vez mais exigente, chega sempre algo que todos os economistas avisam: níveis de desemprego sem precedentes neste país. Não é o facto de as estatísticas apresentarem um ponto a mais ou a menos, que impede o impacto brutal de notícias como esta, que normalmente significam que o flagelo chegou a amigos e conhecidos. As pessoas angustiam-se e perguntam se não serão o próximo na lista. É por isso que a maior boutade alguma vez dita por Passos Coelho foi quando disse que o desemprego era uma oportunidade para mudar de vida.

 

Neste âmbito, um dos filmes que vi retratar com mais brilhantismo o desemprego, a propósito da crise financeira dos EUA, foi Homens de Negócios (The Company Men), com Ben Affleck e Tommy Lee Jones. O filme retrata a história de um executivo, com um bom emprego, que um dia chega à empresa alegre depois de um jogo de golfe, recebendo a notícia de que iria ser despedido. Assistimos então ao completo desmoronar da vida dessa pessoa, sendo que não é o único, uma vez que todos os dias a empresa vai mandando novas pessoas para o desemprego. A justificação que o administrador dá é simples: a empresa está a ser objecto de uma OPA, que só se conseguirá frustrar valorizando as acções e para isso é necessário reduzir os custos laborais. Nessa luta contra a OPA, a empresa vai sucessivamente despedindo mais e mais trabalhadores, lançando as suas famílias no desespero. Até que, depois de os despedimentos se terem multiplicado, o administrador diz que afinal a empresa não conseguiu resistir e a administração vai aceitar a OPA. Quando alguém lhe diz que lamenta esse fracasso, o administrador responde que não se justifica o lamento, pois as suas acções, que irá alienar na OPA, valem agora 600 milhões de dólares.

 

Aí somos levados a perguntar o seguinte: qual é a lógica disto tudo? Que interessa que alguém receba 600 milhões de dólares ou metade dessa importância, já que uma pessoa normal nem em toda a sua vida gasta valores dessa ordem? E o resultado disto é que o desemprego acumula-se e o tecido empresarial vai sendo destruído numa lógica de capitalismo de casino. Seguramente que alguma coisa se perdeu do espírito original do capitalismo. Os verdadeiros empresários criavam riqueza e sentiam-se responsáveis pelo bem-estar dos seus trabalhadores. Hoje a lógica passou a ser apenas comprar e vender acções, valendo tudo para se obter o melhor preço. Resta saber a que custo.

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Do estar desempregado

por Marta Spínola, em 10.06.14

Eu já não estou, é a primeira novidade. Apareceu finalmente o meu emprego e eu acredito com alguma força que vai correr bem. Mas não é disso que venho falar. Tentarei em poucos posts descrever alguns aspectos do lado de quem está nessa terrível posição.

Enquanto se está desempregado passa-se pelas mais diversas situações, observações e opiniões. Mas o pior de tudo é quando o telefone toca, é um contacto para uma eventual entrevista, um teste de idioma, uma hipótese "que pode vir a acontecer, mas ainda sem certezas". Não me interpretem mal, não é o interlocutor ou o que/quem nos levou até ele que está mal, as pessoas fazem o que podem ou está ao seu alcance, e eu tenho algumas a agradecer por terem ajudado na minha busca de trabalho, ainda que sem sucesso.

O pior é mesmo o outro lado, o nosso. O que procura, tenta, ouve e espera uma oportunidade e uma segunda chamada. Sabe que é capaz, pode fazer aquele trabalho sem problemas ou se lho explicarem, deixa-me lá pensar o que levo vestido para a entrevista. E o novo contacto tarda, e acaba por não chegar. Mas sempre que há um novo, toda a esperança se renova e recomeça, vai ser bom, aquela zona até é boa e eu não me vou atrapalhar, eu faço o que for preciso. É como se o que está para trás não importasse já, deixa lá, alguma coisa havia de haver para ti caramba, já chega de esperar. E foram algumas vezes em que afinal ainda não era desta.

Comigo foram dois anos. Não estive parada e tive experiencias enriquecedoras, estive em lugares onde não me imaginei, vi o lado bom de muita gente. O mais difícil foi mesmo esse jogo esgotante da energia para começar de novo e a desilusão de ainda não ser dessa vez.

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Leituras

por Pedro Correia, em 09.04.14

 

 

«Estar desempregado pode, em certas condições, tornar-se estimulante. De repente, encontramo-nos fora do sistema, não fazemos parte do mundo, ninguém nos quer, batemos às portas e as portas não se abrem, os conhecidos mudam de passeio quando nos vêem a tempo, ou então enchem-se de piedade, o que ainda é pior. É uma boa altura para sabermos se somos apenas o que fazemos, ou se vamos mais longe do que esse pouco.»

José Saramago, A Noite (1979), p. 66

Ed. Caminho, 2009 (4ª edição)

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Isto não vai demorar nada. Jonet revisitada

por Marta Spínola, em 02.04.14

Há muitas vezes um silêncio quando alguém diz mal do facebook ou outra rede social. Se calhar por não acharmos fundamental defender, cada um está onde quer estar, quem não quer ter nenhuma não tem e vivemos bem assim. 

Mas depois há estes momentos em que acho o silêncio injusto. Cada um fará o que entender com o facebook, e se for só ter jogos pois seja. Eu uso para tudo e mais um par de botas.
Ao ler hoje (eu sei, ainda leio, para quê? Não sei, é o meu acidente na estrada, para esses não olho, olho para isto) as declarações de Isabel Jonet sobre os desempregados e as redes sociais, não consigo não dizer nada. Porque mais uma vez se generaliza sem, imagino eu, saber. 
Num resumo, direi apenas: 
  • em ano e meio desempregada, os trabalhos e contactos que maior efeito surtiram nesse sentido surgiram através do facebook. 
  • antes de estar desempregada também foi por ali que fui contactada para os melhores trabalhos que já fiz.
  • neste ano e meio tomei conta de dois bebés, cujos pais são meus amigos de infância e não teria reencontrado se não fosse pelo Facebook 
Eu sou uma pessoa tímida, quem me lê no facebook ou me segue no twitter não o diz. Mas mesmo que não o fosse, há coisas que escrevemos mais facilmente do que surgem numa conversa falada (ou numa entrevista de trabalho, já que estamos nesse âmbito). E chegam a mais pessoas numa rede social, e ainda bem, não tenho dúvidas que foi assim que muitas pessoas me foram conhecendo um pouco melhor, e elogios e cumprimentos ao que digo e penso - mesmo que sejam delírios, tolices, o que me dá na real gana, nunca escrevo nada muito profundo, garanto - só puderam existir porque me leram, porque eu estava no facebook/twitter/blogosfera. Se isso um dia me dará novo emprego? Não sei, mas não me distrai certamente de o continuar a procurar.
 
Para terminar, e não quero confundir pessoa e Instituição, para a qual contribuo, muito menos o trabalho dos voluntários que nada têm que ver com isto, a verdade é que precisando mais depressa pedia um ovo no facebook que ao Banco Alimentar. E sei que o receberia. 
(também publicado ali)

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Desistir

por Teresa Ribeiro, em 20.02.14

Há quem disfarce a falta de esperança de inércia. Só para não parecer tão triste.

