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A importância de ouvir quem sabe

por Pedro Correia, em 26.07.17

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Ocorreu ontem à noite na SIC Notícias um bom debate sobre a tragédia dos incêndios que tem devastado Portugal nestas últimas semanas e já consumiu mais de 75 mil hectares de terreno rural e florestal. Um debate para o qual gostaria de vos chamar a atenção: nele não escutámos a habitual ladainha de lugares-comuns e clichês ideológicos que é costume ouvirmos debitar por parte daqueles que, sem nunca terem saído de Lisboa, se atrevem a dar receitas sobre o "reordenamento florestal" do País.

Um debate que juntou António Gonçalves Ferreira, produtor florestal e presidente da União de Floresta Mediterrânica, Henrique Pereira dos Santos, arquitecto paisagista e presidente da Associação da Conservação da Natureza, António Rosa Gomes, especialista em segurança contra incêndios e ex-chefe do comando de bombeiros da Amadora, e Nelson Mateus, jornalista da SIC sediado na zona centro e já com vários anos de experiência em reportagens sobre incêndios agrícolas e florestais.

 

Aqui deixo algumas frases que fui registando:

  • «[Em Portugal há] condições geográficas para termos um crescimento dos matos muito rápido. Aquilo que conta na frente do fogo não são as árvores mas os combustíveis que têm até seis milímetros de espessura: o que conta são as ervas, os matos, as folhas, os ramos finos... Como temos Invernos muito amenos, a vegetação não pára de crescer no Inverno, e temos Verões relativamente húmidos, o que faz que continue a crescer no Verão. E é por isso que arde [sobretudo] a norte do Tejo, tal como em Espanha 50% dos fogos são na Galiza.»
  • «O fogo é uma inevitabilidade. Não vale a pena pensar que é uma probabilidade. E nós temos de aprender a conviver com ele. (...) O fogo é um elemento tão natural como a água, como o vento ou como a terra.»
  • «Não podemos estar a apostar sempre na resolução do problema pondo na medida reactiva aos incêndios todo o esforço, de forma desproporcionada e pouco inteligente. A gestão da emergência não deve ser confundida com a gestão das operações de emergência. A gestão da emergência começa na pré-emergência. Não podemos esperar resultados diferentes se fizermos sempre as coisas da mesma forma.»
  • «Em muitas destas aldeias [ameaçadas pelas chamas] aquilo que encontramos são pessoas idosas, já com poucas forças, já com problemas de saúde. Aí é perfeitamente compreensível que surjam essas queixas sobre a falta de meios. (...) Quando existem vários grandes incêndios coloca-se a questão da gestão de meios. Esta queixa da falta de meios em Mação, quando existem grandes frentes de incêndio em locais muito distintos, é um aspecto que merece uma reflexão dos responsáveis operacionais.»
  • «Devíamos separar fogos urbanos de fogos florestais. A forma de os combater é diferente. O que se faz [nos florestais] é retirar combustíveis da frente de fogo. (...) Os grandes fogos levam-se à extinção, combatem-se nas laterais e de trás para a frente.»
  • «É necessário estruturar devidamente as carreiras de bombeiros, as suas especializações, e construir um edifício que permita que o voluntariado corresponda a uma verdadeira profissionalização da acção por melhoria de competências. (...) O actual modelo formativo está absolutamente desadequeado.»
  • «Esta "reforma da floresta" [em curso] torna-a menos competitiva e em nada contribui para a diminuição do risco de incêndio. Aponta para o eucalipto como principal culpado de todos os males da floresta quando nós sabemos que uma das principais defesas da floresta é a sua rentabilidade. (...) É um conjunto de medidas desgarradas que não responde nem às necessidades da floresta nem às preocupações de todos os agentes a ela ligados.»

 

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Com o ataque dos Estados Unidos à Síria, corres o risco de ser convidado para partipar numa discussão televisiva ou radiofónica sobre o tema. Não percebes pevide do assunto? Nada temas. Tens aqui tudo o que é necessário para saires do debate em ombros.

Intervenção inicial: transmite com clareza a tua visão abrangente sobre o problema e as suas diversas implicações. Frase a utilizar: "é demasiado simplista colocar as coisas em termos de Ocidente contra Rússia. O mundo de hoje é multipolar e global. A Síria é um tabuleiro político para onde confluem questões geoestratégicas com ramificações que vão muito além da influência regional". Olha em redor para todos os outros participantes com ar confiante. Marcaste pontos. Alisa a franja do cabelo como se fosses o Nuno Rogeiro e não contraries a tentativa de intervenção que certamente um outro tertuliano tentará fazer. Já ninguém conseguirá ultrapassar uma análise global tão abrangente como a tua a não ser que invoque uma invasão iminente de marcianos.

Intervenção subsequente: demonstra inequivocamente o teu conhecimento sobre a linha estratégica trilhada pela Rússia como elemento chave no contexto internacional. Frase a utilizar: "a Síria tem uma importância fundamental para Putin (aqui pronuncia como o Zé Milhazes) sobretudo tendo em conta os desenvolvimentos recentes na Península Turca e a ambição política e militar do regime de Ankara". Mais um tiro certeiro da tua parte. Acabaste de antecipar-te ao tertuliano que tinha prontinha uma intervenção sobre Erdogan. A Turquia é uma referência fundamental nestas discussões. Tu foste o primeiro a trazê-la para a mesa.

3ª Intervenção: é o momento de revelares ao mundo não só o teu domínio da geopolítica mas também do processo histórico de evolução das ideias. Frase a utilizar: "no fundo, tudo isto representa a derrota do pensamento central de Fukuyama (faz descair ligeiramente e com condescendência o teu lábio superior, tal e qual como faz o Miguel Sousa Tavares). A História não acabou... a História não acabou, a verdade é essa. Estamos, não sei se concordarão, perante o regresso da geopolítica". Concordarão, claro. Com a mesma vontade com que as galinhas concordam sobre a importância do milho. Se não fosse a geopolítica não estavam todos ali, não é?

4ª intervenção: o pensamento humano tem enorme apetência por analogias. Conquista terreno abusando de comparações. Aqui não faz sentido amarrar-te a uma frase pré-definida. Dá largas à tua imaginação. Refere os balcãs, o império austro-húngaro, o Cisma do Ocidente, Hitler, o Czar Branco (não existiu, mas tal como tu, os outros não sabem), Estaline, Richelieu, Pedro o Grande, Zé do Telhado, Tira-Dentes, Átila o Huno, enfim, vai por aí fora. O céu é o limite.

5ª intervenção: está na altura de preparar o KO dos restantes tertulianos. Chegou a hora da filologia. Frase a utilizar: "é preciso termos presente que o território da Síria actual foi sucessivamente colonizado por canaanitas, fenícios, arameus, hebreus, egípcios, sumérios, assírios, babilónios, hititas, persas, gregos e bizantinos. Mas é preciso ter em conta que esta Síria não é a Síria a que Heródoto, por exemplo, se referia. Essa Síria do Heródoto coincidia com o território da Capadócia e por aqui se vê como a própria situação turca está sempre presente nestas questões". Olha fixamente para os restantes participantes na discussão. Goza o momento. Fodeste-os.

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Toda a estupidez é intolerante

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.03.17

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O tema, à partida, afigurava-se interessante. O orador é um reconhecido intelectual de direita, homem culto que sempre assumiu com coragem as suas convicções. Discutir o populismo e a democracia, compreender fenómenos como o Brexit, Le Pen e Trump não poderia ter mais actualidade. Sobre estes temas e outros idênticos já eu próprio participei num debate público e tive intervenções versando esses temas num programa de rádio onde regularmente intervenho. E, pergunto eu, que poderá haver de mais estimulante, mesmo para quem professe ideias contrárias, do que debater com um intelectual da craveira de Jaime Nogueira Pinto essas questões da actualidade política, questões que por esse mundo dividem a direita da esquerda, o pensamento neo-liberal e conservador do socialismo democrático, os radicalismos extremistas dos diversos modelos de democracia?

Confesso que tanto me faz que a intolerância venha da direita xenófoba e racista, de uma "associação de estudantes" de "orientação maoista" (ainda há maoistas?; eles sabem o que é o maoísmo?) ou de um triste Sousa Lara.

Como uma vez mais se prova, a estupidez não tem cor política. Aquilo que aconteceu na Universidade Nova de Lisboa, uma respeitável instituição de ensino, com excelentes professores e pensamento crítico, é mais uma evidência de que muitas vezes os piores sinais vêm de onde menos se espera. De onde não podem vir. Uma academia, uma universidade, é um espaço de excelência para a troca de ideias, para a discussão e o debate, para a divulgação de experiências e conhecimentos. Sem debate e discussão não há pensamento crítico, não há inteligência, não há luz. 

Como qualquer homem livre, avesso à intolerância, às trevas e à estupidez  – esta passagem dá para perceber o nível dos censores: "[n]ão compactuamos com eventos apresentados como debates sob a égide de propaganda ideológica dissimulada de cariz inconstitucional" (sic) –, adepto de um bom debate, de uma discussão acalorada em torno de um punhado de ideias, quero aqui deixar registada a minha indignação e tristeza pelo que aconteceu na Universidade Nova de Lisboa.

Jaime Nogueira Pinto não será um novo Savonarola ou um Giordano Bruno. Ele merece a nossa solidariedade e eu espero que possa apresentar as suas ideias, para que possam ser discutidas, criticadas e apoiadas por quem quiser, tão breve quanto possível numa qualquer outra instituição universitária onde os estudantes se comportem como tal.

Porque só isso poderá ser salutar para a universidade, para a democracia e para a liberdade. Porque as ideias combatem-se com ideias, e não com a estupidez ignorante. Porque a intolerância não é esquerdista. A intolerância é pura e simples estupidez. E só no reino da estupidez é que a manifestação de uma opinião, seja de direita ou de esquerda, é um crime ou um delito. Portugal já tem estupidez que chegue.

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Presidenciais (27)

por Pedro Correia, em 14.01.16

 

 

DEBATES: O MEU BALANÇO

 

Foram 21 debates televisivos a dois, em três canais. Acompanhei-os todos e nunca deixei de apontar um vencedor. Fica agora o balanço.


Paulo de Morais venceu cinco. Contra Belém, Marisa, EdgarNóvoa e Marcelo.

 

Marisa Matias venceu também cinco. Contra Nóvoa, Belém, MarceloNeto e Edgar.

 

Henrique Neto venceu outros cinco. Contra Edgar, Nóvoa, MarceloBelém e Morais.


Marcelo Rebelo de Sousa venceu três. Contra EdgarNóvoa e Belém.

 

Sampaio da Nóvoa venceu dois. Contra Edgar e Belém.

 

Edgar Silva venceu um. Contra Belém.

 

Maria de Belém não venceu nenhum.

 

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Presidenciais (25)

por Pedro Correia, em 09.01.16

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Debate Maria de Belém-Sampaio da Nóvoa

 

Maria de Belém anunciou a candidatura à Presidência da República cinco meses após Sampaio da Nóvoa. Competia-lhe portanto, neste debate na TVI que encerrou a série de 21 confrontos televisivos a dois entre os candidatos ao Palácio de Belém, estabelecer as diferenças com o seu antagonista. Mas a ex-ministra da Saúde, salvo em dois ou três momentos demasiado fugazes, foi incapaz de apontar esses contrastes. Tal como esteve longe de conseguir replicar aos apoios de peso que Nóvoa tem granjeado sobretudo à esquerda. Ontem mesmo, escassas horas antes do debate, foi a vez de o actual presidente do PS, Carlos César, anunciar que votará no catedrático nascido em Caminha.

Pedindo emprestada a linguagem futebolística à política, dir-se-ia que Nóvoa parecia jogar em casa. Esteve mais seguro, mais desenvolto, mais afirmativo. Foi cordato, aliás como é costume, mas não deixou de lançar as suas estocadas. E a maior de todas foi a acusação que fez a Maria de Belém de ter "faltado à chamada", enquanto deputada socialista, quando foi necessário solicitar ao Tribunal Constitucional a fiscalização sucessiva do Orçamento do Estado para 2012 que cortava pensões e salários da função pública.

"Deixou a outros [deputados] essa responsabilidade", acusou. Acrescentando de imediato: "Eu não quero um Presidente da República que transfira as suas responsabilidades para outros."

Maria de Belém até teve um início enérgico, procurando encostar o adversário a estratégias de um "frentismo de extrema-esquerda". E apontou uma contradição ao candidato, que apesar de fazer constantes proclamações em defesa da "renovação" da política "passa a vida a invocar o apoio de três ex-Presidentes da República, aliás dois deles do PS".

Nóvoa reverteu esta crítica em elogio, reivindicando o "apoio de muitos socialistas do País inteiro". E fez questão de transmitir da sua adversária a imagem de uma pessoa hesitante, especialista em "acertar no totobola à segunda-feira". Dizendo uma vez e outra ser arauto de um "tempo novo". Linguagem "messiânica", como Belém referiu. Sem parecer muito segura de poder estar a criticá-lo ou a fazer-lhe outro elogio implícito ao falar assim.

 

Vencedor: Sampaio da Nóvoa

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Frases do debate:

 

Nóvoa  - «A minha candidatura tem uma abrangência de muitas pessoas que se situam à esquerda, de muitas pessoas que se situam ao centro, de pessoas que se situam à direita.»

Belém  - «Não aceito que o facto de ser independente dê algo de acrescido e de dignificante ao exercício dum cargo desta natureza.»

Nóvoa - «Eu quero ser um Presidente que protege os portugueses.»

Belém - «Eu estive nas causas todas que o PS empreendeu nestes 40 anos. Como militante de base, como dirigente. Nunca vi o candidato Sampaio da Nóvoa nessas causas, nunca o vi lá, nunca o encontrei.»

Nóvoa - «A candidata Maria de Belém mostrou sempre um grande incómodo com este tempo novo que se criou.»

Belém - «O candidato Sampaio da Nóvoa passa a vida a falar num tempo novo. Eu gostava de saber que tempo novo é esse com a Constituição que temos tido.»

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O melhor:

- Maria de Belém abriu as hostilidades empurrando Nóvoa para posições radicais enquanto se assumia como uma candidata moderada, próxima da social-democracia europeia.

- Carlos César, sucessor de Belém na presidência do PS, anunciara hora antes que votará no ex-reitor da Universidade de Lisboa. Um reforço de peso entre os apoiantes de Nóvoa, como o candidato fez questão em destacar.

O pior:

- Sampaio da Nóvoa acusou Marçal Grilo, mandatário nacional de Maria de Belém, de ter rotulado de "enorme desastre" um executivo PS com apoio parlamentar à esquerda. Exactamente a mesma acusação com que Marcelo Rebelo de Sousa procurara embaraçar a candidata no debate da véspera.

- Começar um debate na TVI a mencionar o aniversário da SIC Notícias, como fez Maria de Belém, é algo semelhante a aplaudir o Benfica no estádio de Alvalade. Pior é invocar alguém já falecido, como o ex-ministro Mariano Gago, como "trunfo" eleitoral.

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Presidenciais (24)

por Pedro Correia, em 08.01.16

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Debate Marcelo Rebelo de Sousa-Maria de Belém

 

Na sua melhor prestação em debates nesta campanha, Maria de Belém Roseira incomodou seriamente Marcelo Rebelo de Sousa. Mas isto, paradoxalmente, acabou por ser útil ao ex-líder do PSD: uma corrida presidencial sem controvérsia é o maior convite a uma abstenção em larga escala. E todos os cálculos eleitorais do professor podem estar em causa se a abstenção disparar para índices muito superiores aos que constam das sondagens.

A ex-ministra da Saúde e da Igualdade surgiu em cena como algumas loiras imortalizadas nos filmes de Alfred Hitchcock: capazes de cravar um punhal com um doce sorriso nos lábios. Conduziu de imediato o debate para questões de carácter, questionando a "dualidade" do catedrático, capaz de "dizer uma coisa e logo a seguir outra coisa completamente diferente". A prova, na sua perspectiva, foi patente nos debates anteriores: Marcelo "esteve à esquerda de Marisa Matias, esteve à esquerda de Edgar Silva e esteve concordante com Paulo Morais, que acusa toda a gente de corrupção."

