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Delitos Poéticos

por Patrícia Reis, em 28.10.14

 

Poema e imagem Filipa Leal

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Delitos poéticos

por Patrícia Reis, em 30.09.14


Vem à Quinta-feira.



É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja

ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris

for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a Guimarães

assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.


Vem à Quinta-feira.


A seguir, temos ainda a Sexta e talvez me esperes à porta do emprego,

e talvez fiques para Sábado e Domingo, e talvez o mundo pare

de acabar tão depressa.


Vem à Quinta-feira.

Mas não venhas nesta, vem na próxima.

Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso

profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê hipótese de irmos

a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo

para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,

para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.


Vem à Quinta-feira e não te demores.

Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista

(sabes como gosto de pensar em tudo

ao mesmo tempo)

e afinal o que me falta fazer contigo 

não é caro:

- viajar de auto-caravana,

- dançar pela Estrada Nacional,

- ver-te chorar.

Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.


Vem à Quinta-feira.


Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.

Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as fiteiras,

eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona.

Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.

Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.

Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor

- ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.


Temos ainda tanto para fazer.

Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa Quinta.


Filipa Leal, in "21 Cartas de Amor"

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Delitos poéticos (balanço 2)

por Pedro Correia, em 04.08.14

No início de Julho lançámos aqui no DELITO mais uma série colectiva sob o título genérico Delitos poéticos. Uma série destinada a divulgar, todos os dias, um poema escolhido por cada um dos autores do nosso blogue acompanhado por um quadro, uma gravura ou uma fotografia a ele associado de alguma forma.

A primeira ronda desta série ficou assinalada aqui. Ontem fechámos a segunda ronda, com estes poemas:

 

«Engordei 43kg», de Adília Lopes. Escolha da Francisca Prieto.

«Há uma gramática aberta», de Nuno Júdice. Escolha da Patrícia Reis.

Casa branca, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Escolha da Teresa Ribeiro.

Ao fim, de Amalia Bautista, tradução de Joaquim Manuel Magalhães. Escolha do José Navarro de Andrade.

Nas ervas, de Eugénio de Andrade. Escolha da Helena Sacadura Cabral.

Poema para Galileu, de António Gedeão. Escolha minha.

Impossível regresso, de Jorge de Sena. Escolha da Ana Vidal.

«De sob o cômoro quadrangular», de Camilo Pessanha. Escolha do Sérgio de Almeida Correia.

O ofício da poesia, de José Alberto Marques. Escolha do Rui Herbon. 

From whom the bell tolls, de John Donne. Escolha do Luís Menezes Leitão.

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Delitos Poéticos (34).

por Luís Menezes Leitão, em 03.08.14
FOR WHOM THE BELL TOLLS

No man is an island, Entire of itself. Each is a piece of the continent, A part of the main. If a clod be washed away by the sea, Europe is the less. As well as if a promontory were. As well as if a manner of thine own Or of thine friend’s were. Each man’s death diminishes me, For I am involved in mankind. Therefore, send not to know For whom the bell tolls, It tolls for thee.

John Donne
Guernica, de Pablo Picasso

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Delitos poéticos (33)

por Rui Herbon, em 02.08.14

[The Poet, Gregory Eanes]

 

O OFÍCIO DA POESIA

 

O ofício da poesia é itinerante, como o seu desígnio.

Antes fosse o silêncio do poeta no triclínio.

 

Porque pelo amor viajante, ao som longo do piano, a compasso

Melhor fora o poeta consumir a eternuridade pelo espaço.

 

Mas ele sabe que há balas, cenas!, semas!

Para matar e para morrer sem poemas.

 

Então o ofício do poeta, sendo crente, é enrolar-se

Num corpo de explosivos à AL QAEDA

 

E jogar o destino num corpo amante

Como se fora um deus menor tecido a seda.

 

 

José-Alberto Marques

Hiperlíricas, 2004

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Delitos poéticos (32)

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.08.14

(George Chinnery, Macao Buildings on the Praia Grande)

 

 

De sob o cômoro quadrangular
Da terra fresca que me há-de inumar,

E depois de já muito ter chovido,
Quando a erva alastrar com o olvido,

Ainda, amigo, o mesmo meu olhar
Há-de ir humilde, atravessando o mar,

Envolver-te de preito enternecido,
Como o de um pobre cão agradecido.

