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E isto para não chegar a lado nenhum

por Bandeira, em 18.04.16

José Bandeira - Pilos, Messénia, Grécia
Região de Pilos, Messénia, Grécia (Foto José Bandeira) 


Garantir que os gregos não inventaram a democracia como hoje a conhecemos é dizer que os sumérios não inventaram a jante de liga leve. Depois de uns Bushmills dá para aceitar, mas há necessidade? Fiel a mim mesmo, serei pedante e lembrarei que até os romanos, cuja civilização em certa medida se construiu contra a dos gregos (leia a Eneida outra vez, vá), perceberam a relevância do tremendo legado. E se Popper apodou Platão de totalitarista, não deixou de escrever também que a primeira filosofia grega era quase “demasiado boa para ser verdade”.

 

Em Os Cavaleiros, o poeta (muito) cómico Aristófanes arrasa Cléon, o grande demagogo da democracia ateniense. Eleito em acalorada discussão comandante militar, Cléon acabara de chegar de Pilos com mais de trezentos espartanos acorrentados e, sobretudo, humilhados; gente nada habituada a tratos de polé. Eis que a cidade se vê já a vencer a guerra (se quer saber, não a venceu) mas Aristófanes arrasa o seu próprio líder, ao mesmo tempo que retrata os seus conterrâneos, o povão ateniense, com condescendência aristocrática (quase todas as fontes que nos chegaram do período democrático, incluindo Aristófanes, são de certa forma hostis à democracia, quando não admiradoras confessas do regime totalitário em vigor em Esparta). Superando uma ou outra dificuldade – o autor queixa-se de não ter encontrado quem se dispusesse, com receio de represálias, a fazer-lhe uma máscara de Cléon –, a peça foi a concurso no teatro de Dioniso e ganhou o primeiro prémio.

 

O primeiro prémio! Mas então esse Cléon, tratado na aba da Acrópole de corrupto e ladrão por um poeta cómico aplaudido por uma multidão em delírio, perdeu o poder, certo? É claro que não. O mesmo povo que deu o primeiro prémio a Aristófanes colou as costas do seu demagogo ao espaldar da cadeira do poder. Pelos padrões de hoje, tudo perfeitamente normal. Até na parte em que Aristófanes, apesar de um processo ou outro nos tribunais, se permitia usar de liberdade de expressão, uma coisa que a gente se habituou a achar muito recente, muito nossa, muito luxo de primeiro mundo.

 

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Aos papéis

por João Campos, em 15.04.16

A história dos Panama Papers promete ser longa (até porque por cá o Expresso e a TVI parecem querer fazer render o peixe enquanto a montanha dá à luz uma ninhada de ratos), sinuosa e particularmente dada à demagogia - o assunto será decerto mais complexo para as perspectivas a preto e branco da maioria dos paineleirostudólogos da televisão portuguesa. Claro que noções de complexidade e de nuance são coisas que pelos vistos escapam à TVI, aparentemente determinada em falar do caso nos mesmos moldes, mas com linguagem menos refinada, dos programas de comentário futebolístico que infestam os três canais de notícias do cabo. Faz lembrar aquela bela expressão inglesa: if you can't dazzle them with brilliance, baffle them with bullshit. É mesmo a única explicação que encontro para a emissora de Queluz se ter lembrado, para comentar o caso em horário nobre, de Marinho Pinto e Raquel Varela. 

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Lex talionis

por Rui Rocha, em 03.07.15

Os que louvam Tsipras, omitindo que este enganou os eleitores gregos ao prometer o que sabia não estar nas suas mãos cumprir, deviam ser obrigados a fazer campanha por Passos Coelho.

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Perfeitos demagogos

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.03.15

Creio que se há coisa que os portugueses abominem, daquilo que conheço deles, é que os políticos queiram fazer deles uns trouxas sempre prontos a engolirem todas as baboseiras que lhes digam. Em períodos eleitorais as medidas dos incumbentes que estão de partida reproduzem-se como cogumelos. Um verdadeiro maná que de se repete antes de cada ciclo eleitoral.

Deixarei a discussão dos méritos e deméritos do Programa VEM, que talvez devesse antes chamar-se "VEM E VAI", para os especialistas. Como cidadão aquilo que me chamou mais a atenção foi a forma como se anunciou, qual pote de ouro no final do arco-íris, uma rubrica dedicada aos portugueses emigrados que se encontram em situação de desemprego de longa duração num país terceiro.

O apoio a esses nossos compatriotas não é despiciendo e bom seria que todos pudessem ser apoiados. Porém, o que de todo me intriga e não percebo é outra coisa. Sabendo que a maior parte desses portugueses que estão situação vulnerável no estrangeiro são, em regra, pessoas pouco qualificadas de sectores como a construção civil, restaurantes ou serviços de limpeza, que estão inscritos em centros de emprego, muitos em países que pagam generosos subsídios de desemprego, que sentido tem fazê-los regressar nas condições propostas? Para irem fazer cursos de seis meses enquanto se alojam em casas de familiares? Certamente não se ignora que muitos desses deixaram de pagar as prestações dos empréstimos aos bancos, ficaram sem casa e sem dinheiro. E depois de concluído o Reactivar regressam à situação anterior se não encontrarem trabalho? E ao fim dos seis meses, após as legislativas, voltam a engrossar as estatísticas do desemprego? De maneira a que o aumento desses números sobre para a factura dos que se seguirão? Ou o Governo pensou também numa solução para no final dos seis meses os fazer de novo sair do país?

De facto, é preciso ter muita falta de vergonha para depois de ter deixado o desemprego em Portugal atingir os números que atingiu, não havendo até agora uma redução substancial desse número, pelos menos para os níveis de há meia dúzia de anos, ainda haja quem se proponha de forma tão leviana e demagoga, com a maior desfaçatez do mundo, resolver os problemas laborais dos que tiveram de sair do país por falta de trabalho sem antes se encontrar uma solução aceitável para que os ficaram.