Chegou a desenterrar a expressão "lelé da cuca" com que o então jornalista do Expresso brindou no final da década de 70 o proprietário e director deste semanário. "Não se lembra do que chamou ao doutor Francisco Pinto Balsemão num governo a que pertencia juntamente com ele? Uma coisa que eu nunca diria a ninguém." Matéria tão antiga e desenquadrada da realidade que só pode interessar aos arqueólogos.

Rebelo de Sousa, que até aí se mostrara muito mais cordato do que no debate da véspera com Sampaio da Nóvoa, voltou a desembainhar a espada. E reconduziu o frente-a-frente ao plano político, fustigando a sua opositora com esta exclamação sonante: "A senhora doutora, que não consegue unir o partido dela, quer unir o País!"

Era uma questão chave. Mas Marcelo não parou aí. Confrontado por Maria de Belém com a fama de criador de factos políticos, devolveu-lhe o proveito: "Lança a candidatura no momento em que o líder do partido dela está a dar uma entrevista importantíssima na campanha das legislativas e diz que eu é que crio factos políticos?!"

A política estava de volta ao debate. Virando a vantagem para o militante nº 3 do PSD, em quem Passos Coelho estaria a pensar quando no último congresso do partido se insurgia contra os "cataventos" da opinião. O facto é que acabou por recomendar o voto em Marcelo. Enquanto Costa não deu o menor indício de recomendar o voto na antiga ministra que já foi presidente do PS.

 

Vencedor: Marcelo Rebelo de Sousa

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Frases do debate:

 

Belém - «Marcelo Rebelo de Sousa é o meu principal adversário.»

Marcelo - «O meu adversário são os problemas dos portugueses.»

Belém - «Intriguista eu nunca fui. E se perguntar aos portugueses quem é o campeão nessa matéria, eu não sou a campeã porque nunca usei a intriga.»

Marcelo - «A senhora tem andado a campanha toda a tentar à direita o que lhe falta à esquerda.»

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O melhor:

- No final, perante questões concretas sobre um possível apoio a novas causas "fracturantes" na Assembleia da República, Marcelo manifestou concordância genérica enquanto Maria de Belém não hesitou: "Sou contra a eutanásia." Quatro palavras que bastaram para pescar votos no terreno político do adversário.

- Confrontado com acusações de instabilidade, o ex-presidente do PSD lembrou ter viabilizado três orçamentos do governo Guterres, evitando crises políticas e permitindo a Maria de Belém ser ministra até ao fim do prazo previsto para essa legislatura.

O pior:

- A ex-ministra da Saúde devia ter evitado suscitar o tema da difícil relação entre Marcelo e a liderança do PSD prevendo que o seu rival neste debate a questionaria de imediato sobre o apoio que António Costa e a grande maioria dos ministros do actual Executivo lhe negaram apesar de ter sido presidente do PS. O tiro fez ricochete.

- "A senhora doutora ouviu o debate de ontem, ou se não ouviu disseram-lhe, provavelmente disseram-lhe, depois deram-lhe umas notinhas e lá veio com as notinhas..." Era desnecessário este remoque de Marcelo, que pecou por arrogância.

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Presidenciais (23)

por Pedro Correia, em 08.01.16

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Debate Marcelo Rebelo de Sousa-Sampaio da Nóvoa

 

Sampaio da Nóvoa não é o maior adversário de Marcelo Rebelo de Sousa nesta campanha eleitoral. O que o ex-director do Expresso tem mais a temer é a abstenção: os portugueses votaram três vezes em menos de dois anos e é notório o desinteresse em torno das presidenciais, que muitos consideram já com desfecho anunciado.

O potencial risco desmobilizador desta convicção que se instalou junto de tanta gente é o maior obstáculo que Marcelo enfrenta. E o tom de bonomia em que têm decorrido os debates, sem crispação nem aquelas "dramatizações" que noutros tempos faziam as delícias do comentador Rebelo de Sousa, só contribui para acentuar o desinteresse.

Faltava portanto "dramatizar". Marcelo precisava de concretizar esse desígnio no frente-a-frente com António Sampaio da Nóvoa em horário nobre da SIC, ontem à noite. Assim fez. Surpreendeu o seu antagonista ao "entrar em campo" como costumam fazer as equipas treinadas por Jorge Jesus no campeonato nacional de futebol: exercendo pressão alta desde os instantes iniciais, confundindo e contundindo o adversário.

Nóvoa demorou a reagir, traindo o embaraço com exclamações como estas: "Muito me surpreende..."; "é a primeira vez que ouço..."; "não estava à espera..." E quando recuperou do embaraço inicial notou-se bem que lhe faltam os dotes histriónicos e a experiência televisiva do colega catedrático que tinha à sua frente.

Foi um debate vivo, à moda antiga - daqueles de que se falarão mais tarde. Um debate em que Nóvoa proclamou: "O Presidente da República tem de se bater por causas. Eu não vim para deixar tudo na mesma." O primeiro debate a sério desta campanha até agora feita de palavras demasiado dóceis. De tal maneira que a moderadora, Clara de Sousa, acabou por ter uma intervenção residual - o que aliás fazia todo o sentido pois tratava-se de um verdadeiro confronto, não apenas de uma troca de amabilidade para cumprir calendário.

Deste debate as frases que os telespectadores mais retiveram foram, em larga medida, proferidas pelo candidato que conta com o apoio do PSD e do CDS: "Os portugueses sabem onde eu estive. O professor apareceu agora, virgem. Onde é que esteve? Onde é que esteve? Onde é que esteve?"

Embalado, Marcelo acusou o antagonista de querer passar "de soldado raso a general" e de possuir muito mais meios do que ele para fazer campanha eleitoral: "Eu não tenho a sua estrutura nem os seus gastos de campanha." Visivelmente incomodado, o ex-reitor de Lisboa advertiu-o: "Não vá por aí, professor, não vá por aí."

Estava o verniz quebrado. Era precisamente o que Marcelo queria.

 

Vencedor: Marcelo Rebelo de Sousa

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Frases do debate:

 

Nóvoa  - «Sobre cada matéria nós temos 20 citações suas a dizer uma coisa e 20 citações a dizer o contrário.»

Marcelo  - «Mas disse! Eu dizia e o senhor não dizia. Eu expunha-me e o senhor não se expunha.»

Nóvoa - «Eu venho da crítica às políticas de austeridade. O professor Marcelo Rebelo de Sousa vem do apelo ao voto em Passos Coelho e Paulo Portas.»

Marcelo - «O senhor tem que trazer na lapela três ex-Presidentes da República. Eu não, eu não preciso.»

Nóvoa - «As suas afirmações sobre gastos excessivos na campanha em período de crise são antidemocráticas. É evidente que a democracia tem custos. A ditadura é muito mais barata, até se faz à borla.»

Marcelo - «Sabe quem é que meteu dinheiro na minha campanha até agora? Fui eu.»

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O melhor:

- Num eficaz golpe de retórica, Sampaio da Nóvoa transformou o comentador Marcelo num adversário do candidato Marcelo: "Eu não me ouço só a mim mesmo. Não gosto de passar o tempo todo a falar sem ouvir ninguém. Essa é uma diferença fundamental que nos separa no exercício do cargo."

- Quando Nóvoa questionou a "forma no mínimo discutível" como o ex-presidente do PSD aproveitou a sua enorme exposição mediática como trampolim para a política, Rebelo de Sousa retorquiu de imediato: "Isso impediria António Costa de ser candidato a primeiro-ministro". Aludindo à participação de Costa, durante anos, no programa de comentário político Quadratura do Círculo.

O pior:

- O ex-reitor da Universidade de Lisboa fala na necessidade de "sangue novo" e "outras pessoas" na política. Mas confessa que só avançou na corrida a Belém após "longuíssimas conversas" com três ex-Chefes do Estado: Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.

- Marcelo denunciou o "apoio tóxico" do MRPP à candidatura de Nóvoa, dando relevo a um facto irrelevante.

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O segundo debate Marcelo-Sampaio.

por Luís Menezes Leitão, em 08.01.16

Há 25 anos Marcelo Rebelo de Sousa envolveu-se de alma e coração numa candidatura à câmara de Lisboa, fazendo tudo para chamar a atenção de um eleitorado que não o conhecia, como conduzir um táxi pelas ruas da capital e mergulhar no Tejo. A sua campanha local apareceu com tanta força que ninguém do PS se dispunha a enfrentar Marcelo nessa corrida. Vítor Constâncio demitiu-se, perante as sucessivas recusas que foi recebendo, e o seu sucessor, Jorge Sampaio, foi obrigado, enquanto líder da oposição, a apresentar uma candidatura pessoal contra Marcelo. Já nessa altura coube a António Costa fazer as pontes para um acordo de esquerda contra Marcelo. Mas mesmo esse acordo não parecia ser suficiente, uma vez que Sampaio suscitava pouco entusiasmo perante a energia e o brilhantismo de Marcelo.

 

Isto foi assim até que se realizou um debate entre Sampaio e Marcelo. Nesse debate Marcelo decidiu adoptar uma pose mais serena por contraponto ao que até então tinha sido a sua intervenção. Esse erro foi-lhe fatal. Jorge Sampaio, com a experiência de advogado de barra, explorou as fragilidades do discurso de Marcelo e, ao contrário do que se esperava, Marcelo não foi capaz de lhe dar a réplica devida. Marcelo saiu do debate a dizer que se calhar tinha desiludido os seus apoiantes e de facto nesse dia perdeu as eleições.

 

Nestas eleições, passou-se o contrário. Marcelo optou por uma campanha completamente vazia, o que envolvia sérios riscos como aqui salientei. Mas, ao contrário do que se passou há 25 anos, não descurou o debate com Sampaio da Nóvoa. Pelo contrário, entrou completamente a matar, chamando a atenção para a total falta de currículo político do candidato, a sua ignorância absoluta da função presidencial, e o seu comprometimento ideológico com uma minoria dos eleitores. Nóvoa, perante o massacre que sofreu, só lhe faltou levantar os braços e invocar a convenção de Genebra. Lá foi dando uns apartes sobre o serviço nacional de saúde, que Marcelo facilmente desmontou, e fez referência aos antigos presidentes que o apoiam, o que Marcelo ridicularizou. No fim Marcelo deu-lhe uma estocada final decisiva quando chamou a atenção para a carrinha dos seis assessores que ele tinha trazido, criando no público a sensação de que sem assessores Nóvoa não existe.

 

Marcelo teve passados 25 anos a sua segunda oportunidade num debate político decisivo. Desta vez não a desperdiçou. No próximo dia 24 será entronizado presidente. E, diga-se de passagem, no actual quadro político é a melhor solução para o país.

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Presidenciais (22)

por Pedro Correia, em 07.01.16

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Debate Henrique Neto-Paulo de Morais

Não basta ser candidato presidencial: é preciso parecê-lo. Ora Paulo de Morais nunca esteve tão longe de parecer um candidato presidencial do que no confronto da noite passada, na SIC Notícias, com Henrique Neto. Um debate onde as diferenças foram mais de estilo do que de substância. Ambos revelaram sintonia em diversas matérias - da oposição firme ao acordo ortográfico à crítica frontal à permanência da Guiné Equatorial como Estado-membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Mas Morais fez duas declarações que o dissociam claramente do cadeirão presidencial. A primeira visou o antecessor de Passos Coelho no cargo de primeiro-ministro: "Não tenho dúvida nenhuma de que José Sócrates é uma das caras da corrupção em Portugal." Sabendo-se que o antigo chefe do Governo está a contas com a justiça e que compete apenas a esta investigar, no âmbito dos seus poderes soberanos, não faz o menor sentido que um candidato presidencial se pronuncie desta forma sobre o tema.

A segunda foi aparentemente ditada por um irreprimível impulso demagógico: "Se eu for eleito há duas viagens que vou fazer muito rapidamente: uma a Angola, outra ao Brasil. Para explicar quer ao Presidente de Angola quer à Presidente do Brasil que Lisboa vai deixar de ser a máquina de lavar a corrupção destes três países." O candidato parece esquecer-se, desde logo, que só viajaria a Brasília e Luanda se recebesse convite prévio dos seus homólogos.

Num e noutro caso, Neto proferiu declarações sensatas. Sobre Sócrates disse que compete à justiça pronunciar-se. Sobre as visitas presidenciais, elegeria Washington: "Eu faria o contrário. Começaria pelos Estados Unidos. Porque é a maior economia mundial. É de lá que vem a inovação, é de lá que vêm as ideias." 

Se a frontalidade é um atributo, a ponderação é uma virtude. E por vezes, entre tanta afirmação empolgada para encher títulos de jornal, sabe bem escutar frases que parecem derivar apenas do mais elementar senso comum.

 

Vencedor: Henrique Neto

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Frases do debate:

Neto - «Nenhum português bem informado e atento tem dúvidas de que a corrupção é um caso sério em Portugal.»

Morais  - «Alguns casos de corrupção em Portugal são feitos tão às claras que para procurar provas basta ir ao Diário da República

Neto  - «A nossa justiça não tem capacidade para investigar a corrupção.»

Morais - «A justiça não é verdadeiramente independente tal como exige a Constituição.»

 

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O melhor:

- O ex-vice-presidente da Câmara Municipal do Porto proporá, se chegar ao Palácio de Belém, um referendo sobre o acordo ortográfico. E adianta desde já a sua opinião sobre a matéria: "Sou claramente contra."

- "É um escândalo que a Guiné Equatorial esteja na CPLP", diz Henrique Neto. Quem fala assim não é gago.

O pior:

- Paulo de Morais elegeu Manuel de Arriaga como seu modelo de Presidente. Esqueceu-se que Arriaga não completou o mandato, o País viveu em convulsão permanente naqueles anos e o seu magistério presidencial abriu caminho à breve ditadura do general Pimenta de Castro.

- Se perder a eleição, Neto faz-se desde já convidado para comentador na SIC Notícias: "Espero que vocês me convidem algumas vezes a vir aqui, como faziam antes." Deve ser isto a que alguns chamam empreendedorismo...

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Presidenciais (21)

por Pedro Correia, em 07.01.16

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Debate Edgar Silva-Marisa Matias

 

Haverá fronteiras geográficas para a defesa dos direitos humanos? Quem assistisse ao debate televisivo de ontem na RTP entre Edgar Silva e Marisa Matias seria eventualmente levado a suscitar esta questão perante a aparente contradição do candidato comunista, tão lesto a fazer a defesa desses direitos em Portugal e tão relutante em expressar-se da mesma forma quando estão em causa países dirigidos por "partidos irmãos" do PCP. A Coreia do Norte, por exemplo.

Parece não haver tema tão incómodo para um comunista português como este, suscitado pelo moderador do debate, João Adelino Faria, numa pergunta simples, directa e clara a Edgar Silva:

- Considera a Coreia do Norte uma democracia?

- Pergunta-me se eu a considero uma democracia?

- ...Ou uma ditadura.

- Eu acho que o Presidente da República tem o dever, em relação a cada um dos países, e a cada um dos Estados, de ter com todos os países e Estados uma relação de cooperação e solidariedade, independentemente da apreciação subjectiva do Chefe do Estado sobre as políticas...

- Mas qual é a sua apreciação sobre a Coreia do Norte? É uma ditadura ou uma democracia?

- Eu reconheço que em vários países do mundo existem situações de insuficiente respeito pelos direitos humanos...

- Não me respondeu.

- Não vejo que esse seja um privilégio da Coreia do Norte.

O membro do Comité Central do PCP não saía disto. Era a vez de o jornalista conceder a palavra à eurodeputada do Bloco. Marisa Matias não hesitou: "Eu respondo de forma directa. Considero a Coreia do Norte uma ditadura que ataca o seu povo."

Este debate esteve muito centrado na tentativa de encontrar diferenças entre os dois candidatos. Não havia necessidade de procurar mais: estava encontrada. E não era nada lisonjeira para Edgar Silva.

 

Vencedora: Marisa Matias

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Frases do debate:

 

Edgar - «Tenho um compromisso com o mundo do trabalho.»

Marisa  - «É preciso uma Presidente da República que se bata pelo País.»