(Camilo Pessanha)

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Delitos poéticos (31)

por Ana Vidal, em 31.07.14

 

(Instalação de Rebeca Horn)

 

IMPOSSÍVEL REGRESSO

 

Quando no fim
aquele tema torna, não é para encerrar
num círculo fechado uma odisseia em teclas,
mas para colocar-nos perante a lucidez
de que não há regresso após tanta invenção.

Jorge de Sena, "Bach:Variações Goldberg", ARTE DE MÙSICA

 

 

(Glenn Gould - Goldberg Variations var.26-30 & Aria Da Capo)

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Delitos poéticos (30)

por Pedro Correia, em 30.07.14

 

Retrato de Galileu Galilei (Justus Sustermans, 1636) 

 

POEMA PARA GALILEU

António Gedeão

 

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… Eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileu Galilei!

 

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

 

Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileu!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

 

Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

 

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

 

Estava agora a lembrar-me, Galileu,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

 

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.


Ai, Galileu!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.


Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.


Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

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Delitos poéticos (29)

por Helena Sacadura Cabral, em 29.07.14
("Apolo e Ciparisso", Claude-Marie Dubuffe)
 
Nas ervas

Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.

porque é terrivel
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.

Poema de Eugénio de Andrade

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Delitos Poéticos (28)

por José Navarro de Andrade, em 28.07.14

AO FIM

  

Ao fim são muito poucas as palavras

Que nos doem a sério e muito poucas

As que conseguem alegrar a alma.

São também muito poucas as pessoas

Que tocam nosso coração e menos

Ainda as que o tocam muito tempo.

E ao fim são pouquíssimas as coisas

Que em nossa vida a sério nos importam:

Poder amar alguém, sermos amados

E não morrer depois dos nossos filhos.

 

Amalia Bautista (tradução de Joaquim Manuel Magalhães)

 

Alberto Burri, “Rossa plastica”, 1964

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Delitos poéticos (27)

por Teresa Ribeiro, em 27.07.14

 

 Rooms by the sea (Edward Hopper)

 

CASA BRANCA

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Casa branca em frente ao mar enorme,

Com o teu jardim de areia e flocos marinhas

E o teu silêncio intacto em que dorme

O milagre das coisas que eram minhas.

 

A ti eu voltarei após o incerto

Calor de tantos gestos recebidos

Passados os tumultos e o deserto

Beijados os fantasmas, percorridos

Os murmúrios da terra indefinida.

 

Em ti renascerei num mundo meu

E a redenção virá nas tuas linhas

Onde nenhuma coisa se perdeu

Do milagre das coisas que eram minhas.

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delitos poéticos (26)

por Patrícia Reis, em 26.07.14

Há uma gramática aberta
no teu corpo, e soletro cada palavra
que o teu olhar me oferece.

Limpo as sílabas que te
escorrem pelo rosto com um lenço de

vidro, descobrindo a tua transparência.

E sais de dentro de um pó de
advérbios, para que eu te dê um nome,
e a vida volte a correr por ti.

 

Poema Nuno Júdice, fotografia minha

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Delitos Poéticos (25)

por Francisca Prieto, em 25.07.14

Engordei 43 Kg


de 86 para cá


agora

gorda como estou


já caibo

num quadro de Rubens


(segundo o Osório Mateus


no meu caso

era mais fácil

entrar para o quadro

de um pintor

que para o quadro

de uma empresa)

 

Adília Lopes

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Delitos poéticos (balanço)

por Pedro Correia, em 24.07.14

No início deste mês, lançámos aqui no DELITO mais uma série colectiva sob o título genérico Delitos poéticos. Uma série destinada a divulgar, todos os dias, um poema escolhido por cada um dos autores do nosso blogue acompanhado por um quadro, uma gravura ou uma fotografia a ele associado de alguma forma.

Fechamos hoje a ronda da primeira série, em que quase todos participaram, e iniciamos já amanhã a segunda ronda. Fica o balanço dos poemas publicados, com a promessa aos leitores: esta série veio para ficar.

 

Ninguém se mexa! Mãos ao ar, de Alexandre O'Neill. Escolha do José Navarro de Andrade.

