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Delito à mesa (7)

por João André, em 03.01.17

Confesso que há muito que não tenho o hábito de ir a restaurantes. Sempre gostei de o fazer com amigos mas afazeres profissionais, ter saído de Portugal e ter por perto menos dos amigos com quem gosto de partilhar estes momentos, além da vida familiar que por vezes torna difícil a ida a restaurantes, tudo isto tem conspirado para que eu não tenha renovado os meus hábitos comensais públicos. Na falta dos mesmos, recorro a um hábito já antigo a que volto sempre que posso (ou por lá passo).

 

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O Zé Manel dos Ossos é uma instituição de Coimbra onde não há café no final da refeição, o vinho vem à escolha de branco ou tinto, copo ou jarro (garrafa também pode ser), as paredes estão escarrapachadas de papéis de toalha de mesa escrevinhados com saudações, poemas ou outras inspirações de rotundas barrigas, a fila à entrada pode ir dos 20 minutos à hora e meia para quem chega depois das 7 da noite e o espaço dá para uma meia dúzia de mesas e pouco mais. Quem quiser sofisticação e estilo bem pode ir a outro lado.

 

Conta a lenda que tudo começou quando o Sr. Zé Manel começou a recolher os ossos de um talho ao lado e a cozinhá-los com umas ervas, sal e outros truques que só serão transmissíveis em quintas-feiras de lua cheia depois de sacrificar um gato, um lagarto e um javali aos diversos deuses da gula nos intermináveis panteões da história universal. Facto é que os ossos, além do nome, dão o carácter ao restaurante. A maioria dos pratos incluem ossos de uma forma ou outra, mas os ossos a sério, aqueles que se pedem sem dizer nada mais além do número de convivas, esses são motivo só por si para uma espera de uma hora num beco de Coimbra aos 35 °C de uma noite de Verão.

 

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Os preços (além da qualidade) tornam o restaurante obrigatório entre estudantes, mas não se pense que enchem o espaço e o tornam impossivelmente "académico". Os simples factos de ser necessário enfrentar filas para entrar depois das 7 e meia da noite (ou tarde, depende da altura do ano), de se situar na Baixa (e fora dos circuitos habituais da Universidade) conspiram para controlar o fluxo de clientela e permitir que qualquer pessoa se sinta em casa. Uma vez dentro, há sempre o risco de o calor ser altíssimo e o espaço exíguo. Mas vale a pena aguentar tudo.

 

A melhor escolha inicial é dizer que se quer ossos. O empregado decide quanto vai trazer em função dos convivas à mesa (esqueçam as noções de doses se ali entram) e é possível ter tempo para decidir o que se vai comer. Mais uma vez, o ideal é escolher uma selecção de pratos e deixar que as quantidades fiquem à escolha da casa. Pessoalmente vou sempre pelas barriguinhas ou costeletas com arroz de feijão ou pela feijoada de javali. O vinho é despretensioso mas costuma ir muito bem com a comida e o ambiente.

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Não há pressão para se sair da mesa, apesar da fila que existe à porta. Há sempre contudo a oferta de mais bebidas, como que a lembrar-nos para consumirmos um pouco mais. Mas sem verdadeira pressão: a simpatia esteve sempre presente. No final não há café. A máquina ocupa espaço e, na realidade, ninguém lá vai para isso. E beber um café poderia ter o mesmo efeito que a folhinha de menta em The Meaning of Life.

 

A melhor demonstração do restaurante ocorreu quando um dia tive um jantar com os elementos de uma banda americana (que tinham dado um concerto organizado pela Ru( na noite anterior). Nesse dia alguns dos elementos da banda dormiram tarde e almoçaram já perto das seis da tarde. Vontade de jantar: perto de zero. Umas horas mais tarde tinham-se deliciado com a comida e iam rebolando alegremente para o hotel. Passados uns anos um amigo reencontrou um deles e foi imediatamente reconhecido com as palavras: «os ossos!».

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Resumindo: a visita ao Zé Manel dos Ossos vale sempre a pena. Sem pressas e com espaço no estômago. E escritas estas linhas, estou com vontade de marcar uma viagem a Coimbra para breve.

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Delito à Mesa (6)

por Francisca Prieto, em 08.12.16

Vai para uns quantos anos que, quando chega Agosto, enfio os malotes no carro e trato do exílio familiar para a Costa Vicentina.