Edgar - «Dissolveria a Assembleia [se os deputados confirmassem em segunda votação parlamentar um orçamento vetado pelo Chefe do Estado]?»

Marisa - «Desculpe... não é sério.»

 

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O melhor:

- A propósito da viabilização do orçamento rectificativo, Edgar Silva levou Marisa Matias a irritar-se ao insinuar que a candidata tem um conhecimento insuficiente dos poderes do Chefe do Estado definidos na Constituição.

- A eurodeputada disse o que muitos portugueses pensam quando criticou a intervenção no Banif: "Este orçamento rectificativo de três mil milhões de euros equivale exactamente ao corte que tivemos no Serviço Nacional de Saúde."

O pior:

- "Eu conheço bem os poderes do Presidente da República", justificou-se Marisa, como se tivesse sido apanhada em transgressão. Não havia necessidade.

- O antigo sacerdote estava mal informado quando assegurou que a sua oponente, enquanto membro da eurocâmara, aprovou a intervenção militar na Líbia. "Eu aconselhava-o a ver as actas do Parlamento Europeu. Porque eu votei contra e foi voto nominal", retorquiu-lhe a dirigente bloquista,

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Presidenciais (20)

por Pedro Correia, em 07.01.16

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Debate Marcelo Rebelo de Sousa-Paulo de Morais

 

Ainda comecei a contar as vezes em que, no frente-a-frente de ontem da TVI 24, Marcelo Rebelo de Sousa concordou com o seu oponente. Às tantas, desisti. Era evidente que o ex-vice-presidente da Câmara do Porto vencera o debate - precisamente aquele em que surgiu mais descontraído e sorridente.

Marcelo, bem ao seu jeito, desfez uma eventual atmosfera de crispação mal abriu a boca: "Boa noite, Paulo." Levando o rival nesta corrida presidencial a chamá-lo também pelo nome próprio. De resto Morais esteve muito mais cordato com o antigo presidente do PSD do que com qualquer outro adversário que já defrontou nos debates televisivos desta campanha. "Com todo o respeito" foi uma expressão com que o brindou mais de uma vez.

"Marcelo é o candidato que, neste regime, desdramatiza tudo", salientou o antigo autarca, chamando "candidato da estabilidade" ao conselheiro de Estado. Este pareceu satisfeito: o epíteto agradava-lhe. E é até bem capaz de utilizá-lo como slogan de campanha.

Com bonomia, Marcelo congratulou-se de ser com Paulo de Morais um dos candidatos que gastam menos dinheiro nesta corrida a Belém - a mais barata de que há memória. E acenou-lhe com mais um elogio: "Acompanho com apreço a sua luta." Sorria enquanto dizia isto. Aliás, sorriam ambos. Há noites assim.

 

Vencedor: Paulo de Morais

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Frases do debate:

 

Morais  - «Se as pessoas querem mudança não podem ter medo da mudança.»

Marcelo  - «Quem mais ordena é o povo.»

Morais - «É uma vergonha viver na Europa e ter tanta gente na sopa dos pobres.»

Marcelo - «O Presidente da República deve ter uma magistratura de equilíbrio, de fazer pontes, de cicatrizar feridas.»

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O melhor:

- Paulo de Morais falou como provedor dos contribuintes: "Em Portugal, para elaborar um Orçamento do Estado, programa-se a despesa e depois vai-se ver como sacar a receita lançando impostos de forma quase feudal sobre as empresas e as pessoas."

- O antigo presidente do PSD não perde uma oportunidade de piscar um olho aos eleitores de esquerda: "Devemos ser politicamente imparciais mas socialmente parciais. Temos que ser socialmente parciais a favor daqueles que menos têm e mais sofrem."

O pior:

- A questão do preço dos livros escolares pode ser muito relevante mas está longe de figurar nos poderes do Presidente da República, o que não inibiu Morais de discorrer sobre ela.

- "Concordo consigo", ia repetindo Rebelo de Sousa. Música para os ouvidos do rival nesta campanha.

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Presidenciais (19)

por Pedro Correia, em 06.01.16

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Debate Edgar Silva-Marcelo Rebelo de Sousa

 

Marcelo Rebelo de Sousa, imparável criador de factos políticos, voltou à ribalta após um período na clandestinidade. O regresso ocorreu no debate da noite passada na RTP, quando o militante nº 3 do PSD defrontava o candidato apoiado pelo Partido Comunista, Edgar Silva.

Este, ontem com maior desenvoltura verbal do que nos anteriores debates, compareceu em estúdio alertando para as habilidades de Marcelo na "arte do engodo", acusando-o de "procurar no essencial manter a lógica dos mandatos de Cavaco Silva na Presidência da República" e de iludir os portugueses sobre eventuais distâncias entre as suas posições e as do PSD.

Com instinto felino, Marcelo emitiu um desmentido que lançava uma sombra de insinuação sobre o seu antagonista: "Eu não estou a concorrer para líder partidário, estou a concorrer para Presidente da República. Para líder partidário já concorri noutros tempos."

O moderador, João Adelino Faria, tentou desviar o rumo do diálogo, mas os dois contendores - aliás de modos muito cordatos - estavam imparáveis. Edgar decidiu questionar o ex-presidente social-democrata. Travou-se este diálogo:

- Exclui liminarmente a hipótese de se candidatar à direcção do seu partido?

- Nunca mais. E você admite uma candidatura à direcção do seu partido?

- Eu?

- Sim.

- Quem decide isso são os militantes...

Era visível o embaraço do membro do Comité Central comunista, que não esperava aquela réplica. Estava encontrado o facto político do mês ou até do ano: Edgar participa nesta campanha como tirocínio à sucessão de Jerónimo de Sousa, que abandonará as funções de secretário-geral em 2016. Marcelo de regresso aos velhos tempos: há coisas que nunca mudam.

 

Vencedor: Marcelo Rebelo de Sousa

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Frases do debate:

 

Edgar - «Marcelo Rebelo de Sousa é um Cavaco Silva a cores.»

Marcelo  - «Quem olhar para o professor Cavaco Silva e olhar para mim... dizer que eu sou uma versão a cores... é uma coisa um pouco estranha.»

Edgar - «[Marcelo] é um mestre na arte do disfarce.»

Marcelo - «Sabe quem é que [no PSD] restabeleceu relações com o PCP? Fui eu. Ao fim de 35 anos de corte de relações.»

 

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O melhor:

- António Costa pode dormir descansado. Segundo Marcelo, o próximo magistério presidencial "deve ser equilibrado, pedagógico e sobretudo não ser um magistério de contrapoder em relação ao Governo".

- Edgar Silva procurou mobilizar e fixar o eleitorado comunista assumindo o seu "compromisso com o mundo do trabalho" e fazer cumprir a "Constituição laboral".

O pior:

- "Eu sou independente, quem me conhece sabe que eu sou. Fui sempre e sou sempre", assegurou o militante nº 3 do PSD. Convém não exagerar.

- O candidato apoiado pelo PCP esqueceu-se de limpar as marcas de transpiração no rosto, algo que causa sempre má impressão num ecrã televisivo.

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Os debates presidenciais.

por Luís Menezes Leitão, em 06.01.16

Dos debates presidenciais que até agora vi fiquei com uma conclusão óbvia. Estas eleições presidenciais são as mais tristes da história da democracia e a esmagadora maioria dos candidatos poderia seguramente fazer alguma coisa mais útil como, por exemplo, ir cultivar batatas em lugar de andar a recolher 7.500 assinaturas apenas pelo prazer de ocupar o espaço mediático numa candidatura presidencial completamente inútil.

 

Tem-se visto de tudo. Um candidato abandona um debate em directo, desrespeitando o compromisso com a televisão, apenas porque o tempo de antena que lhe deram não foi aquele que desejava. Outro candidato discursa sistematicamente contra a corrupção, parecendo que ainda não percebeu que o lugar em disputa não é o de procurador-geral da república. Outro candidato promete, imagine-se, alterar a constituição, competência que o presidente não tem, a qual é obrigado a jurar cumprir e fazer cumprir no acto de posse. E outro candidato passeia o seu habitual estilo gongórico, dizendo coisas de um absoluto vazio, como a de que é preciso "um tempo novo". E chegamos a assistir a debates em que os candidatos estão de acordo em tudo, sem que ninguém lhes pergunte se nunca pensaram em desistências recíprocas.

 

Os jornalistas moderadores assistem normalmente a este triste espectáculo com enfado e perplexidade, nada questionando a candidatos que manifestamente não têm nada de relevo para dizer. A excepção tem sido Rodrigues dos Santos que tem colocado aos candidatos algumas perguntas que devem ser feitas. No debate entre Sampaio da Nóvoa e Henrique Neto, ficou claramente à vista, por mérito deste último, a vaguidade total e a absoluta ausência de ideias de Nóvoa. Rodrigues dos Santos fez-lhe apenas algumas perguntas concretas, como qualquer jornalista tem o dever de fazer. Parece que por isso uma apoiante de Nóvoa apresentou uma queixa na ERC, demonstrando assim que os apoiantes de Nóvoa acham que os jornalistas estão nos debates como figuras de corpo presente, e que questionar o seu candidato já passou a ser crime de lesa-majestade.

 

Eu só peço a Deus que esta eleição presidencial acabe já à primeira volta. É que não há santo que aguente aturar mais duas semanas disto.

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Presidenciais (18)

por Pedro Correia, em 06.01.16

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Debate Henrique Neto-Marisa Matias

 

Qualquer político sonharia com um debate assim: ei-lo a expor a sua tese enquanto o suposto opositor passa o tempo a acenar com a cabeça em sinal de aprovação. Aconteceu ontem, na SIC Notícias, com Marisa Matias: a candidata do Bloco de Esquerda ia explanando os seus pontos de vista sobre a situação do País entre proclamações de concordância de Henrique Neto, sentado à sua frente.

"Se o saldo da balança comercial [portuguesa] não se degradou foi porque as pessoas deixaram de ter dinheiro para comer", declarou a eurodeputada. Do outro lado da mesa, Neto anuiu: "De acordo."

"Temos salários e pensões muito baixos, que foram muito atacados no último ano", salientou Marisa. Neto não deixou lugar a dúvidas: "Cem por cento de acordo."

"O trabalho com direitos é uma questão essencial. Temos uma sociedade onde não há trabalho e o que há é precário", observou a candidata. Neto rematou: "Estou de acordo com tudo quanto disse."

Ia o debate a meio e já não restavam dúvidas sobre quem levara a melhor: o empresário da Marinha Grande, cavalheiresco, desistia do confronto preferindo discorrer sobre a macroeconomia neste mundo globalizado. Marisa reconduziu a conversa à escala nacional, mostrando-se mais em sintonia com os eleitores. Pormenor talvez irrelevante: de poderes presidenciais ninguém falou.

 

Vencedora: Marisa Matias

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Frases do debate:

Neto - «Considero a subida do salário mínimo nacional uma vergonha nacional. Porque é pouco, obviamente.»

Marisa  - «Não precisamos de estar zangados com tudo.»

Neto  - «Peço aos portugueses que votaram em Cavaco Silva que não cometam os mesmos erros nesta eleição.»

Marisa - «Há candidatos que se apresentam a estas eleições como se o País lhes devesse alguma coisa.»

 

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O melhor:

- "Tenho a obrigação de defender a minha geração, que não conheceu outra coisa que não seja a austeridade": Marisa Matias procurando mobilizar os eleitores jovens, mais seduzidos pela abstenção.

- Henrique Neto, um industrial com preocupações sociais: "Na minha empresa nunca tive trabalhadores a prazo."

O pior:

- "Os partidos do arco do poder têm destruído o País." A frase do ex-deputado socialista é sonante, mas de um populismo extremo.

- Há um ano, a eurodeputada do BE abraçava Tsipras nos comícios do Syriza. Hoje prefere nem falar da Grécia.

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Presidenciais (17)

por Pedro Correia, em 06.01.16

      

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Debate Paulo de Morais-Sampaio da Nóvoa

 

António Sampaio da Nóvoa fez uma boa proposta no frente-a-frente da noite passada na TVI 24. Fê-lo com algum atraso, no quarto debate televisivo a dois em que participou, dando finalmente a ideia de que é capaz de subir ao concreto nesta farpa a Cavaco Silva: "O Presidente da República, infelizmente, não cumpre o código dos contratos públicos e não procede à publicitação on line dos seus contratos. Isto é uma prática que tem que mudar. Aquele que promulga as leis tem de ser o primeiro a dar o exemplo."

Foi o seu melhor momento neste confronto com Paulo de Morais. Mas foi também aquele que permitiu evidenciar mais a destreza verbal do seu antagonista. O ex-braço direito de Rui Rio na câmara do Porto pegou-lhe na palavra e correu com ela pista adiante: "Não chega ao Presidente da República dar o exemplo. O Presidente tem que exigir transparência a toda a classe política." Contestou os apelos de Nóvoa à estabilidade revelando que nessa manhã deixara um cravo vermelho junto à tumba do primeiro Rei de Portugal. "Não foi com estabilidade que D. Afonso Henriques fez o País. Não foi com estabilidade que se fez o 25 de Abril. Tem que haver instabilidade para haver progresso. A estabilidade só é boa quando as coisas estão bem."

No resto, cumpriu-se o guião: Morais conduziu o debate para o campo que lhe garante votos, o do justiceiro contra a corrupção, disparando contra as sociedades de advogados de Lisboa e o Parlamento, que a seu ver "está organizado como uma central de negócios". Nóvoa refugiou-se em fórmulas vagas: "Corrupção? Reconheço que há problemas, que há dificuldades. Muitas denúncias que o doutor Paulo Morais tem feito estão certas."

Era precisamente isto o que o seu opositor pretendia ouvir.

 

Vencedor: Paulo de Morais

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Frases do debate:

 

Nóvoa  - «É muito estranho que alguns considerem a política como uma espécie de clube privado.»

Morais - «Há sociedades de advogados que são verdadeiras irmandades, para não dizer máfias.»

Nóvoa  - «Estabilidade não é estagnação. Estabilidade é um processo de mudança.»

Morais - «A justiça em Portugal tem meios ridículos. O Ministério das Finanças tem verbas disponíveis para tapar buracos superiores ao orçamento da justiça.»

 

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O melhor:

- Sampaio da Nóvoa deixou claro qual é o eleitorado a que se dirige: "Desde 4 de Outubro abriu-se uma nova cultura de diálogo e de compromisso na sociedade portuguesa."

- O ex-vice-presidente da Câmara do Porto revelou enfim alguma consciência social: "Que dignidade existe numa idosa de 80 anos que vive com 200 euros de reforma? Neste momento há mil cantinas sociais em Portugal que dão de comer às pessoas por esmola."

O pior:

- Os assessores da campanha do antigo reitor da Universidade de Lisboa devem recomendar-lhe que não baixe constantemente os olhos para os papéis enquanto fala. Dá a sensação de que procura a cábula.

- "Parece-me normal que tenha havido acusação no caso Sócrates", disse Morais. O problema é que ainda não houve acusação alguma.

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Presidenciais (16)

por Pedro Correia, em 05.01.16

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Debate Henrique Neto-Maria de Belém

 

Maria de Belém Roseira saiu ontem do estúdio da RTP com o rótulo de "candidata de facção" que lhe foi colado pelo seu oponente neste debate, Henrique Neto. A partir daí não saiu de posições defensivas, procurando contrariar o que o empresário da Marinha Grande lhe dissera.

"Não consigo compreender como é que alguém que foi durante seis anos ministra do PS e foi até há pouco presidente do PS e foi escolhida por uma facção no interior do PS para se opor ao actual secretário-geral se apresenta ao País como candidata independente." Palavras duras de Neto que molestaram o suave discurso da candidata: Belém terminou o confronto verbal com uma frase irritada, à laia de insinuação: "Eu nunca tive nenhum processo por dívidas ao fisco!"

Maria de Belém voltou a gastar preciosos minutos, na intervenção inicial de ontem, a enumerar o seu currículo. Como se reconhecesse que padece de um défice de notoriedade. O próprio moderador do debate, João Adelino Faria, pediu-lhe que abreviasse - e foi certamente um bom conselho.