Queixa das almas jovens censuradas, de Natália Correia. Escolha da Helena Sacadura Cabral.

Ilegais, de João Luís Barreto Guimarães. Escolha da Ana Vidal.

Um adeus português, de Alexandre O'Neill. Escolha da Teresa Ribeiro.

Com licença poética, de Adélia Prado. Escolha da Francisca Prieto.

You are welcome to Elsinore, de Mário Cesariny. Escolha do Rui Herbon.

Omeleta, de Nuno Júdice. Escolha do Adolfo Mesquita Nunes.

Canção da errância, de Manuel Alegre. Escolha do Luís Menezes Leitão.

Pedro, lembrando Inês, de Nuno Júdice. Escolha do André Couto.

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya, de Jorge de Sena. Escolha minha.

«Caí ao lado dele, o seu corpo virou-se», de Miklos Radnoti. Escolha do Luís Naves.

Los nadies, de Eduardo Galeano. Escolha do Rui Rocha.

«Morde-me a carne e em segredo», de Luísa Jardim. Escolha da Patrícia Reis.

Posteridade, de Rui Knopfli. Escolha do Sérgio de Almeida Correia.

"Eleonora di Toledo, Granduchessa di Toscana", de Bronzino, de Jorge de Sena. Escolha da Ivone Mendes da Silva.

O Portugal futuro, de Ruy Belo. Escolha da Ana Cláudia Vicente.

O sorriso, de Eugénio de Andrade. Escolha do João André.

«O que eu desejei, às vezes», de António Botto. Escolha da Marta Spínola.

«Habito na Possibilidade», de Emily Dickinson. Escolha do Fernando Sousa.

The Second Coming, de Yeats. Escolha da Ana Margarida Craveiro.

Cuidados intensivos III, de Manuel António Pina. Escolha do Bandeira.

«Muere lentamente», de Pablo Neruda. Escolha da Joana Nave.

«Some men never think of it», de Wendy Cope. Escolha da Leonor Barros

Lady Lazarus, de Sylvia Plath. Escolha do João Campos.

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Delitos poéticos (24)

por João Campos, em 24.07.14

Pintura de Katsushika Hokusai no tecto do templo de Ganshoin em Obuse, no Japão

 

 

I have done it again.
One year in every ten
I manage it—

 

A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot

 

A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.

 

Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify?—

 

The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.

 

Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

 

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

 

This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.

 

What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see

 

Them unwrap me hand and foot—

The big strip tease.
Gentlemen, ladies

 

These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,

 

Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.

 

The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut

 

As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.

 

Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

 

I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I’ve a call.

 

It’s easy enough to do it in a cell.
It’s easy enough to do it and stay put.
It’s the theatrical

 

Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:

 

‘A miracle!’
That knocks me out.
There is a charge

 

For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart—
It really goes.

 

And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood

 

Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.

 

I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby

 

That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.

 

Ash, ash—
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there—

 

A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.

 

Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.

 

Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.

 

Lady Lazarus, de Sylvia Plath 

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Delitos poéticos (23)

por Leonor Barros, em 23.07.14

 

 

Some men never think of it.

You did.

You’d come along

And say you’d nearly brought me flowers

But something had gone wrong.

 

The shop was closed. Or you had doubts -

The sort that minds like ours

Dream up incessantly. You thought

I might not want your flowers.

 

It made me smile and hug you then.

Now I can only smile.

But, look, the flowers you nearly brought

Have lasted all this while.

 

Wendy Cope

 

 

 

Imagem: Diego Rivera, "Nude with calla lilies"

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Delitos poéticos (22)

por Joana Nave, em 22.07.14

 Campo de Papoilas em Argenteuil - Jean Monet

 

Muere lentamente
quien se transforma
en esclavo del hábito,
repitiendo
todos los días
los mismos trayectos.

Quien no cambia de marca,
no arriesga vestir
un color nuevo
y no le habla
a quien no conoce

Muere lentamente
quien hace
de la televisión su gurú.

Muere lentamente
quien evita una pasión,
quien prefiere
el negro sobre blanco
y los puntos sobre las “íes”
a un remolino de emociones,
justamente las que rescatan
el brillo de los ojos,
sonrisas de los bostezos,
corazones a los tropiezos
y sentimientos.