Gastronomicamente falando, o mês é intercalado por cachorros quentes na praia e, à noite, peixe escalado, do fresquíssimo, ali pescado por gente local. Acrescenta-se com frequência pratadas de percebes (ou perceves, consoante a corrente) e um ou outro churrasco caseiro, quando aparece um habilidoso capaz de dominar a labareda.

Há porém o dia da rebeldia. Várias famílias de amigos deixam os filhos ao abandono e marca-se uma mesa de estadão na Eira do Mel, o respeitado estabelecimento de restauração, sito em Vila do Bispo.

Assim que chegamos, começa o choradinho do “Leite Queimado”, uma rara iguaria, servida à sobremesa, que só há de vez em quando e que, quando há, acaba logo na primeira ronda de clientela. O objectivo primordial é assegurar, à partida, umas quantas doses que permitam acabar o jantar em beleza.

A Eira do Mel proclama-se como um restaurante de Slow Food e faz jus ao que promete, o que quer dizer que leva uma eternidade a servir uma mesa do tamanho da nossa. De maneira que, invariavelmente, vão chegando várias garrafas de vinho até que se consiga ferrar o dente nas entradas. Na altura de apreciarmos os magníficos ovos mexidos com morcela ou o camarão mergulhado em molho fenomenal, já soaram as primeiras gargalhadas guturais que ditam o tom para o resto da refeição.

Das entradas ao prato principal decorre mais um período de tempo considerável. Tanto, que dava para assistir a uma prova do Grande Prémio, com a parte da subida ao podium e tudo. Mas nós não reclamamos porque, para além de continuarmos entretidos nas degustações vinícolas, sabemos o que lá vem: uma cataplana de polvo com batata doce de fazer chorar qualquer coração mais empedernido.

Só por causa desta cataplana, a Michelin devia deixar-se de mariquices e atribuir cinco estrelas ao Chef José Pinheiro.

E é assim que, já com um par de grãos na asa, os convivas contam e recontam vezes a fio as mesmas histórias dos velhos tempos de Sagres, enquanto perdoam a longa espera e molham pão saloio no molho da panela.

No final, se há Leite Queimado assegurado, manda-se servir para acompanhar uns copitos de medronho, daqueles que não se devem beber sozinhos.

No dia a seguir há lamentos na praia, mas todos concordamos que o ritual se há-de voltar a cumprir. Afinal, temos doze meses para recuperar da epopeia.

 

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Delito à Mesa (5)

por Isabel Mouzinho, em 26.11.16

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Chiringuito 

 

Em espanhol designa um bar de praia, lugar de bebidas frescas e comidas simples e rápidas. Nada a ver, portanto, com este lugar lisboeta que aqui menciono. O que o Chiringuito tem de especial é a conjugação feliz de diversos factores:

O espaço, em primeiro lugar. São duas salas distintas, ambas arranjadas com cuidado e extremo bom gosto, num lugar que  antes funcionara como padaria. A sala que fica junto da rua tem uma decoração ligeiramente  mais informal, enquanto a segunda, mais espaçosa e conhecida como "a fábrica" ainda em alusão ao anterior espaço da padaria, com móveis antigos e louças do tempo das nossas avós, conjuga na perfeição o antigo e o moderno e faz lembrar a sala de jantar de uma família numerosa.

Depois, há a comida propriamente dita, entre o tradicional, alentejano e o espanhol andaluz, que é muito o leitmotiv do conceito subjacente e faz deste restaurante um espaço profundamente ibérico, misto de casa de petiscos e bar de tapas, como de resto é designado.

Das entradas às sobremesas, é tudo de "comer e chorar por mais", numa carta onde se podem encontrar algumas especialidades típicas de ambos os lados da fronteira: há as "puntillitas" e os "tintos de verano", os secretos de porco preto e os peixinhos da horta, as "patatas ali oli" e  as farófias, entre muitas outras delícias, em clara e subtil demonstração de que é muito mais o que nos aproxima do que o que nos distingue.

A acrescentar a tudo isto há ainda os preços muitíssimos acessíveis e a simpatia com que somos recebidos. O Chiringuito é um negócio familiar e isso sente-se no trato e no ambiente que se respira. No fundo, é quase como se jantássemos na sala da casa de uns amigos. Por isso saímos  claramente satisfeitos e com vontade de voltar muitas vezes.