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No reino dos eufemismos

por Pedro Correia, em 29.11.13

 

Acabo de ouvir num canal televisivo que uma determinada empresa construtora "rescindiu com 300 colaboradores". Está tudo errado nesta frase. No espírito e na letra. O mundo laboral parece ter sido liofilizado no discurso jornalístico corrente. Como se a palavra trabalho queimasse. Como se trabalhar fosse algo indigno. Como se um trabalhador devesse ocultar esta sua condição numa sociedade - e num continente inteiro, como bem revelam as estatísticas europeias - onde um posto de trabalho é um bem cada vez mais escasso.

Trabalho, palavra bíblica. "Bem basta a cada dia o seu trabalho", diz Jesus no Sermão da Montanha. Reescrita à luz da novilíngua dominante, quem trabalha deixou de ser trabalhador: é "funcionário" ou, de modo ainda mais eufemístico, "colaborador". Pela mesma lógica, não pode ser despedido mas "dispensado". Ou, de modo ainda mais eufemístico, alguma Alta Entidade da corporação empresarial "prescinde" dos seus serviços. Ou da sua colaboração.

Sempre me ensinaram que o discurso jornalístico, para ser eficaz e competente, devia descodificar todo o jargão encriptado, que obscurece a mensagem em vez de a tornar transparente. Nos dias que correm, sucede precisamente ao contrário: o jornalismo abdica demasiadas vezes de clarificar a mensagem, obscurecendo-a por cumplicidade activa com as "fontes" ou por mera preguiça intelectual.

No reino dos eufemismos, não se trabalha: "colabora-se". E ninguém é despedido: há apenas quem "cesse funções" ou veja os seus préstimos "prescindidos" por alguma entidade empregadora em fase de "reestruturação" ou "reavaliação" das potencialidades do mercado. Mas as coisas são o que são, mesmo que as palavras ardilosas procurem camuflar uma realidade nua e crua.

A empresa construtora despediu 300 trabalhadores. Assim mesmo, ponto final. A realidade, só por si, já é suficientemente dura. Não juntemos ao drama do despedimento a injúria de ver esta palavra banida do dicionário jornalístico quando está mais presente que nunca na vida real.

 

Texto reeditado. Publicado originalmente no DELITO DE OPINIÃO a 28 de Maio de 2012

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A crise e as oportunidades

por João André, em 29.11.13

Um dos momentos mais interessantes de cada nova discussão com colegas - oriundos de outras unidades de negócio - ou com pessoas de outras empresas alemãs é quando chega o momento de dizer que sou português. Quase todos perguntam pela situação em Portugal, lamentam as dificuldades e desejam que passem depressa. Sentimentos genuínos, sem dúvida, tal como o são quando alguém falava sobre a fome no Biafra com um bife no/do lombo.

 

Aquilo que muitas vezes se me depara é outra coisa: acabam quase todos a perguntar se será então um bom local de recrutamento de pessoas, especialmente com formação técnica.

 

De uma penada vejo um certo tipo de mentalidade: uma cristã preocupação pelo sofrimento no mundo e um muito prático aproveitamento das oportunidades geradas. Pedro Passos Coelho tinha de facto razão: a crise e o desemprego são oportunidades. Para os outros países.

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6% baralha e volta a... tirar

por Marta Spínola, em 18.04.13

É puxar a brasa à minha sardinha, pois é. Estou desempregada e vejo este yo-yo da que já não é fortuna nenhuma. Se o meu coração, por este e outros motivos, sobreviver a 2012/13 podem estudar-me.

Ainda não foram passados os valores a partir dos quais se manterão os 6%, mas provavelmente serão os que nunca se imagina que as pessoas recebam, os que rondam os 400 euros.

Estou irritada, não vejo futuro para mim por cá, e também não sei bem como fazer para me ir embora. Acima de tudo ainda não o queria fazer. Porque irei sozinha, porque estarei sozinha. Não me atrapalho sozinha em muita coisa, mas ir passear a Roma sozinha, viver cá sozinha, pagar as minhas contas sozinha, é uma coisa, fazer a vida toda noutro lado, é outra. Sou optimista regra geral, mas neste caso obrigo-me a refrear-me, não dar um passo maior que a perna.

Tenho capacidades, não tenho medo de trabalhar, mas no cv vão os meus 36 anos e essas qualidades talvez fiquem para trás, não sei. Sei que ninguém responde, nem mails automáticos (já não se usam? Eu preferia-os ao vazio). 

Desde que fiquei sem emprego já passei por várias fases. Mas uma constante é sentir que tenho muitos deveres e poucos direitos, a sensação é a de que vivo de um favor do Estado. Constantemente. Felizmente as pessoas que me passam esses deveres e cumprem (formadores, atendimento) mostram-se compreensivas com quem está do lado de cá, seria insuportável de outra forma. 

Custa, não se pense que é viver à sombra da bananeira. Sabem-me bem os primeiros dias de sol, poder aproveitá-lo. Experimentei fazer coisas que fui adiando enquanto trabalhava, pude fazer babysitting e não o trocava por nada. Mas custa bastante ser diariamente confrontada com a situação, com os 6% que afinal eram meus mas agora já não. Custam os olhares de pena e segue a vidinha (prefiro que a sigam logo), custam as não respostas, custa o subsídio comparado com o que se recebia a trabalhar. E custa-me ser só um número, isso é o que me custa mais. 

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De acordo com o ministro Vespa Soares, "percebemos hoje que uma mulher que quer ser mãe pede-nos, mais do que dinheiro, sobretudo mais tempo para acompanhar os seus familiares”. Trata-se de afirmações extraordinárias. Ora vejamos. Portugal tem hoje cerca de 1 milhão de desempregados. E cerca de 600.000 trabalhadores em regime de part-time. Isto é, perto de 30% da população activa ou não trabalha, ou trabalha a tempo parcial. Por outro lado, o país tem um dos salários médios mais baixos da Europa dita desenvolvida e há perto de três milhões de portugueses a viver abaixo do limiar de pobreza. Num cenário destes, afirmar que o motivo da baixa natalidade em Portugal é a falta de tempo, mais do que a falta de dinheiro, só pode ser levado à conta de desconhecimento, de falta de respeito ou de alguma pancada sofrida na caixa dos pirolitos quando circulava de motorizada. No caso, tratando-se do Exmo. Senhor Ministro da Solidariedade e da Segurança Social, descarto de imediato a primeira hipótese por inerência de funções e recuso-me a acreditar na segunda (gente tão preparada e bem formada, não é?). Resta-me a terceira, pelo que me cumpre desejar ao Senhor Ministro uma rápida recuperação dos sentidos e, muito especialmente, do da realidade.

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Viva a franqueza!

por Gui Abreu de Lima, em 19.02.13

Em castelhano, trata-se os bois pelos nomes

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Fazer de cada português um fiscal da Autoridade Tributária e Aduaneira. O facto de ser um emprego não-remunerado é um detalhe. 