Muere lentamente
quien no voltea la mesa
cuando está infeliz
en el trabajo,
quien no arriesga
lo cierto por lo incierto
para ir detrás de un sueño,
quien no se permite
por lo menos una vez en la vida,
huir de los consejos sensatos.

Muere lentamente
quién deja escapar un posible amor,
con tal de no hacer el esfuerzo
de hacer que éste crezca.
Muere lentamente
quien no viaja,
quien no lee,
quien no oye música,
quien no encuentra
gracia en si mismo.

Muere lentamente
quien destruye su amor propio,
quien no se deja ayudar.

Muere lentamente,
quien pasa los días quejándose
de su mala suerte
o de la lluvia incesante.

Muere lentamente,
quien abandonando
un proyecto
antes de empezarlo,
el que no pregunta
acerca de un asunto
que desconoce
o no responde
cuando le indagan
sobre algo que sabe.

Evitemos la muerte
en suaves cuotas,
recordando siempre
que estar vivo
exige un esfuerzo
mucho mayor
que el simple hecho
de respirar.

Solamente
la ardiente paciencia
hará que conquistemos
una espléndida felicidad.

 

Pablo Neruda

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Delitos Poéticos (21)

por Bandeira, em 21.07.14

CUIDADOS INTENSIVOS III

 

Vê se há mensagens
no gravador de chamadas; 
rega as roseiras; 
as chaves estão 
na mesa do telefone; 
traz o meu 
caderno de apontamentos 
(o de folhas 
sem linhas, as linhas distraem-me). 
Não digas nada 
a ninguém, 
o tempo, agora, 
é de poucas palavras, 
e de ainda menos sentido. 
Embora eu, pelos vistos, 
não tenha razão de queixa. 
Senhor, permite que algo permaneça, 
alguma palavra ou alguma lembrança, 
que alguma coisa possa ter sido 
de outra maneira, 
não digo a morte, nem a vida, 
mas alguma coisa mais insubstancial. 
Se não para que me deste os substantivos e os verbos, 
o medo e a esperança, 
a urze e o salgueiro, 
os meus heróis e os meus livros? 
Agora o meu coração 
está cheio de passos 
e de vozes falando baixo, 
de nomes passados 
lembrando-me onde 
as minhas palavras não chegam 
nem a minha vida 
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.

 

(Manuel António Pina)

 

William Eggleston

 

William Eggleston 

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Delitos poéticos (20)

por Ana Margarida Craveiro, em 20.07.14

Christ of Saint John of the Cross.jpg

 

The Second Coming

 

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

 

Em dias de incerteza, Yeats.

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Delitos poéticos (19)

por Fernando Sousa, em 19.07.14

 

Habito na Possibilidade –

Uma Casa mais bela do que a Prosa –

Em Janelas mais numerosa –

Em Portas – superior –

 

De Quartos como Cedros –

Impregnáveis ao Olhar –

E por Telhado Duradouro

Os Telhados do Céu –

 

De Visitantes – a mais bela –

Isto – para a Ocupar –

O abrir largo as minhas Mãos estreitas –

Para colher o Paraíso –

 

Emily Dickinson

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Delitos Poéticos (18)

por Marta Spínola, em 18.07.14

 

Rapto de Proserpina, Bernini (1621–1622)
 
O que eu desejei às vezes 
Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!

Quase que choro de pena
 
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje-que é tão pouca!
Tão pouca que nem existe.

De tudo quanto nós fomos,
 
Apenas sei que sou triste.
 

António Botto

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Delitos Poéticos (17)

por João André, em 17.07.14

O Sorriso

 

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


Eugénio de Andrade

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Delitos Poéticos (16)

por Ana Cláudia Vicente, em 16.07.14

 

O Portugal Futuro

 

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar                                                             
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]' (1969)

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Delitos poéticos (15)

por Ivone Mendes da Silva, em 15.07.14

Retrato de Eleonora de Toledo com o seu filho João. Bronzino. (óleo sobre painel, 115x96  c. 1545) Galleria degli Uffizi. Florença 

 

"ELEONORA DI TOLEDO, GRANDUCHESSA DI TOSCANA",

DE BRONZINO

                                                         Ao Murilo Mendes

 

Pomposa e digna, oficialmente séria,

 

é geometria ideal de príncipes banqueiros,

 

sobrinhos, primos, tios de toda a Europa,

 

de reis, senhores de terras e armadores,

 

severamente equilibrados entre

 

o sexo, a devoção e as hipotecas.