Falta dizer que fica em Campo de Ourique, na rua Correia Teles, e que ao Domingo há  buffet de cozido ao almoço. 

Por fim, tenho que fazer uma confissão: é que posso ser considerada relativamente suspeita, uma vez que tenho pela família que está à frente do Chiringuito grande consideração e um afecto profundo, que é já antigo.

Mas estive em várias ocasiões no restaurante e quem me acompanhava, de todas as vezes, gostou tanto como eu. Este é pois, por agora, um dos meus lugares favoritos de Lisboa para estar à volta de uma mesa, com amigos, em ambiente agradável e descontraído, o que constitui, quanto a mim, um dos maiores prazeres da vida.

Ora vejam as fotografias... E depois passem por lá para comprovar se eu tenho ou não razão...

 

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Delito à mesa (4)

por Pedro Correia, em 22.11.16

Gosto de entrar em restaurantes onde já sou conhecido e sabem de antemão o que irão trazer-me para a mesa sem eu ter necessidade de consultar a ementa.

É como se fizesse parte da família alargada desses estabelecimentos, onde um cliente nunca deixa de ser bem tratado mas os habitués justificam um toque suplementar de atenção.

 

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 Solar dos Presuntos: a melhor 'paella' de Lisboa

 

Acontece-me, desde logo, no Solar dos Presuntos. Há anos que vou lá comer sempre o mesmo prato: a melhor paella de Lisboa. Sempre acompanhada por um excelente Alvarinho, o Portal do Fidalgo. Antes de me sentar, já qualquer membro da diligente equipa de empregados bem orientada pelo maestro Pedro Cardoso sabe qual será a minha opção, sólida e líquida.

O mesmo sucede no Nova Goa, onde mantenho fidelidade ao sarapatel. Sebastião Fernandes – proprietário, anfitrião e uma das figuras mais carismáticas da restauração lisboeta – nunca precisa de me estender o menu. Nem eu preciso de lhe dizer o que me apetece mastigar.

Sinto-me lá sempre em casa. Tal como no Salsa & Coentros, que frequento desde a abertura, e onde a escolha quase invariável é o arroz de perdiz – que já não necessito de encomendar. José Duarte, patrão e timoneiro deste simpático restaurante, bem sabe qual será a minha escolha.

Ali perto, no Mercado de Alvalade, quando me sento à mesa sei que virá o inconfundível balchão de camarão – acompanhado por um jarrinho de branco da Casa Ermelinda Freitas, uma das melhores relações preço-qualidade dos vinhos portugueses. Deixaram há muito de perguntar, deixei há muito de pedir.

Acontece o mesmo no Comilão. Secundino Cardoso, alma deste marco na arte de bem refeiçoar em Campo de Ourique, sabe o que ali procuro quase invariavelmente: o admirável arroz de pato, que tenho comido mesmo quando não consta da ementa.

 

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 Conventual: uma saudade

 

Foram-se os tempos do Conventual, que chegou a ter o melhor cozido à portuguesa de Lisboa, e do antigo Coelho da Rocha, onde rumei durante anos em busca da empada de lebre: ainda não me apeteceu regressar com a nova gerência.

Já não existe o Múni, na Rua dos Correeiros, onde o bacalhau à Gomes de Sá era imbatível.

No Bairro Alto deixou de morar o Pap’ Açorda, meu destino invariável quando me apetecia matar saudades dos incomparáveis pastéis de massa tenra. Espreitei o sucedâneo recém-inaugurado, ao Cais do Sodré, mas não fiquei cliente: pareceu-me presumido em excesso. Com doses demasiado minguadas a preços exageradamente robustos.

Os preços nada convidativos afastaram-me de outros poisos gastronómicos da capital que frequentei em tempos idos. Mas lembro ainda com um fio de nostalgia o bife tártaro do XL e a raia no vapor com alcaparras d' A Travessa.

 

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 Via Graça: os olhos também comem

 

Uns partem, outros chegam.

Por estes dias vou abancando no Ibo (lombinhos de peixe em molho de coco e coentros com puré de mandioca e batata doce) ou no Jesus É Goês (magnífico camarão recheado, imbatível nas rotas gastronómicas da capital). Nunca deixo de recomendar a piazza diavola do Come Prima. E revisito clássicos, como a Adega da Tia Matilde (arroz de frango), o Solar dos Nunes (arroz de lebre), o Poleiro (vitela barrosã no forno com arroz de salpicão) ou o velho-novo Via Graça, de onde se desfruta uma das vistas mais soberbas da capital.