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Fernando Ulrich tem uma solução para diminuir o desemprego. Em vez de suportar o subsídio, o Estado poderia pagar a desempregados para trabalharem em grandes empresas. Assim de repente, veio-lhe à ideia que um dos empregadores poderia ser o BPI. Parece-me bem. Mas, a ideia é tão boa, tão boa, que não a devíamos limitar às grandes empresas. Por mim, também estou disposto a ajudar. Se o Estado fornecesse os materiais, poderia mesmo pensar em demolir a habitação actual e construir uma nova com todas as necessidades de mão-de-obra que isso implicaria. Entretanto, mesmo que esse projecto não avance, não faltam oportunidades lá em casa. Deve haver outras, mas enquanto penso nisso, publico já o primeiro anúncio:


Pretende-se:

 

  • Cozinheiro/a - part-time de 4 horas por dia, incluindo feriados e fins-de-semana, ao almoço e ao jantar (necessidade permanente)
  • Empregado/a de limpeza - tempo inteiro (necessidade permanente)
  • Decorador de interiores e exteriores - tempo inteiro  (necessidade temporária: 1 mês)
  • Pintor/a - tempo inteiro (necessidade temporária: 1 a 2 meses)
  • Canalizador/a - tempo inteiro (necessidade temporária: 1 semana)
  • Baby sitter - noites de sexta-feira e sábado (necessidade permanente)
  • Professor/a de piano - part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de inglês - part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de francês - part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de alemão - part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de espanhol - part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de mandarim - part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Pizzaiolo/a - para uma das folgas do/a cozinheiro/a
  • Sushiman/Sushiwoman - para outra das folgas do/a cozinheiro/a

 

Oferece-se: integração em domícilio sólido e dinâmico, bom ambiente de trabalho, remuneração suportada pelo Estado e oportunidades reais de desenvolvimento enquanto se mantiver o direito ao subsídio de desemprego.

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Mais desemprego, novas oportunidades

por Rui Rocha, em 01.10.12

O primeiro-ministro tem razão. O desemprego é uma oportunidade. E a boa notícia é que há cada vez mais oportunidades. Com tantas e novas perspectivas, assistiremos em breve a uma alteração profunda do mercado de trabalho e das próprias designações das actividades profissionais. Na verdade, muitas profissões cairão em desuso e serão substituídas por novas e desafiantes ocupações. Os Solicitadores, por exemplo, serão substituídos pelos Imploradores. O Médico do Trabalho, por seu lado, dará lugar ao Terapeuta Desocupacional. Também muito solicitado será o Técnico de Higiene e Insegurança (angustiados mas asseados). Nas tarefas administrativas, os novos tempos trarão profissionais altamente qualificados: os Desempregados de Escritório. Igualmente na primeira linha do mercado de trabalho do futuro encontraremos os Terapeutas da Falta, os Mestres de Sobras e os Técnicos Oficiais de Pontas. No domínio da saúde, os Dietistas continuarão em alta. Todavia, as estrelas nesta área serão, sem dúvida, os Anestesistas. Na construção, o mercado proporcionará excelentes oportunidades para os Semtectos Paisagistas e para os Engenheiros de Infra Estruturas, estes últimos especialistas em pequenas obras como a reabilitação de vãos de escada e o recondicionamento da parte de baixo das pontes. As preocupações com a ocupação do espaço darão lugar a tudo o que diz respeito ao preenchimento do tempo, com oportunidades desafiantes para a Engenharia de Batalha Naval. Os Engenheiros Magrários e, em geral, todos os que trabalham nos diversos ramos da Magricultura e da Engenharia Magro-Industrial têm boas razões para encarar os próximos tempos com confiança. Na área comercial, o novo mundo será dos Tácticos de Vendas. Encontrar um cliente será tão difícil que vender deixará de ser uma técnica e passará a pressupor vastos conhecimentos de perseguição e emboscada. Nas ciências, destacar-se-ão os Físicos Teóricos. Embora sem a mesma garantia de sucesso, haverá também lugar para os Químicos Inorgânicos. Com boas perspectivas, surgem também as áreas da Matemática Discreta, da Nicklesbiologia (evolução da Microbiologia e da Nanobiologia) e da Citologia (o estudo das citações será fundamental para entreter o tempo). Na educação, serão criadas as novas profissões de Professor do Ensino Básico (o ensino será mesmo muito básico), de Professor do Ensino Secundário (assumindo definitivamente que o ensino é tudo menos prioritário) e, naturalmente, de Professor do Ensino Inferior. No que diz respeito às profissões ligadas à História, apesar de, em geral, as coisas não se apresentarem risonhas, aparecerão novas ocupações como a de Engenheiro Alimentar (o estudo dos alimentos integrará o ramo da arqueologia) e de Especialista em Parasitologia (persistirá, apesar de tudo, alguma curiosidade em perceber como chegámos até aqui).

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Dos tempos

por Ana Margarida Craveiro, em 24.09.12

A desesperança é o que mais dói nestes tempos. Sem escolhas, sem ver quando as coisas melhorarão. Tenho metade da família desempregada, e dói-me ver que os braços começam a não se querer levantar. 

 

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Queda e ascensão

por Leonor Barros, em 14.09.12

Conta a notícia que o 'emprego português caiu 4,2% no segundo trimestre de 2012'. Caiu e continua estatelado no chão como sabemos, a esta hora já foi trucidado pelo Coelho mais a sua querida austeridade. Na Grécia diz que também lhe aconteceu o mesmo. Caiu. E o desemprego não terá então aumentado?

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Recordando a equidade

por Ana Margarida Craveiro, em 06.07.12

800.000 desempregados. Nenhum juiz do Tribunal Constitucional, suponho.

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Um mecanismo para responder ao desemprego

por Rui Rocha, em 04.06.12

Leio que Passos Coelho, a propósito da divulgação das conclusões de novo exame da Troika à execução do plano de resgate, declarou que se ficou de encontrar um mecanismo que responda ao desemprego. Parece-me bem. E não quero tirar ao primeiro-ministro o entusiasmo, aliás evidente nas suas palavras, de descobrir pelos seus próprios meios a solução para um problema que tem merecido de todo o seu governo, quando menos, várias manifestações públicas de compreensão e de apoio. Em todo o caso, não vá Passos Coelho estar assoberbado com outras solicitações, atrevo-me a deixar aqui uma sugestão. No fundo, trata-se de algo que responde à tensão, pressupõe uma estrutura de suporte, funciona como alavanca, tem em conta a gravidade e pode proporcionar algum impulso aos desempregados. Nada de muito novo, na verdade. Aliás, foram os gregos que, vendo-se em grandes dificuldades,  desenvolveram o primeiro mecanismo do género. Chama-se catapulta. Com alguma perícia e um bocado de sorte, os desempregados são projectados para lá da fronteira e, se tudo correr pelo melhor, nem sequer fazem ricochete. Em homenagem ao ministro Álvaro, proponho desde já que lhe chamemos Coisapulta.

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No reino dos eufemismos

por Pedro Correia, em 28.05.12

 

Acabo de ouvir num canal televisivo que uma determinada empresa construtora "rescindiu com 300 colaboradores". Está tudo errado nesta frase. No espírito e na letra. O mundo laboral parece ter sido liofilizado no discurso jornalístico corrente. Como se a palavra trabalho queimasse. Como se trabalhar fosse algo indigno. Como se um trabalhador devesse ocultar esta sua condição numa sociedade - e num continente inteiro, como bem revelam as estatísticas europeias - onde um posto de trabalho é um bem cada vez mais escasso.