 

O mundo é um imenso cais de intolerância austera,

 

a que aportam escravos, pimenta, a caridade

 

à sombra das colunas sem barbárie gótica.

 

Na boca firme, como no olhar duro,

 

ou o cabelo ferozmente preso

 

ou nas imensas pérolas que se multiplicam,

 

ou nos bordados do vestido que nem seios

 

se alteiam muito, há uma virtude fria,

 

uma ciência de não pecar na confissão e na alcova,

 

uma reserva de discreto encanto

 

em que a Razão de Estado era um passeio altivo

 

por entre as árvores de um jardim areado,

 

com áleas racionais e relva em secção aúrea.

 

Sem dúvida que os astros presidiram,

 

numa ciência de terra já redonda,

 

às próprias proporções que o quadro regem.

 

Palácios, festas, complicadas odes,

 

e procissões e cadafalsos e a

 

de um céu toscano limpidez que pousa no

 

pó e nas ruínas da imperial Toledo,

 

tudo isto se condensa em penetrante

 

tom de ocre vago, onde as cores se opõem

 

como teses tridentinas muito práticas

 

elaboradas com paciência para o descanso eterno

 

dos príncipes cristãos que se devoram sob

 

a paternal vigilância de uma Roma éterea,

 

guardada pelos suiços, por cardeias e frades.

 

A grã-duquesa - se o foi, não foi de quem é filha,

 

de quem foi mãe, ante um retrato assim

 

tão pouco importa! - fez-se pintar.

 

Mas a pintura era outra coisa, um escudo,

 

um escudo de armas e um broquel tauxiado,

 

para morrer tranquilo quando a angústia brota,

 

como um vómito de sangue, do singelo facto

 

de ter-se ou não ter alma, os mundos serem múltiplos,

 

e o Sol rodar ou não em torno à terra inteira,

 

iluminando as multidões, as raças, tudo,

 

e os príncipes e os súbditos, nessa harmonia do mundo,

 

cujo estridor silente ao madrugar se ouvia

 

ranger discretamente, às portas dos castelos.

 

                                       Jorge de Sena 

                                                    Lisboa, 6/6/1959

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delitos poéticos

por Patrícia Reis, em 14.07.14

 

 

somewhere i have never travelled,gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully ,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain, has such small hands

e. e. Cummings (1894 - 1962)
Quadro de Vilson Oliveira, UK, inspiração: Rothko

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Delitos poéticos (14)

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.07.14

Desenho de José Pádua (Beira, 13/05/1934)

 

Posteridade

Rui Knopfli

 

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.

 

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delitos poéticos (13)

por Patrícia Reis, em 13.07.14

 

Morde-me a carne e em segredo
promete de passagem
uma estrada aumentada
uma viagem

E se no regresso
a história não tiver enredo
junta-lhe a sangue frio
um mão cheia de medo

 

Luísa Jardim

 

(Dreaming of Joy de Ran Hwang)

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Delitos poéticos (12)

por Rui Rocha, em 12.07.14

LOS NADIES

 

Sueñan las pulgas con comprarse un perro y sueñan los nadies con salir de pobres, que algún mágico  llueva de pronto la buena suerte, que llueva a cántaros la buena suerte; pero la buena suerte no llueve ayer, ni hoy, ni mañana, ni nunca. Ni en lloviznita cae del  la buena suerte, por mucho que los nadies la llamen, aunque les pique la  izquierda, o se levanten con el derecho, o empiecen el año cambiando de escoba.


Los nadie: los  de nadie, los dueños de nada.
Los nadie: los ningunos, los ninguneados, corriendo la liebre, muriendo la , jodidos, rejodidos.
Que no son, aunque sean.
Que no hablan idiomas, sino dialectos.
Que no profesan religiones, sino supersticiones.
Que no hacen arte, sino artesanía.
Que no practican cultura, sino folklore.
Que no son seres humanos, sino recursos humanos.
Que no tienen cara, sino brazos.
Que no tienen nombre, sino número.
Que no figuran en la historia universal, sino en la crónica roja de la prensa local.