Ficou patente neste confronto de opiniões que os dois candidatos têm leituras diferentes do texto constitucional. Neto seria um Presidente com perfil interventivo, que não hesitaria em dissolver o Parlamento. Belém, com reiteradas proclamações de louvor à estabilidade, tem uma perspectiva mais minimalista dos poderes presidenciais, defendendo um Chefe do Estado que zele sobretudo pela "cooperação institucional". Mais próxima da interpretação de Cavaco Silva, portanto.

Não é necessariamente um trunfo eleitoral.

 

Vencedor: Henrique Neto

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Frases do debate:

 

Belém - «Desempenhei inúmeros cargos que me deram um conhecimento profundo do País.»

Neto  - «Eu tenho uma longa história de fazer previsões correctas.»

Belém  - «O Presidente da República deve ser um construtor da estabilidade.»

Neto - «Preocupa-me que a política portuguesa tenha outra ética: não vendamos gato por lebre.»

 

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O melhor:

- O empresário, chamando "candidata de facção" à sua opositora, confinou Maria de Belém a um segmento do PS.

- A ex-ministra da Saúde manteve a calma durante quase todo o debate.

O pior:

- "O PS frequentemente mente aos portugueses." Não parece mas a frase foi proferida por Henrique Neto, militante socialista.

- Maria de Belém perdeu a calma na intervenção final. Lançar insinuações para o ar é uma atitude pouco elegante.

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Presidenciais (15)

por Pedro Correia, em 05.01.16

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Debate Marcelo Rebelo de Sousa-Marisa Matias

 

Marcelo Rebelo de Sousa passou tantos anos a comentar a actualidade política portuguesa que é demasiado fácil desenterrar temas em que possa ter pecado por manifesta contradição. Ontem, no frente-a-frente que o opôs na SIC Notícias, o militante nº 3 do PSD foi vítima enquanto candidato à Presidência da República do seu sucesso enquanto comentador televisivo: Marisa Matias lembrou-lhe que, quando estoirou o caso BES, Marcelo tranquilizou os portugueses na TVI, assegurando que a banca "estava blindada" e manifestando "total confiança no governador do Banco de Portugal".

Pelo segundo debate consecutivo, o ex-deputado constituinte viu-se remetido a posições defensivas, passando grande parte do tempo a justificar declarações proferidas em tempos idos. Fê-lo com o à-vontade que todos lhe reconhecemos mas não totalmente isento de desconforto, assegurando que "naquela ocasião seria uma irresponsabilidade da [sua] parte dizer o contrário do que disse" sobre o Grupo Espírito Santo.

A dirigente bloquista, embalada nas críticas e menos sorridente do que noutros debates, aproveitou para desferir uma estocada ao professor, acusando-o de "ter todas as posições possíveis por cada questão que aparece na sociedade". É talvez a acusação que menos incomoda Marcelo, velha raposa da política. E a prova ficou à vista: minutos depois, estava ele a expressar acordo quanto à posição do primeiro-ministro António Costa sobre o Banif. Em tempo de campanha, não se dispensam votos.

 

Vencedora: Marisa Matias

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Frases do debate:

 

Marisa  - «Nem eu nem o doutor Marcelo Rebelo de Sousa escondemos os nossos apoios partidários.»

Marcelo - «Eu dei liberdade de voto no meu partido [durante a campanha do referendo ao aborto na década de 90].»

Marisa  - «Habituámo-nos a vê-lo como explicador do Governo nos últimos anos.»

Marcelo - «Concordei com a decisão do Tribunal Constitucional [que considerou inconstitucionais os cortes de salários e pensões].»

 

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O melhor:

- Marcelo Rebelo de Sousa adoptou um tom cordato que não perdeu do início ao fim do debate: é patente o seu objectivo de aparentar moderação.

- Marisa Matias falou por muitos portugueses ao contestar a solução encontrada por três governos para enfrentar problemas bancários: "Seis anos, seis bancos - tivemos o dinheiro dos contribuintes enterrado."

O pior:

- A eurodeputada bloquista tem dificuldade em controlar os níveis de ansiedade, mesmo quando os debates lhe correm bem - como foi o caso.

- O ex-presidente do PSD falou já como Chefe do Estado eleito: "Eu não posso ignorar, como Presidente da República, que sou presidente de todos os portugueses."

 

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Presidenciais (14)

por Pedro Correia, em 05.01.16

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Debate Edgar Silva-Sampaio da Nóvoa

 

O candidato apoiado pelo PCP transmite uma sensação de desconforto por usar agora fato e gravata. Falta-lhe espontaneidade e alegria. Disso parece ter-se apercebido Sampaio da Nóvoa no debate que travaram ontem à noite na TVI 24: "Eu já dei quatro voltas a Portugal, faço campanha com enorme alegria."

Ficava marcado algum contraste entre dois candidatos que se equivalem no plano da retórica: ambos recorrem a um prolixo vocabulário para exprimir ideias que talvez fossem emitidas com mais eficácia com menos palavras. Deve reconhecer-se que, à partida, a missão de Nóvoa estava facilitada: competia-lhe não beliscar o eleitorado do PCP, que poderá vir a ser-lhe útil - e esse desígnio foi cumprido. Edgar, pelo seu lado, deixou por esclarecer o motivo que o levou a avançar, já após as legislativas, quando o antigo reitor da Universidade de Lisboa se encontrava há meses no terreno.

Incapaz de estabelecer diferenças de conteúdo face a Sampaio da Nóvoa, o ex-sacerdote madeirense procurou vislumbrá-las numa eventual subalternização das questões do emprego nas propostas do seu opositor. Demonstrou assim não ter lido a carta de princípios de Nóvoa, como este facilmente esclareceu. Mas, talvez por esquecimento, o catedrático omitiu o maior trunfo de que dispõe nesta matéria: o apoio à sua candidatura por parte de Carvalho da Silva, que durante um quarto de século liderou a CGTP. Coube a Paulo Magalhães, moderador do debate, assinalar tal facto.

O jornalista perturbou ainda Edgar com uma pergunta que ameaça tornar-se um clássico: "Considera a Coreia do Norte uma democracia?" O membro do Comité Central do PCP, embaraçado, falou muito mas deixou a pergunta sem resposta. Já vimos este filme em algum lado.

 

Vencedor: Sampaio da Nóvoa

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Frases do debate:

 

Nóvoa - «Esta candidatura nasce da cidadania, sem ter esperado por partidos.»

Edgar  - «O apoio do PCP é um certificado de garantia.»

Nóvoa - «O conhecimento não está só nas universidades: o conhecimento está nas pessoas.»

Edgar  - «A reestruturação da dívida permitiria construir cerca de 30 hospitais em Portugal.»

 

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O melhor:

- Sampaio da Nóvoa promete uma "presidência de proximidade", apelando implicitamente aos portugueses que contribuíram para a eleição de Mário Soares.

- Edgar Silva introduz a poesia na campanha ao invocar a "defesa da nossa casa comum" e sublinhar a necessidade de "ouvir o grito dos pobres e o clamor da terra".

O pior:

- O ex-reitor da Universidade de Lisboa continua a refugiar-se em proclamações genéricas, demonstrando dificuldade em descer ao concreto.

- "Se eu fosse... ou vier a ser Presidente..." Este lapso verbal demonstra que o ex-sacerdote tem pouca fé nas suas possibilidades de vitória.

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Presidenciais (13)

por Pedro Correia, em 04.01.16

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Debate Henrique Neto-Marcelo Rebelo de Sousa

 

Estes debates decidem-se muitas vezes em função das expectativas. Sendo assim, Henrique Neto pode dar-se por satisfeito pela sua prestação no frente-a-frente de ontem na SIC Notícias que marcou a estreia de Marcelo Rebelo de Sousa nesta série de confrontos a dois nos canais informativos.

Marcelo chegou ao estúdio com um sorriso rasgado e terminou o debate quase irritado com as sucessivas farpas que o empresário da Marinha Grande lhe dirigiu. Neto, em constante piscar de olho ao eleitorado de esquerda, deu até a entender que corre a Belém para evitar a eleição do antigo líder do PSD. Jogando ao ataque, acusou-o de trair os amigos, "fabricar factos políticos" e escrever cartas elogiosas a Marcello Caetano antes do 25 de Abril. "Eu vivi a oposição ao antigo regime. Quando estava a apanhar pancada na avenida principal de Aveiro, o senhor professor escrevia uma carta ao então presidente do Conselho a aconselhá-lo a ser mais duro e a dar mais pancada, provavelmente."

Condicionou Marcelo, que recordou ter viabilizado três orçamentos de António Guterres quando Neto era deputado do PS: "O actual Presidente da República e os barões do partido [PSD] estiveram nessa altura contra mim." O professor chegou até a puxar de credenciais antifascistas: "Tive ficha na PIDE e os meus artigos no Expresso eram cortados pela censura."

A diferença entre ambos, acentuou o candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS, "é que o senhor está zangado e eu não: eu acredito nos portugueses". Neto, que começou o debate de cara muito séria, já então se dava ao luxo de sorrir.

 

Vencedor: Henrique Neto

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Frases do debate:

 

Neto  - «Marcelo Rebelo de Sousa é parte do sistema. Mais talvez do que qualquer outra pessoa, teve um poder enorme neste país, que é o poder da televisão.»

Marcelo - «As pessoas conhecem-me. Sou escrutinado há 40 anos.»

Neto  - «Com as suas qualidades e a sua inteligência, o senhor podia ter mudado o destino do País.»

Marcelo - «Votem no candidato Henrique Neto, votem em qualquer um, mas votem.»

 

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O melhor:

- Henrique Neto aproveitou para pescar votos em várias águas. A seu ver, "a televisão fabrica ministros e Presidentes da República que são, na prática, Berlusconis e José Sócrates."

- Posta em causa a sua isenção como comentador televisivo, o ex-presidente do PSD não hesitou em avivar memórias: "Saí de uma televisão por pressão de um governo do meu partido e [noutra ocasião] o líder do meu partido pediu a minha cabeça."

O pior:

- Marcelo exagerou nos elogios iniciais ao seu opositor, na aparente tentativa - afinal frustrada - de lhe amaciar o discurso.

- O empresário esqueceu-se de pôr algum travão na demagogia: "Eu vejo todos os dias pessoas da classe média, de mão estendida, a pedir envergonhadamente ajuda na rua."

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Presidenciais (12)

por Pedro Correia, em 04.01.16

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Debate Maria de Belém-Marisa Matias

 

Pode-se começar um debate a perder ainda antes de o opositor abrir a boca? Pode. Maria de Belém Roseira gastou os quatro minutos iniciais da sua intervenção, no frente-a-frente com Marisa Matias ontem à noite na TVI 24, a enumerar diversos pontos do seu percurso biográfico. Deixando pressupor o reconhecimento de que tem um défice de notoriedade junto dos portugueses. Algo insólito numa pessoa que foi deputada e exerceu duas vezes funções ministeriais, além de ter sido presidente do Partido Socialista.

Bastou à eurodeputada do Bloco de Esquerda uma simples frase de réplica para desmontar a lógica argumentativa da sua oponente: "A candidatura à Presidência da República não deve ser vista como um concurso de antiguidade."

Parece faltar um eixo central às intervenções públicas de Maria de Belém, que insiste em falar do seu currículo à falta de melhor tema. Um aspecto que ainda poderá corrigir em futuras intervenções. Marisa Matias, pelo contrário, vai direita ao assunto. Neste debate deixou bem clara a sua posição relativamente ao caso Banif, com palavras que todos entendem: "Eu jamais assinaria de cruz um orçamento que retira 3 mil milhões de euros aos portugueses, que uma vez mais vão pagar os desvarios do sistema financeiro." Para comunicar bem não é necessário esperar pelos cabelos brancos.

 

Vencedora: Marisa Matias

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Frases do debate:

 

Belém  - «O que me separa de Marisa Matias é, fundamentalmente, a minha experiência de vida.»

Marisa - «Entristece-me ver políticos tão experientes a desistir do seu país.»

Belém  - «Eu sou uma feroz defensora do meu país.»

Marisa - «Temos maneiras diferentes de ver o Estado Social.»

 

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O melhor:

- A eurodeputada bloquista lembrou que o executivo Sócrates - que Maria de Belém apoiou - decretou cortes nos abonos de família.

- Maria de Belém induziu que a sua oponente não conhece suficientemente bem a Constituição ao lembrar-lhe que a lei fundamental "impõe limites aos poderes do Presidente da República".

O pior:

- "Enorme experiência, sensibilidade, dedicação a causas": a ex-ministra da Saúde exagerou no auto-elogio.

- Marisa Matias rejeitou que a Presidência da República seja "uma espécie de prémio de carreira", recusando encarar o óbvio.

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Presidenciais (11)

por Pedro Correia, em 03.01.16

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Debate Edgar Silva-Paulo de Morais

 

À beira do fim do debate, Edgar Silva irritou-se com Paulo de Morais porque o ex-presidente da Câmara do Porto aparentava desconhecer projectos de lei do PCP. Naquele momento, o candidato madeirense que integra o Comité Central comunista pareceu esquecer-se de que estava num debate presidencial, quedando-se na condição de porta-voz do seu partido.

De resto, no frente-a-frente desta noite na RTP3 falou-se de quase tudo menos dos poderes do Chefe do Estado, que será eleito a 24 de Janeiro. Em cima da mesa estiveram temas tão diversos como os subsídios à agricultura, o encerramento de escolas e centros de saúde ou o preço dos manuais escolares. Temas pertinentes mas todos da órbita do Governo. Ora o Presidente, como geralmente se sabe, não governa.

Morais acabou por conduzir também este debate para o terreno que mais lhe interessa: o da corrupção. É um nicho de mercado eleitoral com sucesso garantido e ninguém o sustenta com tanto afinco como ele. Com tiradas demagógicas, naturalmente. Mas a demagogia, até mais ver, não paga imposto. E permite agarrar o auditório. Como nesta pequena história que narrou: "Hoje quem durma em Portugal num hotel de cinco estrelas, no momento em que vai tomar o pequeno-almoço, tem duas hipóteses - ou toma-o no hotel e paga IVA a 6% ou atravessa a rua e vai ao restaurante ou ao café, e paga IVA a 23%."

 

Vencedor: Paulo de Morais

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Frases do debate:

 

Morais - «Sou obcecado pela corrupção.»

Edgar  - «É fundamental combater a promiscuidade entre os negócios e a política.»

Morais - «O Estado português deve cumprir os seus compromissos, gastando menos naquilo em que não deve gastar.»

Edgar  - «O País tem 30% da população na pobreza absoluta.»

 

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O melhor:

- As bicadas de Edgar Silva ao Partido Socialista ajudam provavelmente a cimentar o eleitorado do PCP.

- Paulo de Morais diz o que as pessoas querem ouvir. "O Estado deve ir buscar dinheiro às parcerias público-privadas e pegar nesse dinheiro para aplicar nos hospitais."

O pior:

- Ao fazer uma campanha inteira a clamar contra a corrupção, como faz o ex-braço direito de Rui Rio na Câmara do Porto, corre o risco de banalizar o tema.

- O candidato comunista comparou os atentados terroristas em Paris de 13 de Novembro à "devastação social" em Portugal.

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Presidenciais (10)

por Pedro Correia, em 03.01.16

 

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Debate Edgar Silva-Maria de Belém

 

A boa preparação dos concorrentes faz a diferença nestes debates.

Edgar Silva, o candidato apoiado pelo Partido Comunista, deu ontem à noite provas disso quando acusou a sua oponente, Maria de Belém, de pretender interromper a legislatura, investida nas supostas funções de Chefe do Estado, se Portugal não cumprisse as metas do Tratado Orçamental. Para o efeito socorreu-se de recortes da imprensa, designadamente de declarações da candidata ao Expresso e ao Jornal de Negócios.

Estava o frente-a-frente na SIC Notícias ainda no início e já o ex-padre madeirense marcava pontos neste confronto com a socialista católica que avançou para uma candidatura presidencial sem pedir autorização ao secretário-geral do PS.

Maria de Belém viu-se remetida a posições defensivas, gastando largos minutos a tentar rebater aquelas imputações. Mas as suas explicações exigiam minudências mal apercebidas pelos espectadores. Afinal, como alegou, o que ela punha em causa nessas declarações era o cumprimento dos tratados europeus a que o Estado português se vinculou.