De uns e outros tenciono falar aqui, nos meses mais próximos, recuperando uma série iniciada no DELITO por colegas como a Ana Vidal e o José Navarro de Andrade. Uma série que saberá ainda melhor se reflectir o saudável espírito colectivo que sempre cultivámos. As boas tradições devem manter-se.

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Flagrante Delito

por Isabel Mouzinho, em 24.05.15

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Julgo que este terá sido o oitavo encontro do DO. Para mim foi o primeiro. E por ser a "caloira" coube-me, como é da praxe, a complicada e aliciante tarefa de o pôr em palavras. Mas eu gosto do que é difícil.

Começo pelo fim: o que à partida parecia ter um certo toque de "encontro às cegas", acabou por ser na verdade um encontro de amigos. E é isto que torna a blogosfera fascinante: conhecemo-nos  pelas palavras antes de sabermos que cara têm, ou como soam as vozes e os risos de pessoas que nos habituamos a ler, com quem rimos ou sorrimos, pensamos, nos emocionamos e surpreendemos, concordamos ou discordamos, aprendemos, numa teia de encantos e cumplicidades criada entre gente das mais diversas proveniências, idades, áreas profissionais, interesses, e de quem sabemos muito pouco, ou quase nada. Afeiçoamo-nos devagar a pessoas que nunca vimos, que conhecemos sem conhecer,  e percebemos que é possível, ainda assim, criar laços, sintonias e afectos. É a escrita que nos aproxima. E quando finalmente nos encontramos, parece que já nos conhecemos há muito.

Foi mais menos o que se passou comigo. De uma vez só, conheci "em carne e osso" meio DELITO.  

A Patrícia e a sua encantadora família, que os espanhóis designariam como muito "entrañable", receberam-nos de portas e braços abertos e isso foi grande parte do sucesso da soirée, na qual se comeu e bebeu divinamente, em ambiente descontraído como sempre acontece quando um grupo de amigos se junta à volta de uma mesa e se "perde" em longas conversas cruzadas sobre tudo e mais alguma coisa. 

Falámos muito, rimo-nos muito, e no fim não podia faltar a habitual fotografia, a provar que foi tudo verdade.

Para a história desta animada reunião ficarão naturalmente o prato "à Brás, mas sem bacalhau" da Patrícia e do Elvis, elogiadíssimo por todos, o delicioso pudim de queijo  da Serra da Teresa, a tarte de framboesas da Ana, o bolo da Francisca, que parece ser já uma tradição, e a mousse de chocolate do Luís Naves, apurada com extremo requinte. E havia mais, muito mais, mas não consegui experimentar tudo.

Depois houve também tudo o que eu não sei dizer e que é a melhor parte: as vozes, os risos, as piadas, a alegria de estarmos juntos e podermos olhar-nos, as cumplicidades;  e os abraços à despedida, com a promessa de voltar.

Para a metade que não veio fica um recado: nem sabem o que perderam. E agora a boa notícia: Vai haver mais!  E o  próximo encontro já se anuncia para breve, lá pelo início do Verão.

Por mim, é um prazer e uma honra integrar o DO, e uma felicidade conhecer tantas pessoas encantadoras que a blogosfera tem trazido à minha vida e que, aos poucos, se vão tornando amigos novos. 

Balanço final: suculento repasto e muito boa companhia. Uma noite em cheio. E a vontade de repetir. Muitas vezes!...

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Peixe ao sal (14)

por Helena Sacadura Cabral, em 04.09.14
Ingredientes
1,300 kg de peixe 
2 kg de sal.
5 claras batidas em castelo.
50 gr farinha trigo. 
Preparação
Amasse a farinha, com as claras e o sal até fazer uma papa.
Forre, com papel alumínio, um pirex ou assadeira. Faça uma cama a papa de sal, coloque o peixe por cima, (lavado, mas ainda com as escamas). Tape a abertura por onde se retiraram as tripas com papel alumínio e cubra o peixe com o restante mistura de sal. 
Leve ao forno médio por cerca de 1 hora.