Los nadies, que cuestan menos que la bala que los mata.

 

Eduardo Galeano

 

Daniel Rodrigues, vencedor da secção Daily Life do World Press Photo 2013

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Delitos poéticos (11)

por Luís Naves, em 11.07.14

Este poema tem história e delito, que tentarei contar:

Alguns dias antes de ser assassinado, o poeta húngaro Miklos Radnoti escreveu Razglednica-4, um dos mais extraordinários poemas que conheço. Esta é uma tradução possível:

 

 

Caí ao lado dele, o seu corpo virou-se,

tão esticado como a corda quando parte.

Tiro na nuca. “É assim que também vais acabar”,

murmurei para dentro. “Deixa-te ficar deitado, calmamente”.

A paciência agora floresce morte.

“Der springt noch auf”, ouviu-se por cima de mim.

Na minha orelha secava sangue enlameado.

 

Szentkiralyszabadja, 31 outubro 1944

 

Radnoti tinha 35 anos e cometera dois crimes: era judeu e escrevinhava coisas. Este momento em que antecipa a própria morte não tem sentimentalismo nem puxa à piedade do leitor. Aliás, os sobreviventes do Holocausto tiveram sempre dificuldade em explicar esta sensação de vazio e a resignação da vítima, como se as lágrimas fossem um estorvo que dificultava ainda mais a explicação do inexplicável. 

Neste caso, é impossível transmitir o abismo contido no poema. A tradução é literal, não literária, perderam-se as subtilezas do texto, o ritmo, a musicalidade da língua húngara e a sua concisão (basta ouvir no youtube para se perceber a complexidade). Há rimas internas que se perdem, sobretudo nos dois últimos versos, e seria possível alterar certas frases. Por exemplo, ‘a paciência agora floresce morte‘ pode ser ‘a flor da paciência é agora morte’. A ideia é a seguinte: o poeta está ao lado de um homem que acabou de ser abatido e pensa, ou antes sabe, que vai morrer da mesma maneira (como aconteceu). Um dos soldados diz em alemão ‘aquele ainda anda aos saltos‘ e, nesse instante, o poeta sente, misturado com lama, o sangue seco que lhe cobre a orelha. A frase em alemão é importante, pois o soldado podia dizer ‘aquele ainda mexe’, mas trata-se de algo mais complexo, havendo aqui a sugestão de saltos, pulos, alegria, Primavera, ressurreição. Isso em contraste com o verso anterior, o da resignação e aceitação da morte.

 

Esta sequência de quatro poemas, Razglednica, foi escrita durante uma marcha da morte por alguém que estava a experimentar o horror. Aqui não há teorias nem impressões. Estamos perante a verdade vivida.

A terrível marcha começou na localidade da Voivodina que dá nome aos textos e envolveu 3500 prisioneiros judeus. O número quatro é o último poema da sequência e foi escrito numa aldeia húngara, a 50 quilómetros do local onde Radnoti seria morto com outras vinte pessoas. Depois da guerra, a viúva (que morreu recentemente, com 101 anos de idade) procurou o corpo do marido e encontrou a vala comum. Junto do cadáver estava o bloco de notas com os últimos poemas, contendo instruções em várias línguas sobre a sua entrega a um eminente professor de Budapeste.

Foi assim que Miklos Radnoti, já relativamente famoso antes da guerra, se tornou um dos maiores poetas húngaros. Este é também um dos grandes poemas escritos durante o Holocausto e o derradeiro do autor. Aqui, não existe ódio ou raiva, apenas Humanidade. Só por isso, pertenceria à História da Literatura.

Outro elemento trágico é que provavelmente o poeta morreu devido ao impulso de escrever. Segundo afirmaram os sobreviventes da marcha da morte, ele foi vítima do espancamento selvagem de um guarda que o viu a escrevinhar no bloco de notas e talvez este poema esteja relacionado com o episódio da brutalidade que o condenava. Talvez estivesse a escrever este poema.

A 9 de Novembro de 1944, ferido pelo espancamento, incapaz de continuar o caminho, o poeta foi abatido com um tiro na nuca. Porventura, viveu o quarto verso, onde brilha a palavra ‘nyugodtan’ (calmamente).