Trabalho, palavra bíblica. "Bem basta a cada dia o seu trabalho", diz Jesus no Sermão da Montanha. Reescrita à luz da novilíngua dominante, quem trabalha deixou de ser trabalhador: é "funcionário" ou, de modo ainda mais eufemístico, "colaborador". Pela mesma lógica, não pode ser despedido mas "dispensado". Ou, de modo ainda mais eufemístico, alguma Alta Entidade da corporação empresarial "prescinde" dos seus serviços. Ou da sua colaboração.

Sempre me ensinaram que o discurso jornalístico, para ser eficaz e competente, devia descodificar todo o jargão encriptado, que obscurece a mensagem em vez de a tornar transparente. Nos dias que correm, sucede precisamente ao contrário: o jornalismo abdica demasiadas vezes de clarificar a mensagem, obscurecendo-a por cumplicidade activa com as "fontes" ou por mera preguiça intelectual.

No reino dos eufemismos, não se trabalha: "colabora-se". E ninguém é despedido: há apenas quem "cesse funções" ou veja os seus préstimos "prescindidos" por alguma entidade empregadora em fase de "reestruturação" ou "reavaliação" das potencialidades do mercado. Mas as coisas são o que são, mesmo que as palavras ardilosas procurem camuflar uma realidade nua e crua.

A empresa construtora despediu 300 trabalhadores. Assim mesmo, ponto final. A realidade, só por si, já é suficientemente dura. Não juntemos ao drama do despedimento a injúria de ver esta palavra banida do dicionário jornalístico quando está mais presente que nunca na vida real.

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Coiso e tal

por Rui Rocha, em 22.05.12

O desemprego é o coiso. Os desempregados andam a coisar. É natural que se sintam fodidos. Os desempregados coisam nos Centros de Emprego. Não admira que os Centros de Emprego tenham má fama. Claro que passar o tempo a coisar também cansa . E, por isso, muitos desempregados acabam por deixar de procurar emprego. Já não coisam. São os inactivos. Outros, todavia, insistem. São os desempregados Viagra. O coiso deles é de longa duração. Quando os desempregados arranjam emprego, deixam de coisar. Fala-se nesse caso de coiso interruptus. O coiso interruptus pode ser provocado por políticas activas de emprego. Trata-se de métodos contracoisivos pouco eficazes. As coisas são o que são. E, mais tarde ou mais cedo, os desempregados voltam a coisar. Normalmente, os políticos não têm coisos de grande dimensão. O coiso dos políticos, quando ocorre, é um coisinho. Há logo um conhecimento ou uma influência que se move para os políticos deixarem de coisar. Apesar disso, os políticos gostam de falar do coiso. É o coisilingus. Alguns políticos pensam que podem influenciar a dimensão do coiso. Ou a penetração do coiso em determinados estratos populacionais ou regiões. Entusiasmados, os políticos vão mexendo no coiso. Tiram disso grande satisfação pessoal. Mas não provocam qualquer benefício a terceiros. Chama-se masturbação. Historicamente, as populações com menos instrução coisavam mais. Agora, os mais instruídos também coisam muito. E os jovens cada vez coisam mais. Em rigor, o coiso devia escrever-se com maiúscula para abranger ambos os géneros. Ou então dizer-se que os homens têm coiso e as mulheres têm coisa. O coiso e a coisa são diferentes. Em regra, a coisa é mais prolongada e pode repetir-se em períodos mais curtos de tempo. Periodicamente, são publicados os números do coiso. Sempre que o coiso aumenta (aqui deveria ter, naturalmente, utilizado maiúscula), gera-se grande agitação. Toda a gente quer ver o tamanho do coiso. E comentar o seu crescimento, embora ninguém tenha solução. No fundo, os comentadores nem coisam nem saem de cima. Em determinada altura, a análise sociológica reflectiu sobre o emprego. Marx teorizou sobre a coisificação do trabalho. Só no século XXI foi dado um salto qualitativo. Álvaro Santos Pereira coisificou o desemprego. Passos Coelho desenvolveu a utopia da oportunidade. Tal como o próprio Marx previra, a história repetiu-se. Como farsa.

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Perdi neurónios?

por Helena Sacadura Cabral, em 16.05.12

 

"O ministro da Solidariedade e Segurança Social diz que o desemprego é o maior problema do país e garante que a resposta está a ser estudada não só pelo seu Ministério como também pelo da Economia e Finanças. Uma das medidas que deverá entrar em vigor será a possibilidade de acumular o subsídio de desemprego com rendimentos do trabalho".

Alguém me explica a lógica desta decisão depois de todas as medidas restritivas anteriormente tomadas? Se há rendimentos de trabalho é porque há trabalho. Se há subsídio de desemprego é porque não há trabalho. Ou apenas trabalha quem tem emprego?!

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Up in the air.

por Luís Menezes Leitão, em 15.05.12

Aqui.

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Oportunidade.

por Luís M. Jorge, em 13.05.12

A questão não é a de sabermos o que os desempregados podem fazer por si, mas antes o que deve o primeiro-ministro fazer por eles. Para quem ouve Passos Coelho é sempre fácil esquecer que o país lhe confiou um trabalho, não a mesa de um café.

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Contextualizar

por José Maria Gui Pimentel, em 13.05.12

  1. O que o primeiro-ministro disse é um lugar-comum hoje em dia quando se fala de desemprego.

  2. Porém, é um lugar-comum que se ajusta mais a uma pessoa que fica desempregada numa conjuntura económica normal, não num período de recessão em que a procura interna contrai.

  3. Importa, ainda assim, contextualizar a declaração: esta aconteceu aquando da tomada de posse do Conselho para o Empreendedorismo e a Inovação, e pretende instar o país, que os números mostram ser muito pouco empreendedor, a melhorar nesse campo. Tendo em conta que este problema estrutural existe, comprovadamente, julgo ser difícil discordar de que se aconselhe alguns desempregados a arregaçarem as mangas e fazerem algo sozinhos.

  4. A política de comunicação do governo é, de facto, fraquíssima. Já as célebres afirmações da “pieguice” seriam mais compreensíveis se devidamente contextualizadas.

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É lamentável a cultura média de aversão à coerência dos políticos. O facto de alguém se candidatar a Primeiro-Ministro e de ser eleito não devia ser encarado como uma oportunidade para mudar de opinião de acordo com as suas conveniências. E o exercício do poder democrático não deveria ter de ser encarado pela sociedade como uma situação que fica estigmatizada nas pessoas. E mais, quem está na Oposição tem a obrigação de evitar a tentação de distorcer e de aproveitar qualquer coisa para querer fazer uma tensão enorme no país. Até porque o país está um bocadinho cansado de crises artificiais. É por tudo isto que dificilmente se compreende que Passos Coelho, que considerou, em Maio de 2011, uma taxa de desemprego de 12,4% como um valor extremamente elevado que representava um sinal evidente da crise profunda que estávamos a atravessar, transforme agora, menos de um ano depois, a tragédia social a que então se referia numa promissora oportunidade.

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Falar demais

por Ana Margarida Craveiro, em 11.05.12

Sobre as declarações do primeiro-ministro sobre desemprego, só me ocorre uma coisa: nem tudo o que se pensa, por mais verdadeiro que seja, se pode dizer em voz alta. Porque não somos todos bestinhas insensíveis, embriagados com powerpoints de empreendorismos e afins. Há desemprego, e desemprego. E se estas declarações podem ser verdade para alguns (admitindo que "mudar de vida" para um rapaz ou rapariga de 25/30 anos não é o fim do mundo), são uma ofensa para muitos outros, que aos 55 anos vêem o local de trabalho de uma vida inteira fechar, sendo que as oportunidades a mais de meio da vida tendem a não ser abundantes. Nem tudo o que se pensa pode ser dito, repito. 