Na altura de servir, parta o sal que, fica duro, com cuidado para não danificar o peixe. Retire-lhe a pele. Por norma acompanho com batatinhas cozidas envoltas em maionese e polvilhadas com pimenta, cebolinho cortado e oregãos e com couve flor.

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Delito à Mesa

por Francisca Prieto, em 28.06.14
 
Hoje foi dia de tertúlia no estrangeiro da Ana Vidal. A meia hora de Lisboa, almoçaram os membros do Delito, quais Lordes Byron, numa faustosa varanda escondida por vasos de hortenses. Ficámos para ali noutro meridiano, em amena cavaqueira, enquanto nos fomos servindo de extraordinárias vitualhas que incluíram um escabeche de pato coroado com raspas de laranja, praliné de citrinos a cavalo numa salada, aspic de tomate à chef Navarro e, meu Deus, uma selecção de sobremesas de fazer saltar as papilas gustativas.

A gastronomia foi, por estas e por outras, o tema dominante da tarde, embora também se tenham abordado assuntos menores tais como o estado da nação, a situação económica mundial e o mistério das conquistas amorosas de Hollande.

Mais para a tardinha, num momento de descontrolo, uma facção da mesa defendia a necessidade de se criar um partido composto pelos políticos de maior sex appeal do país (um critério como outro qualquer), enquanto do outro lado alguém confessava uma velha fraqueza por Cristiano Ronaldo, agarrando com veemência o pescoço e proferindo que “aquele rapaz, daqui para baixo, é um monumento”. Mas a decência rapidamente regressou à mesa, para se discutir ética jornalística, dobragens de filmes estrangeiros e até poesia.

Esteve-se tão bem nesta família que foi a custo que nos arrastámos porta fora para regressar ao azimute de origem. Eternamente gratos à Ana pela trabalheira de nos receber em sua casa.

 

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Primeiro convívio de 2014

por Joana Nave, em 27.01.14

 

Chamo-lhe 1º Convívio do Ano 2014, porque estou certa que há-de haver muitos mais. Conviver é uma necessidade do ser humano, pois quando o fazemos sentimo-nos mais integrados, mais alegres e inspirados para enfrentar os dias solitários que temos pela frente. É uma enorme felicidade poder partilhar uma tarde de convívio com os cibernautas com quem trocamos tantas ideias, sugestões e até desabafos. Uma felicidade que aumenta com a nossa predisposição para a partilha, para ouvir e comentar, para darmos um pouco do nosso tempo para reunir com estes amigos da blogosfera.

Foi mais ou menos neste espírito que encarei o convívio entre os membros deste blog, no fantástico almoço que partilhámos no passado sábado. Não posso deixar de manifestar o meu, e julgo que o de todos, sincero agradecimento à nossa fantástica anfitriã Patrícia Reis, que nos recebeu de braços abertos e com uma energia que nos contagiou a todos de sorrisos e bem estar.

Este convívio fica marcado não só pelo delicioso repasto, mas mais ainda pelas conversas cruzadas, pelas gargalhadas que saltavam de cada canto da sala onde estávamos reunidos, e da imensa alegria que ia transparecendo no rosto de todos nós à medida que íamos sentindo o pulsar das emoções trazer à luz do dia os fragmentos de que somos feitos.

Foi o meu primeiro convívio não só do ano, mas também do blog, e quero manifestar o meu muito obrigada por tão calorosa recepção a todos os meus colegas de escrita.

Venha o próximo!

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Delito à mesa (3)

por Ana Vidal, em 25.08.12

 

Nasceu há exactamente 25 anos, com a modesta intenção de servir sandwiches aos veraneantes de uma praia bonita: a praia de S. Lourenço, concelho de Mafra, quase pegada com a Ericeira. Mas o destino deste Golfinho Azul era saltar mais alto, mais longe. Reinando sobre a escarpa magnífica e com uma vista de cortar a respiração - "Temos um dos pores-de-sol mais bonitos do mundo", afiança-me Mena, a dona da casa, e não me custa nada dar-lhe razão - o Golfinho chama os banhistas e é incentivo suficiente para a empreitada de subir os 150 degraus que vão a pique desde a praia até este terraço mágico, promessa de bons petiscos e sensações fortes. Aos poucos tornou-se romaria certa para amigos e curiosos, e foi assim que a ementa se foi aprimorando. À noite virava bar, ou não fosse músico (além de pintor) um dos fundadores, apaixonado por sons de blues e jazz vindos de outros ambientes igualmente azuis, o mítico Blue Note. As noites ganharam fama e o Golfinho tornou-se poiso certo de músicos e artistas bem cohecidos. Para dar só um exemplo, ali nasceram algumas das belas composições de Rodrigo Leão. 

