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A segurança e defesa do Governo

por Diogo Noivo, em 07.07.17

O problema estava num Palma Cavalão que, ao abrigo do cobarde anonimato, ousou criticar o Governo português nas páginas de um diário espanhol associado à direita. Agora, um outro diário espanhol publicou uma notícia pouco abonatória da competência do Executivo chefiado por António Costa. Desta feita, trata-se de um periódico associado à esquerda e quem assina a notícia fá-lo com nome e apelido próprios. Assumindo que Portugal é um país normal, isto será o suficiente para que centremos o debate e abandonemos as arengas estéreis.

Sendo diferentes na origem e nos factos (nos poucos que se conhecem), os incêndios em Pedrógão Grande e o roubo de armas em Tancos são de extraordinária gravidade pois atestam a debilidade do Estado nos sectores da Segurança e da Defesa.

O apuramento de responsabilidades depende do apuramento dos factos. E já percebemos que o conhecimento dos factos foi habilmente atirado para as calendas, nomeadamente para depois do próximo acto eleitoral. Como o decoro é em Portugal um bem escasso e desvalorizado tudo isto é visto com normalidade.

Se não podemos avaliar os casos com base nos factos, podemos sim analisar a conduta política dos responsáveis pela Segurança e pela Defesa. No que respeita a Constança Urbano de Sousa, Ministra da Administração Interna, o que há a dizer está aqui e aqui. A senhora está a mais.

O caso da Defesa é mais complexo. O roubo de armamento é grave porque sugere incúria. É ainda mais grave dada a forte suspeita de que o destino do armamento roubado é o crime organizado e o terrorismo. Se o Ministro Azeredo Lopes não foi informado do risco, o CEMGFA terá de abandonar o seu posto e dar lugar a outro. Se o Ministro sabia, como é razoável que soubesse, então Azeredo Lopes deverá aproveitar a boleia da sua colega do MAI.

Porém, estas dúvidas tornaram-se assessórias quando o Ministro da Defesa decidiu abrir a boca. Em entrevista à SIC, Azeredo Lopes afirmou que o Ministro da Defesa Nacional “não sabe se falta uma câmara de videovigilância em Tancos ou em Lamego”. Disse também que o Ministro não é informado de problemas em vedações. Estas afirmações são reveladoras do entendimento que Azeredo Lopes tem da função que desempenha. Houve Ministros da Educação, de esquerda e de direita, a conhecer obras em escolas ao pormenor. Houve Ministros da Administração Interna a conhecer detalhes de todas as unidades das Forças de Segurança, do Corpo de Intervenção à Banda da PSP. Houve Ministros da Agricultura a saber de memória a extensão e a incidência regional de terrenos baldios em Portugal. Mas Azeredo Lopes aparenta não estar para ser incomodado com minudências. Adiante. Azeredo Lopes tenta mudar de assunto, mas o resultado não foi melhor: “Para não pensarmos que somos anormais no contexto europeu e mundial, basta procurar 'roubo de armamento militar' no Google e vamos chegar a conclusões interessantes.” Como o Pedro Correia aqui notou, parece que nunca foram roubadas tantas armas antitanque num país da NATO. Não satisfeito com esta lindeza de argumento, Azeredo Lopes volta a desculpar-se com as desgraças dos outros, dizendo não evocar, mas evocando, os atentados terroristas ocorridos em solo europeu. É dose.

Em resumo, os acontecimentos são gravíssimos e os Ministros não percebem a responsabilidade inerente às funções que desempenham. Estão a mais. E quanto mais tempo ficarem maior será a ameaça que constituem para a segurança e defesa políticas do Governo de António Costa.

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Deprimidos porquê?

por João Carvalho, em 26.10.11

Este país anda um bocado deprimido, mas sem motivo. Todos os dias há notícias palpitantes que nos compensam dos choques mais duros. Vejam este título: «Derrapagem de 115 milhões em contrato de aviões militares». Digam-me lá se já tinham visto aviões a derrapar.

É certo que «os 12 aviões comprados pelo anterior executivo socialista, que se destinavam ao transporte militar e vigilância marítima, custaram mais 115 milhões de euros que o previsto — indica uma auditoria do Tribunal de Contas à Locação de Aeronaves Militares, uma empresa do grupo Empordef – Empresa Portuguesa de Defesa», com a agravante de estarmos perante uma empresa portuguesa de defesa que não só não defende Portugal e os portugueses como ainda nos vem aos bolsos.

Mas pensem bem nisto: se é verdade que «a verba daria para comprar mais cinco aviões, que ajudariam a substituir os Aviocar da Força Aérea», não é motivo de grande alegria que isto não tenha acontecido? Sim, que se fosse feito negócio para mais cinco aviões é evidente que haveria mais derrapagens e que estávamos todos a arder com prejuízos ainda maiores, muito maiores mesmo.

Andamos deprimidos porquê? Nem tudo é mau, afinal.

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O MFA está com o povo?

por Laura Ramos, em 24.10.11

 

A maior parte de nós, homens e mulheres de agora, vive alheada da política de defesa nacional.

É um fenómeno típico das sociedades que experimentam a paz civil duradoura. Afinal, toda a Europa atravessa uma espécie de stand by, se esquecermos as sangrias que escorreram depois da desconstrução da Jugoslávia. E pouco mais.
Por isso, as milícias, as 3 armas - que a maioria observa como uma espécie de forças simbólicas e quase esvaziadas de objectivo imediato - embora nos tranquilizem, vagamente, não preenchem um décimo da nossa energia de observação política.

Curiosamente, toda a atenção que tínhamos com este tema, vista agora, parece ter-se esgotado com o sofrimento  febril e exaltado da guerra colonial. E serenado,  depois, já reconciliados pela gratidão de Abril.

 

Mas a defesa nacional é uma obra bem mais vasta do que a que associamos à gestão das forças armadas. E as forças armadas, por seu lado, têm sobre os ombros muito mais do que a administração de uma guerra teórica, entregue a paradas de rotina e à organização dos de oficiais de dia.

 

Apesar de tudo, nos dias que correm, não há amnistias. E eles também não escapam ao julgamento civil, mesmo que semi desatento. Porque todos sabemos que os militares não se furtaram à maré dos privilégios estatais e que, pelo contrário, a galgaram em prancha olímpica, aproveitando os tempos de sagração do MFA e da sua condição tutelar e libertadora.

Foram os aristocratas da democracia.

 

O ministro José Pedro Aguiar Branco sabe disto. E é um democrata genuíno, que viveu numa distância  milimétrica a ameaça geracional do recrutamento para as guerras de África. Empenhando-se desde o primeiro dia (ainda caloiro, nos bancos da universidade), na vivência total da democracia.

 

Por isso, as suas afirmações não são retóricas, quando diz que «nas ditaduras é que há silenciamento, e em democracia há manifestação, há opinião crítica».

 

De facto, as  Forças Armadas são depositárias dos valores mais estruturantes de Portugal e, por tudo aquilo que representam, espera-se que saibam estar à altura das suas obrigações: a vocação primária que desempenham na coesão nacional.

 

A história não pode justificar tudo.

Mais uma vez, em tempos de cólera, esperemos pelo exemplo de quem deve ser exemplar.

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