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"Ó Piegas, o desemprego é uma oportunidade!"

por André Couto, em 11.05.12

"Estar desempregado não pode ser, para muita gente, como é ainda hoje em Portugal, um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma livre escolha também, uma mobilidade da própria sociedade", disse hoje o nosso visionário Primeiro-Ministro.

Os piegas, aqueles que não vivem na bolha dos Gabinetes e das Assessorias, nem viveram sempre para a Jota, ficariam imensamente felizes, não fosse a precariedade que os coloca em situações delicadas quando são despedidos, sem direitos nem protecção. Para além disto são ainda os afogamentos violentos em impostos e as barreiras insuperáveis ao empreendedorismo. Oportunidade? Onde? Como? É uma visão fofinha do desemprego, não fosse ser a do País das Maravilhas, não a do nosso.

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Surpreendente?!

por Helena Sacadura Cabral, em 03.04.12

A Comissão Europeia definiu esta terça-feira como "surpreendente" o aumento do desemprego em Portugal, declarando que é necessário "compreender melhor" os dados do país, um dia depois do Eurostat avançar uma taxa de 15 por cento de desemprego.

Surpreendente depois de todas estas medidas de austeridade? Estão a brincar connosco? Não sabem ser decentes?

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O gráfico do dia

por Rui Rocha, em 01.02.12

 

Tirado do Zero Hedge.

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Façam como eu: leiam devagar

por João Carvalho, em 18.05.11

O ainda secretário de Estado do Emprego, Valter Lemos, disse hoje que o aumento da taxa de desemprego "estava dentro das expectativas", ressalvando que "o contributo mais significativo foi de pessoas que não estavam à procura de emprego e que agora estão".

Querem isto mais bem explicado? Ok, lá vai: a subida do desemprego não tem interesse porque estava prevista; o que interessa é ressalvar que o desemprego só aumentou graças à contribuição esforçada e generosa de quem tinha emprego e agora não tem. Entendido?

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Está em discussão na Concertação Social uma proposta do Governo  no sentido de alterar as condições de compensação dos trabalhadores despedidos. Os contornos da proposta são, aparentemente, os seguintes: i) - será aplicável apenas aos contratos de trabalho celebrados a partir da entrada em vigor do diploma que regular a situação; fixará um tecto máximo para a indemnização (12 meses?) e alterará os próprios critérios de cálculo desta (20 dias por cada ano de antiguidade?); as indemnizações serão suportadas, em parte, por um fundo a financiar pelas empresas (ou pelos trabalhadores?). Estes dados são suficientes para apontar as seguintes críticas (retomo o que aqui escrevi aqui, com um ou outro comentário adicional):

  1. O objectivo da medida é aumentar a competitividade das empresas portuguesas por via de uma flexibilização dos despedimentos (não há dúvida que diminuir o custo de um despedimento tem como consequência torná-lo mais fácil). A flexibilização, a ser necessária, deveria começar pelos aspectos da contratação (flexibilização de horários, funcional, geográfica, etc.), Ou seja, devia-se estimular a criação de emprego e não a sua destruição.
  2. É alta a probabilidade de esta alteração estar ferida de inconstitucionalidade. O critério que determina a indemnização é a antiguidade. Não encontro nenhuma justificação para, dentro da mesma empresa, cada ano de antiguidade de A, admitido antes de determinada data, valer mais que um ano de B, admitido depois.
  3. Ao contrário do que se pretende, a medida vai gerar rigidez e não flexibilidade. Um trabalhador integrado no quadro de uma empresa há 10 anos terá menor incentivo para mudar de emprego. A mudança implicará um potencial indemnizatório inferior na nova empresa.
  4. Não se resolve qualquer problema de desfasamento do quadro que possa existir actualmente numa empresa. Esse desfasamento, a existir, diz respeito a trabalhadores que já integram os quadros hoje e aos quais a medida não se aplicará. Relativamente a estes, o problema terá que ser resolvido no quadro legal actual.
  5. Introduz mais uma grave ofensa ao princípio da solidariedade inter-geracional. Os novos contratos de trabalho serão, na maior parte dos casos, celebrados por jovens. A estes aplica-se um regime menos favorável. Para todos os outros, por acaso os que contribuem para os actuais níveis de produtividade, mantém-se um regime mais favorável.
  6. O custo do regime contributivo parcial que se pretende estabelecer vai repercutir-se, em qualquer caso, sobre os trabalhadores. Ou por via de uma contribuição directa ou, no caso de serem as empresas a suportá-la, através da degradação dos valores dos salários pelo montante correspondente.
  7. Mesmo que as empresas contribuíssem para o fundo e não repercutissem o custo adicional nos salários dos trabalhadores, estaríamos perante um aumento do custo da contratação (desincentivo, quando o que se pretende é estimular o emprego). Por outro lado, as empresas que mais contratarem serão as que vão suportar os custos das que mais despedirem, o que constitui um mecanismo perverso de repartição.
  8. Para quem tem dúvidas sobre quem governa o país e para todos os que se entusiasmam com batalhas heróicas de resistência ao FMI, deixo aqui estes dois documentos de leitura obrigatória:i) el FMI pide a España que rebaje la protección de los trabajadores fijos; ii) IMF Working Paper on Spanish Labor Market (se não se quiser ler tudo, vejam-se as conclusões que começam na página 19, dedicando-se especial atenção à pagina 20).

Para além do demérito intrinseco da proposta, importa ainda sublinhar a falência global da intervenção do Governo no mercado laboral que esta representa. Quando o melhor que se encontra para propor à sociedade são medidas activas de desemprego, é caso para acompanhar a indignação de Bagão Félix (hoje, na Antena Um, sobre o mesmo tema): a que ponto chegou o Estado Social!

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O Instituto Nacional de Estatística acaba de comunicar que vai alterar o método de recolha da informação sobre o desemprego. Incansável na sua luta pela qualidade da informação que disponibiliza, o INE decidiu substituir a recolha presencial de dados por entrevistas telefónicas. Para justificar esta medida, são elencadas várias razões. Umas mais atendíveis do que outras. É razoável admitir que o contacto pessoal, sobretudo nas grandes cidades, seja cada vez mais difícil. Claro que o contacto telefónico também pode não ser fácil (os telefones fixos são cada vez mais raros, os móveis são de utilização instável) e que a fiabilidade da informação obtida telefonicamente não parece ser igual à que resulta de um contacto pessoal. Aceita-se, todavia, que pode existir aqui uma vantagem. O que não se pode admitir é a consequência da alteração do método. E esta é, nem mais nem menos, a impossibilidade de comparar os dados históricos, recolhidos com o método anterior, com os que vierem a ser obtidos em 2011. Estamos a falar de dados importantes e relevantes. Se não fosse esse o caso, não se justificaria que o INE perdesse tempo a recolhê-los e a inovar. E a possibilidade de comparação é tão ou mais importante do que o conhecimento de valores instantâneos. Ora, quem trabalha com sistemas de informação sabe que é de elementar bom senso, quando se altera o método, estabelecer um período transitório. Durante alguns meses, o sistema antigo e o novo devem ser executados em paralelo. Tal prática é fundamental para validação dos dados recolhidos ou produzidos pelas novas ferramentas. Deste modo, só uma das seguintes conclusões é possível:

a) a gestão do INE é absolutamente irresponsável por não ter previsto um período de transição em que os dois sistemas deviam coexistir, facto ainda mais grave quanto é certo que nos dizem que a medida está prevista desde 2008 (não faltou tempo para preparar um processo adequado de substituição);

b) o INE está ao serviço de uma agenda política que tem como finalidade a ocultação de dados sobre a realidade do desemprego em Portugal.