 

Mas voltemos aos comes e bebes, que é disso que trata esta série. O Golfinho Azul tem hoje uma ementa variada e apetecível (a especialidade é obviamente o peixe, embora haja bastante variedade de pratos de carne também) a preços perfeitamente razoáveis. O preço médio de uma refeição completa - sopa/entradas, prato, sobremesa e vinho da casa - rondará os 25 €. Recomendo o que me leva lá desde que descobri este restaurante, além da simpatia do serviço e da vista deslumbrante: umas cenourinhas à algarvia muito bem temperadas, a sopa de peixe, depois a moqueca ou o caril de gambas. As sardinhas são também um must da casa, e há pratos vegetarianos para quem conseguir resistir aos sabores e cheiros do mar.

 

Costumo ir almoçar mas, se puder, apareça por lá ao fim da tarde e deixe-se transportar para outra dimensão com o tal pôr-de-sol único. Vale a pena. Depois jante e, se for sexta-feira, fique para uma das jam sessions com os convidados de Naná Sousa Dias. Ao sair, não deixe de procurar a Mena Almeida e dizer-lhe um adeus personalizado. A casa faz questão em cultivar a proximidade com os clientes, e esse é um dos segredos de tanto sucesso ao fim de um quarto de século de existência.

 

Notas:

 

1. Tem estacionamento próprio e fácil.

2. Fecha à segunda-feira.

3. Tem 120 lugares, entre interior e esplanada.

4. Sessões de música ao vivo às sextas-feiras (noite), de 15 em 15 dias.

 

Restaurante Golfinho Azul

R. das Ribas, S. Lourenço

2640-254 Mafra

T: 261 862 945

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Delito à Mesa (2)

por José Navarro de Andrade, em 07.08.12

                   

 

Churrasqueira o Tapadão, Monforte

 

Grande desgraça: o Tapadão fechou! O Alentejo está mais pobre.

“O Tapadão” era o mais banal dos restaurantes, situado numa anódina vila alentejana. Agora, que já não há nada a perder, diga-se que era em Monforte. Entrava-se por um snack-bar ostensivamente vulgar: balcão de alumínio, televisão alapada à parede, queimada em dois canais: SporTv ou “toros tv” espanhola. Por cima das mesas, exemplares manuseados de “a bola”. Sempre desconfiei que este cenário, mais a implacável banalidade da sala de refeições com janelas para dar luz, mas sem vista, e fraca insonorização, eram de propósito, para desmoralizar os gentios. Quem, apesar desta impávida recepção, ainda se atravesse a sentar e pedir a lista, decerto ficaria desconsolado: pouca escolha, nenhuma com o charme do “terroir” ou "propostas" gastronómicas, que encantam os forasteiros de fim-de-semana no campo.

O truque, sabiam-no os locais e os contumazes, era uma pessoa levantar-se e ir à cozinha perguntar à Inácia se tinha uns secretos, umas plumas, uns lombos; de entrada, ela que não se importasse de fazer a omelete de espargos. Da última vez que lá fui, havia galinha corada com batatas fritas. A ave e os tubérculos, ambos eram legítimos; aquela arribando à mesa depois de longo trânsito pelo forno, a carne negra desfiando-se e soltando sucos na boca, estas fritas em azeite de lei e do dia. Às vezes servia-se de acompanhamento um arroz de coentros, talvez perfeito.

Os japoneses provaram que cozinhar pode ser uma arte tão zen que nem precisa de lume aceso. O Tapadão reiterava esta proposta: cozinha simplicíssima, no ponto exacto de forno, fritura ou grelha, produtos que só passavam uma noite mal dormida no frigorífico. Não é disto que se gabam os chefs, quando pretendem exibir autenticidade? (o quer que esta palavra queira dizer...)

Monforte é muito lenta. Nem uma casa familiar (pai, mãe, filha) como o Tapadão resistiu a tal modorra. Foram à vida noutro lado, menos infestado pela crise. Pior fiquei eu, de barriga a dar horas.