O debate resvalara para o terreno mais propício a Edgar Silva, que acusou Belém de convergência com a Europa da "senhora Merkel" que ele frontalmente repudia. "O senhor quer encostar-me a uma coisa que não é verdade", protestou a oponente. Mas estava já em fase de contenção de danos e quase não houve tempo para mais.

 

Vencedor: Edgar Silva

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Frases do debate:

 

Belém - «O meu programa é a Constituição da República Portuguesa.»

Edgar  - «A minha candidatura é despudoradamente de esquerda.»

Belém - «Eu sou uma construtora do Estado Social.»

Edgar  - «Temos uma situação de terrorismo social que está a devastar vidas.»

 

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O melhor:

- Maria de Belém não deixou de lançar uma farpa ao ausente Sampaio da Nóvoa, seu concorrente mais directo: "Não surgi aqui de repente. Tenho mais de 40 anos de vida pública e de vida política."

- O ex-sacerdote Edgar Silva faz contínuas alusões à pobreza e à exclusão social, o que o tornam simpático aos olhos de alguns eleitores católicos.

O pior:

- A ex-ministra da Saúde jogou à defesa pelo segundo debate consecutivo.

- O candidato do PCP estava nervoso: as mãos tremiam-lhe quando segurava nas fotocópias dos recortes da imprensa.

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Presidenciais (9)

por Pedro Correia, em 03.01.16

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Debate Henrique Neto-Sampaio da Nóvoa

 

António Sampaio da Nóvoa foi surpreendido neste seu segundo debate - travado ontem à noite na RTP3 - pela acutilância de Henrique Neto. São ambos independentes, mas têm estilos antagónicos. Nóvoa gaba-se de ter estado "muitos anos no governo de uma grande universidade pública", Neto orgulha-se de ter sido "trabalhador, operário, empresário e dirigente industrial".

O moderador, José Rodrigues dos Santos, começou por questionar a experiência política de ambos. O ex-reitor da Universidade de Lisboa evocou em sua defesa "uma vida dedicada a um combate permanente pelas liberdades". Descendo ao concreto, Neto acusou o jornalista de estar "mal informado", recordando que militou desde os 14 anos em todos os movimentos de combate ao salazarismo, incluindo o MUD Juvenil e a candidatura de Humberto Delgado. E cedo passou da defesa ao ataque: "Nem os candidatos do sistema nem os de fora do sistema têm a minha experiência política, económica e empresarial."

Durante quase todo o frente-a-frente Neto primou pela contundência face ao opositor: "O meu espanto é que, sendo académico, tenha tão pouco sentido crítico em relação àquilo que o rodeia." Nóvoa, desconfortável no terreno do confronto directo, refugiou-se em fórmulas abstractas, como esta: "A experiência política é a história de uma vida."

Às tantas, desabafou: "Eu não estou para ajustar contas com o passado." Como se tivesse a noção de que o debate não lhe estava a correr bem. E assim era, na verdade.

 

Vencedor: Henrique Neto

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Frases do debate:

 

Nóvoa  - «Precisamos de um país mais preparado e mais capaz.»

Neto - «Os portugueses estão cansados de académicos.»

Nóvoa  - «Não ouvi nada do candidato Henrique Neto sobre nenhuma matéria.»

Neto - «O discurso do senhor candidato [Nóvoa] dá para tudo. Faz um conjunto de afirmações que estão fora da realidade das pessoas.»

 

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O melhor:

- Henrique Neto colocou o opositor em posições defensivas, recorrendo com frequência ao sarcasmo: "O senhor candidato não saiu da universidade."

- Sampaio da Nóvoa ensaiou um discurso unitário de esquerda ao qualificar de desastrosas as políticas de austeridade.

O pior:

- O empresário da Marinha Grande aproveitou o debate para fazer publicidade a dois livros que escreveu.

- O ex-reitor da Universidade de Lisboa foi incapaz de dar réplica eficaz às farpas do seu antagonista, que o fustigou reiteradamente pelo seu alegado "vazio de ideias".

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Presidenciais (8)

por Pedro Correia, em 03.01.16

 

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Debate Marisa Matias-Paulo de Morais

 

O vice-presidente da Associação Transparência e Integridade retomou o discurso já utilizado na véspera, durante o frente-a-frente com a candidata Maria de Belém. Perante Marisa Matias, no debate de ontem à noite na TVI24, Paulo de Morais retomou o tema da corrupção e não tardou a ver que a eurodeputada bloquista concordava com ele em larga escala.

"Tenho o maior respeito pela luta que o dr. Paulo Morais tem travado em relação à corrupção. A corrupção mina a democracia", assentiu Marisa Matias. Baixando a guarda perante um candidato que faz desse tema bandeira única nesta corrida à Presidência da República.

Noutros momentos, enquanto Morais falava a câmara mostrava Matias acenando favoravelmente com a cabeça, Em televisão, a linguagem gestual é uma das formas mais eloquentes de comunicação. O jornalista Paulo Magalhães, que moderava o debate, chegou a ironizar, virando-se para a eurodeputada: "Tem concordado muito com o candidato Paulo Morais."

As advertências de Marisa sobre a necessidade de não fazer acusações generalizadas em temas tão propícios ao pior dos populismos como a corrupção já soaram a tardias. A candidata desperdiçara preciosos minutos em atitude defensiva, justificando perante o interlocutor determinadas posições do seu partido, como se tivesse esquecido por instantes que estamos perante uma campanha presidencial.

 

Vencedor: Paulo de Morais

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Frases do debate:

 

Morais  - «Temos hoje uma dívida pública gigantesca. Muita dessa dívida deve-se a casos de corrupção, que aliás são feitos à vista de toda a gente de forma insultuosa.»

Marisa - «Não tenho nenhuma vergonha do apoio partidário do Bloco de Esquerda.»

Morais  - «Com a minha assinatura jamais se pegaria em dois mil milhões de euros dos contribuintes para os meter num grupo económico, neste caso [Banif] o Santander. Isto é completamente imoral.»

Marisa - «Quando se coloca tudo no saco dos corruptos está-se a fazer um favor aos corruptos. Não é tudo igual, nem todos os partidos são iguais.»

 

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O melhor:

- Paulo Morais voltou a marcar a agenda e o tom de um debate, que correu à medida dos seus desígnios.

- Marisa Matias controlou a expressão gestual, mostrando-se menos ansiosa do que no debate inaugural.

O pior:

- A eurodeputada do BE passou demasiado tempo a defender o seu partido.

- O ex-vice-presidente da Câmara do Porto ameaça tornar-se monotemático: agarrou no tema corrupção e não o larga.

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Presidenciais (7)

por Pedro Correia, em 02.01.16

                                        

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Debate Edgar Silva-Henrique Neto

 

Ignoraram-se durante os primeiros cinco minutos. De tal maneira que Henrique Neto nem emitiu os votos de "boa noite" da praxe. No serão de ontem, na TVI 24, o empresário da Marinha Grande e Edgar Silva, membro do Comité Central do Partido Comunista, deixaram transparecer que não pretendem desperdiçar artilharia verbal um com o outro.

Houve uma convergência entre estes dois candidatos à Presidência da República: ambos querem "aprofundar a democracia" e prometem fazê-lo se chegarem ao Palácio de Belém. Mas o ex-padre madeirense foi muito mais vago nesta matéria. Neto, que já se tinha insurgido contra a "democracia de fachada" e saído em defesa de listas eleitorais abertas para legislativas, perguntou-lhe se defende uma alteração do nosso sistema eleitoral. Edgar rodeou o assunto, evitando pronunciar-se sobre o tema.

Visivelmente pouco habituado a debates televisivos, o candidato apoiado pelo PCP deixou certamente vários telespectadores perplexos ao admitir que, enquanto Presidente, viabilizaria o orçamento rectificativo há dias aprovado na Assembleia da República com os votos contrários do seu partido. Isto apesar de expressar "profundas reservas e discordâncias de todo o tipo" perante este documento. Transmitiu a ideia de que não ajuizaria em função da sua consciência - péssimo cartão de visita para um candidato à chefia do Estado.

 

Vencedor: Henrique Neto

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Frases do debate:

 

Edgar - «O que Portugal menos precisa é de um Presidente da República que esteja vinculado a estas políticas que trouxeram maior empobrecimento.»

Neto  - «Os candidatos que estão ligados a partidos têm sempre a tentação de sofrer as influências desses partidos.»

Edgar - «Mais e melhor democracia é o ideário que se coloca como a grande prioridade para Portugal.»

Neto  - «Não é por acaso que metade da população portuguesa deixou de votar.»

 

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O melhor:

- Edgar Silva enumerou um extenso catálogo dos direitos sociais: é uma das mensagens que o seu eleitorado quer ouvir.

- Para aprofundar a democracia, Henrique Neto defendeu a introdução do voto nominal, questionando o seu opositor sobre este tema. Ficou sem resposta.

O pior:

- A linguagem redonda e muito formatada do candidato comunista, nomeadamente quando alude aos "valores de Abril".

- O empresário é filiado no PS mas diz-se "independente dos partidos".

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Presidenciais (6)

por Pedro Correia, em 02.01.16

 

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Debate Marisa Matias-Sampaio da Nóvoa

Ambos de esquerda, ambos apostados em contribuir para uma segunda volta. Estas são as semelhanças mais notórias. Mas ontem, no debate de estreia da RTP 3 na campanha presidencial, estiveram mais à vista as diferenças entre Marisa Matias e Sampaio da Nóvoa. Com a candidata bloquista a criticar Ramalho Eanes - destacado apoiante de Nóvoa - lembrando que o ex-Presidente contribuiu para a fundação de um partido político a partir de Belém. E o ex-reitor da Universidade de Lisboa a invocar como pergaminhos o facto de ter avançado para a corrida presidencial muito antes da eurodeputada do BE, acusando-a implicitamente de querer transformar este escrutínio numa "segunda volta" das legislativas.

Mas a maior diferença entre ambos surgiu a propósito da intervenção no Banif - tema suscitado pelo moderador, José Rodrigues dos Santos. Com Nóvoa a sustentar a tese do Governo, que a seu ver foi "a solução menos má", e Marisa a contestá-la: "Não é uma boa solução continuar a ir buscar dinheiro aos contribuintes para alimentar a banca."

A dirigente bloquista foi categórica: deveria ter sido retirada a confiança ao governador do Banco de Portugal. Nóvoa, sem descolar do Executivo, garantiu que teria promulgado o orçamento rectificativo que a esquerda à esquerda do PS em uníssono rejeitou. Outros temas poderão granjear-lhe votos: o Banif, pelo contrário, não lhe terá dado nenhum.

 

Vencedora: Marisa Matias

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Frases do debate:

 

Nóvoa  - «A pluralidade é sempre positiva em política.»

Marisa - «Eu não serei a candidata do medo.»

Nóvoa  - «Comigo haverá sempre uma cultura do diálogo e do compromisso.»

Marisa - «Temos de tirar, de uma vez por todas, a Constituição da gaveta.»

 

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O melhor:

- Marisa Matias transpareceu convicção e pôs sempre alguma emoção no discurso.

- O ex-reitor da Universidade de Lisboa lançou uma farpa eficaz à oponente lembrando não ter "esperado pelas legislativas" para avançar com a candidatura.

O pior:

- Sampaio da Nóvoa peca por uma retórica que soa a vazio. Ao dizer frases como esta: "No futuro dos jovens está o futuro de todos nós."

- A linguagem gestual de Marisa Matias traiu algum excesso de ansiedade.

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Presidenciais(5)

por Pedro Correia, em 02.01.16

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Debate Maria de Belém-Paulo de Morais

 

Maria de Belém Roseira perdeu o debate inicial dos candidatos presidenciais, travado ontem à noite, na SIC Notícias. Porque começou à defesa, confrontada com críticas duríssimas do seu antagonista neste frente-a-frente, e não foi capaz de recuperar dessa posição.

Paulo de Morais, o oponente, beneficiou do facto de ter sido o primeiro a falar. Deu o mote ao debate, que durou menos de meia hora no canal de notícias da SIC. Levou portanto a discussão para o campo que lhe interessava - o da necessidade de haver um combate sistemático à corrupção.

Esta é a bandeira do candidato que chegou a ser braço direito de Rui Rio na Câmara Municipal do Porto. E já se percebeu que não abdicará dela durante a curta campanha para as presidenciais do próximo dia 24. Isto dá-lhe popularidade fácil e um nicho de mercado nada desprezível entre os eleitores.

Na sua estratégia de contenção de danos, Maria de Belém entregou ao moderador do debate, Anselmo Crespo, um dossiê que supostamente enumera as suas acções mais relevantes no exercício dos cargos públicos que assumiu até hoje - designadamente quando foi ministra da Saúde num dos executivos de António Guterres.

Não havia necessidade, como diria o Diácono Remédios - e como dirão certamente alguns dos seus assessores.

Porquê?

Porque, com esse gesto, a candidata admitiu implicitamente a vitória de Morais neste debate logo à partida. Não há segundas oportunidades para ter uma primeira opinião. Era Guterres quem o dizia.

Vencedor: Paulo de Morais

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Frases do debate:

 

Morais  - «A classe política, na generalidade, está submetida aos grandes grupos económicos. E os candidatos como Maria de Belém personificam esse facto.»

Belém - «As acusações generalizadas são absolutamente inaceitáveis.»

Morais  - «Os partidos viveram nos últimos anos numa actividade sistémica de corrupção.»

Belém - «Tenho a minha vida claramente ao serviço da luta contra a corrupção.»

 

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O melhor:

- Paulo Morais marcou a agenda neste debate, em que acabou por ditar as regras.

- Maria de Belém, visivelmente incomodada, manteve o tom cordato.

O pior:

- Pretender passar atestados de seriedade aos concorrentes confere uma desnecessária nota de arrogância a Paulo de Morais.

- Maria de Belém não teve tempo de sair da posição defensiva: o debate durou apenas 29 minutos.

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Alarmismos e revanchismos

por João André, em 10.11.15

Quando faço os meus ataques a posições adversárias tento apresentar tanto quanto possível a minha argumentação. Quando não tenho factos concretos, apenas uma sucessão de "impressões" também o direi. Não sou perfeito (longe disso) nem infalível (honra apenas do excelentíssimo presidente). São apenas regras gerais que tento seguir.

 

Gosto por isso de ler quem faz o mesmo. Quem apresenta factos e argumentos e os defende como tal. Gosto por isso de ler determinados autores à esquerda e à direita, os quais apresentam a sua visão dos factos. Posições ideológicas opostas não invalidam esta postura. pelo contrário, clarificam-na.

 

Nas discussões sobre a formação do próximo governo temos visto pouco disso. À esquerda infelizmente sobra o triunfalismo e revanchismo, especialmente do lado da esquerda "mais à esquerda" (a direita chama isso de "extrema esquerda", eu prefiro guardar o epíteto de "extrema" para quem não aceita o jogo democrático). À direita tem-se vincado o alarmismo, uma forma de tentar assustar as massas numa acção de "avec la gauche, le déluge".

 

O Delito de Opinião é um espaço de debate político essencialmente virado para a direita. Nada contra isso. Serei dos poucos que assumem um posicionamento de esquerda ou centro-esquerda dentro do blogue. Ajudo à diversidade e, honra seja feita aos autores que já cá estavam e me acolheram, ao debate de pontos de vista diferentes. Não sou o melhor representante da esquerda, longe disso (nem sequer no blogue), mas vou fazendo o meu melhor seguindo as linhas directrizes que apontei acima.

 

Por isso mesmo não posso deixar de apontar uma falha aqui dentro desta casa neste debate. Por parte de alguns, o debate tem sido extremado com poucas considerações para com os argumentos de outros. Em alguns casos a argumentação pode ser dura, mas existe. Não me reverei nem um grama nas posições, mas consigo compreender os pontos de vista. Noutros casos tenho lido opiniões extremistas e alarmistas, quase a apontar que com um governo PS-PCP-BE Portugal será uma nova Cuba, travestidas de humor (na realidade inexistente, porque forçado).