Em qualquer dos casos é importante que não nos tomem por parvos.

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Lotaria de Ano Novo

por Rui Rocha, em 30.12.10

Número sorteado: Dois mil e onze.

Prémio: Seiscentos mil desempregados

 

Estamos todos habilitados.

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Notícias do "estado social" (5)

por Pedro Correia, em 15.09.10

Portugal mantém a quarta maior taxa de desemprego do conjunto dos 30 países membros da OCDE.

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Merece um coro de vuvuzelas

por Pedro Correia, em 02.07.10

Outra conquista de José Sócrates: um novo máximo histórico do desemprego em Portugal. Com os níveis europeus cada vez mais longe.

Recordo: este é o mesmo político que em Fevereiro de 2005, quando o PSD estava no governo e a taxa de desemprego era de 7,1%, se indignava com estas palavras veementes: "Este número é bem a marca de uma governação falhada, de uma economia mal conduzida".

Agora, com mais 3,8% de desempregados, chegou a altura de parafrasear o líder socialista na campanha para as legislativas de há cinco anos: estamos perante uma governação falhada.

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O PSD a votos (6)

por Pedro Correia, em 02.03.10

Libertar o futuro, como já aqui escrevi, é um slogan redondo e redundante. Qualquer adolescente candidato a uma Assembleia de Estudantes podia ter produzido um slogan destes. No país do desemprego galopante, o PSD precisa de soluções concretas para problemas muito concretos. A primeira dessas soluções é eleger um líder que una e mobilize o partido, pondo fim à permanente guerra civil em que se têm envolvido os sociais-democratas. Paulo Rangel, com a sua retórica insuflada de termos como "ruptura", promete acentuar as fracturas internas. Nessa medida, ele é o candidato que mais interessa ao PS.

 

ADENDA: Atenção ao debate desta noite entre Rangel e Passos Coelho, na SIC N. Análises e comentários surgirão aqui logo a seguir.

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A OCDE estima que no final de 2010 o desemprego em Portugal atinja 650 mil pessoas, o que significa que existirão mais 210 mil desempregados do que os contabilizados no final de 2007, segundo um relatório hoje divulgado.

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O tradutor de números

por João Carvalho, em 18.08.09

Cresce dramaticamente o número de desempregados. Inclusive o número oficial, que ninguém tem dúvidas de que é esmagado à custa dos mais diversos "truques". Toda a gente sabe que o Verão costuma atenuar estes dados, à custa do trabalho sazonal em torno do turismo, mas o mês de Julho alterou a tradição e registou um desemprego assustador.

Porém, o presidente do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) encarrega-se de traduzir à sua maneira a situação. Francisco Madelino acha que é mais importante sublinhar que há um abrandamento e até uma "estabilização do crescimento do desemprego". Por outras palavras: crescer, cresce, mas parece que agora está a crescer de modo mais regular! Junte-se a isto que o IEFP teria colocado este ano no mercado de trabalho 35 mil desempregados, além dos 307 mil desempregados que fez desaparecer dos seus centros de emprego.

Madelino também explica estas sucessivas limpezas das listas do IEFP: o desempregado encontra sozinho emprego, falta à convocatória dos centros de emprego, está em formação profissional, é alvo de medidas de emprego ou reforma-se. Todos nós podemos encontrar mais motivos: o desempregado emigra, morre, desiste, não recebe a convocatória do centro de emprego ou recebe e está doente sem poder deslocar-se, entre outros.

Motivos possíveis é o que não falta. O que falta são os motivos reais, que os parceiros sociais com assento no conselho de administração do IEFP exigem, mas que o conselho directivo do IEFP se recusa a divulgar, por achar suficiente o que já divulga.

Como é isto de termos um instituto com conselho directivo e conselho de administração? Contornos empresariais num instituto em que, afinal, o patrão é que manda sozinho? Será que o INE está a precisar de um tradutor de números? Eram dois ganhos: o INE ficava com a imaginação musculada de Madelino e nós livrávamo-nos da ginástica mental do presidente do IEFP.

 

Obs. — Há duas expressões nesta história que se enquadram no novo e infeliz linguajar dos nossos políticos e para-políticos: a estabilização do crescimento do desemprego e o empregado foi alvo de medidas de emprego. Até à geração anterior, toda a gente sabia dizer coisas destas com menos palavras, de modo escorreito e sem margem para dúvidas. É como 'estamos a vivenciar um período de crescimento negativo das exportações', 'estamos a proceder a averiguações para eventual abertura de um inquérito' e outras que tais.

A razão da mudança a que temos assistido é simples, neste como em todos os casos: eles não fazem e não querem dizer que não fazem, pelo que lhes resta dizer que fazem, mas sem que se perceba se fazem ou não fazem aquilo que deviam fazer e não fazem.

Concordam? Ou estarei a dizer alguma não-verdade?

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Toma lá mais desemprego

por Pedro Correia, em 14.08.09

José Sócrates, na campanha eleitoral de 2005, prometeu pôr a economia portuguesa a crescer a um ritmo anual de 3%. Como bem sabemos, esta promessa ficou pelo caminho - tal como todas as outras promessas quantificadas que lhe serviram de emblema nas últimas legislativas, dos impostos que não aumentavam e afinal aumentaram aos 150 mil postos de trabalho que iria criar mas não criou. Ontem, alguns dos seus maiores propagandistas embandeiraram em arco: a economia portuguesa registou um 'progresso' de 0,3% no segundo trimestre deste ano. Foi quanto bastou para o próprio Sócrates recuperar as habituais sessões de propaganda nos telediários, garantindo que a economia portuguesa está no rumo certo e blablablablá. Gostava de saber se o primeiro-ministro voltará hoje a aparecer nos noticiários televisivos a justificar as mais recentes cifras sobre o desemprego que contrariam as previsões do Executivo: a taxa de desemprego subiu para 9,1%, existem agora - oficialmente - mais de 500 mil portugueses sem trabalho. A população desempregada aumentou 23,9 por cento face ao segundo trimestre do ano passado (98 mil pessoas) e 2,4 por cento em relação do primeiro trimestre deste ano (mais 11,9 mil desempregados), revela o INE. Aguardo ansiosamente pela próxima aparição televisiva de Sócrates, um dos principais candidatos ao desemprego político de 2009.

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Promessas e reedições

por João Carvalho, em 25.07.09

Numa espécie de reedição pouco imaginativa do que fez antes, Sócrates prometeu resolver na próxima legislatura a situação dos 25 mil jovens desempregados que não têm direito ao  subsídio. Ora, se as promessas de Sócrates são o que se sabe, as promessas de emprego, essas, já começam a parecer uma fixação.