  

nota: Os dois primeiros Razglednica foram traduzidos para português pelo poeta e escritor Ernesto Rodrigues, que publicou uma antologia dos maiores poetas húngaros, onde estão incluídos outros poemas de Radnoti.

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Delitos poéticos (10)

por Pedro Correia, em 10.07.14

 Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808 (Francisco de Goya)

 

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Jorge de Sena

 

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse "com suma piedade e sem efusão de sangue."
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam "amanhã".
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

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Delitos poéticos (9)

por André Couto, em 09.07.14

PEDRO, LEMBRANDO INÊS

 

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que

me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a

manhã da minha noite. É verdade que te podia

dizer: "Como é mais fácil deixar que as coisas

não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos

apenas dentro de nós próprios?" Mas ensinaste-me

a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,

até sermos um apenas no amor que nos une,

contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:

ver-te mesmo quanto te não vejo, ouvir a tua

voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo

esse que mal corria quando por ele passámos,

subindo a margem em que descobri o sentido

de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo

que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,

de chegar antes de ti para te ver chegar: com

a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água

fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:

a primavera luminosa da minha expectativa,

a mais certa certeza de que gosto de ti, como

gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

 

Nuno Júdice

 

 
Frederic Leighton, "O Pescador e a Sereira", 1856-1858

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Delitos poéticos (8).

por Luís Menezes Leitão, em 08.07.14

CANÇÃO DA ERRÂNCIA.

 

 

Eu sou o irregular o vagabundo o erradio

eu sou da errância e da distância e da errática

e proibida margem de outro rio.

Haverá sempre em mim a linha matemática

e a gramática secreta do Padre António Vieira.

A minha terra é sempre em terra estranha

quem me quiser procure na fronteira

eu sou de algures entre o azul e a Espanha.

 

 

Manuel Alegre

 

Vermeer, Vista de Delft

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Delitos poéticos (7)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 07.07.14

Andy Warhol, Eggs (1982)

 

 

Omeleta

 

Quando se mis­tu­ram gema e clara,

se trans­forma o branco em ama­relo e o ama­relo

em branco, e a púr­pura do meio se con­funde

com um raio de sol, invento um canto

para que o ovo se não que­bre. Então, vejo-o

ficar sus­penso no equi­lí­brio do poema. De

um lado, dá-lhe a luz do sol; do outro, a pali­dez

da lua rouba-lhe o bri­lho. Gira

sobre si pró­prio: e a sua rota­ção sobrepõe-se

ao movi­mento da terra. Depois, com um gesto brusco,

parto-o: para que a sua gemada se espa­lhe pelo chão.

e o som do poema se mis­ture com os seus pedaços

- ali­te­ra­ções duras como as cas­cas, vogais

divi­di­das pela sime­tria do ovo.

 

Nuno Júdice

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Delitos poéticos (6)

por Rui Herbon, em 06.07.14

Gravura do castelo de Kronborg em Elsinore (Helsingør)

 

YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

 

Entre nós e as palavras há metal fundente

entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar

do mais fundo de nós o mais útil segredo

entre nós e as palavras há perfis ardentes

espaços cheios de gente de costas

altas flores venenosas      portas por abrir

e escadas e ponteiros e crianças sentadas

à espera do seu tempo e do seu precipício

 

Ao longo da muralha que habitamos

há palavras de vida há palavras de morte

há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar

há palavras acesas como barcos

e há palavras homens, palavras que guardam

o seu segredo e a sua posição

 

Entre nós e as palavras, surdamente,

as mãos e as paredes de Elsinore

 

E há palavras nocturnas palavras gemidos

palavras que nos sobem ilegíveis à boca

palavras diamantes palavras nunca escritas

palavras impossíveis de escrever

por não termos connosco cordas de violinos

nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar

e os braços dos amantes escrevem muito alto

muito além do azul onde oxidados morrem

palavras maternais só sombra só soluço

só espasmos só amor só solidão desfeita

 

Entre nós e as palavras, os emparedados

e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

 

MÁRIO CESARINY

Pena Capital, 1957

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Delitos Poéticos (5)

por Francisca Prieto, em 05.07.14
Obra de Vik Muniz 

 