Sim, porque em relação aos qualificados com trabalho ninguém troca uma situação confortável numa empresa ou universidade estrangeira para ir estiolar a contar o que sobra para pagar impostos e contribuições numa qualquer tabanca nacional em que até as compressas, as seringas, o papel e as fotocópias são a conta-gotas e controlados por um qualquer burocrata lá colocado pelo partido.    

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Renaming the Troika into Institutions, the Memorandum of Understanding into   Agreement and the lenders into partners, you do not change the previous situations as in the case renaming meat into fish.

Of course, you cannot change the vote of the Greek people at the elections of January 25, 2015.

The people voted in favor of what SYRIZA promised: to remove the austerity which is not the only strategy of the oligarchic Germany and the other EU countries, but also the strategy of the Greek oligarchy.

To remove the Memoranda and the Troika, abolish all laws of austerity.

The next day after the elections, we abolish per law the Troika and its consequences.

Now a month has passed and the promises have not turned into practice.

Pity. and pity, again.

On my part, I APOLOGIZE to the Greek people because I have contributed to this illusion.”

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Pudor

por Pedro Correia, em 08.01.15

Há sempre um sociólogo pronto a invocar causas "sociais" como factor atenuante para os autores dos crimes mais sórdidos. Se o sociólogo estiver de folga, avança o psicólogo de plantão, evocando os traumas sofridos na infância como caução moral dos actos criminosos cometidos na idade adulta.

Na ausência episódica de ambos, logo emerge uma voz oriunda da classe política a dizer não importa o quê numa resignada complacência perante a barbárie. Ontem, nesta ronda, coube o turno à eurodeputada Ana Gomes. A responsabilidade dos homicídios que semearam o terror em Paris, garante a intrépida socialista, dilui-se nas "políticas de austeridade anti-europeias".

Ainda nauseados pelos ecos do brutal atentado perpretado no coração da pátria do racionalismo por elementos da guarda avançada do terror, testemunhamos o protagonismo de quem se aproveita dos cadáveres de mártires da liberdade de expressão para difundir a demagogia mais rasteira.

Nestes momentos em que somos confrontados com a face do mal no seu horror absoluto apetece implorar a certas vozes que se calem em nome do mais elementar, recomendável e misericordioso pudor.

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O futebol português segue de vento em popa

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.06.14

Depois do habitual espectáculo, volta tudo à rotina habitual. Em pouco mais de duas semanas, o balão esvaziou e o comboio ficou sem passageiros. Continua o mesmo maquinista. E do mesmo sindicato.

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Fernando, o comendador polivalente

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.05.14

Fernando Seara anunciou a sua candidatura à Liga de Clubes. Ainda não fez um ano que foi eleito para exercer o lugar de vereador da Câmara de Lisboa para um mandato de quatro anos e já está a preparar-se para dar o salto, uma vez mais deixando enganados os eleitores que o elegeram para cumprir o mandato, depois de ter jurado a pés juntos que iria ficar na autarquia.

O homem que desde há anos é especialista em todas as áreas, nunca dando o dito por não dito, do comentário televisivo futebolístico à presença assídua em jornais, sem esquecer a militância política, primeiro no CDS, depois no PSD, passando pelo exercício de cargos partidários, parlamentares e autárquicos, a advocacia, gabinetes ministeriais, o exercício da docência e o conselho de opinião da RTP; e que ficou ultimamente conhecido por liderar o "comboios dos parolos" no Copacabana Palace, predispôs-se agora a ocupar a presidência da Liga de Clubes.

Os benfiquistas até podiam ter razões para estarem satisfeitos. Eu desconfiaria. O candidato é a imagem acabada da demagogia populista e um espelho da proximidade entre a política, a bola, a construção civil e a comunicação social. Por mais sério que seja, e consta que nesse aspecto é irrepreensível, é um daqueles casos em que a personalidade pública e o currículo académico, profissional e político acabam por falar contra si. Não por ser irrelevante, mas pela polivalência. Pela facilidade com que num estilo moluscóide salta de um lugar para outro e a tudo se adapta com um sorriso e uma palavra simpática. Se a tudo isso juntarmos uma passagem por um colégio universitário ligado aos franciscanos e uma escola militar, está encontrado o homem ideal para nadar no pântano do futebol nacional, fazendo acordos com o mesmo à-vontade a norte e a sul, no interior e no litoral.

Pelo menos desta vez não corre o risco de voltar a ser humilhado nas urnas com a camisola do PSD. Basta-lhe fazer as habituais promessas e negociar apoios, coisa que já começou a fazer prometendo um rendimento mínimo para os clubes e um pacote fiscal, tanto mais que a troika já fez as malas. Para quem diz que vai unir e credibilizar parece-me um mau começo. Ou bom, dependendo da perspectiva. Unir é capaz de conseguir, nem que seja pela distribuição de euros em tempo de vacas magras. Credibilizar, com o seu currículo e exemplos recentes, é que será outra conversa. Se no fim faltarem os euros para distribuir a culpa será do Governo, dos clubes, de alguém lá mais para a frente. E assim se vai perdendo o talento e o que ainda restava de simpatia pela personagem.

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Ficamos todos mais descansados

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.01.14

"O tempo da demagogia, do reino dos demagogos, terminou";

"Acabou o tempo de ganhar eleições a sacrificar as próximas gerações"

Paulo Portas, XXV Congresso do CDS

 

Nem aquele rapaz de que falava o Rui Rocha, o Zezito, seria capaz de dizê-lo com tanta convicção. O país agradece.

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