Quem está pouco contente com as ofertas de emprego de José Sócrates é Francisco Louçã, que o acusou de tráfico de influências por ter oferecido a Joana Amaral Dias um elevado cargo institucional se esta apoiasse as listas socialistas. Só que esta oferta de emprego especial tem mais que se lhe diga: a própria convidada já teve anteriores dificuldades para resistir às tentações recebidas de fora e nunca se sabe se não estaria disposta a reeditar o seu afastamento do BE. Talvez Louçã estivesse mais a avisá-la do que a falar para Sócrates.

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Mais pobres e menos felizes

por Jorge Assunção, em 19.05.09

 

A OCDE publicou este mês o relatório Society at a Glance 2009 onde, entre outras coisas, é possível ter acesso aos gráficos que acompanham este post referentes aos dados sobre a satisfação média que as pessoas desses países aparentam ter para com a vida que levam. O que há a destacar no primeiro gráfico? Entre os 30 países em causa, Portugal está na quinta posição a contar do fim no que toca à felicidade (isto até permite algum spin, afinal de contas, há outros em situação pior que a nossa). Mas antes de ir à situação portuguesa, ainda sobre a interpretação destes gráficos, Thomas Kostigen aproveita para tentar estabelecer uma relação entre impostos e felicidade, isto porque os países mais felizes, são países com elevadas taxas de tributação. Matthew Yglesias afirma, como é óbvio, que não pode ser o acto de pagar impostos a deixar as pessoas mais felizes. Por isso, segundo este, é mais plausível atribuir estas diferenças às desigualdade de rendimento, no sentido em que países que apresentem maior igualdade, tendem a ser mais felizes. Will Wilkinson contesta, isto porque, entre outras considerações, os Estados Unidos, com o seu nível de tributação baixo e desigualdade grande, aparecem relativamente bem colocados no ranking. Wilkinson questiona mesmo porque as desigualdades de rendimento dentro de um país afectariam a felicidade individual? Diz este, provocando, que "as pessoas não experienciam coeficientes de Gini. Preocupam-se é com o carro dos vizinho".

 

Mas o que me chamou a atenção nos dados foi este gráfico:

 

 

E o quê que este gráfico nos diz? Que entre todos os países em análise, Portugal destaca-se por ser aquele onde a felicidade entre 2000 e 2006 mais diminuiu. Não é só o facto de estarmos cada vez menos felizes, contrariamente à tendência, mas pior que isso, somos o que tem a variação mais negativa no período em questão (aqui não há nenhum spin que valha). A questão é: porquê? A Kostigen não posso recorrer, afinal de contas, se algo aconteceu em Portugal neste período no que toca a impostos, foi a subida destes (e o futuro promete mais subidas). A Yglesias talvez faça algum sentido recorrer, segundo consta a desigualdade aumentou na sociedade portuguesa no período em questão. Mas, para mim, a desigualdade só por si não explica a situação, acredito mesmo que num país onde aumente a desigualdade, mas todos os estratos sociais vejam a sua situação melhorar, a felicidade tenderá a aumentar. O problema português é que a nossa riqueza estancou, deixamos de criar riqueza como até então. E com isto largos sectores da sociedade não só viram estancar o seu nível de vida como, pior que isso, encontraram-se de um momento para outro, contrariamente às expectativas geradas, a empobrecer. E se os dados ficam por 2006, não me admiro que de lá para cá a situação tenha piorado. Digo mais, perante aquilo que o futuro nos reserva, temo pelo que será deste país.

 

Voltando ao carro do vizinho a que Wilkinson faz referência, mas tomando-o noutro sentido, estou verdadeiramente preocupado porque são cada vez mais os carros dos vizinhos parados na minha rua nos dias da semana. E isso transmite uma realidade espelhada nos números do desemprego que vão sendo divulgados a cada mês que passa. E mais preocupado estou porque algumas destas pessoas não aparentam qualquer expectativa de encontrarem novo emprego tão cedo. O que os preocupa não é quando voltarão a ter emprego, mas muito mais se o governo prolonga ou não o subsídio a que actualmente têm direito. E esta é uma questão que devia ser central num ano em que se disputam três eleições: desde quanto nós, portugueses, aceitamos de bom tom continuar a empobrecer de ano para ano. Desde quando a apatia triunfou sobre a esperança. E se é viável uma sociedade onde tantos dependem do dinheiro público para sobreviver. Foi Alexis de Tocqueville quem afirmou que "a República Americana vai durar até o dia que o Congresso descubra que pode subornar o público com o dinheiro público", uma frase que pode e deve ser repensada para esta República Portuguesa, versão século XXI.

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Aos demagogos do desemprego (4)

por André Couto, em 05.05.09

Não viro a cara a uma boa polémica. A discussão, em especial a política, é um bom condimento, entre outros, a ter na vida. Com este princípio respondi-lhe, Luís Naves.

Se enumerei apenas um dos seus textos foi porque esse tinha o link para o primeiro a que se refere e que li. Sabe bem disso porque lhe respondi também a esse.

Ademais diz, e com razão, que não me acusou de demagogia. É verdade, acusou de leviandade. Respondi-lhe ao texto com nova sugestão de demagogia e justifiquei. Dou-lhe vários argumentos e se fizer as contas enumerei bem mais argumentos ditos factuais que o Luís. Se questões de fé aqui existirem, não serão certamente (apenas) minhas.

Já critiquei neste blog como noutros a atitude de muita gente ligada ao PS. Nesse campo nada tenha a provar.

Não preciso de visitar um centro de emprego porque sei o que lá se passa. Se há coisa de que me orgulho nas disputas políticas é a de ter uma espinha dorsal ideológica ligada às preocupações sociais. Relembro que toda esta polémica, que o Luís apanhou a meio, nasceu porque houve uma comparação entre 2005 e 2009 e apenas aí trouxe a demagogia. Jamais me mostrei agradado ou elogiei a situação actual.

Tenho pena que não me responda mas isso é naturalmente uma opção sua. Eu compreendo.

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Desemprego de longa duração

por Jorge Assunção, em 05.05.09

 

A propósito deste post do André Abrantes Amaral, com o qual concordo, convém olhar para os dados do quadro acima que deixam tudo mais claro. Muitas vezes no debate sobre o desemprego há quem não perceba que iguais taxas de desemprego podem esconder realidades sobre o mesmo bastante distintas. Em Portugal, dada a legislação laboral pouco flexível, o desemprego é um problema muito maior do que noutros países. A empresa, sabendo da dificuldade que a legislação coloca ao despedimento, pensa duas vezes antes de contratar alguém. Da mesma forma o trabalhador, conhecendo a dificuldade em encontrar novo trabalho, raramente arrisca abandonar uma empresa mesmo quando não se sente satisfeito com o trabalho que lá desenvolve [a propósito, refira-se este gráfico]. Quando tanto se fala no combate ao desemprego, talvez fosse boa ideia começar a ponderar seriamente combater de forma eficaz este problema social gravíssimo que é o desemprego de longa duração.

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Aos demagogos do desemprego (3)

por André Couto, em 05.05.09

O Luís Naves do Corta-Fitas respondeu ontem a dois textos meus intitulados "Aos demagogos do desemprego (1) e (2)".