 

COM LICENÇA POÉTICA

 

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

 

Adélia Prado

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Delitos poéticos (4)

por Teresa Ribeiro, em 04.07.14

Foto de Eduardo Gageiro

 

 

UM ADEUS PORTUGUÊS

 

Alexandre O'Neill

 

Nos teus olhos altamente perigosos 

vigora ainda o mais rigoroso amor 

a luz dos ombros pura e a sombra 

duma angústia já purificada

 

Não tu não podias ficar presa comigo 

à roda em que apodreço 

apodrecemos

a esta pata ensanguentada que vacila 

quase medita

e avança mugindo pelo túnel 

de uma velha dor

 

Não podias ficar nesta cadeira 

onde passo o dia burocrático 

o dia-a-dia da miséria 

que sobe aos olhos vem às mãos 

aos sorrisos

ao amor mal soletrado 

à estupidez ao desespero sem boca 

ao medo perfilado 

à alegria sonâmbula à vírgula maníaca 

do modo funcionário de viver

 

Não podias ficar nesta casa comigo

em trânsito mortal até ao dia sórdido 

canino

policial

até ao dia que não vem da promessa 

puríssima da madrugada 

mas da miséria de uma noite gerada 

por um dia igual

  

Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós 

traz docemente pela mão 

a esta pequena dor à portuguesa 

tão mansa quase vegetal

 

 Mas tu não mereces esta cidade não mereces 

esta roda de náusea em que giramos 

até à idiotia

esta pequena morte

e o seu minucioso e porco ritual 

esta nossa razão absurda de ser

 

 Não tu és da cidade aventureira

da cidade onde o amor encontra as suas ruas 

e o cemitério ardente 

da sua morte

tu és da cidade onde vives por um fio 

de puro acaso

onde morres ou vives não de asfixia 

mas às mãos de uma aventura de um comércio puro

sem a moeda falsa do bem e do mal

  

Nesta curva tão terna e lancinante

que vai ser que já é o teu desaparecimento 

digo-te adeus 

e como um adolescente 

tropeço de ternura 

por ti

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Delitos poéticos (3)

por Ana Vidal, em 03.07.14

          (Sandy Skoglund - The Wedding)

 

          ILEGAIS 

        Tira a aliança do dedo. O gozo
        é redobrado se
        nos assinto ilegais. Porque
        esse
        aro dourado concede-te
        direito a mim
        não há pecado assim:
        o meu
        nome em ti o
        teu
        nome em mim
        e
        essa data grafada em que assinamos
        de Cruz
        o arbítrio da união.
        As
        mãos procuram respostas como
        quem ergue rosas pelo espinho:
        tira a aliança do dedo. Se
        esta lei é sagrada nós
        somos apenas mortais precisamos
        de pecado:
        vamos
        dormir ilegais.

       (João Luís Barreto Guimarães)

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Delitos Poéticos (2)

por Helena Sacadura Cabral, em 02.07.14
QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

            
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.
            
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.
            
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.
            
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.
            
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.
            
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.
            
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.
            
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco.
            
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.
            
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.
            
Dão-nos um nome e um jornal,
um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.
            
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
não é a vida. Nem é a morte.

 

    Natália Correia, Dimensão Encontrada, 1957

 

 

 

 

  Maria Madalena, pintura existente na Igreja da Graça            

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Delitos poéticos (1)

por José Navarro de Andrade, em 01.07.14

NINGUÉM SE MEXA! MÃOS AO AR!

 

“Ninguém se mexa! Mãos ao ar!” disse o histérico

e frívolo homenzinho com mais medo

da arma que empunhava que de nós.

“Mãos ao ar!”, repetiu para convencer-se.

 

Mas ninguém se mexeu, como ele queria...

Deu-lhe então a maldade. Quase à toa,

Escaqueirou o espelho biselado

Que tinha as Boas-Festas da gerência

 

Escritas a sabão. Todos baixámos,

Medrosos, a cabeça. Se era um louco,

Melhor deixá-lo. (O barman escondera-se

Por detrás do balcão). Ali estivemos

 

Um ror de medo, até que o rabioso

Virou a arma à boca e disparou.

 

Alexandre O'Neill

 

Alex Colville, “Pacific”, 1967

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