 

Não é uma tendência necessariamente antiga, mas é algo que espero que volte a desaparecer. O debate esquerda-direita é político e é na política que deve ficar. Tem a ver com objectivos e formas de lá chegar. Tem a ver com valores. Alarmismos pertencem a manifestações e folhas de Excel a (pobres) economistas. Os argumentos devem prevalecer sempre com a perspectiva dos objectivos. A esquerda e a direita poderão não concordar em mais nada, mas se concordarem em tentar compreender os argumentos de ambos os lados a democracia será fortalecida.

 

Não posso com este (ou outros posts) fazer nada pelo debate nacional, mas internamente no blogue e com os comentadores posso fazer esse pedido. Não esqueçamos que os argumentos dos outros lados merecem ser ouvidos. No fundo, a democracia é só isto. O respeito entre maioria e minoria.

 

PS - um mau exemplo de jornalismo de opinião é dado sempre que leio os artigos de João Miguel Tavares no Público. Há dias publicou uma verborreia sobre como a esquerda só quer fazer política e a direita compreende que números são números. Alguém lhe explique para que serve a política, por favor. Hoje leio-lhe a comparação entre António Costa e Salazar. Esta é tão nojenta que não mereceria ser publicada sem levar uma grande ensaboadela de um editor. Melhor serviço tem feito José Vítor Malheiros que, apesar de resvalar ocasionalmente para o triunfalismo, apresenta argumentações. Quem me dera ler no Público de alguém à direita algo de semelhante.

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Há quarenta anos.

por Luís Menezes Leitão, em 06.11.15

 

Faz hoje quarenta anos que ocorreu o célebre debate Soares-Cunhal. O tema na altura, segundo os comunistas, também era saber se o PS se aliava às forças da esquerda revolucionária ou antes à direita reaccionária. Cunhal, durante o debate, bem apelou a Soares para formar governo com o PCP. Este respondeu que, se o fizesse, ganharia seguramente a medalha Lenine, mas o país entraria numa ditadura e de ditaduras já lhe chegava a de Salazar e Caetano. Haverá melhor dia para António Costa anunciar que obteve o acordo com o PCP? Medalha Lenine para António Costa e já.

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Legislativas (13)

por Pedro Correia, em 25.09.15

 

 

DEBATES: O MEU BALANÇO

 

Dos oito debates televisivos, a meu ver, só um terminou empatado. Refiro-me ao debate Catarina Martins-Passos Coelho. Nos outros houve claros vencedores.


António Costa venceu três. Contra PassosCatarina e Jerónimo.

 

Catarina Martins venceu dois. Contra Jerónimo e Portas.

 

Passos Coelho venceu um. Contra Costa.


Paulo Portas venceu um. Contra Heloísa Apolónia.

 

Jerónimo de Sousa não venceu nenhum.

 

Não houve frente-a-frente Jerónimo-Passos. Nem Costa-Portas.

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Derrotado em toda a linha.

por Luís Menezes Leitão, em 17.09.15

O debate de hoje teve um vencedor claro: Passos Coelho. Hoje apresentou-se pela primeira vez em forma, perante um António Costa que se manteve absolutamente igual ao debate anterior. Só que a prestação de António Costa, se lhe permitiu vencer um Passos Coelho apagado, já não lhe evitou uma derrota colossal com Catarina Martins. Era por isso evidente que bastaria Passos Coelho crescer um pouco para António Costa sair derrotado em toda a linha. Foi o que se passou.

 

Passos Coelho começou por corrigir os erros do anterior debate, ao não ter respondido à crítica disparatada do aumento da dívida e ao auto-elogio (falso) da sua redução em Lisboa. Desta vez fê-lo de forma esclarecedora, aproveitando ainda para chamar a atenção para as miríficas promessas que António Costa tinha feito aquando da sua campanha em Lisboa.

 

Passos Coelho percebeu ainda o que já era óbvio depois da entrevista com Vítor Gonçalves e do debate com Catarina Martins: António Costa passa a vida a dizer que tem compromissos escritos no programa, mas não percebe nada do que lá está. A Vítor Gonçalves nada respondeu, tendo tido a atitude ridícula de lhe entregar um resumo do programa e a Catarina Martins limitou-se a repetir as acusações ao corte de pensões da direita, sendo incapaz de explicar os números que constavam do seu programa.

 

Hoje António Costa foi igualmente incapaz de dar explicações sobre o seu programa, dizendo apenas generalidades ou acusando o adversário. Até numa pergunta simples sobre o modelo de escalões que defende para o IRS nada disse, alegando que lhe faltava "informação fina". O quadro de receita fiscal constante do orçamento e os dados da sua execução são por acaso "informação grossa"?

 

Curiosamente a estocada decisiva em António Costa não foi dada por Passos Coelho, embora este a tenha imediatamente cavalgado, mas por Graça Franco. Esta perguntou a António Costa a que prestações da segurança social queria aplicar a condição de recurso, conforme tinha previsto no seu programa. António Costa foi incapaz de dar qualquer resposta e, apesar das insistências da jornalista e de Passos Coelho, limitou-se mais uma vez a papaguear generalidades. Provavelmente bem lhe apeteceria repetir o número que fez com Vítor Gonçalves, mas percebeu que não tinha condições para o fazer.

 

No fim do debate, após um briefing com Mário Centeno, lá foi capaz de responder alguma coisa aos jornalistas. A meu ver, foi pior a emenda do que o soneto, pois a imagem que ficou foi a de um político impreparado, que se limita a debitar um programa elaborado por Mário Centeno, do qual nada percebe, a não ser que o mesmo Centeno lhe explique. António Costa bem pode protestar que isto é um "não caso", que a generalidade dos analistas vê nisto um caso muito sério.

 

Tem sido afirmado que os debates em nada influenciam o resultado eleitoral, a não ser que um dos candidatos cometa uma gaffe monumental. A meu ver foi o que se passou hoje. O que torna imprevisível quem vai vencer as eleições. A partir de agora all bets are over.

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O debate.

por Luís Menezes Leitão, em 10.09.15

Passos Coelho pode orgulhar-se de ter dirigido o governo que conseguiu levar a bom porto o país, depois da situação mais complexa que qualquer governo teve em Portugal desde 1975, em grande parte por culpa do governo anterior. Como primeiro-ministro, revelou-se especialmente em dois momentos extremamente difíceis. O primeiro foi em Julho de 2013, quando segurou o governo, perante a demissão irrevogável do seu parceiro de coligação, Paulo Portas, evitando que a coligação se desfizesse, como sucedeu à AD em 1982 quando Freitas do Amaral tembém decidiu abandonar o barco. O segundo foi em Julho de 2014, quando recusou envolver o dinheiro dos contribuintes no colapso do BES, não repetindo assim o que Sócrates tinha feito com o BPN. Passos Coelho apresenta a seu crédito ter conseguido evitar novos resgates e ter colocado o país novamente a crescer. Por isso, como recentemente escreveu o insuspeito José Silva Pinto neste livro, mesmo que perca as eleições, sairá sempre do governo com a consciência tranquila.

 

O problema é que não se ganham eleições com base nos feitos do governo anterior, e muito menos a referir os deméritos do governo que tinham na altura substituído. Churchill também conseguiu no Reino Unido o enorme feito de vencer uma guerra que no início todos davam como perdida e nas eleições subsequentes foi esmagado pelos trabalhistas. Para ganhar eleições é preciso apresentar um projecto político consistente ao eleitorado e combater eficazmente por ele.

 

A coligação, pelo contrário, convenceu-se de que o balanço que poderia apresentar destes quatro anos chegaria para a vitória e que por isso bastaria aos seus líderes fazerem-se de mortos até às eleições. Diga-se de passagem que até ontem a estratégia parecia resultar, tantos eram os tiros que Costa estava a dar no seu próprio pé. Daí que os debates tenham sido menorizados, não se lhes tendo dado grande importância.

 

Só que a forma como Paulo Portas foi trucidado por Catarina Martins deveria ter feito soar as campainhas de alarme nos partidos da coligação, fazendo prever um combate muito duro com António Costa, no qual Passos Coelho teria que jogar ao ataque. No entanto, este apareceu à defesa, tendo tido muita dificuldade em aparar os golpes do adversário. Nem sequer respondeu a acusações que não tinham qualquer consistência, como a de ter aumentado a dívida. Como é que teria sido possível ela ter sido reduzida depois de o governo anterior ter pedido emprestado 88 mil milhões de euros e continuar todos os anos a existir défice no orçamento do Estado?

 

E deixou passar em claro a afirmação extraordinária de Costa de que tinha vendido terrenos da Câmara de Lisboa e decidido aplicar o montante no pagamento da dívida da autarquia. Como aqui se explica, Costa não vendeu terreno algum, já que eles tinha sido expropriados em 1942. Apenas se limitou a chegar a acordo numa acção que a Câmara tinha instaurado contra o Estado e que não tinha quaisquer garantias de vir a ganhar. E também não decidiu reduzir a dívida com o dinheiro recebido, pois não recebeu dinheiro algum. O acordo no processo foi que o Estado assumiria e passaria a pagar 43% da dívida da Câmara. É espantoso que surjam afirmações deste género num debate e que não surja por parte do adversário uma resposta à altura.

 

Ou os líderes da coligação deixam de fazer de mortos e se preparam a sério para este difícilimo combate ou serão apeados nas próximas eleições sem apelo nem agravo. E quem sofrerá com isso é o país, que passará se calhar a ter o único governo de frente popular da zona euro.

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Diferenças de estilo e não só

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.09.15

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"O dr. Passos Coelho e os seus fiéis julgam que fizeram uma grande obra. Já se esqueceram que a troika os forçou a fazer o que fizeram. Como se esqueceram, com certeza por intervenção do Altíssimo, que não cumpriram o programa (aliás, duvidoso) a que se tinham comprometido. Aumentaram a receita do Estado, sem inteligência ou perícia; e fugiram de reformas substanciais com vigarices, com pretextos e com uma insondável indolência.
Quando o dr. Passos Coelho, lá para Outubro, for delicadamente posto na rua, o Governo seguinte com um bocado de papel e uma caneta arrasará numa hora tudo ou quase tudo o que ele deixou.
Entrou provavelmente na cabeça do primeiro-ministro a ideia perigosa de “deixar um exemplo”. E deixou. Deixou um exemplo de trapalhada, de superficialidade e de ignorância. Ou seja, nada de original."- Vasco Pulido Valente, Público, 24/10/2014

 

O que Vasco Pulido Valente escreveu há quase um ano está actualíssimo depois do debate de ontem. Os comentadores e analistas já decidiram quem ganhou o debate e porquê. Aos pontos ou por "K.O." para o caso é irrelevante, porque a decisão final será tomada em 4 de Outubro pelos que se predispuserem a ir às urnas. Sobre essa estatística não me pronuncio.

Notarei, no entanto, que pela primeira vez se viu uma diferença abissal entre Passos Coelho e António Costa. Refiro-me ao estilo, à  abordagem das questões, na substância e na forma, em especial na clareza. Miguel Relvas dizia depois do debate que Passos Coelho tinha de ser mais agressivo e esta leitura já diz quase tudo. Agressivo? Em quê? Como? Era preciso que Passos Coelho tivesse argumentos.

Da ausência destes resultou a forma como se foi esfarelando sem glória ao longo do debate, o modo como se esgueirava às questões (aliás, habitual nele), querendo a todo o tempo repescar um passado que não contou com António Costa na proa para a sua triste caminhada para o abismo, trocando e rectificando os milhões - cinco milhões eram afinal cinco mil milhões e meio, confusões normais mas que antes serviram para se gozar com Guterres e Centeno -, com Judite de Sousa a insistir para que respondesse, uma, duas vezes, ele dizendo que a resposta era simples mas sem a dar, levando forte e feio por causa das despesas de 2015 continuarem no mesmo nível de 2011, encaixando o crescimento da dívida e a queda do crescimento, completamente aos papéis na acusação de que deixou o país mais endividado do que encontrou e fazendo como seu trunfo o cumprimento de um programa de ajustamento que qualquer outro governo na mesma situação teria cumprido, tal como outros antes dele também cumpriram. Com gráficos ou sem gráficos, na retórica de Passos - sem programa e sem contas, como Costa bem sublinhou - só cabia o discurso gasto, passista e passadista. E é evidente que Costa não poderia deixar passar em branco as suas vitórias eleitorais em Lisboa - é sempre aborrecido recordá-las - ou o programa de incentivos ao retorno para jovens emigrantes, verdadeiro número de ilusionismo político, digno de uma feira para parolos, destinado a abranger 20 pessoas num país que só em 2012 e 2013 viu sair mais de 200.000 pessoas

O erro de Passos Coelho e de quem o aconselhou foi o de pensar que tinha à sua frente para o debate mais um produto formatado numa jotinha, alguém do tipo "Sócrates". Alguém a quem, com a sua verve e a experiência entretanto adquirida, seria fácil cilindrar com meia dúzia de patacoadas e o agitar dos fantasmas do passado. Enganou-se. António Costa é politicamente também o produto de uma jota, mas tem claramente a seu favor muito mais do que isso. Aquilo que Sócrates não tinha, e Passos Coelho também não tem, nem nunca terá, é a consistência curricular, académica e profissional. O que cavou o abismo foi a diferença entre ter uma escola, um passado e uma carreira que são conhecidos de todos, e não ter nada. Foi também a diferença entre depender de si ou depender de uma jota, dos padrinhos no partido, do subsídio de reintegração ou dos amigos para sobreviver, ir enchendo chouriços e se manter à tona da água até chegar a sua hora. Encostado às cordas por Miguel Macedo e a trapalhada dos "vistos gold", a Passos Coelho faltou claramente a muleta de Paulo Portas. Está tudo explicado.  

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Minudências

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.09.15

Por mim, desde que não seja comigo, José Sócrates pode estar onde ele quiser e com quem quiser.

Os portugueses, hoje à noite, só vão querer saber com quem está António Costa, com quem é que conta, para onde quer ir e como.

Se ele conseguir esclarecer isto sem rodeios, de forma clara, separando o trigo do joio e sem gaguejar, prestará um serviço a Portugal e aos portugueses. Depois até poderá aproveitar o que falta da campanha para promover a qualidade das rolhas da indústria corticeira nacional.

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Uma solução

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.08.15

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A desfeita que Marques Mendes e Carlos Abreu Amorim fizeram a Passos Coelho e a Paulo Portas, quando em vez de ficarem calados vieram dar razão às vozes da oposição quanto à decisão de saber quem discute com quem nos debates televisivos para as legislativas de 2015, não devia ter acontecido. António Costa deve-se ter fartado de rir, mas a mim, que já estou com remorsos do que antes escrevi, custa-me ver de fora o líder do CDS-PP.

Num momento crucial do debate político, com tanto para explicar aos portugueses, não seria justo deixá-lo de fora e não lhe dar a oportunidade de apresentar as suas ideias sem estar sujeito à tutela do líder da coligação PSD/CDS-PP e aos amuos dos sindicalistas da oposição. Da feira de Carcavelos à de São Mateus, sem esquecer alguns amigos meus da JC, o Miguel Esteves Cardoso, que disse que ele um dia havia de mandar nesta "merda", uns sportinguistas emigrados na Venezuela, a Beatriz e a Mariana, mais uns poupadinhos do BES que estão cheios de papel e não sabem que fazer com ele, sem falar numa data de chineses das mais diversas proveniências, que me vieram perguntar pelos seus cartões de desconto e lhe mandaram cumprimentos, não há quem não queira ouvi-lo.

Vai daí lembrei-me de uma solução que, assim o espero, poderá colher a compreensão de gregos, de troianos e das televisões, dando a mais gente a oportunidade de ser esclarecida. E a outros de brilharem e apresentarem as suas ideias. O líder do CDS-PP como institucionalista, homem profundamente respeitador das hierarquias e conhecedor, como poucos, digo eu, das regras do protocolo e das listas de precedências, enfim, da necessidade de a cada um se dar o lugar que lhe é devido, sem atropelos e de acordo com as regras, certamente que estará de acordo com a minha proposta.