Utilizou vários argumentos para me devolver a acusação de demagogia e todos devolverei acompanhados da respectiva fundamentação.

Comecemos pela análise do exemplo Irlandês. Se em 2009 o rendimento per capita da Irlanda é duas vezes superior ao português, em 2005 já o era. Se a rede social irlandesa é melhor que a nossa, o que não dou por adquirido, em 2005 já o seria. Se hoje pagamos os mesmos impostos, em 2005 pagávamos mais. O exemplo Irlanda de pouco vale. Em tempos de prosperidade eles vivem melhor, em tempos de crise viverão menos mal. Se reparar só me referi à Irlanda por ser o case study, qual cobertor do Charlie Brown de Paulo Portas, em tudo o que são sessões parlamentares de ataque ao Governo.

Louvo a acção do Governo por desenvolver medidas excepcionais, no sentido de amenizar as consequências da crise nos mais desfavorecidos e/ou desempregados. Dou-lhe como breves exemplos:

1. Aumento ímpar do salário mínimo, o tal que "roça a irresponsabilidade", nas palavras da Dra. Manuela Ferreira Leite;

2. Extensão do subsídio social de desemprego de 12 para 18 meses;

3. Genéricos gratuitos para mais de um milhão de pensionistas;

4. Demonstração de vontade de que os gestores de empresas falidas tenham acesso ao subsídio de desemprego, o que tem esbarrado nos Sindicatos;

5. Linha de apoio para o crédito à habitação de trabalhadores entretanto desempregados;

E como sabe podia trazer-lhe bastantes mais.

Servem os pontos 1., 2., 4., e 5., para lhe justificar porque é que não é o mesmo ficar sem emprego em Portugal e na Irlanda.

Os meus posts nascem com a comparação que foi feita com o ano de 2005. Quanto a isto, permita-lhe que lhe diga, a melhor pergunta e contra-argumentação que recebi foi a do Jorge Assunção, na caixa de comentários dos posts que aqui coloquei. Pode ir lá. Digo-lhe desde já que discordo dele, como poderá ler.

Se me refiro a "demagogos do desemprego" é por às vezes não compreender as reacções. O desemprego cresce menos em Portugal que no resto da Europa, o Luis vê nisto um indicador puramente negativo e eu é que sou o demagogo?

Demagogia é:

1. Colocar dois posts relativos ao desemprego e nunca referir a expressão "conjuntura internacional", ou afim;

2. Nesses mesmos dois posts não referir quaisquer medidas de apoio aos mais desfavorecidos e/ou desempregados do actual Governo, que foram únicas nos últimos anos;

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Europeias (15)

por Pedro Correia, em 04.05.09

 

  

SEGUNDAS-FEIRAS AO SOL 

 

Esta campanha para as eleições europeias está contaminada pela crise económica. E, dentro da crise, o debate centra-se na grande questão política do momento que atravessa todo o continente: o dramático aumento do desemprego. Em nenhum país estas cifras são mais dramáticas do que em Espanha, o principal parceiro económico de Portugal. Nesta matéria, a sensação dominante é que o Executivo de José Luis Rodríguez Zapatero, ainda há um ano apontado como um exemplar governante de centro-esquerda e um expoente do “verdadeiro” socialismo, se encontra à beira do colapso. E a afundar o país com ele. O número de desempregados em Espanha ultrapassa, pela primeira vez, os quatro milhões de pessoas – cifra nunca antes atingida desde que estas estatísticas começaram a ser divulgadas com regularidade no país vizinho, em 1976. A taxa de desemprego espanhola atinge os 17,36% da população activa – de longe a maior da Europa na actualidade. E, soube-se hoje, a Comissão Europeia já prevê que esta percentagem suba para 20,5% no próximo ano.

Como sublinha o El Mundo, com Zapatero assiste-se à retirada diária de 8920 trabalhadores do mercado laboral – ao ritmo de seis novos desempregados por minuto e 400 por hora. Catalunha, País Valenciano e Múrcia duplicaram o número de desempregados num ano. Na Andaluzia, a taxa de desemprego disparou já para os 24%. “Entre Janeiro e Março de 2009 destruiram-se 766 mil postos de trabalho, a pior cifra da História”, salienta o El Mundo. Pior do que na Alemanha de 1974, gravemente afectada pelo choque petrolífero que então provocou 945 mil novos desempregados – em Espanha, no ano passado, houve 999.416. Pior ainda do que a catastrófica República de Weimar, que antecedeu a chegada de Hitler ao poder em Berlim. Entre o início de 1932 e o início de 1933, a Alemanha pré-nazi registou 1.300.000 desempregados – número claramente inferior aos 1.836.500 desempregados da Espanha “socialista” de 2008.

Há quem pretenda aproveitar a campanha para “discutir a Europa”. Inútil iludir a realidade política com rodeios semânticos: “discutir a Europa” neste momento concreto é, fundamentalmente, debater as causas e consequências do desemprego. Quem não percebe isto não percebe nada.
 
Foto: Javier Bardem em 'Los Lunes al Sol' (2002), de Fernando León de Aranoa. Um dos melhores filmes que já vi sobre o drama do desemprego.

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Aos demagogos do desemprego (2)

por André Couto, em 03.05.09

Depois de eu ter dito isto, diz-nos o último Semanário Económico que "Portugal é o País da União Europeia onde o desemprego menos subiu", segundo dados do Eurostat.

Gostava de saber onde se escondem por esta altura os paladinos do desemprego que todas as semanas enchiam os jornais, televisões e afins. Calculo igualmente que, se uma análise fizessem, este facto já não fosse da responsabilidade do Primeiro-Ministro...

 


(Imagem rapinada ao Câmara Corporativa)

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Aos demagogos do desemprego

por André Couto, em 30.04.09

Acho uma certa piada aos demagogos do desemprego, aqueles que acham que Portugal é imune à conjuntura económica que o rodeia e, plenos política barata, disparatam constantemente sobre o tema.
Compreendo que a história por vezes é cruel e muito difícil de digerir, afinal, em 2005, quando o desemprego descia em todo o lado, aumentava em Portugal. Não era?
Mas porque já estamos em 2009 e 2005 é um pesadelo passado, tomei a liberdade de "roubar" ao Jorge Assunção esta tabela, para partilhar a convosco minha reflexão.
Analisando a evolução 2007-2010 das taxas de desemprego, vemos que a Irlanda, exemplo de comparação tão querido do CDS/PP, vê a sua galopar 8,5%. Espanha, nossa vizinha embora isso nada releve para alguns, vê a sua disparar 11%, sendo que em 2007 era apenas três décimas superior à de Portugal.
Cá no Burgo, e segundo previsão do insuspeito Fundo Monetário Internacional, a taxa de desemprego cresce "apenas" 3%...

Se é o cenário desejável? Não, não é. Mas se em 2005, quando tudo estava internacionalmente saudável, o desemprego crescia em Portugal, imagino velocidade de crescimento superior à da luz hoje em dia, caso o PSD fosse governo.

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E a culpa é do Sócrates?

por Jorge Assunção, em 26.04.09

 

Pois, não sei. Não digam é que a situação portuguesa é semelhante à da maioria dos restantes países da Europa. Curiosamente, para provar o argumento, recorrem invariavelmente à comparação com Espanha, como a tabela demonstra, não por acaso...

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