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Delito à mesa

por Ana Vidal, em 15.04.12

   Restaurante Mariana, Afife

 

Ao contrário do que talvez fosse de esperar, esta série começa com um restaurante tradicional, despretensioso e de preço acessível. O que faz dele, há décadas, um marco da gastronomia portuguesa não é a sofisticação do décor nem o entusiasmo por experimentalismos culinários, mas só o que é essencial num restaurante onde se queira voltar sem medo de decepções: a qualidade irrepreensível da cozinha, convencional e inalterável, e o atendimento simpático. Falo do restaurante Mariana, na praia de Afife, perto da belíssima cidade de Viana do Castelo. Não há luxos nem mordomias para além dessa simpatia, dos imaculados guardanapos e toalha de pano e da existência de talheres de peixe (tenho ficado pasmada com a ausência destes em restaurantes cuja especialidade é o peixe, e alguns bem conhecidos). Há a velha sala inicial, com mesas e bancos corridos de madeira clara, muito polida - a preferida dos portugueses, dizem-me - e depois a preferida dos espanhóis, a sala "nova", com cadeiras estofadas e uma lareira de canto onde impera, festivo, um colorido palmito de Viana. Há ainda um bar, tendo a casa, ao todo, capacidade para 130 pessoas. Na parede da entrada, a receber orgulhosamente os clientes, uma fotografia de Zélia e Jorge Amado com os donos (Fernanda e Aires Felgueiras), entre troféus e críticas gastronómicos igualmente emoldurados. O escritor brasileiro era um fiel cliente da Mariana e ia lá sempre que estava em Portugal.

 

O couvert é composto de pão variado - destaque para uma broa de milho e centeio, de Carreço - e um prato com um queijinho curado, pastas de queijo e patés enlatados, sem história. Segue-se uma modesta mas saborosa sopa de legumes migados grosseiramente, com a particularidade agradável de ser servida em terrina na mesa, o que possibilita a cada um servir-se da dose que quiser. Mas o melhor da festa ainda está para vir. Entre outros pratos típicos (a ementa não é sumítica na variedade) sobressai o famoso robalo à moda da casa, ou seja, cozido em algas. Da mesma forma podem ser também servidos sargo ou pescada. No meu caso, escolhi sargo porque não havia ontem robalo, que vem habitualmente de Castelo de Neiva, ali mesmo ao lado, onde o mar alteroso e o luto pelo pescador desaparecido há poucos dias têm impedido os outros de se aventurarem mais longe. Foi uma boa escolha: o meu sargo estava fresquíssimo, a saber verdadeiramente a mar. Acompanhavam-no grelos e batatas, ambos cozidos, e uma dupla de molhos (maionaise caseira e "molho verde", uma espécie de "molho à espanhola" mas sem colorau), tudo bem feito e no ponto. Arrisquei o vinho da casa, um verde branco bem fresquinho da região, e não me arrependi. Para sobremesa, escolhi outra delícia: um leite-creme servido em pires, caseiríssimo e queimado na hora, um dos melhores que já comi. Há outros doces caseiros na carta de sobremesas, dispensavelmente invadida pelos gelados e doces congelados do costume.

 

Notas importantes:

1. A parrilhada de peixe e camarão de Afife, o bacalhau à Mariana ou o cocq au vin são também especialidades da casa.

2. Se não for um Gulliver esfomeado peça meia dose, seja o que for que escolher. O restaurante dá essa possibilidade em quase todos os pratos, e ainda bem, porque mesmo essa quantidade pode ser suficiente para duas pessoas com um apetite médio. No norte do país, em geral, as doses servidas nos restaurantes tradicionais são um exagero.

3. Não espere luxos nem cerimónias. Pode acontecer, inclusive, que lhe passem um braço pela frente para retirar um prato.

4. O restaurante não se vê da estrada (fica atrás de uma capelinha de pedra, é preciso ir com atenção) e há que atravessar a linha de comboio para lá chegar.

5. O estacionamento é fácil.

6. O preço médio por refeição (meia dose), com vinho da casa e sobremesa, ronda os 20€.

7. Fecha à terças-feiras, excepto em Julho e Agosto.

 

Restaurante Mariana

Estrada Pedro Homem de Mello, 42

4900-012 Afife

Viana do Castelo

T: 258 981 327 - 964 042 524

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