Não sendo Paulo Portas candidato a primeiro-ministro, aparecendo ele como o número dois da lista da coligação PSD/CDS-PP por Lisboa, a minha proposta passa pela organização de um debate entre todos os números dois das listas apresentadas no círculo de Lisboa pelas forças políticas concorrentes. Um debate genuíno, entre homólogos, todos segundas figuras das respectivas listas, todos em pé de igualdade, sem necessidade de se andar à procura de umas palmilhas mais altas para alguns.

Para todos eles, mesmo para aqueles que não costumam ir à televisão, seria a hipótese de, pelo menos nesse debate, discutirem as propostas que têm para o país fazendo todos figura de número um. E esta, hein? Seria uma oportunidade de ouro para o líder do CDS-PP poder brilhar, cilindrando o Ferro Rodrigues, a Rita Rato, o Pedro Filipe Soares, a Ana Drago, o Fernando Condesso, e todos os outros que certamente não enjeitariam o convite para participar.

Como diria uma nossa conhecida, se fosse viva e a confrontassem com um convite destes, antes número um por um dia do que número dois a vida toda.

Oxalá que as televisões se entendam para todos terem direito ao seu momento de glória.

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Não há volta a dar

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.08.15

O Rui Rocha, com a sua isenção e assertividade, já aqui tinha escrito o essencial, e que embora entrando pelos olhos há ainda quem não queira ver. Ou fazer dos outros parvos.

Se a coligação PSD/CDS-PP não quiser participar nos debates não participa. Será mau para a democracia e o debate, que se espera que ainda venha a haver sobre os assuntos pertinentes que dizem respeito aos portugueses, deixando de fora, o que não será fácil porque lhes está na massa do sangue, as trampolinices eleitorais em que se especializaram. Mas, desta vez, o ponto final é dado por alguém que integra as próprias listas da coligação: “Segundo a lei, as televisões têm de incluir nos debates obrigatoriamente apenas um representante de cada candidatura”.

Se não era isso que queriam pôr na lei, se queriam ter a deputada Heloísa nos debates ao lado do camarada Jerónimo, deviam ter pensado nisso antes e tê-lo dito claramente.

E, já agora, para serem coerentes e consequentes, também podiam esclarecer neste momento o seguinte: se amanhã uma coligação se apresentar a eleições com cinco ou seis partidos, como acontece noutros países europeus, cada um dos partidos que integra a coligação ficará autorizado a enviar o seu representante aos debates, tal como hoje Passos Coelho e Paulo Portas pretendem? A resposta deve ser simples e directa, penso eu.

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Quanto menos debates, menos gosto de ti

por Rui Rocha, em 23.08.15

Vamos cá ver: ninguém obrigou o PSD e o PP a coligarem-se. Agora, se o fizeram, devem assumir as consequências. E essas são basicamente, para não perdermos muito tempo, que Passos Coelho é o líder da proposta política que a PaF, ou lá como se chama, tem para apresentar e que o PP tem uma posição de absoluta subalternidade. Vai daí, o normal é que a PaF, ou lá o que é, seja representada nos debates por Passos Coelho. E ponto final. A recusa de participação em debates em que o PP não esteja representado é, por isso, uma péssima decisão. Como já ninguém acredita que políticos que não conseguem explicar a embrulhada da Tecnoforma e que apresentam Miguel Relvas e Marco António Costa como parceiros de viagem se movam por princípios ou ideais, os eleitores concluirão, naturalmente, que Passos Coelho se move pelo mais puro tacticismo. Que teme, vá la saber-se porquê, que o debate lhe seja desfavorável. É, portanto, e repito, uma péssima decisão. Se debatesse, ganharia ou não. Não debatendo, já perdeu. Discutir, esclarecer, sujeitar-se ao escrutínio e ao contraditório são a essência da democracia. Quem invoca argumentos de secretaria para furtar-se a um debate não pode ter a aprovação daqueles que valorizam a democracia. Aliás, só existiriam vantagens em que Passos Coelho participasse sozinho. Tendo em conta acontecimentos que não estão assim tão distantes, bem poderia suceder que Passos Coelho e Paulo Portas se desentendessem em pleno debate.

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Bah!

por Rui Rocha, em 07.05.15

Ao que parece, Ferro Rodrigues quer desafiar Passos Coelho para um debate com António Costa. O Rodrigo comenta aqui, mas falha o alvo. Na verdade, o debate que todos queremos ver é entre Passos Coelho e Paulo Portas.

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Ética pública 2.0

por João André, em 26.01.15

Este post do Rui lembrou-me uma outra questão que surgiu há uns tempos em Inglaterra. Um jogador de futebol fora condenado a prisão por violação e, após ser libertado condicionalmente, o antigo clube considerou recontratá-lo. Ora, Jessica Ennis, cujo nome adorna uma das bancadas do estádio, avisou que exigiria que o seu nome fosse retirado caso Ched Evans (assim se chama o futebolista) voltasse ao clube. O resultado é que recebeu uma avalanche de insultos e ameaças no twitter. Quando os trolls foram por seu turno condenados - e é aqui que queria chegar - defenderam-se com a "liberdade de expressão".

 

O caso que o Rui invoca é semelhante. Na idade das redes sociais, o insulto e a ameaça - mesmo que vazia - pode ser feito de forma anónima (ou quase), directa e pública. As leis dos vários países contemplam a possibilidade de condenação por injúria, mas a fronteira entre esta e a liberdade de expressão é relativamente ténue (e daí os muitos casos de processos contra jornais). Se quando os media estão envolvidos no assunto há sempre especialistas em liberdade de expressão presentes (juristas, os próprios jornalistas, editores, etc), já no caso das redes sociais isto não é o caso.

 

Infelizmente, apesar de termos presente o conceito básico que desconhecimento de uma lei não pode ser apresentado como defesa, a verdade é que não há uma educação real dos jovens em relação ao que significa liberdade de expressão, liberdade de imprensa, direito à privacidade, direito à honra, etc. A maior parte dos jovens entendem a liberdade de expressão como a liberdade de dizer aquilo que bem lhes apetecer e nem sequer entendem a diferença entre as liberdades de expressão e de imprensa (nem a forma como a imprensa tem certos direitos e deveres naquilo que reporta).

 

Neste mundo digitalizado, 2.0 se quisermos, falta a educação que não o torne num wild west. Não falo necessariamente de regulamentos, esses já existem ao nível civil, mas talvez de uma discussão que permita a sua adequação ao mundo em que vivemos hoje. Não precisamos de alguém que ande a correr a net em busca de trolls, mas se eu quiser atacar alguém, necessito de saber (eu e o meu alvo) quais os limites para o meu ataque. E o meu alvo necessita também de saber quais os mecanismos de defesa à sua disposição.

 

É normal que as revoluções tecnológicas apanhem a sociedade desprevenida. Sempre assim foi e sempre assim será. O necessário é fazer avançar o debate para que esta possa alcançar a tecnologia.

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Espera-se que falem de coisas interessantes que nos dizem respeito

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.01.15

Conf 2301 2015.jpgMeirinho, Espírito Santo, Lisi, logo a abrir.

Depois seguem-se Peter Whiteley (Essex), Emilie van Haute (Bruxelas), Oscar Barbera, Juan Teruel, Astrid Barrio, Patricia Correa (todos de Valência), Joe Saglie (Oslo), sem esquecer João Carlos Correia (Beira Interior), José Fontes (Universidade Aberta), e os imprescindíveis José Adelino Maltez, a jogar em casa (ISCSP/ULisboa), e André Freire (ISCTE-IUL), entre mais alguns que sabem da poda e que em diversos quadrantes se preocupam connosco.

Não custa nada ouvir o que têm para dizer. Se puderem, não faltem.

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A continuidade e a mudança

por Pedro Correia, em 23.09.14

 

1. Foi o terceiro. E o último. E, de longe, o pior debate dos três que opuseram os "candidatos a primeiro-ministro" nas hostes socialistas. Com António José Seguro e António Costa falando grande parte do tempo em simultâneo, em tom exaltado, sobrepondo os discursos. Não sei o que se passou convosco: eu não consegui perceber várias frases que proferiram no estúdio da RTP. João Adelino Faria, o moderador, tinha consciência disso mesmo e tentou aplacar os ânimos. Infelizmente sem sucesso.

2. Custa entender tanta animosidade pessoal num partido onde grande parte dos militantes ainda utiliza o termo "camarada": cada vez mais se conclui que as diferenças entre os candidatos são de estilo, não de fundo. Um aspecto aliás realçado pelo guarda-roupa digno de Dupond & Dupont: apresentaram-se ambos de fato cinzento escuro e gravata vermelha. Com pouca convicção, Costa tentou gracejar a propósito deste assunto, lembrando que partilham o fervor benfiquista. Nos primeiros minutos, ainda trocaram umas amenidades de salão.

3. Mas Seguro não estava para graças. Visivelmente mais tenso, e com uma linguagem corporal muito rígida, o secretário-geral socialista abriu hostilidades, procurando percorrer o trilho do frente-a-frente inaugural, em que saiu vencedor: «Há uma crise no PS provocada pelo António Costa.» Estava dado o mote para o despique verbal que preencheria o resto do debate. Com uma diferença digna de registo: desta vez Costa foi a jogo. Coube até ao autarca de Lisboa a frase mais contundente deste despique travado sob os holofotes da estação pública: «Se tu tivesses tido um décimo da agressividade que tens contra mim na oposição a este governo, este governo já tinha caído.»

4. Ficou a sensação de que Seguro se apercebeu, naquele preciso instante, que se arriscava a perder o confronto -- o que de facto viria a acontecer. Mas teria perdido só à tangente se não tivesse ensaiado então uma fuga para a frente, cometendo o erro de mencionar um episódio dificilmente perceptível pelos telespectadores relacionado com o advogado Nuno Godinho de Matos, apoiante de Costa, na frustrada tentativa de associar o rival a interesses obscuros. Saiu-lhe mal o tiro, que o fez descer ao nível do diz-que-disse próprio das conversas de barbeiro.

5. O autarca exibiu um gráfico de sondagem demonstrando a preferência que lhe dedicarão os eleitores num hipotético confronto eleitoral com Passos Coelho. Seguro contrapôs com o barómetro do Expresso que «dá ao líder do PS maior popularidade» entre os políticos portugueses (assim mesmo, falando de si próprio na terceira pessoa).

6. E lá voltou o jogo do empurra, em versão déjà vu. Seguro: «Tu só vens agora disputar a liderança do PS porque terminou o memorando. Que eu não assinei nem negociei, mas honrei. Mas tu eras o nº 2 dessa direcção que subscreveu esse memorando. Agora é fácil fazer oposição.» Costa: «Agora é que é difícil fazer oposição.» Seguro: «Consegui trazer o PS das derrotas às vitórias.» Costa: «Tu deves estar desde pequenino a sonhar ser secretário-geral do PS.»

7. Houve muito mais palavras do que ideias. Costa não deixou de levitar no reino das abstracções e Seguro agarrou-se à sua proposta de reforma eleitoral em jeito de tábua de salvação quando o País em geral e o PS em particular esperariam dele uma solução luminosa para combater alguma chaga social -- o desemprego, por exemplo. O autarca apressou-se a chamar-lhe «populista», rótulo de que se usa e abusa em Portugal. A verdade é que, em termos concretos, Seguro levou pelo menos esta proposta a debate enquanto o rival ficou em branco.

8. De resto, consonância total num pacote de pias intenções: Portugal precisa de crescimento económico; os funcionários públicos devem recuperar o rendimento perdido; reformados e pensionistas não podem continuar a ser as primeiras vítimas da austeridade. La Palisse certamente concordaria.

9. No apelo final ao voto, sem ironia, o secretário-geral sublinhou que o sufrágio do próximo domingo destinar-se-á a escolher «entre a continuidade e a mudança» no Partido Socialista. Assumindo-se -- sem ironia -- como expoente da mudança. Como se não estivesse há três anos em funções no Largo do Rato. Repto aos eleitores em jeito de quadratura do círculo: mudar para continuar ou continuar para mudar?

10. Do que consegui ouvir, não gostei. E reforço cada vez mais a convicção de que deste confronto intestino resultarão feridas difíceis de sarar no maior partido da oposição, como já aqui escrevi a 7 de Junho, chamando-lhe processo autofágico em curso. Tenho hoje razões ainda mais sólidas para pensar assim.

 

Leitura complementar: A funda e a esfinge; A janela e o cutelo.

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Em tempo oportuno, algumas ideias para discussão

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.09.14

Agora que o processo das primárias do PS se aproxima do seu epílogo, e concretizada que está a inscrição de mais 7000 "simpatizantes", num universo global que atingirá cerca de 250.000 cidadãos, gostaria de aqui deixar algumas palavras antes de serem conhecidos os resultados finais:

1. Tal como muitos outros que se preocupam com o declínio da participação e dos níveis de militância nos partidos políticos, que em meu entender conduzem a uma deslegitimação dos partidos e uma desqualificação da própria democracia, desde há muito que também defendo a abertura dos partidos a não militantes.

2. No entanto, essa abertura deveria ser concretizada em termos suficientemente amplos de maneira a abranger o maior universo possível de cidadãos, mas ao mesmo tempo de modo a que, mantendo-se a separação de estatutos entre militantes e não militantes, não se despromovesse os primeiros em prol dos segundos dentro de uma instituição que daqueles depende.

3. Quanto ao processo em curso devo dizer que o considero incorrecto quer quanto ao tempo e ao modo como foram conduzidos, quer, ainda, quanto às consequências que o mesmo acarretará qualquer que seja o resultado que se venha a registar.

4. Em relação ao tempo, considero que o actual secretário-geral do PS teve três anos para avançar com a sua concretização e regulamentação sem ter tido necessidade de fazê-lo em cima do joelho, mais como reacção, por despeito, à situação desencadeada por António Costa, do que como consequência de uma acção convicta, devidamente maturada e oportunamente preparada.

5. Reprovo, igualmente, a excessiva prolação do processo de inscrição, no que não podia deixar de ser entendido por qualquer observador independente como uma tentativa de melhor controlar o processo de "arregimentação" de "simpatizantes".

6. Registo, ainda, a incapacidade quanto a este processo de um controlo efectivo das inscrições, de maneira a evitar-se que militantes de outros partidos pudessem participar nas primárias, cumulando o seu estatuto de militantes de outras forças com o de "simpatizantes" do PS. O factos dos cadernos serem divulgados não garante a não inscrição de militantes de terceiros partidos, sendo que teriam de ser estes a controlar que os seus próprios militantes não se inscreveriam neste processo das primárias. Trata-se de um controlo que será exercido, se for exercido, por terceiros, externamente, o que para mim é inaceitável.

7. Acrescente-se que a participação dos não militantes e a abertura do partido à sociedade poderia processar-se em termos tais que não fosse a decisão dos "simpatizantes" a impor-se à dos militantes. Pode ser que a vontade de uns e de outros se mostre coincidente, mas se não for, isto é, se a dos "simpatizantes" divergir e se impuser à dos militantes, qual será a consequência disto, como é que estes reagirão e avaliarão o seu estatuto?

8. Tal como defendi em várias reuniões que tiveram lugar no Algarve, numa delas com a presença de Jorge Seguro Sanches, o processo das primárias, desde logo para escolha dos candidatos às câmaras municipais, que a ter tido lugar nos termos por mim defendidos até poderia ter evitado mais uma humilhante derrota para o PS em Faro, entendo que a participação dos não militantes num processo do tipo das primárias não deveria ser decisivo quanto à escolha dos candidatos dos partidos, única forma de proteger o estatuto de militante (dos vivos, é claro).

9. A participação de não militantes num processo de abertura do partido à sociedade deveria ter lugar, primeiro, através da apresentação de um conjunto de nomes por parte do partido - candidatos -, susceptível de incluir militantes e independentes, que depois seria colocado à apreciação dos não militantes e que permitiria uma ordenação das escolhas que resultassem dessa consulta.

10. Aos militantes ficaria depois reservada a decisão final, num processo exclusivamente interno em que participariam os dois ou três nomes mais "votados" pelos não militantes, devendo aqueles decidir qual o nome que o partido deveria então apoiar e propor ao eleitorado.

11. Se fosse escolhido um candidato diferente daquele que tivesse obtido maior número de votos na consulta junto dos não militantes, os militantes assumiriam o risco e a responsabilidade da escolha, cabendo-lhes sempre a última palavra. Assim, tal como o processo está delineado e irá ocorrer, nada garante que não venha a surgir uma cisão entre a vontade do partido e a dos "simpatizantes".

12. Finalmente, lamento que num processo tão participado não tenha sido possível concretizar o voto electrónico, que apesar das críticas é utilizado em países como a Alemanha, o Canadá ou a Austrália, entre nós também por pelo menos um clube desportivo, e que também não seja permitido, nem aos militantes nem aos outros que se inscreveram, votar no local onde estiverem no dia do escrutínio, que poderá não ser o mesmo em que se inscreveram, mediante a apresentação do seu documento de identificação e do cartão de militante. Já nem falo do voto por antecipação. Na era da informática, num país e num partido que até foi responsável pela concretização do passaporte electrónico, do cartão do cidadão e de um Citius que até há pouco funcionava e serviu de exemplo e modelo para outros países, é pena que não se tenha aproveitado esse saber e experiência num processo como o das primárias.

As questões não são tão simples quanto a pressa de colocação no terreno deste processo possa aparentar. Perdeu-se uma boa oportunidade para se criar um processo que pudesse inovar e servir de modelo a outros partidos. Apesar disso, espero que não se perca a hipótese de discuti-lo e de melhorá-lo, levando a discussão sobre matérias que a todos interessam até onde mais gente possa inteirar-se das questões e manifestar-se. Porque esta é uma discussão que diz respeito a todos os partidos e a todos que se preocupam com a saúde da democracia, independentemente dos calendários eleitorais e das regulares lutas de capoeira onde muitos - e não só de Lisboa - ainda se revêem.

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Pois é (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.09.14

Um tipo farta-se de trabalhar, ganha dois congressos, consegue ter o derrotado do último congresso em que houve luta ao seu lado, corre o país, faz trinta por uma linha, e ao fim de três anos é só chatices. Não só não se livrou da "tralha socrática" como agora ainda tem de andar a fugir dela.

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Pois é

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.09.14

Um está à janela do município à espera da oportunidade e os lisboetas dão-lhe 50,91% dos votos. Em reconhecimento do mau trabalho efectuado e da péssima campanha, penso eu. O outro calcorreia o país e em três anos consegue a admiração dos comentadores políticos. Porreiro, pá.

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A janela e o cutelo

por Pedro Correia, em 10.09.14

 

1. O debate desta noite foi bastante diferente do de ontem. António Costa apresentou-se mais enérgico e preparado, abandonou o ar sonolento da véspera. Desta vez destacou-se no campeonato das farpas ao adversário, lançadas a um ritmo regular, com fria premeditação. Revelou perfeita consciência de ter perdido o frente-a-frente anterior e mudou a agulha. Fez bem: assim evitou nova goleada.

2. António José Seguro também mudou de estratégia. Consciente de que a mesma receita não resulta em duas noites consecutivas, evitou levar novamente o debate para o campo dos juízos de carácter do seu antagonista. Fez bem: assim evitou uma medalha adicional no campeonato da lamúria.

3. Hoje houve muito mais equilíbrio sem se perder a acutilância. Neste frente-a-frente da SIC, bem moderado por Clara de Sousa, cada candidato detalhou algumas propostas que tinham sido silenciadas no confronto da TVI. Costa deixou-se de panos quentes e reduziu a escombros a estratégia adoptada pelo PS de Seguro na oposição ao Governo PSD/CDS. Acusando-o, por exemplo, de não ter contribuído para a reforma do mapa administrativo do País: "Tu passaste o tempo a refugiar-te em questões formais, sem tomares uma posição sobre a matéria."

4. Mais contido, o secretário-geral socialista não deixou de dar réplica. E coube-lhe até uma das frases da noite: "Nestes três anos nunca deixei de andar de norte a sul. Não estive à janela do município a ver qual era a minha oportunidade." Costa esteve à beira de perder a fleuma: "Não ofendas os autarcas!" Seguro insistiu: "Eu tenho o maior respeito pelos autarcas. Estava a referir-me a ti."

5. Houve acusações mútuas de colagem ao executivo de Passos Coelho. Costa: "António José Seguro gasta mais energia na oposição aos anteriores governos do PS do que ao actual governo." Seguro: "A tua argumentação é, em parte, a do Governo português: a dívida é um problema mas não o devemos discutir agora. Foi o que fizeste quando apresentaste o teu documento [de candidatura]: sobre a dívida, zero."

6. A moderadora procurou levar a discussão para questões concretas. Nem sempre com êxito. Exemplo: é possível atingir a meta de 2,5% do défice? Nenhum deu uma resposta convincente. Outra: como tencionam financiar as medidas que propõem ("dar força às empresas" e apoiar o empreendedorismo jovem, no caso de Costa; lançar um ambicioso plano de reindustrialização do País, no caso de Seguro)? Idem, aspas. Prioridades em matéria de coligações pós-eleitorais em 2015? Tudo vago e difuso.

7. Num dos seus melhores momentos da noite, o autarca de Lisboa acusou o rival de decalcar as 80 propostas que apresenta aos militantes do programa eleitoral de José Sócrates, em 2009. "Só seis propostas e meia não constavam desse programa", ironizou. Disparando nova farpa: "O António José Seguro gosta muito de excluir o passado porque entende que tudo começou com ele." Réplica imediata do visado: "Eu não enjeito nenhum passado do PS. Mas também não trago nenhum passado de volta."

8. Pelo menos em matéria económica e europeia mostraram convergência. Com Seguro mais explícito na defesa de negociações imediatas com Bruxelas para a redução dos juros da nossa dívida.

9. Por alguns instantes, com o frente-a-frente quase no fim, a conversa voltou a azedar. "O PS não conseguiu dar um sinal de confiança aos 77% [de eleitores] que disseram não ao Governo nas europeias", acusou Costa. "O problema foi a crise que tu provocaste", retorquiu o rival. Mas coube ao autarca a frase mais acutilante, desferida como um cutelo: "Tu não foste capaz." Quatro palavras muito expressivas. Que tinham ficado por dizer na noite anterior.

10. Olharam-se ambos nos olhos quase todo o tempo. Com expressão fria e sem o menor traço de cordialidade, prenunciando tempos difíceis para o PS -- ganhe quem ganhar. Talvez por isso, neste debate que Costa não perdeu, o verdadeiro vencedor tenha sido alguém que não estava lá. Chama-se Pedro Passos Coelho.

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Empate técnico.

por Luís Menezes Leitão, em 10.09.14

 

António Costa julgava que os seus debates com Seguro seriam um passeio, pelo que ontem entrou displicente, tendo saído completamente esmagado. Por esse motivo, hoje percebeu que tinha que entrar ao ataque e foi o que fez, mas nunca conseguiu encostar Seguro às cordas. Costa conseguiu marcar alguns pontos, especialmente quando desvalorizou as propostas de Seguro, mas este deu-lhe o golpe mais forte da noite, quando lhe disse que Costa estava à varanda do município, tendo este ficado sem palavra. Resultado final: um empate técnico, com uma vantagem quase imperceptível para Seguro.

 

Depois da derrota estrondosa no primeiro debate, Costa precisava de ganhar o segundo e não o conseguiu, reforçando a opinião que corre de que todos os dias perde terreno. Pessoalmente acho que Seguro se apresenta nos debates mais bem preparado, sendo confrangedor ver o vazio total do discurso de António Costa. Hoje acrescentou à sua "agenda para a década" a "fisioterapia". Mas penso que os apoios que António Costa tem na comunicação social vão-lhe permitir fazer a quadratura do círculo de ganhar estas primárias, mesmo perdendo todos os debates. O PS é que de debate em debate vai perdendo as próximas eleições. No fim disto, quem vai precisar de "fisioterapia" é o PS, quando António Costa lhe apresentar "uma agenda para a década" de oposição.

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A funda e a esfinge

por Pedro Correia, em 09.09.14

 

1. Percebe-se agora melhor por que motivo António José Seguro queria o maior número de debates possível com o seu concorrente à liderança do PS, enquanto António Costa só aceitou três confrontos televisivos de 35 minutos com extrema relutância: o actual secretário-geral esteve francamente melhor no frente-a-frente de hoje da TVI.

2. Seguro mostrou acutilância, jogando quase sempre ao ataque. Dando voz à expressão popular "quem não se sente não é filho de boa gente". O rival mostrou-se abúlico, sem energia, sem expressão, com o olhar vago. Parecia ansiar pelo fim do debate, moderado por Judite Sousa.

3. Costa, que em Maio saiu a terreiro para disputar uma liderança legitimada pelo voto, tinha a obrigação política e moral de dizer com clareza o que o levou a dar tal passo, fracturando o partido. Desperdiçou uma excelente ocasião de o fazer esta noite com argumentos irrefutáveis.

4. Seguro, bastante mais emotivo, lembrou quatro vezes que o seu rival foi o número 2 da direcção política de José Sócrates. "Eu não negociei nem assinei o memorando, mas honrei-o", acentuou. É bem visível o incómodo do presidente da câmara de Lisboa nesta matéria, por mais que repita que o PS deve assumir o passado: Sócrates deixou uma pesada herança.

5. O autarca alfacinha sentiu um toque íntimo a rebate no rescaldo das autárquicas, daí ter desafiado Seguro a deixar-lhe caminho livre: "Eu trairia a minha consciência se me mantivesse numa posição cómoda." Fundamento frouxo para ter mergulhado o PS na mais séria clivagem de que há memória desde a década de 80.

6. Uma pergunta crucial de Seguro ficou sem resposta: "Porque é que não te candidataste há três anos? Aí é que devias ter sentido um imperativo de consciência."

7. Foi quase confrangedora a passividade de Costa perante um Seguro que lhe lançava palavras duríssimas como se manejasse uma funda. Manteve-se imperturbável enquanto ouvia o secretário-geral chamar-lhe de tudo um pouco: desleal, traidor, irresponsável, ziguezagueante. "Em público dizes uma coisa enquanto no partido dizes outra!" Há esfinges bastante mais expressivas.

8. De questões concretas, a pensar no futuro, falou-se pouco. Mas até neste campo Seguro arriscou um pouco mais, prometendo que se chegar a chefe do Governo baixará o IVA da restauração e não aumentará a carga fiscal. Costa refugiou-se num discurso vago, redondo e monocórdico.

9. Divergências sérias em matéria política? Ninguém se apercebeu disso: todas as diferenças são de estilo ou de retórica. Ambos apoiam a construção europeia, a moeda única, o rigor das finanças públicas, a concertação social, o tratado orçamental, a moderação política, Guterres nas presidenciais. Da reforma do Estado não se falou. Nem do combate ao desemprego. Nem do crescimento económico de que Portugal tanto carece.

10. Seguro lembrou que quando assumiu a liderança do PS, no Verão de 2011, o partido acabara de sofrer uma pesada derrota eleitoral e tinha apenas 18% nas intenções de voto. Desde então foi invertendo esta trajectória. Mas a actual crise interna começa a corroer novamente a popularidade rosa: as mais recentes sondagens, da Pitagórica e da Aximage, indicam que os socialistas caíram oito pontos percentuais em três meses e voltam a colocar o PS e o PSD (sem CDS) num quadro de virtual empate técnico. Isto anda tudo ligado.

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Vitória de Seguro por K.O.

por Luís Menezes Leitão, em 09.09.14

 

 

Com grande surpresa minha, António José Seguro esmagou completamente António Costa. Não apenas pôs a nu todas as suas contradições passadas como também demonstrou que ele não tem qualquer solução concreta para a actual crise no país. António Costa limita-se a papaguear que tem uma agenda para a década, mas não é sequer capaz de responder qual a política fiscal que defende, o que é confrangedor num candidato a primeiro-ministro. Pelo contrário, António José Seguro entrou a matar, acusando o seu adversário de traição, e mostrou-se muito mais bem preparado em todas as questões, encostando sempre o seu adversário às cordas. Acho que os debates não vão alterar a tendência existente a favor de Costa, mas é evidente que Seguro vai vender cara a derrota. Mas, ao contrário do que se pensava, o PSD até pode ficar com a vida mais facilitada com António Costa na liderança do PS do que com António José Seguro. Na verdade, se António Costa é esmagado desta forma por António José Seguro, imagine-se se o seu interlocutor no debate fosse Passos Coelho.

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Civilidade e cidadania

por Helena Sacadura Cabral, em 07.07.14


Os que me conhecem sabem que tenho pouca paciência para querelas partidárias, sejam elas de que natureza forem. Não posso, não consigo. Só tenho uma cabeça e só por ela me guio, embora goste muito de ouvir opiniões diferentes das minhas.

Mudo muito? No básico, bastante pouco. Mas no olhar que lanço sobre o mundo que me rodeia mudo sempre que reconheço aos outros a capacidade de me convencerem. Não tenho qualquer pejo em me declarar errada e dar conta pública disso - se for o caso -, porque duvido que alguém se mantenha inalterável ao longo dos anos.

Mas procuro sempre não qualificar, não apelidar, não fazer juízos de valor sobre o adversário, que tento não considerar um inimigo. Enfim, sou o que se apelida de uma pessoa educada.

Aprendi isto ao longo da vida com a diversidade ideológica que caracterizou sempre a família onde nasci. Do lado materno nove irmãos, do lado paterno doze. Tudo gente que pensava por si e deu exemplo de respeito pelas cabeças dos outros.

Lembrei-me disto a propósito das quatro décadas passadas sobre o 25 de Abril e da actual querela no PS. Muitos já nasceram depois da primeira e o que sabem dela é o que lhes transmitem os seus, o ensino ou a investigação. Os restantes, os que a viveram, continuam, quarenta anos depois, a usar, para qualificar os que não pensam como eles, termos cujo significado já pertence à história da carochinha.

De facto, quem em 1974 tivesse 20 anos, terá agora 60. Haverá alguma lógica em epítetar estas pessoas pelo que eram na sua juventude? Será que em quatro dezenas de anos não teremos todos mudado muitíssimo?

Fico sempre muito impressionada quando leio a opinião de gente que ocupou cargos de responsabilidade, qualificar da forma mais deselegante, quem não pensa do mesmo modo. Mas se alguém quer levar o outro a mudar de opinião, será pela agressão verbal que o conseguirá?

O PS está numa campanha interna que devia ser esclarecedora daquilo que está em causa para o partido e para o país, uma vez que pretende governa-lo. Já estão todos engalfinhados e ninguém percebe onde está a verdadeira diferença entre Costa e Seguro. Talvez, mesmo, só, o estilo de cada um.

Os portugueses podem não ser os mais instruídos da Europa, podem não ser muito politizados, podem até ser instrumento partidário. Mas a maioria deles tem um enorme bom senso e sabe o que quer. Sabe castigar e sabe louvar. Basta que pensemos neles e no país, muito antes de pensar na ambição política. E isto vale tanto para o governo como para a oposição ou para as crises intestinas partidárias.

Por isso, sejam educados, por favor. Dêem um exemplo de civilidade e de cidadania!

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Alguma coisa ficou por dizer

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.06.14

Temos perspectivas diferentes, daí que seja natural que eu normalmente esteja em desacordo com muita coisa do que ele escreve.

Porém, desta vez creio que João Carlos Espada tem razão em quase tudo, em especial quando reconhece que "o debate público – se for feito com elevação, o que infelizmente nem sempre tem sido o caso entre nós – reforçará a autoridade da Constituição e do Tribunal Constitucional".

Para ser consequente - só faltou isso - teria sido interessante que referisse a quem se deve essa falta de elevação do debate e apontasse alguns exemplos concretos que não devem ser seguidos e que espelham, em meu entender, uma tentativa de desvalorização da autoridade da Constituição e do Tribunal. Para que não entre tudo no mesmo saco. O último voto de vencido de Maria Lúcia Amaral deve ser discutido e não cabe no mesmo pacote das declarações de uma senhora vice-presidente do PSD ou no que disse o primeiro-ministro Passos Coelho. O debate tem de fazer-se por inteiro sob pena de se assim não for não valer a pena fazê-lo. Se quisermos ser sérios, penso eu, não podemos discutir o assunto com pruridos ideológicos e punhos de renda para não se ferirem susceptibilidades.

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